QUEM CONTA UM CONTO E OUTROS objetivos/quem_conta_um... · 7 Artur Azevedo ARTUR AZEVEDO Artur Azevedo…

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  • QUEM CONTA UM CONTO...E OUTROS CONTOS

  • MACHADO DE ASSISALUSIO AZEVEDOARTUR AZEVEDOLIMA BARRETO

    Quem conta um conto...e outros contos

    Seleo e notasINS ACHCAR

    FRANCISCO ACHCAR

    CEREDEditora SOLSo Paulo 1998

  • _________________________________So Paulo 1998

    NDICE

  • Artur Azevedo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7PLEBISCITO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9UM CAPRICHO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

    Alusio Azevedo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21O MACACO AZUL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23POLTIPO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

    Machado de Assis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39QUEM CONTA UM CONTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41

    I . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41II . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42III . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44IV . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46V . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48VI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50VII . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53VIII . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55IX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58X . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61

    BRINCAR COM FOGO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 631 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 632 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 643 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 674 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 705 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 736 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76

    Lima Barreto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79A CARTOMANTE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81QUASE ELA DEU O SIM, MAS... . . . . . . . . . . . . . . . . 84O HOMEM QUE SABIA JAVANS . . . . . . . . . . . . . . . . 92

  • 7

    Artur AzevedoARTUR AZEVEDO

    Artur Azevedo (1855-1908), irmo do tambm escritor AlusioAzevedo, considerado o grande autor de comdias para teatro dosculo passado. Suas peas, maliciosas e sarcsticas, criticavamprincipalmente a sociedade carioca e a poltica da poca.

    Alm de peas, escreveu pequenos contos de humor, como osque voc ir ler.

    Junto com Machado de Assis, de quem foi chefe no Ministrioda Agricultura, fundou a Academia Brasileira de Letras em 1896.

  • 1 Repimpado: de barriga cheia, farto, satisfeito.2 Folha diria: jornal.

    9

    PLEBISCITO

    Artur Azevedo

    Acena passa-se em 1890.A famlia est toda reunida na sala de jantar.O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado1 numa cadeira

    de balano. Acabou de comer como um abade.Dona Bernardina, sua esposa, est muito entretida a limpar a

    gaiola de um canrio belga.Os pequenos so dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se

    a olhar para o canrio. Ele, encostado mesa, os ps cruzados, l commuita ateno uma das nossas folhas dirias.2

    Silncio.

    De repente, o menino levanta a cabea e pergunta: Papai, que plebiscito?O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir

    que dorme.O pequeno insiste: Papai?Pausa: Papai?Dona Bernardina intervm:

  • 3 Repare que a personagem, exprimindo-se conforme a fala popular da poca,emprega o pronome oblquo lhe, indireto, em lugar de o, direto: Manduca estlhe chamando, em vez de o est chamando. O mesmo uso comunssimo hojeem vrias regies do pas.

    10 ARTUR AZEVEDO

    seu Rodrigues, Manduca est lhe chamando.3 No durmadepois do jantar que lhe faz mal.

    O senhor Rodrigues no tem remdio seno abrir os olhos. Que ? Que desejam vocs? Eu queria que papai me dissesse o que plebiscito. Ora essa, rapaz! Ento tu vais fazer doze anos e no sabes

    ainda o que plebiscito? Se soubesse no perguntava.O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua

    muito ocupada com a gaiola: senhora, o pequeno no sabe o que plebiscito! No admira que ele no saiba, porque eu tambm no sei. Que me diz?! Pois a senhora no sabe o que plebiscito? Nem eu, nem voc; aqui em casa ningum sabe o que ple-

    biscito. Ningum, alto l! Creio que tenho dado provas de no ser

    nenhum ignorante! A sua cara no me engana. Voc muito prosa. Vamos: se

    sabe, diga o que plebiscito! Ento? A gente est esperando! Diga!... A senhora o que quer enfezar-me! Mas, homem de Deus, para que voc no h de confessar que

    no sabe? No nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Joutro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que eraproletrio. Voc falou, e o menino ficou sem saber!

    Proletrio, acudiu o senhor Rodrigues, o cidado pobre quevive do trabalho mal remunerado.

    Sim, agora sabe porque foi ao dicionrio; mas dou-lhe umdoce, se me disser o que plebiscito sem se arredar dessa cadeira!

  • 11PLEBISCITO

    Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridculo na pre-sena destas crianas!

    Oh! Ridculo voc mesmo quem se faz. Seria to simplesdizer: No sei, Manduca, no sei o que plebiscito; vai buscar odicionrio, meu filho.

    O senhor Rodrigues ergue-se de um mpeto e brada: Mas seeu sei!

    Pois se sabe, diga! No digo para me no humilhar diante de meus filhos! No

    dou o brao a torcer! Quero conservar a fora moral que devo ternesta casa! V para o diabo!

    E o senhor Rodrigues, exasperadssimo, nervoso, deixa a sala dejantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.

    No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasio:algumas gotas de gua de flor de laranja e um dicionrio...

    A menina toma a palavra: Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem

    que to perigoso! No fosse tolo observa dona Bernardina e confessasse

    francamente que no sabia o que plebiscito! Pois sim acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o

    causador involuntrio de toda aquela discusso; ~- pois sim, mame;chame papai e faam as pazes.

    Sim, sim, faam as pazes! diz a menina em tom meigo esuplicante. Que tolice! duas pessoas que se estimam tanto zanga-rem-se por causa do plebiscito!

    Dona Bernardina d um beijo na filha, e vai bater porta doquarto:

    Seu Rodrigues, venha sentar-se; no vale a pena zangar-sepor to pouco.

    O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balano.

    boa! brada o senhor Rodrigues depois de largo silncio.

  • 12 ARTUR AZEVEDO

    muito boa! Eu, eu ignorar a significao da palavra plebiscito!Eu!...

    A mulher e os filhos aproximam-se dele.O homem continua num tom profundamente dogmtico: Plebiscito...E olha para todos os lados a ver se h por ali mais algum que

    possa aproveitar a lio. Plebiscito uma lei decretada pelo povo romano, estabele-

    cido em comcios. Ah! suspiram todos, aliviados. Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil!

    mais um estrangeirismo!....

    Contos fora da Moda (1895), Rio de Janeiro, Garnier, 1901.

  • 1 Mar de Espanha: cidade-municpio e comarca do estado de Minas Gerais, nazona cafeeira da Mata.

    13

    UM CAPRICHO

    Artur Azevedo

    Em Mar de Espanha1 havia um velho fazendeiro, vivo, quetinha uma filha muito tola, muito mal-educada, e, sobretudo, muitocaprichosa. Chamava-se Zulmira.

    Um bom rapaz, que era empregado no comrcio da localidade,achava-a bonita, e como estivesse apaixonado por ela no lhe desco-bria o menor defeito.

    Perguntou-lhe uma vez se consentia que ele fosse pedi-la ao pai.A moa exigiu dois dias para refletir.Vencido o prazo, respondeu: Consinto, sob uma pequena condio. Qual? Que o seu nome seja impresso. Como? um capricho. Ah! Enquanto no vir o seu nome em letra redonda, no quero

    que me pea. Mas isso a coisa mais fcil... No tanto como supe. Note que no se trata da sua assina-

    tura, mas do seu nome. preciso que no seja coisa sua.Epidauro, que assim se chamava o namorado, parecia no ter

  • 2 Corte: O Rio de Janeiro, na poca do Imprio.3 Jaez: qualidade, espcie

    14 ARTUR AZEVEDO

    compreendido. Zulmira acrescentou: Arranje-se!E repetiu: um capricho.Epidauro aceitou, resignado, a singular condio, e foi para casa.A chegado, deitou-se ao comprido na cama, e, contemplando as

    pontas dos sapatos, comeou a imaginar por que meios e modos fariapublicar o seu nome.

    Depois de meia hora de cogitao, assentou em escrever umacorrespondncia annima para certo peridico da Corte,2 dando-lhegraciosamente notcias de Mar de Espanha.

    Mas o pobre namorado tinha que lutar com duas dificuldades: aprimeira que em Mar de Espanha nada sucedera digno de meno;a segunda estava em como encaixar o seu nome na correspondncia.

    Afinal conseguiu encher duas tiras de papel de notcias destejaez! 3

    "Consta-nos que o Rev.mo Padre Fulano, vigrio desta freguesia,passa para a de tal parte.

    O II. mo sr. dr. Beltrano, juiz de direito desta comarca, comple-tou anteontem 43 anos de idade. S. S.a, que se acha muito conserva-do, reuniu em sua casa alguns amigos.

    T