Revista de Trabajo Social – FCH – UNCPBA .ARTICULADA AO PROJETO ÉTICO-POLÍTICO DO SERVIÇO

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RReevviissttaa ddee TTrraabbaajjoo SSoocciiaall FFCCHH UUNNCCPPBBAA

Tandil, Ao 5 - N 7 Volumen 4, Julio de 2012 ISSN 1852-2459 295

O ENSINO DA CATEGORIA QUESTO SOCIAL NA FORMAO PROFISSIONAL ARTICULADA AO PROJETO TICO-POLTICO DO SERVIO SOCIAL BRASILEIRO:

DESAFIOS, LIMITES E POSSIBILIDADES

Gnesis de Oliveira Pereira Wanderson Fabio Melo

INTRODUO

O presente trabalho fruto de nossa experincia de monitoria desenvolvida na disciplina Questo Social no Brasil, na Universidade Federal Fluminense Polo Universitrio de Rio das Ostras (UFF-PURO) realizada no primeiro e segundo semestre de 2011.

A reflexo proposta nesse artigo visa identificar como os estudantes articulam as dimenses terico-prtica, tico-poltica e tcnico-operativa do trabalho profissional para responder questo social. Neste sentido, realizaremos um debate acerca da concepo terica da categoria questo social para o projeto profissional crtico do Servio Social brasileiro, posteriormente faremos um debate acerca das possibilidades histricas de hegemonizao deste projeto radicalmente crtico e apresentaremos as normatizaes que do materialidade a ele, levando em conta, para esta anlise, a questo social como elemento transversal a construo deste projeto.

Tendo em vista este debate, nosso objetivo consiste em analisar como os estudantes visualizam a articulao da dimenso terico-prtica, tico-poltica e tcnico-operativa para responder a questo social. Para tal, apresentaremos as respostas de cinco grupos a uma dinmica aplicada para turma do primeiro e segundo semestre de 2011, que caracterizava-se por apresentar expresses concretas da questo social que se apresentam ao trabalho profissional, necessitando, para serem respondida, da articulao, sob a perspectiva de unidade, das trs esferas que compe o trabalho do assistente social.

Por fim, aps analisada as respostas e identificada os limites concretos de articulao das dimenses do trabalho profissional, em nossas consideraes finais procuramos sistematizar todos os limites e propor estratgias potencialmente capaz de romp-los ao longo da formao profissional. Assim, procuramos investir no aprofundamento do conhecimento acerca do projeto profissional crtico, por entendermos que este o caminho para enfrentar as rpidas transformaes societrias brasileiras, em um contexto de refluxo dos movimentos das classes trabalhadoras. 1.1 A ABORDAGEM MARXISTA DA QUESTO SOCIAL

A categoria questo social trabalhada no ensino da disciplina Questo Social no Brasil sob a perspectiva terica expressa no captulo XXIII, A lei geral da acumulao capitalista de O capital - que consideramos, ainda hoje atuais. Nesta

Graduando em Servio Social Universidade Federal Fluminense - Plo Universitrio de Rio das Ostras genesis.oliveira@gmail.com Docente da Graduao em Servio Social Universidade Federal Fluminense - Plo Universitrio de Rio das Ostras wfabiomelo@yahoo.com.br

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perspectiva, a questo social determinada pelo modelo de organizao da produo capitalista, pelo conflito capital/trabalho que tem sua gnese na explorao do trabalhador. O trabalhador, ao vender sua fora de trabalho ao capitalista, entrega-a pelo preo de sua reproduo (alimentao, habitao, vesturio, qualificao) e no pela sua capacidade de gerar mais-valor. Em outras palavras, o capitalista paga ao trabalhador o necessrio para sua reproduo material, se apropriando, portanto, do valor que o trabalhador agrega a matria aps sua transformao. com base nesta peculiaridade que Marx identifica que a especificidade do modo de produo capitalista est na expropriao, por parte do capitalista, da riqueza socialmente produzida pelo trabalhador e, a partir desta constatao, atribui fora de trabalho sua real funcionalidade no modo de produo capitalista que comprada:

(...) no para satisfazer, mediante seu servio ou seu produto, s necessidades gerais de seu comprador. Sua finalidade a valorizao de seu capital, produo de mercadorias que contenham mais trabalho do que ele paga, portanto que contenham uma parcela de valor que nada lhe custe e que, ainda assim, realizada pela venda de mercadorias. (...) produo de mais-valia ou gerao de excedente a lei absoluta desse modo de produo. (MARX, 1988: 182)

A peculiaridade da fora de trabalho na sociedade capitalista est no fato desta mercadoria ser a nica capaz de gerar mais-valor, independente de sua remunerao salarial ser elevada ou baixa. Para Marx, a elevao salarial significa no melhor dos casos, apenas diminuio quantitativa do trabalho no-pago que o trabalhador tem de prestar. Esta diminuio nunca pode ir at o ponto em que ela ameace o prprio sistema. (MARX, 1988: 183).

Portanto, a questo social produzida no modelo de produo capitalista, que fundado na apropriao privada dos meios de produo e da riqueza socialmente produzida por meio do trabalho no-pago. Com base na lei geral da acumulao podemos compreender que a melhora nas condies de reproduo social proporcionada pela melhor remunerao do trabalho jamais ir superar a condio de explorao do trabalhador pelo capitalista e, nem mesmo, colocar em risco seu lucro. Para Marx (1988) a lei da acumulao capitalista pensa a elevao salarial, as melhoras nas condies de vida da classe trabalhadora como elementos atravessados pelas flutuaes conjunturais determinadas por elementos econmicos ou polticos, ou seja, marcada de acordo com a luta de classe entre capital e trabalho em determinado perodo histrico. Devemos considerar que, para Marx, impossvel superar a apropriao desigual da riqueza no capitalismo. Assim, Marx conclui:

Se classe trabalhadora continuou pobre, apenas proporcionalmente menos pobre, ao produzir um aumento enriquecedor da riqueza e do poder para a classe proprietria, ela continua sendo, em termos relativos, igualmente pobre. Se os extremos da pobreza no diminuram, eles aumentaram, pois aumentaram os extremos da riqueza. (MARX, 1970: 206)

Marx combate nesta passagem o pensamento presente em sua poca de que o desenvolvimento do capitalismo diminuiria a pobreza e seria potencialmente capaz de solucionar as manifestaes latentes da emergente questo social (pauperismo absoluto

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da classe trabalhadora118). Pautado na compreenso terica de Marx podemos dizer que a superao da questo social no poder ocorrer, jamais, enquanto existir o capitalismo, pois o seu fim o fim do trabalho estranhado, da propriedade privada dos meios de produo, a liberao do trabalho criador de todas as amarras e dominaes de classe. Assim, tais mudanas s podem ocorrer com a destruio total do sistema de classe.

Portanto, a superao da questo social a superao do capitalismo que s pode se realizar com produtores livres associados, na perspectiva de humanidade social. O fim da questo social s se efetuar com a emancipao da classe trabalhadora, atravs da negao da negao, isto , o proletrio o sujeito capaz de negar o atual estgio de negao das capacidades criativas e emancipadoras do trabalho. Barroco, ao analisar o mtodo ontolgico presente nas obras de Marx: (...) a sociedade capitalista reproduz a essncia humana e sua negao. Esse movimento promove a possibilidade de um momento de negao da negao, tende a superar, qualitativamente, as condies anteriores (...) (BARROCO, 2001: 196).

sob esta perspectiva que no ensino da disciplina Questo Social no Brasil negamos toda e qualquer Nova Questo Social, pois acreditamos que a Velha Questo Social - a apropriao do trabalho excedente - no capitalismo nunca foi solucionada. Devemos ter claro que negar a Nova Questo Social, no significa dizer que a questo social sempre a mesma, a-temporal, temos clareza que as diferentes formas de acumulao do capital e os diferentes modos de organizao do Estado e da poltica - que asseguram essas mudanas na acumulao geram novas expresses da questo social, isto , as expresses da questo social se modificam de acordo com a organizao do capital e da poltica. Por isso, temos no contexto de acumulao flexvel, a qual se responde politicamente com o iderio neoliberal, a proliferao de novas expresses da questo social, uma vez que se flexibiliza os contratos da fora de trabalho, proliferando o nmero de trabalhadores temporrios, polivalentes, precarizados, subcontratados, desempregados, e, por outro lado, h um enxugamento do Estado para classe trabalhadora. Desta forma, inmeras novas expresses da questo social aparecem no cenrio nacional, advindas deste contexto poltico e econmico desfavorvel a classe que vive do trabalho. Assim, chamamos de expresses da questo social por entendermos que embora suas manifestaes sejam diversas e determinadas historicamente a sua gnese continua situada na explorao do trabalhador pelo capitalista.

Destacamos que as melhoras condies de vida da classe trabalhadora - melhores salrios, diminuio da jornada de trabalho, organizao em partidos e sindicatos polticos - acarretadas pela consolidao da indstria, do capitalismo no sculo XX e, principalmente, pelas lutas de resistncia e avano sobre o capital, protagonizadas pelo movimento operrio, no colocaram em xeque a reproduo ampliada do capital119, nem muito menos a taxa de mais-valia do capitalista. Portanto, a questo social continuou a se reproduzir e se acirrar com novas expresses, na medida

118 Cumpre destacar que, a partir dos anos 50 do sculo XIX, Marx fala em pauperismo relativo.

119 Falamos de forma genrica, pois no cabe neste trabalho aprofundar o tema, mas sabemos que em dete

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