O FUTURO DO CRESCIMENTO ECONÔMICO DIANTE DA ?· 1. Introdução No princípio, o comércio de bens…

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  • O FUTURO DO CRESCIMENTO ECONMICO DIANTE DA GLOBALIZAO DIGITAL: CONTRIBUIES AO EDITAL DE LICITAO 5G NO BRASIL

    Dbora de Souza Leo Albuquerque1

    Ugo Silva Dias2

    Resumo

    O comrcio mundial de bens e o fluxo financeiro entre pases vm sofrendo desacelerao nos ltimos anos, ao contrrio do trfego de dados, que cresce exponencialmente. Atravs de dados secundrios e de levantamento bibliogrfico, este trabalho apresenta um estudo comparado desse processo para o mundo e para o Brasil. Seguindo a mesma metodologia, os autores tambm analisam em que medida os dados possibilitam surgimento de novos servios e de novos modelos de negcios no mundo e no Brasil e como o surgimento das novas geraes de comunicaes mveis acompanha e acelera esse processo. Conclui-se ento que a quinta gerao de comunicao mvel (5G) deve dinamizar muito a economia. Apesar dessa importncia para o futuro do crescimento econmico, a 5G e seu edital de licitao tm sido pouco discutido no Brasil. Esse debate o objetivo principal deste trabalho. Como resultado, o compromisso de permanncia em territrio nacional de dados criados dentro do pas via 5G proposto para integrar seu futuro edital de licitao.

    Palavras-chave: Edital de Licitao. Crescimento Econmico. TIC. Brasil.

    Abstract

    World trade in goods and the financial flow between countries have been slowing down in recent years, unlike data traffic, which is growing exponentially. Through secondary data and bibliographic survey, this work presents a comparative study of this process for the world and for Brazil. Following the same methodology, the authors also analyze the extent to which the data allow the emergence of new services and new business models in the world and in Brazil and how the emergence of the new generations of mobile communications accompanies and accelerates this process. We conclude that the fifth generation of mobile communication (5G) should make the economy much more dynamic. Despite this importance for the future of economic growth, 5G and its bidding document have been little discussed in Brazil. This debate is the main objective of this work. As a result, the commitment to keep in national territory the data created within the country via 5G is proposed to integrate its future bidding document.

    Key words: Rules. Law. Economic Growth. ICT. Brazil.

    1 Economista e mestranda em Telecomunicaes e Redes de Comunicao de Dados pela Universidade de Braslia (UnB). Especialista em Economia e Finanas, exerce a profisso no Ministrio da Cincia, Tecnologia, Inovao e Comunicaes (MCTIC). 2 Mestre e doutor em Engenharia Eltrica pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professor Adjunto do Departamento de Engenharia Eltrica da Universidade de Braslia (UnB), onde leciona Telecomunicaes e Redes de Comunicao de Dados.

  • 1. Introduo

    No princpio, o comrcio de bens caracterizou o modelo de negcios no capitalismo. A compra de mercadorias onde elas eram mais baratas e a venda onde eram mais caras impulsionou a conquista dos mares e o desenvolvimento do comrcio martimo no sculo XV. Liderado por Portugal e seguido por Frana, Inglaterra, Espanha, entre outros, o capitalismo mercantil se tornou determinante na definio de padres de produo, distribuio e consumo de bens e servios.

    As especiarias eram baratas na ndia, porm caras na Europa. Esse diferencial de preo gerava oportunidade de negcio aos comerciantes que atravessavam o mar em navios europeus, auferindo lucros de at 400% (ROCHA e CORDEIRO, 2016 p.47). Tais especiarias conferiam status e bem-estar aos consumidores europeus que, paulatinamente, deixavam o sistema feudal e aderiam ao capitalismo mercantil.

    Com o advento da revoluo industrial britnica no sculo XVIII, repetida na Europa ocidental e nos Estados Unidos, o modelo de negcio predominante deixou de ser aquele baseado na diferena de preos entre as regies e passou a ser baseado no preo das manufaturas industriais. Isto , os empreendedores utilizavam mquinas para a produo do maior nmero possvel de bens no menor tempo possvel de produo, para que o bem final chegasse ao mercado a baixo custo. Como as inovaes nos negcios acontecem antes das regulamentaes intervirem no modus operandi, na poca da revoluo industrial era comum o emprego de mo de obra infantil, idosa, de remunerao mais baixa que um salrio mnimo, tudo visando tornar os custos menores possveis.

    J no capitalismo financeiro, a partir de fins do sculo XIX, a distribuio das manufaturas industriais se dava atravs da navegao e do transporte terrestre, facilitados pela inveno da mquina a vapor e do telgrafo. A Europa passou a absorver volumes crescentes de produtos primrios minerais, alimentos e fibras produzidos por pases como os Estados Unidos, Canad, Austrlia, Argentina, Brasil e pases da sia. E esses pases tornaram-se importantes consumidores, no s de produtos, como de servios financeiros do centro industrializado da economia mundial.

    Nessa terceira fase do capitalismo, os bancos exercem papel central no modelo de negcios: participam ativamente na atividade econmica emprestando dinheiro s empresas ou investindo diretamente. A maioria das empresas participam das bolsas de valores e o modelo de negcios voltado para a maximizao de captao de recursos financeiros tanto nas bolsas de valores quanto junto aos bancos. Novamente aqui, as inovaes no mercado financeiro aconteciam previamente regulamentao do Estado, situao que facilitou a crise financeira de 1929 (Conceio, 2009). Ideias defendidas pelo pensador John Maynard Keynes (Keynes, 1936) caracterizaram os anos ps-Segunda Guerra Mundial (1945) aos meados dos anos 1970 e propunham polticas como o do Estado de Bem-Estar Social, prevendo a proteo do trabalhador contra o desemprego, a fixao do salrio mnimo, entre outras medidas intervencionistas.

    A quarta fase do capitalismo seria o informacional, conforme mostra Castells em sua obra A Sociedade em Rede. Ainda no completamente aceito entre os tericos, essa fase atual do sistema capitalista teria a tecnologia da informao e comunicao (TIC) como o paradigma das mudanas sociais, a partir de 1980. Dessa forma, o modelo de negcios passa a envolver as tecnologias transmissoras de informaes dos produtores para os consumidores e reveladoras das preferncias dos consumidores. Assim, os consumidores obtm informaes sobre onde e como o bem foi produzido, locais de venda e etc, maximizando seu bem-estar. Por sua vez, os produtores sabem o tipo de produto preferido dos consumidores de acordo com a idade deles, o sexo, regio e suas rendas e, assim, maximizam suas receitas atravs da discriminao de seus produtos. Agora, o modelo de negcios est voltado para a agregao de valor e diferenciao/customizao de produtos e servios. Nesse contexto, as publicidades e compras pela internet tm se tornado uma realidade cada vez mais frequente, concomitante valorizao da credibilidade das informaes, segurana no trfico de dados e da agilidade na transferncia deles. Esse fenmeno analisado neste trabalho atravs de estudo comparativo entre o mundo e o Brasil, feito com dados da

  • UNCONTRADE, UNCTAD e Mckinsey, alm de levantamento bibliogrfico. Ademais, dados da Webshoppers (2016), TIC Domiclios (2015) e TIC Empresas (2015) so expostos ao se explicar como os servios de telecomunicaes - principalmente mveis - contribuem para o surgimento de novos servios e de novos modelos de negcios no Brasil.

    No capitalismo informacional, os servios de telecomunicaes ganham papel de destaque pois viabilizam a troca e a gerao de dados. Os dados, por sua vez, potencializam o surgimento de novos servios e de novos modelos de negcios, gerando renda, tributos e postos de trabalho, ou seja, dinamizando a economia. Apesar dessa importncia para o futuro do crescimento econmico, a evoluo das comunicaes mveis, seus editais de licitao e as possibilidades de gesto dos dados no Brasil, permanecem com potenciais de debate pouco explorados.

    Objetivando analisar a influncia das TICs para o crescimento econmico e apontar estratgias para a insero do pas no contexto da globalizao digital, principalmente atravs de sugestes para o edital de licitao 5G, o presente trabalho compara compromissos presentes nos editais de licitao 3G e 4G com os possveis compromissos para o edital da prxima gerao, previsto para 2020. Reviso bibliogrfica e comparao de estratgias de gesto de dados entre pases, so usadas visando alcanar resultados passveis de contribuio para o futuro edital de licitao no Brasil.

    Para tanto, a prxima sesso mostra, para o mundo e para o Brasil, como tem se comportado, nas ltimas dcadas, o comrcio de bens, o fluxo financeiro e o fluxo de dados, respectivamente. J a terceira sesso mapeia a forma como a internet e os dados esto sendo utilizados para fins econmicos no Brasil. A sesso seguinte expe como a prxima gerao de comunicao mvel deve catalizar a gerao de riquezas no futuro digital. A sesso cinco, por sua vez, traz sugestes para estratgia digital brasileira no mbito do edital de licitao 5G. Antes das referncias bibliogrficas, a sesso seis traz as concluses deste trabalho.

    2. O comportamento do fluxo de bens, financeiro e de dados mundo e Brasil

    A partir da United Nations Commodity Trade Statistics Database (UN COMTRADE), base de dados de comrcio internacional da Organizao das Naes Unidas (ONU), percebemos uma desacelerao no comrcio de bens no Brasil e no mundo aps a crise econmica de 2007. Os valores das figuras dessa sesso compreendem a soma dos valores importados com os exportados.

    Fig. 1. Valor anual do comrcio de bens no Brasil (eixo direito) e do mundo (eixo esquerdo), em bilhes de dlares, de 1989 a 2015.

    Fonte: Uncomtrade - ONU. Elaborao prpria.

  • No apenas o comrcio de mercadorias parece estar perdendo fora; o fluxo financeiro do Brasil e do mundo