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O estatuto tico do inconsciente e a presena do analista

Ethical status of the Unconscious and the psychoanalysts presence

Ingrid Vorsatz3*

Resumo: O presente artigo discute, a partir da conceituao do inconsciente por Freud e sua retomada por Lacan, suas implicaes ticas. Procede a um breve exame da dmarche lacaniana que prope considerar o conceito freudiano de inconsciente (das Unbewusste), fundador do campo psicanaltico, enquanto um conceito fundamental (Grundbegriff). Destaca a formulao de Lacan a propsito do conceito de inconsciente enquanto conceito da falta, ressaltando seu estatuto tico e propondo que este, de um lado, convoca o sujeito numa dimenso de responsa-bilidade perante o desejo inconsciente, e, de outro, exige o psicanalista em presena.Palavras-chave: Inconsciente. Desejo. tica. Sujeito. Presena do analista.

Abstract: Considering Freuds conceptualization of the Unconscious and its review by Lacan, the author discusses the ethical consequences of this proposition. Lacans statement on Freudian con-cept of the Unconscious (das Unbewusste) is briefly described as a fundamental concept (Grundbe-griff) of the psychoanalytical field. The paper highlights Lacans proposition of the Unconscious as a concept of lack, emphasizing its ethical status and proposing that this, on one hand, summons the subject to take responsibility towards the Unconscious desire. On the other hand, the psychoana-lysts presence is required. Keywords: Unconscious. Desire. Ethics. Subject. Psychoanalysts presence.

* Rio de Janeiro-RJ-Brasil

Cad. Psicanl. (CPRJ), Rio de Janeiro, v. 38, n. 34, p. 173-185, jan./jun. 2016

ReCoRdaR, RePetiR e elaboRaR

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A inveno freudiana consiste na formulao do conceito de inconsciente (das Unbewusste), marco conceitual fundador do campo psicanaltico, com a publicao de A interpretao dos sonhos (1900). Assim, as formulaes teri-cas extradas da clnica da histeria entre os anos de 1893 e 1895 passaram a ser consideradas como sendo, a rigor, pr-psicanalticas. Cerca de sessenta anos depois, Lacan (1964/1988) efetuou a retomada conceitual do inconsciente freudiano a ttulo de conceito fundamental (Grundbegriff) da psicanlise, indo de encontro apreenso que o reduzia a uma dimenso obscura, como se fora um stio arqueolgico soterrado pelo p dos tempos.

O inconsciente freudiano nada tem a ver com as formas ditas do incons-ciente que o precederam, mesmo as que o acompanhavam, mesmo as que o cercam ainda. A todos esses inconscientes, sempre mais ou menos afiliados a uma vontade obscura considerada como primordial, a algo de antes da consci-ncia, o que Freud ope a revelao de que, no nvel do inconsciente, h algo homlogo em todos os pontos ao que se passa no nvel do sujeito isso fala e funciona de modo to elaborado quanto o do nvel consciente, que perde as-sim o que parecia ser seu privilgio (LACAN, 1964/1988, p. 29).

Vemos que o inconsciente freudiano se demarca de um puro algo antes da conscincia primitivo e/ou involuntrio. No obstante, Freud afirma seu carter primrio; mas se o inconsciente justamente no obscuro, irracional, ou ainda o substrato mais primitivo da conscincia, ento isto significa que o inconsciente primeiro, vale dizer, determinante na ordem psquica, ao pas-so que conscincia apenas secundria isto , coadjuvante e tambm menos importante. Trata-se de afirmar a primazia do inconsciente e no de situ-lo nas profundezas do inacessvel ou ainda do inefvel. Se assim fosse, a interpre-tao psicanaltica seria formulada em termos de uma hermenutica, da mes-ma forma que o texto freudiano seria objeto de uma exegese reverente; numa palavra, a psicanlise se encontraria referida ao registro religioso. Lacan, ao contrrio, interroga se a psicanlise uma cincia menos para responder afirmativa ou negativamente, mas para situ-la em relao cincia moderna (LACAN, 1964/1988, p. 15), a exemplo do que fizera Freud ao alinhar a psica-nlise Weltanschaaung cientfica no que esta apresenta um carter parcial (FREUD, 1933[1932]/1976, p. 211).

A contrapelo de uma abordagem do inconsciente freudiano como um ba repleto de contedos arcaicos e primitivos, Lacan estabelece uma homologia entre inconsciente e sujeito, o que lhe permite cunhar a expresso sujeito do inconsciente. Sujeito, nesse caso, aquele subordinado (sujeitado) ao funcio-namento inconsciente que, conforme afirmamos, a instncia primeira (ou

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o estatuto tiCo do inConsCiente e a PResena do analista

primria). Mas se esta fosse uma determinao estrita, como falar de tica? Esto dados os termos do paradoxo: o funcionamento inconsciente impe, mas no vai por si: cabe ao sujeito se assim ele se decidir fazer valer a sua determinao.

Com efeito, o inconsciente no se situa nas profundezas, mas como ates-ta Freud, sem positiv-lo tem um carter emergencial (isto , caracteriza-se pela emergncia do insensato, e no de um sentido profundo ou inacessvel); no o oposto ou mesmo o negativo da conscincia, mas o seu Outro, isto , alteridade radical. Trata-se de afirmar a operatividade de algo que se apresenta com falha, tropeo, ausncia, ou seja, de uma negatividade operativa que pro-duz efeitos e acarreta consequncias.

O estatuto tico do inconsciente

Freud inferiu o inconsciente a partir de fenmenos aparentemente corri-queiros: o esquecimento de nomes, os lapsos de lngua, os chamados Witz (ou ditos espirituosos) e os sonhos. Na claudicao da conscincia, viu mais do que simples fenmenos aleatrios ou sem importncia: havia ali algo a ser explora-do. Retomando o conceito de inconsciente enquanto um conceito fundamen-tal (Grundbegriff) do campo psicanaltico, Lacan sublinha o carter de descompasso pelo o qual o inconsciente se manifesta:

No sonho, no ato falho, no chiste o que que chama ateno primeiro? o modo de tropeo pelo qual eles aparecem. Trope-o, desfalecimento, rachadura. Freud fica siderado por esses fe-nmenos, e ali que vai procurar o inconsciente. O que se produz nessa hincia, no sentido pleno do termo produzir-se, se apresenta como um achado. Aquilo pelo qual o sujeito se sente ultrapassado, pelo que ele acaba achando ao mesmo tempo mais e menos do que esperava. Ora, esse achado, uma vez que ele se apresenta, um reachado, e mais ainda, sempre est prestes a escapar de novo, instaurando a dimenso da perda (LACAN, 1964/1988, p. 29-30, grifos do original).

O inconsciente no inferido por Freud a partir da conscincia (ou de uma consistncia), mas de uma hincia. Algo se produz enquanto presena fugaz, evanescente, impossvel de ser apreendido, pois mal faz sua apario e logo escapa. O inconsciente se produz enquanto perda, instaurando a prpria dimenso da perda. O achado o termo utilizado por Lacan trouvaille , sempre em desalinho em relao ao esperado, parece estar referido ao tema do

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encontro, em relao ao qual Lacan cita a clebre frase de Picasso: Eu no procuro, acho (LACAN, 1964/1988, p. 14). A visada da procura implica em que se saiba (ou ao menos se suponha) de antemo o que se espera encontrar; j a dimenso do encontro porta o novo, a surpresa, o inesperado, e implica no reconhecimento de uma verdade, que no estava l antes. De acordo com La-can, procurar supe uma afinidade entre a pesquisa cientfica e o registro religioso; j encontrar de ordem tica (cf. LACAN, 1964/1988, p. 15).

A primeira caracterstica atribuda ao inconsciente freudiano por Lacan o carter descontnuo por meio do qual ele se apresenta. Assim, se o incons-ciente pode ser apreendido como presena, apenas enquanto presena de uma falta. Acompanhemos seu encaminhamento:

A descontinuidade, esta ento a forma essencial com que nos aparece de sada o inconsciente como fenmeno - a descontinui-dade, na qual alguma coisa se manifesta como vacilao. Ora, se essa descontinuidade tem esse carter absoluto, inaugural, no caminho da descoberta de Freud, ser que devemos coloc-la sobre o fundo de uma totalidade? Ser que o um anterior descontinuidade? (LACAN, 1964/1988, p. 30, grifos do original).

Acentuando o carter descontnuo sob o qual o inconsciente aparece como fenmeno curioso fenmeno este que se apresenta de modo assaz ne-gativo Lacan parte do prprio termo utilizado por Freud para designar o inconsciente: das Unbewusste. Primeiramente, coloca-se a seguinte questo: tratar-se-ia de afirmar que h um campo perfeitamente constitudo, contnuo, totalizado (por exemplo, a conscincia), em relao ao qual algo emerge sob a forma de falha, ou ainda de erro?

Na contramo dessa concepo, Lacan ir dizer que o Un do Unbewusste1 (o in do inconsciente) no constitui uma partcula de negao, privativa. O inconsciente no o oposto ou o negativo da conscincia: no significa incons-ciente como algo no consciente. Ou seja, no designa apenas a qualidade ou atributo daquilo que no consciente, pois de acordo com essa acepo do termo e tambm do conceito a referncia maior seria a conscincia en-quanto totalidade (anterior descontinuidade). Tampouco o conceito de in-

1 O idioma alemo discrimina dois usos do termo, a saber: o adjetivo unbewusst em relao ao qual a partcula un designa apenas a negao do que consciente (da mesma forma em portugus: inconsciente); e o substantivo das Unbewusste cunhado por Freud, que designa o inconsciente enquanto sistema psquico. Ainda a esse respeito, reportar-se distino efetuada por Freud entre inconsciente descritivo e inconsciente dinmico (ou sistemtico) (FREUD, 1923/1976, p. 77 a 79).

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