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Os conquistadores do Inutil 1 - xa.yimg.comxa.yimg.com/kq/groups/1101139/390143801/name/Lionel+Terray+-+Os...PDF fileCerta noite, quando depois de uma dessas sessões fui convidado

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  • Os Conquistadores do Intil Lionel Terray

    Volume 1

    http://groups.google.com/group/digitalsource

  • Texto Capa: no tive a menor sensao de medo. ideia de que ia morrer dentro de instantes no me dava qualquer espcie de angstia. Senti um violento choque no peito. E tive de me render evidncia: eu no estava morto, mas apenas suspenso em pleno vazio na ponta da corda.

    Texto Contra-capa: Com risco da prpria vida, h homens que escalam cumes e glaciares, travando com a montanha uma luta sem trguas, em que o menor erro pode ser fatal. A estes homens preciso mais do que coragem: preciso paixo. Lionel Terray descreve essa paixo atravs da sua aprendizagem da montanha, das suas travessias nos Alpes e das suas vitrias nos cumes mais difceis, e a sua amizade com Gaston Rebuffat, Louis Lachenal... guias que, como ele, eram conquistadores do intil.

    Nascido em Grenoble em 1921, Lionel Terray revela-se desde os dez anos um esquiador extremamente dotado; mais tarde far parte dos melhores esquiadores da Frana. Mas era no alpinismo que devia fazer uma carreira excepcional. Aos catorze anos consegue j uma ascenso do Grpon, e toda a sua vida ser dedicada montanha. Em 1942, entra no "grande alpinismo" e em companhia de Rebuffat, consegue a conquista do corredor nordeste do colo do Caimo. Em 1944-1945, combate corajosamente na frente dos Alpes. Ao regressar vida civil, torna-se guia profissional; continuando a srie das suas grandes ascenses como "amador", vencer a escalada da maior parte das grandes paredes dos Alpes ocidentais, nomeadamente com Louis Lachenal, a quarta ascenso do pico norte da ponta Walker e a segunda da vertente norte do Eiger. Em 1950, seleccionado para a expedio francesa ao Annapurna onde tem um papel capital e salva da morte os companheiros Herzog e Lachenal. A partir da, lana-se ao assalto dos grandes cumes do Mundo. Participa em quatro expedies nos Andes onde consegue vencer dois dos picos tecnicamente mais difceis jamais escalados: o Fitz-Roy e o Chacraraju. Volta trs vezes ao Himalaia, vence o Chomo-Lonzo (7800m) e sobretudo o Makalu (8490m). Em 1962, conduz vitria a expedio francesa ao Jannu, um dos cumes mais difceis do Himalaia. Dirige depois expedies ao Peru e ao Alasca. Lionel Terray morreu durante uma escalada no Vercors, a 19 de Setembro de 1965.

  • Descoberta da montanha

    Nascido beira dos Alpes, antigo campeo de esqui, guia profissional, alpinista de longa travessia, membro de oito expedies aos Andes e ao Himalaia, dediquei toda a minha vida montanha e, se esta palavra pode ter algum sentido, sou o que se chama um montanhs.

    Em contradio aparente com este modo de vida, os caprichos do destino levaram-me a fazer um grande nmero de conferncias ilustradas com projees. Certa noite, quando depois de uma dessas sesses fui convidado a tomar uma bebida em casa de uma persona-lidade local, um respeitvel professor, vestido com sobriedade, aproximou-se de mim e, olhando-me com ateno, disse com voz branda:

    - A sua conferncia interessou-me muito, sabe?...

    E quando agradeci, conforme as convenincias, acrescentou:

    Lionel Terray ainda criana.

  • O alpinismo um esporte difcil que exige o conhecimento de si prprio e da montanha.

    - Mas, que faz normalmente na vida? engenheiro? Professor?

    O bom homem no pde esconder um certo espanto quando lhe respondi:

    - De maneira nenhuma! Sou simplesmente guia de montanha.

  • Mais tarde, quando no meu triste quarto de hotel tentava conciliar o sono, que fugira devido ao nervosismo de duas horas de concentrao intensa perante o pblico, recordei as palavras do professor. Ento, compreendi pela primeira vez que a existncia romanesca que eu vivera tinha forjado em mim uma personagem de uma duplicidade inslita. Verifiquei que para quem me v pela primeira vez, de gravata, o corpo apertado num terno completo, dissertando com verve acerca da geografia humana do Himalaia, eu no me pareo nada, por detrs desta aparncia mundana, com o homem que sou na realidade: um montanhs, essa personagem que a literatura ultraconvencional fixou nos espritos com os traos rudes de um aldeo de modos grosseiros. Pela primeira vez compreendi toda a ironia do destino que transformara uma criana nascida de uma famlia de burgueses intelectuais num profissional do alpinismo e conquistador das mais altas e mais difceis montanhas do Mundo.

    Esta aventura comeou em Grenoble, numa espcie de castelo rodeado de vinhas bravas, encostado ao flanco de uma montanha que domina a cidade. Foi nesse lugar que eu nasci. Assim que abri os olhos, pude admirar os belos cumes nevados do macio de Belledonne que, em frente das janelas da enorme e confortvel habitao familiar, se erguem como uma reluzente muralha.

    Os meus pais eram aquilo a que se costuma chamar pessoas de boa famlia, isto , burgueses abastados, descendentes em vrias geraes de magistrados e industriais, at mesmo de militares de alta patente.

    Para falar verdade, sob a sua aparncia burguesa, esta famlia tinha mais originalidade e fantasia do que poderia imaginar-se primeira vista. Tanto do lado paterno como do materno, os meus antepassados tinham contado com um nmero importante de personagens fora do comum: homens de negcios empreendedores, grandes viajantes em busca de fortuna e aventuras, militares e polticos audaciosos. Estes antepassados tinham transmitido aos meus pais um esprito mais aberto e uma concepo de vida menos tradicional do que habitual no seu meio. Alto, forte, a cabea larga e o queixo quadrado, os olhos de um azul muito intenso quase escondidos por detrs de culos grossos, o meu pai possua um tipo germnico bastante acentuado. Violento, entusiasta, austero e obstinado, mas igualmente amvel e de esprito penetrante, era um homem dotado de faculdades intelectuais raras e com uma memria quase fenomenal.

    Tivera uma vida acidentada: depois de estudos brilhantes de engenharia qumica, partira para fundar uma indstria no Brasil; a guerra de 1914 surpreendeu-o quando acabava de se instalar naquele pas longnquo. Abandonando tudo sem hesitar, voltou a Frana, onde o chamava o seu dever de soldado.

    Aos quarenta anos, farto dos negcios, largou a indstria para tirar o curso de Medicina, e, aps cinco anos de esforos, abriu um consultrio mdico.

    Na sua juventude, o meu pai manifestara gostos esportivos pouco correntes naquela poca. Praticara a subida em balo livre e a corrida de automveis e, sobretudo, fora um dos primeiros franceses a calar esquis. Foi de qualquer forma o primeiro a dominar a elegante tcnica do telemark, nico processo de viragem que existia naqueles tempos hericos.

    De pequena estatura, feies clssicas, olhos muito escuros, cabelos cor de bano, a minha me tinha o fsico de uma italiana.

    Dotada de um temperamento de artista, tinha estudado pintura; apaixonada e ativa, deu prova de muita originalidade no seu tempo. J em 1913 guiava automvel e foi a primeira francesa a atrever-se a fazer esqui com calas vestidas. A grande paixo da sua juventude fora a equitao, em que era exmia, principalmente em alta escola. Durante a sua estada no Brasil, fizera a cavalo viagens de vrias semanas, visitando assim regies ainda muito selvagens onde poucas mulheres brancas se haviam aventurado. Apesar de nitidamente marcados, os gostos aventureiros e esportivos dos meus pais nunca haviam atingido um ponto extremo e, principalmente no meu pai, nunca tinham ocupado um lugar importante na sua vida. indiscutvel que se os meus antecedentes familiares e a educao que recebi me podiam conduzir para uma existncia de esportista e homem de ao, seria exagero ver nisso os princpios de uma vida apaixonadamente dedicada ao esporte e aventura.

  • Uma coisa certa: no foi com os meus pais que eu podia ter tomado gosto pelo alpinismo. Embora tendo passado a maior parte da vida nas montanhas, nunca tinham praticado esse esporte e, quando muito, a pretexto de passeio, talvez fizessem a ascenso de alguns cumes fceis sem verdadeiras escaladas. No s os meus pais nunca tinham praticado alpinismo, como reprovavam esta atividade, considerando-a uma loucura estpida. Lembro-me perfeitamente de, quando eu era ainda um rapazinho de sete anos, a minha me me dizer um dia:

    - No me importo que pratiques todos os esportes, menos a moto e o alpinismo.

    E quando lhe perguntei o que significava esta ltima palavra, respondeu-me:

    - um esporte estpido que consiste em trepar s rochas com as mos, os ps e os dentes!...

    Se a minha me reprovava o alpinismo, sobretudo por o ignorar, o meu pai, pelo contrrio, atacava-o com sarcasmo e desprezo. Para ele, o esporte era principalmente um meio de nos mantermos em boa forma a fim de conservar e aumentar a capacidade de trabalho necessria ao triunfo social e financeiro e, acessoriamente, uma forma de seguirmos frente na grande marcha da vida. Uma pessoa dedicar-se a um exerccio to esgotante, perigoso e secreto como o alpinismo parecia-lhe o cmulo do absurdo, e ouvi-o dizer centenas de vezes:

    - preciso ser completamente idiota para ter o trabalho de subir a uma montanha, com risco de partir a cabea, quando nem sequer h uma nota de cem francos l em cima para ir buscar.

    Um dos meus primos, que ficara aleijado devido a uma queda na montanha, era constantemente citado como exemplo das consequncias funestas da loucura de trepar. s vezes, na rua, com um gesto de desprezo, apontavam-me alguns dos estudantes alemes que, nessa poca, enchiam as crnicas da regio devido aos seus inmeros acidentes de montanha, e nunca deixavam de acrescentar:

    - Olha para aqueles imbecis que trepam s montanhas. Ho-de ganhar muito quando tiverem que andar com muletas como o teu primo Ren...

    A tradio de famlia garante que, desde a mais tenra infncia, eu fui uma criana de um vigor excepcional. Pesava mais de cinco quilos quando nasci e tinha,