Click here to load reader

Para uma teoria sociológica da comunicação - facom.ufba.br · PDF fileA teoria da informação e da comunicação, que aprecia o mundo simbólico e o caráter reflexivo da comunicação

  • View
    218

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of Para uma teoria sociológica da comunicação - facom.ufba.br · PDF fileA...

Para uma teoria sociolgica da comunicao 2001 by Gottfried Stockinger Publicao eletrnica: Facom/UFBa

SUMRIO

PREFCIO...............................................................................................................................3

TEORIA DE SISTEMAS: DO EQUILBRIO COMUNICAO...................................6

Sistema e realidade .................................................................................................................. 6

Do equilbrio ao desequilbrio................................................................................................. 9

A relao sistema / ambiente ................................................................................................ 15

Parsons e Luhmann: interao contingente ........................................................................ 19

Autopoiese e fechamento operacional.................................................................................. 22

Sistemas sociais e ambientes psquicos ................................................................................ 31

Habermas e Luhmann: sistema e mundo de vida ............................................................... 37

Resumo.................................................................................................................................... 40

COMUNICAO: DA OBSERVAO COMPREENSO........................................41

Da comunicao mecnica comunicao sociolgica....................................................... 41

Order from noise: a observao como ato criador .............................................................. 49

Sistemas de sentido autocriativos ......................................................................................... 56

Comunicao como sntese de informao, mensagem e compreenso............................ 60

A comunicao como interpretao ..................................................................................... 66

A formao de estruturas e padres de comunicao ........................................................ 69

A construo de mdiums e formas de comunicao ......................................................... 73

Cibercomunicao ................................................................................................................. 78

O MTODO SISTMICO: ANLISE, PESQUISA E INTERVENO........................87

Construo da realidade e observao emprica ................................................................ 87

O tratamento de sistemas no limiar tradio/moderno ...................................................... 94

Interveno sistmica em consultoria e terapia .................................................................. 98

2

A construo social do tempo ............................................................................................. 107

O acaso e a criatividade em jogo ..................................................Erro! Indicador no definido.

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS............................................................................... 113

3

"Cada evento, e tambm cada ao, aparece com um momento mnimo de surpresa. por isso que novidade constitutiva para a emerso de uma ao. Sem momentos de surpresa no haveria formao de estruturas, porque nada ocorreria que houvesse de ser interligado". (Niklas Luhmann, 1927-1987)

Prefcio

A sociedade da comunicao emergiu. O seu sugimento ocorreu no meio de uma poca de mudanas sociais de alta velocidade, globalizadas, ou seja presentes em todos os quatro cantos do mundo. Os sistemas sociais de comunicao operam as mudanas estruturais e moldam as transformaes das atividades humanas nos mundos pessoal, pblico e do trabalho. Esses sistemas esto agora ligados, inseparavelmente, a um desenvolvimento tecnolgico de ambientes de informao e comunicao at bem pouco tempo inimaginvel, cujas formas, expressas no convvio social, requerem ainda aprendizagem consciente. Na tentativa de denominar cientificamente o advento dessa poca, o termo sociedade da informao tem ganho certa aceitao.1 Enquanto outras denominaes como sociedade ps-industrial ou ps-moderna, usadas indiscriminadamente,2 indicaram apenas uma despedida do passado, o termo sociedade da informao tinha a vantagem de apontar, naquela poca do fin de siecle XX, para o futuro. O conceito denomina uma sociedade, na qual a informao aparece como um fator efetivo, ou, do ponto de vista econmico, como um fator de produo, que se iguala na sua importncia aos fatores capital e trabalho, ou at as supera, dominando a formao social.3 Desde ento, ou seja, desde o incio do sculo atual, houve um crescimento inusitadamente vertiginoso das redes de comunicao eletrnica - enquanto as redes sociais correspondentes ainda apreendem o seu uso, j bastante facilitado para se massificar. J no se trata apenas de discernir, acumular e comercializar dados e informaes, mas sobretudo de process-los. A informao a ser obtida de dados "brutos" depende de uma comunicao. De outro modo o dado fica morto, no atualizado, a informao no emerge. O seu significado criado, inventado, num ato comunicativo. Sem comunicao, a informao fica encoberta, indistinguvel, apenas armazenada em memria psquica e arquivos mediticos. Ela apenas informao potencial, e no

1 O conceito, embora no possa ser atribuido a um autor em especial, tem conotao econmica. Informao como fator de produo. Ver a respeito Trembley, 1995. 2 ver Bell, 1973 3 Este conceito do materialismo histrico indicaria relaes de produo baseadas na troca (compra e venda) de informao (dados).

4

chega a ser significativa, ela no se torna real. A realidade social expressa em forma de comunicao. Vivemos numa sociedade que no s oferece e consome informao, mas que sobretudo a processa do lado da recepo, quer dizer a processa ao mesmo tempo que a recebe.4 A transio da sociedade da informao para a sociedade da comunicao est em curso. Em termos de formao social, ocorre que os seres (humanos) processadores de informao no esto mais famintos, mas (sobre)carregados de informao redundante e que carece de depurao. Desde a globalizao da Internet, informao deixou de ser um bem raro e passou a ser um bem abundante. Quase gratuito. Os ambientes de informao disponveis para os sistemas sociais, a nvel global, permitem agora um novo nvel de (auto)observao cientfica da sociedade. Esta encontra observadores informados, que processam suas informaes no apenas individualmente, mas se utilizam, para reduzir sua complexidade, de processos em ambientes de comunicao reais e virtuais. Quando a informao processada, codificada e decodificada, ela recriada, reinventada, num processo social de comunicao, apoiado por ambientes de mdia tcnica e de aprendizado humano. O termo sociedade da comunicao denomina, portanto, um sistema social global, onde a informao processada em forma de comunicao, que constitui agora o "fator de produo" principal. por isso que sistemas e ambientes de comunicao desafiam a qualquer ser humano contemporneo, mas especialmente a responsveis de todos os tipos pais, educadores, cientistas, gerentes, empresrios e polticos. A comunicao permeia a vida cotidiana. A sua compreenso bsica para no apenas reconhecer ou lamentar as mudanas depois de ocorridas, mas para se dedicar conscientemente a construo da sociedade de famlias, escolas, empresas, instituies polticas e de participar nela. Se apresentamos, neste livro eletrnico, uma teoria de sistemas e ambientes comunicativos inspirada na obra de Niklas Luhmann, porque ela fornece essa compreenso da comunicao como construtora da sociedade, o que no quer dizer que seguiremos alguma apologia dogmtica. Reconhecemos apenas que ele incentivou uma mudana de paradigma nas cincias sociais e da comunicao.5 Quando Luhmann define seu programa6 de construo de uma superteoria sociolgica para a era da comunicao, capaz de dar sustento a um novo paradigma,7 ele intenciona a combinao de trs teorias, que at ento se desenvolveram paralelamente, ainda que com pontes de ligao e convergncias em vrios momentos de sua construo: a teoria de sistemas, a teoria da evoluo e a teoria da informao e comunicao. Quanto teoria de sistemas (e ambientes), ele imaginava uma teoria geral da sociedade que trabalha a complexidade da arquitetura social. Esta complexidade se especifica por

4 O lado da recepo focalizado por Stuart Hall e a corrente de "Estudos Culturais" na Inglaterra, a partir dos anos 50, reconhecida nos anos 70 como uma anlise crtica dos meios de comunicao. A abordagem de Hall era bastante inovadora, contrariando o mecanicismo ento predominante.

5 Para uma biografia de Luhmann e enquadramento de sua obra recomandamos a apresentao de Joo Pissarra em Luhmann 1992. 6 Ver Luhmann, 1975a 7 "Quando uma superteoria alcana uma alta centralizao de difernas (diretrizes, G.St.), uma mudana de paradigma se torna possvel." (Luhmann, 1984, p.19)

5

interaes reflexivas, j que sistemas sociais so construes baseadas em expectativas. A abordagem da realidade social por uma teoria que compreende os fenmenos como sistemas em seus ambientes, tem a vantagem de conectar o termo sistema com seus significados anlogos, em vrios nveis:8 - sistemas em geral como mtodo de raciocnio abstrato - mquinas, organismos, sistemas psicolgicos - sistemas sociais: interaes, organizaes, sociedades. A distino de nveis e degraus possibilita comparaes frutferas entre diversas reas de conhecimento onde se aplica a teoria sistmica. Resultados podem, assim, ser transferidos metaforicamente de uma rea para outra. Isso o caso da comparao entre processos so

Search related