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O PRINCÍPIO REPUBLICANO: FUNDAMENTOS TEÓRICOS E ...siaibib01.univali.br/pdf/Sergio Antonio Schmitz.pdf · 2.3.1 o princÍpio republicano na doutrina.....75 2.3.2 O PRINCÍPIO REPUBLICANO

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  • UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJA UNIVALI PR-REITORIA DE PESQUISA, PS-GRADUAO, EXTENSO E CULTURA CENTRO DE EDUCAO DE CINCIAS SOCIAIS E JURDICAS - CEJURPS CURSO DE PS-GRADUAO STRICTO SENSU EM CINCIA JURDICA CPCJ PROGRAMA DE MESTRADO ACADMICO EM CINCIA JURDICA PMCJ REA DE CONCENTRAO: FUNDAMENTOS DO DIREITO POSITIVO

    O PRINCPIO REPUBLICANO: FUNDAMENTOS TERICOS E PERSPECTIVAS DE APLICABILIDADE

    SRGIO ANTONIO SCHMITZ

    Itaja, Julho de 2010

  • UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJA UNIVALI PR-REITORIA DE PESQUISA, PS-GRADUAO, EXTENSO E CULTURA CENTRO DE EDUCAO DE CINCIAS JURDICAS, POLTICAS E SOCIAIS CURSO DE PS-GRADUAO STRICTO SENSU EM CINCIA JURDICA CPCJ PROGRAMA DE MESTRADO ACADMICO EM CINCIA JURDICA PMCJ REA DE CONCENTRAO: FUNDAMENTOS DO DIREITO POSITIVO

    O PRINCPIO REPUBLICANO: FUNDAMENTOS TERICOS E PERSPECTIVAS DE APLICABILIDADE

    SRGIO ANTONIO SCHMITZ

    Dissertao submetida ao Programa de Mestrado em Cincia Jurdica da

    Universidade do Vale do Itaja UNIVALI, como requisito parcial obteno do Ttulo de Mestre em

    Cincia Jurdica. Orientador: Doutor Paulo Mrcio Cruz

    Itaja, julho de 2010

  • AGRADECIMENTO

    Agradeo aos professores do Mestrado, em especial ao Doutor Alexandre Morais da Rosa o primeiro professor, que me empolgou pelo curso -

    e Doutor Paulo Mrcio Cruz, pelo incentivo para que entrasse no Programa de Mestrado e pela

    oportunidade que me concedeu para escrever sob sua orientao o artigo Sobre o Princpio

    Republicano que foi o que deu incio esta dissertao, bem como pela sua orientao.

    Ao Corpo Docente do Programa de Mestrado da Univali por sua dedicao ao trazer aos

    mestrandos o conhecimento necessrio nossa formao.

    Aos colaboradores administrativos do Mestrado, que sempre deram o melhor suporte aos

    Mestrandos.

    Aos professores do Curso de Graduao, Doutor Walter Amaro Baldi e Mestres Marcos Alberto Carvalho de Freitas, Andrietta Kretz e Newton

    Csar Pilau, pelos conhecimentos adquiridos em Direito Constitucional.

    Professora Mestre Marta Elizabeth Deligdisch que me orientou nas primeiras pesquisas a

    respeito do Princpio Republicano por ocasio da monografia de graduao.

    Ao Professor Doutorando Maury Roberto Viviani, de Cincia Poltica na graduao, que foi

    referncia a seguir pela sua notvel cultura, didtica e empolgao pelo Direito.

    Ao Professor lvaro Borges que durante a graduao me provocou para que executasse os

    trabalhos acadmicos em nvel de pesquisa de Mestrado, o que me trouxe a este Programa de

    Mestrado.

  • Aos Colegas Mestrandos pelo companheirismo.

    minha esposa Roseane, filhas Monique e Manoela e ao meu neto Daniel por sua

    compreenso e apoio durante todas as horas em que tive que me dedicar aos estudos em prejuzo

    convivncia familiar.

    E a Deus, pela sade e por dar-me fora e perseverana para fazer de cada dia o melhor dia

    de minha vida.

  • DEDICATRIA

    Dedico este trabalho aos meus pais Erica e Antonio (in memorian) que sempre se dedicaram

    para que seus filhos (Rose, Celso, Lus e eu) estudassem, e principalmente minha famlia que sempre me deu suporte para que eu pudesse me

    dedicar aos estudos.

  • TERMO DE ISENO DE RESPONSABILIDADE

    Declaro, para todos os fins de direito, que assumo total responsabilidade pelo

    aporte ideolgico conferido ao presente trabalho, isentando a Universidade do

    Vale do Itaja, a coordenao do Programa de Mestrado em Cincia Jurdica, a

    Banca Examinadora e o Orientador de toda e qualquer responsabilidade acerca

    do mesmo.

    Itaja, julho de 2010

    Srgio Antonio Schmitz

    Mestrando

  • PGINA DE APROVAO

    SER ENTREGUE PELA SECRETARIA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM CINCIA JURDICA DA UNIVALI APS A DEFESA EM BANCA.

  • ROL DE ABREVIATURAS E SIGLAS

    ADIN Ao Direta de Inconstitucionalidade ART. Artigo CF Constituio Federal CRFB/88 Constituio da Repblica Federativa

    do Brasil de 1988

    DJ. Dirio da Justia ED. Edio EMENT Ementa EX. Exemplo GOV. Governo JAN. Janeiro JUN. Junho MIN. Ministro N. Nmero OAB Ordem dos Advogados do Brasil OAB/SC Ordem dos Advogados do Brasil de

    Santa Catarina P. Pgina RE RePro

    Recurso Especial Revista de Processo da Editora Revista dos Tribunais

    REV. Revisado V. Volume VOL. Volume

  • ROL DE CATEGORIAS

    As categorias necessrias compreenso do presente

    trabalho sero apresentadas na medida do seu surgimento, no prprio texto ou

    em notas de rodap, face opo do Mestrando, com anuncia do Orientador.

  • SUMRIO

    RESUMO........................................................................................... XI

    ABSTRACT ...................................................................................... XII

    PRLOGO ...........................................................................................1

    INTRODUO ................................................................................... 2

    CAPTULO 1 ...................................................................................... 6

    REVISO TERICA SOBRE A REPBLICA.................................... 6 1.1 A REPBLICA: ABORDAGEM TERICA.......................................................6 1.2 A REPBLICA NO BRASIL: ABORDAGEMHISTRICA..............................22 1.3 A REPBLICA NO BRASIL: ABORDAGEM CONSTITUCIONAL.................29

    CAPTULO 2 .................................................................................... 51

    PRINCPIOS CONSTITUCIONAIS: ABORDAGEM DELIMITADA PELO OBJETO DA PRESENTE DISSERTAO ........................... 51 2.1 NOTA INTRODUTRIA SOBRE OS PRINCPIOS.........................................51 2.2. NORMAS JURDICAS, PRINCPIOS E REGRAS..........................................54 2.3 O PRINCPIO REPUBLICANO.......................................................................75 2.3.1 O PRINCPIO REPUBLICANO NA DOUTRINA...........................................75 2.3.2 O PRINCPIO REPUBLICANO NA INTERPRETAO DO AUTOR DA PRESENTE DISSERTAO TENDO COMO BASE O PENSAMENTO DO PROFESSOR DOUTOR PAULO MRCIO CRUZ................................................92

    CAPTULO 3 .................................................................................... 96

    ELEMENTOS DE APLICABILIDADE DO PRINCPIO REPUBLICANO..................................................................................96 3.1 O PRINCPIO REPUBLICANO: INDICATIVOS DE APLICABILIDADE.......96 3.2 O PRINCPIO REPUBLICANO: ESTUDO DE CASOS DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.........................................................................................104 3.2.1 ESTUDO N. 1.............................................................................................104 3.2.2 ESTUDO N. 2.............................................................................................110 3.2.3 ESTUDO N. 3.............................................................................................114 3.2.4 ESTUDO N. 4.............................................................................................118 3.2.5 ESTUDO N. 5.............................................................................................122 3.2.6 ESTUDO N. 6.............................................................................................125 3.3 DESTAQUES................................................................................................127

  • CONSIDERAES FINAIS............................................................ 131

    REFERNCIA DAS FONTES CITADAS ........................................ 135

  • RESUMO

    A presente dissertao tratar do Princpio Republicano,

    seus fundamentos tericos e perspectivas de aplicabilidade. Tem por pressuposto

    a Linha de Pesquisa de Hermenutica e Principiologia Constitucional dentro da

    rea de Concentrao Fundamentos de Direito Positivo - Estado. Os objetivos da

    dissertao so pesquisar o surgimento da forma republicana de Governo,

    compreender o significado de Repblica e o Princpio Republicano, a fim de

    compreender o seu papel frente aos outros Princpios, identificar sua aplicao no

    ordenamento jurdico e identificar os Princpios dele decorrentes. O trabalho foi

    dividido em trs captulos. O primeiro aborda uma introduo terica sobre a

    Repblica, a Repblica no Brasil e sob o ponto de vista constitucional. O segundo

    aborda aspectos destacados dos Princpios Constitucionais, a diferenciao entre

    Normas Jurdicas, Princpios e Regras, o Princpio Republicano na doutrina e na

    interpretao do Autor desta dissertao com base no pensamento do Doutor

    Paulo Mrcio Cruz. O terceiro aborda alguns indicativos de aplicabilidade do

    Princpio Republicano e um estudo de casos para verificar a interpretao dada a

    este Princpio pelo Supremo Tribunal Federal. Nas consideraes finais, o

    Mestrando enfocando toda a abordagem anterior consegue trazer um parecer

    sobre a importncia do Princpio Republicano nas decises judiciais, entendendo

    que o mesmo no interpretado em sua essncia e amplitude. Por fim aponta o

    Princpio Republicano como sendo o Interesse de muitos ou de todos suplantar

    sempre o Interesse de poucos ou de um, ou tambm, o Interesse da Maioria ou

    Interesse Geral deve prevalecer sempre sobre o Interesse da Minoria.

  • ABSTRACT

    This dissertation will address the Republican Principle, its

    theoretical foundations and prospects of applicability. Its assumption Line Search

    Hermeneutics and Constitutional Principles, within the Area of Concentration

    Fundamentals of Positive Law - State. The objectives of the dissertation are

    researching the emergence of the republican form of Government, understand the

    meaning of the Republic and the Republican Principle, in order to understand their

    role with other Principles, identify its application in the Legal System and identify

    the principles there under. The work was divided into three chapters. The first

    deals with a theoretical introduction on the Republic, the Republic and in Brazil

    under the constitutional point of view. The second addresses issues highlighted

    the Constitutional Principles, the distinction between Legal Standards, Principles

    and Rules, the Republican Principle in doctrine and interpretation of the author of

    this thesis based on the thought of Dr. Paulo Mrcio Cruz. The third deals with

    some indications of applicability of Republican Principle and a case study to verify

    the interpretation given to this principle by the Supreme Court. At last, the student

    of Master Science in Law focused on all the previous approach can bring an

    opinion about the importance of the Republican Principle in judicial decisions,

    understanding that it is not interpreted in its essence and amplitude. Finally

    appoints The Republican Principle as the Interest of Many or All always outweigh

    the Interest of a Few or One, or also the Interest of the Majority or General Interest

    should always prevail over the Interests of the Minority.

  • PRLOGO

    No ano de 2005, o Autor desta dissertao, ainda cursando

    a graduao, teve a oportunidade de conhecer o Professor Paulo Cruz em uma

    palestra na OAB em Itaja (SC).

    O tema da palestra foi o Princpio Republicano, e o

    Professor enaltecia a sua importncia fazendo uma afirmao de que aquele que

    fundamentasse sua tese jurdica no Princpio Republicano e ainda tivesse a seu

    favor uma regra jurdica tornar-se-ia imbatvel.

    Esta afirmao despertou o interesse deste Autor pelo

    Princpio Republicano e, ao final do curso de graduao, sob a orientao da

    Professora MSc. Marta Elizabeth Deligdisch, escreveu sua monografia com o

    ttulo O Sistema Tributrio e o Princpio Republicano: uma abordagem do nus

    impositivo na Sociedade brasileira.

    Dois anos mais tarde, perto de sua graduao, este Autor

    teve a oportunidade de conversar com o Professor Paulo Cruz e manifestou seu

    interesse em se aprofundar sobre o tema. Foi-se ento sugerido que ingressasse

    no Programa de Mestrado da Univali.

    Assim, no ano de 2007, logo no seu ingresso no Mestrado,

    este Autor teve a oportunidade de escrever um ensaio com o Professor Paulo

    Mrcio Cruz a respeito do seu pensamento sobre o princpio Republicano.

    A motivao para tal trabalho foi exatamente a falta de uma

    conceituao do Princpio Republicano por parte dos doutrinadores.

    A pesquisa, que durou aproximadamente 10 meses, iniciou-

    se com um estudo sobre a Repblica. Buscaram-se desde os mais remotos

    tempos at a atualidade, filsofos e polticos que buscam entre as sociedades

    polticas aquela que teria a forma de governo ideal.

  • 2

    INTRODUO

    A presente Dissertao tem como ttulo O Princpio

    Republicano: Fundamentos tericos e perspectivas de aplicabilidade.

    O tema ser desenvolvido dentro da rea de concentrao

    Fundamentos do Direito Positivo na linha de pesquisa de Hermenutica e

    Principiologia Constitucional Estado.

    O seu objetivo institucional a obteno do ttulo de Mestre

    em Cincia Jurdica pelo Curso de Mestrado do Programa de Ps-Graduao

    Stricto Sensu em Cincia Jurdica PPCJ/UNIVALI.

    O objetivo geral visa pesquisar o surgimento da forma

    republicana de Governo, compreender o significado de Repblica e Princpio

    Republicano.

    Os objetivos especficos da pesquisa so: compreender o

    papel do Princpio Republicano frente aos outros princpios; identificar a aplicao

    do Princpio Republicano no Ordenamento Jurdico e identificar os princpios dele

    decorrentes.

    Para a presente Dissertao foram levantadas as seguintes

    hipteses:

    a) O Princpio Republicano a prevalncia do Interesse da

    Maioria ou Interesse Geral nas decises jurdicas;

    b) O Princpio Republicano no totalmente compreendido e

    confundido com algumas de suas conseqncias como a

    Temporariedade dos Mandatos Eletivos, a Alternncia do

    Poder, dentre outros;

    c) O Princpio Republicano o instrumento de aplicabilidade

    do valor Repblica, ou seja, a matriz poltico-ideolgica de

  • 3

    todo o ordenamento das naes que adotam a forma de

    governo republicano;

    d) O Princpio Republicano quando cotejado com outros

    princpios so dele advindos ou vinculados.

    O Relatrio de Pesquisa ser apresentado em trs captulos

    e se encerra com as Consideraes Finais, nas quais so apresentados pontos

    conclusivos destacados, seguidos da estimulao continuidade dos estudos e

    das reflexes sobre o Princpio Republicano.

    Inicia-se o trabalho no Primeiro Captulo abordando-se uma

    introduo terica sobre a Repblica e a Repblica no Brasil bem como tambm

    no Brasil a Repblica sob ponto de vista constitucional.

    Ao discorrer na introduo sobre a Repblica buscou-se

    desde os principais filsofos clssicos aos da atualidade, os entendimentos a

    respeito de qual seria a melhor forma de Governo. Entre as mais conhecidas

    estavam a Monarquia, a Aristocracia, a Anarquia e a Repblica.

    Constatou-se que foi na Grcia e em Roma que surgiram as

    primeiras formas de Governo que possibilitavam a participao do cidado no

    Governo. Este trabalho focou-se somente no estudo da Repblica, buscando

    identificar que o termo tem conectividade com o Interesse da Maioria.

    Ao enfocar sobre a Repblica no Brasil abordou-se as

    principais manifestaes desde a revolta de Beckman at a proclamao da

    Repblica, sempre no sentido de identificar traos de que eles ocorreram pelo fato

    da populao almejar o seu interesse, leia-se da Maioria.

    Ainda ao enfocar-se o ponto de vista constitucional pode-se

    ter que a Repblica esteve presente desde a primeira Constituio ps-

    Monarquia.

    No Segundo Captulo foram abordados aspectos

    destacados dos Princpios Constitucionais, a diferenciao entre Normas

    Jurdicas, Princpios e Regras, o Princpio Republicano na doutrina e, por fim, o

  • 4

    Princpio Republicano na interpretao do Autor desta dissertao tendo como

    base o pensamento de seu Orientador.

    Na abordagem sobre o Princpio Republicano na doutrina o

    objetivo foi identificar como esse Princpio entendido pelos doutrinadores.

    Constatou-se o mesmo , na realidade, conhecido atravs de outros Princpios

    dele decorrentes.

    O Princpio Republicano alm de ser um tema escasso na

    doutrina, por vezes confundido com uma srie de Princpios dele decorrentes.

    No decorrer da pesquisa foram observadas diversas obras

    doutrinrias as quais confirmaram que o Princpio Republicano no de fato

    abordado ou, em caso de ser, feito equivocadamente, no havendo um

    consenso para a sua devida conceituao.

    Assim, ao final deste captulo, discorreu-se a respeito da

    interpretao dada ao Princpio Republicano com base nos ensinamentos do

    Professor Doutor Paulo Mrcio Cruz.

    No Terceiro Captulo foram abordados alguns indicativos

    de aplicabilidade do Princpio Republicano e um estudo de casos para verificar a

    interpretao dada a este Princpio pelo Supremo Tribunal Federal.

    Identificou-se na legislao brasileira em uma srie de

    dispositivos jurdicos a sua conexo com o esprito do Princpio Republicano, este

    que por vezes foi mencionado em decises do Supremo Tribunal Federal.

    Em conseqncia estudou-se alguns casos em que o

    Supremo Tribunal Federal fundamentou suas decises no Princpio Republicano

    e, com isto, foi observado de forma crtica esta aplicao do conceito, pois se

    verificou o mesmo aplicado de forma no totalmente clara e com diversificao

    de seu entendimento.

    Observando-se nas decises que prprios Ministros no tm

    uma paridade no conceito do Princpio Republicano, em conseqncia em

  • 5

    nenhuma das decises ora estudadas se referiu ao Princpio Republicano de

    forma a construir um conceito mais claro para o mesmo.

    Quanto Metodologia empregada, registra-se que, na Fase

    de Investigao1 foi utilizado o Mtodo Indutivo2, na Fase de Tratamento de

    Dados o Mtodo Cartesiano3, e, o Relatrio dos Resultados expresso na presente

    Dissertao composto na base lgica Indutiva.

    Nas diversas fases da Pesquisa, foram acionadas as

    Tcnicas do Referente4, da Categoria5, do Conceito Operacional6 e da Pesquisa

    Bibliogrfica7.

    As tradues realizadas no corpo da presente pesquisa

    foram feitas de forma livre pelo Autor.

    Ressalte-se que no se tem a pretenso de esgotamento do

    tema em razo da complexidade do mesmo.

    1 [...] momento no qual o Pesquisador busca e recolhe os dados, sob a moldura do Referente

    estabelecido[...]. PASOLD, Cesar Luiz. Prtica da Pesquisa jurdica e Metodologia da pesquisa jurdica. 10 ed. Florianpolis: OAB-SC editora, 2007. p. 101.

    2 [...] pesquisar e identificar as partes de um fenmeno e colecion-las de modo a ter uma percepo ou concluso geral [...]. PASOLD, Cesar Luiz. Prtica da Pesquisa jurdica e Metodologia da pesquisa jurdica. p. 104.

    3 Sobre as quatro regras do Mtodo Cartesiano (evidncia, dividir, ordenar e avaliar) veja LEITE, Eduardo de oliveira. A monografia jurdica. 5 ed. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2001. p. 22-26.

    4 [...] explicitao prvia do(s) motivo(s), do(s) objetivo(s) e do produto desejado, delimitando o alcance temtico e de abordagem para a atividade intelectual, especialmente para uma pesquisa. PASOLD, Cesar Luiz. Prtica da Pesquisa jurdica e Metodologia da pesquisa jurdica. p. 62.

    5 [...] palavra ou expresso estratgica elaborao e/ou expresso de uma idia. PASOLD, Cesar Luiz. Prtica da Pesquisa jurdica e Metodologia da pesquisa jurdica. p. 31.

    6 [...] uma definio para uma palavra ou expresso, com o desejo de que tal definio seja aceita para os efeitos das idias que expomos [...]. PASOLD, Cesar Luiz. Prtica da Pesquisa jurdica e Metodologia da pesquisa jurdica. p. 45.

    7 Tcnica de investigao em livros, repertrios jurisprudenciais e coletneas legais. PASOLD, Cesar Luiz. Prtica da Pesquisa jurdica e Metodologia da pesquisa jurdica. p. 239.

  • CAPTULO 1

    REVISO TERICA SOBRE A REPBLICA

    1.1 A REPBLICA: ABORDAGEM TERICA

    De antemo deve-se deixar claro que no se pretende neste

    trabalho esgotar o estudo da abordagem histrica da Repblica. Foram trazidos

    apenas alguns Autores que tem maior afinidade como o objetivo geral desta

    dissertao o qual o de tratar do Princpio Republicano.

    Durante seu desenvolvimento histrico, o conceito de

    Repblica (a res publica) teve diversos significados, desde a poca de Plato

    (428-347 a.C.), Aristteles (384-322 a.C.), passando por Ccero (106-43 a.C.),

    Bodin (1530-1596), Maquiavel (1469-127), Thomas Hobbes (1588-1679), John

    Locke (1632-1704), Montesquieu (1689-1755), Rousseau (1712-1778), Kant

    (1724-1804), Madison (1751-1836), at chegar aos dias atuais.

    Um dos primeiros registros que se tem e que destaca acerca

    da Repblica do filsofo grego Plato8 que viveu durante um perodo de

    decadncia da vida social e poltica da Grcia no sculo IV a. C.. Plato, com a

    obra A Repblica, prope uma utopia numa proposta de inverso do estado de

    coisas por que passava Atenas para que esta Sociedade voltasse a ser dirigida

    de forma racional. A Repblica, na concepo de Plato, era a imagem do

    homem justo, prudente e operoso, ou seja, do homem sbio, do filsofo. No topo

    da hierarquia de sua utopia estava a classe dos guardies que era constituda por

    filsofos que dirigiriam o Estado. Abaixo, a classe dos soldados que defenderiam

    e garantiriam a integridade da sua estrutura. Por fim, na base, o povo que

    exerceria as funes nutritivas9.

    8 PLATO. A Repblica. So Paulo: Editora Martin Claret, 2004. 9 PIRES. J. Herculano. Os filsofos. 3. ed. So Paulo: Editora Paidia, 2005. p.122 126.

  • 7

    De acordo com Aristteles10 as palavras Constituio e

    Governo querem dizer a mesma coisa, considerando-se que o Governo a

    autoridade suprema nos Estados. Algum ou alguns detero a autoridade. Se

    aqueles que se servem da autoridade, governam com vistas ao interesse coletivo,

    obrigatoriamente a Constituio pura e sadia, mas, em vez disso, se governam

    com interesse particular, a Constituio viciada e corrompida.

    Defendia que quando a multido governa no sentido do

    interesse coletivo, denomina-se esse Governo de Repblica. Para o estagirano,

    justia se refere ao mesmo tempo ao interesse coletivo da cidade e ao interesse

    particular dos cidados11.

    Assim, cidado o que possui participao legal na

    autoridade deliberativa, e na autoridade judiciria12.

    Ressalta, ainda, que a benevolncia era o que faziam os

    reis, pois essa a virtude dos homens de bem. Quando, porm, se achou um

    nmero elevado de cidados virtuosos, tentou-se alguma coisa que fosse comum

    a todos e, para tanto, formou-se o Governo Republicano. A multido se fortaleceu

    at tomar conta da autoridade, e, com o crescimento do Estado, se firmou o

    Governo Democrtico13.

    Ccero14 entendia que a Repblica coisa do povo irmanada

    no consentimento jurdico e no bem comum. Para o Filsofo Romano, a espcie

    humana no nasceu para viver isolada ou errante, mas com o propsito de

    procurar o apoio comum, mesmo na abundncia de todos os bens. Apregoava

    que mesmo que alguns ambiciosos possam elevar-se por fora do poder ou

    riqueza, o povo sabendo manter suas prerrogativas far com que aqueles no

    tenham espao e o arbtrio das leis, dos juzes, da paz, da fortuna de todos e de

    10 Aristteles. Poltica. Traduo de Torrieri Guimares. So Paulo: Martin Claret, 2002. p. 89-90. 11 Aristteles. Poltica. p. 102. 12 Aristteles. Poltica. p. 79. 13 Aristteles. Poltica. p. 109 -110. 14 CCERO, Marco Tlio. Da Repblica. Traduo de Amador Cisneiros. 5. Ed. Ediouro. 1983. p.

    40 42.

  • 8

    cada um passa a ser coisa pblica, coisa do povo. E para ele, no poderia haver

    algo mais belo e ilustre do que a virtude governando a Repblica.

    Barcellos15 afirma que da experincia romana, dos escritos

    de Ccero, a ideia de Repblica era identificada primeiramente, como forma de

    organizao do poder aps a excluso dos Reis. Ccero contraps a Repblica

    no apenas experincia monrquica romana, mas aos governos injustos. Os

    principais elementos destacados so o interesse comum, a coisa pblica e, em

    especial, a conformidade de uma lei comum para que a comunidade possa ter a

    justia afirmada. Em outras palavras o sentido ciceroniano que na Repblica

    tem-se um governo justo e regulado por leis. A ideia de Repblica vai percorrer

    toda a idade mdia e moderna, at chegar a se opor de forma especfica

    monarquia o governo de um s.

    As Repblicas poderiam ser aristocrticas ou democrticas,

    de acordo com o quo numerosos eram os titulares do poder. Maquiavel tambm

    reconhecia uma diferena qualitativa entre a vontade singular do Prncipe de

    uma nica pessoa tpica das monarquias, e a vontade coletiva republicana,

    representada por um colegiado ou assemblia popular. Procurou, para tanto,

    distinguir os governos em duas categorias: as Repblicas o governo de muitas

    pessoas e os principados.

    Gruppi16 lembra que Maquiavel foi o primeiro a refletir sobre

    o Estado. Na obra O Prncipe encontra-se a seguinte afirmao: Todos os

    Estados, todas as dominaes que viveram e tm imprio sobre os homens foram

    e so Repblicas ou principados.

    Maquiavel, segundo o autor, na verdade era um republicano

    e democrata. Baseado na experincia da Repblica de Florena, da Comuna

    Florentina, afirmava que nenhum prncipe, mesmo os mais sbios, pode ser to

    sbio quanto o povo, mas era tambm contraditrio. Em O Prncipe apregoava 15 BARCELLOS. Ana Paula de. O princpio republicano, a Constituio brasileira de 1988 e as

    formas de governo. Rio de Janeiro: Revista Forense. v. 356 (julho/agosto). Rio de Janeiro: Forense, 2001. p. 3.

    16 GRUPPI, Luciano. Tudo comeou com Maquiavel. Traduo de Dario Canali. Porto Alegre: L&PM Editores, 1986. p. 7 11.

  • 9

    que o poder do Estado funda-se no terror e que se para se manter no poder se o

    Prncipe tiver que optar entre ser amado ou temido ser muito mais seguro ser

    temido, isto porque os homens, no geral, so ingratos e volveis, eles furtam-se

    aos perigos e so vidos de lucrar. Afirmava ainda que os homens tm menos

    escrpulo de ofender quem se faz amar do que quem se faz temer.

    Assim, Maquiavel contradiz profundamente o que havia

    escrito nos Discursos sobre a primeira dcada de Tito Lvio, quando pensava que

    o poder baseava-se na democracia, no consentimento do povo, entendendo-se

    povo como a burguesia da poca.

    Barcellos17, aps referir-se a Maquiavel, aduz que Bodin, em

    De la Rpublique, em 1576, empregou a expresso rpublique para designar as

    trs formas clssicas de governo monarquia, aristocracia e democracia.

    Contrapunha-se aos regimes baseados na violncia ou na anarquia,

    representando um droit gouvernement (direito governamental).

    Segundo Gruppi18, Maquiavel fornece uma teoria realista,

    que considera a poltica de maneira cientfica, crtica e experimental, no

    fornecendo uma teoria de Estado moderno, mas sim de como se constri um

    Estado. Ensina que Jean Bodin (ou Bodinus, latina), na Frana, quem fez uma

    reflexo sobre o Estado Moderno, polemizando contra Maquiavel em seus seis

    tomos Sobre a Repblica (1576). Cita Gramsci, que afirmava que Maquiavel

    pretendia construir um Estado, projet-lo, enquanto Bodin teorizava um Estado

    unitrio que j existia (Frana) e, por conseguinte, colocava principalmente o

    problema do consenso, da hegemonia. Comeava-se a teorizar a Autonomia e

    Soberania do Estado Moderno, em que o monarca interpreta as leis divinas e as

    obedece de forma autnoma. O Estado constitudo essencialmente pelo poder.

    Bodin, que alm de tentar denominar o Estado como

    Repblica, realou-lhe a caracterstica de Soberania, afirmava:

    17 BARCELLOS, Ana Paula de. O princpio republicano, a Constituio brasileira de 1988. p.

    3. 18 GRUPPI, Luciano. Tudo comeou com Maquiavel. p. 12.

  • 10

    Repblica um reto governo de muitos lares e do que lhe comum, com poder soberano. Apresentamos esta definio em primeiro lugar porque, em todas as coisas, se deve procurar o fim principal e, em seguida, os meios de alcan-lo.Ora, a definio no mais do que o fim do assunto que se apresenta e, se no estiver bem alicerado, tudo quanto sobre ela se construir logo desabar [...]19.

    O Estado, para Bodin era poder absoluto, a coeso de todos

    os elementos da Sociedade onde a Soberania era vista como a base estrutural do

    Estado onde unia o indivduo e o Estado como um s20.

    Na seqncia (cronologia) histrica, informa Gruppi21,

    Thomas Hobbes se destacou com sua teoria contratualista, que assim se resume:

    quando os homens primitivos vivem no estado natural, como animais, eles se

    jogam uns contra os outros pelo desejo de poder, de riquezas, de propriedades.

    Para Hobbes, cada homem um lobo para o seu prximo (homo homini lupus),

    surgindo assim a necessidade de estabelecerem entre eles um acordo, um

    contrato para constiturem um Estado que refreie os lobos, que impea o

    desencadear-se dos egosmos e a destruio mtua, criando um Estado absoluto,

    de poder absoluto. J. J. Rousseau vai, mais tarde, opor-se a Hobbes com o

    seguinte pensamento:

    ao dizer que o homem, no estado natural, um lobo para seus semelhantes, Hobbes no descreve a natureza dos homens mas sim os homens de sua prpria poca. Rousseau no chega a dizer que Hobbes descreve os burgueses da poca, mas o surgimento da burguesia, a formao do mercado, a luta e a crueldade que o caracterizaram22.

    Em seguida veio John Locke que viveu na poca da

    segunda Revoluo Inglesa, concluda em 1689, a qual, de acordo com o autor,

    19 SLAIBI FILHO, Nagib. Direito Constitucional. Rio de Janeiro: Forense, 2004. p. 17. 20 GRUPPI, Luciano. Tudo comeou com Maquiavel. p. 12. 21 GRUPPI, Luciano. Tudo comeou com Maquiavel. p. 12 16. 22 GRUPPI, Luciano. Tudo comeou com Maquiavel. p. 13.

  • 11

    foi uma revoluo de tipo liberal, que assinalou um acordo entre a monarquia e a

    aristocracia, por um lado, e a burguesia, pelo outro.

    Surgiu o Estado fundado numa declarao dos direitos do

    parlamento, nascendo assim o cidado, tendo John Locke como o seu terico.

    Locke observava que o homem no estado natural est completamente livre, mas

    sente a necessidade de colocar limites sua prpria liberdade, para poder

    garantir a propriedade e sua segurana.

    O Estado surge tambm como um contrato. Lembre-se que,

    para Hobbes, o contrato gera um Estado absoluto, enquanto para Locke este

    contrato pode ser desfeito se o Estado ou o governo no o respeitarem. O

    governo deve garantir liberdades como a propriedade e uma margem de liberdade

    poltica e de segurana pessoal sem o que fica impossvel o exerccio da

    propriedade e a prpria defesa da liberdade.

    Convm ressaltar que nem Hobbes nem Locke trataram da

    Repblica explicitamente, mas j h uma evoluo no sentido de que a ideia de

    direito s liberdades (surgimento do cidado) j substituiu a do Estado absoluto.

    Vale dizer que o direito s liberdades, um dos fundamentos da Repblica, j

    comeava a aparecer.

    Aduz ainda que com Rousseau surgiu a concepo

    democrtico-burguesa do Estado Moderno. Para Rousseau, os homens no

    podem renunciar aos bens essenciais de sua condio natural que so a

    liberdade e a igualdade, eles devem constituir-se em Sociedade. Os governantes

    so apenas comissrios do povo. O nico fundamento da liberdade a igualdade,

    isto , no h liberdade onde no houver igualdade.

    Para Rousseau deixava de existir a separao dos trs

    poderes que Montesquieu fixara no comeo do sculo XVIII. O Filsofo Francs

    negava a distino entre os poderes, visando afirmar, acima de tudo, o poderio da

    assemblia; no poderia existir um poder executivo distinto da assemblia, do

    poder representativo. A teoria de Rousseau, entretanto, encontrou diversas

  • 12

    dificuldades e ele mesmo concluiu que a democracia por ele idealizada era

    utpica.

    O Autor leciona que Kant afirmava que a Soberania

    pertence ao povo, o que j um princpio democrtico. Acrescenta, porm, que

    h cidados independentes e no-independentes. Os independentes podem

    exprimir uma opinio poltica, que podem decidir sobre a poltica do Estado, eram

    os proprietrios. Os servos das fazendas e os aprendizes das oficinas artesanais

    faziam parte daqueles que no eram capazes de uma opinio independente e, por

    conseguinte, no tinham direito a voto, nem de serem eleitos. Os direitos polticos

    cabiam somente aos proprietrios.

    Note-se, porm, que Kant, aps ter afirmado que a

    Soberania pertence ao povo, negou ao povo o efetivo direito ao exerccio dessa

    Soberania, restringido a uma parte dele o direito de votar e ser votado. Assim

    ficava evidente que s livre quem for proprietrio. Kant chegou concluso de

    que a lei to sagrada e inviolvel que seria crime coloc-la em discusso. Com

    este pensamento, negou novamente a Soberania do povo, que antes afirmava lhe

    pertencer. A lei, sobrepondo-se Soberania do povo, a tpica viso liberal do

    Estado de Direito23.

    Dos estudos de Barcellos24 extrai-se, ainda, que ao se falar

    em Repblica no se poderia deixar de citar Kant, quem pregava que a Repblica

    no se ope monarquia, mas ao governo desptico. Nela os indivduos

    perseguem com liberdade seus projetos individuais, que necessitam de dois

    elementos essenciais: a separao dos poderes e a legalidade.

    23 O Estado de Direito idia que faz subordinar toda a atividade estatal regra jurdica

    preexistente. Significa a limitao do exerccio do poder. [...] induz a que todos, inclusive os governantes, esto submetidos a regra que lhes so superiores e que no podem ser revogadas a seu livre-arbtrio. [...] a Constituio , talvez, redundante, no emprego da expresso Estado Democrtico de Direito, porque j esto indissociveis as idias de prvia regulamentao legal e democracia. (SLAIBI FILHO, Nagib. Direito constitucional. p. 151 152). O Autor deste trabalho entende, porm, que pode haver um Estado de Direito que no seja democrtico, como o exemplo de Cuba.

    24 BARCELLOS, Ana Paula de. O princpio republicano, a Constituio brasileira de 1988. p. 7.

  • 13

    Para Kant, pode haver monarquias republicanas25, que a

    forma preferida pelo Autor, e identificadas como as monarquias constitucionais

    que passaram a ser adotadas na Europa com a queda dos regimes absolutos.

    Com o Princpio da Legalidade, o cidado no pode ser prejudicado por aquilo

    que no decidiu. a vontade coletiva do povo, exercida pelo poder legislativo. O

    Executivo deve governar em conformidade com as leis e o Judicirio determinar

    para cada um o que seu segundo a lei.

    No pensar de Kant, a conjugao do Princpio da

    Legalidade e a separao de poderes so capazes de garantir a liberdade

    individual. Prega que a finalidade ltima da ideia de Repblica o controle para a

    garantia das liberdades individuais e por fim identifica o ideal republicano com o

    Estado de Direito. Durante o iluminismo, a Repblica foi divulgada como a forma

    de governo capaz de viabilizar o racionalismo e humanismo da iluminao, pela

    qual os homens, libertos da tutela monrquica, passaram a deliberar livremente e

    por si prprios acerca de seu prprio governo.

    Na mesma poca, Montesquieu26 se preocupou em detalhar

    as formas de governo. Para este pensador existiam trs espcies de governo, o

    republicano que aquele em que o povo em seu todo, ou somente uma parte

    dele, tem o poder soberano; a monarquia que aquela em que s um governa,

    mas por leis fixas e estabelecidas; e o despotismo, em que um s, sem leis e sem

    regras, conduz tudo por sua vontade e seus caprichos.

    Aron27 expe que cada uma destas espcies definida em

    relao a dois conceitos aos quais Montesquieu chamou de natureza e de

    princpio de governo. A natureza do governo o que faz que ele seja o que ; j o

    25 Neste mesmo sentido Renato Janine Ribeiro leciona que a maior parte do mundo aceita o

    regime republicano, mas que h Repblicas de fachada e as monarquias da Europa tem governos mais respeitosos de seus cidados e do bem comum do que a maioria das Repblicas americanas, africanas e asiticas, numa referncia deturpao do conceito de Repblica. (RIBEIRO, Renato Janine. A Repblica. 1. ed. Publifolha, 2005. p.13).

    26 MONTESQUIEU, Charles de Secondat, Baron de. O esprito das leis: a forma de governo, a federao, a diviso dos poderes. Introduo, traduo e notas de Pedro Vieira Mota. 9. ed. So Paulo: Saraiva, 2008. p. 87.

    27 ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociolgico. Traduo de Srgio Barth. 7. ed. So Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 11.

  • 14

    princpio, o sentimento que deve animar os homens - o que o faz agir - dentro

    de um tipo de governo, para que funcione harmoniosamente. O princpio da

    Repblica a virtude. Isto no significa que numa Repblica todos os homens

    sejam virtuosos, mas apenas que deveriam s-lo, pois as Repblicas s

    prosperam na medida em que seus cidados so virtuosos. A natureza de cada

    governo determinada pelo nmero dos que detm a Soberania.

    A natureza de uma Repblica quando o povo como um todo

    possui o poder soberano, uma Democracia, e quando o poder soberano est

    nas mos de uma parte do povo, trata-se de Aristocracia. O princpio nos dois

    casos a patriotismo28.

    No dizer de Montesquieu29:

    Numa grande Repblica, o bem comum sacrificado a mil consideraes; fica subordinado s excees; depende de acidentes. Numa Repblica pequena, o bem comum sentido melhor, conhecido melhor; mais prximo de cada cidado. Nela os abusos so menos vultuosos, por conseguinte menos protegidos.

    Montesquieu apregoa que o homem de bem no o homem

    de bem cristo30, mas o homem de bem poltico, que possui a virtude poltica, o

    homem que ama as leis de seu pas e que age por amor a essas, veja-se:

    [...] o que chamo de Virtude, na Repblica o amor Ptria, quer dizer, o amor igualdade. No uma virtude moral, nem uma virtude crist, a virtude poltica; e esta a mola que faz mover o Governo Republicano, assim como a Honra a mola que faz mover a Monarquia. O amor Ptria e igualdade, eu denominei pois virtude poltica.31

    28 Patriotismo, Virtude ou Virtude Poltica. Vide: MONTESQUIEU, Charles de Secondat, Baron de.

    O esprito das leis: a forma de governo, a federao, a diviso dos poderes. Item 7. p. 60 e 100.

    29 MONTESQUIEU. O esprito das leis: a forma de governo, a federao, a diviso dos poderes. p.152.

    30 Homem de bem cristo: Homem que segue os ensinamentos deixados por Jesus Cristo. Nota do autor.

    31 MONTESQUIEU. O esprito das leis. p. 75.

  • 15

    Em O Esprito das Leis, Montesquieu aduz que A Federao

    deve compor-se de Estados da mesma natureza, sobretudo de Estados

    Republicanos32.

    Afirma o Autor, que os Cananeus33 foram destrudos porque

    eram pequenas Monarquias que no se confederaram, nem se defenderam em

    comum, isto porque a natureza das pequenas monarquias no a confederao.

    Cita a Repblica federativa da Alemanha [Santo Imprio romano germnico, que

    na poca se reagrupou numa confederao] que era composta de cidades livres e

    de pequenos Estados submetidos a prncipes, era mais imperfeita do que a

    Holanda e a Sua [Repblicas que j tinham optado pelo sistema de

    confederao].

    Para o Filsofo, o esprito da monarquia a guerra e o

    engrandecimento, enquanto o da Repblica a paz e a moderao, e estes dois

    tipos de governo no podem subsistir numa Repblica Federativa, seno de

    modo forado.

    Cita como o melhor exemplo de Repblica Federativa, a

    Lcia, que era uma associao de vinte e trs cidades, em que havia um conselho

    comum, composto de juzes e magistrados. De acordo com o tamanho, cada uma

    destas cidades possua de um a trs votos no conselho comum, e pagavam

    tributos de acordo com os sufrgios34.

    Madison35, quando trata da Repblica, entende que se

    buscarmos um critrio para os diferentes princpios nos quais as diversas formas

    de governo se fundamentam, pode-se dizer que governo republicano aquele em

    que todos os poderes procedem do povo, direta ou indiretamente, cujos

    administradores gozam de poder temporrio a critrio do povo ou enquanto

    32 MONTESQUIEU. O esprito das leis. p. 157. 33 Cananeus: habitantes do pas Cana (a atual Palestina, ou Terra Prometida). 34 MONTESQUIEU. O esprito das leis. p. 157 - 159. 35 MADISON, James. O federalista n. 37. In: HAMILTON, Alexander; JAY, John; MADISON,

    James. O federalista. Braslia: Ed. Universidade de Braslia, UNB/Departamento de Teoria Literria e Literaturas, 1984. p. 243-244.

  • 16

    agirem bem. Afirma que essencial que este governo provenha de uma grande

    poro da Sociedade e no por uma pequena parte ou de uma classe favorecida.

    Neste mesmo sentido, afirma textualmente:

    O esprito de liberdade republicano parece exigir, de um lado, no apenas que todo o poder seja emanado do povo, mas tambm que quem for dele investido se conserve dependente desse mesmo povo, durante o curto perodo de seus mandatos, sendo a delegao entregue no a poucos, mas a numerosos representantes36.

    O Federalista entendia tambm que a estabilidade de um

    governo republicano exige que aqueles a quem o poder foi confiado o exeram

    por um tempo determinado, pois eleies peridicas resultam em sucessivas

    alteraes de orientao resultando em eficincia do governo37.

    Tocqueville38, ao discorrer sobre o esprito republicano,

    entende que para que haja Sociedade e para que ela prospere necessrio que o

    esprito dos seus cidados esteja focado em algumas ideias principais. Apregoa

    que medida que os cidados se tornam mais iguais, a tendncia que a crena

    em certo homem ou classe diminua, aumentando-a na massa, vale dizer, na

    maioria, passando a dar maior confiana no julgamento pblico, pois acredita que

    a verdade se encontra ao lado do maior nmero de cidados.

    Ao referir-se sobre o povo americano apregoa que o cidado

    ocupa-se dos seus interesses particulares como se estivesse sozinho no mundo e

    no momento seguinte entrega-se coisa pblica como se os tivesse esquecido39.

    Percebe-se nitidamente que para os americanos h sculos

    prevalece o interesse da maioria e, provavelmente esta a explicao para o

    36 HAMILTON, Alexander. O federalista n. 37. In: HAMILTON, Alexander; JAY, John; MADISON,

    James. O federalista. p. 231. 37 HAMILTON, Alexander. O federalista n. 37. In: HAMILTON, Alexander; JAY, John; MADISON,

    James. O federalista. p. 231. 38 TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na Amrica. 2. ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia. So

    Paulo: Ed. da Universidade de So Paulo, 1987. p. 325 326. 39 TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na Amrica. p. 413 414.

  • 17

    desenvolvimento e engrandecimento da nao americana em to pouco perodo

    de tempo.

    Dallari40 aduz: A Repblica, que a formada de governo

    que se ope monarquia, tem um sentido muito prximo do significado de

    democracia, uma vez que indica a possibilidade de participao do povo no

    governo.

    Neste mesmo vis Canotilho41 traz o pensamento de Antero

    de Quental: Quem diz democracia diz naturalmente repblica. Se a democracia

    uma ideia a repblica a sua palavra; se uma vontade, a repblica a sua

    aco; se um sentimento, a repblica o seu poema (...).

    Mais adiante se vai ver que o Princpio Democrtico o

    principal instrumento para se aferir o interesse global ou da maioria.

    Para Carrazza42 Repblica o tipo de governo, fundado na

    igualdade formal das pessoas, em que os detentores do poder poltico exercem-

    no em carter eletivo, representativo (em geral), transitrio e com

    responsabilidade43. Entende que um dos meios que se concebeu para governar

    uma nao, no sendo melhor ou pior do que outras formas de governo. A forma

    republicana de governo, conclui, no momento a que corresponde vontade da

    maioria dos povos que almejam serem os donos da coisa pblica.

    J o Doutrinador Portugus Canotilho44 entende que:

    [...] a Repblica significa uma comunidade poltica, uma

    unidade colectiva de indivduos que se autodetermina politicamente atravs da

    40 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do Estado. 21. ed. SoPaulo: Saraiva,

    2000. p. 227 228. 41 CANOTILHO, J. J. Gomes. Estudos sobre direitos fundamentais. 2. ed. Coimbra: Editora

    Coimbra, 2008, p. 11. 42 CARRAZZA. Roque Antnio. Curso de direito constitucional tributrio. 21. ed. So Paulo:

    Malheiros, 2005. p. 56 -74. 43 CARRAZZA. Roque Antnio. Curso de direito constitucional tributrio. p. 56. 44 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituio. 7. ed. Coimbra:

    Almedina, 2003. p. 224 225.

  • 18

    criao e manuteno de instituies polticas prprias assentes na deciso e

    participao dos cidados no governo dos mesmos (self-government).

    Para que haja um autogoverno (self-government)

    republicano, o doutrinador portugus afirma que se faz necessrio a imposio de

    trs regras, a saber: uma representao territorial, um procedimento justo de

    seleo dos representantes e uma deliberao majoritria dos representantes que

    deve ser previamente limitada pelo reconhecimento de direitos e liberdades dos

    cidados.

    Afirma ainda que A Repblica ainda uma ordem de

    domnio de pessoas sobre pessoas -, mas trata-se de um domnio sujeito

    deliberao poltica de cidados livres e iguais45.

    Por este motivo, complementa o Doutrinador, a forma

    republicana de governo est associada ideia de democracia deliberativa que se

    deve entender como uma ordem poltica na qual os cidados se comprometem: a

    resolver coletivamente seus problemas resultantes de suas escolhas coletivas

    feitas por discusso pblica; e, a aceitar como legtimas as instituies pblicas,

    por estas se constiturem o quadro de uma deliberao pblica que foi tomada

    com total liberdade.

    O Doutrinador associa ainda o sentimento republicano

    dignidade da pessoa humana que no seu entender exprime a abertura da

    Repblica forma de uma comunidade constitucional inclusiva em razo do

    multiculturalismo, e menciona J. Rawls para quem O republicanismo no

    pressupe qualquer doutrina religiosa, filosfica ou moral abrangente46.

    Canotilho entende no republicanismo no existe liberdade

    mais sim, liberdades. Em outras palavras, no republicanismo existem liberdades

    republicanas e no uma liberdade republicana. As liberdades republicanas

    buscam uma articulao da liberdade-participao poltica (direito de participao

    poltica) com a liberdade-defesa perante o poder (direito de defesa individuais). 45 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituio. p. 224. 46 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituio. p. 226.

  • 19

    Ao abordar a densificao da forma republicana de governo,

    Canotilho assevera que em primeiro lugar h a incompatibilidade de um governo

    republicano com o princpio monrquico e com os privilgios hereditrios e ttulos

    nobilirquicos.

    Em segundo lugar, a forma republicana de governo exige

    uma estrutura poltico-organizatria que garanta as liberdades cvicas e polticas,

    apontando para um sistema de freios e contrapesos. Assevera que a forma

    republicana de governo no primordialmente uma forma antimonrquica, mas

    um sistema organizado de controle de poder.

    Em terceiro lugar, a forma republicana de governo exige um

    regime de liberdade garantindo o direito participao poltica [o que Canotilho

    chama de liberdade dos antigos] e o direito de defesa individual [liberdade dos

    modernos].

    Em quarto lugar, a forma republicana de governo implica na

    existncia de corpos territoriais autnomos, que se auto-administram. Podem ser

    de natureza federativa, Estados Unidos -, de autonomia regional Itlia -, ou

    como autarquias locais, ou seja, um poder local de mbito mais restrito

    Portugal-.

    Em quinto lugar, na forma republicana de governo a

    legitimao do poder poltico baseada no povo ou no governo do povo. A

    legitimidade das leis funda-se no Princpio Democrtico, principalmente no

    representativo, sendo que a autodeterminao do povo articulada com o

    governo de leis e no de homens.

    Pela citao acima se pode entender que esta questo

    utilizada para se definir os mbitos pblicos, ou seja, para definir o que pblico e

    o que privado, sendo o pblico o que de interesse geral.

    Por fim, na forma republicana de governo no admite

    privilgios no acesso funo pblica e aos cargos pblicos que so feitos a

    partir de princpios e critrios ordenadores do acesso a estas funes ou cargos,

  • 20

    como os critrios da eletividade, colegialidade, temporariedade e pluralidade,

    abominando a hierarquia e vitaliciedade47.

    Ao longo deste subcaptulo pode-se notar que desde

    aproximadamente 400 anos antes de Cristo j se busca a forma ideal de governo.

    Dentre todas as j surgidas, Ribeiro48 lembra que a Repblica, no pensar de

    Montesquieu, seria o melhor dos regimes idealmente falando. Mas, que seria

    impossvel naquele tempo, aduzia o filsofo francs, justificando que a razo seria

    simples, pois, para haver despotismo era preciso o medo, para haver monarquia,

    a honra e para a Repblica o requisito era a virtude, ou seja, a abnegao que a

    capacidade de ceder a um bem superior s vantagens e desejos pessoais.

    Pelo exposto, percebe-se que os principais filsofos

    romanos e gregos ao expor seus pontos de vista, no final, de uma maneira ou de

    outra, chegam ao mesmo objetivo: o Bem Comum49, o Interesse Comum ou o

    Interesse da Maioria50.

    Cruz e Schmitz51 lecionam que:

    fundamental, ento, estabelecer o significado da categoria Interesse da Maioria [...]. Composta por duas sub categorias

    47 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituio. p. 228 230. 48 RIBEIRO, Renato Janine. A Repblica. So Paulo: Publifolha, 2005. p.17. 49 De acordo com Nicola Matteucci, Bem Comum [...] prprio do pensamento poltico catlico

    [...] desde S. Tmas [...]. O Bem Comum , ao mesmo tempo, o princpio edificador da sociedade humana e o fim para o qual ela deve se orientar do ponto de vista natural e temporal. O Bem Comum busca a felicidade natural, sendo portanto o valor poltico por excelncia, sempre, porm, subordinado moral. O Bem Comum se distingue do bem individual e do Bem Pblico enquanto o bem pblico um bem de todos por estarem unidos, o bem comum dos indivduos por serem membros de um Estado; [...] ( MATTEUCCI, Nicola. Bem Comum. In: BOBBIO, Norberto. Dicionrio de poltica. 12. Ed. Braslia: Editora Universidade de Braslia, 2004. p. 106.

    50 De acordo com Sergio Pistone o Interesse da Maioria [...] ser ento, entendido como o Interesse da Generalidade dos habitantes de um pas (obviamente suscetvel de diversas definies e realizaes, consoante as diversas situaes histricas e as solicitaes que emergem da sociedade civil), interesse que se contrape aos interesses particulares de cada um dos cidados e de cada um dos grupos econmico-sociais (neste caso, tende-se a usar mais freqentemente a expresso interesse geral ou interesse pblico), mas principalmente aos interesses regionais de cunho particularista. PISTONE, Sergio. Interesse Nacional. In: BOBBIO, Norberto. Dicionrio de poltica. 12. ed. Braslia: Editora Universidade de Braslia, 2004. p. 642.

    51 CRUZ, Paulo Mrcio; SCHMITZ, Srgio Antonio. Sobre o princpio republicano. Novos Estudos Jurdicos. Revista do Curso de Ps-Graduao Stricto Sensu em Cincia Jurdica da Univali. Itaja. v. 13. n. 1. Jan-jun 2008. p. 98.

  • 21

    Interesse e Maioria indicado expressar, antes, o significado de cada uma delas. Interesse significa a relao de reciprocidade entre o cidado e um objeto que corresponde a uma necessidade social geral, que indica a formao da Coisa Pblica. Maioria, por sua vez, implica que a Coisa Pblica seja estabelecida a partir dos interesses majoritrios dos cidados, que sero aferidos atravs de outros princpios, a exemplo do Princpio do Estado Democrtico de Direito ou do Princpio da Temporariedade dos Mandatos Eletivos

    A concepo aristotlica de que era necessrio que todos os

    cidados participassem da vida pblica, implicava que a autoridade devesse ser

    exercida por tempo determinado, todos alcanando desta forma o poder de forma

    alternada, uns mandando e outros obedecendo.

    Esta concepo levou tese da Temporariedade dos

    Mandatos Eletivos que interpretada erroneamente pela maioria dos

    doutrinadores como um dos principais elementos conceituais da Repblica.

    A temporariedade, de fato, deve ser interpretada como um

    dos principais instrumentos tericos para se alcanar os ideais republicanos,

    quais sejam, o Interesse da Maioria, a Coisa Pblica, vale dizer, o espao

    pblico52.

    Neste subcaptulo apresentou-se o pensamento de alguns

    estudiosos a respeito do seu conceito do que era uma Repblica e uma

    Monarquia. Vale lembrar que so observaes dos filsofos estudados, cada uma

    no seu tempo.

    Ao longo do tempo, pode-se notar que existem repblicas

    que na realidade no seguem o real esprito do conceito que dizem adotar. Ao

    mesmo tempo, existem monarquias, mormente as europias, que funcionam

    dentro do melhor do esprito republicano.

    52 CRUZ, Paulo Mrcio; SCHMITZ, Srgio Antonio. Sobre o princpio republicano. p. 103.

  • 22

    Com relao ao Brasil, Ribeiro53 cita deturpaes como,

    mesmo sendo uma Repblica dede 1889, s houve eleies minimamente

    decentes para a presidncia em 1945, 1955 e 1960 e eleies livres somente de

    1989 para c e, cita tambm monarquias que so verdadeiras repblicas (vide

    nota de rodap n. 25).

    As idias apresentadas so de cada um dos pensadores

    citados. Em nenhum momento se pretende concluir que a forma de governo

    Republicana boa e a Monrquica ruim. Constata-se de que a Repblica

    forma de governo mais utilizada atualmente e esta o objetivo mor deste

    trabalho. Assim deixa ntido ao leitor que em alguns pases utilizada de forma

    deturpada e tambm se reconhece que existem Monarquias que poder-se ia

    chamar de verdadeiras Repblicas.

    Este estudo54 foi direcionado essncia da forma

    republicana de governo que a voltada Coisa Pblica, ao Bem Comum, ao

    Interesse da Maioria.

    Vistas as consideraes introdutrias sobre a origem da

    Repblica, passa-se a examin-la historicamente, no Brasil.

    1.2 A REPBLICA NO BRASIL: ABORDAGEM HISTRICA

    Nos livros de histria do Brasil esto relatados os principais

    acontecimentos desde o seu descobrimento, em 1500, at a atualidade. Releva,

    neste estudo, a passagem da forma de governo da Monarquia para a Repblica e

    apontar os indicativos de que o movimento republicano foi uma busca pelo

    resgate do interesse coletivo, vale dizer, do interesse da maioria, objetivando o

    bem comum.

    53 RIBEIRO, Renato Janine. A repblica. p. 13. 54 Em uma Dissertao de Mestrado h uma limitao de pginas. Como o enfoque desta

    Dissertao a Repblica deixa-se de se aprofundar no estudo das Monarquias. Deve-se deixar tambm claro de que este Autor no afirma que tudo na Repblica bom e que na Monarquia ruim. No decorrer deste trabalho cita-se que h Monarquias mais republicanas do que muitas Repblicas.

  • 23

    Assim, deixa-se claro que no se pretende esgotar e nem

    detalhar os fatos histricos citados. O leitor interessado em tal detalhamento

    poder faz-lo nas obras consultadas para a realizao deste trabalho.

    Soares55, afirma que, historicamente a mais antiga

    manifestao ocorrida durante a fase do Brasil - Colnia, em favor da autonomia

    poltica brasileira foi a chamada Revolta de Beckman, em 1684, motivada,

    sobretudo pela explorao tributria imposta por Portugal.

    Percebe-se assim que h quatro sculos no Brasil j se

    lutava contra o arbtrio da minoria que detinha o poder, no caso a Coroa

    Portuguesa. Entendia-se que um governo Republicano poderia ser a melhor

    alternativa para substituir a Monarquia trazendo ao povo o poder e

    conseqentemente se ter um governo voltado ao interesse da maioria.

    As ideias republicanas tambm se manifestaram no Brasil

    por ocasio da Inconfidncia Mineira (1789) e da Conjurao dos Alfaiates (1798).

    Aps a vinda da Famlia Real e a Proclamao da Independncia ocorreram

    revolues em que as ideias republicanas estavam presentes, como na

    Revoluo Pernambucana (1817), na Confederao do Equador (1824), na

    Repblica do Piratini (1835), na Repblica Juliana (1837), na Sabinada (1837)

    quando foi fundada na Bahia uma Repblica com tendncias separatistas, na

    Balaiada (1838), na Revoluo Praieira (1848) e na Revolta do Vintm no Rio de

    Janeiro (1879-1880)56.

    Deve-se tambm mencionar a importncia da Inconfidncia

    Mineira (1789) e de seu mrtir Tiradentes no processo que levou o Brasil sua

    independncia com relao Monarquia Portuguesa.

    Ao se estudar particularmente cada uma destas

    manifestaes h de se notar nitidamente que elas aconteceram em virtude da

    55 SOARES, Orlando. Comentrios Constituio da Repblica Federativa do Brasil. 11. ed.

    Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 93 - 95. 56 FERNANDES, Aldo Demerval Rio Branco. Histria do Brasil: Imprio e Repblica. Aldo

    Demerval Rio Branco Fernandes, Maurcio de Siqueira Mallet Soares, Neide Annarumma. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exrcito, Coleo Marechal Trompowsky, 2001. p. 105 106.

  • 24

    vontade de mudana do status quo reinante no pas, onde o poder, e

    conseqentemente, a economia e o bem estar social, eram privilgios de um

    pequeno grupo em detrimento do interesse da maioria. No cabe neste trabalho,

    como j citado, um estudo mais profundo dos detalhes histricos e sim

    demonstrar que o objetivo das manifestaes citadas era a busca do bem comum,

    ou seja, do interesse da maioria.

    Penna57 afirma que desde o sculo XVIII j se cogitava a

    adoo do Regime Republicano no Brasil, mas foi no sculo XIX que o

    republicanismo se evidenciou provocado pelas revoluo americana e francesa,

    principalmente no meio mais bem informado da populao que conhecia, por

    exemplo, o Contrato Social de Rousseau.

    J Fernandes58 leciona que as ideias republicanas se

    identificaram com as ideias liberais e com os anseios da desconcentrao poltica.

    J na Constituinte de 1824, estas ideias j eram cogitadas, mas sua propagao

    s se iniciou em 1870 com inexpressveis repercusses na opinio pblica.

    Complementa afirmando que o Partido Republicano s foi criado a partir do

    Manifesto Republicano, no Rio de Janeiro em 1870, que reuniu pessoas da classe

    mdia e profissionais liberais como advogados, jornalistas, mdicos engenheiros,

    professores e comerciantes. Muitos destes ideais e dos princpios dispostos pelo

    Partido Republicano j eram defendidos por polticos, principalmente do Partido

    Liberal, durante o Imprio.

    Em 1873 foi fundado o Partido Republicano Paulista (PRP)

    que concordava com o manifesto carioca, havendo, entretanto diferenas

    fundamentais como, enquanto o carioca era composto por membros da classe

    mdia, o paulista, em torno de 60%, era composto por grandes plantadores de

    caf. Eram escravocratas e tornaram-se republicanos por causa da Lei do Ventre

    Livre (1871). Com o intuito de dar maior autonomia a sua provncia passaram a

    defender tambm o federalismo.

    57 PENNA, Lincoln de Abreu. Uma Histria da Repblica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

    p. 21 32. 58 FERNANDES, Aldo Demerval Rio Branco. Histria do Brasil: Imprio e Repblica. p. 105

    106.

  • 25

    Observe-se que este grupo de grandes plantadores de caf,

    escravocratas por questes mesquinhas individualistas, apoiaram o movimento

    republicano por questes circunstanciais tornando o movimento mais pluralista.

    Sua adeso ao movimento era na verdade a forma de mostrar seu

    descontentamento com a Monarquia em razo da Lei do Ventre Livre de 1871.

    Este pluralismo tornaria a Repblica inconcilivel como demonstrar a histria da

    Repblica no Brasil.

    Os cariocas, ao contrrio, eram abolicionistas intransigentes

    no favorveis ao federalismo, especialmente os positivistas59. Ressalta o Autor,

    que o Imperador Dom Pedro II nunca criou menor embarao para as atividades do

    Partido Republicano, o que contribuiu para facilitar a propaganda republicana.

    O advento da Repblica foi marcado por questes religiosas

    e militares. A Maonaria60 teve importncia poltica no processo que resultou na

    Independncia do Brasil. Aps quatro dcadas, em 1864, a Igreja Catlica atravs

    de uma Encclica Papal condenou a Maonaria e inmeras outras Sociedades.

    Dom Pedro I era Gro-Mestre da Maonaria bem como muitos dos membros de

    irmandades religiosas. Comearam a surgir atritos e desconfianas mtuas entre

    o Clero e a Monarquia, pois as bulas papais s poderiam ser colocadas em

    prtica com a autorizao das autoridades monrquicas, isto porque a Igreja era

    subordinada, por tradio, ao Estado61.

    A questo militar62 teve como antecedentes importantes

    fatos histricos na dcada de 1880, como o prosseguimento da campanha

    59 Positivistas: seguidores da corrente do Direito Positivo. O Direito Positivo aquele que o

    Estado impe coletividade, que deve estar adaptado aos princpios fundamentais do Direito Natural, cristalizados no respeito vida, liberdade e aos seus desdobramentos lgicos. (NADER, Paulo. Introduo do estudo do direito, p.17).

    60 No Brasil, a Maonaria participou ativamente da maioria e dos principais fatos histricos. Maiores detalhes podem ser conhecidos com a leitura da obra de Camino Rizzardo. (CAMINO, Rizzardo da. Introduo maonaria: histria, filosofia, doutrina. So Paulo: Madras, 2005).

    61 PENNA, Lincoln de Abreu. Uma histria da repblica. p. 41 -49. FERNANDES, Aldo Demerval Rio Branco. Histria do Brasil: Imprio e Repblica. p. 105 107.

    62 Aos que desejarem aprofundar-se neste tema, sugerimos a leitura do captulo III Questes Militares da obra Da Monarchia para a Republica (1870-1889) de Evaristo de Moraes, escrita na dcada de 1930. (MORAES, Evaristo de. Da Monarchia para a Republica (1870-1889). Rio de Janeiro: Athena Editora. p. 75).

  • 26

    republicana, mesmo que ainda tmida, o crescimento da campanha abolicionista e

    a reduo de forma drstica do efetivo do Exrcito brasileiro aps o trmino da

    Guerra do Paraguai. O Imperador normalmente confiava a administrao do

    Ministrio a um civil que, desconhecedor da arte da guerra, executava uma

    poltica pautada na ausncia de recursos debilitando a atividade profissional. Os

    velhos militares, de grande prestgio na Guerra do Paraguai, no mais existiam.

    Os jovens oficiais em formao eram influenciados pelos estudos cientficos e

    filosficos e defendiam a causa republicana63.

    Houve tambm outros movimentos com a Revolta da

    Cabana que ocorreu em Pernambuco entre 1833 e 1834 e a Cabanagem no Par

    que foi empreendida por sertanejos pobres, acentuando-se assim o carter social

    destes movimentos. Adveio o movimento dos negros reivindicando a abolio,

    dividindo os lderes da Cabanagem que se associava ideia republicana e

    desafiava a ordem poltica em vigor64.

    No sul prosperava a revolta mais longa desse perodo, a dos

    Farrapos. Seu lder, Bento Gonalves atacava o regime regencial e que

    inicialmente propunha uma administrao centralizadora, com o tempo evoluiu

    para uma tendncia tipicamente republicana. Em 11 de setembro de 1836,

    Antonio de Souza Neto proclamou a provncia desligada das demais do Imprio e

    que passava a formar um Estado livre e independente com o nome de Repblica

    Rio-Grandense que logo os separatistas passaram a chamar de Repblica de

    Piratini, um Estado livre constitucional e independente, o qual poderia ligar-se por

    laos de federao outras provncias do Brasil que adotassem o mesmo sistema

    e quisessem se federal ao Novo Estado.

    Penna afirma que assim a ideia de Repblica nascera dos

    movimentos sociais, das ruas, dos campos e das populaes mais sofridas. A

    Repblica das ruas tinha uma substncia social. Voltava-se contra a propriedade

    e os gananciosos. A Repblica dos letrados positivistas no deveria representar

    seno uma evoluo, consagradora dos princpios cientficos e morais em poltica.

    63 FERNANDES, Aldo Demerval Rio Branco. Histria do Brasil: Imprio e Repblica. p. 105. 64 PENNA, Lincoln de Abreu. Uma Histria da Repblica. p. 21 32.

  • 27

    Eram respeitadores do princpio da propriedade privada, sendo assim,

    conservadores em matria de questo social. Os ortodoxos positivistas como

    Miguel Lemos e Silva Jardim idealizavam, com a Repblica, uma revoluo mais

    de costumes do que das estruturas sociais. J Quintino Bocaiva tendia para um

    evolucionismo com uma reforma das prticas polticas sem mexer com a questo

    social.

    Na tica de Faoro65, os primeiros anos da propaganda

    republicana no Brasil foram apagados e melanclicos. As expresses mais

    radicais como Silveira Martins, Joaquim Nabuco e Ruy Barbosa no se afastaram

    do trono e o artificialismo das instituies no permitiu que o ambiente

    antimonrquico desabrochasse, a ponto de se divulgarem a ideia que Isto de

    Repblica coisa de estudantes e liberais.

    No seu entender, a Repblica era alm de fogo de palha dos

    retricos e da mocidade, escorria por duas vertentes. De um lado, a corrente

    urbana que era composta por polticos e dos idealistas de todas as utopias que

    eram desprezadas pela ordem imperial. Nesta viriam os positivistas doutrinrios e

    os liberais, que perturbavam a sociedade hierrquica com ideias de igualdade. De

    outro, uma crescente e progressiva, viria a corrente composta de fazendeiros com

    caracteres socialmente conservadores.

    Nas ruas Jos do Patrocnio, Lopes Trovo, Silva Jardim e

    Luis Gama apregoavam nas ruas o sonho de um regime igualitrio aonde se

    aniquilariam os preconceitos de raa, superioridade social e fortuna. Sero eles

    os precursores dos jacobinos brasileiros, embrio do populismo em franca

    campanha abolicionista, com caractersticas republicanas ou seja, a busca pelo

    Interesse da Maioria ou Interesse Geral.

    O historiador finaliza sua verso da proclamao da

    Repblica aduzindo que Na madrugada de 15 de novembro s percutem

    65 FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formao do patronato poltico brasileiro. 4. ed.So

    Paulo: Globo, 2008. p. 514 515.

  • 28

    incidentes militares sem expresso: uma longa marcha culmina no golpe sem

    sangue, marcha agora armada de um esprito e no de episdios66.

    Soares67 leciona que para as elites brasileiras no mais

    interessava a Monarquia. Os membros da nobreza entendiam que na Repblica

    eles ocupariam os altos escales polticos como os de presidente da Repblica,

    governadores de Estado, senadores e deputados. Esta seria uma maneira

    disfarada para os cargos de bares, condes, viscondes e conselheiros, mas

    agora como representantes populares, o que de fato ocorreu.

    Silva68 aduz que na capital do Imprio, o jornal A Repblica

    atirou aos quatro ventos o Manifesto Republicano, que foi redigido por Quintino

    Bocaiva, na poca aclamado o prncipe do jornalismo, cuja claridade

    deslumbradora do debate jornalstico abriu, na opinio do pas, a rota segura

    orientao do esprito republicano.

    A causa republicana contou tambm com a participao da

    classe estudantil com a fundao de clubes republicanos na Academia de Direito

    de So Paulo.69.

    Moraes70, que viveu naqueles tempos, relata que o Marechal

    Deodoro penetrou no Quartel dos Monarquistas s 9h30min do dia 15 de

    Novembro de 1889, sendo alvo de ruidosas aclamaes. Na realidade, afirma

    Moraes, no houve uma proclamao solene. O acontecimento foi sentido

    somente por alguns republicanos que presenciaram, na Rua do Ouvidor, a

    passagem das tropas em direo ao Arsenal de Marinha.

    66 FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formao do patronato poltico brasileiro. p. 562. 67 SOARES, Orlando. Comentrios Constituio da Repblica Federativa do Brasil. p. 95. 68 SILVA, Ciro. Quintino Bocaiva, o patriarca da Repblica. Braslia: Editora Universidade de

    Braslia, 1983. p. 28-37. 69 CASALECCHI, Jos nio. A proclamao da Repblica. 3. ed. So Paulo: Brasiliense, 1986.

    p. 50. 70 MORAES, Evaristo de. Da Monarchia para a Republica. Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 154

    163.

  • 29

    Aps a Proclamao, datada de 15 de novembro de 1889, o

    Governo Provisrio baixou o Decreto n. 1, com 11 artigos nos quais decretava

    como forma de governo da nao brasileira a Repblica Federativa71.

    Apontados os principais movimentos ocorridos no Brasil, que

    indicam a busca pelo Interesse da Maioria ou Interesse Geral, passa-se agora ao

    estudo da Repblica sob a tica constitucional.

    1.3 A REPBLICA NO BRASIL: ABORDAGEM CONSTITUCIONAL

    H novamente a necessidade de se salientar de que

    tambm neste subcaptulo no h a pretenso de se esgotar o tema. Colocam-se

    alguns dos principais pontos sob uma abordagem constitucional, desde a

    Proclamao da Repblica at os nossos dias.

    Soares72 aduz que proclamada a Repblica, em 3 de

    dezembro do mesmo ano, foi nomeada uma comisso para elaborar um Projeto

    de Constituio composta pelo conselheiro Joaquim Saldanha Marinho

    (presidente), Amrico Brasiliense de Melo (vice-presidente), Francisco Rangel

    Pestana, Antnio Lus dos Santos Werneck e Jos Antnio Pedreira de

    Magalhes Castro. Elaboraram trs projetos que foram reunidos ao final em um

    s. O Governo Provisrio o recebeu em maio de 1890 e confiou a Ruy Barbosa a

    tarefa de rev-lo.

    Assim, em 24 de fevereiro de 1891, na sala de sesses do

    Congresso Nacional Constituinte, na cidade do Rio de Janeiro, foi promulgada a

    primeira Constituio do perodo republicano, sob a presidncia de Jos de

    Moraes Barros, Senador pelo Estado de So Paulo, sendo tambm signatrios os

    deputados e senadores dos Estados que compunham a federao73.

    71 MORAES, Evaristo de. Da Monarchia para a Republica. p. 160 163. 72 SOARES, Orlando. Comentrios Constituio da Repblica Federativa do Brasil. p. 95. 73 CAMPANHOLE, Hilton Lobo. Constituies do Brasil / compilao e atualizao dos textos,

    notas, reviso e ndices. 14. ed. So Paulo: Atlas, 2000, p. 753 758.

  • 30

    E assim dispunha o art. 1o desta Constituio:

    A Nao Brazileira adota como frma de governo, sob o regimen representativo, a Repblica Federativa proclamada a 15 de novembro de 1889, e constitue-se, por unio perpetua e indissolvel das suas antigas provncias, em Estados Unidos do Brazil74.

    Compare-se com o art. 1o da Constituio da Repblica com

    o art. 1o da Constituio Imperial de 25 de maro de 1824, que assim dispunha:

    O IMPERIO do Brazil a associao Poltica de todos os Cidados Brazileiros. Elles formam uma Nao livre, e independente, que no admitte com qualquer outra lao algum de unio, ou federao, que se opponha sua Independncia75.

    Joo Barbalho Uchoa Cavalcanti, Deputado Constituinte da

    primeira Constituio Republicana Brasileira (filho de Alvaro Barbalho Uchoa

    Cavalcanti senador do imprio), comenta que foi o decreto n. 510, de 22 de

    junho de 1890, que publicou a Constituio dos Estados Unidos do Brasil. J o

    decreto n. 914A acrescentou as palavras da Repblica, passando ento a se

    chamar de Constituio da Repblica dos Estados Unidos do Brasil. Ressalta que

    se poderia ter adotado qualquer outro nome como Constituio Federal como a

    da Sua-, ou Constituio da Nao Brasileira como de maneira similar foi

    adotado na Argentina. Para ele o ttulo adotado:

    [...] como o vestbulo do grande edifcio constitucional e essa primeira pea que se offerece aos que entram, convm que seja proporcionada e por ella de alguma frma possam os que a penetram fazer ideia do que ser o interior da construo. Este ttulo avisa, instrue e recommenda aos que lerem a Constituio que, no entendel-a e executal-a, preciso no perder de vista que trata-se de regimen republicano no creado s para os Estados nem smente para a Unio, mas para a unidade nacional, para o

    74 CAMPANHOLE, Hilton Lobo. Constituies do Brasil. p. 729. 75 CAMPANHOLE, Hilton Lobo. Constituies do Brasil. p. 791.

  • 31

    Brazil composto de Estados, para os Estados constituindo um s todo a Nao Brazileira76.

    Finaliza seu comentrio declarando que Deste conceito

    superior e fecundo promana tudo o que se contm na obra constitucional de 24 de

    Fevereiro de 189177.

    Ao comentar a artigo 6, pargrafo 2 daquela Constituio

    (manter a frma republicana federativa), aduz que o significado de forma

    republicana encontra-se claramente definido no manifesto Federalista n. 39 de

    Madison78 afirmando que a expresso forma republicana:

    no designa simplesmente o apparelho formal da Republica, no comprehende unicamente a existncia do mechanismo que constitue a systema republicano, mas envolve, implicitamente e virtualmente, tambem o seu funcionamento regular, a sua prtica effectiva e a realidade das garantias que este systema estabelece79.

    Ao analisar o pargrafo 2 do artigo 72 80 da primeira

    Constituio republicana entende que os direitos, bem como os meios e recursos

    para garanti-los, assegurados nesta Constituio so os mesmos para todos os

    indivduos. Afirma textualmente: No h, perante a lei republicana, grandes nem

    pequenos, senhores nem vassalos, fortes nem fracos, porque a todos irmana e

    nivela o direito81. Complementa que no existem privilgios de raa, casta ou

    classe. No h tampouco, distines s vantagens ou nus institudos pelo novo

    76 CAVALCANTI, Joo Barbalho Ucha. Constituio federal brasileira - Commentarios. Rio de

    Janeiro: Typographia da Companhia Litho-Typographia, em Sapopemba, 1902. p. 6. 77 CAVALCANTI, Joo Barbalho Ucha. Constituio federal brasileira. p. 6. 78 MADISON, James. O federalista n. 39. In: HAMILTON, Alexander; JAY, John; MADISON,

    James. O federalista. Braslia, DF: Ed. Universidade de Brasilia, UNB / Departamento de Teoria Literria e Literaturas, 1984.

    79 CAVALCANTI, Joo Barbalho Ucha. Constituio federal brasileira - Commentarios. p. 23. 80 Artigo 72, pargrafo 2 da Constituio de 1891: Todos so eguaes perante a lei. A republica

    no admitte privilegio de nascimento, desconhece foros de nobreza, e extingue as ordens honorificas existentes e todas as suas prerrogativas e regalias, bem como os ttulos nobiliarchicos e de conselho. (CAVALCANTI, Joo Barbalho Uchoa. Constituio federal brasileira - Commentarios. p. 303).

    81 CAVALCANTI, Joo Barbalho Uchoa. Constituio federal brasileira - Commentarios. p. 303.

  • 32

    regime constitucional. As desigualdades que provem de condies de fortuna ou

    posio social no podem influir nas relaes entre autoridades e indivduos,

    sendo que a lei, a administrao e a justia sero iguais a todos.

    Para Joo Barbalho, a desigualdade alm de injusta

    impoltica. Outrora, salienta, os povos a suportavam e era mantida em razo da

    ignorncia e fraqueza dos prejudicados. Hoje, prossegue, luz da civilizao, os

    povos pela conscientizao de seus direitos vo conhecendo o que valem e

    consideram o privilgio uma afronta e provoca reaes de perigo para a ordem

    estabelecida.

    Para este constitucionalista, [...] de todas as frmas de

    governo a Republica a mais propria para o domnio da egualdade, a nica

    compatvel com ella82.

    Ao criticar os ttulos e honras83 - que eram distribudos pela

    Monarquia que serviam de recompensas nacionais, serviam tambm de adornos

    e solidez grande pirmide em cujo topo estava o trono afirma que disto no

    necessita a Repblica e cita o prembulo da lei n. 277F, de 22 de maro de 1890:

    cada cidado deve contentar-se com a satisfaco intima de ter cumprido o seo

    dever com a considerao publica que dahi lhe deve provir84.

    Deve-se entender que as pontuaes de Joo Barbalho -

    que so datadas de 1902 -, ou seja, poucos anos aps o movimento que levou

    proclamao da Repblica, refletem o verdadeiro esprito republicano da poca.

    Seu pai e ele vivenciaram um como senador do Imprio e o outro como deputado

    constituinte da primeira Constituio republicana, os fatos e movimentos polticos

    da to importante virada poltica no cenrio brasileiro.

    82 CAVALCANTI, Joo Barbalho Uchoa. Constituio federal brasileira- Commentarios. p. 303. 83 No se deve confundir os ttulos e honras que eram distribudos nos tempos da monarquia que

    serviam para dar privilgios a alguns com excluso de outros, com distines honorficas e condecoraes em reconhecimento por mritos pessoais ou servios prestados nao por cidados comuns. (Nota do Autor).

    84 CAVALCANTI, Joo Barbalho Uchoa. Constituio federal brasileira- Commentarios. p. 304.

  • 33

    Para o historiador Lencio Basbaum, a Constituio

    promulgada em 24 de fevereiro de 1891, era realmente uma Constituio

    republicana e durou at 24 de outubro de 1930. Esta Constituio nunca teria sido

    posta em prtica. Foi votada por uma Assemblia Constituinte que era, em sua

    opinio um saco de gatos em matria de concepes polticas e republicanas,

    no fora uma Constituio feita para durar85, pois foi elaborada ao sabor de

    circunstncias momentneas que no representava o pensamento meditado e

    calculado do povo, mas opinies ocasionais e os interesses imediatos de uma

    constituinte de tal forma heterognea que no havia conscincia jurdica e

    conhecimento da realidade do pas86.

    Moniz87 discorre que em conseqncia do movimento de 23

    de novembro de 1891 [renncia do ministrio de Deodoro] sob nimos exaltados

    e delicada tenso poltica houve a renncia de Deodoro e a devida sucesso

    constitucional com a ascenso do vice-presidente Floriano Peixoto que h de ficar

    para a posteridade como o Consolidador da Repblica.

    Basbaum faz dura crtica a Ruy Barbosa principal

    responsvel pela elaborao da Constituio que se deixou influenciar pela

    Constituio dos Estados Unidos sem que fossem observadas as abissais

    diferenas estruturais e econmicas, sociais, psicolgicas, tradicionais e polticas

    existentes entre os dois pases. Ao mesmo tempo elogia a Constituinte no sentido

    de ter dado ao pas uma base jurdica quando havia um governo ditatorial no

    poder. Resume aduzindo que bem ou mal os constituintes e Deodoro cumpriram o

    seu dever88.

    A Constituio republicana trouxe grandes inovaes,

    algumas que satisfaziam velhas aspiraes e outras inventadas ou imaginadas a

    propsito.

    85 BASBAUM, Lencio. Histria sincera da Repblica de 1889 a 1930. 4. ed. v. 3. So Paulo:

    Alfa-Omega, 1975-1976. p. 183. 86 BASBAUM, Lencio. Histria sincera da Repblica de 1889 a 1930. 4. ed. v. 3. So Paulo:

    Alfa-Omega, 1975-1976. p. 183. 87 MONIZ, Heitor. Episdios histricos do Brasil. Rio de Janeiro: A Noite Editora, 1942. 88 BASBAUM, Lencio. Histria sincera da Repblica de 1889 a 1930. p. 183.

  • 34

    Dentre as mais importantes inovaes destacam-se o

    federalismo, o Estado laico, o voto universal para maiores de 21 anos

    excetuando mulheres, analfabetos, praas e religiosos -, a temporariedade nos

    mandatos do Senado, regime presidencial e livre escolha dos ministros pelo

    Presidente da Repblica, a tripartio dos poderes, o habeas corpus e o Estado

    de Stio.

    Nota-se assim, que o Princpio Republicano se faz presente

    nesta Constituio atravs de alguns de seus elementos como o voto universal, a

    temporariedade dos mandatos etc.

    Passados os primeiros anos de euforia constitucional e

    republicana, comearam a se evidenciar seus defeitos por no estar adaptada

    realidade nacional e s era cumprida quando atendia aos interesses imediatos do

    Governo. Para Jos Maria dos Santos sob o vago e mal ajustado disfarce dos

    princpios democrticos, a Constituio um primitivo e grosseiro arcabouo de

    ferro89.

    Carone90 afirma que o problema da reviso constitucional se

    acentua desde a primeira Constituio Republicana. As crticas constantes e os

    insistentes pedidos de reforma revelam sinais de instabilidade e de oposio ao

    regime. Os monarquistas e parlamentaristas continuamente tecem opinies sobre

    os males do presidencialismo e a excessiva autoridade que resulta dele. Cabe,

    porm, aos republicanos e presidencialistas as crticas mais acirradas,

    principalmente ao artigo 691 que previa a interveno dos Estados. A m

    interpretao daquele artigo liga-se aos abusos contnuos dos executivos

    estaduais e federais e pelas continuas revoltas e golpes e a inutilidade das

    crticas feitas pelo Poder Legislativo. As classes dirigentes e sociais dos anos

    1920 aceitam a ideia de reviso pressionada pelas agitaes polticas e sociais.

    89 BASBAUM, Lencio. Histria sincera da Repblica de 1889 a 1930. p. 184. 90 CARONE, Edgar. A Repblica velha Instituies e classes sociais. So Paulo: Difuso

    Europia do Livro, 1970. p. 289. 91 Artigo 6 da Constituio de 1891: O Governo Federal no poder intervir em negcios

    particulares aos Estados, salvo .... (CARONE, Edgar. A Repblica velha Instituies e classes sociais. p. 290).

  • 35

    Arthur Bernardes, aps suspender a lei de imprensa, em

    1925 consegue promover a reviso constitucional e modifica o artigo 6 sobre a

    interveno nos Estados, possibilitando, alm do que j constava na Constituio

    de 1891, o direito de interveno para reorganizar as finanas, limitao do

    comrcio exterior e interior e legislao sobre o trabalho92.

    Basbaum93 relembra a reviso constitucional de Arthur

    Bernardes, aconteceu durante o estado de stio em 1925, e serviu para atender as

    necessidades do momento e legalizar as situaes de fato como o reforo do

    poder do Presidente da Repblica. Ela permitia o veto parcial e proibia que o

    Poder Judicirio interferisse em atos do poder executivo durante a suspenso das

    garantias constitucionais, ou seja, durante o estado de stio.

    No pensar de Basbaum todas as Constituies brasileiras

    tm unicamente valor histrico, ou seja, indicar o esprito dominante na poca.

    Entende que a Constituio de 1891 era um produto acabado dos republicanos

    romnticos e juristas tericos. A de 1930 foi relegada para o museu histrico.

    Ironiza afirmando que apesar de ter perto de 40 anos, estava quase nova: no

    havia sido usada94.

    Em 3 de outubro de 1930 estourou a insurreio conhecida

    como Revoluo de 30. Tratava-se de um movimento poltico-militar envolvendo

    os Estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraba, que integraram a

    chamada Aliana Liberal, apoiando a chapa de Getlio Vargas e Joo Pessoa

    para a presidncia e vice-presidncia da Repblica. Na capital da Repblica,

    composta pelos Generais Tasso Fragoso, Mena Barreto e o Almirante Isaias de

    Noronha, constituiu-se uma Junta Pacificadora, que intimou o Presidente da

    Repblica, Washington Lus, a deixar o poder, o que fez aps longos

    entendimentos em que foi fundamental a interferncia do Cardeal-Arcebispo do

    Rio de Janeiro, Sebastio Leme.

    92 CARONE, Edgar. A Repblica velha Instituies e classes sociais. p. 292. 93 BASBAUM, Lencio. Histria sincera da Repblica de 1889 a 1930. p. 184. 94 BASBAUM, Lencio. Histria sincera da Repblica de 1889 a 1930. p. 185.

  • 36

    A Junta Pacificadora negociou com o grupo revoltoso

    chefiado por Getlio Vargas, que o levou ao poder, findando assim, a Primeira

    Repblica do Brasil.

    Getlio Vargas, instalado no Palcio do Catete, dissolveu o

    Congresso Nacional em 1937 e governou em meio a grande entusiasmo popular

    inaugurando a chamada era do Varguismo que se estendeu at 1945.

    Em 11 de novembro de 1930, pelo Decreto n 19.938,

    Vargas estabeleceu as atribuies do Governo Provisrio, institucionalizando a

    ditadura, que se instalou com a quebra dos preceitos constitucionais vigentes. Em

    6 de dezembro de 1930, foi constituda a Comisso legislativa, composta de

    juristas, sob a presidncia de Levi Carneiro, ento Consultor-Geral da Repblica,

    incumbida de rever a legislao e apresentar novas codificaes e projetos de lei,

    a serem apreciados pelo Poder Legislativo, que viesse a se reconstituir. Esta

    Comisso funcionou at a instalao da 2a Assemblia Constituinte republicana,

    em 15 d