ÃO UTÓPICA NAS REPRESENTAÇÕES SOBRE

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Text of ÃO UTÓPICA NAS REPRESENTAÇÕES SOBRE

  • Educao & Sociedade

    ISSN: 0101-7330

    revista@cedes.unicamp.br

    Centro de Estudos Educao e Sociedade

    Brasil

    Almeida Neto, Antonio Simplcio de

    DIMENSO UTPICA NAS REPRESENTAES SOBRE O ENSINO DE HISTRIA: MEMRIAS

    DE PROFESSORES

    Educao & Sociedade, vol. 31, nm. 110, enero-marzo, 2010, pp. 219-239

    Centro de Estudos Educao e Sociedade

    Campinas, Brasil

    Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=87315813012

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  • 219Educ. Soc., Campinas, v. 31, n. 110, p. 219-239, jan.-mar. 2010Disponvel em

    Antonio Simplcio de Almeida Neto

    DIMENSO UTPICA NAS REPRESENTAES SOBRE OENSINO DE HISTRIA: MEMRIAS DE PROFESSORES

    ANTONIO SIMPLCIO DE ALMEIDA NETO*

    Es cierto que la desesperacin, momento de la accinpoitica, difiere de la angustia, ese vaco del cual no sesale. Quienes rechazan el riesgo porque no quieren sufrirya no quieren la alegra. (Henri Lefebvre)

    RESUMO: Esse artigo trata das representaes de professores deHistria acerca da dimenso utpica em sua disciplina, ou seja, amaneira como representam certa concepo prospectiva ao lecio-narem uma disciplina escolar que lida com o passado. Considera-mos que a educao tem como pressuposto uma viso projetiva,uma vez que supe uma perspectiva de homem, sociedade emundo no ato educativo, e o ensino de Histria, mais especifica-mente, por ser uma disciplina que lida com as transformaestemporais e com temas eminentemente polticos e sociais, inserin-do o homem neste processo. Situamos a discusso atual acerca dotema no ensino de Histria, inserido no debate da crise damodernidade e postulados ps-modernistas, a oscilar entre umapostura de pensar a disciplina como inexorvel instrumento detransformao scio-poltica ou v iluso prospectiva. Visandouma melhor compreenso da questo proposta, valemo-nos daanlise de relatos orais obtidos atravs de entrevistas com profes-sores da disciplina, que lecionaram nos anos de 1960/70 e 1980/90, tendo por perspectiva a teoria crtica das representaes de HenriLefebvre e o debate sobre memria e histria oral.

    Palavras-chave: Ensino de Histria. Utopia. Representao. Memria.Histria oral.

    * Doutor em Educao e professor do Centro de Educao e Cincias Humanas da Univer-sidade Federal de So Carlos (UFSCAR). E-mail: toninhosaneto@uol.com.br

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    Dimenso utpica nas representaes sobre o ensino de Histria...

    Educ. Soc., Campinas, v. 31, n. 110, p. 219-239, jan.-mar. 2010

    Disponvel em

    UTOPIAN DIMENSION IN THE REPRESENTATIONS ON HISTORY TEACHING:MEMORIES OF TEACHERS

    ABSTRACT: This paper explores the representations of Historyteachers on the utopian dimension in their discipline, that is, howthey represent a certain prospective conception when teaching aschool discipline dealing with the past. We consider that educationhas assumed a projective vision, since it supposes the perspectiveof man, society and world in the educative act. This is even morethe case with History teaching, since it is one of the disciplinesthat eminently deals with the secular transformations and socialand political subjects, inserting man in this process. We locate thecurrent discussion on the subject in History teaching, inserted inthe debate of the crisis of modernity and post-modern postulates,oscillating between the stance of thinking this discipline as an in-exorable instrument of social political transformation or a vain pro-spective illusion. To better understand the proposed issue, we ana-lyze verbal stories from interviews with professors of this disciplinewho have taught in the 60s-70s and in the 80s-90s, under theperspective of Henri Lefebvres critical theory of representationsand the debate on memory and oral history.

    Key words: History teaching. Utopia. Representation. Memory. Oralhistory.

    o conhecido texto Sobre o conceito da histria, escrito em1940, Benjamin (1986) faz uma bela e assombrosa anlise doquadro Angelus Novus, de Paul Klee, o anjo da histria: uma

    figura de olhar catatnico, pasmado, asas estendidas, impelida para ofuturo ao mesmo tempo em que observa o passado, suas catstrofes e ru-nas. Esse anjo gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar osfragmentos (p. 226), mas no pode, pois a tempestade o progresso que sopra do paraso o impede de fechar as asas. Perplexidade e desola-o rondam seu olhar, a angstia mobiliza um desejo lancinante de trans-formao.

    No debate sobre o ensino de Histria,1 nas ltimas dcadas, essainterpretao benjaminiana serviria como eptome, pois ilustra bem acondio de seus professores, a angstia de seu olhar sobre o passado, aobservao dos despojos, a vontade de reconstruo, o medo da repeti-o dos erros, o desejo de intervir na transformao. Falamos de umaespcie de Angelus Novus do ensino, um arauto do passado que espera

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    que seus ensinamentos promovam, se no a reconstituio dos fragmen-tos, ao menos um porvir com menos runas.

    Essa concepo d sinais de esgotamento, pelo simples fato deter sido erigida de maneira frgil, quando se supunha portentosa. Laville(1999, p. 127), em artigo que prope desanuviar as iluses em tornodo ensino de Histria, aponta como um grande equvoco (...) se acre-ditar que, pela manipulao dos contedos, possvel dirigir as consci-ncias ou as memrias, quando a experincia do presente sculo mostraque est longe de ser to certo assim quanto tantos parecem acreditar, oque provavelmente no passa de uma grande iluso. Essa crena de queatravs do ensino de Histria seria possvel regular conscincias e com-portamentos, aglutinar descontentamentos e decepes, catalisar movi-mentos de transformao, , para o autor, apenas e to somente uma viluso. No entanto, tem mobilizado esforos e paixes.

    Mas esse arranjo pode ser pensado de outra maneira. Retornando interpretao de Benjamin sobre o quadro de Klee, numa no menosinstigante anlise, Sevcenko (1993, p. 49-50) prope:

    O anjo da histria assim um anjo decado e sua rebeldia o tornou im-potente para auxiliar os vencidos, mortos e humilhados. No estandomais sintonizado com o poder, ele prprio est condenado a ser um ven-cido e um enxovalhado. Sua natureza de ser destinado vida eterna osubmete ao castigo de assistir paralisado, ele, cuja misso precpua agire salvar, destruio do mundo e degradao de si mesmo.

    O que se apresentava como possibilidade, promessa e propsitotransmuta-se em paralisao, frustrao e imobilismo. Para esse autor,Benjamin e Klee vaticinaram o fim da modernidade e sua crena noprogresso e na utopia da igualdade perfeita, produzida pela razo, go-vernada pela tcnica e desfrutada pela arte (idem, ibid., p. 47), re-presentando aqueles que, aturdidos, (...) no esto mais voltados parao infinito radiante do futuro e sim para a tragdia impronuncivel dopassado. No acreditam mais no absoluto, nem se deixam levar por suasfalsas promessas. Esto ss, reduzidos aos limites estreitos de sua fra-queza, seu horror e sua fria (p. 50).

    Repensando aquele Angelus Novus do ensino, prenhe de desejosde mudana face crise to alardeada existente na educao, nos depara-mos com um professor de Histria impotente diante das impossibilida-des, seu olhar para o passado adquire ares de nostalgia, suas tentativas

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    Dimenso utpica nas representaes sobre o ensino de Histria...

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    de juntar os fragmentos resultam inteis, seu projeto prospectivo soaanacrnico.

    As discusses sobre as quais me deterei2 referem-se dimensoutpica presente no ensino de Histria. Via de regra, o ensino dessadisciplina tem, por dcadas, trabalhado com uma virtual capacidadede, atravs de um resgate pretensamente crtico do passado, apostarnuma transformao positiva e projetar um novo futuro.

    Em tempos de transformaes significativas como a que vimosatravessando nas ltimas dcadas, particularmente no Brasil, os anseiospor mudanas promissoras so proporcionais s angstias geradas pelafalta de solues e respostas a problemas sociais, econmicos e polti-cos. No poderia ser diferente na educao, j que inerente s ativi-dades do professor o ato de operar com projees, uma vez que prevum fim a atingir com seus alunos, seja de ampliao do conhecimen-to, seja de formao de valores.

    No ensino de Histria, tal questo se faz sentir com maior evi-dncia, pois que os professores lidam com o tempo passado e, dessamaneira, tm como matria-prima uma vastido de temas intrincadoscom suas variantes e contradies a serem exploradas e explicadas, po-dendo dar algum sentido e significado ao presente e, inevitavelmente,serem lanados nas projees do ato educativo, considerando que osensinamentos dessa disciplina seriam capazes de contribuir para umasociedade melhor que a passada e aquela que se est vivendo. Algunstemas habitualmente abordados pela disciplina, como poder, relaesde classe, revolues, guerras, regimes polticos, movimentos sociais,concorrem para esta viso da histria como provedora de lies do pas-sado a serem aprendidas pelo presente.

    Considerando, ento, que essa dimenso utpica presente no en-sino de Histria tem mobilizado aes concretas, influenciado pessoase levado a novos pro