Notas e comentários sobre a dinâmica do comércio Brasil ... ?· multipolaridade na área econômico-industrial.…

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NOTAS E COMENTRIOS SOBRE A DINMICA DO COMRCIO BRASIL-FRICA... 113

Notas e comentrios sobre adinmica do comrcio Brasil-fricanas dcadas de 1970 a 19901

IVO DE SANTANA*

As relaes econmicas do Brasil com a frica no so recentes. Aocontrrio, datam dos primrdios da formao do Estado brasileiro, e seudesenvolvimento marcado por perodos de descontinuada intensidade. Suaimportncia, contudo, relevante para a histria do pas, sendo ressaltada pordiversos estudiosos que enfatizam o papel fundamental desempenhado por essasrelaes na formao da sociedade e economia do Brasil.

Este artigo tem como propsito discorrer sobre a presena empresarialbrasileira na frica entre as dcadas de 1970 e 1990, enfocando particularmenteas vises de diversos autores que se voltaram ao estudo das relaes entre oBrasil e frica entre as dcadas mencionadas, um perodo de grandestransformaes no desenvolvimento desse intercmbio e, portanto, rico emacontecimentos e experincias. Trata-se, sobretudo, da tentativa do autor emesclarecer indagaes pessoais advindas do seu exerccio profissional, enquantoservidor pblico de instituio voltada ao acompanhamento das atividades decomrcio exterior. Nesse sentido, o presente texto objetiva responder a duas dessasquestes. Primeiramente: sob que motivaes o comrcio Brasil-frica obteveum notvel crescimento no perodo compreendido entre os anos 1970 a 1990? Emsegundo lugar: quais as perspectivas que se apresentariam para o empresriobrasileiro que desejasse efetuar negcios junto ao mercado africano?

No aprofundamento dessas questes empregou-se como recurso a pesquisabibliogrfica junto a universidades e instituies oficiais brasileiras voltadas para ocomrcio exterior2. Alm disso, foram de importante significado os depoimentoscolhidos junto a executivos envolvidos em operaes comerciais no mercadoafricano e especialistas em comrcio exterior.

De imediato, constatou-se que abordar temas que envolvem as relaescomerciais entre o Brasil e a frica tarefa complexa, considerando-se que noso apenas os Estados que esto em causa, mas tambm os povos e os interesses

Rev. Bras. Polt. Int. 46 (2): 113-137 [2003]* Analista do Banco Central do Brasil e mestre em Administrao e Comrcio Internacional pelaUniversidad de Extremadura, Espanha. E-mail: ivo.santana@bcb.gov.br.

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dos agentes econmicos, determinando circunstncias histricas e tambmmomentos distintos. Esse parece ser o entendimento de Renouvin (citado porAlmeida, 1998, p. 22) ao afirmar que estudar as influncias que se exercemsobre as relaes internacionais deixando de lado o conjunto de circunstncias deum momento ou de uma poca seria falsear a perspectiva histrica. Dessa forma,perseguindo uma viso mais ampla das relaes econmicas Brasil-frica acredita-se ser oportuno tecer algumas consideraes acerca de fatores polticos eeconmicos que influenciaram o comportamento empresarial brasileiro nas suasrelaes com o continente africano desde 1961, ano que representa um referencialimportante na reaproximao do pas ao continente africano.

A estratgia da substituio de importaes e as relaes Sul-Sul

Ao investigarmos sobre o desenvolvimento de negcios brasileiros nomercado africano, norteamo-nos pela anlise do processo de desenvolvimentoeconmico brasileiro, particularmente a estratgia de substituio de importaes,que elegeu a industrializao como elemento-chave para o desenvolvimento einseriu o pas, de forma singular, no contexto das novas relaes com o TerceiroMundo. Trata-se das relaes Sul-Sul, no mbito das quais se incentiva oincremento das trocas entre os pases em desenvolvimento, e a partir do qual africa se torna parceira de grande importncia para o Brasil.

Assim, partimos da compreenso de que at os anos 1950 a economiabrasileira era essencialmente agrria e voltada para a exportao de produtosprimrios, explorando vantagens comparativas em termos de recursos naturais ede mo-de-obra. Essa condio, segundo os pensadores da Comisso Econmicade Planejamento para a Amrica Latina (Cepal)3, configurava um atraso que erapreciso romper para se conseguir avanar rumo ao desenvolvimento. De acordocom esse pensamento, sistematizado em obras de Raul Prebisch, Osvaldo Sunkel,Celso Furtado e outros, a reverso desse atraso seria obtida pela afirmao daindustrializao como elemento aglutinador e articulador do desenvolvimento, doprogresso, da modernidade, da civilizao e da democracia poltica.

Ao longo desses anos, principalmente aps a Segunda Guerra Mundial, opas procurou modificar essa situao e, apoiado nas recomendaes da Cepal,deu incio ao processo de desenvolvimento da indstria nacional. Mediante ainterveno estatal (polticas industrial, comercial e macroeconmica), adotou-seum modelo de desenvolvimento cuja estratgia principal consistia em promover aindustrializao, visando substituir grande parte dos produtos importados porprodutos fabricados no Pas. A adoo dessa estratgia garantiu ao Brasil longosperodos de crescimento elevado, mudando substancialmente o seu padro decomrcio. De economia primrio-exportadora, o Brasil se tornou importanteexportador de produtos manufaturados, no somente em termos regionais, mas

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igualmente em mbito mundial. Essa mudana se deu de forma gradual, comeandopela eliminao dos bens de consumo no-durveis4 da agenda de exportaes(Pinheiro & Moreira, 1997).

A substituio de importaes avanou, alcanando os bens de consumodurveis, com nfase nos automveis. Os bens intermedirios foram tambmafetados e, numa ltima etapa, na dcada de 1960, teve incio a substituio dosbens de capital5. A partir dessa fase, o pas experimenta um elevado crescimentoindustrial, que passou a exigir um mercado de amplas dimenses para asseguraros benefcios da escala de produo. Mas a crescente inflao dos anos 1960deteriorou o poder de compra da classe assalariada. Aliada a isso, ocorre umaqueda no volume de emprego, ocasionando substancial reduo no volume dedemanda interna. Aumenta desse modo a capacidade ociosa da maioria dos setores,tanto quanto a acumulao de estoques invendveis, o que vai levar procura pormercados externos como meio de permitir s empresas desfazer-se de parte dessesestoques.

Com a adoo do Paeg (Plano de Ao Econmica do Governo) em1967, o Governo Costa e Silva inicia um processo que tem como objetivo bsico odesenvolvimento econmico e social do pas, passando a executar uma poltica defacilitao das exportaes por meio do estabelecimento de isenes fiscais e daabertura de linhas de crdito. Em 1968, essa poltica continua, acrescida daminidesvalorizao do cmbio (Alves, Sayad, 1987).

Esse era o quadro brasileiro quando a economia mundial entrou em crise,ao final dos anos 1960. Os pases industrializados registram os primeiros sinais dedesacelerao6 e passam a impor fortes restries s exportaes do TerceiroMundo, levando a srios impasses na conduo do dilogo entre as naes doNorte, industrializadas, e do Sul, em desenvolvimento (Cunha, 1991). Nessaconjuntura, a rgida bipolaridade do ps-guerra substituda por certa flexibilidadenos vnculos interestatais e, apesar de os centros de poder estarem quaseexclusivamente no Norte, essa flexibilidade permite o surgimento de umamultipolaridade na rea econmico-industrial. Os pases do Sul adquirem grandeimportncia como produtores de matrias-primas, como o petrleo, e passam areivindicar a reforma do sistema econmico mundial como meio de atenuar asituao cada vez mais crtica em que se encontravam.

Frente falta de solues satisfatrias e tambm paralelamente a essasreivindicaes, fortalece-se no Terceiro Mundo a idia de que os problemas dedesenvolvimento no seriam solucionados exclusivamente com a ajuda dos pasesdesenvolvidos. Inicia-se ento um movimento de valorizao da cooperaohorizontal, em nvel regional e intra-regional, entre os pases do Sul. Tratava-se deum movimento que buscava dar nfase ao esforo prprio e colaborao recprocaentre os pases do Sul. Estimava-se que uma ao conjunta pudesse aumentar opoder de negociao das naes em desenvolvimento frente aos pases

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industrializados (Perona, 1985). Essa percepo encontra uma quase unanimidadeno seio do Terceiro Mundo, como atestam as numerosas confernciasinternacionais realizadas sobre o assunto aps a VI Sesso Extraordinria daAssemblia das Naes Unidas, em 1972, que pleiteava a instaurao de umanova ordem econmica mundial.

A premissa bsica partia da considerao de que, num sistema de sujeioglobal controlado pelas naes desenvolvidas, o reforo dos laos econmicosentre os pases do Sul se constituiria em elemento fundamental da estratgia dedesenvolvimento do Terceiro Mundo, sendo necessrio criarem-se condies parao estabelecimento de novas relaes de fora em nvel internacional. Conhecidasna literatura econmica como relaes Sul-Sul, estas iriam converter-se no apenasem fonte de interdependncia como tambm em instrumento de presso, no quadroda reestruturao da economia mundial, e ainda em via de transferncia de riquezaentre os pases do Terceiro Mundo.

O movimento Sul-Sul se propaga. Interliga-se com o Movimento dos No-Alinhados7, com o Grupo dos 77 e com a Organizao dos Pases Exportadoresde Petrleo (Opep), que apiam essa nova estratgia de esforo coletivo parareduzir a influncia das grandes potncias no sistema internacional (Ogwu, 1976).Com o crescimento dessa tendncia, chegou-se a propor o estabelecimento deuma associao Sul-Sul de Estados em via de desenvolvimento (Duarte, 1984).

Para dAdesky (1985), esse movimento engendra duas concepes. Aprimeira, em sentido amplo, refere-se ao sistema de trocas dependentes entre oNorte e o Sul, cuja estrutura fixa o alvo das crticas dos pases em desenvolvimentonas negociaes internacionais. A segunda, em nvel especfico, ocupa-se dasrelaes particulares entre pases do Terceiro Mundo, no propsito de que osesforos coletivos possam redundar em um desenvo