RESENHA: MOSELEY, F. Money and Totality: A Macro-Monetary ... ?· teoria crítica de Marx (Boitempo…

Embed Size (px)

Text of RESENHA: MOSELEY, F. Money and Totality: A Macro-Monetary ... ?· teoria crítica de Marx...

1

RESENHA: MOSELEY, F. Money and Totality: A Macro-Monetary Interpretation

of Marxs Logic in Capital and the End of the Transformation Problem [Dinheiro e

Totalidade: Uma Interpretao Macro-Monetria da Lgica de Marx em O Capital e o

Fim do Problema da Transformao]. Boston: Brill, 2015.

Bruno Hfig1

Em carta escrita no incio de 1858 (portanto, no ano em que finalizou a redao

dos Grundrisse), Marx oferece a Lassale uma reveladora descrio de seu projeto

terico. O trabalho, de que aqui se trata, diz ele, o da crtica das categorias

econmicas ou, se voc preferir, o sistema da economia burguesa apresentado

criticamente. simultaneamente a apresentao do sistema e, atravs da

apresentao, a sua crtica.2 O que Marx diz a Lassale nada tem de trivial. Os

economistas, por exemplo, tendem a conceber cincia positiva e crtica como coisas

radicalmente distintas, as quais s se poderiam relacionar exteriormente.3 Marx, ao contrrio, sugere em sua carta que existe uma unidade fundamental entre teoria e

crtica da economia burguesa, uma relao interna que implicaria na impossibilidade

da existncia de uma sem a outra. Dado o carter idiossincrtico dessa ideia, justo

perguntar: o que a motiva?

Podemos encontrar pistas para uma resposta em O capital. Ali dito que a

forma fenomenal [Erscheinungsform] e a essncia4 do sistema da economia burguesa jamais coincidem imediatamente; pelo contrrio, em sua manifestao as coisas se

apresent[a]m frequentemente invertidas5 e isso, precisamente, que torna uma

cincia de tal objeto necessria. Assim, se a mercadoria aparece como forma natural

de toda riqueza material, caber cincia mostrar que tal forma s se universaliza ali

onde a fora de trabalho assume para o prprio trabalhador a forma de uma

mercadoria que lhe pertence, isto , onde seu trabalho assume a forma do trabalho

assalariado;6 se a sua circulao aparece como o resultado da relao entre vontades livres, caber anlise da mercadoria evidenciar que as leis da natureza das

mercadorias atuam no instinto natural de seus possuidores, 7 e que portanto as prprias vontades j so estruturalmente determinadas; e se a relao de troca parece

1 Doutorando em Economia e professors assistente de Anlise Macroeconmica (SOAS, University of

London). O autor gostaria de agradecer a Pedro Mendes Loureiro, Rodrigo Moreno Marques, Janana

de Faria e Ezgi Berfin Unsal por sustentarem as discusses que motivaram esta resenha. 2 Carta de 22/02/1858. In MEW: Marx Engels Werke Band 29 (Berlin: 6, 1987), p. 550. 3 Ver, por exemplo,Joseph A. Schumpeter, History of Economic Analysis, 1 New edition (London:

Routledge, 1987), pp. 334. 4 Karl Marx, O capital: Crtica da Economia Poltica. (Livro Terceiro, Vol. II)., traduo de Flvio

Kothe, Os Economistas (So Paulo: Nova Cultural, 1985), p. 271; MEW: Marx Engels Werke Band 25

Das Kapital. Dritter Band, Buch III: Der Gesamtprozess der kapitalistischen Produktion, 15th edn

(Dietz Vlg Bln, 2004), p. 825. 5 Karl Marx, O Capital: Crtica da Economia Poltica (Boitempo Editorial, 2015) p. 743; MEW:

Werke, 43 Bde., Bd.23, Das Kapital, 21st edn (Dietz Vlg Bln, 2005), p. 559. 6 O Capital, p. 1188; MEW 23, p. 184. 7 O Capital, p. 221; MEW 23, p. 101.

2

decorrer naturalmente da igualdade dos indivduos, caber Crtica da Economia

Poltica revelar que essa igualdade mesma se assenta numa desigualdade fundamental

e historicamente determinada.

Em funo da aparncia necessria de naturalidade do capital, e da falsidade

dessa aparncia, o sistema da economia burguesa s pode ser apresentado de modo

racional se o for criticamente, ou seja, se sua exposio conceitual for tambm a

exposio de seus pressupostos, a revelao da unilateralidade de suas determinaes

e, portanto, tambm a demonstrao de seus limites. E em nenhum lugar fica isso

mais claro do que na considerao da forma mais abstrata, mas tambm mais geral

do modo burgus de produo: o valor, usualmente assumido pelos economistas

como forma natural eterna da produo social.8 concepo dos economistas se ope Marx veementemente, afirmando que a cincia consiste justamente em

desenvolver como a lei do valor se impe9 sobre o metabolismo deste modo de

produo historicamente determinado. Cabe cincia, portanto, desvelar as

determinaes sociais que levam o trabalho a se apresenta[r] no valor,10 elucidando

assim tambm a especificidade da forma-valor 11 e o carter historicamente determinado do modo de produo no qual ela se desenvolve.

Para o desespero de Marx, porm, este ponto foi pouco compreendido no

apenas pelos defensores da ordem burguesa, mas tambm por aqueles que visavam

destru-la. Muitos, com efeito, ignoraram solenemente a noo de que o trabalho

transformado em produtos (...) aparece (...) como valor desses produtos apenas numa

sociedade em que os trabalhos individuais existem como um desvio, e no

imediatamente como parte integrante do trabalho total.12 E isso inevitavelmente os

levou a conceber o valor como uma forma eterna da produo social; seu contedo

o trabalho como a fonte de toda riqueza;13 e o carter especfico assumido pelo trabalho neste modo de produo o trabalho abstrato como uma forma trans-

histrica de mediao entre o ser humano e a natureza. Surgiu assim um marxismo

que viu na Crtica da Economia Poltica apenas a pretenso de desenvolver uma

cincia positiva da economia, e que o que muito pior buscou fundamentar a

crtica ao modo de produo capitalista sobre um imperativo moral cujo foco se

restringiria ao (sem dvida importantssimo) tema do conflito distributivo.14

****

A partir da dcada de 1960, porm, a leitura tradicional de Marx comea a ser

fortemente questionada. Na Alemanha, em particular, surge uma nova leitura de Marx

(Neue Marx-Lektre), baseada nas contribuies seminais de Hans-Georg Backhaus e

8 O Capital, p. 1133; MEW 23, p. 93. 9 Carta a Kugelman de 11/07/1868. In MEW: Marx Engels Werke Band 32, 5th edn (Berlin: Dietz

Verlag, 2009), p. 552. 10 O Capital, p. 216; MEW 23, p. 95. 11 O Capital, p. 1133; MEW 23, p. 94. 12 Karl Marx, Crtica do Programa de Gotha (Boitempo Editorial, 2015), p. 30. 13 Crtica do Programa de Gotha, p. 24. 14 Quanto a isso, ver Moishe Postone, Tempo, trabalho e dominao social: Uma reinterpretao da

teoria crtica de Marx (Boitempo Editorial, 2015); e Michael Heinrich, Die Wissenschaft vom Wert:

Die Marxsche Kritik der politischen konomie zwischen wissenschaftlicher Revolution und klassischer

Tradition, 5. Auflage (Westflisches Dampfboot, 2011).

3

Helmut Reichelt.15 Retomando estudos desenvolvidos na dcada de 1920 por autores

como Lukcs16 e Rubin,17 e inspirando-se diretamente nas consideraes de Adorno

sobre a necessidade de uma teoria efetivamente crtica da sociedade

contempornea,18 a abordagem proposta por esses autores levar a srio o subttulo da principal obra de Marx. De fato, ela ter como meta justamente reconstituir e

desenvolver o projeto marxiano da Crtica da Economia Poltica.

Com esse intuito, os proponentes da nova leitura se engajam numa refutao

enftica da concepo trans-histrica de valor que por tanto tempo dominou a

interpretao da obra de Marx. Backhaus, por exemplo, afirma que o prprio sentido

da crtica das categorias econmicas consiste em revelar as condies que tornam

necessrias a existncia da forma-valor,19 isto , em desenvolver uma concepo de valor capaz de trazer luz a historicidade das condies sociais que levam a atividade

produtiva humana a assumir a forma singular que ela possui no modo capitalista de

produo. E isso, diz Reichelt, s possvel atravs da derivao daquelas formas

atravs das quais a lei do valor pode, em geral, se realizar.20

Ora, a primeira forma derivada por Marx em O capital, num movimento lgico-

conceitual motivado pela necessidade de resoluo da oposio interna entre valor

de uso e valor contida na mercadoria21, o dinheiro: de acordo com Marx, a forma-dinheiro, na qual se exprime o valor da mercadoria, surge da natureza do valor das

mercadorias.22 De fato, a determinao dos objetos de uso como valores um

produto social dos seres humanos:23 uma mercadoria, afirma Marx, s ganha

expresso universal de valor porque, ao mesmo tempo, todas as outras expressam seu

valor no mesmo equivalente;24 logo, somente a expresso monetria comum das

mercadorias conduziu fixao de seu carter de valor.25 De acordo com a teoria

15 Ver Hans G. Backhaus, Dialektik der Wertform: Untersuchungen zur Marxschen konomiekritik

(Freiburg i. Br: a-ira-Verlag, 1997); e Helmut Reichelt, Zur logischen Struktur des Kapitalbegriffs bei

Karl Marx, 4., durchges. Aufl. (Frankfurt a.M.: Europische Verlagsanstalt, 1973). 16 Gyorgy Lukcs, Histria e Conscincia de Classe, traduo de Rodinei Nascimento, Edio: 2a

(WMF Martins Fontes, 2012). 17 Isaak Illich Rubin, Essays on Marx's Theory of Values. Revised ed. (Black Rose Books, 1973). 18 A influncia de Adorno no desenvolvimento dessa nova abordagem fica patente quando se l as

ideias expressas pelo filsofo frankfurtiano em uma de suas ltimas aulas, anotadas e publicadas

(postumamente) por Bac