Newsletter Julho Agosto 2012

  • View
    218

  • Download
    1

Embed Size (px)

Transcript

  • { }COORDENAO DOENSINO DE PORTUGUSNO REINO UNIDO E ILHAS DO CANAL

    VERO PARA LEREM PORTUGUSSOPHIA DE MELLO BREYNER MIA COUTO ANT-NIO TORRADO RAFFAELLO BERGONSE VERG-LIO FERREIRA HERBERTO HLDER JORGE DE SENA MARIA ONDINA BRAGA JOS LUIS PEIXOTO

    Nmero 7-8, Julho-Agosto de 2012

    foto

    Phi

    l Roe

    der

    http://www.fotopedia.com/items/flickr-4462987607http://www.fotopedia.com/items/flickr-4462987607

  • [CONTOS INFANTIS]O Pescador que Nunca Pescava Nada, 3 O Mercador de Coisa Nenhuma, 7O Anjo de Timor, 10

    [CONTOS JUVENIS]A Adivinha , 13 Uma Esplanada Sobre o Mar, 16Homenagem ao Papagaio Verde, 21

    [CONTOS PARA OS MAIS CRESCIDOS]A Lio de Ingls, 34O quarto, 41A Mulher Que Chorava, 43

    Neste nmero duplo da nossa newsletter, quero oferecer-vos leitura para o Vero, em portugus. Por isso, esta uma edi-o feita exclusivamente de contos.Os dias quentes ainda no chegaram ao Reino Unido, mas a expetativa das frias com a famlia, dos dias que se arrastam sombra dos pinheiros ou sob a brisa do mar, pedem-nos histr ias. Curtas, para as lermos entre um mergulho e ou-tro; interessantes, para no nos deixarem ador-mecer nas horas em que o calor nos castiga; em todas as idades, para

    podermos ouvir as crian-as lerem alto nos mo-mentos de pausa e dei-xarem todos emociona-dos pela voz mais firme, a leitura em portugus cada vez mais segura. Dos lobos bons s con-versas com a av, ou ao segredo terrvel contado beira-mar, todos estes contos so momentos de lazer e de partilha, que nos tiram do quotidiano por momentos, que nos fazem entrar nos mundos inventados das histrias e viver as aventuras com as personagens. Empres-tam-nos as suas dores e as suas alegrias e, quan-do acabamos de ler, j

    mudmos a histria e ela j nos mudou a ns.O tempo de leitura sempre tempo roubado: vida, ao trabalho, tele-viso. E tempo que pode ser part i lhado, quando queremos muito que os nossos ente-que-ridos ouam aquela frase sublime, aquele momento de suspense, aquela his-tria hilariante. L e m o s s o z i n h o s o u acompanhados, mas le-mos em Portugus. Boas frias a todos, cheias de famlia, de gargalhadas, de bolas de berlim com gros de areia e de mui-tas leituras, tudo na nos-sa lngua.

    EDITORIAL

    Vero para ler em portugus

    2

    Regina dos Santos DuarteResponsvel pela Coordenao do EPRUIC

    Esta edio da newsletter est preparada para imprimir no modo booklet.Pode usar como um livro de bolso e levar consigo para ler em qualquer lado.

  • 3

    Alguma vez ouviram falar naquele pescador que nunca pescava nada? Podem encontr-lo todos os dias, l ao fundo do ponto. aquele velhote de rosto enru-gado, sentado num banquinho, com uma cana muito comprida e fininha nas mos, e um balde ao lado. Reparem como ele mal se mexe, com os olhos perdi-dos na gua. Reparem tambm que h sempre um sorriso muito leve nos canti-nhos da sua boca.

    Passou-se uma coisa com ele que gostava de vos contar. H muitos, muitos anos, era ele ainda um jovem, a coisa de que mais gostava na vida era ir pesca. Pescava nos rios e no mar, pescava em riachos e ribeiros, albufeiras, lagos e bar-ragens, pontes e praias. Pescava das rochas, em guas de fundos de areia e de pedra, lmpidas ou turvas. No interessava se chovia ou fazia sol. Sempre que podia, l estava ele com a sua cana. Com um gesto rpido, atirava a linha para a gua, e ficava espera que algum peixe abocanhasse o isco, com os olhinhos fi-xos naquela bia colorida, que andava para cima e para baixo com as ondas.

    S havia um problema: que nunca apanhava nada.

    O material, tinha-o todo.

    Canas e carretos, linhas, bias, chumbadas, anzis e um balde. Tinha galochas e um cesto para o peixe, um chapu para a cabea e um banquinho para se sentar (o banquinho ainda o mesmo). Mas o resultado era sempre igual. Nem um pei-xe mordia o isco.

    Na verdade, nessa altura, houve uma vez, uma s vez, em que apanhou qualquer coisa.

    Foi neste mesmo ponto, numa tarde de sol. De repente a bia desapareceu, e quando ele comeou a puxar a linha, havia qualquer coisa a remexer-se debaixo de gua! Um peixe!, pensava ele, de p, a recolher a linha, com o corao aos saltos, medida que os segundos passavam.

    Da gua saiu ento um pequeno peixinho prateado, retorcendo-se. O pescador olhou para ele de perto. Era um peixinho jovem.

    Era pequeno de mais. Segurando-o cuidadosamente para no o magoar, devol-veu-o gua.

    CONTOS INFANTIS

    O Pescador que Nunca Pescava Nada Raffaello Bergonse

  • 4

    Passaram-se semanas, meses, e nunca mais apanhou nada. s vezes a linha voltava com o isco no anzol. Outras vezes o isco desaparecia, e s voltava o an-zol brilhante a balanar com o vento.

    Quando chegava a casa, desanimado, a mulher dizia-lhe, trocista:

    L foste tu dar de comer aos peixes outra vez. Se juntasses todo o dinheiro que j gastaste em isco para nada, amos os dois comer caldeirada a um restaurante durante uma semana! Ele no ligava.

    Ela no compreendia o que ele sentia quando estava ao p da gua, quando olhava com muita ateno para aquela boiazinha que podia desaparecer a qual-quer momento.

    Ela no compreendia a sensao de estar sozinho em frente quele mar sem fim, que s vezes era azul e transparente, e s vezes sombrio e cheio de segredos, debaixo de um cu de chuva e gaivotas.

    A mulher no compreendia aquela sensao de mistrio que o pescador sentia quando ficava quieto a olhar para a gua, fosse num rio ou no mar, sabendo que a qualquer momento, e podia ser j, algum animal daquelas profundezas misteri-osas podia abocanhar o seu isco e dar um puxo na linha. Ah, como o seu cora-o saltaria quando isso acontecesse!

    Mas os peixes so uns bichos difceis de compreender. Talvez o isco no fosse o melhor. Ou a linha fosse muito grossa, ou o anzol muito grande, ou a bia muito pesada, ou talvez o peixe no tivesse fome. Podia ser que a mar estivesse muito cheia, ou muito vazia, ou o vento estivesse a soprar para o lado errado.

    O importante que ele no desanimava nunca, e quase todos os dias l ia, a se-guir ao trabalho, ou antes do trabalho, conforme lhe dava mais jeito.

    Agora leiam com muita ateno, porque vocs no vo acreditar no que acabou por acontecer.

    Certa madrugada de Outono, l se ouviram no ar as galochas de borracha do nosso amigo. Com passos decididos, como sempre, atravessou o ponto at l ao fundo.

    O mar ondulava ao de leve. Havia massas de nuvens distncia, anunciando al-guma chuvada, l onde a vista mal alcanava.

    O pescador colocou um belo camaro descascado no anzol. Sentiu o vento e o cheiro a maresia. Com um movimento rpido com a cana, fez a bia saltar por

    CONTOS INFANTIS

  • 5

    cima da sua cabea e ir aterrar na gua, l frente. L ficou ela a saltitar para cima e para baixo com as ondas. Passaram-se alguns minutos.

    De repente, a pequena bia desapareceu. Ele olhou com toda a ateno para a gua. Mas l apareceu outra vez.

    E desapareceu de novo!

    Sentiu um terrvel puxo na linha, e outro.

    Alguma coisa tinha mordido o isco!

    O nosso amigo levantou-se, com as pernas a tremer e os olhos esbugalhados. Puxou e puxou a linha, e medida que a linha era recolhida ele conseguia dis-cernir alguma coisa grande e escura quase superfcie da gua. Entretanto, ou-tro pescador que andava ali perto vira tudo e j estava ao p dele, entusiasmado, pronto a ajud-lo a trazer para terra o que quer que fosse que a vinha.

    Era um peixe, enorme e brilhante. Era um robalo.

    Com as guelras a abrir e a fechar, e uns olhos muito abertos que pareciam zan-gados, olhava para os dois homens enquanto se agitava no cho. Tinha um brilho esverdeado, e parecia feito de escamas de prata.

    Eles olhavam para ele, admirados com o seu tamanho e com a sua elegncia. Era quase do tamanho do brao do pescador.

    Agora vou-vos contar um pequeno segredo: este peixe magnfico no era outro seno aquele peixito pequeno que ele apanhara h muitos meses. Desde ento, havia viajado para outras paragens, e alimentara-se nos vastos oceanos. Conhe-cera profundezas que nunca nenhum homem viu. Depois, segundo o seu institu-to, voltara para se alimentar nas nossas costas, e aqui estava ele!

    Nessa noite houve festa l em casa. O peixe deu para a famlia toda e, antes de ser cozinhado, o pescador no deixou de tirar uma fotografia da sua captura. A fotografia amareleceu com o passar dos anos, mas ainda l continua, na parede da sala.

    A maioria das pessoas no acredita que o peixe era o mesmo que ele apanhara antes. O peixe no crescia to rpido, talvez digam, ou Quais so as possibili-dades do mesmo peixe voltar quele local passados tantos meses, e de ser apa-nhado pelo mesmo pescador? Essa histria parece-me um grande disparate!

    Tm razo. No muito provvel. Mas eu sei que era o mesmo peixe. Sabem porqu?

    CONTOS INFANTIS

  • 6

    Quando meu pai apanhou o peixinho, eu estava l. Era apenas um rapazinho, mas lembro-me como se fosse hoje. Olhei para aquele bichinho pequenino na sua mo, e nunca mais me esqueci daqueles olhos, da cor das sua guelras, do formato da sua cauda, das cores das escamas.

    Tambm estava presente quando ele o apanhou de novo. Mal olhei para aqueles olhos escuros uma vez mais, soube que era o mesmo bicho. Podem acreditar ou no, vocs que sabem

    Bem, depois daquele dia, parece que a sorte do meu pai mudou. s vezes pesca alguma coisa, s vezes no. Ao longo destes anos todos j pescou milhares de peixes, de todas espcies que podem imaginar.

    S nunca percebi como durante tanto tempo no apanhou nem um, para depois reencontrar o mesmo que pescara, j crescido.

    um grande mistrio, mas afinal o que a vida seno uma srie de mistrios?

    Agora, que j est reformado, o meu pai senta-se ali no ponto todos os dias com a sua cana.

    Eu segui-lhe as pisadas. Tenho um pequeno barco, e