Revista de Trabajo Social – FCH – UNCPBA ?· Legislações que tanto potencializam a autonomia profissional,…

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    Tandil, Ao 5 - N 8, Julio de 2012 ISSN 1852-2459 321

    O PROJETO TICO-POLTICO DO SERVIO SOCIAL BRASILEIRO: DESAFIOS E RESISTNCIAS EM TEMPOS DE (DES)ORDEM NEOLIBERAL

    Simone Souza Leite

    Resumo O presente artigo situa o cenrio contemporneo enfatizando desafios postos a realizao do projeto profissional do Servio Social no Brasil. Problematiza transformaes que vm se processando no mundo do trabalho e no mbito da formao profissional, enquanto elementos que condicionam limites a tal projeto, mas, sem perder de vista o necessrio contraponto, tece uma reflexo acerca dos efeitos da atuao poltica das entidades representativas do Servio Social, partindo do pressuposto de que essa profisso e o seu projeto tico-poltico, para alm de sofrer os efeitos da dinmica do capital, , tambm, fruto da organizao que forja resistncias em tempos de (des)ordem neoliberal.

    Palavras-chave: Servio Social. Projeto Profissional. Trabalho. Formao Profissional. Entidades Representativas.

    1 CONSIDERAES INICIAIS O Servio Social brasileiro vivencia nas ltimas trs dcadas um processo

    de renovao, cuja caracterstica central a crtica e ruptura com o conservadorismo profissional. Logo, quase imperativo, iniciar esse exerccio de reflexo terica situando o contexto scio-histrico em que se inscreve a possibilidade de construo de um projeto profissional do Servio Social, que contesta a dominao/explorao capitalista, aproximando-se dos interesses da classe trabalhadora.

    A segunda metade da dcada de 1960 constituiu o perodo histrico em que, na Amrica Latina, novos pressupostos filosficos, cientficos, metodolgicos e prticos, comeam a ser tecidos no mbito do Servio Social, resultantes do movimento contestatrio do tradicionalismo profissional149, que ficou conhecido como movimento de reconceituao150. Tal processo, a parte as especificidades de cada pas, se Universidade Federal de Pernambuco simoneazuos@hotmail.com 149 Este tradicionalismo traduz-se, nos termos de Netto (2005: 6), numa prtica empirista, reiterativa, paliativa e burocratizada, orientada por uma tica liberal-burguesa, que, de um ponto de vista claramente funcionalista, visava enfrentar as incidncias psicossociais da questo social sobre indivduos e grupos, sempre pressuposta a ordenao capitalista da vida social como um dado factual ineliminvel. 150 O marco temporal desse movimento na Amrica Latina so as dcadas de 1960 e 1970 e, dentre as suas caractersticas principais, destaca-se a reviso metodolgica e prtica da profisso, bem como a sua aproximao da perspectiva terica histrico/dialtica de entendimento da realidade, afastando-se do

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    desenvolve num contexto de transformaes scio-econmicas (esgotamento do padro de desenvolvimento capitalista) e acirramento da questo social. tambm, atravessado por tendncias repressivas que se espraiavam na Amrica Latina e, derrotavam tanto as alternativas democrticas como as reformistas e revolucionrias (NETTO, 2005) que se colocavam no cenrio da renovao da profisso.

    A realidade brasileira, nesse contexto de redefinies do Servio Social na Amrica Latina, atravessada por um regime ditatorial instaurado em 1964, que impediu, no Brasil, o acompanhamento do movimento de reconceituao em igual ritmo, sustentando um Servio Social que incorpora a ideologia desenvolvimentista do projeto ditatorial.

    Destarte, somente na segunda metade da dcada de 1970 que, no Brasil, se inicia a manifestao crtica ao tradicionalismo profissional, num contexto de esgotamento do regime ditatorial; ressurgimento da luta do conjunto dos(as) trabalhadores(as) na cena poltica e, emergncia das primeiras elaboraes tericas, frutos da legitimidade do Servio Social no mbito acadmico.

    Todavia, o grande marco da virada do posicionamento tico-poltico do Servio Social, que viria a se expressar no redirecionamento de suas dimenses terica, poltica e organizativa, foi o III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS), ocorrido em So Paulo, em 1979.

    A partir de ento, se processou tambm, um encontro efetivo com a produo de Marx, demarcando um avano da profisso, conforme esta enfrenta seus dilemas terico-prticos; afasta-se do mero militantismo, compreendendo a sua relao com o poder de classe, especialmente com o Estado; progride no campo da pesquisa, colocando-se como objeto de seu prprio estudo, alargando o entendimento dessa profisso na histria (IAMAMOTO, 2008a). Desse modo, os(as) assistentes sociais caminharam para o redirecionamento do seu prprio exerccio profissional, recusando a posio de executor terminal de poltica social e, construindo o Servio Social como uma profisso que tem uma dimenso intelectual, capaz de decifrar, planejar e gerir polticas sociais.

    Nesse contexto em que se processa a redemocratizao brasileira, depois de longos anos de ditadura, entra na agenda do Servio Social o redimensionamento do ensino com vistas formao de um profissional capaz de responder, com eficcia e competncia, s demandas tradicionais e as demandas emergentes na sociedade brasileira (NETTO, 2007: 153)151 e, por conseguinte, a redefinio prtico-interventiva. Assim, se delineiam, simultaneamente, as condies histricas para a construo do projeto profissional que vem sendo denominado projeto tico-poltico do Servio Social, demandado tanto pelo corpo profissional, como pelos prprios segmentos de usurios dos servios por este prestados.

    positivismo, cuja teoria encobre a relao dos problemas sociais com o aspecto econmico e sua insero no campo das contradies de classe. 151 Disto destacamos a reviso curricular de 1982 presidida pela Associao Brasileira de Ensino de Servio Social (ABESS), atual Associao Brasileira de Ensino e Pesquisa em Servio Social (ABEPSS).

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    Os projetos profissionais constituem projetos coletivos de uma categoria, vinculados a um projeto societrio que lhes imprime valores, e uma direo, transformadora ou conservadora. Estes, segundo Netto:

    [...] apresentam a auto-imagem de uma profisso, elegem os valores que a

    legitimam socialmente, delimitam e priorizam os seus objetivos e funes, formulam os requisitos (tericos, institucionais e prticos) para o seu exerccio, prescrevem normas para o comportamento dos profissionais e estabelecem as balizas da sua relao com os usurios de seus servios, com as outras profisses e com as organizaes e instituies sociais, privadas e pblicas (1999: 95).

    Tratando precisamente do projeto profissional do Servio Social, constata-se que data do incio dos anos 1990 a conquista de sua hegemonia, embora a sua construo se afirme como um processo permanente que interfere e interferido pela histria e que tem seu marco inicial na recusa do conservadorismo do final da dcada de 1970.

    Tal projeto profissional adquire sustentao, sobretudo, com a formulao de sua base normativa152, expressa no cdigo de tica de 1993153, na lei de regulamentao da profisso (n 8.662/93) e nas diretrizes curriculares de 1996. Legislaes que tanto potencializam a autonomia profissional, demarcando direitos e deveres dos(as) assistentes sociais brasileiros, como orientam a sua formao e seu trabalho na direo desse projeto tico-poltico profissional. Portanto, este projeto no uma abstrao, constitui-se como um guia para a ao, posto que estabelece finalidades ou resultados ideais para o exerccio profissional e as formas de concretiz-lo (GUERRA, 2007: 23).

    Todavia, as possibilidades de afirmao desse projeto tico-poltico se escrevem em uma conjuntura adversa que contraria seus princpios e valores, logo, so possibilidades que embora conduzidas e construdas pela categoria profissional, so, tambm, condicionadas pelas determinaes macro-societrias, as quais reflete, no contexto presente, uma srie de transformaes processadas em diversos mbitos, das quais tm se destacado sobretudo, aquelas que incidem no mundo do trabalho e no campo da formao profissional, tendo em vista os rebatimentos peculiares que trazem materializao do referido projeto profissional.

    2 DESAFIOS A AFIRMAO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIO SOCIAL EM TEMPOS DE NEOLIBERALISMO

    152 Aparato jurdico-poltico especfico da profisso, que, codifica princpios e valores ticos, competncias e atribuies, alm de conhecimentos essenciais, que tem fora de lei, sendo judicialmente reclamveis (IAMAMOTO, 2008b: 224). 153 Esse instrumento judicialmente reclamvel representativo do aprofundamento da questo tica na profisso, superando os limites do cdigo de 1986 sem anular as suas conquistas.

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    Os desafios que tm posto prova154 o projeto profissional do Servio Social, certamente, repousam nas alteraes que se registram, em escala mundial, a partir da dcada de 1970, durante a qual se empreende uma sada capitalista para a crise estrutural do capital, iniciada em meados dos anos de 1960, que, implicou em mudanas estruturais ocorridas no universo da produo, base de sustentao neoliberal a que se denominou reestruturao produtiva.

    Nos marcos da reestruturao do capital e, por conseguinte do modelo neoliberal, desdobram-se perdas significativas de garantias trabalhistas; fragmentao da classe trabalhadora; desemprego/subemprego; precarizao das r