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O voo dos exilados alister mcgrath

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  • DADOS DE COPYRIGHT

    Sobre a obra:

    A presente obra disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros,com o objetivo de oferecer contedo para uso parcial em pesquisas e estudosacadmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fimexclusivo de compra futura.

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    "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutandopor dinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo

    nvel."

  • Originally published in the USA under the title: Flight of the OutcastsCopyright 2010 by Alister McGrathTranslation copy right 2012 by Alister McGrathTranslation by Eloisa PasquiniPublished by permission of Zondervan, Grand Rapids, Michigan.www.zondervan.comPortuguese edition 2012 by Editora Hagnos Ltda Traduo:Eloisa Pasquini RevisoDominique M. BennettJoo GuimaresEdna Guimares Adaptao projeto grfico capaB. J. Carvalho DiagramaoB.J. Carvalho EditorJuan Carlos Martinez 1a edio - Julho de 2012 Coordenador de produoMauro W. Terrengui Produo de ebookFS eBooks E-ISBN: 978-85-243-0471-2ISBN: 978-85-243-0418-7 Todos os direitos reservados para:

  • Editora HagnosAv. Jacinto Jlio, 2704815-160 - So Paulo - SPTel: (11) 5668 [email protected]

    Dados Internacionais deCatalogao na Publicao (CIP)(Cmara Brasileira do Livro, SP,

    Brasil)

    McGrath, Alister E.As crnicas de Aedyn : o voodos exilados / Alister McGrath& WojciechNowakowski ; [ilustraes]Wojciech Nowakowski ;[traduo Eloisa Pasquini]. --So Paulo : Hagnos, 2014.2Mb ; ePUB

  • Ttulo original: The Aedynchronicles - Flight of theoutcasts..[Design da capa: SaraMolegraaf] ISBN 978-85-243-0471-2 1. Fico inglesa I.Nowakowski, Wojciech. II.Ttulo. 11-09234 CDD-823

    ndices para catlogo sistemtico:1. Fico : Literatura inglesa 823

  • Sumrio

    Captulo 1Captulo 2Captulo 3Captulo 4Captulo 5Captulo 6Captulo 7Captulo 8Captulo 9Captulo 10Captulo 11Captulo 12Captulo 13Captulo 14Captulo 15Captulo 16Captulo 17Eplogo

  • OCaptulo

    1vento de dezembro batia forte contra os penhascos do Canal da Mancha esubia para o norte, chacoalhando vidraas e batendo contra portas em seu

    caminho. Ele uivava sobre os pntanos e vales at finalmente bater na janela daQueens Academy for Young Ladies. (Academia da Rainha, para Moas.)

    E com o vento veio a chuva. Comeou devagar: no comeo s algumas gotasdeixando as marcas no vidro; depois mais forte e, ento de repente caiu umatempestade que foi lavando a paisagem. Os galhos do salgueiro se curvavam eraspavam contra a janela, e Jlia Grant, sentada sua escrivaninha com o queixoapoiado na mo, achou que esse era o som mais solitrio do mundo.

    Era uma opinio certamente compartilhada por suas colegas de classe. Cadauma das meninas da sala olhava fixamente para fora da janela e sonhava com asfrias de Natal, trs semanas inteiras de festas, bolos e presentes. Ento, quemsabe, d. Wilma, que estava tentando corajosamente preencher a cabea de suasalunas com a lio sobre Sir Francis Drake e a derrota da armada espanhola,poderia ser perdoada por repreend-las to asperamente ao chamar sua ateno.

    Jlia voltou a prestar ateno quando ouviu a voz de d. Wilma. Ela anotou emseu caderno algumas coisas do quadro-negro, escrevendo com sua letra elegantee mida. Mas aps um instante j estava de volta, olhando fixamente pela janela,observando os finos galhos deixando pequenos rastos na gua enquanto o vento oslevava pra l e pra c. Ela - talvez s ela, entre todas as colegas de classe - noestava ansiosa pelas frias de Natal. Natal significava ir para casa, e sua casa alembrava do terrvel Bertram e da mais terrvel ainda, Lusa, e pior de tudo, desua nova madrasta.

    Fazia dois anos que a me de Jlia morrera. Ela e seu irmo, Pedro,esperavam que as frias fossem na casa de seus avs em Oxford, quando seupai, o comandante Grant, estivesse em alto-mar. Mas depois de tirar umas frias,na primavera, ele chegou inesperadamente e participou seu noivado com umaviva que tinha dois filhos. Antes do fim do ms eles se casaram.

    Sua nova esposa era uma mulher alta e magra com um sorriso apertado efrios olhos cinzentos. Seus filhos, Bertram e Lusa, eram mimados, malvados egostavam de atormentar o gato da casa apenas por esporte. Pedro achou que elestalvez fossem criminosos fugindo da lei. As orelhas de Pedro levaram um tabefepor ele ter dito isso na frente do pai.

    - Muito bem, meninas. Isso tudo por hoje - disse d. Wilma. Jlia voltou aateno mais uma vez, percebendo que havia parado suas anotaes durante

  • uma aula particularmente entediante, sobre canhes de ferro fundido de naviosingleses, e nunca as retomou. Ela esperava que a Inglaterra tivesse ganhado.

    - Boas frias - d. Wilma estava em p ao lado do quadro-negro com umsorriso sufocado, enquanto uma agitao nervosa irrompeu sua volta: cadeirase carteiras arrastando no cho, papis farfalhando, livros se fechando e vintemeninas impacientes correndo para fora da sala. Jlia, ainda sentada no fundo dasala, era a ltima da fila, e d. Wilma tocou a manga de seu vestido antes de elasair.

    - Fique para conversarmos um pouco. Pode ser? - Ela perguntou, e Jliaacenou com a cabea. Ela agarrou seus livros com fora contra o peito enquantod. Wilma se sentou na ponta da mesa.

    - Estou um pouco preocupada com voc, Jlia - ela disse suavemente. - Vocme parece muito distrada desde o ltimo semestre. Seus pensamentos estolonge, e suas notas... Bem, no precisamos falar a respeito de suas notas agora,certo?

    Jlia sacudiu a cabea.A professora pigarreou.- S gostaria de saber se tudo est bem em sua casa. No fcil perder a

    me, e o pai se casar to depressa novamente... - Sua voz diminuiu, e Jliapercebeu que deveria responder.

    - Estou bem - ela disse. - Est tudo bem.- Ah! - disse d. Wilma. - Eu suponho, ento... - ela parou. - Um feliz Natal

    para voc querida. Ns nos veremos no semestre que vem e conversaremosnovamente, est bem?

    - Sim, senhora. Feliz Natal - disse Jlia, e saiu.O vento de dezembro seguiu Jlia enquanto ela se arrastava pelo corredor

    vazio e subia a grande escadaria at seu dormitrio. O prdio era velho, oaquecimento antigo, e nos meses de inverno o dormitrio nunca perdia o argelado. Jlia empurrou a porta, e sem cerimnia jogou os livros que estavacarregando, em cima da mala. Pegou o cobertor nos ps da cama e o colocounas costas.

    - Por que voc demorou? - perguntou uma voz atrs dela. Jlia se virou esorriu ao ver sua melhor amiga, Lcia, que estava arrumando a mala.

    - Estou atrasada para arrumar as minhas coisas?- Nem um pouco - disse Lcia com um grunhido. - Sente-se aqui, por favor.Jlia subiu gentilmente em cima da mala e Lcia conseguiu fech-la. Um p

    de meia branca escapou da mala e ficou pendurado. Lcia preferiu ignor-lo.

  • - E ento, o que a Wilma queria?Jlia jogou as tranas para trs.- Ela s me desejou um feliz Natal - disse ela. - Ela queria saber a meu

    respeito, e como eu passaria as frias.- E como voc vai passar o Natal? - perguntou Lcia. - Eu suponho que os

    trs terrores estaro presentes?- Sim, sim, ai de mim! - Jlia deu um suspiro dramtico. - E o meu pai estar

    em casa. Ele nem sempre consegue estar em casa no Natal, sabe... E piorainda quando ele est porque ele os favorece. Pedro e Bertram vo brigar, elessempre brigam, e Lusa vai provavelmente tentar matar o gato novamente.

    Ela forou um riso, mas, a sobrancelha de Lcia se enrugou.- Eu gostaria muito que voc pudesse ir pra casa comigo. Queria que as

    coisas no fossem to horrveis para voc.Jlia deu de ombros.- So s trs semanas. J sobrevivi a coisas piores.- Pior que a morte da me e uma nova famlia de criminosos? - Jlia se

    retraiu quando sua me foi mencionada, e Lcia chegou mais perto dela. - Sintomuito - ela disse -, isso foi cruel da minha parte.

    Jlia deu de ombros novamente.- difcil no sentir saudades dela no Natal. Mas j houve coisas piores.Lcia apertou os olhos.- Que coisas? Eu sabia que algo tinha acontecido com voc nas ltimas

    frias! Voc voltou diferente. Voc... bem, voc amadureceu de repente.- Eu visitei meus avs naquelas frias. Voc se lembra? Ns tnhamos

    combinado de passar as frias juntas em Kent, mas fui mandada para Oxford.Eu imagino que deve ter sido porque fiquei com eles - ela deu uma pequenarisada.

    - No - disse Lcia. - Eu no quis dizer uma mudana no modo de voc falar.Voc parecia mais forte. Sabe, mais confiante. Como uma mulher. Algoaconteceu; eu tenho certeza disso.

    Em outro dia, com outra pessoa, Jlia teria negado sem rodeios. Mas nessedia solitrio, um dia em que o vento parecia carregar consigo centenas de anosde segredos, Jlia queria se abrir com algum. E aqui estava sua melhor amiga,implorando para saber o que tinha acontecido. Ela se enrolou mais no cobertor echegou mais perto de Lcia, seus olhos brilhavam.

    - Voc tem que prometer que no vai contar para ningum, ningum,entendeu?

  • Lcia acenou com a cabea, com olhos arregalados.- E voc tem que prometer que vai acreditar em mim. No importa quo

    louco possa parecer. Porque tem que ser verdadeiro, e s vezes eu ainda achoque pode ter sido tudo um sonho.

    - Eu prometo - Lcia fez uma cruz em cima do corao.- Est bem - Jlia respirou fundo. - Naquelas frias, quando eu estava em

    Oxford, Pedro e eu fomos para outro mundo.Seja o que for que Lcia tivesse esperando ouvir, evidentemente no era

    isso. Ela ficou em silncio por um longo instante, esperando Jlia dizer algo queno fosse to bobo. Quando Jlia no falou, Lcia pigarreou.

    - Voc foi... Aham!... Para onde?- Outro mundo, outra dimenso - repetiu Jlia. - Como este, s que diferente.

    Mais selvagem. Chamava-se Aedyn, e as pessoas que moravam l tinham sidoescravizadas por trs tiranos horrveis, feras, de verdade. Pedro e eu fomoschamados para esse mundo para resgatar o povo de sua escravido. E os trslordes e seus terrveis servos quase nos mataram, mas Pedro e eu conduzimosum exrcito contra eles e libertamos o povo.

    - Vocs libertaram o povo - repetiu Lcia.- Sim - disse Jlia. - E um monge, cujo nome era Gaius, pediu que

    mantivssemos tudo em segredo.- No posso imaginar por que - disse Lcia com indiferena. Jlia a ignorou.- Eles me chamaram de Libertadora: a Escolhida! E todos olhavam para

    mim pedindo ajuda, mas, na verdade no fui eu; foi o Senhor dos Exrcitostrabalhando o tempo todo.

    Houve uma pausa bem sugestiva.- Jlia - Lcia disse devagar -, quem sabe, voc no sofreu um acidente

    durante as frias?- Claro, que no. Voc mesma disse que eu parecia mais adulta.- Ento no acha que est na hora de parar de fazer brincadeiras bobas?Jlia sentiu como se tivesse levado um tapa no rosto. Ela piscou muito para

    esconder as lgrimas que estavam em seus olhos.- Eu no inventaria isso. Eu estive l. Eu vi. E eu sei que aconteceu comigo.- Voc estava angustiada por causa de seu pai - disse Lcia devagar. -

    Mgica no existe.- Eu nunca disse que era mgica - Jlia insistiu. - Foi o Senhor dos Exrcitos,

    e ele tem um tipo diferente de poder.

  • Lcia comeava a se sentir desconfortvel. Ela acenou com a cabea e selevantou, deixando cair na cama o cobertor que tinha em volta dos ombros.

    - Eu no vou contar para ningum - ela prometeu novamente. - E agora, noacha que hora de descermos para o jantar? Vamos nos atrasar se no nosapressarmos.

    Jlia estava desapontada. Ela estava to certa que Lcia acreditaria nela.Mas pelo menos podia ficar feliz, pois estaria com Pedro durante as frias. Elesconversariam sobre Aedyn. Ento, ela se levantou, seguiu Lcia para fora doquarto e desceram a grande escadaria at a sala de jantar, para se juntarem soutras alunas. E o tempo, todo o vento e a chuva martelavam em seus ouvidos.

  • ACaptulo

    2mesma chuva caa alguns quilmetros ao norte, na King George Academy forYoung Men (Academia Rei George, para Rapazes), mas Pedro, com seu rosto

    sendo empurrado para dentro da lama por um menino muito maior e muito maisforte que ele, no se importava com a chuva. Ele chutou e se agitou enquantotentava desequilibrar o menino mais velho, com uma fora que ele geralmenteno tinha, mas, que era causada pela raiva. Com o brao tenso, Pedro bateu namo que o segurava para baixo e se levantou. Antes que seu oponente pudessereagir, Pedro deu-lhe um soco no rosto com fora e um filete de sanguecomeou a escorrer.

    O grupo que estivera provocando Pedro irrompeu em aclamao quando omenino mais velho se desequilibrou para trs. Pedro ficou parado, ainda tomandoflego e ignorando os gritos, esperando, caso outro soco viesse em sua direo.Foi ento que, uma mo firme segurou seu ombro: professor Bernardo.

    - Voc vem comigo, Pedro. E vocs - disse -, saiam j daqui!O crculo de meninos que rodeava a briga se desfez e se espalhou. O menino

    mais velho, Mrio, estava de joelhos agora, segurando o nariz com as duas mose se lamentava. Pedro percebeu quando ele olhou de soslaio para ver seBernardo o estava notando, mas ele no estava. Mrio choramingou mais alto.

    - Levante-se e v para a enfermaria, Mrio - Bernardo disse, fazendo Pedroandar. Sua mo grande segurava firme o ombro de Pedro enquanto caminhavamde volta para a escola. A chuva havia transformado o campo nevado emlamaal, e os dois estavam ensopados quando chegaram ao prdio. O estado dascoisas parecia no ter melhorado o humor de Bernardo.

  • - Quarta vez este semestre - ele disse, sacudindo o ombro de Pedro a cadapasso dado. - Nunca vi... nunca, em todos estes anos que leciono...

    Seus sapatos faziam barulho no cho de pedra enquanto ele puxava Pedro,que estava meio arrastando os ps e meio correndo para conseguir manter-sejunto a ele.

    Eles pararam em frente a uma porta fechada. Bernardo bateu fortemente porta e esperou at que uma voz baixa murmurou:

    - Entre.A porta rangeu ao abrir. Um homem muito gordo, com um bigode enorme,

    estava sentado diante dele, envolto numa tnica preta e volumosa. Suas mosestavam entrelaadas sobre a barriga. Ele olhava por cima dos culos, o homeme o menino na frente dele.

    - Ah! Pedro - ele suspirou. - Ento mais uma vez aqui!

  • Ele acenou com a cabea, dispensando Bernardo, que deu uma ltima ecruel sacudida no ombro de Pedro e saiu a passos largos. O barulho do sapatoecoou pelo corredor por um instante longo e vazio.

    - E o que voc tem a dizer em sua defesa desta vez? - perguntou o diretor,uma vez que o barulho do sapato tinha diminudo.

    - Foi o Mrio, senhor - disse Pedro. - Ele estava falando sobre o torneio dearco e flecha da semana que vem, e disse que eu era um fraco e que perderia, edisse ainda que minha me, j morta, me ensinou a atirar.

    - Ah! - disse o diretor. - E voc acha que isso razo suficiente para baternele? Isso no esprito esportivo, Pedro.

    - Ele me bateu primeiro - disse Pedro rapidamente.- Eu acho que ns dois sabemos que essa no a questo - o diretor replicou.Ele se ajeitou cadeira, que rangeu protestando e tirou os culos. Esfregou a

    tmpora com o dedo e o indicador e deu um suspiro cansado.- Como este o terceiro, no o quarto, no ?... Sim, o quarto incidente deste

    semestre, vamos avisar o comandante a respeito de sua conduta. Estecomportamento simplesmente no ser mais tolerado. Est entendido, Pedro?

    Pedro acenou com a cabea.- Sim, senhor.- Bom - o diretor colocou os culos novamente. - Pode ir embora. Quem

    sabe o comandante consiga colocar algum juzo em sua cabea durante as frias.Pedro saiu do escritrio e fechou a porta. Encostado na parede do lado de

    fora da sala do diretor, ele limpou o rosto com a mo, tentando retirar um poucoda lama da bochecha, que j estava secando. Mrio era um brigo e um patife.Ele poderia se safar de qualquer coisa, e isso s porque o pai dele fazia parte dadiretoria da escola. Mrio maravilhoso, Mrio perfeito, jamais provocaria umabriga. E agora o pai de Pedro ficaria sabendo.

    Pedro respirou fundo, com medo do castigo que o esperava em casa. Nopassado, ele teria levado um sermo e isso seria tudo - nos dias anteriores aBertram e Lusa e a Perversa Madrasta. Agora seria pior. Muito pior.

    Jlia ouviu os berros assim que abriu a porta. Seus ombros caram ao ouvir onome de Pedro no outro cmodo - O tom era como se algo estivesse trazendo

  • desgraa para o nome da famlia. Algo a ver com esprito esportivo e controle dehumor... Alguma coisa como ensinar-lhe uma lio. Ela queria largar as malasali e correr para o seu quarto - correr para algum lugar onde no pudesse ouviraquele homem assustador, que no parecia mais seu pai.

    Antes de poder fugir, porm, ouviu passos na escada e olhando para cima viuuma menina, quase da sua idade, descendo. Havia em seu rosto um sorrisomalicioso, decidido, satisfeito; e ela cantava baixinho com os lbios fechados. Seucabelo castanho estava puxado para trs em duas tranas, e os olhos pequenos ecinza estavam congelados numa piscada: Lusa.

    - Olha quem est de volta - ela disse, parando com o cantarolar. - A pequenae boba Jlia, a menina que ningum nunca amou, est em casa para o Natal.

    Jlia teve um profundo desejo de puxar uma das longas tranas de Lusa.- O que est acontecendo l dentro? - ela perguntou, acenando em direo

    porta do escritrio do pai.- Oh! Voc ainda no sabe? Pedro se meteu em mais uma briga na escola. O

    diretor mandou uma carta. Disse que se acontecer novamente ele ser expulso.Um som de pancada, e depois um grito abafado. O rosto de Jlia ficou

    branco enquanto o sorriso de Lusa aumentou.- A mame disse que ele est totalmente fora de controle, e deve ser

    mandado para uma escola especial para casos sem esperana.- De fato...Uma mulher alta e magra apareceu na escada, e Jlia olhou para cima

    quando ouviu a voz da madrasta. Seus cabelos escuros puxados para trs em umpequeno coque, e os vincos grossos de seu vestido apenas enfatizavam aseveridade do seu rosto. Os lbios de sua madrasta foraram um leve sorriso.

    - Bem-vinda, Jlia. Esperamos que sua conduta tenha sido mais apropriadaque a de seu irmo.

    - Sim senhora.- Muito bem, ento. Leve suas coisas para cima para o seu quarto e troque de

    roupa - seu nariz se enrugou ao olhar para a roupa amarrotada com a qual elaviajara - e vista algo mais apropriado para uma mocinha. O jantar daqui a umahora.

    - Ela deu o mesmo sorriso escasso e Jlia subiu para o seu quarto, tentandono ouvir o choro abafado que vinha do escritrio do pai.

    - Eu no quero que voc passe muito tempo ao lado de nenhum dos dois,querida - sua madrasta disse a Lusa, mas numa altura, que Jlia tinha certeza

  • que era para ela ouvir. - Eles so uma terrvel influncia para voc e para oBertranzinho. A me deles deve ter sido uma mulher terrvel.

    No teve jantar para Pedro naquela noite, e s depois que mandaram Jliapara cama foi que ela deu um jeito de passar s escondidas para o quarto dele.Seu irmo estava sentado na cama, com um livro aberto nos joelhos. Havia umolhar duro e amargo em seu rosto, mas que suavizou quando viu a irm.

    Ela parou nos ps da cama.- Sinto muito - ela disse. - O papai foi horroroso.Pedro deu de ombros.- Eu pensei que seria diferente. Sabe, depois de Aedy n, depois de tudo que

    passamos l. Eu pensei que seria mais fcil estar na escola e lidar com o papaie... Eu simplesmente achei que seria diferente.

    - Eu tambm.- Ns derrotamos o Chacal, o Leopardo, e o Lobo. Eu pensei que saberia

    lidar com o diretor.- Ou pelo menos lidar com Lusa e Bertram - Jlia deu um sorriso, e quando

    Pedro viu, ele j estava dando uma risada.- O Bertranzinho. Ns vamos nos divertir com ele nas frias, n? Oh... -

    Pedro pulou da cama e pegou sua mochila da escola, que ainda estava intacta dolado de dentro da porta. Ele abriu a mochila e tirou um pequeno pacoteembrulhado num papel marrom e com lao. - Para voc - ele deu o pacote paraJlia. - Eu comprei para voc. Feliz Natal!

    Jlia recebeu o pacote de sua mo, desamarrou-o cuidadosamente, tirou opapel e viu um livro usado com capa de couro: Alice no pas das maravilhas. Elaolhou surpresa para Pedro.

    Voc estava certa... A respeito dos sonhos, de outros mundos e tudo mais... Eento foi a vez de Pedro ficar surpreso quando Jlia colocou os braos em voltadele.

  • OCaptulo

    3Natal foi triste, claro. Naquela manh, Pedro e Jlia acordaram eencontraram um novo tapete de neve cobrindo a casa, as rvores, o quintal, e

    ambos sentiram o tilintar familiar de expectativa que vem numa manh comoessa. Mas no durou muito.

    Eles desceram e encontraram o pai, a madrasta, Bertram e Lusa, todossentados tomando chocolate quente e rindo juntos como... Bem, como umaverdadeira famlia, Jlia pensou. As duas crianas j tinham escolhido ospresentes que queriam abrir primeiro.

    Lusa ganhou uma casa de boneca e Bertram uma nova vara de pescar euma caixa com todo o equipamento, inclusive a isca - para que possamos pescarjuntos na primavera - o comandante disse. Jlia ganhou um vestido que elaacreditava ter sido de Lusa (julgando pelo sorriso forado) e um pingente de suaav. Ele era trabalhado em uma pedra verde e na forma de uma estrela com seispontas compridas. Ele estava numa corrente de ouro e com ele veio um bilhete:

    Eu encontrei isto perto do laguinho, Jlia querida.No tenho ideia de onde veio, mas, algo que parececombinar com voc. Um pingente muito fora do comum,mas espero que voc goste. Muito amor e um Feliz Natal. Jlia segurou o pingente na palma quente da mo. Algo parecia familiar nele

    - algo que no sabia exatamente o que era. Ela colocou a corrente em volta dopescoo e tocou o pingente por dentro da gola da camisola. A pedra estava friaem sua pele.

    Pedro ganhou do pai uma caixa de veludo, usada. Ela abria com umadobradia e dentro tinha uma bssola embaada, velha.

    - Essa bssola j passou por muitos temporais comigo - disse o comandante.- Eu espero que ela sirva para voc refletir sobre como orientar bem o curso dasua vida.

    A madrasta o interrompeu concordando:- Seu pai est certo. Voc precisa de direo.Pedro olhou para o pai, olhou para a bssola e depois olhou para a nova vara

    de pescar de Bertram.- Obrigado, pai - ele disse e jogou a caixa no bolso do roupo tentando

    esquecer aquele episdio.

  • Depois de abrirem os presentes, as crianas subiram para trocar de roupapara o almoo de Natal. Jlia tirou o colar e colocou o vestido novo, se virando nafrente do espelho para ver como tinha ficado. Ele no serviu bem - muito grandena cintura e muito apertado nos ombros. Definitivamente tinha sido de Lusa. Masseu pai sorriu e, quando a viu disse:

  • - A est a minha menina- esta era a primeira vez que ele dizia isso desdeque tinha se casado de novo, e ela foi ao seu encontro para ganhar um abrao.Ele a segurou firme e bem perto, e ela respirou o aroma familiar de tabaco e dops-barba.

    - O senhor - ela fez uma pausa no querendo estragar o momento. - Osenhor sente saudades da mame?

    Ela escutou o pai respirar - uma vez, duas vezes, trs vezes.- Claro que sim. Sinto falta dela todos os dias.Jlia apertou os braos em volta da cintura dele, pressionando a bochecha

    nos botes da sua camisa.- Eu tambm - ela disse.- Mas agora voc tem Lusa para brincar com voc, querida, e somos uma

    famlia completa novamente.Jlia se enrijeceu e se afastou de seu pai.- E esse o melhor presente de Natal, voc no acha?Ela forou um sorriso.- Sim, papai. O melhor que poderia ser.O comandante deu um tapinha no seu ombro.- V l querida e avise a cozinheira que estaremos prontos logo. Pudim de

    ameixa, Jlia... No bom?- Muito bom, papai.No era bom. Pedro estava de mau humor e sentou com tristeza mesa,

    pegando um pedao do assado e amassando algumas ervilhas com o garfo. Jliaestava quieta porque Pedro estava quieto, e Bertram - o horrendo Bertram -preencheu o silncio com uma longa histria de como ele tinha conseguido queum menino da escola se desse mal.

    - Ele estava assoando o nariz no banheiro durante a aula de cincias -Bertram disse -, e eu falei para o professor Ronaldo que ele estava l, e vocsdeveriam ter visto como ele saiu! Ele estava todo vermelho e se debulhando emlgrimas, e ele apanhou por ter cabulado a aula.

    - Que falta de esprito esportivo - Pedro disse, e a mesa ficou em silncio.Jlia apertava o punho em volta da faca. Suas juntas j estavam brancas.

    - Rapazes - disse o comandante, tomando um longo gole de vinho -, quemno sabe o significado de agir corretamente no deveria estar dando lio demoral.

    Seus olhos se moveram do vinho no fundo do copo para o rosto plido de seufilho.

  • - Pea desculpas, Pedro.Pedro empurrou a cadeira para longe da mesa. Ficou em p. Pegou seu copo

    de gua e jogou a gua diretamente no rosto gordo de Bertram.

    Algumas horas mais tarde, Jlia bateu mais uma vez porta do quarto dePedro. Depois de vrias batidas na porta, ainda no tinha resposta.

    - Sou eu - ela disse na porta. - Eu trouxe algumas coisas da cozinha.Ela ouviu um resmungo do outro lado da porta e achou que era suficiente

    como permisso para entrar.Pedro estava em p ao lado da cama, colocando uma trouxa de roupa dentro

    de um saco. Ele estava de chapu e de botas, e seu casaco de inverno estavadesabotoado em cima dos ombros. Um cachecol e um par de luvas - luvas decouro, provavelmente de Bertram - estavam ao lado do saco.

    Jlia entendeu tudo com apenas um olhar.- Para onde voc vai? - ela perguntou.- Embora - disse Pedro. - Para Oxford, talvez. O vov e a vov vo me

    entender.Jlia colocou o prato com o sanduche que havia trazido da cozinha em cima

    da cmoda de Pedro. Ela pensou por um instante.- Posso ir com voc?- Claro que no. Voc me atrasaria - Pedro dobrou seu suter azul-marinho

    de modo desajeitado e enfiou no saco empurrando as coisas para fazer espao.- Eu no - disse Jlia. - Voc acha que quero ficar aqui mais um minuto? Eles

    so to terrveis comigo, especialmente desde que pensam que voc tentouafogar o Bertram. Deixe-me ir, Pedro.

    Ele sacudiu a cabea e acabou de arrumar as coisas, mas Jlia agarrou seucasaco, virou-o para que ele olhasse pra ela.

    - Eu vou. Eu encontro voc l atrs daqui a dez minutos. D-me s dezminutos, est bem?

    Pedro comeou a falar e parou sua boca aberta. Ele acenou em direo aosanduche que ela deixara em cima da cmoda.

    - No se esquea de embrulhar. Poderemos ficar com fome no caminho.

  • Doze minutos mais tarde (foram dois minutos a mais para embrulhar ossanduches, Jlia disse) eles se encontraram na porta dos fundos. Jlia estava todaagasalhada em vrias camadas de cachecis e tinha seus patins de geloamarrados, pelos cadaros, na sua sacola.

    - Patins? - disse Pedro.- Para o lago em Oxford - disse Jlia.- Ah! - disse Pedro. E saram.Tiveram que atravessar um longo trecho de gramado antes de chegarem s

    rvores na rua, e Jlia andou desejando que ningum resolvesse olhar pelajanela, na hora que eles estivessem fugindo. Nisto ela no teve tanta sorte, masainda demoraria alguns minutos at que ela descobrisse. Pedro estava com suabssola e insistia que o caminho mais curto at a estao de trem era, de fato,pelo bosque.

    - Eu no me importo - Jlia disse. - Vamos nos perder se no formos pelaestrada. Voc se lembra como foi difcil encontrar o caminho naquelas florestasde Aedyn. Devemos ter nos perdido umas cem vezes.

    - Mas seremos vistos se formos pela estrada - disse Pedro. - Venha. Nortepelo nordeste - ele mergulhou na mata, e Jlia no teve escolha, seno seguir.

    Logo ficou evidente que eles deveriam ter sado algumas horas antes, sequisessem mesmo ir embora, porque a noite estava comeando a aparecer nocu e os galhos das rvores acima deles estavam comeando a fazer longassombras por cima da neve. Eles andaram rapidamente, no falando muito. Pedroolhava a bssola de tempos em tempos, s vezes mudando um pouco a direopara ficar perfeitamente no caminho, e Jlia o seguia, pisando nas pegadas dele,que eram maiores.

    No fazia dez minutos que tinham chegado ao bosque - mas parecia muitomais na verdade - quando chegaram a um riacho. O riacho estava cheio com ogelo derretido e a chuva do temporal, e correndo mais depressa do que elestinham visto no vero. Pedro parou, sem ter certeza como continuar, e verificousua bssola novamente. No havia como pular o riacho agora.

    - Ah! Francamente - disse Jlia. - Voc sabe que nunca vamos conseguiratravess-lo assim.

    - Se estivesse pelo menos um pouco mais frio eu suponho que voc poderiamuito bem atravessar com seus patins! - disse Pedro imediatamente.

    - Eu no acho que ficar mais estreito se ns o seguirmos...- No. Ficar pior mais frente. Este o nico lugar que poderemos pular.

    Voc no se lembra? Ns costumvamos fazer isso quando ramos crianas.

  • Pedro virou a bssola para um lado, quem sabe esperando que contasse umahistria diferente.

    - Ento eu suponho que voltaremos para a estrada.- No, ns seremos vistos. Eu j disse!Jlia colocou a mo na cintura e levantou o queixo de uma maneira que

    condizia com a Escolhida de Aedy n, e Pedro talvez tivesse cedido se tivesse tidoa oportunidade. De fato, ele j tinha aberto a boca para dizer: Est bem, faa dasua maneira, mas outra voz - uma voz fina e nasal falou primeiro.

    - Desobedientes, desobedientes, tentando fugir! Esperem at que o pai devocs saiba disso! - era Lusa, em p um pouco atrs deles e meio escondida nasrvores. O corao de Pedro foi parar no estmago. Ela estragaria tudo. Tudo.

    - V embora Lusa - disse Jlia severamente, seu queixo pontudo aindaerguido. - No queremos voc aqui. Volte para casa e v tagarelar sobre nscomo a garota desagradvel que voc .

    - E se eu contar eles vo saber exatamente onde encontrar vocs - provocouLusa. Pedro e Jlia olharam para baixo: ela estava certa. Suas pegadas na neveeram to claras como o dia, para quem quisesse segui-las. Lusa colocou as mospara trs e comeou a cantar com os lbios fechados - ela sempre cantavaassim, pensou Jlia.

    - Da prxima vez - disse Pedro sua irm -, lembre-me de fugir no vero.E lembrando-se da fora que veio aos seus dedos quando ele segurou o arco

    e flecha e enfrentou os tenebrosos lordes de Aedy n, Pedro se ajoelhou, pegouum punhado de neve, fez uma bola, e jogou em Lusa.

    Ela gritou e levantou as mos, mas no com a rapidez que deveria, e a bolabateu no seu nariz. Pedro deu risada e lanou mais uma, e mais uma, at queLusa comeou a correr. E ele no pode ser culpado pelo fato de ela ter perdido orumo e corrido em direo ao riacho e no de volta para a direo em que tinhavindo.

    A gua proveniente do degelo supergelada e Lusa gritou ao cair. Jliatambm comeou a gritar e ambos correram para ajud-la. Mas, ao correrempara a gua, perceberam que no estavam na margem do riacho, mas naextremidade de um abismo gelado, e antes que pudessem gritar, os dois caram.

  • -SCaptulo

    4aia! Saia de cima de mim!

    Pedro retomou os sentidos e rolou para o lado. Uma Lusa ofegante,falando apressada e confusamente, deitada de barriga para cima, seu foradosorriso perptuo foi substitudo por um olhar de completo terror.

    - O que... Para onde voc me trouxe? O que voc fez? - ela estavapraticamente gritando.

    - Eu no fiz nada. Voc foi quem nos seguiu e depois voc correu para o ladoerrado e ns tivemos que resgat-la.

    - E que resgate! Que lugar este?Pedro olhou ao redor. Eles estavam dentro de uma imponente sala de pedra.

    Candelabros pendurados no teto bem acima da cabea deles e um trabalho empedra, muito aprimorado, cobria as paredes. Ele olhou ao redor procurando Jliae a encontrou cada na outra extremidade da sala. Enquanto ele observava, ela seapoiou e ficou em p, olhando para fora de uma pequena janela. Ela virou paraeles, e Pedro reconheceu o sorriso no seu rosto.

    - Estamos de volta - ela disse de maneira simples. - Ns conseguimos voltar.- Conseguiram voltar para onde?- Oh! fique quieta - Pedro repreendeu Lusa. Ele se levantou rapidamente e

    foi at a janela, ao lado de Jlia. A janela era comprida e estreita, mas elesestavam bem no alto e ele conseguia ver um longo caminho, por colinas e vales,tudo exuberante e verde, do jeito que ele se lembrava. Ele respirou fundo,deixando que o ar de Aedyn enchesse seus pulmes, e pela primeira vez duranteum bom tempo ele sentiu que estava em casa.

    - Est tudo to quieto - disse Jlia, e Pedro percebeu que tudo estavarealmente em silncio. Eles estavam no Grande Salo da fortaleza de Aedyn - aliestava a plataforma onde ficavam os trs tronos dos lordes de Aedy n, e mais aliestava o ponto escuro no cho onde ele os ensinara a usar a plvora - mas nohavia nada do barulho comum e da agitao que se esperaria ouvir no castelo.Nenhum servo fazendo suas tarefas, ningum andando de forma pesada esfrega no cho de pedra.

    - O que est acontecendo? - choramingou Lusa atrs deles. Pedro reprimiuum gemido, Jlia virou-se, foi at ela, estendeu a mo e ajudou-a a ficar em p.- Ns estamos num lugar chamado Aedyn. um tipo de mundo diferente, e achoque fomos chamados para c. Pedro e eu j estivemos aqui antes, ento voc vaiter que confiar em ns, est bem?

  • - Mas como vamos para casa? - Lusa choramingou. Jlia parou no momentoem que ia se zangar e tentou falar pacientemente.

    - Eu ainda no sei. Primeiro precisamos descobrir por que estamos aqui - elavirou a cabea para olhar para Pedro.

    - Certo?- Certo. E ns comearemos tentando descobrir para onde foram todas as

    pessoas.Ele andou em direo grande porta de madeira na extremidade oposta do

    Grande Salo e, com muita fora, empurrou e abriu a porta.- Sigam-me, mocinhas - ele disse.O restante do castelo estava to vazio quanto o Grande Salo. No havia

    sinais de grande luta e o lugar no parecia abandonado. No havia poeira nasjanelas ou nas cadeiras e toda a moblia estava perfeitamente em ordem. Defato, parecia que os ocupantes do castelo teriam simplesmente desaparecido.

    Jlia e Lusa seguiram Pedro por um longo corredor forrado de tapearias deparede. No final do corredor ele abriu outra porta - esta no to pesada eenfeitada quanto a da entrada do Grande Salo. As trs crianas entraram numasala iluminada pelo sol da tarde. Enormes postas de carne seca estavamdependuradas no teto e panelas alinhadas na parede. Mesas compridas gemiamsob os sacos protuberantes e tigelas pesadas. O fogo na grelha parecia ter sidoapagado h algum tempo, mas uma panela preta grande cheia de algum tipo desopa estava suspensa por correntes em cima das cinzas.

    - melhor comermos alguma coisa - sugeriu Jlia. - No sabemos o quevamos encontrar l fora, e pode levar algum tempo at que possamos ter umarefeio decente novamente. Lembra da ltima vez, Pedro?

    Ele deu um sorriso forado e infeliz. Ele, de fato, se lembrava. Quandochegaram a Aedyn, eles no comeram ou beberam durante quase um diainteiro, e ele no gostaria que essa experincia se repetisse.

    - Concordo. Vamos levar o que pudermos carregar. Jlia, veja se consegueachar alguns odres para gua, e Lusa, voc pega um pouco daquela linguia -ele gesticulou em direo a uma longa corda que estava pendurada perto dacabea dela.

    - Coloque aqui dentro - ele disse e jogou sua mochila. Ela pegou e olhou paraele.

  • - Por que eu deveria fazer isso?- Porque se voc no fizer, ns vamos deix-la aqui sozinha para sempre -

    disse Pedro. - Vamos, ao trabalho.Ela olhou fixamente para ele meio confusa e puxou a corda com as linguias

    e comeou a coloc-las na mochila. Pedro pensou que ela estivesse chorando,mas em vez disso, ela comeou a cantar com os lbios fechados. Sua voz noestava to fina quanto era em casa, e fosse qual fosse a melodia que estivessecantando, no era to desafinada.

    Jlia, nesse meio-tempo, tinha achado alguns odres de vinho e comeava amover o longo brao da bomba de gua no canto da cozinha. Para cima e parabaixo ele se movia, para cima e para baixo. Ela fez um sinal para Pedro, e eleveio para segurar os odres em baixo dgua.

  • - Voc no precisa ser to rude com ela - Jlia disse.- Eu? Rude?- Voc sabe o que quero dizer - disse Jlia, suas sobrancelhas se enrugaram

    ao se concentrar em sua tarefa. - Ela uma infeliz, mimada, e no ser fcilpara ela estar aqui. O mnimo que podemos fazer sermos bondosos com ela.

    - Bondosos? Quando foi a ltima vez que ela foi bondosa conosco?- Nunca. Mas isso no significa que no possamos lhe mostrar um pouco de

    bondade.Pedro olhou para a irm de criao.- Tudo bem - ele disse. O odre estava cheio, quase estourando, e Pedro o

    tirou debaixo da corrente de gua, fechou bem o gargalo, e empurrou o prximopara debaixo da bomba.

    - Parece azar. Ns finalmente voltamos para c, e tivemos que traz-laconosco.

    - Eu sei - Jlia deu de ombros e parou de bombear. A gua comeou agotejar, o suficiente para Pedro encher o ltimo odre. Ele fechou o gargalo desseodre tambm.

    - Voc j acabou de arrumar as linguias? - ele perguntou para Lusa.- J - ela colocou a mochila no ombro. - E agora, voc me diz aonde vamos?- isso que estamos tentando descobrir, - disse Pedro. - Aqui - ele abriu a

    porta de um armrio e olhou dentro - tem po e queijo neste armrio - ele tiroudois pes duros e um queijo e os empurrou por cima do balco para Lusa. -Voc pode carregar estes tambm?

    Eles saram da cozinha da mesma maneira que entraram e deixaram ocastelo por um caminho sinuoso que passava pela vila e ia em direo ao pradoverde. O que Pedro e Jlia se lembravam como sendo uma trilha de animaisagora era uma alameda transversal que ia... Pedro tirou a bssola de seu bolso ea abriu: sul. A alameda devia ir em direo ao mar.

    Jlia, andando ao seu lado, estava notoriamente feliz. Era estranho ter sidochamada para c de novo, certamente, mas o formigamento na ponta de seusdedos lhe avisava que uma aventura estava prxima. E fossem quais fossem osperigos que estivessem frente, ela estava livre da escola, das notas e dohorrendo Bertram e do mais horrendo...

    Os sons satisfeitos de uma mastigao ruidosa vieram de trs e lembraramJlia de que ela e Pedro no estavam sozinhos nessa aventura. Ela virou e viu queLusa j tinha achado que podia pegar um pedao de po. Ela tirara um pedaogrande e o carregava em sua mo, consumindo pedaos enquanto andava.

  • - Voc acabou de comer a comida do almoo de Natal, h algumas horas -Jlia a lembrou. - E ns vamos precisar desse po logo.

    - Precisar para que? - Lusa perguntou ainda com a boca cheia de migalhas.- Eu pensei que estivssemos tentando ir para casa. No estamos indo para casa?

    - Com o tempo, eu suponho que sim - disse Jlia. - Mas antes que faamosisso, precisamos primeiro descobrir por que fomos chamados para c.

    - Vamos apanhar por estar fora tanto tempo - Lusa arrancou mais umpedao de po com os dentes. - Pelo menos vocs dois vo. Vou contar para amame que vocs me foraram a vir, e que me prometeram doces, e depois medeixaram no bosque. E ento ela vai mandar vocs dois para aquela escolaespecial para crianas horrendas e vocs nunca mais podero vir para casa nasfrias.

    Pedro estava prestes a dizer algo particularmente desagradvel - Jlia podiaver no seu rosto - mas antes que ele pudesse abrir a boca, os trs escutaram umtipo de som diferente. Era o grito bem forte de uma mulher.

  • PCaptulo

    5edro e Jlia no precisavam olhar um para o outro. Eles estavam correndo, omais depressa que suas pernas podiam, em direo praia, ao lugar de onde

    partira o grito.Lusa ficou para trs quase que imediatamente. Ela no era atleta e no tinha

    a mesma resistncia que Jlia e Pedro, alm de que ainda estava mastigando opo, e com o peso da mochila com a comida nas costas. Quando finalmenteconseguiu alcan-los, Pedro e Jlia estavam agachados atrs de uns arbustos,cochichando e apontando para alguma coisa que ela no conseguia ver.

    - O que ? - Lusa perguntou. Ela jogou a mochila no cho e observouatentamente por cima dos arbustos o topo da cordilheira. Eles estavam em cimade uma duna que descia at o mar cintilante, e havia um navio no mar... mas issofoi tudo que ela viu antes que Pedro a puxasse rudemente para baixo para o matoalto.

    - Fique abaixada! - ele sibilou. - No podemos ser vistos, voc no entende?- Mas talvez algum l embaixo saiba voltar...- Quieta!Lusa fechou a boca, sentou-se no cho e comeou a chorar. Pedro deu um

    olhar desmoralizador, resistindo ao forte desejo de lhe dar um chute, e voltou aespionar a praia.

    - Logo ali... no, ali - disse Jlia apontando. - Voc consegue ver? A mulherque estava gritando, ela deve estar com eles - Pedro acenou com a cabea. Umachalupa tinha acabado de sair da praia, e nela eles conseguiam reconheceralguns vultos desgrenhados sendo levados para o mar por seis guardasuniformizados. - Mas para onde estariam indo?

  • - Olhe - disse Pedro. Jlia lanou o olhar por cima do horizonte e viu umaescuna ancorada em guas profundas. Ela estava alta na gua, suas velasondulavam em trs enormes mastros. A chalupa mais perto da praia era uma dedoze que remavam firmemente em direo a ela, todas elas repletas daquelesguardas e seus prisioneiros desgrenhados.

    - O que faremos?- Faremos? Ns vamos para casa, para casa para a mame e... Bertranzinho!

    - Lusa estava chorando atrs dos arbustos.Pedro levantou uma sobrancelha para sua irm.- Deveramos t-la deixado no castelo - ele resmungou.Jlia escolheu ignor-lo.- Aqueles guardas, esto levando todas as pessoas... por que esto levando as

    pessoas?

  • - No sei - Pedro replicou. - Mas aposto que foi por isso que nos trouxeramaqui.

    Jlia acenou com a cabea, seus olhos ainda estavam fixos na escuna.- Mas como vamos descobrir para onde vo? A no ser que tenham deixado

    um barco, no poderemos segui-los.Os olhos de Pedro examinaram cuidadosamente o contorno da costa.- Tem junco l embaixo. Ns os cortaremos e nadaremos, respirando pelos

    tubos. Ns os usaremos como snorkel!- Muito esperto Pedro. E se nos cansarmos e no conseguirmos alcanar o

    navio?- Ah! Percebi a dificuldade.As chalupas agora j tinham quase todas alcanado a escuna, e Pedro e Jlia

    observavam de longe enquanto os prisioneiros embarcavam no navio. Talvezfossem pessoas que eles conhecessem, ou os filhos daqueles que elesconheceram. Foi um processo longo e vagaroso - os prisioneiros no pareciamdesejosos de embarcar na escuna - e s um de cada vez podia subir na frgilescada de corda. Porm, finalmente terminaram e uma aps a outra as chalupasforam iadas de volta escuna.

    - Ns deveramos descer at a praia - disse Pedro -, para ver se elesdeixaram alguma coisa...

    Jlia acenou com a cabea e se levantou. Lusa ainda estava chorando.- Lusa, no temos tempo para isso - Jlia disse severamente. - Alguns de

    nossos amigos esto em apuros, e precisamos ajud-los.Lusa olhou por entre os dedos que tinha colocado no rosto enquanto chorava.- Est bem - ela disse.Talvez voc j tenha tido a oportunidade de correr duna abaixo - durante as

    frias, quem sabe. Se j teve, vai entender o imenso prazer que se tem dasensao de tropear e cair vrias vezes enquanto corre, a areia quente entre osdedos dos ps ao tentar ficar em p, o xtase de cair e rolar repetidas vezes, osps no conseguindo manter o passo, at que voc desaba l embaixo.

    Pedro, Jlia e Lusa, porm, no tiveram essa experincia enquanto desciama duna. Eles estavam tentando ser cuidadosos, quietos, e sobretudo, Pedro e Jliatentavam evitar que Lusa se machucasse e comeasse a chorar de novo. Pedroachou que estar com ela era como ter uma criana sempre por perto.

    Eles no encontraram nada na praia. Nem prisioneiros, nem guardas,nenhuma chalupa e nada que pudesse lhes dar uma pista de onde os invasoresteriam vindo e para onde levavam os prisioneiros. Algumas pegadas na praia, e

  • isso era tudo. Pedro deu um chute com fora e espirrou areia para cima. Semsada.

    - Eu queria que Gaius estivesse aqui - Jlia disse, olhando para a escuna, quej tinha iado a ncora e virava em direo ao horizonte. Suas velas se enchiamcom o vento. - Voc acha que ns deveramos ir para o jardim?

    - Que jardim? - perguntou Lusa. Ela parecia totalmente estupefata, e Jliacomeou a ter d dela. Era muito pior para Lusa, pensou Jlia. Ela no sabianada a respeito deste lugar, e foi lanada no meio de tudo.

    - O jardim do rei - Jlia disse. - um lugar sagrado para o Senhor dosExrcitos, e se ns formos l poderemos ter alguma pista a respeito disso tudo.

    - Senhor dos Exrcitos? - Lusa perguntou confusa.- Ele ... Bem, ele o encarregado daqui - Jlia explicou. - Ns no podemos

    v-lo, mas ele est observando tudo, e eu acho que foi ele que nos chamou.- Venham - disse Pedro. - Vamos para o jardim. As coisas geralmente

    acontecem por l.O jardim no era longe da praia, e o caminho pela floresta fora limpo desde

    a ltima vez que caminharam por ele. O terreno estava plano e havia uma docebrisa zunindo em meio s folhas, e se no fosse por Lusa, a caminhada teria sido,de fato, agradvel. No fazia dez minutos que tinham comeado a caminhar eela j reclamava.

    O sol estava quente demais, o cho era muito duro, os pssaros faziam muitobarulho, a mochila era muito pesada. Ao reclamar da mochila, Pedro, como umcavalheiro, pegou a mochila com a comida, percebendo que ela estavavisivelmente mais leve que quando foi arrumada. Mas um instante mais tardeLusa decidiu que tinha andado muito. Sentou-se ao lado de uma rvore ecomeou a chorar.

    - Acho que vamos deix-la aqui - Pedro disse insensivelmente. - Ns nuncavamos chegar ao jardim desta maneira, e ela ficar segura at que voltemospara busc-la.

    Para falar a verdade, Jlia estava inclinada a concordar, mas ela sacudiu acabea.

    - Voc sabe que ns no podemos abandon-la. E, alm disso, todosestaremos mais seguros no jardim. No longe. - Ela foi at a irm de criao eestendeu a mo para ajud-la. - No longe, Lusa - ela disse novamente. E, defato, no demorou at que chegassem ao jardim. O brilho prateado familiar lhesdeu as boas-vindas, mas uma vez dentro de seus limites Pedro e Jliaperceberam que o jardim no estava como da primeira vez que o viram, todo

  • coberto pela vegetao. Trepadeiras e ervas daninhas cresceram de formaselvagem, estrangulando os botes de flor que uma vez floresceram ali,sufocando a vida do jardim com seus espinhos. A grande fonte no centro dojardim estava seca, e a bacia de pedra repleta de musgo e lquen. Pedro e Jliasentiram como se tivessem tropeado numa runa antiga, h muito negligenciadae com seu propsito esquecido.

    - isto? - disse Lusa. - este seu precioso jardim?Jlia estava angustiada demais pra responder. Pedro arrastou os ps,

    chutando para o lado uma quantidade indefinida de trepadeiras.- No estava assim quando fomos embora - ele disse. - Est deteriorando.

    No imagino...E bem nesse momento algo extraordinrio aconteceu.Houve um barulho acima deles no cu - o barulho do bater de asas pesadas.

    Pedro, Jlia e Lusa olharam para cima e viram uma mancha escura que logotomou a forma de um pssaro - um falco, Pedro disse ofegante. Ele encolheubem as asas e caiu verticalmente na direo deles, aterrissando com umapancada pesada perto da pedra do trono, do outro lado do jardim.

    As trs crianas ficaram totalmente plidas e aterrorizadas quando o pssarocaiu, porque era um falco, diferente de todos que j tinham visto. Ele eraabsolutamente enorme - do tamanho dos drages dos contos de fada, Jlia pensouno incio. Cada um de seus olhos dourados era do tamanho da cabea dascrianas, e um golpe com esse bico poderia quebrar suas colunas.

    - Para trs - disse Pedro, sem tirar os olhos dos olhos do falco. - Devagar,para dentro das rvores.

    Evidentemente, at Lusa sabia que era hora de ficar quieta, pois obedeceusem os protestos e o choro costumeiros.

    O pssaro viu que eles estavam se movendo e fez um movimento bruscocom a cabea para o lado. Ele bateu as asas uma vez, e as crianas puderamsentir o vento em seus rostos.

    - Ser que devemos correr? - perguntou Jlia em voz baixa, e Pedro estavaprestes a responder quando o falco levantou o bico e a cabea, abriu o bico e fezum barulho terrvel. E Pedro e Jlia teriam corrido - teriam corrido at no podermais - se Lusa no tivesse cado desmaiada.

  • OCaptulo

    6falco vinha em direo a eles, suas imensas garras esmigalhandoruidosamente a terra a cada passo dado. Jlia caiu de joelhos e comeou a

    sacudir e esbofetear Lusa com toda a fora, desesperada, tentando acord-lapara fugir, fugir para qualquer lugar.

    - Ns teremos de carreg-la - Pedro disse, mas j era tarde demais. Jliasentiu a escurido da sombra vindo de cima. Olhou e viu que o falco estavaacima deles.

    O falco curvou a cabea para ficar no mesmo nvel que eles, e Pedro ficouem p, mais alto que quando ele ficava em p encarando seu pai, olhandofixamente dentro daquele olho dourado. Jlia podia perceber que ele tremia e seurosto tornara-se totalmente branco, mas ele no piscava. E enquanto estava emp e esperava, o falco virou o pescoo mais uma vez e tocou de leve com o topode sua cabea na bochecha de Pedro.

    Pedro arfou e vacilou para trs como se tivesse sido golpeado, cambaleandona grama, mas depois olhou para o falco e pensou que talvez ele o estivesseesperando. Estendeu a mo e - bem devagar - cuidadosamente - tocou a crista desua cabea, logo atrs dos olhos.

    O falco emitiu um som que, se fosse um gato, ele teria descrito como umronronar. Ele abriu o bico e soltou vrios guinchos. Pedro estendeu a monovamente e acariciou com mais fora desta vez, passando os dedos pelas penasescuras.

    - Cuidado - cochichou Jlia da maneira mais suave que pde. Pedro sacudiua cabea, seu olhar ainda estava fixo nos olhos do falco, enquanto ele passava amo em cima da cabea e do pescoo do pssaro, e depois em toda a extensode sua asa.

    - Est tudo bem - Pedro disse. - Eu acho que est tudo bem.O falco gritou novamente e inclinou mais uma vez a cabea para cima e

    para baixo, e depois arrastou os ps e se abaixou e suas costas ficaram niveladascom os ombros de Pedro. Pedro passou a mo pelas costas parando antes daspenas da cauda.

    - Eu acho que para ns subirmos nele - ele disse.Antes que Jlia tivesse tempo de protestar Pedro jogou o brao por cima do

    topo da asa do falco e se arrastou para cima de suas costas, empurrando com osps para encontrar um apoio. Finalmente, ele estava assentado de maneira

  • triunfal em cima do falco, balanando um pouco enquanto o pssaro ajustavasua posio, e ele sorriu para Jlia.

  • - Nenhum problema - ele disse. - Suba!- Eu no... Pedro, no acho que seja uma boa ideia!O olhar de Jlia ainda estava preso naquele bico afiado. Mas ele estendeu a

    mo e a puxou para cima, e antes que ela pudesse perceber j estava sentadaatrs de Pedro com os braos apertados em volta da cintura dele, imaginando seaquele bico a alcanaria l atrs.

    - Est tudo bem - Pedro disse novamente. - Era para virmos para o jardim,voc estava certa! O Senhor dos Exrcitos deve ter enviado o falco. melhorque um navio. Podemos voar com ele at onde quer que aqueles navios estejamindo.

    A nica resposta de Jlia era apertar mais os braos em volta da cintura dePedro. Derrotar os lordes tenebrosos uma coisa, mas voar sobre o mar? O queo Senhor dos Exrcitos esperava deles?

    O falco se levantou e Pedro e Jlia balanavam em suas costas enquanto seesforavam para arranjar um lugar onde pudessem se segurar. Jlia olhou parabaixo. O cho parecia muito, muito longe. E ento deu um grito, pois Lusa aindaestava cada onde desmaiara.

    - Lusa! Pedro, Lusa ainda est l embaixo! Precisamos traz-la paracima... - Mas enquanto ela falava, o falco a pegou com suas grandes garras,bateu suas asas duas vezes, e subiu.

    Jlia gritou enquanto subiam e agarrou qualquer coisa em que pudesse sesegurar - principalmente em Pedro.

    Pedro tinha se encurvado enquanto subiam acima das rvores, e ento,vendo para onde seguiam ele levantou os braos e deu um grito.

    Aedy n estava toda frente deles. Olhando ao redor, Pedro pde ver ocastelo, o jardim e, de repente, todas as rvores se tornaram uma grande massade floresta verde. A costa se aproximava e Pedro via as enseadas e os braos demar e os rios que vinham do mar.

    Eles sobrevoaram a duna e a praia e depois ficaram sobre o mar. O armudou - estava mais frio, com as gotculas salgadas pairando acima das ondas, edeve ter sido isso que acordou Lusa do desmaio. Pedro e Jlia, encurvados nascostas do falco, sentiram que ele mudou de posio no ar. E ento ouviram umgrito familiar.

    No havia palavras - s um longo som bem agudo e alto. O falco estava seequilibrando, se ajustando ao peso extra que segurava em suas garras. Jliaesticou a cabea ao mximo que pde ousar, mas s conseguiu ver as pontas dastranas de Lusa voando.

  • - Est tudo bem! - Jlia gritou. - Fique quieta Lusa. No tem perigo!Mas se Lusa conseguiu ouvir, no houve indicao, e demorou muito at ela

    parar de gritar. Depois de um tempo, os berros foram substitudos por ummaante choramingo, e um choro de vez em quando. E se era incmodo para asduas crianas que estavam nas costas do falco, imaginem para quem estavapendurado em suas garras! Aquela no era mesmo a maneira mais confortvelde viajar.

    Eles voaram por cima de um mar calmo, a brisa salgada em seus cabelos, eo sol acariciando-lhes a pele. Ondas com as pontas brancas de espuma seelevavam abaixo deles, e algumas corajosas gaivotas catavam comida naspedras em que elas quebravam. No havia terra no horizonte, s mais gua emais ondas, mas de vez em quando Pedro e Jlia viam de relance a escuna queseguiam. O falco se mantinha longe dela - talvez ele entendesse que nodeveriam ser vistos.

    - Onde voc acha que ele est nos levando? - perguntou Jlia. Ela teve quegritar - o vento que soprava por cima e ao redor deles levava suas palavrasembora.

    - No sei - Pedro gritou de volta. - A terra mais prxima Khemia, mas nodeve ter sobrado nada por l. No deve ter gente morando, pelo menos. Nodepois que o vulco entrou em erupo e todos fugiram.

    Esta conversa foi recebida com o reincio de um choramingo de Lusa.O falco se movimentava de forma rpida e constante pelo ar, como se o

    prprio flego do Senhor dos Exrcitos estivesse atrs dele. Demorou muito,muito tempo at que Jlia e Pedro pudessem avistar qualquer coisa no horizontealm de gua. O sol comeou a descer no cu, e com ele as nuvens explodiramformando um caleidoscpio de laranja e roxo. E no instante em que o sol seescondeu no horizonte, nesse momento mgico que no era nem dia nem noite,Pedro sentiu Jlia tombar em suas costas e largar sua cintura. Ela adormecera.

    Ele se inclinou para a frente e segurou no pescoo do falco com mais fora,e apesar de ele no ter feito nenhum barulho, Pedro se sentiu quentinho econfortado pelo corpo todo. O crepsculo virou noite, e uma a uma das estrelasfamiliares de Aedyn piscaram no cu. Pedro olhou para cima e orou paraAquele que os chamara, mesmo sem saber direito o que pedir. Ele ficou alideitado e parecia que horas tinham se passado. Entre acordado e no acordado,sentia o corpo quente planando.

    Pedro observava o piscar das estrelas enquanto imaginava o que estaria porvir.

  • OCaptulo

    7amanhecer acabava de tocar o cu quando Pedro comeou a sentir umamudana no voo do pssaro. Ele havia acabado de colocar suas asas mais

    perto do corpo e comeava - sentiu instintivamente - a descer. Tocou de leve naperna de Jlia, sacudindo-a o suficiente para acord-la. Ela bocejou, tirando umadas mos da cintura de seu irmo para esfregar os olhos.

    - Ns estamos... oh! - ela disse. - Ainda em cima do pssaro?!- Eu receio que sim - disse Pedro. - Mas algo est comeando a acontecer,

    eu acho. Olhe.Ele apontou para um lugar logo abaixo do horizonte e Jlia pde ver um

    bando de pssaros voando por cima das ondas. Gaivotas.- Elas no viriam to longe para o mar a no ser que tivesse terra por perto -

    disse Pedro.De repente, teve uma ideia: Pedro alcanou seu bolso e encontrou a bssola

    que ganhara de seu pai. Ele a abriu e olhou com os olhos meio fechados naembaada luz da manh.

    - Norte - ele disse. - Norte, via nordeste. O que est ao norte de Aedy n?- Khemia - disse Jlia. - Deve ser Khemia.Eles observaram em silncio enquanto o cu clareava. As plpebras de

    Pedro estavam pesadas e poderiam comear a fechar se no tivessem visto algonovo no horizonte: um grande grupo de nuvens, pintadas de vermelho peloamanhecer. Ao chegarem mais perto, viam o pico irregular de uma montanhasobressaindo como uma faca em meio s nuvens.

    O falco se inclinou para a esquerda enquanto se aproximavam, iniciandouma descida ngreme que trouxe mais um ciclo de gritos vindos de suas garras.Pedro segurou firme em seu pescoo e Jlia segurou firme em Pedro ao caremdo cu. Pareciam ir em direo a uma floresta - diretamente para as rvores.Jlia fechou bem os olhos e gritou bem no ouvido de Pedro, quase certa de queiriam se estatelar. Ela sentiu o grande movimento das folhas e dos pequenosgalhos ao seu redor e foi sacudida por uma pancada, enquanto o falcoaterrissava. Ela e Pedro caram de cima das costas do falco na areia fofa e fria.Lusa estava deitada alguns metros adiante num conglomerado de junco -parecia que fora solta antes do falco aterrissar. Ela havia desmaiado novamente.Vendo a irm de criao cada num amontoado no cho, Jlia deu um suspiro dealvio. Ela no estava gritando... Pelo menos por enquanto.

  • Pedro tinha cado de barriga pra baixo na areia e se levantou para olhar aoredor. O lugar parecia bem deserto: uma enseada, prxima ao mar e cercada porum bosque. Eles poderiam facilmente se esconder ali se houvesse necessidade.Esticou os braos acima da cabea, e ento estendeu a mo para ajudar Jlia ase levantar.

    - Suponho que deveramos tentar acord-la - disse Pedro severamente,acenando com a cabea em direo a Lusa.

    - Tem sido muito ruim para ela - Jlia concordou, e encontrou um caminhopelo junco at a extremidade da gua. Olhou cuidadosamente para ambos oslados. No havia ningum. Ela juntou as mos para pegar um pouco de gua.Voltou cuidadosamente pelo caminho por onde viera e jogou a gua, semcerimnia, no rosto de sua irm de criao.

    Lusa despertou ofegante falando confusamente. Pedro, percebendo quemuito provavelmente ela comearia a gritar de novo, colocou a mo sobre suaboca.

    - Agora, oua bem - ele disse com os dentes cerrados. - Eu tiro a minha mose voc prometer ficar quieta, muito quieta. No sabemos exatamente ondeestamos e no sabemos quem so nossos amigos ou inimigos, ento precisamosficar escondidos. E o mais importante de tudo: voc no pode gritar. Entendeu?Voc precisa ficar muito, muito quieta.

    Lusa acenou com a cabea ainda com a mo dele sobre sua boca, e Pedrotirou a mo.

    - Muito quieta - ele disse novamente, e Lusa se levantou e passou a mo nosolhos. Ela havia chorado.

    - Eu no queria vir pra c - ela disse. - Eu jamais viria para este lugarabominvel. Eu s queria saber para onde vocs estavam indo!

    - No, mesmo!Voc estava tentando fazer que ns nos dssemos mal - Jliacorrigiu, mas Lusa a ignorou e continuou.

    - E vocs me trouxeram pra c, sem uma alma viva, ningum que saiba melevar de volta para casa. Como se no bastasse esse horrendo pssaro melevando por cima do oceano em suas garras, agora esto dizendo que talvez hajainimigos...Oh! horrvel, simplesmente horrvel! - e comeou a chorarnovamente.

    Pedro deu um suspiro totalmente saturado e olhou para o falco que estiveraesperando pacientemente na extremidade da clareira. Ele tinha erguido a cabeae olhava para Lusa de maneira curiosa. Abriu o bico e deu um daqueles gritoslancinantes.

  • - Eu gostaria que ele pudesse falar - disse Jlia. - Eu imagino o que elepoderia nos contar a respeito disso tudo.

    - Nada - gemeu Lusa. - Ele no diria nada, porque ele um pssarohorrendo e rude e se o Bertranzinho estivesse aqui atiraria nele! - sua voz estavaficando mais alta, e Jlia pensou que ela, provavelmente, j tinha esquecido quetinha de ficar quieta.

    O falco bateu as asas uma vez, levantando a cabea para o outro lado, eLusa choramingou suavemente enquanto andava com dificuldade at o abrigode junco. Pedro suspirou novamente e passou a mo no cabelo despenteado pelovento. Ele no tinha a mnima ideia do que fazer.

    - Suponho que teremos que explorar o lugar - ele falou para Jlia. -Poderemos descobrir se o navio chegou com os prisioneiros, e o que vo fazercom eles. - Jlia acenou com a cabea, e depois hesitou enquanto ambosolhavam para Lusa chorando.

    Ficaram em silncio por alguns instantes.- Ns a ajudaremos - Pedro disse finalmente. - No podemos apenas ficar

    aqui.Ele pegou a bssola de seu pai no bolso, abriu-a, estudou-a por um instante, e

    apontou para a direita.- Para l - ele disse. Pegou a mochila com a comida - o que restara dela - e

    Jlia, decidindo no questionar o senso de direo de Pedro, foi at o junco eajudou Lusa a se levantar.

    - Venha - disse ela. - hora de irmos.A caminhada foi difcil - mais difcil do que fora em Aedy n. No havia

    trilha, e tudo que tinham para seguir era a bssola de Pedro. Eles tiveram que searrastar sobre enormes rochas e se abaixar sob rvores cadas, e no demorouat que os trs estivessem cobertos de lama, de picadas de insetos, que havia emgrande quantidade ao redor deles, e de arranhes dos ps cabea. Asreclamaes de Lusa adquiriram um tom desesperador, o que significava quelogo ela estaria chorando. Jlia, que acreditava no odiar mais nada no mundotanto quanto altura, estava descobrindo que, na verdade odiava muito mais o somintermitente dos insetos de Khemia. E no pensou mais em ajudar Lusa. Pedroficou focado no terreno, se movendo lentamente, mas sempre para o leste.

    Ao andar sentiram o cheiro de algo podre no ar. Ficava mais forte medidaque andavam com dificuldade sobre o terreno spero. Perceberam que estavamsegurando a respirao, respiravam com dificuldade o ar estagnado apenasquando seus pulmes estavam prontos para estourar.

  • - Oh! horrvel - Lusa gritou finalmente. - Tem cheiro de algo podre emorto.

  • - enxofre - disse Pedro. - Deve vir da mina. Aqui...Ele parou e tirou das costas a mochila que carregava, procurando com

    afinco um cachecol verde de l. Ele o jogou para Lusa.- Amarre isto no rosto. Vai ficar quente, mas vai diminuir o cheiro.Ela o pegou sem dizer uma palavra e o amarrou com um n desajeitado

    atrs da cabea. Jlia notou que ela conseguiu amarrar um tanto de cabelo com on.

    O ar ficou ainda mais abafado e sufocante enquanto continuavam, e o calormido estava sobre eles como uma coberta. Pedro, Jlia e Lusa pensaram, cadaum para si, que nunca tinham estado numa situao to deplorvel em suas vidas.E nesse meio tempo, a situao ficou ainda pior.

    Havia um tronco de rvore cado no meio do caminho. e s um espaoestreito entre a rvore e o cho, pois o tronco devia ter quase dois metros delargura - muito grosso para que qualquer um deles pudesse subir nele. Pedroestava prestes a se abaixar e se arrastar por baixo dele quando a terra,literalmente se abriu sua frente.

    Houve um som cortante como um grito e vapor saiu da fenda. O cheiro erade algo podre escondido na terra tempo demais, e Jlia pensou - apesar de s terlembrado disso depois - que ouvira palavras em meio ao grito.

    Pedro, ficou plido de terror. Se fossem alguns metros mais para frente, ouse ele estivesse um pouco mais rpido a fenda teria aberto bem abaixo de seusps. Ele fechou os olhos, tentou se acalmar e aguentar o enjoo que vinha de seuestmago. Depois pigarreou e olhou fixamente para a frente, no querendo olharpara trs para as meninas, para que elas no vissem como ele estava assustado.Ele podia ouvir a respirao ofegante de Jlia e Lusa atrs dele, e respirou fundopara se acalmar.

    - Vamos dar a volta por ali - Pedro disse, fingindo olhar para a bssola. Elecontinuou em frente e ouviu os passos silenciosos das meninas atrs dele. Elequeria correr, queria chegar onde quer que fossem antes que a terra se abrissenovamente, mas Jlia e Lusa talvez no conseguissem acompanhar, e quempoderia dizer que o cho seria mais seguro mais perto do vulco?

    Mas no aconteceram mais terremotos ou fendas, e depois de algum tempo,o rosto de Pedro voltou cor normal. Eles continuaram para o leste, e depois dealguns quilmetros, chegaram a uma clareira no topo de um morro. Olharamsobre a floresta e viram, embaixo de um cu vermelho, uma grande plancie frente. E no centro da plancie estava o vulco.

  • Era macio - muito maior do que pareceu quando estavam voando nofalco. Na sua base havia um grande talho na terra, e mesmo de longe elespodiam ver centenas de pessoas aglomerando-se sua volta, todas elas curvadassob cargas pesadas e sob os chicotes de seus senhores. A onda de enjoo voltou aoestmago de Pedro, e ele se curvou e ficou violentamente nauseado no meio deuma poro de arbustos.

  • JCaptulo

    8lia observou a cena diante dela com lgrimas nos olhos. A fumaa saa comfora da escarpa, e at a distncia eles podiam ouvir o roncar do maquinrio.

    Pedro voltou dos arbustos, limpando a parte de trs de sua mo, na boca, e ficouao lado de sua irm. Enquanto observavam, eles ouviram Lusa atrs deles.

    Ela estava cantando de lbios fechados novamente - a mesma msica queparecia estar sempre em sua cabea - mas estando aqui em frente ao vulco, eolhando para a tarefa que os esperava, a msica parecia diferente. Quaseprovocadora. Enervava tanto a Pedro que ele tremia apesar do calor.

    - Pare com isso - ele disse, e o canto parou to rpido quanto comeara. -No podemos ser ouvidos. Venham. Sigam-me.

    A bssola no era necessria - eles andavam na direo do vulco, e nohavia erro - mas Pedro ainda conduzia o caminho com o presente de seu paifirme na mo. Eles saram da clareira e desceram uma cordilheira ngreme. Aida foi difcil, por cima das mesmas pedras e espinhos que importunaram seuspassos anteriormente, mas apesar do terreno, do calor e do constante barulho dosinsetos no houve reclamaes. Os trs estavam decididos chegar at o vulco, echegar logo.

    O cheiro de enxofre ficava insuportvel. Lusa parecia a nica no muitoafetada - talvez pela mscara provisria que Pedro tinha criado com seucachecol. Jlia estava quase sufocando com o ar putrefato, tropeando por cimade troncos cados e pedras pontiagudas enquanto tentava respirar. E ento elabateu contra o brao de Pedro, que estava esticado, duro como uma barreira. Elaolhou para cima atravs dos doloridos olhos vermelhos e viu que tinham chegado.

    O vulco se aproximava diante deles, sua boca aberta bocejando expeliauma fumaa cida. Mineiros se moviam para a frente e para trs no talho, na suaextremidade sul, todos estavam cobertos de poeira preta da cabea aos ps. Oshomens cavavam e removiam com a p, enquanto as mulheres carregavambaldes, cheios de terra para um grupo de crianas que manuseavamdesajeitadamente a lama como se estivessem procurando algo precioso. Ascrianas mais velhas, Jlia viu, movimentavam-se entre os mineiros com baldesde gua, segurando conchas, que pingavam, levando-as s bocas dos adultos. Ehavia algo mais - algo que no era humano.

    Havia dezenas dessas criaturas movimentando-se em meio aos mineiros.Elas tinham, talvez, duas vezes o tamanho de Pedro. Eram gordas e volumosascom braos do tamanho de pequenas rvores. Suas peles eram morenas,

  • empoladas pelo sol e por inmeras cicatrizes. Pedro, que se orgulhava de nuncaficar com medo de nada, recuou com repugnncia. Os olhos, abaixo de grossassobrancelhas, eram pequenos e escuros, mas havia inteligncia em seus rostos.Esses monstros no eram apenas animais tolos.

    Lusa deu um pequeno grito quando os viu. Jlia sem parar para pensaragarrou a mo de sua irm de criao e apertou o mximo que pde. Lusaestava parada, mas Jlia podia sentir que ela tremia enquanto observavam ascriaturas. Elas se movimentavam entre os trabalhadores, e enquanto as crianasobservavam, uma das criaturas balanou o brao para trs e derrubou umhomem no cho. Ali ele ficou, sem se mexer at que a criatura passasse. Otrabalho continuou sua volta; ningum parou para ajudar.

    Jlia mudou seu olhar e focou numa criana:Um menino, ela pensou, nomuito mais novo que ela. Ele estava andando na extremidade dos trabalhadores,perto da clareira, oferecendo gua para as mulheres que carregavam a carga delama. Ele deu a concha para uma mulher desarrumada e suja com roupasesfarrapadas - mais rota que a maioria. A mulher largou a carga e agradecidaaceitou a concha, bebendo devagar e profundamente. E quando levantou o rostopara beber as ltimas gotas frescas, Jlia deu um pequeno grito.

    Pedro lhe deu um olhar acusador e colocou o dedo irritadamente em seuslbios, mas Jlia sacudiu a cabea.

    - Alice - ela disse numa voz mais baixa que um cochicho. - Alice. Aquelamulher ali... no, ali.

    Pedro olhou na direo indicada.- Voc tem certeza? - ele olhou mais atentamente. - Pode ser. Ela est to

    mais velha... - Ele balanou a cabea. - No sei dizer.- Quem Alice? - Lusa tirou o cachecol de seu rosto tentando olhar para a

    mulher por cima do ombro de Pedro. Sua voz estava bem mais alta que umcochicho e Pedro olhou feio para ela.

    - Uma amiga de antes - murmurou Jlia. - Ela no est longe, posso tentarfalar com ela.

    - Falar com ela? Voc est louca? Vo ver voc - Pedro sacudiu a cabea econsiderou o caso encerrado.

  • - Ningum est olhando - protestou Jlia. - Olhe, ela no est longe. Osguardas esto virados, eu consigo chegar at onde ela est!

    E, de repente, ela correu rpida e bruscamente por trs das rvores, surdaaos protestos murmurados por Pedro.

    A paisagem era rida a no ser por algumas grandes pedras que seespalhavam pelo caminho do vulco. Jlia, olhando cuidadosamente para osguardas, agachou-se atrs da maior pedra que achou.

    - Alice! - ela cochichou com voz rouca. - Alice!A mulher que havia bebido da concha do menino virou-se. Os baldes pesados

    que ela carregava tremeram em suas mos, e ela olhou ao redor para ver deonde vinha a voz. Seus olhos se arregalaram, como Jlia nunca tinha visto. Algo

  • mudou em seu rosto, as aflies deram lugar esperana. Alice largou a carga ecomeou a andar.

    Nesse momento, uma das criaturas viu que Alice tinha sado da fila e que elalargara os baldes. Seu punho se fechou e ele foi, exatamente, na direo deAlice.

    Jlia tentou, por mmica, alertar Alice do perigo, mas o punho da criaturaalcanou-a antes que ela pudesse reagir. A criatura estava presa a uma pequenarvore, e Alice caiu de joelhos com um grito assustado de dor. A criatura seafastou com um rugido, procurando a prxima vtima, e um guarda foi aoencontro de Alice, olhando para seu corpo parado enquanto enrolava o chicoteem sua mo. Jlia encolheu-se de medo atrs de uma pedra, desejando serinvisvel. O guarda estava to perto que se ela esticasse o brao, poderia tocarseus ps. Ela se forou a respirar devagar, sentindo os olhares de Pedro e Lusaatrs dela.

    Por um instante, o guarda olhou para Alice, levantou o p e deu um rpidochute em suas costelas.

    - Escria - ele resmungou, virou-se e foi embora.Alice no se mexia. Jlia no ousava chamar-lhe novamente, ento observou

    e esperou, no saindo de onde estava porque no queria voltar para a florestasem ela. Nesse momento ouviu passos rpidos e urgentes - era Pedro.

    Ele tocou o ombro de Jlia, saiu rapidamente detrs da pedra, e agarrou ocorpo inerte de Alice por baixo de seus braos, comeando a arrast-la para asrvores. Jlia, de repente, entendendo, correu e pegou seus tornozelos comfirmeza, e juntos eles a levaram para um lugar seguro, como se ela fosse "umsaco de batatas".

    Eles a deitaram no cho quando j estavam cerca de vinte metros pra dentroda floresta, onde podiam ter certeza que no seriam vistos. O golpe havia tirado oflego do corpo de Alice, e sua respirao voltou em vrios pequenos suspiros. Olado esquerdo de seu rosto estava sujo de terra e sangue, e Jlia limpou com aparte mais limpa de sua saia. No adiantou muito.

    - Aquele guarda quase viu voc! - Lusa disse. - O mesmo que a chutou, eleestava virando para olhar assim que vocs entraram no meio das rvores!

    - Sim, e se fssemos vistos seramos espancados, ou pior - disse Pedro. -Voc tinha que ir l no , Jlia? Voc tinha que chegar perto o suficiente paraquase sermos jogados numa masmorra!

    - a Alice! Ns no podamos simplesmente deix-la ali.E qualquer argumento foi cortado, porque Alice estava acordando.

  • Ela gemeu e se sentou. Contraiu os msculos involuntariamente enquantotorcia os ombros, ainda sentindo a pancada que havia levado do monstro, masapesar de tudo deu um sorriso torto.

    - Vocs vieram, - ela disse. - Meus amigos queridos! Voc cresceu Jlia. EPedro - ela estendeu a mo e pegou a mo de Pedro. - Voc est se tornando umhomem.

    Ela sorriu, e um olhar distante veio aos seus olhos.- Ns chamamos e o Senhor dos Exrcitos respondeu. Ele enviou vocs mais

    uma vez. - Jlia pegou na sua mo e apertou.- Ns viemos - ela disse. - Parece que vocs no se viram bem sem ns.Isso trouxe uma risada aos lbios de Alice, e ento mais um estremecimento.

    Ela colocou uma das mos no rosto e parecia que estava tentando no pensar nador.

    - E parece que trouxeram mais algum com vocs - ela disse olhando paraLusa.

    Lusa pela primeira vez no estava chorando, nem desmaiando, nemcantando com os lbios fechados, mas observava Alice com os olhos arregaladose focados no sangue que pingava de sua bochecha. Pedro achou que nunca atinha visto to espantada.

    - Esta Lusa - ele disse. - Nossa irm de criao. Ela estava... - ele fez umapausa, olhando para ela de uma maneira que pode ser descrita como confusa. -Ela tambm foi chamada para c.

    - Seja bem-vinda, Lusa - disse Alice. - Eu gostaria que tivssemos nosconhecido em outras circunstncias, para que eu pudesse mostrar toda a nossaterra para voc. Mas quem sabe isso acontea logo.

    - Conte-nos o que aconteceu - Jlia encorajou. - Conte-nos o que aconteceucom voc. Conte-nos o que aconteceu em Aedy n.

    Alice fechou os olhos e se encostou na rvore.- No uma histria feliz, Jlia.- Por favor, eu no achei que fosse. - Alice acenou com a cabea.- Alguns anos depois que vocs foram embora - disse Alice -, nosso povo

    parou de ir Grande Recordao. Eles disseram que estavam seguros e que oSenhor dos Exrcitos os livrara da escravido e no havia mais perigo, nem razode lembrar aqueles tempos tenebrosos. Logo no viam mais razo de se lembrardo prprio Senhor dos Exrcitos. E, foi isso, eles simplesmente se esqueceram epensaram que os bons tempos durariam para sempre.

    Ela parou e tocou a bochecha. O sangue estava comeando a coagular.

  • - Continue - estimulou Pedro.- Ns comeamos a ouvir rumores - Alice continuou. - Rumores de outro

    poder. E o povo disse que esse poder era mais forte do que qualquer coisa que jtnhamos conhecido, que eles estavam certos de terem esquecido do Senhor dosExrcitos. E ento, quando os soldados de Khemia chegaram, eles oraram para odeus errado. Eles oraram para aquele que no poderia salv-los.

    - Os guardas vieram em grupos. Eles levaram os primeiros prisioneiros hum ano. Nosso rei dispensou o exrcito logo depois que os lordes foramderrotados. Pensava-se que no precisaramos mais de proteo porque nohavia mais ameaas. E o rei no lutaria contra os khemianos, porque ele tinhacerteza, tanta, tanta certeza que o deus que eles adoravam era o verdadeiro poderem nosso mundo. Ento os soldados voltaram, e ainda assim no tinha ningumcom quem lutar. Oh! alguns tentaram. Meu marido Lucas tentou organizar oshomens, mas j era tarde demais. Eles nos trouxeram aos poucos, nunca osuficiente para dar problemas na viagem. E ao chegarmos a esta terraamaldioada encontramos as minas.

    Ela deu de ombros com um olhar desesperanoso.- O que vocs procuram nas minas? - perguntou Pedro.- Eu no sei - Alice replicou. - Nenhum de ns sabe. Ns achamos que tem

    algo a ver com o deus deles, seja qual for o poder que vive na terra.- Poder? - perguntou Pedro. - Que poder?Demorou um instante para que Alice respondesse, e quando ela respondeu,

    sua voz estava bem baixa. As trs crianas tiveram que se debruar paraentender as prximas palavras.

    - Tem algo mais aqui - ela disse. - No profundo da terra. No sei se umdeus ou um diabo, mas tem algo dentro do vulco. E ele quer sair.

    Um arrepio passou pelas crianas.- Quer sair? - repetiu Pedro depois de um instante.- Houve um terremoto - disse Jlia. - E l na floresta quando estvamos a

    caminho, algo aconteceu. A terra parecia se abrir, e parecia algum gritando -Jlia estava hesitante ao falar, com medo de que soasse tola, mas ela viu queAlice acenara com a cabea.

    - Ns vimos tambm - ela disse. - Tem acontecido cada vez mais.Terremotos, a terra caindo debaixo de nossos ps - algo est mexendo embaixoda terra. O vulco tem soltado cada vez mais fumaa desde que chegamos. Omaligno quer sair para vir para este mundo, e a mina dos khemianos s estacelerando o seu caminho.

  • - Mas o que esto procurando? - insistiu Pedro.- Algo secreto - disse Alice. - Algo que est enterrado h muitos anos. S

    sabemos isso. Se encontrarmos algo fora do comum, qualquer coisa que seja,temos que lev-la para os guardas.

    - Vocs j encontraram alguma coisa? - perguntou Lusa.- Pedras - Alice disse fazendo careta. - Muitas e muitas pedras. Faz tempo

    que fazemos esse trabalho, e os guardas esto comeando a ficar impacientes.Principalmente, o comandante.

    - Como podemos encontr-lo? - Perguntou Pedro.Jlia deu uma olhada para ele.- O que voc pensa em fazer? - ela perguntou.- Ainda no sei, mas vai ser bom saber quem o nosso inimigo.- O comandante no vem muito aqui embaixo - disse Alice. - Voc

    provavelmente o achar em sua barraca. l em cima no topo da cordilheira -ela apontou para um local no to distante. - O nome dele Ceres e voc oreconhecer pelo talism que sempre usa: uma pedra verde bem grande, com oformato de uma estrela. Mas tome cuidado, ele um homem perigoso, e notem muita pacincia. ele que controla os Gulnog.

    - Os... O qu?- Aquelas criaturas - Alice torceu seus ombros, tentando tirar a dor deles. -

    Dizem que j foram homens, depois foram ficando deformados por aquelepoder tenebroso at que viraram monstros. Louvado seja o Senhor dos Exrcitospor vocs terem vindo. Vocs encontraro uma maneira de derrotar esse poder enos levar de volta para Aedy n. Eu sei.

    Com essas palavras, Pedro se ajeitou e um pequeno sorriso cresceu em seuslbios. Ele se lembrou da velha energia que veio at ele em Aedyn - o poder queele tinha sentido com um arco em suas mos, a corda firme contra seus dedos, aflecha apontando certeira para a frente. Deixe seu pai falar agora que ele noera um homem!

    Depois de um instante, Pedro percebeu que Alice estava se dirigindo a ele.- Lembre-se, Pedro, que Ceres e seus Gulnog no so seus maiores inimigos

    aqui. Seu inimigo o povo, e sua ira contra o Senhor dos Exrcitos. So eles quetm que ser transformados antes que voc possa fazer o bem em Khemia.

    Pedro queria protestar, Jlia sabia disso - ele queria um inimigo que fossemais fcil de enfrentar. Mas ele simplesmente acenou com a cabea e Alicesorriu.

  • - Da minha parte, farei tudo que puder para ajudar vocs. Vou falar spessoas que vocs voltaram. - Ela ficou em p. - Eu preciso voltar antes quesintam minha falta.

    - No v - Lusa gritou. - Fique aqui conosco, no v l para ser machucadade novo!

    - Eu preciso ir - Alice disse. - Meu filho est l. Eu no vou deix-lo. - Elaabraou a cada um deles. - Vocs so muito bem-vindos aqui - ela disse. - Euagradeo ao Senhor dos Exrcitos porque seus Libertadores voltaram.

    Ela sorriu e saiu escondida entre as rvores, de volta para a mina.

  • PCaptulo

    9edro, Jlia e Lusa observaram enquanto Alice voltou para a mina,esforando-se para levantar os baldes cheios de terra e voltando para a fila

    com outras mulheres.- Ela j passou por tanta coisa - murmurou Jlia. - No certo ter de

    aguentar mais isso.- No mesmo! - Disse Pedro, colocando a mo em seu brao. - E por

    isso que estamos aqui, para ter certeza que ela e os outros nunca tero que passarpor isso novamente. Voc est bem? E voc, Lusa? Prontas para continuarandando?

    - Mas para onde vamos? - Lusa perguntou. - Eu pensei que estivssemosprocurando o vulco. E aqui estamos. O que faremos a seguir?

    - Ns vamos procurar o comandante da guarda, claro - disse Pedro. - Noh nada que possamos fazer aqui. No no momento. No podemos falar com aspessoas enquanto os guardas estiverem vigiando. Haver tempo suficiente paraisso mais tarde.

    Ele olhou a cordilheira que Alice tinha mostrado.- No longe... mas antes quem sabe deveramos comer um pouco do

    queijo e da linguia.Os trs reviraram o contedo da mochila. Pedro as alertou para s beberem

    a gua que fosse necessria para guardar o mximo possvel, e entre eles,esvaziaram um dos odres. Pedro se congratulou de ter tido a perspiccia de pegara comida no castelo, e Jlia, mesmo no gostando de admitir que ele estavacerto, reconheceu que fora muito bom, de fato. E, uma vez que tinham sealimentado, guardaram o que sobrou e comearam, mais uma vez, a caminhadapela floresta.

    Pedro estava certo: a cordilheira com as barracas dos guardas no era longe,mas eles tinham que ficar em silncio e se mover furtivamente, e isso no fcilquando se est cansado e depois de uma boa refeio. Por entre as rvores elesviam uma trilha que ia do vulco at a cordilheira. Eles andaram paralelamentea ela, mantendo-a sempre em vista. Cada um deles gostaria de andar pela trilha,onde no havia tantas pedras para retardar seu progresso ou galhos para bater emsuas costas e em seus rostos, mas eles no sabiam se a trilha era usada comfrequncia e no poderiam arriscar que algum os visse.

    Enquanto andavam, Lusa comeou a cantar mais uma vez com os lbiosfechados. Cada vez que Pedro e Jlia ouviam a melodia ela parecia mais distinta,

  • mais assombrosa, ficando em seus ouvidos muito tempo depois que ela cessava.Jlia no conseguia descrever o que a cano lhe causava, mas ela sentia bem noprofundo de seus ossos que a cano tinha um significado.

    - Que msica essa, Lusa? - Jlia perguntou. - Essa que voc est semprecantando com os lbios fechados, o que ?

    - Eu no sei - disse Lusa, surpresa. - uma cano que sempre conheci. -Jlia ficou quieta, Lusa prosseguiu com a cano, e continuaram andando.

    No demorou muito at que a trilha ao lado deles se abrisse numa clareira naqual havia um agrupamento de tendas montadas. Pedaos de troncos irregularesmarcavam os espaos entre os abrigos. Cham-las de barracas seria muito,pensou Jlia, pois eram feitas de um grande pedao de pano amarrado sobrealgumas estacas. Eles ouviam barulho l dentro - algumas tosses secas,intermitentes e alguns gemidos.

    - Esses devem estar muito doentes para trabalhar - disse Lusa, e Pedro eJlia acenaram com a cabea.

    Enquanto observavam, um vulto desgrenhado saiu de uma das barracas. Asroupas estavam soltas em seu corpo magro, e o rosto tinha um tom verde doentio.Ele tropeava ao andar, no conseguindo manter o equilbrio. Uma tosse seca eintermitente atacou-o repentinamente ao cambalear a caminho de outra barraca.

    Pedro virou o rosto e olhou ao redor da clareira.- Ali - ele disse, apontando para um morro a distncia, longe das barracas. -

    L deve ser onde esto os guardas - at de longe eles conseguiam ver que asbarracas eram quase luxuosas em comparao com as outras, portas e tetosabobadados, e certamente capazes de proteger seus ocupantes do mau tempo.

    - Sigam-me - Pedro disse, e comeou a se arrastar no cho atrs dasbarracas dos prisioneiros. Jlia o seguiu.

    - No - disse Lusa.Pedro virou-se e olhou para ela.- O que?- Eu no vou. Vou ficar aqui com os doentes.- Voc no pode ficar aqui - disse Pedro asperamente. - Algum poder v-

    la. Voc precisa ficar conosco.- Eu fui chamada aqui tanto quanto vocs, Sr. Libertador - ela disse, com as

    mos firmes na cintura. - Vocs dois continuem espionando os guardas. Vou ficare acompanhar as pessoas doentes aqui. Elas precisam de ajuda e eu posso ajudar.Vou falar a elas a respeito do seu Senhor dos Exrcitos, como vocs fariam. Euposso ajudar - ela bateu o p quando disse a ltima palavra.

  • Pedro no sabia o que fazer. Por um lado poderia ser muito til que Lusaficasse e cuidasse dos doentes - seria um comeo daquilo que ele acreditava sero trabalho que deveriam fazer ali. E, por outro lado, ele no tinha completacerteza de que ela no faria confuso. Ele gaguejou com a boca aberta enquantopensava.

    Jlia estendeu a mo e a colocou no brao de Pedro.- Est bem, Lusa - ela disse. - exatamente como deveria ser. Tome

    cuidado, saia e se esconda nas rvores se algo der errado. Lembre-se: Voc nopode ser vista por nenhum dos khemianos.

    Pedro ainda estava gaguejando.- Ficarei bem, Pedro - disse Lusa. - Venham me encontrar quando vocs

    voltarem, est bem?Ele acenou com a cabea.- Tenha cuidado - ele a preveniu. - E veja se voc consegue alguma

    informao sobre as minas.- Sim - ela disse, e se abaixou para entrar em uma das barracas. Pedro ficou

    olhando na sua direo por um tempo, e ento Jlia o pegou pela mo.- Ela ficar bem - ela disse enquanto subiam o morro em direo aos

    guardas. - Ela no desmaiou durante, oh!, muitas horas. Uma melhoraconsidervel, realmente.

    - No sei se ela confivel - Pedro replicou duramente. - O nico lado deque ela est, o dela mesmo.

    - Voc acha realmente? - perguntou Jlia. - Ela parece diferenteultimamente, no to horrenda como era em casa. Voc viu como ela observavaAlice? Foi como... bem, foi quase como se ela estivesse se importando. E elaquerer ficar com as pessoas doentes, querendo ajud-las... Algo deve estarmudando nela. Jlia, ento sorriu, e depois disse, meio que para ela mesma. -Talvez o Senhor dos Exrcitos esteja trabalhando, mesmo neste lugar infernal.

    E ento Pedro pediu silncio, porque estavam se aproximando da barraca docomandante da guarda. S poderia ser a barraca dele: era a mais bonita daclareira, com panos bordados balanando na entrada e com lugar para vintehomens em p do lado de dentro. Parecia ter quartos separados, todos commesas e cadeiras e tapetes com adornos.

    As duas crianas se esconderam perto da parte de trs da barraca, s algunspassos de distncia da floresta. Eles no seriam vistos pelos guardas a no ser quealgum os estivesse procurando, mas eles conseguiam ouvir todas as palavrasditas l dentro.

  • - Eu fico cansado de esperar - disse uma voz. - Faz sete meses, sete meses! Enesse tempo todo, nada foi encontrado. Nada a no ser umas poucas pedras eminhocas - as crianas ouviram outro homem pigarreando.

    - Senhor, com sua permisso... A rea em que temos procurado de fatogrande, e pode no ser realista esperar... - Ele foi interrompido pelo som de umpunho batendo com fora na mesa.

    - Eu espero ser obedecido. Eu espero resultados. Olhe aqui - disse a primeiravoz. Pedro e Jlia ouviram barulho de papis dentro da barraca. - Aqui, logo emcima. A profecia. Vocs veem, cavalheiros? Vocs veem por que isto da maisextrema importncia?

    - Eu no disse que no era importante, comandante. Eu quis dizer que omapa no especfico, e pode ser que leve anos antes que descubramos... - A vozsilenciou e foi substituda por uma forte respirao.

    - Anos? - disse a primeira voz em tom baixo. - Olhe ao seu redor. O cheiro.Os terremotos, as fendas. No temos anos; temos dias. Se no acharmos asegunda metade antes desse tempo estaremos todos condenados - houve umalonga pausa, e mais uma respirao forte. - Condenados, cavalheiros. Eu sugiroque vocs tentem com mais afinco.

    - Os prisioneiros esto cavando o mais rpido que conseguem - disse umaterceira voz timidamente.

    - Ento vocs mesmos tero que cavar! - a voz baixa do comandantedesapareceu, e Pedro pensou, com um calafrio, que o comandante Ceres soavaigual a seu pai quando estava bravo. Eles ouviram o barulho de cadeiras e passosno cho. Os guardas estavam saindo.

    Jlia ia se afastando da barraca para se arrastar de volta para as rvores,quando Pedro colocou o brao sua frente.

    - Escute - ele disse. Uma garrafa estava sendo aberta, e o lquido derramadonum copo. Jlia ouviu os respingos. - Espere - Pedro balbuciou. - Talvez eledurma.

    Eles esperaram at que o comandante engolisse a bebida. E ento colocassemais no copo, e um pouco mais. Seus membros estavam ficando rgidosenquanto se agachavam contra a barraca, mas no ousavam mexer ou fazerbarulho. E ento finalmente, depois do que parecia horas, veio o barulho de umcopo caindo e batendo no cho. Foi seguido de uma srie de roncos atroadores, ePedro sorriu para a irm.

    - Agora - ele disse.

  • Eles se levantaram e por um instante aliviaram suas pernas e joelhosdoloridos, e depois deram vagarosam