O Nietzsche aristofanesco de O nascimento da tragé ?· 2018-04-03 · ... o nietzsche aristofanesco…

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  • limiar | volume 4 | nmero 8 | 2. Semestre 2017 | 4

    Wander de Paula1

    O Nietzsche aristofanesco de O nascimento da tragdia

    Resumo: o presente artigo analisa aspectos essenciais da influncia exercida pela leitura de Aristfanes, especialmente as obras As rs e As nuvens, na elaborao de O nascimento da tragdia, primeira obra publicada por Friedrich Nietzsche. A partir disso, pretende-se demarcar em que medida Nietzsche adota a postura crtica do comedigrafo grego na sua interpretao dos antigos, especialmente Eurpides e Scrates, e em que medida o filsofo traz novos elementos para a sua abordagem, tornando-a original no apenas em relao ao autor grego em questo, mas tambm aos seus contemporneos. Palavras-chave: Nietzsche; Aristfanes; Tragdia Grega; Scrates; Socratismo. Abstract: this paper analyses crucial aspects of the influence fulfilled by Nietzsches readings of Aristophanes works, specially The frogs and The clouds, in the writing of The birth of tragedy, first work published by Nietzsche. From this point of view, it pretends to outline how far Nietzsche embraces the critical attitude of the ancient Greek writer in his interpretation of the ancient Greeks, specially Euripides and Socrates, and how far the philosopher brings new approaches for his text, making it original not only in relation to the ancient Greek writer at hand, but also to his contemporaries.

    Key-words: Nietzsche; Aristophanes; Greek Tragedy; Socrates; Socratism.

    1

    Professor Adjunto do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Esprito Santo (UFES). E-

    mail para contato: wanderdepaula@gmail.com .

    mailto:wanderdepaula@gmail.com

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    No seu riso louco, Aristfanes, o comedigrafo, chorava sobre as runas da tragdia

    (Richard Wagner, A arte e a revoluo)

    1. Introduo

    Uma das grandes questes com as quais nos deparamos ao ler O nascimento

    da tragdia a fonte da qual Nietzsche retira posies to contundentes no apenas

    sobre a tragdia grega e o fenmeno trgico em geral, mas tambm, e sobretudo,

    sobre a figura do pai da filosofia, Scrates. Sabe-se que o filsofo alemo desde os

    seus primeiros escritos se posiciona no mesmo movimento de autores que,

    influenciados pelos resultados do criticismo kantiano, desenvolvem fortes crticas ao

    racionalismo da tradio filosfica metafsica (Arthur Schopenhauer e Friedrich Albert

    Lange so autores que, certamente, contribuem decisivamente para esse

    posicionamento), e, ao mesmo tempo, sofrem fortes influncias do movimento poltico-

    cultural representado pela figura do msico Richard Wagner, de quem se tornou amigo

    pessoal em 1868, quatro anos antes da publicao de sua primeira obra. Fillogo de

    formao, Nietzsche frequentou quando jovem, alm disso, a prestigiosa Schulpforta

    (Escola de Pforta), onde entrou em contato com as obras de grandes autores gregos e

    latinos (cf. JANZ, 1978, Vol. II, p. 378). Todos esses fatores indicam algumas das

    possveis inspiraes da crtica nietzscheana ao socratismo entendido aqui como

    fenmeno histrico-filosfico-cultural e no como a mera representao da figura do

    filsofo grego em questo , mas no esclarecem afirmaes como, por exemplo, a de

    que Scrates ajudava Eurpides em seu poetar e que, por conseguinte, a tendncia

    socrtica j atuava na cultura grega desde o perodo da tragdia tica, razo pela qual

    esta forma artstica morreu por suicdio, em funo de um conflito insolvel, portanto

    tragicamente, tal como o autor afirma no captulo 12 de O nascimento da tragdia

    (doravante GT/NT, citando o nmero do captulo e a paginao da KSA).

    Especialmente no que diz respeito ao tema do socratismo, chama a ateno a

    constante presena de um autor antigo nos textos de Nietzsche: Aristfanes. Clebre

    por suas crticas a Scrates e, ao mesmo tempo, autor fundamental na reconstruo

    da imagem histrica do filsofo grego2, o comedigrafo dedica a esse tema uma de

    2

    No faz mais sentido, de acordo com Roberto Bolzani Filho (cf. BOLZANI FILHO, 2014), no atual

    contexto das pesquisas histrico-filolgicas envolvendo a construo da imagem de Scrates, afirmar

    categoricamente que a interpretao mais fidedigna do filsofo grego tenha sido aquela de Plato, e que

    a mais distante, por ser mais apologtica, seria a de Xenofonte. Nesse mesmo sentido, desqualificar As

    nuvens por seu exagero na construo da caricatura de Scrates no seria tarefa muito simples, dado

    que Aristfanes tinha por objetivo precisamente construir uma fico, baseada em uma

    verossimilhana, e no um tratado de filosofia. A chamada questo socrtica, tal como o autor faz em

    referncia ao texto de Louis-Andr Dorion (cf. DORION, 2011), deve ser deixada de lado e, por

    conseguinte, faz-se necessrio assumir que se trata de nada mais que diferentes perspectivas em torno

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    suas peas, As nuvens, e em As rs sugere a existncia de uma relao ntima entre o

    filsofo e o poeta Eurpides, este alvo de fortes crticas do autor. Nietzsche dispunha

    em sua biblioteca pessoal de um considervel nmero de textos de Aristfanes (cf.

    CAMPIONI, 2003, p. 112-114), e o nome do comedigrafo est presente nas

    anotaes do filsofo desde o seu perodo de juventude, especialmente naquelas que

    antecedem a elaborao de sua primeira obra publicada. Nesses textos, as

    referncias a Aristfanes sempre sugerem que Nietzsche trate as obras do

    comedigrafo como uma fonte bastante confivel para o estudo dos antigos,

    especialmente squilo, Sfocles, Eurpides e Scrates3. Em uma carta de 1872 ao seu

    amigo Erwin Rohde, inclusive, a propsito da controvrsia sobre O nascimento da

    tragdia envolvendo o tambm fillogo Ulrich von Wilamowitz-Mllendorf, Nietzsche

    indica que boa parte de suas teses estavam amparadas em Aristfanes e sugere

    que, em virtude disso, elas estariam suficientemente justificadas4.

    Uma anlise do modo com que Nietzsche lida com a leitura aristofanesca dos

    antigos pode ser bastante profcua para demarcar a origem e a amplitude da crtica

    nietzscheana ao socratismo. Nesse horizonte, o presente texto desenvolve uma leitura

    crtica dos captulos 11, 12 e 13 de O nascimento da tragdia, parte da obra em que a

    figura de Aristfanes desempenha um papel central na sua interpretao do processo

    de decadncia da tragdia grega antiga, e busca respostas mais claras ao problema

    em questo por meio de uma remisso no apenas s obras do prprio Aristfanes,

    As rs e As nuvens, mas especialmente conferncia Scrates e a tragdia

    (Sokrates und die Tragoedie), que, ao lado da conferncia O drama musical grego

    (Das griechische Musikdrama) e do texto A viso dionisaca de mundo (Die

    dionysische Weltanschauung), constitui um dos textos-base da primeira obra publicada

    do filsofo.

    2. O Aristfanes de Nietzsche

    Ao contrrio do que acontece com vrias de suas fontes, Nietzsche no parece

    fazer muito esforo em ocultar que, no que diz respeito sua interpretao de

    Eurpides e de Scrates, Aristfanes ocupa um lugar especial. No apenas pelas

    menes ao nome do comedigrafo, mas tambm pelas citaes diretas de suas

    de um mesmo personagem filosfico central, dado que a pergunta por qual dessas perspectivas seria a

    mais verdadeira no faz mais sentido. 3 Cf. esp. 1[7], Outono de 1869. KSA 7, p. 12; 1[44], Outono de 1869. KSA 7, p. 22; 1[93], Outono de 1869. KSA

    7, p. 38; 9[110], de 1871. KSA 7, p. 315; 16[4], de 1871. KSA 7, p. 394. 4

    Cf. Carta de Nietzsche a Erwin Rohde de 16/07/1872. KSB 4, p. 22-26. curioso notar, a respeito da

    fora de Aristfanes entre os fillogos do perodo, que o prprio Wilamowitz, como se sabe um crtico

    ferrenho das teses de O nascimento da tragdia, se refere a Aristfanes para afirmar que a relao

    estabelecida por Nietzsche entre Eurpides e Scrates, baseada no prprio Aristfanes, era infundada.

    Cf. MACHADO, 2005, p. 72 e nota 64.

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    obras (outro fato no muito comum nos textos publicados de Nietzsche), pode-se

    conjecturar que se trata de uma fonte fidedigna aos olhos do filsofo e do fillogo

    Nietzsche5. Mas o que quer dizer uma fonte fidedigna, no presente contexto? A

    anlise do modo como Nietzsche se vale da obra aristofanesca para elaborar uma

    tese acerca do fenmeno cultural que marca a decadncia da tragdia grega antiga

    pode fornecer bons indcios de resposta a essa pergunta.

    2.1. A vida ordinria no palco euripidiano

    Em Scrates e a tragdia (doravante ST, citando a paginao da KSA),

    conferncia proferida em 1 de fevereiro de 1870, na Universidade da Basilia, e que

    servir de base argumentativa para a redao dos captulos 11 a 15 de O nascimento

    da tragdia, Nietzsche trata do tema do fim da tragdia. morte da arte trgica antiga,

    sustenta o autor nessa conferncia, sucedeu um novo gnero, que trazia os traos de

    sua me, mas os traos que esta mostrara em sua longa agonia (ST. KSA 1, p. 533).

    Eurpides o poeta da agonia da tragdia. Com ele, ressalta Nietzsche, o espectador

    e o seu cotidiano esto no palco, enquanto os grandes deuses so rebaixados s

    figuras rotinei