NORRIS. Epistemologia

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epistemoso

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  • A ttulo de resposta:verdade, conhecimentoe o credo de Rumsfeld

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    Em 12 de fevereiro de 2003, o Secretrio de Defesa dos EUA, DonaldRumsfeld, deu voz a alguns distintos pensamentos filosficos durante uma con-ferncia para a imprensa sobre problemas relacionados ao plano de libertao,ocupao ou invaso do Iraque, a escolha do termo dependendo muito daviso particular que se tenha da questo.1 Mais especificamente, a questo erase a guerra poderia ser justificada ou no com as razes anteriormente alegadaspelos seus protagonistas americano e britnico, ou seja, o to propalado desen-volvimento de armas de destruio em massa pelo Iraque. Na poca em queocorreu essa conferncia, havia sinais de que a administrao dos EUA estavaprevendo certos problemas a esse respeito e preparando uma srie de argumen-tos alternativos a serem apresentadas como justificativa. No entanto, o pro-nunciamento de Rumsfeld conseguiu manter as aparncias ao mesmo tempo emque deixava espao suficiente para voltar atrs, caso a invaso fosse levada adiante,a investigao fosse concluda e as tais armas no se materializassem.

    Assim foi que em resposta a essa situao embaraosa e desafiante Rumsfeld props sua concisa ruminao sobre a verdade, o conhecimento eos seus limites. Relatos que dizem que alguma coisa no aconteceu sosempre interessantes para mim, porque, como ns sabemos, existem conhe-cidos* que so conhecidos; existem coisas que ns sabemos que sabemos.Tambm sabemos que existem conhecidos que so desconhecidos; ou seja,sabemos que existem coisas que no sabemos; mas existem tambm desco-

    * N. de T. Em ingls known knowns. Ou seja, fatos, proposies, etc. conhecidos.

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    nhecidos que so desconhecidos aquilo que ns no sabemos que no sabe-mos. Essa declarao dlfica foi amplamente debatida na poca, mesmo entreos assinantes dos diversos sites filosoficamente orientados da Internet, osquais novamente tenderam a se dividir em diferentes posies politicamentemotivadas. Vrias razes contriburam para que o debate ficasse altamentecarregado, entre as quais o fato de Rumsfeld ser bem conhecido pelo hbitocomplacente de fazer declaraes despretensiosas, embora tortuosas, sobrequalquer tema que despertasse a sua fantasia. Alm disso, sua declaraonessa ocasio havia ganhado o primeiro prmio no Foot in Mouth*, competi-o de linguagem empolada ou seja, de linguagem pomposa, porm confu-sa e obscura promovida pela Society for Plain English** (britnica).2 Esseprmio provocou a ira de comentaristas pr-guerra tais como um escritor doDaily Telegraph (britnico), que publicou sua coluna sob o ttulo RumsfeldTalks Sense, not Gobbledegook*** e fustigou os juzes da competio portentarem impingir opinies politicamente tendenciosas sob o disfarce de umasimples preocupao com os padres corretos do discurso racional-comuni-cativo.3

    Houve ento toda espcie de interesses envolvidos na discusso sobrese Rumsfeld estava de fato troando em seu modo usual e lingisticamentepolmico, ou convertendo os problemas polticos em pretexto para enunciaralgumas verdades filosficas bsicas que precisavam ser urgentemente afir-madas, independentemente das diferenas de ponto de vista. No pretendocomear aqui um novo debate (embora a tentao seja quase irresistvel)sobre quais dessas hipteses estavam mais perto da verdade. Tampouco pre-tendo desenvolver a questo relativa s armas de destruio em massa, cujasingular impalpabilidade data do escrito: 23 de dezembro de 2004 , ape-sar de EUA e Inglaterra alegarem ter obtido provas de sua existncia median-te uma srie de detalhados relatrios da inteligncia, fornece, para dizer omnimo, alguma razo para o ceticismo a esse respeito. (Da a sugesto deum cnico para o qual as iniciais WMD seriam mais adequadamente inter-pretadas como estando por Words of Mass Deception.****) Em vez disso,minha opinio que as observaes de Rumsfeld, deliberadamente ou no,nos conduzem diretamente a alguns problemas centrais do debate epistemo-

    *N. de T. A expresso idiomtica puts ones foot in ones mouth significa cometer uma gafe, dizer acoisa errada, dizer o que no se deve.

    **N. de T. Literalmente, Sociedade para o Claro e Bom Ingls.

    ***N. de T. Traduo livre: Rumsfeld fala com sentido e sem empolao.

    ****N. de T. Trocadilho envolvendo weapons of mass destruction (armas de destruio em massa) ewords of mass deception (palavras de decepo/engano em massa).

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    lgico. Servem tambm para enfatizar que essas questes no constituem odomnio exclusivo dos filsofos que tm um interesse especializado (comfreqncia, altamente tcnicos) em diversos debates sobre verdade, conheci-mento e crena. Assim, como a pequena homilia de Rumsfeld deixa claro,essas so questes que muitas vezes podem ter uma estreita relao com aconduta, no somente aquela relativa a nossa vida intelectual como estudan-tes de filosofia, mas, tambm, a de nossas vidas moral e poltica como pessoascujo juzo ponderado sobre questes como a suposta justificao para a inva-so do Iraque deve sempre envolver a tentativa de distinguir a verdade dafalsidade, ou o conhecimento da ignorncia.

    Portanto, a primeira proposio de Rumsfeld segundo a qual existemconhecidos que so conhecidos, ou coisas que ns sabemos que sabemos uma declarao de que a maior parte das pessoas provavelmente aceitaria,muito embora algumas delas (especialmente os filsofos) desejassem fazeruma ou duas ressalvas. Afinal de contas, a histria da cincia apresenta inme-ros exemplos de crenas que, em tempos passados, gozaram de amplo crditoentre aqueles que eram considerados os mais aptos a julgar, e que, no entanto,posteriormente se revelaram falsas, ou, em todo caso, tiveram somente umdomnio limitado (por exemplo, espao-temporalmente restrito) de aplica-es. Alm disso, esse carter transitrio no atinge apenas as crenas empricas,ou seja, crenas baseadas na observao e que esto sempre sujeitas refuta-o (igualmente emprica) futura, mas, tambm, supostamente, as verdades apriori como as verdades da geometria euclidiana segundo a maioria dos fil-sofos at (e incluindo) Kant as quais foram concebidas de modo a obter umaespcie de conjuno entre necessidade intuitiva e necessidade lgica comple-tamente independente de qualquer suposta evidncia a favor ou contra. Taisforam outrora os conhecidos que eram conhecidos ou as coisas que ns saba-mos que sabamos, mas que, posteriormente, provaram-se tanto falsas quan-to verdadeiras somente em relao a um certo quadro conceitual de refernci-as (por exemplo, o euclidiano). Ou seja, surgiram outras geometrias, que di-vergiram da de Euclides com respeito a um axioma fundamental posto demaneira simples, o axioma que afirma a impossibilidade de linhas paralelas seencontrarem ou divergirem em algum ponto de sua trajetria infinita , o que,no entanto, revelou-se pela primeira vez logicamente concebvel, tornando,ento (com o advento da teoria da relatividade de Einstein e do conceito decurvatura do espao-tempo), essas outras, novas geometrias, modelos poss-veis para uma melhor descrio da realidade fsica.4 Da o difundido debatesobre a existncia ou no de quaisquer proposies que possam ser corretamenteconsideradas sintticas a priori, no sentido kantiano do termo, ou seja, pro-posies que so auto-evidentes para a razo, embora estejam tambm

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    conectadas a um objeto de conhecimento que pertence ao mundo fsico ou experincia que temos dele. Alguns estenderiam essa dvida at mesmo salegaes de verdade a priori de qualquer tipo, ou a reduziriam gradualmente aum ponto de autoconfirmao puramente lgica (e trivial) em que somenteum candidato sobrevive, a saber, a sentena Nenhuma proposio ao mes-mo tempo verdadeira e falsa.5 No entanto, tais formas extremas de ceticismo parte, claramente o caso que uma grande parte do que outrora passou porconhecimento no mais desfruta de qualquer direito a essa descrio,exatamente como podemos seguramente inferir uma grande parte do queatualmente pensamos ou acreditamos saber ser progressivamente provado serfalso ou infundado.

    Esse ponto da doutrinao de Rumsfeld precisa, ento, ser corrigido demodo a acomodar a distino entre, de um lado, saber = crer, sem questio-nar o melhor do nosso conhecimento ou das nossas capacidades de compre-enso racional, e, de outro, saber = crer correta e justificadamente combase nos melhores e mais confiveis meios de obteno da verdade. Emoutras palavras, trata-se da diferena crucial entre conhecimento como esta-do mental psicolgico auto-imputado na primeira pessoa (Eu simplesmen-te sei que isto ou aquilo o caso) e conhecimento como um termo que seaplica propriamente apenas quele subconjunto de crenas que satisfazem oduplo requisito da verdade e da garantia epistmica ou justificatria. De ou-tro modo, no haveria nada de estranho tanto semntica quanto filosofica-mente dbio em dizer que Ptolomeu sabia que o Sol girava em torno daTerra, ou que Priestley sabia que a combusto envolvia a emisso de flogisto,ou que Kant sabia que a geometria euclidiana e a fsica newtoniana do espa-o e do tempo eram vlidas a priori para todos os propsitos matemticos ecientficos. Ou, ainda, no surgiria nenhuma questo sobre o uso apropriadode saber na sentena Tony Blair sabia que o Iraque possua armas de destrui-o em massa* no momento em que levava o pas guerra, muito embora como parece claro agora no houvesse qualquer evidncia contundente dis-so e suas declaraes a esse respeito fossem tanto mentirosas e mal-informa-das quanto o resultado de uma propenso ao auto-engano. No entanto, emcada um desses exemplos h algo errado epistemologicamente confuso ,algo que est associado ao fracasso em distinguir, de um lado, casos nosquais se pode dizer propriamente que algum sabe isto ou aquilo e, de outro,casos em que o pretendido conhecimento no passa de afirmao precipita-da, convico passional ou crena profundamente arraigada.

    *N. de T. Doravante assinalado como ADMs.

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