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O desvanecer das trevas alister mcgrath

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    Sobre a obra:

    A presente obra disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros,com o objetivo de oferecer contedo para uso parcial em pesquisas e estudosacadmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fimexclusivo de compra futura.

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    Sobre ns:

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    "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutandopor dinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo

    nvel."

  • Originally published in the USA under the title: Darkness shall fallCopyright 2011 by Alister McGrathIllustrations copy right 2011 by Wojciech Nowakowski, Bartosz Nowakowskiand Marta NowakowskaPublished by permission of Zondervan, Grand Rapids, Michigan.www.zondervan.com.All rights reserved.Portuguese edition 2014 by Editora Hagnos Ltda TraduoNeyd Siqueira RevisoJoo GuimaresRaquel Fleischner Adaptao projeto grfico capaMaquinaria Studio DiagramaoCatia Soderi EditorJuan Carlos Martinez 1a edio - Setembro de 2014 Coordenador de produoMauro W. Terrengui Produo de ebookFS eBooks E-ISBN: 978-85-243-0482-8ISBN: 978-85-243-0444-6 Todos os direitos reservados para:

  • Editora HagnosAv. Jacinto Jlio, 2704815-160 - So Paulo - SPTel: (11) 5668 [email protected]

    Dados Internacionais deCatalogao na Publicao (CIP)(Cmara Brasileira do Livro, SP,

    Brasil)

    McGrath, Alister E.As crnicas de Aedyn : odesvanecer das trevas /traduo Neyd Siqueira.-- 1. ed. -- So Paulo : EditoraHagnos, 2014.2Mb ; ePUB Ttulo original: The Aedyn

  • Ttulo original: The Aedynchronicles - darkness shall fall ISBN 978-85-243-0482-8 1. Fico inglesa I. Ttulo. 13-06841 CDD-823

    ndices para catlogo sistemtico:1. Fico : Literatura inglesa 823

  • Sumrio

    Captulo 1Captulo 2Captulo 3Captulo 4Captulo 5Captulo 6Captulo 7Captulo 8Captulo 9Captulo 10Captulo 11Captulo 12Captulo 13Captulo 14Captulo 15Captulo 16

  • -ACaptulo

    1t onde ela ir? perguntou Gregrio.

    Pedro Grant no tirou os olhos da monstruosa nuvem escura saindo dovulco na ilha de Khemia.

    No sei respondeu Pedro. Talvez v cobrir todo o cu.Os dois amigos se encontravam em uma pequena elevao na floresta,

    olhando para o vulco, por entre as rvores, atravs da ilha.Um brilho laranja intenso marcava sua boca, de onde a lava ainda escorria

    em um fluxo lento, torrencial. Acima do vulco, a nvoa da escurido queavanava era evidente, mesmo luz da lua, como um borro de tintaestendendo-se pelo cu noturno.

    Os cientistas acreditam que uma nuvem como essa liquidou os dinossauros falou Pedro, com os olhos magnetizados pelo crescente nevoeiro de cinzas quesubia do vulco.

    S que no era de um vulco, mas de um pesado asteroide que atingiu ooceano bem prximo da pennsula de Iucatan, h 65 milhes de anos. Gregrio,voc est me ouvindo?

    O olhar de Gregrio, porm, estava voltado para o cho, onde procuravaalguma coisa.

    Estou tentando no ouvi-lo respondeu ele.Pedro desceu do monte e foi ajudar Gregrio em sua busca no cho da

    floresta. Voc deveria ouvir. A cincia que nos separa dos mamferos inferiores. Espero que eu seja o nico a escutar voc retrucou Gregrio. Fale em

    voz baixa. Est bem sussurrou Pedro, examinando a floresta enluarada como se um

    Gulnog pudesse atac-los a qualquer momento. Esqueci-me.Antes de sua sada de Londres para o misterioso mundo de Aedy n e a ilha de

    Khemia, ele nunca tivera necessidade de preocupar-se com essas coisas.Gregrio apontou. Ali!Pedro abaixou-se. Est vendo algum?No escuro, o contorno do brao de Gregrio mal aparecia. Pelo menos um disse ele. O rapaz avanou e ajoelhou-se ao lado de algo

    na grama.

  • O corao de Pedro bateu forte em seu peito. Um Gulnog? Aqui? Antes que Pedro tivesse tempo para reagir, Gregrio

    puxou seu canivete e golpeou a terra. Pedro quase riu de alegria. No era umadaquelas criaturas terrveis de dois metros de altura, prontas para arrancar seusmembros. Gregrio encontrara um fungo. Fungos.

    Cogumelos, para ser exato. Traga sua mochila. Gregrio cortou os cogumelos com o canivete e

    colocou-os na sacola de lona de Pedro. Ele limpou o canivete e devolveu-o bainha de couro em sua cintura.

    Quantos, Gregrio? Pedro continuava assustado e manteve ento a vozbaixa ao falar com o companheiro.

    Doze.Os ombros de Pedro caram um pouco. Est bem disse ele. Vamos procurar os outros. Quem sabe tiveram

    melhor sorte.Eles se levantaram e voltaram pelo mesmo caminho que os levara ali.

    Conheciam aquelas florestas sabiam como atravess-las sem serem ouvidos.Sabiam mover-se nas sombras, escorregando entre os ramos das rvores comofantasmas. Sabiam onde pisar e onde um p mal colocado poderia sugar umhomem para um lamaal oculto. Eles haviam vagado por aquela floresta todas asnoites durante dois meses.

    A sombra a nuvem do vulco se ampliava a cada noite, quase alcanandoo horizonte, escurecendo e se adensando mais e mais. Mesmo luz do dia elaescondia o sol, deixando a paisagem cinzenta e triste. No que a tivessem vistodurante o dia ultimamente. Fazia semanas que no saam enquanto haviaclaridade.

    O som de um galho quebrado fez Gregrio estender o brao, detendo Pedro.Eles esperaram, tentando no respirar. Pedro orou para que o vento estivessefavorvel em relao a qualquer coisa que pudesse descobri-los.

    Outro som e mais outro. Alguma coisa se encontrava ali e estava seaproximando deles.

    A apenas alguns passos de Pedro havia uma grande rvore, seu tronco erato grosso que ele e Gregrio no teriam podido abra-lo. Pedro agachou-se,enrolando-se como uma bola, aninhando-se entre duas das enormes razes darvore. Embora Gregrio no fizesse nenhum barulho, Pedro viu que ele fizera omesmo.

  • Esperaram ali, Pedro mal respirava, querendo que seu corao parasse debater, mas os passos se aproximavam.

    Quem ou o que era movia-se lentamente devagar demais para algo queestivesse apenas passando por ali. Deveria estar procurando alguma coisa. Oualgum.

    Pedro arriscou-se a espiar. Ali, no mais do que a 2,40m do lugar em que seachavam, uma criatura das Sombras ergueu a cabea e aspirou o ar viciado dafloresta. Ficou escuta, fungando, sorvendo o cheiro de homem. Com verdadeirohorror invadindo seu estmago, Pedro compreendeu a verdade: era um Gulnoge ele sabia que se encontravam ali.

    Nos meses terrveis desde que chegara a Khemia, Pedro comeara a temercada vez mais aqueles monstros. Eles gostavam do ar viciado, pungente do lugar,se fortalecendo medida que o tempo passava. Os Gulnog eram monstros sadosde algum pesadelo sua pele marcada por verges e cicatrizes, os membrosfortes do tamanho de arbustos. Pedro pensava s vezes que eles at pareciamvelhas rvores nodosas.

  • Os Gulnog eram a razo daquelas incurses noturnas. Pedro e um pequenogrupo de homens saam todas as noites, procurando alimento e gua limpa paraos que haviam sobrevivido exploso do vulco. Nenhum dos refugiados jamaisesqueceu de que a nica razo para continuarem vivos era o fato de os Gulnogno terem ainda descoberto o seu esconderijo.

    Os monstros, no entanto, sabiam que eles continuavam na ilha sabiam quealguns deles tinham sobrevivido erupo e por isso os procuravam.

    Pedro tentou diminuir de tamanho ao voltar para as razes da rvore. A cascaspera machucava sua pele. Era sempre assim quando os Gulnog se achavampor perto sempre este medo paralisante.

    Pedro contemplou com horror a cabea do monstro voltar-se na direodeles. Os lbios do Gulnog se curvaram em um rosnado ao avanar na sua

  • direo. Que o cu os ajudasse: o monstro sentira o cheiro deles. Ia peg-los.Deviam ficar ali ou tentar fugir? Pedro escapara de um Gulnog em outra

    ocasio, ficando escondido nas rvores e depois abaixando-se em uma cavernaprxima a nica que encontrara na ocasio onde a irm de Pedro, Jlia, suameia-irm, Luiza, e o povo remanescente de Aedy n se esconderam. Pedrofechou bem os olhos e orou para que a morte fosse rpida.

    O Gulnog ento atacou-os.Gregrio foi apanhado primeiro. A mo dele apareceu e agarrou o brao de

    Gregrio em um golpe de morte, torcendo at que ele gritasse em agonia. Pedropodia ouvir os ossos sendo modos.

    Um pensamento estranho invadiu sua mente: Deixe o Gregrio! A coisa vaicomear a com-lo e voc ter tempo para fugir.

    Pedro puxou os ps debaixo dele e preparou-se para fugir.O Gulnog virou-se para fit-lo, surpreso. Mas, recuperou-se rapidamente e

    rosnou para Pedro.Seu momento de fuga se perdera. Quer fosse um ato de herosmo ou por no

    ter outra escolha, Pedro enfrentou o monstro. Este deixou cair Gregrio e sevoltou para ele.

    Aquele era o fim. Seria partido em pedaos e comido por ... seuspensamentos foram cortados repentinamente ao ouvir-se um urro retumbante.Pedro tanto sentiu quanto ouviu o som. Ele reverberou por dentro de sua pele,abalando-o at os ossos, e caiu ao cho. Era um rudo estranho, que noconhecia, estremecendo com sua fora.

    Ao ouvir o som, o Gulnog levantou a cabea e, respondendo a um chamadoque s ele parecia entender, afastou-se de Pedro e correu por entre as rvorespelo caminho em que viera.

    O pulso de Pedro acelerou-se e se passaram alguns momentos antes quepudesse respirar outra vez.

    Pedro? o sussurro de Gregrio era to baixo que poderia ter sido umafolha tremulando ao vento.

    Est tudo bem agora disse Pedro, tomado de vergonha por ter quasedeixado o amigo a fim de salvar-se. Estaria se tornando to mau quanto asperversas criaturas que os caavam? Pensei que era o nosso fim.

    E eu pensei Ai! Gregrio agarrou o ombro e caiu de joelhos. Seu brao! Pedro levantou-se, limpou as cascas e folhinhas da roupa e

    estendeu a mo.

  • Quebrado, penso disse Gregrio, mordendo a lngua com os dentes... Vou ficar bem. Temos de voltar encontrar os outros.

    Pedro agarrou o brao bom de Gregrio e o ajudou a levantar-se. No esquea os cogumelos. Tem razo. Pedro pegou a sacola do cho. O que o fez ir embora? perguntou Gregrio rangendo os dentes. Uma espcie de corneta, eu acho. Gregrio tropeou e Pedro segurou-o,

    pegando no brao machucado, o que fez Gregrio gritar de dor.Eles caminharam pela floresta cerca de dez minutos. Pedro sabia que o

    amigo entraria em choque logo mais se j no estava embora continuassecaminhando. Em breve chegaram a uma pequena clareira onde se achava umgrupo de homens sujos. Os outros colhedores de alimentos. Eles se animaram aover Pedro e Gregrio saindo dentre as rvores.

    Ouvimos um rudo na floresta disse Orrin. Pensamos... Tivemos uns problemas explicou Pedro, fazendo um sinal para Gregrio.

    Ele examinou o grupo. Todos voltaram?Orrin acenou com a cabea. No muito alm de folhas, nozes e

    cogumelos.Pedro suspirou tristonho, aquela no fora uma noite boa para encontrar

    alimento. Mas isso no importava os Gulnog j sabiam qual era a rea deles.Um grupo de busca completo logo surgiria. Teriam de mudar-se de novo eGregrio precisava de ajuda. Tinham de ir at onde estavam os outros.

    Os dez homens andaram em fila, abrindo caminho entre as sombras evoltaram caverna. Pedro podia ouvir Gregrio ofegante e respirando comdificuldade, evidentemente sofrendo muito. Mas Gregrio mantinha a agoniaoculta. Se os outros apenas pudessem ser to corajosos...

    A ltima mudana tinha sido quase demasiada para algumas das crianasmenores e ele detestava tentar outra to depressa. Pedro tirou a ideia da cabeaao aproximar-se da entrada da caverna escondida entre os rochedos no fundo dodespenhadeiro. Admirou-se outra vez com o fato de a face do rochedo suafrente esconder a entrada. Parecia apenas uma rocha para ele, tendosimplesmente trepadeiras aqui e ali. Se no tivesse sabido da sua localizao,jamais a teria encontrado no escuro. Pedro entrou de lado na abertura estreita,como que danando entre as paredes apertadas da rocha que se fechavam sobreele dos dois lados. De maneira estranha, era uma boa coisa estarem ficando semcomida. Se estivessem realmente se fartando todos os dias, no poderiam entrarnem sair de seu esconderijo. Era de algum conforto pensar que nenhum Gulnog

  • poderia se esgueirar pela abertura. Embora os monstros fossem provavelmenteatirar algumas tochas acesas para dentro e obrig-los a sair. Ele tentou no pensarnisso.

    Voc talvez j tenha explorado uma grande caverna antes. Caso positivo,voc conhece a sensao que temos, aquela que nos rodeia e pesa sobre ns,especialmente se tiver de entrar por um lugar apertado. Voc tem o sentimentode que se ficar preso no haver resgate. No como se algum pudessearrancar as paredes da caverna para livr-lo. Pedro se sentia assim ao atravessarcom dificuldade a passagem.

    Havia umidade no tnel que fez seus pulmes virarem uma esponja,aspirando o ar viciado, mido. Ele parou de respirar, tentando no pensar napalavra caixo, enquanto se arrastava pelas curvas e voltas da passagem. Otnel finalmente terminou em um espao largo, aberto, onde havia uma fogueira.No muito alegre, porm quente.

    A fumaa os perturbou no princpio. Iria sufoc-los? Ou subiria at a aberturae assinalaria para os Gulnog o local onde estavam? Era evidente, no entanto, quefissuras e fendas estreitas faziam a fumaa se dissipar e a levavam embora, nopermitindo que fossem localizados. Todavia.

    Pedro entrou no cmodo central e viu-se frente a frente com uma jovem decabelos loiros caindo at os ombros e o rosto vermelho por causa da grandefogueira no centro da caverna.

    E ento? perguntou ela, com as mos plantadas firmemente nos quadris. O que voc encontrou?

  • PCaptulo

    2edro limpou a garganta ao olhar a irm. Depois do longo silncio das florestas,ele nunca mais se sentiu vontade falando em voz alta.

    No achamos muita coisa disse ele simplesmente. Ns... no pudemosficar tanto quanto espervamos.

    Por que no? perguntou Jlia. O que aconteceu?Pedro afastou-se quando Gregrio e alguns dos outros entraram no cmodo. Gregrio disse Jlia o que voc trouxe?Gregrio encolheu os ombros e depois fez careta enquanto segurava o ombro

    ferido. O que aconteceu com voc? Vou ficar bom respondeu Gregrio, despedindo-se dela.Pedro pegou as mochilas de Gregrio e dos outros colhedores e as ps na

    mesa da cozinha. No sobrou muita coisa.Jlia ps a mo na boca. No o suficiente! De jeito nenhum. Ela olhou acusadoramente para

    Pedro. Deve haver mais comida em algum lugar. Quem sabe plantas quepossamos comer, ou coelhos ou outra coisa qualquer. Voc no est procurandodireito. Amanh noite... amanh voc tem de continuar buscando.

    Ela estava usando seu tom de voz arrogante de irm menor. Se a situaofosse diferente, Pedro poderia tambm ter gritado com Jlia. Mas, apenassacudiu a cabea.

    No podemos procurar comida amanh noite. Amanh noite iremosprovavelmente mudar para um novo esconderijo.

    Jlia pareceu alarmada. O qu? Mas acabamos de vir para c. Por que temos de oh! Fomos perseguidos esta noite respondeu Pedro. Ele ajudou Gregrio a

    sentar-se em um banquinho. Havia um Gulnog na floresta. Ele nos viu.Agarrou Gregrio. Pedro pensou novamente em sua tentao de fugir. Se acriatura no o visse, teria sacrificado Gregrio para salvar-se? De todo modoestava prximo da caverna perto o suficiente para encontr-la, caso leveamigos e nos persiga outra vez. Temos de ficar atentos.

    Jlia foi at Gregrio e tocou levemente em seu ombro. Como voc conseguiu escapar?

  • Pedro e Gregrio trocaram olhares. Os outros colhedores tinham ido dormir,mas estavam prximos o suficiente para ouvi-los.

    Ns... hum... disse Gregrio. Alguma coisa deve t-lo assustado. Ou o chamou de volta. Uma corneta

    sinaleira ao que penso falou Pedro. A criatura foi para um lado e ns para ooutro. Mas no antes que ela tivesse quase arrancado o brao de Gregrio.

    Jlia acenou resoluta. Est bem ento, vamos organizar uma viglia. Podemos fazer turnos de

    guarda na sada da caverna. O vigilante ir avisar-nos... se qualquer coisaaparecer. Agora Gregrio, vamos cuidar de voc.

    luz da fogueira, Pedro podia ver o semblante fechado de Jlia. Ela pareciaesgotada pensou ele exausta pelas longas semanas de tenso e incerteza.Todos estavam.

    Pedro deixou a irm e foi at um afloramento de rocha do outro lado dofogo. Estava mais frio ali e o ar mais mido; mas, pelo menos era particular. Aliteria espao para pensar.

    Fazia dois meses oito longas e infindveis semanas desde que o vulcoexplodira, soltando fumaa txica no ar e matando muitos dos bons cidados deAedyn. Alguns dos maus cidados tambm, inclusive o capito Ceres e seuscompanheiros de crimes.

    Pedro sentia que cabia a ele e a Jlia tirar os sobreviventes daquela malditailha de Khemia e faz-los voltar terra que haviam conhecido antes, a terra queo Senhor dos Exrcitos criara para aqueles homens, mulheres e crianas. Aedy n.

    Nos dias que precederam a erupo, Pedro pensara que descobrira ummeio. Uma profecia antiga falava de um talism um talism que traria de voltao Senhor dos Exrcitos e derrotaria a escurido de uma vez por todas, caso asduas metades do talism fossem reunidas. Eles haviam recuperado parte dotalism com o capito Ceres e depois Jlia descobrira a outra metade em seuquarto, na casa da av em Londres. A av a encontrara em seu jardim e dera oornato a Jlia. Pedro apertou bem os olhos ao pensar nisso e lutou contra aslgrimas de frustrao que surgiram neles.

    Deveria ter funcionado estava praticamente certo que funcionaria. Mas,quando ele e Jlia reuniram as duas metades do talism, no houve msica, nemsinos, nem luz ofuscante. Nada. E a Sombra eclipsara o sol da mesma forma,como se no tivesse havido profecia ou talism. Como se o Senhor dos Exrcitosos tivesse realmente abandonado.

  • Pedro sentiu que era observado. Os colhedores e o restante dos sobreviventespermaneciam espalhados pela caverna, conversando baixinho em grupos decinco ou seis. Suas sombras danavam nas paredes da caverna. O povo deAedy n acreditara nele. Ele prometera fazer um plano e confiaram em suapalavra. Mas agora sabiam que ele estava to perdido e confuso quanto o resto.

    Um movimento chamou a sua ateno uma menina esbelta de olhoscinzentos e cabelo dourado. Ela se movia graciosamente entre as pessoas,ajoelhando-se ao lado de uma, colocando a mo fresca na testa de outra.

    Lusa.Ela parecia a nica a no ser afetada pelo ar daquele cmodo. Desde a

    erupo do vulco, ficara mais amvel e mais alegre. Alegria, Pedro zombou. Oque qualquer deles tinha para mostrar-se alegre? Mas ele no podia negar atransformao que ocorrera em sua meia-irm.

    Quando os trs chegaram a Aedyn, caindo primeiro em um riacho gelado edepois atravessando o portal, Lusa s fizera chorar, desfalecer e exagerar. Forabem insuportvel, para falar a verdade quase to desagradvel como quandoestavam na casa deles. Mas, desde a erupo, ela no chorara nenhuma vez. E aspessoas pareciam confiar nela, acalmando os seus temores com as suas palavrasde consolo. Parecia capaz de confort-las de um modo que Pedro e Jlia, que sejulgavam os Libertadores, no conseguiam.

    Mas como eles podiam ser Libertadores? No eram apenas adolescentes,mal sabendo cuidar de si mesmos quando estavam em Londres, muito menos emuma caverna cheia de sobreviventes sofredores?

    Pedro estendeu a mo e procurou uma salincia na rocha. Era pequena no maior do que o seu punho mas, com o passar dos sculos, a gua destrurasua borda e fizera uma pequena cavidade do lado debaixo. Pedro colocou a mona poa, procurando o metal frio com a ponta dos dedos. Agarrando o talism,ele o levantou at o rosto onde podia estud-lo.

    A luz era fraca demais para ver os detalhes, mas o rapazinho j o conheciaperfeitamente. Ele virou o objeto vrias vezes na mo. Desde o dia da erupo,ele comeara a brilhar com uma luz azul estranha. No era possvel ver o brilho,exceto que no estivesse completamente escuro, mas ele se achava ali. O talismtinha a forma hexagonal, com duas longas laterais e, do lado de fora havia umaestrela de seis pontas. Quando as duas formas eram unidas rapidamente com umestalo como duas peas de um quebra-cabea, supunha-se que iria chamar oSenhor dos Exrcitos pelo menos de acordo com a profecia. S que nofuncionara.

  • A profecia talvez representasse mais coisas pensou Pedro. Talvez houvessepalavras mgicas que devessem ser pronunciadas, ou quem sabe seria necessriogir-las trs vezes e depois cuspir antes de unir as peas. Ou talvez ainda, pensouPedro um tanto desanimado, a profecia no passara de um conto de fadas otempo todo.

    Pedro colocou o talism de volta em seu esconderijo e tentou dormir.

  • Era de manh quando acordou. A fogueira apagara, mas suas cinzas aindaardiam e algum Gregrio as alimentava com gravetos e ramos para faz-lasreviver. No havia falta de madeira na ilha, pensou Pedro. Pelo menos isso eraalgo que podiam agradecer.

    Ele esfregou os olhos, removendo deles a manh e tirou as pernas dasalincia, pousando-as no solo rochoso. As pessoas estavam deitadas no cho,enroladas em cobertores e capas.

    Oitenta e sete deles ao todo homens, mulheres e crianas que haviamsobrevivido exploso, se reencontraram em meio confuso e juntosprocuraram segurana. Oitenta e sete. Alm de trs jovens estrangeiros de outromundo.

    Jlia sentara com as pernas cruzadas no canto mais distante do cmodo,perto da entrada para o tnel. Pedro foi at ela e se atirou pesadamente ao seulado. Jlia tinha os joelhos sob o queixo e os braos rodeando as pernas. Pareciaafundada em pensamentos.

    Voc est vigiando? perguntou ele.Jlia sacudiu a cabea. Tiago est l na frente. Perto da entrada da caverna

    pronto para tocar o alarme se os Gulnog aparecerem. A garota estremeceu eseus enormes olhos fitaram o irmo. No sei o que faramos se eles nosencontrassem. No h para onde correr, onde esconder-se.

    Eu sei falou Pedro. uma pena que este lugar no tenha sada pelosfundos. Quem sabe encontramos outro em que haja sada.

    Para onde podemos ir, Pedro? Teramos de descobrir outra caverna e voclembra como foi difcil mudar as crianas da ltima vez. Tentar mant-lasquietas.

    Pedro concordou com a cabea. preciso levar todos de volta a Aedy n, Jlia. disso que necessitam e no

    de outra velha e malcheirosa caverna.Ir para casa o que esperam. tambm o motivo de o Senhor dos Exrcitos

    nos ter trazido aqui, certo?Eles j haviam conversado sobre isso examinando cem vezes as

    possibilidades. Tudo tinha relao com barcos. A erupo destrura todas asembarcaes dos Gulnog e se houvesse um meio de construir um barcoapropriado para viagens martimas e suficiente para carregar noventa pessoas sob o manto da escurido e sem ser notado por um Gulnog sem ter qualquerideia sobre construo de barcos ou de navegao, ele no sabia qual era.

  • Sons de movimentos se fizeram ouvir por trs deles. O grupo comeara aacordar, com a barriga roncando e a garganta ressecada.

    No iriam, no entanto, se queixar exceto as crianas. Pedro e Jlia, porm,veriam a decepo em seus olhos. Pedro rodeou a irm com o brao e elacolocou a cabea em seu ombro. No pela primeira vez, ele desejou que notivessem sido levados de Londres para aquela nova e estranha terra.

    Ficaram durante algum tempo sentados naquela posio e ambos levantarama cabea ao ouvir passos vindos do tnel. Pedro se colocou em p, preparadopara qualquer tipo de vilo que aparecesse. Gostaria de ter pelo menos o canivetede Gregrio. Precisavam realmente fazer mais armas.

    Acabou sendo apenas Tiago, mas o rosto dele empalidecera visivelmente. O que foi? indagou Pedro. Voc viu alguma coisa?Tiago simplesmente afastou-se calado e Pedro ento percebeu que ele no

    estava s.Por trs dele, mal saindo do tnel, achava-se outro homem, alto e musculoso,

    com ondas de cabelo dourado caindo em seus ombros.Pedro demonstrou surpresa. Quem voc? Vim a mando do Senhor dos Exrcitos disse o estranho. Pensei que

    estivessem me esperando.

  • OCaptulo

    3estranho permaneceu ali por algum tempo. Em seu rosto surgiu um sorrisopreocupado. Meu nome Peras. Vocs estavam esperando ajuda... no ?Pedro cerrou os punhos, pronto para qualquer coisa. De onde voc veio? perguntou, semicerrando os olhos. Se foi realmente

    enviado pelo Senhor dos Exrcitos... Por que demorei tanto?O estranho manteve os olhos em Pedro, ignorando a curiosa multido que se

    formava atrs dele. Khemia no fcil de achar. Viajo para chegar aqui desde que voc e sua

    irm uniram as duas partes do talism.Ele ento sabia do talism. Ele funcionara, afinal de contas! Pedro sentiu-se

    aliviado, fechou as mos e depois estendeu uma delas para apertar a mo dePeras com a sua.

    Bem-vindo! Voc bem-vindo neste lugar.Pedro virou-se para falar ao grupo.Peras, no entanto, levantou as mos e disse: Trago saudaes do Senhor dos Exrcitos gritou em voz forte voz alta

    demais para a pequena caverna. Suas palavras ecoaram pelas paredes apertadasdo local e reverberaram ao redor do cmodo.

    Vim para livrar vocs da Sombra e lev-los de volta a terra queconheceram antes Aedyn.

    Ele continuou a falar, mas ningum conseguia ouvir suas palavras por causados aplausos. As pessoas se reuniram ao redor de Peras, bombardeando-o comperguntas e apertando sua mo. Se houvesse espao, elas quem sabe ocolocariam nos ombros e dariam voltas com ele pela caverna e Pedro iria frente. Ele se apresentara como um Libertador. Seria bom ento ter um pessoalpara si.

    O que isto?Uma voz descontente fez-se ouvir em meio ao tumulto. Pedro levantou os

    olhos e viu Lusa saindo de um cmodo ao lado. Seus olhos chamejavam deemoo. Ele no tinha ideia do que era, mas no parecia ser de contentamento.Na realidade, parecia medo.

    Lusa ele correu at ela. Este Peras. Ele um servo do Senhor dosExrcitos. Veio quando ativamos o talism. Veio para levar o povo para casa!

  • O grupo exultou outra vez ao ouvir suas palavras. Eles teriam certamentecontinuado a celebrar se Lusa no os desencorajasse de novo.

    Ento, ele apenas aparece em nossa caverna, dizendo que enviado doSenhor dos Exrcitos, e vocs acreditam nele?

    Pedro sentiu a felicidade indo embora. Mas... Todos vocs disse Lusa ao povo de Aedy n. Como sabem que podem

    confiar nesta... pessoa? Lusa interferiu Pedro por favor, voc est fazendo uma cena. De que

    maneira ele teria nos encontrado se o Senhor dos Exrcitos no o tivesse enviado? Como ele poderia encontrar-nos? respondeu ela em voz bem alta.

    Fiquei sabendo que voc e Gregrio foram descobertos pelo inimigo ontemmesmo. Nosso esconderijo no est mais oculto, Pedro. O Senhor dos Exrcitosno seria o nico a encontrar-nos agora.

    Pedro olhou para Lusa. Nunca pensara que ela pudesse falar daquele jeito.Petulante e terrvel antes, mas no geral bondosa e pacfica desde que chegaramali. O que acontecera com ela? Ele fitou seu rosto plido e abatido. Os olhos delase estreitaram ainda mais ao olhar para o recm-chegado em sua caverna. Ese...

    Peras levantou as mos para silenciar as pessoas que o rodeavam. Todos secalaram e um sorriso pairou nos lbios dele.

    Querida menina, voc no tem nada a temer. Vim do trono do Senhor dosExrcitos para esta hora de necessidade. Ele voltou os olhos bondosos para osoutros. Como sabem, os barcos foram destrudos. E os Gulnog nunca seafastam muito. Na verdade, esto perto de descobrir novamente o seuesconderijo, como voc disse. Seus olhos se concentraram em Lusa.

  • Vim para ajud-los a construir novas embarcaes. Vou lev-los de volta aAedy n, onde a Sombra jamais os achar outra vez.

    claro pensou Pedro. Novos barcos. Finalmente algum que poderiaensinar-lhes a constru-los e navegar.

    Por que devemos acreditar em voc replicou Lusa, estragando tudooutra vez.

    No conhecemos voc. Nem sabemos se a Sombra no se espalhoutambm sobre Aedyn. Podemos v-la movendo-se no horizonte. Quem vocpara dizer que Aedyn mais seguro do que esta ilha ou esta caverna?

    Eu sou Peras o estranho quase gritou. Falo com a autoridade do Senhordos Exrcitos. Vo me obedecer desculpem. Vo acreditar em mim porquesou servo dele.

  • Algum tempo se passou em silncio. Ningum disse nada. Pedro refletiu seseria ou no prudente falar alguma coisa.

    O olhar de Lusa no enfraqueceu. Ela tirou os olhos de Peras, voltando-ospara Pedro.

    Marque minhas palavras, irmo, Peras vai trair todos ns. Cale-se, Lusa! replicou ele. Voc no sabe o que est dizendo e olhou

    outra vez para o salvador deles, Peras, que desviou finalmente o olhar de Lusa. Venha, Pedro. Chame os seus homens mais valentes. Temos de planejar a

    sua fuga.Peras escolheu dez homens Pedro, Gregrio, Orrin e o restante dos

    colhedores noturnos. Dirigiram-se ento todos juntos para a fogueira econversaram at altas horas.

    Jlia no conseguia dormir. Ficou revirando-se no leito, desejandoadormecer rapidamente sem sequer sonhar. O cho rochoso, entretanto, pareciamais duro do que o usual, seu surrado cobertor no conseguia aquec-la e opingar constante das estalactites martelava sua cabea.

    Ela pensou com saudades na sua cama em casa teve vontade de afundar-se naquela pilha de cobertores e travesseiros macios. Resmungou e virou de lado,tentando ajustar-se a uma nova posio. Algumas coisas, decidiu ento, voc noconsegue apreciar at que desapaream.

    Ningum parecia estar dormindo muito. Peras e seu grupo de homens Pedro entre eles estavam amontoados junto ao fogo. As chamas davam a seusrostos um brilho estranho e lanavam suas sombras contra as paredes dacaverna. As vozes deles eram baixas, pontuadas por risadas speras. Jlia nogostou do som daqueles risos. No estava tambm acostumada a no participardas coisas. Gaius no a deixara de fora.

    Gaius. Jlia fez um som que poderia ter parecido um ronco ao virar-se outravez. Fora Gaius que chamara todos eles para Aedy n. Ele dissera que eram osEscolhidos e lhes mostrara como derrotar os trs lordes sombrios que mantinhamAedy n cativa em sua mo poderosa. A seguir, no muito depois de as pessoasterem sido libertadas, Gaius chamara Pedro, Jlia e agora Lusa, fazendo-os

  • atravessar o portal e entrar de novo na vida do povo de Aedy n. S que desta vez atarefa no fora to fcil.

    O povo fora capturado e levado para a ilha de Khemia pelo capito Ceres eos Gulnog.

    Eles haviam sido forados a cavar na base de um vulco, procurando algoque nunca lhes disseram o que era. Seus senhores foram cruis e o povo definhousob os chicotes deles.

    Gaius s passara a ajudar no final, dando a Jlia uma oportunidade de voltarpara casa e recuperar a pea que faltava no talism. Ela algumas vezes seperguntara se realmente o vira. Ele certamente no tivera qualquer preocupaocom mostrar o rosto desde ento.

    Gaius, onde voc est? No vai aparecer agora?Jlia inclinou a cabea e viu que mais algum se mantinha acordado. Lusa

    voltara e se pusera em um canto distante da caverna, falando baixinho einclinando-se sobre algum no escuro. Deveria ser Gregrio ainda sentindo doresdevido ao encontro com o Gulnog.

    Jlia observou a meia-irm por um instante. Lusa moveu-se devagar edeliberadamente, colocando por um momento a mo sobre a cabea dopaciente, ajeitando seus curativos, curvando-se para dizer uma palavra agradvelem seu ouvido.

    possvel que Lusa sentisse Jlia a observ-la, pois levantou a cabea esorriu na direo dela. O sorriso era fraco quase compassivo. Era estranhoacreditar que ela tivesse enfrentado Peras daquele jeito.

    Jlia levantou-se, puxando o que restara do cobertor sobre os ombros. Elapassou por cima dos corpos adormecidos do pessoal de Aedy n e procurou umcaminho at Lusa.

    O paciente era de fato Gregrio. Ele dormia aos arrancos, s vezesconsciente outras no. S parecia acalmar-se sob o toque de Lusa. Esta, porm,dava a impresso de que por sua vez precisava de algum para cuidar dela. Suaface estava abatida e plida. Os crculos roxos sob os olhos indicavam que nodormia havia dias. Todavia, ao seu redor pairava um ar de serenidade que Jliano conseguia compreender.

    Ali estava Lusa, sua terrvel meia-irm, que nas melhores circunstncias eraum dos seres humanos mais maldosos que Jlia j tivera o desprazer deencontrar. Mas, bastara arremess-la em um buraco odioso e ela se transformaracompletamente. Lusa se tornara... bem, no era por nada que as pessoascomearam a cham-la de Consoladora.

  • Pensei que voc estivesse perto da fogueira disse Lusa, levantando acabea ao v-la aproximar-se.

    Ao lado de Peras, Pedro e os outros. Planejando o nosso resgate. Peras no me escolheu replicou Jlia, tentando mas no tendo muito

    xito forar um riso vazio. Suponho que no sou mais a Escolhida.A expresso de Lusa no mudou ao olhar para a fogueira e os homens ao

    seu redor. No disse ela com uma nota estranha na voz. Peras s escolheu os mais

    fortes para o seu pequeno exrcito. No um exrcito redarguiu Jlia. Voc no entende, ele est aqui para

    ajudar-nos na fuga no para lutar.Ele vai ajudar-nos a construir barcos e mostrar-nos o caminho de volta para

    Aedyn.Lusa ficou curiosamente calada. Seus lbios se comprimiram e ela balanou

    a cabea uma vez. Quer ele use nossos prprios homens ou... outros... vai decididamente

    levantar um exrcito. Contra os Gulnog? No, boba. Contra mim.

  • -CCaptulo

    4ontra voc? disse finalmente Jlia. Mas voc no ningum. No ofensa. Quero dizer, voc no daqui e no foi chamada como ns. Voc s

    veio por acidente, pois nos seguiu para criar problemas para ns.Lusa sorriu outra vez com compaixo e voltou ao seu paciente.Jlia suspirou e deixou Lusa ali, voltando por entre os corpos adormecidos

    at o seu lugar perto da fogueira. Os homens continuavam todos no mesmo lugar,agachados junto s chamas, mas s Peras parecia falar no momento. Quase aossussurros. Jlia esforou-se para ouvir, mas no escutou mais do que palavrasocasionais.

    Ela estava cansada demais para continuar acordada. Teria de pedir a Pedroque explicasse tudo pela manh. Seu estmago roncou, mas Jlia afastou damente a ideia de fome, virou-se e caiu em um sono agitado.

    Pedro observou Peras atentamente, toda as suas esperanas presas em cadapalavra dita por ele. Finalmente finalmente, ali estava a libertao pela qualtodos haviam orado. E Pedro, que se imaginara o Escolhido, nunca se sentira tofeliz por ter-se livrado da responsabilidade.

    A Sombra ainda no se estendeu at muito longe respondeu Perasnaquele tom amvel, confortador. No at as fronteiras de Aedy n. Mas, notemos muito tempo. Onde a Sombra vai, os Gulnog a seguem. Ela j tomou asilhas de Melita e Tunbridge.

    O que acontecer quando ela chegar a Aedy n? perguntou Pedro. Vocvai nos ajudar na luta?

    A Sombra no vai estender-se at to longe respondeu Peras, sacudindo amo como se para apagar a pergunta.

    Mas, se... Confie em mim disse Peras.Pedro confiou. Vamos construir jangadas durante a noite e dormir de dia Peras avisou os

    homens. Teremos de recolher materiais do lado de fora da caverna sem ser

  • descobertos; mas, parece que vocs j so especialistas em evitar os Gulnog. Elepiscou para Pedro. Quando as jangadas ficarem prontas disse vocs nove eeu iremos cada um chefiar uma. Vou lev-los de volta a Aedy n. Conheo ocaminho.

    Pedro respirou aliviado. Graas a Deus por aquele talism. Peras fora levadoat o grupo por ele e sem Peras estariam realmente perdidos.

    Vou chefiar a procura de alimentos falou Pedro. Se voc me disser oque devemos procurar, ns acharemos desde que no sejam cogumelos.

    Nada de cogumelos disse Peras com um sorriso. Vou cuidar da comida.O Senhor dos Exrcitos sustenta seus filhos.

    No comeriam mais cogumelos! Esperem s at Jlia saber disto. Pedrosentou-se com um sorrisinho. Aquele Peras estava se saindo um grande sujeito um timo camarada na verdade.

    Gravetos, gravetos, gravetos disse Pedro examinando o cho da floresta. Gravetos e plantas trepadeiras.

    Essa no suficientemente grande disse Orrin.Pedro virou-a na mo, examinando-a com seus olhos ainda inexperientes e

    atirou-a nos arbustos. Shhh! Orrin o conteve. Voc nunca sabe onde eles vo estar. No aqui replicou Pedro. Eles deixaram de patrulhar esta rea. No vi

    um Gulnog desde que Peras chegou. Voc no sabe se eles pararam. Poderiam estar planejando alguma coisa.

    No acho que uma pequena precauo seja fora de propsito.Pedro concordou. Ficaria calado e satisfaria Orrin, mas sabia que estava a

    salvo agora. Todos estavam salvos. Ele sentia isso nos ossos; o perigo passara coma chegada de Peras.

    Pedro tropeou em outro graveto e abaixou-se para peg-lo. Era maior destavez. Grande o suficiente para ser usado, conforme o aceno afirmativo de Orrin.Pedro colocou-o na pilha com cuidado agora.

    Haviam completado a pilha. A colheita fora melhor do que na noite anterior.Procuravam gravetos e toras para construir as jangadas e plantas em forma decordas para unir as toras. Essas plantas eram mais difceis de encontrar no

  • muitas cresciam naquele clima viciado mas eles haviam recolhido o suficientepara aquela noite. O bastante para satisfazer Peras.

    Vamos disse Pedro. J temos o bastante. Hora de voltar. Ser que Peras achar suficiente? perguntou Orrin. Voc lembra como

    ele estava h duas noites.Pedro ficara confuso com a raiva de Peras naquela noite. Parecera to

    despropositada. Mas havia urgncia. Eles tinham de construir as jangadas antesque os Gulnog voltassem a procurar o seu esconderijo.

    Temos duas vezes mais cordas do que tnhamos naquela noite falouPedro, com a cabea o mais levantada possvel. Vocs no tm de sepreocupar.

    Por que ele... No temos de nos preocupar. Vamos. Pegue esses gravetos e leve-os para

    casa. Casa disse Orrin sombriamente. Casa Aedy n, Pedro, e no uma

    caverna malcheirosa. Ento vamos nos apressar e em breve teremos o bastante. Pedro

    abaixou-se e encheu os braos com uma poro de galhos e cordas onduladas.Ele quase caiu com o peso, mas endireitou-se e respirou fundo.

    Sinto-me bem em procurar algo alm de cogumelos disse com umarisada.

    Isso fez que se lembrasse de que a carne-seca suprida por Peras fora umaboa novidade em contraste com os cogumelos, mas no tinha sido exatamente oque esperava. No importa. Por que perderiam tempo obtendo comidainteressante quando havia tanta pressa em sair daquele lugar? Poderiam festejarem Aedy n.

    Eles se dirigiram caverna, deixando cair alguns galhos e folhas pelocaminho. A caminhada era difcil no escuro. Apesar de parecer que os Gulnogtinham abandonado a busca do grupo, ningum era insensato o bastante paradeixar a segurana da caverna luz do dia.

    Pedro tentou conversar com Orrin vrias vezes, mas este s respondia comum grunhido.

    O rapazinho ficou irritado com o silncio dele estava animado e havia milcoisas a serem discutidas: como seriam construdas as jangadas, quandopartiriam, como Peras conseguiria navegar at Aedy n naquelas guastraioeiras? Ele no gostava de andar em silncio daquele modo agora que nohavia mais necessidade disso.

  • Estavam ainda a cerca de 400m da entrada da caverna quando ouviram osgritos. Gritos de muitas pessoas. Pedro e Orrin se entreolharam, deixaram cair osgalhos e correram em direo ao som.

    Eles tropearam na escurido e se apressaram ainda mais sem lembrar-sedas pontas dos ramos, disparando por entre a vegetao rasteira a fim de chegarlogo em casa. Cansados com o exerccio, pararam nas ltimas sombras diante dodespenhadeiro.

    Orrin agarrou a camisa de Pedro e o fez abaixar-se nos arbustos.Pedro quase gritou. Os Gulnog finalmente os encontraram. Parecia que eles

    haviam esmagado as paredes dos tneis rebentando os punhos contra a rochaslida a fim de alarg-la. A passagem estreita no os salvou afinal. As criaturasentravam e saam da fortaleza do povo, uma pilha de escombros aos seus ps.

    As pessoas corriam, perseguidas pelos enormes monstros. Na plida luz dalua, Pedro podia distinguir as figuras ali estava Alice com seu filho de cincoanos, Alexandre, apertado em seus braos. Gregrio se achava ali tambm, coma mo boa protegendo o ombro oposto. Viu igualmente Matias, com uma pernacuriosamente dobrada e arrastando-se atrs da outra. Onde estaria Peras? perguntou-se Pedro urgentemente. Ele deveria estar aqui. Deveria...

    Sua mente congelou-se. Ali que o Senhor dos Exrcitos a proteja! estavaJlia.

    Ela fugia em direo segurana das rvores, com um pequeno pacote namo e um Gulnog perseguindo-a ferozmente. Corria a toda velocidade. Mas, suapressa no se igualava aos passos largos do monstro que tentava alcan-la.Chegou at a moa num momento. Seu punho voou pelo ar e bateu na cabea deJlia.

    Jlia caiu sem um som, desmoronando no cho da floresta e ficando ali, semmover-se, entre a terra e as rochas.

    Pedro queria gritar correr para o lado dela matar o Gulnog com asprprias mos; mas, no precisou da presso dos dedos de Orrin em seu braopara avis-lo de que devia permanecer escondido. Manteve os olhos na irm,desejando que se movesse, mostrasse qualquer sinal de vida, mordeu os lbiosat sangrarem.

    O Gulnog inclinou-se e revirou o pequeno embrulho que Jlia estiveracarregando. Pedro no podia ver o que era, mas o Gulnog parecia encantadocom a descoberta. Ele pegou a corneta pendurada em um cordo no pescoo,levou-a boca e tocou uma nota longa e baixa.

  • Era um som que Pedro reconhecia j o ouvira uma vez, naquela noite emque o Gulnog se virara subitamente e deixara os dois, ele e Gregrio, sozinhos.

    Como acontecera naquela noite, a corneta deu algum sinal aos outros. OsGulnog pareceram levantar a cabea e se retirar todos juntos. Num segundo asmonstruosas criaturas deixaram vazia a entrada da caverna. O som de seuspassos ecoava pela floresta enquanto seguiam para o oeste.

    Pedro correu at a irm. Corpos feridos e gemendo se espalhavam pelocho. Seus amigos se encontravam ali, sofrendo, agarrando membros quebrados.Pedro, no entanto, cambaleou entre eles, no pensando em ningum seno Jlia.

    Ela estava onde o Gulnog a deixara, com o brao torcido em um nguloesquisito abaixo do peito. Quando Pedro tentou toc-la, sentiu um lquido quente epegajoso correndo entre seus dedos.

  • Jlia, disse ele num sussurro urgente Jlia!Uma vez, duas, e ela abriu os olhos. Olhou por um momento para Pedro e

    depois suas plpebras se fecharam novamente. Jlia! Deixe que ela durma disse uma voz baixa e suave em seu ouvido.Pedro olhou para cima assustado.Era Lusa. Uma linha fina e escura serpenteava pelo seu rosto e a barra de

    sua saia estava em tiras quase at os joelhos. Ela estendeu a mo para tocar atesta de Jlia, deixando os dedos percorrerem seus cabelos. Ela precisa dormiragora.

    Pedro concordou, forando para baixo o n que se instalara em sua garganta. O que aconteceu? Eles vieram disse Lusa simplesmente. Peras contou aos monstros onde

    nos escondamos e eles vieram at ns.Pedro quase riu Isso ridc... Peras nos traiu A voz dela no estava raivosa. Parecia apenas cansada. Eu disse a voc que ele faria isso, Pedro, lembra-se? Ela voltou os olhos

    para a frente da caverna. Os Gulnog quebraram a rocha slida a fim de nosachar. As pedras comearam a cair e parte do teto desabou para trs. Todos sepuseram a correr e gritar e ningum sabia para onde ir. Os monstros osencontraram antes que pudessem escapar.

    Quem? perguntou Pedro, engolindo as palavras. Quem no conseguiufugir?

    A maioria de ns respondeu Lusa de olhos fechados, balanando o corpoenquanto recitava a lista de nomes. Lionel, Alexandra, Simeo, Celeste,Frederico, Elmira, Godofredo, Carmo.

    Ela prosseguiu, mas a mente de Pedro parou de registrar depois de trinta oumais nomes. Um suspiro escapou de seus lbios e lgrimas furtivas molharamseus olhos. Lusa citou meninos e meninas, homens e mulheres mais velhos. Amaioria das pessoas que ele prometera proteger.

    Sacudiu, porm a cabea, aquele no era o momento de lamentaes. Aslgrimas no eram cientficas. Chorar no traria os mortos de volta e haviatrabalho frente. Jangadas para construir. E agora, embora sofresse ao fazer taisclculos, teriam menos jangadas para construir e poderiam deixar aquela ilhamaldita mais cedo.

    Um brilho na noite escura chamou sua ateno. Ele abaixou-se e pegou umafaquinha. Parecia aquela que Gregrio usara para remover os cogumelos na

  • floresta. Iria devolv-la. Enquanto isso, porm, apenas colocou-a na cintura elevantou-se.

    Peras disse Pedro. Peras saber o que fazer. Vou procur-lo. Peras. Lusa cuspiu a palavra como se tivesse um gosto azedo na boca.

    Peras tem mentido para voc desde o comeo, Pedro. Se ele fosse umverdadeiro mensageiro do Senhor dos Exrcitos, por que levaria tanto tempo paraaparecer? Por que os Gulnog aparentemente abandonaram a caada no dia emque Peras chegou? Por que ele apareceu um dia depois de os Gulnogencontrarem voc na floresta?

  • Como os Gulnog nos acharam no esconderijo sem sequer terem feito umabusca? Vieram direto at ns. E por que, meio-irmo, Peras escolheu esse exatomomento para ficar longe?

    Ela meneou a cabea. Esta no uma desgraa normal, Pedro. No uma Sombra da qual voc

    possa fugir. Voc pode correr para Aedyn e fingir que ela no existe. Mas, vaichegar l. hora de levantar-se e lutar. Lusa fitou Pedro de olhos bem abertos,seu olhar penetrou fundo nele.

    O olhar de Pedro se afastou do dela e o rapaz ficou em p. Vou procurarPeras. Ele saber o que fazer. Cuide de Jlia.

  • Lusa ficou observando enquanto ele desaparecia na noite. Pedro ainda noacreditava nela. E Jlia ela tocou novamente a testa da meia-irm precisavade repouso.

    A garota ficou em p e olhou sua volta. Muitos dos cidados de Aedy nhaviam cado perto do entulho na entrada da caverna, Outros desfaleceramprximo s rvores. Alguns se moviam, arrastando-se pelo cho, procurando osfamiliares. Muitos, como Jlia, jaziam inertes. Mas, ao contrrio de Jlia, a maiorparte deles no mais se levantaria.

    Lusa fechou os olhos e respirou fundo, aspirando o ar. Ela lembrou-se da luzque surgira naquele dia, pouco antes da erupo.

    Lembrou-se de como fora chamada. E saiu para trabalhar.Dirigiu-se primeiro aos que estavam sofrendo aqueles que pediam em voz

    alta a ajuda do Senhor dos Exrcitos. Ela moveu-se devagar entre eles, um decada vez, rasgando da saia ou da prpria roupa deles curativos improvisados paracobrir as feridas. Ao seu toque, os gritos das pessoas se acalmavam e suacoragem se renovava.

    Lusa viu ento um rosto que j conhecia melhor do que o de outros umrosto que lhe dera as boas-vindas logo no comeo.

    Alice disse Lusa voc parece machucada. O p de Alice estavatorcido debaixo dela em um ngulo estranho e, mesmo sob a Sombra, Lusa pdever seu rosto cor de cera. Ela parecia estar sussurrando alguma coisa e Lusa seaproximou ainda mais para ouvir.

    Al...Alexandre...O filho dela. Onde estaria? Alice nunca deixava que o filho sasse de seu

    lado.Alice estendeu a mo e pegou na de Lusa, suas unhas cravadas na palma da

    dela. Ele estava comigo... eu o segurava. Vou ach-lo disse Lusa. Vou ach-lo para voc.Ela se ajoelhou ao ps de Alice e estendeu a mo fresca para tocar o

    tornozelo da amiga. J comeara a inchar. Vou cantar uma msica para voc disse ela a Alice. Preciso que

    descanse aqui e quando acordar Alexandre estar a seu lado.

  • Os olhos de Alice j tinham fechado enquanto concordava.Lusa entoou primeiro um trecho de uma melodia e depois comeou a cantar

    em voz baixa: Os dois se unem, os dois se tornam um,Com a unio vem o poder, o controle sobre todos.Inundada pela luz, a sombra cair.O Exrcito voltar; a escurido cair. Alice adormecera quando ela terminou.Lusa ficou em p e observou a cena, seus olhos desesperados procurando

    uma criana pequena. Se ele estava com Alice durante a caada, no poderia terido muito longe. No estaria nos escombros... deveria ter fugido. Mas, por quedeixaria a me? Os Gulnog o teriam levado como...

    Lusa sentiu algum puxando os frangalhos de sua saia. Olhou para baixo eviu o menininho de cinco anos, pequeno, imundo, de olhos assustados. Lusaabaixou-se e carregou-o.

    Alexandre! Estvamos procurando voc. Ela abraou-o com fora. Eu estava escondido disse ele. A mame ficou machucada e os

    monstros vinham chegando. Menino esperto disse Lusa gentilmente. A mame s machucou o p,

    mas vai ficar boa logo, Est dormindo agora.Alexandre fez que sim, com o rosto apertado no ombro de Lusa. E agora eu preciso que voc seja muito corajoso disse Lusa. Temos de

    achar as pessoas que esto mais feridas e coloc-las de volta na caverna. Vai serperigoso para elas se ficarem aqui fora muito tempo.

    Mas, e se os monstros voltarem? perguntou Alexandre, com os olhosarregalados ao fit-la.

    Eles no viro disse uma nova voz por trs dela.Era Orrin, surgindo em meio s rvores. No esta noite, disse ele. E ns vamos procurar um novo esconderijo

    amanh. Pedro saiu para ver Peras falou Orrin a Lusa. Vamos ajudar o restante

    dessas pobres pessoas a voltarem l para dentro.No levou muito tempo para terminarem o trabalho. Alexandre correu na

    frente deles, chamando os amigos pelo nome quando os encontrava. Lusa eOrrin carregaram juntos os feridos para dentro. Durou pelo menos uma hora at

  • conseguirem transportar todos. Os que estavam menos machucados comearama tratar dos mais fracos.

    Mais pacientes para voc, Consoladora disse Orrin com um sorriso.Lusa sorriu e deu uma olhada para o cu diante dos escombros que haviam

    sido o seu tnel. Seria madrugada antes que percebessem, e Peras e Pedro aindase achavam na floresta. O que Peras faria a Pedro quando se encontrassem? Elavoltou-se outra vez para os feridos. Eram eles que precisavam dela agora.

    A garota foi ento para o lado de Jlia. O sangue coagulara e secara em seucabelo e quando Lusa pegou sua mo ela comeou a acordar de seu sono.Piscou e olhou para a meia-irm como se ela fosse uma completa estranha.

    Pedro disse ela. Pedro est bem? Ele saiu procura de Peras respondeu Lusa. Voc lembra o que

    aconteceu? Os Gulnog vieram disse Jlia. E no conseguimos lutar contra eles. Mas isso no vai continuar assim por muito tempo retrucou Lusa. Vamos levar a luta at a Sombra, Jlia. Ela no vai derrotar-nos no vai!

    Voc e eu ns vamos mostrar aos Gulnog que o povo de Aedyn ainda podelevantar-se. Vamos mostrar para eles que o povo do Senhor dos Exrcitos temum poder que eles no podem igualar!

    Jlia deu um risinho leve e depois colocou a mo no rosto com um gemido. No tente mover-se muito ainda disse Lusa. Voc levou um golpe

    terrvel na cabea. Eu estava tentando fugir de... Eu tinha... Oh, no! Jlia sentou-se,

    estremecendo ao fazer isso. Apalpou o cho ao seu redor como se procurandoum objeto perdido.

    O que ? O que est procurando? O talism! disse Jlia gemendo outra vez. Eu o tirei do esconderijo onde

    Pedro o colocara quando soubemos que os Gulnog estavam chegando. Eu o tivenas mos!

    Voc no tinha nada nas mos quando a encontramos disse Lusaintrigada. Eu teria notado.

    Voc certamente o teria visto replicou Jlia. Tem um brilho azulado. Ela estremeceu. Aquela miservel criatura deve t-lo roubado. Que lstima...Pedro ficar furioso quando souber. Oh! Por que no o deixei onde estava?

    O rosto de Lusa empalideceu. O talism. Porque se voc o tivesse, os Gulnog nos teriam matado a todos at

    encontr-lo. Por ter sado com ele, voc na verdade nos salvou.

  • Jlia no pareceu confortada com essas palavras. Acho ento que teremos de roub-lo de volta. E depois disso enfrentaremos

    a Sombra.

  • PCaptulo

    5edro correu por entre as rvores, sem prestar ateno ao barulho que fazia. OsGulnog tinham ido para o oeste e ele se dirigia para o leste. Alm disso, no

    se importariam muito com ele de qualquer modo. J haviam feito o seu trabalhonoturno.

    O rapazinho no ousou chamar Peras; mas, na verdade no precisava. Sabiaexatamente onde ele se achava: l embaixo, nas praias; examinando o lugar deonde partiriam e os suprimentos que haviam reunido. No era muito longe emesmo no escuro conhecia o caminho.

    Pedro j respirava com dificuldade ao aproximar-se do mar. Ao contrriodas praias maravilhosas de Aedyn, aquele litoral era pedregoso e sem graa. Asondas escuras batiam nas rochas e o vento soprava ao redor da cabea de Pedro.Aqui, pelo menos podia respirar livremente. Aqui, o cheiro viciado parecia terdesaparecido.

    Pedro dobrou-se, pressionando os joelhos com as mos e engolindo aslufadas de vento. Mesmo no ar frio ele suava e agora que parara de correr, podiasentir cada msculo gritando, sentir as centenas de arranhes causados pelosgravetos e ramos que cortaram seus braos e pernas enquanto corria. Mas,depois de um momento, endireitou-se e olhou ao redor, percebendo que estavacompletamente sozinho.

    Onde Peras tinha ido?Pedro esquadrinhou a praia, procurando a figura familiar de Peras. No

    estava em lugar algum. Pedro rodeou a boca com as mos em concha e chamouPeras no muito alto, pois no havia necessidade de enfrentar riscos. No teve,porm, resposta.

    Depois de um momento Pedro deixou-se cair sobre uma rocha com o queixonas mos. Se Peras no estava ali se no estava investigando o ponto de partidadeles ento, onde estaria ele?

    Ser que Lusa tinha razo?Ele sacudiu a cabea. claro que no poderia ser isso. Ela estava delirando

    quando dissera aquelas coisas sobre Peras. A tenso do ataque dos Gulnog quea fizera falar desse modo. Peras deveria estar por ali ou ento passara por elena floresta.

    Claro que era isso. Ele tivera tanta pressa para chegar praia que nemnotara Peras no escuro. Como fora tolo! E agora devia certamente voltar e

  • ajudar Lusa na caverna ver como Jlia se achava. Peras j teria voltado paral e agora todos certamente estariam sua procura.

    Pedro ficou em p e olhou para o caminho que havia feito. A floresta pareciaterrivelmente escura. Ele daria qualquer coisa para ver o sol de novo, para corrersob um cu azul brilhante. Mas, por agora, viviam debaixo da Sombra.

    No por muito mais tempo, pensou. Em breve estariam em Aedy n e aSombra nunca os tocaria ali. Com esse pensamento alegre na cabea e umsorriso nos lbios, Pedro voltou floresta na direo da caverna, balanando osbraos enquanto caminhava.

    A viagem de volta parecia mais rpida surpreendente como uma boaatitude ajuda voc! Ele at assobiou um pouco ao chegar parte do caminho quesempre o preocupava mais o pedao que acompanhava a beirada de umdespenhadeiro. E no demorou muito para encontrar-se de volta entrada dacaverna.

    Jlia e os outros tinham desaparecido. Lusa deveria t-los levado paradentro. Havia ainda alguns corpos ali, pessoas que ele conhecia. Precisavamcomear a enterr-los imediatamente. Pedro subiu pelas rochas e entrou nacaverna. A cena com que se deparou, no entanto, no era o que esperava.

    Peras havia de fato voltado caverna. Ele se achava na frente da entrada,com alguns dos homens das jangadas ao seu lado. Mas no parecia estarorganizando os feridos ou preparando as pessoas para comear o enterro dosmortos, ou trabalhando nas jangadas. Encontrava-se na frente de Lusa, com osbraos compridos nos quadris e sem mostrar aquele sorriso alegre que semprefora to reconfortante. Lusa o encarava como se estivesse pronta para umataque.

    Pedro sentiu a tenso na caverna e quase no conseguiu forar-se aparticipar da cena.

    O que est acontecendo?Lusa voltou-se rapidamente para ele. Voc est de volta. timo.Peras, ao ver Pedro ali, ofereceu a mo para ajud-lo a passar pelos ltimos

    escombros. Onde voc estava? perguntou Pedro. No o encontrei na praia. Devemos ter-nos desencontrado na floresta respondeu Peras.Pedro concordou exatamente como pensara. Nada estranho e a atitude

    raivosa de Lusa iria passar...

  • Gostaria que voc estivesse aqui disse Pedro. Se estivesse poderia terimpedido tudo que aconteceu. Eu queria ter visto isso.

  • Peras levantou uma sobrancelha. Poderia ter impedido? A sua consoladora aqui parece pensar que eu

    organizei o ataque.Lusa no disse uma palavra. Suas mos continuaram firmemente plantadas

    nos quadris.Pedro pensou que nunca a vira com uma aparncia to determinada desde o

    dia em que ela cortara todas as fitas do vestido de aniversrio de Jlia. Aquela,porm, era uma nova Lusa. Ele forou uma risada, que pareceu mais spera doque pretendia.

    Voc conhece as meninas e suas ideias absurdas.Lusa pareceu chocada, mas Peras parecia satisfeito.

  • Muito bem dito, Pedro. Venha agora disse colocando a mo no ombro dePedro. Preciso falar com voc.

    Pedro resistiu delicadamente. Claro, mas primeiro onde est Jlia? Estou aqui a voz de Jlia surgiu por trs da meia-irm.Pedro rodeou Lusa e Peras para chegar at onde sua irm estava deitada no

    cho, tendo provavelmente perdido seu velho cobertor durante o ataque. Seurosto estava mais corado agora, ganhara um brilho nos olhos e Pedro sorriu aov-la.

    Lusa no quer que eu me levante ainda disse ela. No se preocupe falou Pedro. Vai ficar boa antes das jangadas. Depois

    poder descansar o tempo todo at Aedyn. Ao chegarmos l voc vai poder...O rapaz foi interrompido por uma tosse atrs dele e voltou-se para Peras.O salvador de cabelos dourados o puxou um pouco. No podemos arriscar isso, Pedro. No podemos levar todos. O qu? perigoso demais. Fazer todos atravessarem a floresta lembre-se do

    despenhadeiro e depois de uma semana de viagem em um mar tempestuosonesta poca do ano, em jangadas que enfrentaro o mar com dificuldade, feitasde lascas de madeira e cordas... demais Pedro. A maioria deles no resistiria.

    Mas temos praticamente s trinta agora. Dez de ns seremos capites. Comcerteza poderemos colocar mais vinte a bordo.

    Pedro olhou o grupo desorganizado na caverna. A maior parte comcurativos enrolados num dos membros. Alguns tossiam, outros gemiam. Todosdesesperadamente famintos. Ele fitou Gregrio, cuja face mostrava umaexpresso dura como ao. O brao pendia ao seu lado, A tipoia desaparecera.Pedro lembrou-se de seu desejo de abandonar Gregrio na floresta.

    No podemos deixar ningum, Peras. Voltaremos para apanh-los depois, Pedro replicou Peras, rodeando o

    ombro dele com um brao confiante e fazendo-o virar-se. Navegaremos atAedy n, encontraremos armas, construiremos um navio de guerra grande evoltaremos vitoriosos para lev-los para casa conosco.

    Entendo disse Pedro. Aquela conversa parecia um tanto estranha, masele no conseguia descobrir a razo.

    Suponho que ajudaria se eles no tivessem de ser movidos no momento.Poderiam fazer uso do tempo para restabelecer-se.

  • Isso mesmo retrucou Peras. Muito sensato da sua parte. Temos deesperar at que fiquem mais fortes.

    Pedro sentiu uma dor forte e repentina na cabea. No podemos deix-los aqui nos escombros. Os Gulnog voltaro. Temos

    de retir-los primeiro. No h tempo, Pedro. preciso trabalharmos sem parar para construir as

    jangadas e partir antes de os Gulnog voltarem. Mas...Peras afastou Pedro ainda mais do grupo. Olhe para eles, Pedro. Esto fracos. Invlidos. Praticamente inteis. Ele

    falou em voz baixa ao ouvido de Pedro. No vo ficar mais fortes. Olhe emvolta. No tm comida, remdios, curativos absolutamente nenhumaesperana. Est na hora de salvar-nos, amigo. Voc e eu e alguns dos outros.Podemos ainda chegar a Aedyn.

    Pedro sentiu que concordava. Sim, construiremos as jangadas. Depressa. Temos de partir. tudo para o

    bem. Muito sensato. Ele colou um sorriso no rosto e evitou olhar para qualquerpessoa, evitou Gregrio. Muito sensato mesmo.

  • -VCaptulo

    6oc o viu? Voc o viu? Ouviu o que ele disse? Jlia bateu os ps contra ocho rochoso da caverna enquanto andava de l para c perto da entrada.

    A coisa sensata disse ele. Sensata deixar ns todos aqui para morrer!Lusa no levantou a cabea de seu trabalho. Ela estava sistematicamente

    rasgando tiras de tecido de um cobertor mofado e as enrolando bem apertadasem torno do tornozelo inchado de Alice.

    Pedro apenas esqueceu disse ela com os dentes cerrados enquantorasgava uma nova tira.

    Esqueceu o qu? Que o amor mais forte que a razo. Depois de remover completamente

    a tira, Lusa a colocou debaixo do tornozelo de Alice e uniu as duas pontas. Elalevantou os olhos para Jlia, fitando-a com ternura. No se preocupe disseela. Ele vai lembrar.

    Jlia resmungou alguma coisa sobre a absoluta inutilidade dos irmos.Lusa terminou seu trabalho no tornozelo de Alice. Pronto disse ela dando o n final com um floreio dramtico. Bom

    como novo. Bem... riu ela quando Alice tentou sem sucesso dobrar o p. Vaificar bom como novo. Basta dar um tempo.

    Tempo resmungou Jlia. A nica coisa que temos de sobra. Tempo parasentar e esperar a morte.

    Bobagem disse Lusa. Sinceramente, se voc for continuar com essetipo de atitude, melhor que saia em busca de cogumelos ou encontre algo tilpara fazer. Temos trabalho a ser feito aqui.

    Que tipo de trabalho? Alm de levar nossos mortos para descansar? Ora, pegar aquele talism de

    volta e derrotar a Sombra, tolinha. Lusa levantou uma sobrancelha e inclinou acabea para o lado. A mame podia estar certa. Voc um pouco obtusa svezes.

    Jlia franziu a testa, mas Lusa deu uma risada cheia de alegria e nocrueldade. Quando falou de novo, sua voz ergueu-se e ela se dirigiu ao pequenogrupo de pessoas na caverna:

    Vocs ouviram isso? Temos trabalho a fazer! Trinta pares de olhos tudoo que restara do povo de Aedyn olharam para o rosto radiante dela. Duranteo ataque, os Gulnog encontraram o talism do Senhor dos Exrcitos. Temos depeg-lo de volta.

  • Jlia, que estava realmente fazendo fora para no dizer alguma coisaodiosa, moda de Pedro, achou que pelo menos devia questionar o plano deLusa.

    Ele no nos salvou da primeira vez disse ela como ir ajudar-nosagora?

    Vai iluminar o nosso caminho. Lusa falou com tanta certeza que Jliacalou-se, decidindo deixar seus protestos para mais tarde.

    Vamos certamente precisar dele no vulco continuou Lusa.Jlia espantou-se. As faces das pessoas ao redor haviam empalidecido e uma

    tempestade de protestos surgiu ao redor dela.Lusa levantou a mo e depois de um momento os murmrios cessaram. Temos de ir ao vulco disse ela pois ali que a Sombra mora e ser ali

    que o Senhor dos Exrcitos vai nos ajudar na derrota dela. Bem ali, na suaorigem.

    A moa olhou ao redor, talvez esperando gritos de aplauso, mas s recebeuolhares desanimados.

    Ou prosseguiu ela lentamente podemos correr. Afastar-nos da Sombrae tentar fugir frente dela. Encontrar um lugar onde no possa achar-nos eesperar que v embora por conta prpria. Esta a escolha que faremos hoje.Corremos ou ficamos?

    Ouviram-se aplausos desta vez, embora no to animados quanto Lusagostaria. Mesmo assim, Lusa sorriu como se eles tivessem acabado de eleg-lapara o Parlamento. Seu riso era contagioso e at Jlia abriu um sorriso.

    Lusa levantou a mo pedindo outra vez silncio. Vamos trabalhar disse. A fim de pegarmos esse talism de volta

    precisamos aprender tudo sobre os Gulnog. Seus hbitos, seus movimentos, suasarmas, onde fazem acampamento. Tudo. Ela acenou para Gregrio. Vocpode ajudar-nos nesse ponto. Precisamos de um observador e voc j temexperincia com as criaturas.

    No foi uma experincia que eu gostaria de repetir retrucou ele rindonervosamente. Mas aceito.

    Estar seguro. Todos estaro em segurana disse Lusa. Nuncaesqueam, vamos ficar sob a proteo do Senhor dos Exrcitos. Ele vai cuidar dens mesmo sob a Sombra.

    Jlia gostaria de participar do otimismo de Lusa, mas no conseguia. Ajulgar pelos rostos sua volta, ela no estava sozinha nisto.

  • Seguros? perguntou Imogene em voz descrente. Menos de uma horaatrs esses monstros vieram e derrubaram a parede rochosa de nossa caverna.Eles mataram meu Simeo e minha Elmira. Por que o Senhor dos Exrcitos nonos manteve em segurana ento?

    Outras pessoas concordaram, embora ningum falasse. Jlia acabouapoiando Imogene sentindo-se ao mesmo tempo envergonhada por ter perdidoto depressa a f no Senhor dos Exrcitos.

    Se no estvamos seguros aqui onde nos escondamos e cuidvamos denossos afazeres disse Imogene em voz mais forte o que faz voc pensar queestaremos seguros se formos ao acampamento deles ou quele vulco?

    Algumas pessoas expressaram ento seu apoio. Jlia perguntou-se se Lusano estaria talvez prestes a enfrentar uma rebelio.

    Lusa, porm, no pareceu preocupada. Na verdade, parecia ainda maiscalma do que antes.

    No sei se todos ns vamos sobreviver. No sei se qualquer de nssobreviver.

    Sua fala provocou uma poro de rosnados no grupo. Mas o Senhor dos Exrcitos me prometeu que ele providenciaria para que

    a Sombra fosse derrotada se obedecermos ao seu chamado. Fomos atacadosporque estvamos dando ateno a um servo da Sombra. Vamos agora nosmovimentar para cumprir as ordens do Senhor dos Exrcitos. Obedecer suavontade nem sempre ser seguro, mas a nica forma de vencer a batalha.

  • PCaptulo

    7edro e os outros seguiram Peras at a praia. Era ainda noite, mas o luarbrilhando sobre a crista branca das ondas fornecia luz suficiente para que eles

    enxergassem o seu trabalho. E agora falou Peras vamos construir nossas jangadas. Como temos s

    onze agora, precisamos construir apenas trs. Pedro, faa os homens trazeremdez das toras maiores do nosso depsito.

    Eles comearam assim a construir sua frota. Pedro ainda se sentia um poucoestranho sobre o plano de deixar todos os outros para trs, mas a lgica de Perassoava sensata. E Pedro era a ltima pessoa a duvidar da boa lgica.

    No levou muito tempo para Jlia e Gregrio se organizarem. Eles iriamservir de escoteiros para a primeira viagem. Sua misso era simplesmenteencontrar a base dos Gulnog. Sua tarefa no era mais ambiciosa do que essa.Outros iriam observar os movimentos e a vulnerabilidades deles depois deacharem a base. Quem sabe iriam levar a noite inteira para descobrir ascriaturas e ningum queria arriscar-se a ser descoberto luz do dia.

    Seguiremos para o nordeste primeiro. Com seu brao bom, Gregriotirou um grande pedao de carvo do fogo e rabiscou um mapa simples da ilhaem uma das paredes. Ele havia marcado a caverna, o vulco, o despenhadeiro emais uma dzia de outros pontos entre esses lugares. Rabiscou depois uma linhapreta e grossa da caverna at o vulco.

    Este o caminho que eles fizeram depois do ataque. Vamos segui-los atonde pudermos.

    Voc no vai poder seguir pistas nesta luz disse Lusa. No se preocupe respondeu Gregrio. Os Gulnog no so os nicos que

    sabem caar.Jlia sorriu e colocou mais um cobertor nos ombros. O cobertor no era

    aparentemente mais do que um trapo, mas iria oferecer alguma proteo do arfrio da noite.

    Vamos procurar mais cogumelos.

  • Tragam tantos quantos puderem pediu Lusa.Eles ento partiram.O pessoal conseguira remover a maior parte dos escombros do lado de fora

    da entrada da caverna e os corpos tinham sido removidos para um lugar prximona floresta, de modo que Jlia e Gregrio no tiveram de pular sobre pedrasaguadas ou sobre os cadveres de seus amigos. Uma vez l fora eles seguiramna direo que tinham visto os Gulnog tomar.

    Era impossvel encontrar pistas no escuro, mas o mais casual dosobservadores no poderia deixar de ver que algo grande havia se movido por ali algo enorme. O solo fora completamente esmagado. Arbustos foramarrancados pelas razes. Os Gulnog tinham cortado uma trilha na floresta ao seafastarem do local do ataque.

    Jlia reprimiu seu espanto ao ver o que eles haviam feito. Gregrio olhoupara ela com um sorriso. Tentava encoraj-la, ela sabia; mas a sensao depavor que tomara seu estmago no a deixava. Como poderiam lutar contraaqueles monstros e esperar vencer?

    Ela respirou fundo e pensou nos sombrios senhores de Aedy n: o Chacal, oLeopardo e o Lobo. Eles tambm haviam parecido invencveis. Mas provaramno estar altura do poder do Senhor dos Exrcitos.

    O Senhor dos Exrcitos os protegeria desta vez? Essa era a pergunta-chave.Enquanto caminhava silenciosamente ao lado de Gregrio, ela fez umretrospecto das suas aventuras em Aedyn. Quando estivera ali da primeira vez,se descobrira falando com uma voz que no reconhecia. Palavras que noesperara expressar saram de sua boca. Gritara e trs cavaleiros foram jogadosao cho. Mais tarde, ela e Pedro deram um grito e as protees da cerca quetornaram cativas as crianas de Aedyn desabaram.

    Uma coisa ela sabia: se surgissem novamente problemas, gritaria.O pensamento tornou mais leves os seus passos. Por que no pensara naquele

    grito de poder antes? Talvez fosse isso que o Senhor dos Exrcitos estivesseesperando algum para gritar com f em que ele agiria. Jlia esperava no seencontrar em qualquer situao que a fizesse sentir a necessidade de gritar, mascaso isso acontecesse, daria um grito.

    Jlia e Gregrio tinham pelo menos uma vantagem: era certamente fcilseguir os Gulnog. A caminhada era tambm fcil no havia rvores queprecisassem evitar, nem ramos deixados para bater em seus rostos. No haviaigualmente possibilidade de se perderem, no enquanto se mantivessem nocaminho.

  • Oh, o caminho! Se quisessem manter-se fora de vista, aquele no era omelhor lugar para caminharem.

    Ela colocou a mo no brao de Gregrio o brao machucado delepercebeu, no momento em que o viu encolher-se. Ela desculpou-se e mostrou olado do caminho. Ele pareceu compreender e ainda sem falar os dois deixaram ocaminho e entraram no arvoredo.

    Jlia percebeu que estavam perto do vulco. O solo parecia mais macio aosseus ps e o ar ficou mais sulfuroso. A nuvem escura estendeu-se ainda maiscomo uma onda do mar pronta a cair e afog-los.

    Foi bom terem entrado na floresta como fizeram, pois no demorou muitopara chegarem ao acampamento dos Gulnog.

    J estava escuro demais para ver qualquer coisa, mas os Gulnog seachavam abaixados em grupos ao redor de fogueiras ao ar livre que iluminavamtodo o espao sua volta. Eles se encontravam exatamente na base do vulco,com sua boca gulosa aberta e ainda brilhando bem atrs dos monstros. O calordas fogueiras se alastrara pelo cu e Jlia sentiu que suava debaixo do seucobertor extra. Ela olhou para Gregrio e viu que o rapaz tinha os olhos cheios delgrimas.

    J percebera o motivo. Desesperador. Simples e absolutamente desesperador.Uma nica daquelas criaturas bastaria para liquidar o pequeno grupo desobreviventes que haviam deixado para trs, e ali estavam centenas centenas daqueles monstros. No tinha jeito e era absurdo pensar diferente. Preocupou-seao compreender que Pedro, que vira a lgica em fugir, tivera razo todo otempo.

    Gregrio parecia ter chegado mesma concluso, pois agarrou a mo deJlia e deu um passo para trs. No precisou pedir-lhe que ficasse calada pornada neste mundo ela teria feito um nico som. Eles se afastaram devagar,metro por metro, passo por passo, mantendo sempre os olhos naquelas enormesfogueiras e nos monstros sentados em volta delas.

    Jlia parou de repente.Ela apertou a mo de Gregrio e fez um aceno na direo das fogueiras. Ele

    puxou o brao dela, insistindo para que continuasse a andar, mas Jlia no cedeu.Com a outra mo ela apontou. Gregrio seguiu seu olhar. Jlia esperava que elevisse o que ela vira e compreendesse o que significaria para o povo de Aedy n.

    Perto de uma das fogueiras, no muito longe de onde eles se escondiam, umdos Gulnog levantara. Preso em um de seus slidos ombros estava um cordo ena ponta dele balanava uma corneta de marfim. A corneta que chamara de

  • volta os Gulnog. Se pudessem pegar aquela corneta se pudessem us-la paraafastar os monstros do vulco teriam ento chance de procurar o talism semse preocuparem com o risco de serem descobertos. Se afastassem o suficiente ascriaturas, talvez Jlia e Gregrio conseguissem levar Lusa e os outros at ali eeles entrariam no vulco e combateriam a Sombra tudo sem ter de lutar comseus subordinados.

    A mente de Jlia avanou ainda mais, tentando descobrir como apoderar-sedaquela corneta sem ser vista. Talvez o monstro resolvesse tir-la. Colocaria oobjeto no cho por um momento e ela poderia ento apossar-se dele.

  • Enquanto permanecia ali, em p, a ideia ficava cada vez mais improvvel. Acorneta talvez fosse um smbolo de poder. Nenhum Gulnog estaria disposto aremov-la.

    Gregrio mostrou com o queixo o caminho que tinham percorrido e elesretrocederam o suficiente para poder sussurrar sem medo de que os escutassem.

    Devemos voltar disse ele ao ouvido de Jlia. Encontramos oacampamento. Era isso que devamos fazer. Agora nos reunimos de novo efaremos um plano. Orrin e Priscila sero os prximos. Eles tomaro nota de seusmovimentos e descobriro quando ser oportuno pegarmos o talism.

    Mas, se pegarmos a corneta, talvez possamos us-la para afast-los disseJlia. Talvez deixassem o talism ali e poderamos ficar com ele.

  • Gregrio sacudiu a cabea na mesma hora. Arriscado demais, Jlia.Muitas incertezas. Vamos apenas voltar e descrever o que vimos.

    Mas, se esta for a nossa nica oportunidade? o sussurro de Jlia foi o maisinsistente que pde. Temos de fazer essa tentativa agora. possvel que novejamos nunca mais essa corneta!

    Tentar peg-la? No seja absurda, Jlia. Seramos vistos apanhados e oSenhor dos Exrcitos nos proteja se isso acontecer.

    Jlia sacudiu a cabea, cerrando as sobrancelhas. Vamos esperar replicou. Sempre achamos que eles dormiam durante o

    dia. Lusa sabe que nossa misso poderia ir at a madrugada. Vamos esperar aquia noite inteira.

    Gregrio olhou para ela como se fosse louca. claro que deixaro uma sentinela. No seguro, e como s poucos

    sobreviveram, no podemos ser imprudentes agora. Devemos voltar e fazerplanos com os outros. Era o que acharamos que fizessem se fssemos ns queestivssemos esperando na caverna.

    Ele tinha razo. No havia nada a responder a isso. Todavia, Jlia ficou ondese achava, com os ps plantados firmemente no cho.

    Voc est certo disse finalmente mas vou ficar e tentarei pegar aquelacorneta. Voc volta e explica o que estou fazendo. Diga a Lusa que noconseguiu me convencer porque eu estava sendo medonha. Ela vai entender. Jlia virou a cabea para olhar o acampamento. No sabemos o que vaiacontecer amanh e, se Lusa tiver razo, temos ainda menos tempo do quetemos pessoas.

    Ela se dirigiu para a densa vegetao rasteira e procurou um lugar ondedeitar-se e aguardar.

    Minutos depois, Gregrio se ajoelhou perto dela. Olhe, no vou deixar voc sozinha aqui de modo nenhum.Jlia sorriu e eles ficaram esperando.

    Quando sairmos das ondas de arrebentao disse Peras vamos unir astrs jangadas com cordas. Isto nos dar mais estabilidade nas ondas e no hperigo de sermos separados.

  • Pedro concordou com essa lgica. Ela combinava com o seu conhecimentode cincia nutica. O que desejava possuir um pouco mais, entretanto, era acincia do fogo. Ele ficou em p, coberto at os joelhos pelas ondasterrivelmente frias, enquanto com os outros homens se agarrava s jangadas,preparando-se para lan-las na mar baixa. Oh, como gostaria de ter algum tipode botas aquecidas naquele momento.

    A manh em breve romperia e os msculos de Pedro doam com o trabalhopesado que haviam feito a noite inteira para preparar as jangadas. Sua menteestava to exausta de pensar em tudo que teria adormecido na hora se no fossepela gua gelada. Ele calculou que teria de esforar-se um pouco mais paralevar sua jangada at o ponto em que as ondas ficavam brancas e reviravam.Eles iam amarrar as jangadas e entregar tudo para Peras. Depois poderiadescansar ao sol o lindo sol que no via havia dois meses e dormir um diainteiro se quisesse.

    Orrin olhou para Pedro do outro lado da jangada. Os dois estavam na frente,o que significava que ficariam molhados em primeiro lugar. Mas ali era onde oslderes deviam ficar. Pedro sorriu para Orrin com o que esperava ser um sorrisocorajoso. O sorriso que Orrin lhe devolveu, no entanto, parecia um pouco plido e eles no estavam nem navegando ainda. Pedro verificou se o canivete queencontrara continuava em sua cintura, e agarrou com fora a jangada.

    Depois da prxima onda, pessoal disse Peras. Ele se encontrava em p,no fundo da terceira jangada, um mao de cordas na mo. E, agora!

    Pedro e os outros lanaram suas jangadas na espuma das ondas, sentindo aonda anterior afastando-se deles, ajudando-os. Pedro conseguiu firmar-se najangada, mas Orrin no. Ao redor deles, homens esperneavam e agitavam osbraos, tentando manter as jangadas rumo ao alto-mar.

    Sete minutos de frio intenso mais tarde eles escaparam das ondas dearrebentao. Pedro concordou com a ideia sensata de Peras. Ele tinha razo:no havia meios de fazer as mulheres mais velhas, as crianas e os feridosatravessarem uma arrebentao como aquela. Melhor esperar at que pudessemser levados em um barco apropriado. Pedro guiou sua jangada at onde as outrasduas estavam sendo amarradas juntas.

    Bom trabalho, homens! Peras atirou cordas para os homens na jangadade Pedro e eles comearam a amarr-las nas outras duas. Peras parecia heroicomesmo molhado at os ossos. O cu cor de pssego do alvorecer o iluminavacomo a um super-homem. A viagem vai ser fcil agora disse ele. Quemquer carne-seca?

  • A maioria dos homens estava tremendo demais para parecer interessada emcomer. Pedro, porm, levantou a mo e Peras atirou-lhe um pedao da carnedura. Era melhor do que cogumelos e nozes. No entanto, ele ficou imaginandoquando veriam como o Senhor dos Exrcitos supriria seus filhos.

    Pensar em cogumelos o fez lembrar-se de Jlia. Como ser que os outros esto? No tinha certeza de ter falado em voz

    alta ou s pensado. Nem Orrin ou qualquer dos outros respondeu. O nico somera o bater das ondas entre a madeira das jangadas. Ningum respondeu. Pedrodeveria ter s feito a pergunta para si mesmo, mas ento viu o rosto de Peras.

    O olhar na face do seu salvador era sombrio e irritado. Pedro lembrou-se namesma hora da noite em que eles voltaram sem madeira e cordas suficientes.Como a fria dele surgia depressa. O que poderia t-la causado agora?

    Voc prefere voltar? Peras falara quase num sussurro, embora Pedrotivesse ouvido claramente por sobre as ondas.

    Cabeas apareceram nas jangadas quando os outros olharam em volta paraver o que estava acontecendo.

    Pedro compreendeu que a pergunta era para ele. Hum, no. No at que possamos construir nossa embarcao e voltar com

    todos.O olhar penetrante era profundo. timo, Pedro. Eu no gostaria de pensar que voc estava interrogando um

    mensageiro do Senhor dos Exrcitos. Eu? Nunca. Como eles poderiam ter feito o lanamento das jangadas ao

    mar se dez homens fortes mal conseguiram isso?Isto pareceu acalmar Peras. Seus msculos comearam a voltar ao normal. Exatamente. Voc foi muito lgico a respeito de tudo. Muito cientfico. Pedro tirou um

    pedao de carne-seca como se para provar sua apreciao do que Peras fizerapor eles.

    Eu estava apenas pensando respondeu ele enquanto mastigava o nacosaboroso em minha irm. Ela estava inconsciente quando partimos. Alguns dosoutros estavam...

    Basta! A ira voltara aos olhos de Peras e Pedro s imaginou se eleandaria atravs das jangadas e o atiraria ao mar,

    Cale as suas dvidas, incrdulo!Peras realmente avanou na direo de Pedro. Os homens tiraram as pernas

    e corpos do caminho enquanto Peras caminhava a passos largos atravs das

  • jangadas. Ele ficou em p junto a Pedro e depois abaixou-se. Pedro pensou quefosse gritar com ele, mas em vez disso agarrou Pedro pelo ombro e o levantou noar.

    Peras! disse Orrin. O que est pretendendo? No faa isso! Ponha elede vol...

    Silncio, inseto, ou voc ser o prximo. Com um olhar furioso, Perasfitou Pedro, dependurado acima da sua cabea.

    Teve coragem de duvidar do meu conhecimento, seu sapo? Questionar arazo e a cincia?

    No! Pedro estava agora mais interessado em como seu brao ia serarrancado para fora da articulao, do que em iniciar uma conversa. claroque no. Eu gos... Ai! Gosto de cincias. minha matria favorita. Nada deerrado com a cincia quando corretamente observada. Constru minha vida aored...

    Peras o deixou cair com tanta fora que a jangada quase virou. Est bem. No deixe de lembrar-se disso. Ele voltou para a sua jangada.

    Que todos vocs lembrem-se! Gritou essas palavras para o mar, com osbraos bem abertos.

    Desafiem-me e vo acabar nadando de volta para casa.Pedro massageou o brao. Orrin arrastou-se at ele para ver se podia ajudar,

    mas Pedro sacudiu a cabea. Ele olhou para a jangada mais distante. Peras haviamudado. Ou talvez tivesse sido sempre assim e o rapazinho se recusara a ver isso.Ele olhou para o canivete e jurou ficar pronto caso Peras se aproximassenovamente dele daquele jeito. Mas ser que adiantaria? Olhou de novo para omusculoso bruto de cabelos dourados. Se ele era um mensageiro do Senhor dosExrcitos, alguma coisa estava terrivelmente errada.

    Pela primeira vez desde que Peras entrara na caverna, Pedro sentia medo.

    Animais abominveis.Jlia sacudiu a cabea enquanto observava os Gulnog terminarem sua festa

    selvagem. O esconderijo que compartilhava com Gregrio ficava a cinquentametros de distncia, mas ela podia ver muito bem os modos brutais deles. Com osol nascendo no horizonte, enxergava ainda melhor a violncia.

  • Ela no sabia que espcies de animais os Gulnog tinham comido. Algum tipode veado, no mais das vezes, alm de coelhos e at possivelmente corujas oufalces, e um porco. Os monstros no pareciam se preocupar, contanto que fossecarne vermelha. A garota no os vira comer nenhum ser humano, mas imaginouque achariam delicioso.

    Voc talvez nunca conheceu a sensao de ser a futura refeio de algum.Quando foi, porm, a um zoolgico, ou fez uma explorao, possvel que tenhavisto a fome declarada nos olhos de um leo, urso, lobo ou tubaro. As pessoasvivem pensando que esto no alto da cadeia de alimentos, que se fossemobrigadas poderiam comer qualquer espcie de animal se isso significassemanterem-se vivas. No entanto, quando voc est sendo olhado como nada maisque uma refeio saborosa, isso o faz lembrar que os humanos no so os reis douniverso.

    Os Gulnog nem sequer cozinharam a carne, embora houvesse fogueiras emvolta. A julgar pelo que haviam brigado entre si pelo ltimo animal deixado vivo,o melhor para eles era o mais fresco.

    Jlia notou que o cu havia comeado a iluminar-se. Ela ficou maravilhadacom as transformaes, a primeira vez que vira a luz da alvorada em dois meses.Agora que os raios do amanhecer espiavam entre as rvores o acampamentoimundo deles, os monstros pareceram ficar sonolentos. Eles lamberam os ossosat deix-los limpos, arrotaram e jogaram os ossos no fogo. Deveria haveralgum tipo de hierarquia social, pensou Jlia. Eles chutavam e golpeavam uns aosoutros para conseguir os lugares mais sombreados e se acomodaram paradormir.

    Jlia olhou para Gregrio. Ele tinha conseguido dormir, sujeito de sorte. Elaempurrou seu ombro e ele despertou surpreso.

    O que foi? Esto atacando? Shh! No, est tudo bem Jlia ajoelhou-se para espiar por trs do tronco

    cado em que se escondiam. Gregrio sentou-se. como pensamos falou ela. Eles dormem logo que o sol nasce.

    Gregrio estendeu o brao bom e bocejou. Voc dormiu?Jlia olhou para ele como se dizendo, Voc precisa perguntar? Oh disse ele. Sinto muito. Acho que eu poderia ter vigiado durante

    algum tempo e deixado voc dormir. No tem importncia. Eu no teria dormido de modo algum.Ele esfregou o ombro machucado e arranjou o cabelo.

  • Onde est ento o nosso msico? O qu? Nosso tocador de corneta disse. O gigante de botas. Jlia compreendeu. Ele o chefo aparentemente, por isso pegou o

    melhor lugar. Eles s tm uma cabana em todo o acampamento e essa dele. OGulnog entrou com metade de um coelho h cerca de meia hora e no saiumais.

    Gregrio recolheu os ps como se fosse levantar. Bem, vamos ento agir. Espere! Jlia agarrou o pulso dele. Eles colocaram dois guardas, um de

    cada lado do acampamento. O mais prximo est bem ali, saindo detrs daquelafogueira quase apagada.

    Gregrio olhou para onde ela apontava. Hum... tipinho raqutico para um Gulnog. Deve ter perdido a batalha

    para escolher quem devia vigiar primeiro.Jlia no tinha notado isso antes. Comparado aos outros, aquele guarda no

    passava de um menino. claro que um gigante baixinho continua sendo umgigante.

    Ela achou que ele tinha provavelmente 1,80 m pelo menos. Podiaperfeitamente lutar com os dois ao mesmo tempo e ganhar.

    O que voc est planejando? perguntou Gregrio.Ela ficara esperando que ele dissesse isso. O plano para voc ficar aqui enquanto eu entro sorrateiramente e pego a

    corneta. Voltamos depois para o nosso acampamento, deixamos todos prontosenquanto for ainda dia e voltaremos, expulsando os monstros com um toque decorneta.

    Gregrio fitou-a como se esperando que ela dissesse mais alguma coisa.Jlia sentiu que corava. O qu? Estou esperando pelo fim da piada, claro.Ela ficou zangada. No estou brincando. Esse o plano, quer aceite ou no.O rapaz levantou as mos. No aceito! Voc comeu algum cogumelo venenoso? Esse no um plano,

    Jlia; no passa de loucura. Voc sem dvida vai ser apanhada. No vou. Veja, o guarda mais prximo no est sequer pretendendo

    patrulhar mais o acampamento. Agora que todos adormeceram, ele

  • provavelmente descobrir um lugar com sombra e vai tambm se acomodarpara dormir.

    Provavelmente. Provavelmente e talvez e se vo ajudar voc a servir deaperitivo para os Gulnog.

    Ela o ignorou. Voc no pode fazer isso porque um grande imbecil comum brao machucado. Tropearia em alguma coisa e acordaria o acampamentointeiro.

    Ele aparentava querer objetar e Jlia, portanto, continuou depressa. Sou pequena, inteligente e rpida. Vou correr de um lugar para outro lugar

    rpido como uma brisa e voltarei aqui com a corneta antes de voc conseguirdizer Bob seu tio.

    Ele pestanejou, mostrando surpresa. Quem Bob? No tem importncia. Basta ficar aqui e eu...Gregrio agarrou o ombro de Jlia com fora, mas no indelicadamente. Voc tem certeza de que quer fazer isso, Jlia? Agora que sabemos que

    eles dormem de dia, podemos voltar aqui em poucas horas com todo o nossopessoal. Faremos ento o roubo. Se vai ou no funcionar irrelevante, porquevoc pode afast-los do grupo de um jeito ou de outro.

    Ele voltou-se para olhar a floresta. H uma poro de esconderijos por aqui. O grupo pode ento permanecer

    nessas rvores. Quer o acampamento inteiro acorde e persiga voc, ou se vocsoprar a corneta e eles a seguirem, o restante de ns ir fugir por trs e chegar aovulco. Vamos apenas... Gregrio virou-se. Jlia?

    Ela j se encontrava a vinte metros do acampamento dos Gulnog. Apesar doperigo em que se achava, a garota quase riu. Era bom ver como ele sepreocupava com ela. At daquela distncia podia perceber a preocupao norosto dele. Ela pensou por um momento que Gregrio iria sair correndo atrsdela, mas por sorte ele apenas voltou ao esconderijo deles para observar.

    Para v-la ter sucesso, esperava; no para observar o seu horrvel fim.Jlia lembrou-se de que ia gritar se tivesse problemas. Aquele grito de poder.

    Ao arrastar-se por entre dois Gulnog adormecidos seus roncos quase torepulsivos quanto seu cheiro ela ficou imaginando se conseguiria mesmo gritarou se ficaria amedrontada demais se estivessem quase a captur-la. Prendeu arespirao e continuou se arrastando. S queria ter certeza de que isso noaconteceria.

  • Jlia escondeu-se atrs de uma pilha de lenha. A cabana da corneta seachava a apenas quinze metros de distncia. Ela relanceou os olhos na direo doguarda mais prximo. Ele ainda no se sentara para dormir, mas tambm noestava patrulhando. O Gulnog fora at o despenhadeiro e contemplava dali omar. Parecia estar examinando o mar ou a sombra negra do vulco. Isso no eraimportante... tinha as costas voltadas para ela. Jlia seguiu na direo da cabana.Havia apenas... espantou ento uma mosca... tinha de passar por oito Gulnogantes que... outra mosca sentasse no seu rosto e ela a afugentasse... antes dechegar entrada do...

    O que significariam todas aquelas moscas?Jlia olhou em volta da pilha de madeira e viu o que era a carcaa de uma

    ave grande, talvez uma guia encontrava-se no cho rodeada de penas, pernase c