O GRITO DA TERRA E O GRITO DOS POBRES

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  • ORDO FRATRUM MINORUM

    O GRITO DA TERRA E O GRITO DOS POBRES

    Um subsdio da Ordem para o cuidado da Criao

  • CNTICO DO IRMO SOL

    Altssimo, onipotente, bom Senhor,teus so o louvor, a glria, a honra e toda bno. S a ti, Altssimo, so devidos; e homem algum digno de te mencionar.

    Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor Frei Sol, que dia e nos iluminas por ele. E ele belo e radiante com grande esplendor; de ti, Altssimo, carrega a significao.

    Louvado sejas, meu Senhor, pela Irm Lua e as Estrelas, no cu as formaste claras e preciosas e belas.

    Louvado sejas, meu Senhor pelo Frei Vento, pelo ar, ou nublado ou sereno, e todo o tempo, pelo qual s tuas criaturas ds sustento.

    Louvado sejas, meu Senhor pela Irm gua, que muito til e humilde e preciosa e casta.

  • Um subsdio da Ordem para o cuidado da Criao

    O GRITO DA TERRA E O GRITO DOS POBRES

    Roma 2016

    ORDO FRATRUM MINORUM

  • Capa: Dario Fo (tcnica mista), LU SANTO JULLARE PREDICA AGLI UCCELLI

    Ilustraes internas: Arthur Azivedo (in ferro), Capela OFM, Tafara, Harare, Zimbabue.

    OFM Communications OfficeVia di Santa Maria Mediatrice, 2500165 Rome, Italy - www.ofm.org

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    Pergunta, pois, ao gado e ensinar-te-, s aves do cu e informar-te-o.

    Os rpteis da terra dar-te-o lies, os peixes dos mares te ho de narrar:

    quem no haveria de reconhecer que tudo isso obra da mo de Deus? Em sua mo est a alma de todo ser vivo

    e o esprito de todo homem carnal. (J 12,7-10)

    Nestas frases lricas, o Livro de J exorta a pessoa humana a ser aberta e disposta a aprender dos animais, dos pssaros, dos peixes e, por fim, da prpria terra. Trata-se de uma passagem que ressoa nas pessoas de boa vontade, em particular naquelas que foram tocadas pela maravilhosa riqueza da tradio franciscana.

    O livreto que voc se prepara para ler tambm uma exortao para ser aberto ao mundo que nos circunda, para escutar com ateno a todas

    PREFCIO

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    as criaturas que habitam este pequeno planeta, a nossa casa comum. Este nasce de uma preocupao urgente que O grito da Terra e os Gritos dos Pobres so ignorados e que, como Franciscanos, precisamos ser colaboradores no dilogo, oferecendo a nossa contribuio especfica cura do nosso mundo e das pessoas que vivem nele.

    Este breve documento tem suas razes nas tradies Franciscana e bblica, e exprime intencionalmente a mesma tradio em colaborao com a cincia contempornea. Este era o desejo expresso pelo Captulo Geral1 de 2015, que pediu um subsdio para o estudo sobre o cuidado da criao que tivesse uma slida base bblica, eclesial, franciscana e cientfica. A teologia e a cincia so duas perspectivas diversas que juntas nos permitem ver o universo em sua profundidade tridimensional. Como disse o Rabino Jonathan Sacks: A cincia a busca de uma explicao. A religio a busca de sentido2. Ns Franciscanos precisamos empenhar-nos de modo inteligente com todas as cincias, a fim de integrar as nossas intuies.

    Em concomitncia com os documentos precedentes da Igreja e da Ordem especialmente com a Laudato si este opsculo tem o objetivo de fornecer uma orientao de modo que as nossas Entidades e todos vocs, meus irmos, sejam capazes de responder aos desafios ecolgicos do nosso tempo3. Gostaria de sublinhar este aspecto particular do nosso empenho franciscano no mundo. Inspirados pelo exemplo de So Francisco, ns Frades e Frades Menores somos chamados a fazer de modo tal que possamos compreender mais profundamente os gritos do povo de Deus, o grito da criao de Deus. Somos convidados atravs de nossas aes a nos tornarmos msticos e homens de f que so capazes de perceber a beleza e a maravilha da obra de Deus na vida de nossos irmos e irms e em cada ser vivo, todos criados para participar juntos na glorificao de Deus e para oferecer um servio de amor e cuidado um do outro. Encorajo todos aqueles que usam dos recursos naturais a reavaliar o seu modo de perceber e de agir, e de reestruturar o seu estilo de vida, a fim de permitir que Esprito de Deus modele em cada um de ns uma viso ecolgica integral que abrace tudo, na caridade e na justia; para que possamos permitir que Deus trabalhe o maravilhoso mistrio de amor e de misericrdia que est dentro de ns de modo

    1 Rumo s Periferias com a Alegria do Evangelho. 2 The Great Partnership. God, Science and the Search for Meaning, 2011.3 Ibid.

  • O grito da terra e o grito dos pobres

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    que possamos remover os obstculos que nos fazem surdos ao Grito da Terra e aos Gritos dos Pobres. urgente a nossa resposta. A humanidade e o planeta no podem esperar mais. Precisamos agir agora!

    Comecemos, irmos, a servir e a fazer o bem, pois at agora pouco ou nada fizemos!4

    Roma, 25 de julho de 2016Festa de So Tiago Apstolo

    Frei Michael Anthony Perry, ofmMinistro Geral e Servo

    Prot. 106652

    4 Cf. 1Cl 103.

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    O grito da terra e o grito dos pobres no podem mais ser contidos. Tem que se responder a estes gritos com urgncia. Este foi o apelo da Encclica do Papa Francisco, Laudato si 5(LS 48). Este documento histrico uma mensagem forte ao mundo sobre a urgncia da crise ambiental. Como franciscanos ns somos chamados a colaborar como instrumentos de Deus pelo cuidado da criao de todos os modos possveis.

    O Captulo Geral de 2015, em continuidade com o precedente6, nos encoraja a estabelecer relaes fraternas concretas no cuidado da criao. Antecipando a supracitada Encclica, deu estes dois mandatos:

    O Definitrio Geral publique um subsdio sobre o cuidado da Criao que tenha uma slida base bblica, eclesial, franciscana e cientfica,

    5 Laudato si (LS) 48.6 Cf Portadores do dom do Evangelho, Mandatos do Captulo Geral 2009 n. 43.

    INTRODUO

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    e d orientaes para que as nossas Entidades possam responder aos desafios ecolgicos do nosso tempo7.

    Cada Entidade, atravs do moderador da Formao Permanente, do animador para a Evangelizao e o animador do JPIC, seguindo as orientaes do subsdio geral, prepare um programa para que esta dimenso venha a fazer parte do nosso estilo de vida e da atividade pastoral e social das Entidades. Este objetivo seja avaliado nos encontros dos Presidentes das Conferncias com o Definitrio Geral8.

    Em obedincia a estes mandatos, apresentamos-lhes um breve subsdio que pode encorajar-nos a caminhar com passos concretos rumo prxis, a partir da rica reflexo publicada pela Ordem em sintonia com os valores de JPIC. Ns acreditamos que um bom modo para entender e aprender a experincia.

    O documento do Captulo Geral de 2015 defende que ns estamos atravessando um perodo de mudanas radicais em todos os nveis: revoluo econmica, digital, biotica; acompanhada de novas formas de pobreza; e situaes ambientais complexas como as mudanas climticas, o desmatamento, a perda da biodiversidade9. Diante destes problemas, poderia se perguntar o que ns frades menores temos a ver com isso, por que no deixar que estes compromissos sejam enfrentados pelos especialistas. Todavia, no podemos fechar os olhos e voltar atrs para dentro de nosso claustro; se olhamos honestamente ao nosso redor, temos que reconhecer que existe uma deteriorao significativa da nossa casa comum10. Portanto, o esprito que anima este documento quer olhar para o nosso atual estilo de vida, no qual, s vezes, consumimos os recursos naturais do planeta como se fossem ilimitados11, para ajudar-nos a abraar um novo estilo de vida.

    Devemos hoje promover aquela espiritualidade ecolgica da qual o Papa Francisco fala, que vai alm da relao antropocntrica arrogante com a natureza e nos convida a reconhecer com humildade que devemos ser menores e sujeitos a todos, incluindo a criao (subditi omnibus diz

    7 Rumo s Periferias com a alegria do Evangelho, Decises Capitulares 10.8 Rumo s Periferias com a alegria do Evangelho, Decises Capitulares 11.9 Cf Rumo s Periferias com a alegria do Evangelho n. 3.10 LS 61.11 LS 106.

  • O grito da terra e o grito dos pobres

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    So Francisco) 12. No existe ecologia sem uma adequada antropologia13. Esta nova relao de respeito, maravilha, estupor e gratido deveria ser o fundamento desta nova relao. Sim, antes de falar do cuidado da terra, de fato, no podemos esquecer, em primeiro lugar, de agradecer a Deus e sua criao por realmente cuidar de ns. De fato, no somos Deus. A terra nos precede e nos foi dada14. O alimento que tomamos, a roupa que vestimos e o ar que respiramos so dons da criao de Deus para ns! Todo o universo material uma linguagem de amor de Deus, de seu afeto sem medida por ns. Solo, gua, montanhas, tudo carcia de Deus15.

    Mas a espiritualidade precisa ser traduzida em ao. Existe um chamado uma converso ecolgica do corao que implica a gratido e a gratuidade, a sobriedade e a moderao a capacidade de ser feliz com pouco; para no sucumbir tristeza por aquilo que nos falta16. Este novo estilo de vida tem um bom aliado, conhecido de todos ns, que a minoridade; ela nos convida constantemente a renovar nosso modo de vida, com particular ateno s periferias, para ser um pouco menos consumidores, para no ser predadores do meio ambiente. Frades, retornemos s nossas periferias! Somos chamados, mais uma vez, a sair da comodidade de nossas casas e de nossas vidas17. Tudo isso ressoa de maneira muito clara o nosso estilo de vida franciscano de pobreza e de simplicidade, entendidos no como virtudes em si, mas como manifestao do modo escolhido por Deus para relacionar-se conosco. Ele, por primeiro, se fez simples e pobre por amor a ns! Atravs deste estilo de vida estaremos mais prximos aos pobres, que so as verdadeiras vtimas desta crise ecolgica.

    por este motivo que este Guia apresentado a todos os frades de modo que