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59 Geografia (Londrina), v.22, n.1, p. 59-77,jan/abr, 2013 Todos os caminhos levam a Roma: a Cartografia dos césares, Tábua Peutinger e os limites do espaço All roads lead to Rome: the Cartography of Caesars, the Peutinger Board and the edges of space Maurício Waldman 1 RESUMO: A Cartografia antiga é um vasto manancial de acesso ao conhecimento tradicional do espaço, um estudo que não tem recebido a justa atenção que merece. Este paper, centrado numa memorável peça cartográfica com origem na antiguidade clássica a Tabula Peutingeriana ou Tábua Peutinger propõe uma avaliação que busca explicitar os arrazoados que justificaram sua elaboração, observando-a não somente como um material técnico, mas igualmente na sua declinação civilizatória e cultural. Como se sabe, a Tabula Peutingeriana se refere ao mapeamento da notável rede de caminhos que cruzavam o império romano, uma malha viária sem igual no mundo antigo. Iniciativa respaldada por sortido conjunto de motivações econômicas, sociais e políticas, esta rede de comunicações, sendo a razão de ser da Tábua Peutinger, é discutida em conformidade com a meta de esclarecer as motivações que regem sua representação cartográfica, assim como seus significados geográficos, históricos e culturais. Consistindo num mapa-múndi, o manuscrito, por ser revelador das acepções postadas no comando do imaginário espacial romano, permite traçar analogias e distanciamentos mantidos com outras elaborações cartográficas, tanto as do mundo tradicional quanto da modernidade. Por isso mesmo, o paper que segue busca, na discussão de uma notável peça cartográfica da antiguidade, divisar os sentidos que de igual modo, governam a relação do homem contemporâneo com o espaço, sua percepção e representação. PALAVRAS-CHAVE: Tabula peutingeriana. Cartografia romana. História da cartografia. Imaginário espacial. Geografia cultural. ABSTRACT: The Ancient Cartography is a vast source of access to traditional knowledge space, a study that has not received the proper attention it deserves. This paper, centered on a memorable piece cartographic originated in classical antiquity - the Tabula Peutingeriana or Board Peutinger - proposes an evaluation that seeks to explain the reasoning for justifying its elaboration, watching her not only as a technical material, but also in its civilizational and cultural declination. As known, the Tabula Peutingeriana refers to mapping the remarkable network of paths crossing the Roman Empire, a road network unique in the ancient world. Initiative supported by assorted set of motivations, social and economic policies, this communications network, and the reason for the Board Peutinger, is discussed in accordance with the goal of clarifying the motivations that govern its cartographic representation, as well as its geographical meanings, history and culture. Consisting of a world map, the manuscript because it reveals the renderings posted in command of the Roman imaginary space, allows us to draw analogies and differences kept with other cartographic elaborations, both the traditional and the modern world. Therefore, the paper that follows seeks, in discussing a Cartographic remarkable piece of antiquity, discern the meanings likewise govern man's relationship with the contemporary space, its perception and representation. KEYWORDS: Tabula peutingeriana. Roman cartography. History of cartography. Spatial imagery. Cultural geography. 1 Doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (2006). Mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (1997) e Graduação e Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1982).

Todos os caminhos levam a Roma: a Cartografia dos … · que ronda com assiduidade documentos oriundos de eras remotas, ... Os caminhos construídos por Roma foram fundamentais para

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    Geografia (Londrina), v.22, n.1, p. 59-77,jan/abr, 2013

    Todos os caminhos levam a Roma: a Cartografia dos csares, Tbua Peutinger e os limites do espao

    All roads lead to Rome: the Cartography of Caesars, the Peutinger Board and the edges of space

    Maurcio Waldman

    1

    RESUMO: A Cartografia antiga um vasto manancial de acesso ao conhecimento tradicional do espao, um estudo que no tem recebido a justa ateno que merece. Este paper, centrado numa memorvel pea cartogrfica com origem na antiguidade clssica a Tabula Peutingeriana ou Tbua Peutinger prope uma avaliao que busca explicitar os arrazoados que justificaram sua elaborao, observando-a no somente como um material tcnico, mas igualmente na sua declinao civilizatria e cultural. Como se sabe, a Tabula Peutingeriana se refere ao mapeamento da notvel rede de caminhos que cruzavam o imprio romano, uma malha viria sem igual no mundo antigo. Iniciativa respaldada por sortido conjunto de motivaes econmicas, sociais e polticas, esta rede de comunicaes, sendo a razo de ser da Tbua Peutinger, discutida em conformidade com a meta de esclarecer as motivaes que regem sua representao cartogrfica, assim como seus significados geogrficos, histricos e culturais. Consistindo num mapa-mndi, o manuscrito, por ser revelador das acepes postadas no comando do imaginrio espacial romano, permite traar analogias e distanciamentos mantidos com outras elaboraes cartogrficas, tanto as do mundo tradicional quanto da modernidade. Por isso mesmo, o paper que segue busca, na discusso de uma notvel pea cartogrfica da antiguidade, divisar os sentidos que de igual modo, governam a relao do homem contemporneo com o espao, sua percepo e representao.

    PALAVRAS-CHAVE: Tabula peutingeriana. Cartografia romana. Histria da cartografia. Imaginrio espacial. Geografia cultural.

    ABSTRACT: The Ancient Cartography is a vast source of access to traditional knowledge space, a study that has not received the proper attention it deserves. This paper, centered on a memorable piece cartographic originated in classical antiquity - the Tabula Peutingeriana or Board Peutinger - proposes an evaluation that seeks to explain the reasoning for justifying its elaboration, watching her not only as a technical material, but also in its civilizational and cultural declination. As known, the Tabula Peutingeriana refers to mapping the remarkable network of paths crossing the Roman Empire, a road network unique in the ancient world. Initiative supported by assorted set of motivations, social and economic policies, this communications network, and the reason for the Board Peutinger, is discussed in accordance with the goal of clarifying the motivations that govern its cartographic representation, as well as its geographical meanings, history and culture. Consisting of a world map, the manuscript because it reveals the renderings posted in command of the Roman imaginary space, allows us to draw analogies and differences kept with other cartographic elaborations, both the traditional and the modern world. Therefore, the paper that follows seeks, in discussing a Cartographic remarkable piece of antiquity, discern the meanings likewise govern man's relationship with the contemporary space, its perception and representation.

    KEYWORDS: Tabula peutingeriana. Roman cartography. History of cartography. Spatial imagery. Cultural geography.

    1 Doutor em Geografia Humana pela Universidade de So Paulo (2006). Mestre em Antropologia Social pela

    Universidade de So Paulo (1997) e Graduao e Licenciatura em Cincias Sociais pela Universidade de So Paulo (1982).

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    A TABULA PEUTINGERIANA NO TEMPO E NO ESPAO

    A inteno precpua do texto que segue discutir aspectos centrais que explicam a

    Tbua Peutinger enquanto pea cartogrfica nos contextos histrico, geogrfico e cultural.

    Constituindo afamada reminiscncia da antiga cartografia romana, a Tabula Peutingeriana -

    tal como designada pelo incunbulo erudito - reporta a um debate matricial, em cujo cerne

    pontificam nuanas de interesse para gegrafos, historiadores e semioticistas.

    Ademais, trata-se de tema que atrai numerosa gama de pesquisadores

    preocupados com os nexos interdisciplinares da cartografia e dos processos de

    mapeamento. Seria auspicioso observar que o fascnio despertado pelo documento de h

    muito transbordou as fronteiras da academia. Inegavelmente, a Tbua seduz pblico

    numeroso, atento a uma representao cartogrfica impar, de valor inestimvel.

    Classificada como uma das mais extraordinrias peas da cartografia antiga, a

    Tbua sobreviveu a muitas vicissitudes. Outrossim, chegou aos dias atuais nos agraciando

    com as preciosas informaes que resguarda. Presentemente em poder da Biblioteca

    Nacional da ustria - sterreichische Nationalbibliothek - seria meritrio sublinhar que

    desde o princpio, o impacto da descoberta da Tbua Peutinger foi enorme. Prova disso

    que em 1598 o cartgrafo flamengo Abraham Ortelius sentiu-se incitado a gravar e publicar

    cpia do manuscrito, o primeiro fac-smile impresso a partir de um mapa clssico.

    Especialistas creditam a Tbua Peutinger como uma cpia feita no Sculo XIII a

    partir de um original romano datado do Sculo IV. A autoria do material de base atribuda

    a Castorius, sbio sobre o qual, ao lado de notas fragmentrias, pouco se sabe. Fatalidade

    que ronda com assiduidade documentos oriundos de eras remotas, o exemplar de Castorius

    desapareceu sem deixar quaisquer vestgios.

    Quanto ao mentor da transcrio do mapa de Castorius2, a tese mais aceita aponta

    para um monge copista da cidade alsaciana de Colmar (ou Kolmar, na grafia germnica).

    Todavia, discrepncias no estilo dos desenhos pressupem a atuao de colaboradores

    adicionais. Tal suspeita atestada por vinhetas que em certos pontos do documento, esto

    mais consistentemente desenhadas do que nas demais.

    Como si acontecer nas transcries, so detectveis lapsos na reproduo dos

    dados. Nota-se, por exemplo, a ausncia de Alexandria, representada na Tbua na forma

    de um grande farol. Porm desacompanhada da toponmia. Outra falha tcnica a

    espordica omisso na marcao das distncias, hiato que contraria a normatizao da

    obra.

    Pari passu, adies ao original romano so notrias. Elas resultam da imerso dos

    copistas na religiosidade medieval, dando margem a atualizaes descontextualizadas.

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    Nestas se incluem o registro do monte Sinai e uma meno a Moiss, referncias bblicas

    absolutamente estranhas ao pensamento romano. Determinados topnimos indicados no

    manuscrito - Franci, Suevi, Alamanni, quais sejam: Frana, Sucia e Alemanha - eram

    entidades pura e simplesmente desconhecidas pela toponmia da antiguidade latina

    (GAUTIER-DALCH, 2003).

    Mas, aparte tais considerandos, no h como objetar que a Tbua Peutinger tem

    por matriz um original clssico. A partir das informaes inseridas na duplicata, fica claro

    para todos os efeitos que estamos diante de uma produo alheia Idade Mdia, cujas

    especulaes geogrficas em nada comungavam com as expostas pela Tbua.

    No se conhece a trajetria do documento no perodo que se estende entre sua

    elaborao e a descoberta em Worms, na Alemanha. O documento, encontrado em 1494

    pelo bibliotecrio Konrad Meissel (ou Celtis Protucius), chegou s mos de Konrad

    Peutinger, antiqurio de Augusburgo, em 1507. Tido como um humanista culto e refinado,

    por seu intermdio o manuscrito auferiu notoriedade. o que justifica a denominao

    Tabula Peutingeriana.

    Nos termos do seu feitio, a Tbua Peutinger um rolo de pergaminho com 34 cm

    de largura por 6,74 metros de comprimento. Disposto em onze sees, a obra registra a

    intrincada rede de estradas que interligava vastas extenses do Imperium Romanum.

    Entretanto, esto ausentes na Tbua a pennsula ibrica (Hispania), Gr-Bretanha

    (Britannia) e frica Ocidental (Mauretania). Territrios romanizados de longa data, a lacuna

    d razo ao argumento de que um dcimo segundo flio, condizente ao extremo Oeste do

    imprio, extraviou-se.

    Porm, as sees que chegaram aos nossos dias so suficientes para inspirar

    debates que refletem o notrio interesse despertado pelo pergaminho. Efetivamente, o

    manuscrito o nico testemunho proveniente do passado quanto a uma malha de vias3 que

    pela sua extenso e vnculos mantidos com um poder estatal, tornou-se cone hors

    concours na histria das comunicaes mundiais. Nesta vertente, lana luz a respeito de

    uma empreitada que permitiu Roma ser ungida condio de maior potncia de toda a

    antiguidade clssica.

    O IMPRIO ROMANO E A SUA CARTOGRAFIA

    A implantao do sistema romano de estradas comeou em 334 A.C. Nesse ano foi

    aberta a Via Latina, que atravessando todo o Sul do Lcio, ligava Roma, atravs de 200 km,

    colnia de Cales4, nas portas da Campnia. Este foi o primeiro passo para a irrupo de

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    uma malha de alcance territorial como nunca fora vista no Velho Mundo. Conferindo melhor,

    o sistema chins, competidor direto do romano, possua apenas metade da extenso deste.

    Quanto s pistas mantidas pelo Egito Faranico, Prsia Aquemnida e por outras

    monarquias da antiguidade, compar-las com o sistema romano algo que no faria

    qualquer sentido.

    O papel chave dessas artrias no espao romano pode ser aquilatado pelo fato de

    proeminentes figuras pblicas de Roma - tais como Jlio Csar - terem sido agraciadas com

    o ttulo de Curatores Viarum. Ou seja: Administrador das Grandes Estradas (LAY, 1992: 53-

    55). A portentosa rede imperial de vias, to fortemente impregnou a memria das

    populaes quanto sua proficincia e associao com o Estado romano, que ainda hoje

    ouvimos o emblemtico motto: Todos os caminhos levam a Roma! (Figura 1).

    Neste cenrio, um fato se impe: o inventrio das caladas romanas expressa a

    consolidao de longo aprendizado, cujos tutores foram muitos povos e culturas. Seno

    vejamos: da Etrria, Roma herdou a tcnica do cimento, matriz do concreto5; da Grcia,

    chegou a percia da sua decantada cantaria e das ligas com base na cal; de Cartago, os

    resistentes modelos de calamento; do Egito, o memorvel cabedal de tcnicas de trabalho

    com pedras.

    Figura 1 - Roma na Tbua Peutinger: Roma com o rio Tibre, a cidade porturia de stia e os caminhos que saam da capital.

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    Fonte: Findlay (1849).

    Deste apanhado de ensinamentos, talvez o que mais distinguiu a engenharia

    romana foi o da argamassa de cimento. Fazendo uso das poeiras vulcnicas de Puzzuoli,

    os romanos obtinham uma liga verstil, denominada pozzolana. Cimento adaptado para

    mltiplos usos, essa tecnologia inovadora constituiu grande laurel da engenharia romana.

    No sistema virio do imprio o cimento foi utilizado como argamassa, na feitura de blocos,

    pavimentao e como fundao hidrulica. A tcnica do concreto foi essencial para encetar

    obras magistrais, caso da ponte construda por Trajano no ano 105 num trecho de mais de

    mil metros no Danbio, desafiando o talvegue do grande rio (LAY, 1992, p. 52-53, p. 219-

    220).

    Os caminhos construdos por Roma foram fundamentais para ligar provncias

    distantes entre si e animar um intenso fluxo de comunicaes que se irradiava pelo

    hinterland. Isso a tal ponto, que os gestores das rotas se viram forados a implantar - pela

    primeira vez na histria - o sistema de faixa divisria nas pistas, assim como decretar o

    peso mximo admitido para transito de veculos nas vias imperiais. A malha viria romana

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    inclua casas de repouso para viajantes, estrebarias para a muda de montadas e albergues

    onde os usurios podiam reabastecer seus farnis, saciar a fome, obter gua e pernoitar.

    A administrao dos caminhos era criteriosa, acatando demandas especficas.

    Consertos e manuteno das pistas eram constantes, evitando interrupo no fluxo de

    cargas e pessoas. As rotas dispunham de guarnies para garantir a segurana nos trechos

    mais perigosos. Em perodos de conflito, as caladas eram despidas de vegetao de

    ambos os lados para dificultar a ao de arqueiros inimigos e ataques surpresa. Para

    confirmar o andamento das travessias, as pistas possuam milirios (miliarium), postes

    demarcatrios moldados em concreto ou colunas de pedra cinzeladas em mrmore, granito

    ou qualquer tipo de rocha mo, colocados no acostamento a cada mil passos romanos6.

    Seria inescapvel indicar a motivao mltipla do sistema romano de

    comunicaes. Embora o trabalho de construo das vias coubesse ao exrcito e estivesse

    sob a chefia de um cnsul, seu uso de forma alguma era monopolizado pelas lides militares.

    As estradas cumpriam papel simultaneamente econmico, administrativo, social, cultural e

    claro, blico. Porm, no unicamente.

    Neste sentido - e a despeito de noo popularizada em profusa coletnea de textos

    leigos - cabe admoestar que as bigas no constituram padro para a bitola das rotas

    romanas7. Devemos reter que quando aladas a um uso militar, as caladas eram

    percorridas por infantes amparados por destacamentos de arqueiros e lanceiros, que

    zeravam o possvel embarao da cavalaria inimiga. As bigas, concebidas para batalhas

    campais, eram vulnerveis em caminhos onde a mobilidade ressentia-se de toda sorte de

    limitaes para ser explorada. Em suma: os carros de guerra, cumprindo funo marginal

    na poca romana, no padronizaram a bitola das vias (LAY, 1992; NATIONAL

    AERONAUTICS AND SPACE ADMINISTRATION - NASA, 2001).

    Outra ponderao quanto ao cogitado af blico da malha viria romana seria sua

    associao com o Limes. Comumente descrito como uma barreira militarizada visando

    conter assdio ininterrupto dos brbaros, esta linha de defesa, do ponto de vista militar, teria

    transformado muitos ramais da rede de comunicaes em suporte permanente de aes

    logstico-militares.

    Contudo, numa tica que contesta tal leitura, seria mais conveniente assinalar que

    o prprio Limes, longe de ser uma fronteira em contnuo estado de beligerncia, era mais

    verdadeiramente um espao que filtrando intercmbios com as externae gentes8, assimilava

    povos algenos cultura romana, atraindo-os para sua rbita. Isso sem contar que difundia

    contatos para regies ainda mais longnquas aos bordos imperiais. Com efeito, imprio

    gozou de longos perodos de paz, nos quais os caminhos atendiam uso predominantemente

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    civil. Momentos que de resto, permitiram lenta sedimentao de populaes brbaras ao

    longo dos limtrofes romanos (MENDES, 2007; LAY, 1992, p. 93,192).

    Seria indispensvel consignar que a poderosa estrutura montada por Roma

    repercutiu centenas de anos aps a sua edificao. Assegurando a soldadura territorial do

    Estado Romano e a glria dos csares, o sistema virio romano foi conferido de poderosa

    fora inercial. Dito de outro modo: inflexionou permanentemente a organizao do espao

    geogrfico, impactando tempos e espaos posteriores extino do imprio9.

    Neste caso caberiam notas de interesse: em 1066, o rei Haroldo II, o ltimo rei

    saxo da Inglaterra, na sua marcha para repelir a invaso normanda em Hastings, fez uso

    de antigas estradas romanas construdas na Gr-Bretanha10. Na Frana do Sculo XIII, os

    caminhos laboriosamente consolidados pelos romanos permaneceram como indicador

    normativo para diversos escales da administrao real. Provas arqueolgicas confirmam

    que multitude de pistas contemporneas e rugosidades tais como pontes, ramais e tneis,

    nada mais perfazem do que repeties de obras levadas a cabo sculos atrs pelos

    construtores romanos.

    Configurando memorvel tento no s da engenharia, mas igualmente do campo

    poltico, no admira que as antigas autoridades imperiais tenham concludo o bvio: a

    necessidade de cartografar primoroso e vital emaranhado de pistas, assim como sua

    expresso diante da geografia poltica mundial da poca. Sabe-se que por ordem expressa

    do imperador Augusto (27 AC/14 DC), realizou-se meticuloso levantamento das estradas

    romanas, ordenao secundada pelo mapa-mndi confeccionado por Marcus Vipsanius

    Agripa (65 AC/12 DC), cnsul e general mximo do imprio (LAY, 1992, p. 59).

    Consumindo 20 anos de pesquisas, este planisfrio, organizado em 24 sees,

    ultrapassava o orbis romanus e suas provncias, representando a totalidade do orbis

    terrarum11. O intuito deste trabalho, sem similar at o Sculo XVI, era o registro completo da

    superfcie terrestre. Isso para que a representatividade mundial do Imprio Romano - uma

    vez colocada frente a frente com o conjunto do espao habitado - fosse plenamente

    reconhecida. Obra inestimvel em si mesma, o mapa-mndi de Agripa constituiu festejado

    feito cartogrfico romano. Sinal do quanto era reverenciado, o trabalho foi entalhado em

    mrmore e afixado no Porticus Vipsania, monumento erguido prximo do Altar da Paz, um

    dos marcos da Via Flaminia12, uma majestosa entrada de Roma.

    Ao que tudo indica este planisfrio subsidiou muitas outras realizaes. Dentre

    estas, a compilao do Itinerrio Antonino (Antonini Itinerarium), famoso guia hodomtrico

    provavelmente escrito durante o reinado de Caracala (198-217). De autoria desconhecida,

    este manual reunia listagens informando distncias entre as localidades, discriminando

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    estaes de repouso e pontos de apoio para os transeuntes. Dispensando esteio

    cartogrfico, dessa obra restaram cerca de vinte manuscritos datados dos Sculos VII ao

    XV, geralmente detalhando uma circunscrio provincial dos csares (GUEDES, 2012, p.

    17; MENDES, 2007, p. 32; LAY, 1992, p. 192-193).

    Caberia realar que a anlise da Tbua Peutinger implica acercar-se de variada

    fatorao irmanada sua confeco. Afinal, enquanto artefato cartogrfico, a pea traduz

    especulaes peculiares, reportando a declinaes geogrficas, histricas, polticas e

    culturais que denunciam os mveis do documento junto a uma moldura civilizatria mais

    ampla - a greco-romana - da qual o trabalho de Agripa constituiu emanao direta e

    indissocivel (TALBERT, 2010).

    Nessa perspectiva, assevere-se que a Humanidade, bem antes das grandes

    civilizaes, ao buscar formas de representao do espao e dos seus constituintes, o fez

    segundo interesses especficos de grupos, povos e culturas. Decididamente, o surgimento

    dos mapas decorreu de necessidade vivenciada j nos albores da histria, postando a

    superao dos sentidos biolgicos imediatos na percepo do ambiente apropriado pelos

    humanos. Os mapas, ao precisarem localizaes e distncias, asseguraram s sociedades

    de outrora maior zelo na modelagem do espao geogrfico, colocando-o sob seu comando

    (WOODWARD; LEWIS, 1998; WALDMAN, 1997).

    Plus: recordando que a legitimao/perpetuao do poder associa-se com modelos

    de representao do espao, intruses de ordem poltico-ideolgica fazem inequvoca

    presena no afazer cartogrfico. Verdadeiramente, os mapas so condicionados tanto pelo

    tempo e pelo espao sob cuja tutela se desenvolvem, quanto pelo seu consorciamento com

    determinada hegemonia social, com a qual interagem nos termos de sua representatividade

    e da legitimidade que emprestam a um sistema de poder (FREIRE; FERNANDES, 2010;

    WALDMAN, 1997).

    Adicionalmente, podemos rubricar que constituindo abstrao da realidade, os

    mapas tm sua elaborao fortemente conotada pela seletividade dos dados que

    expressam. De modo manifesto, os materiais cartogrficos inserem cdigos articulados a

    diferentes contextos sociais, culturais e polticos, indicativos de percepes pelas quais o

    espao vivenciado. Isso posto, reportam a modelos de apreenso do espao ungidos da

    capacidade de repercutir diretamente nas expectativas de grupos, povos e civilizaes

    (CUVILLIER, 1975).

    Em suma, ao contrrio da interpretao postulada por difuso senso comum, os

    mapas se distanciam da noo que os enquadram enquanto imagem puramente tcnica.

    Assevere-se que o mapeamento sugere - enquanto pea scio-cultural e instrumento de

    poder - especial reparo s noes do como, do porque e de que modo o espao

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    mensurado, aferido e representado. Vale dizer: os mapas no so neutros. Por

    conseguinte, a anlise cartogrfica no pode se restringir mera certificao das distncias

    alocadas nos mapas ou da fidedignidade da representao do espao, interfaces que em

    princpio seriam o leitmotiv da cartografia (OLIVEIRA, 1978).

    A partir deste enfoque, a Tabula Peutingeriana, paralelamente ao fato de constituir

    suporte para o entendimento do conhecimento geogrfico dos antigos romanos, revela-se

    como importante pista das expectativas e anseios que magnetizavam suas acepes

    imaginrias do espao. Nesta averbao, recorte essencial reporta aos entendimentos

    culturais e cosmolgicos de como as terras ocupadas pela civilizao clssica

    transpareciam no plano da sua conscincia social. Como se sabe, Roma estabeleceu seu

    foco na noo de Oikoumene - territrios conhecidos e habitados por humanos por

    excelncia - para alm dos quais, se estendiam reas forneas gravadas pela estranheza,

    ausncia de cultura e pela ameaa inerente a povos considerados brbaros:

    O que existia alm da Oikoumene - alm do Mar Oceano, nas Antpodas, nos espaos boreais da Ctia e de Thule, nas zonas trridas alm da Lbia - era desconhecido. Tais espaos no poderiam ser a residncia de humanos. Mas sim de monstros e criaturas extraordinrias cuja linhagem fora datada por Herdoto, Plnio e Solinus, variadamente configurados no bestirio medieval. Dentre estes, os mais antigos se referiam a raas monstruosas: criaturas hbridas, nem totalmente humanas, tampouco totalmente animais. Esses espaos selvagens e seus habitantes assentavam-se para alm dos bordos da morada da polidez, ou civilizao, cujo significado no contexto do discurso mediterrneo se associava cidade (polis), cujos cidados (cives), eram os que amanhavam o territrio nativo (COSGROVE, 2008, p. 105).

    Consequentemente, a Tbua Peutinger, expondo sua filiao ao ethos clssico,

    representava o mundo conhecido tendo por eixo os domnios imperiais e suas guas

    internas: o Mar Mediterrneo (o Mare Nostrum romano). Com base nesta diretriz, sua feitura

    reservou generosa poro central e majoritria do corpo da carta aos territrios dominados

    por Roma. Transfigurado numa espcie de omphalos hipertrofiado, neste mapa o Imprio

    reina solitariamente em meio a extenses descomunais, praticamente se assenhoreando do

    essencial da Oikoumene. No mais, derivaes das terras emersas do entorno deste domnio

    territorial - sia Central, Oriente Mdio, Rssia, China, ndia e Sri Lanka13 - preenchiam

    acanhadamente as bordas da pea em propores claramente inferiores s do Imprio.

    Nesta aferio, cabe o reparo de que a plotagem dos brbaros num espao

    perifrico - assim como a desidratao das terras sob sua gide - apenas em parte seria

    justificvel pelo desconhecimento geogrfico do ecmeno terrestre. A Tabua Peutinger, tal

    como ampla coleo de cartografias oriundas do mundo tradicional, demonstra indiscutvel

    propenso em desqualificar os espaos ocupados pelos outros. Centrados em si mesmos,

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    os romanos - par a par com todos os povos do passado - tendiam a organizar a totalidade

    do espao impondo seus valores como universais. Isto, independentemente do

    conhecimento objetivo porventura existente das terras aliengenas (TUAN, 1980).

    Desdobramento de fortes sentimentos etnocntricos, o registro cartogrfico dos

    antigos explicita um carter autrquico e compartimentado que constituiu nota comum s

    vivncias espaciais de outrora. Da que raramente os mapas tradicionais postavam mais do

    que o territrio apropriado por dada populao, reino ou civilizao. Quando o limite da

    representao transborda as franjas do compartimento territorial, sempre com a

    preocupao de rebaixar, sujar e diminuir a geografia dos outros. Portanto, repetindo uma

    tendncia da cartografia antiga, na Tbua, a intencionalidade em desmerecer o espao

    aliengena coincide diuturnamente com a preciso em mapear o espao conhecido

    (WALDMAN, 1997; LAPOUGE, 1976).

    Note-se que a informao temtica bsica - a rede de caminhos imperiais romanos

    - mostra consistncia e confiabilidade. E tanto quanto se pode aferir, as distncias das rotas

    na Tbua esto definidas com apuro. A carta identifica uma rede com 70.000 milhas

    romanas: espantosos 104.000 km de caminhos com distncias rigorosamente enumeradas.

    Lado a lado com a notvel contabilidade das distncias, verificamos centenas de topnimos:

    555 relativos a cidades e 3.500 para outras localizaes de interesse.

    Sequencialmente, a Tbua Peutinger exibe ditosa tipologia de smbolos, facilitando

    a compreenso dos elementos inscritos na carta. Por exemplo, as trs principais urbes - a

    capital, Roma, mais as duas outras cidades residenciais cesreas no Sculo IV, Antioquia e

    Constantinopla (Bizncio) - esto agraciadas com decorao representativa de sua

    proeminncia no cotidiano do Imprio14. Centros urbanos com um segundo nvel de

    importncia esto representados como fortalezas dotadas de muros e torres. A saber, estas

    seriam quila, Ravena, Tessalonica, Nicomdia, Nicia e Ancara. H um terceiro patamar,

    as metrpoles, capitais provinciais e centros comerciais como Megara, Patras e Neapolis.

    Quanto aos portos - portus - terminais das rotas terrestres com o Mediterrneo, tais ncleos

    esto identificados por 20 cones ao longo da Tbua. Consistem, pois de convenes

    cartogrficas, subsidiando leitura funcional dos itens do manuscrito junto ao espao real

    (CARTOGRAPHY IMAGES, 2010).

    Complementando, sendo o foco bsico da Tbua a compilao das rotas que

    conectavam os assentamentos romanos entre si, o material dedica especial ateno para a

    posio de faris, postos de controle, paradas, santurios e hospedagens disponveis ao

    longo dos trajetos.

    A performance utilitria da Tbua se manifesta - reforando a prioridade em

    mensurar distncias - no seu pendor em salientar as condies das vias, o vau dos rios, a

  • Maurcio Waldman

    Geografia (Londrina), v.22, n.1, p. 59-77, jan/abr, 2013 69

    existncia de atalhos e o roteiro do cursus publicus, o magnfico correio imperial. Centros

    termais, na era romana muito apreciados para fins de entretenimento, asseio comunitrio e

    contatos sociais, esto devidamente destacados. Em paralelo, pespontam detalhes

    demarcando afloramentos mais densos da naturalidade: florestas, cursos fluviais, planuras

    e cadeias montanhosas (PAZARLI, 2009; MUHLY, 1978).

    Os aspectos comentados so essenciais para o entendimento de uma nuana que

    chama a ateno no manuscrito: sua imagem em si mesma. Dispensando escala

    cartogrfica em todos seus onze flios, o planisfrio est formatado numa faixa que acata a

    orientao Leste-Oeste, redundando numa considervel deformao das superfcies no

    sentido das latitudes (Figura 2).

    A este respeito - em conformidade com o que foi anotado - a Tabula Peutingeriana

    tem na representao temtica das vias romanas seu nexo axiolgico fundamental. Sendo

    este seu pressuposto, o calo da representao cartogrfica da Tbua a abstrao,

    convencionalizao e emprego seletivo dos dados, sempre com o intuito de evidenciar rotas

    de comunicao, meta que se sobreleva a qualquer outra determinao. Nota irretorquvel,

    as linhas retas e simplificadas do manuscrito esto mais devotadas direo e s

    distncias do que s singularidades da configurao real dos caminhos.

    Manifestadamente o documento filia-se ao senso prtico romano. Nesta visada, as

    representaes do espao apenas se galardoam de validade ao acatarem uma pauta

    poltica, militar, econmica e administrativa. Por isso mesmo, a confeco da Tbua, ao

    mapear o espao num enfoque nomeadamente funcional, induziu alteraes da linha

    litornea, da posio e do formato das terras emersas. Opo que, alis, torna difcil ao

    pblico leigo o pronto reconhecimento dos espaos investidos de representao.

    Figura 2 - Tbua Peutinger: Nessa seo central do cartograma, est a Itlia e em seu centro, a capital, Roma. Em vista da peculiar projeo da carta, o Mar Adritico, por exemplo, est representado na parte superior e o Tirreno, na inferior.

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    Fonte: Findlay (1849).

    Ora, nesta acepo, a Tabula Peutingeriana, ao privilegiar fenmenos geogrficos

    mensurveis adaptados a um fundo cartogrfico esquematizado basicamente um

    cartograma e no um mapa. Desta feita, mesmo sendo verdadeiro que as terminologias

    mapa e cartograma transitem em meio a uma hermenutica perpassada por controvrsias -

    e arrematando, gravadas por debates que no mostram sinal de esgotamento - a Tbua,

    mostrando-se afeita a transmitir informaes sobre as estradas romanas num vis

    topolgico, descarta a continuidade espacial que usualmente comanda a confeco dos

    mapas, tendo na definio de cartograma sua identidade intrnseca (PAZARLI, 2009;

    RAISZ, 1969).

    A CARTOGRAFIA DAS CONTRADIES

    Sob este prisma, seria desejvel ponderar que a definio da Tbua como um

    cartograma no se restringe a uma taxonomia tcnica. Pelo contrrio - e algo insuspeito

    para muitos - tal configurao relaciona-se a um copioso pronturio geogrfico, histrico e

    social demonstrativo do contexto singular responsvel pela confeco da Tabula

    Peutingeriana. Notadamente, por enunciar epifenmenos umbilicalmente associados

    dbcle da formao scio-espacial romana.

  • Maurcio Waldman

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    Relembrando no existir nenhuma dvida quanto Tbua ser uma duplicata de um

    original do Sculo IV, sabidamente ento, o manuscrito testemunha momentos crticos da

    vida poltica do imprio romano. Trata-se de uma conjuntura na qual Roma se v sacudida

    por estertores que a partir do Sculo III, prenunciam abalos sem precedentes. A ruralizao

    do imprio - em estado avanado nos anos de Castorius - determinar o esgaramento da

    autoridade de Roma e a runa do seu poder. Em particular a poro ocidental latina, onde

    fenmeno foi mais enftico, tipificou este processo. Com efeito, o imprio romano de

    ocidente ir sucumbir em 476. Neste ano, Roma tomada e saqueada por Odoacro, rei dos

    Hrulos, eptome de uma agonia que desmantelou para sempre o arranjo territorial

    assegurado pela orgulhosa rede de estradas imperiais.

    Simultaneamente, na metade oriental grega, onde a crise assume curso diferente

    do que se consubstanciou no ocidente, o imprio assumir novas feies. Descolando-se

    de uma configurao espacial que se desintegrava a olhos vistos, o imprio romano de

    oriente transforma-se nos finais do Sculo IV no imprio bizantino15, denominao que

    recorda Bizncio, o antigo topnimo grego de Constantinopla. Derradeiro avatar do poderio

    dos csares, esse Estado, considerado uma segunda Roma, ir perdurar em meio a uma

    histria atribulada at 1453. Neste ano fatdico, aps vrias investidas os turcos otomanos

    tomam Constantinopla. Com isso, apagam o ltimo sinal deixado por Roma na geografia

    histrica mundial16.

    Neste seguimento, no nada fortuito que os centros urbanos da Tabula

    Peutingeriana estejam na sua imensa maioria situados da pennsula itlica para Leste. Num

    mote espacial, isso demonstrativo da germinao do feudalismo nas plagas do ocidente

    romano, prenunciado pela falncia da vida urbana, seguida a largos passos da decadncia

    do poder centralizado dos csares. Quanto ao oriente, onde a crise acata moldes

    diferenciados, sua privilegiada localizao geogrfica, no plexo solar do Velho Mundo,

    permite-lhe tutelar durante sculos as rotas transcontinentais de comrcio que interligavam

    a Europa com a sia e a frica. Tal pr-condio ser o salvo-conduto para a centenria

    sobrevida do imprio romano de oriente, travestido agora de roupagem bizantina.

    Pormenor altamente revelador deste contexto, no a pennsula itlica que ocupa

    a posio central no corpo da Tabula Peutingeriana. No lugar da Itlia, a carta escancara o

    conjunto Itlia-Grcia como eixo do manuscrito, ou mais precisamente, o Mar Adritico.

    Num crivo espacial, tal disposio do espao global sinaliza que o cartograma de Castorius

    j introjetava na sua viso de mundo uma linha de ruptura territorial do imprio - adotando

    por critrio um ocidente latino e o oriente grego17 - que no tardaria em se consumar.

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    Outra notao dirigida Tabula Peutingeriana, so as similaridades que

    precipitadamente poderiam associ-la com outras cartografias esquemticas, incluindo as

    geradas no contexto da Modernidade. Atente-se que intuitivamente, a disposio retilnea

    das vias romanas em toda extenso do cartograma incita bvia analogia com croquis,

    modelos topolgicos e esboos cartogrficos. A adoo desta conveno pela Tbua,

    recorda esquemas hoje observados nos itinerrios ferrovirios, de metr, linhas areas e

    ferrovirias. Este detalhe sugeriria, pois sua eventual prerrogativa enquanto antecessora

    dos cartogramas modernos. Dessa maneira, a Tbua Peutinger configuraria um ineditismo

    premonitrio, antecipando cartografias esquemticas (AVELAR; HURNI, 2006).

    Contudo, podemos pautar dedues que alm de contestar tal considerao,

    explicitam fenmenos que num olhar leigo no seriam da alada de peas cartogrficas.

    Dentre estes seria possvel listar os associados ao funcionamento geral do sistema, sua

    economia e relacionamento com o espao. Nesta senda, seria primeiramente obrigatrio

    assinalar que a retilinearidade no era de modo algum uma noo estranha ao homem

    tradicional. Neste particular, recordemos a dita do gegrafo sino-americano Yi-Fu TUAN

    para o qual a organizao e a delimitao do espao nas sociedades tradicionais no

    repudiava a geometria - ou para fazer uso das palavras desse autor - a aplicao de um

    trato espacial carpintejado (1980, p. 86-87).

    Corroborariam tal veredicto muitos remanescentes dos sistemas de engenharia e

    memorveis objetos espaciais18 do passado que alcanaram nossos dias. Dentre estes

    poderamos citar o terraceamento simtrico dos arrozais chineses, as esplanadas

    geomtricas dos complexos templrios faranicos, a disposio quadriculada dos templos-

    montanha de Angkor-Wat, o desenho do plano urbano das cidades astecas e incas.

    Igualmente poderiam ser listadas as esplndidas iconografias reveladoras da intuio

    geomtrica do espao habitado de outrora. E para dar razo a tais predicados, outra prova

    da inclinao pelo geomtrico dos humanos de antigamente, seria a prodigalidade com que

    a engenharia romana abusou profusamente de ngulos, linhas retas e objetos

    geometricamente hierarquizados. Conclusivamente, uma ponderao que dispensaria

    qualquer objeo (Figura 3).

    nesse exato sentido que se torna contestvel associar a linearidade dos trajetos

    presentes na Tabula Peutingeriana com algum possvel congnere moderno. A cartografia

    inscrita no tempo e no espao e no admite generalizaes. Reconhecidamente, no h

    como negar as manifestas predisposies geometrizantes dos antigos. Todavia, no se

    permite sinonimizar tais manifestaes com as engendradas no teatro da Modernidade.

    Basicamente porque apesar do anseio pela simetria estar seguramente pautado na

    conscincia do homem tradicional em geral, esse pendor, nas sociedades de outrora,

  • Maurcio Waldman

    Geografia (Londrina), v.22, n.1, p. 59-77, jan/abr, 2013 73

    manteve relao siamesa com circuitos produtivos amplamente embaraados com as

    pulses da natureza.

    Figura 3 - A Roma de antanho e as suas formas geomtricas

    Fonte: Extrado de Vers une Architecture, Le Corbusier, Paris, 1925. In: (GREGOTTI, 1975).

    No passado, a presena da naturalidade na organizao do espao era consorte

    inextricvel do dinamismo scio-espacial, sendo que seu comprometimento induzia colapso

    inevitvel do sistema de engenharia. As formaes sociais do mundo tradicional tinham

    claro conhecimento de que apenas com uma sbia e criativa gesto dos recursos naturais,

    via de regra apelando para uma base tcnica rstica, seria possvel manter ou no o status

    quo (WALDMAN, 2006; 1997, 1994).

    Roma no contradizia essa norma. A cidade era um polo ativo de uma

    espacialidade monitorada por um poder centralizado que se alastrou at abarcar toda a

    circunferncia do Mediterrneo, transformado num lago romano. Seu sistema nervoso, foi

    visto, era rede viria que viabilizava a circulao interna do excedente econmico que

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    Geografia (Londrina), v.22, n.1, p. 59-77, jan/abr, 2013

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    escoava das provncias. Da justamente a mxima pela qual todos os caminhos levavam a

    Roma.

    Porm, o pice do modelo de poder implantado por Roma igualmente o triunfo de

    um modo de funcionamento altamente catalisador de entropias. Roma era, no dizer de

    Aelius Aristides, famoso orador grego do Sculo II, um parasita sugando as riquezas do

    universo sem dar trabalho aos seus filhos. Atuando como um autntico ralo do mundo, para

    a capital romana convergiam produtos oriundos de toda a Oikoumene, um trnsito

    monumental de recursos alimentado pela rapina incessante de bens e trabalho humano.

    Nesse sentido, os rompantes geomtricos do sistema - consignados na arquitetura,

    engenharia e no tocante ao foco deste texto, na sua cartografia - personificavam antes a

    funcionalidade da captao de riquezas lapidadas diretamente de vastos espaos que

    mantinham, em maior ou menor grau, compromissos com a naturalidade. Estando ausente

    esse fator, a simetria subsistia apenas a ttulo precrio. No espao romano, tal como para

    toda a pr-modernidade, a simetria das obras humanas e das suas prefiguraes conecta-

    se a um cenrio no-carpintejado, do qual era indissocivel.

    Assim, as rotas romanas drenavam excedentes abduzidos de espaos

    impregnados de formas tradicionais de relao com o meio natural, com as quais, os

    mecanismos de apropriao gradativamente entraram em contradio. A crispao do

    aparato do Estado com territorialidades constantemente pressionadas pelas demandas

    colocadas pelo poder imperial, teve, pois na derrocada de Roma e na quase desapario da

    sua cartografia, o eplogo de uma investidura espacial que no resistiu s requisies

    descomunais de recursos.

    A Tabula Peutingeriana exemplifica o potencial demolidor de sistemas cuja simetria

    - ainda que atrativa no plano figurativo - pode apontar para uma dbcle civilizatria.

    Sentenciamento comum a qualquer apreciao geogrfica, a cartografia expressa uma

    razo de mundo, podendo subsistir ou no consoante as expectativas construdas pelas

    sociedades e que so responsveis por sua reproduo.

    Afirmao incontestvel, no h qualquer obra criada pelo homem que expresse de

    modo to cabal a relao mantida com o espao quanto a cartografia. Isso tanto no que

    tange ao sucesso e o insucesso das civilizaes, ao vigor e o definhamento das culturas,

    felicidade ou amargura das sociedades humanas.

    Tal advertncia esteve postada para sociedades que como a romana, cultivaram a

    ambio por um controle meticuloso do espao, da qual a Tabula Peutingeriana uma

    candente expresso. Mas, que fracassou neste intento ao ignorar as expectativas e os

    dinamismos presentes no espao, na sociedade e no meio natural.

  • Maurcio Waldman

    Geografia (Londrina), v.22, n.1, p. 59-77, jan/abr, 2013 75

    Uma advertncia que acomodada noutras configuraes do espao-tempo,

    igualmente se coloca para o mundo contemporneo e suas representaes cartogrficas.

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    2 Mapa de Castorius uma denominao menos comum, mas concorrente com Tabua Peutinger.

    3 Para os romanos, a definio de via atendia a um padro tcnico: unicamente caminhos com cinco metros de largura ou mais eram merecedores desta distino (LAY, 1992, p. 53).

    4 Corresponde atual comuna italiana de Calvi Risorta.

    5 Aps a queda do Imprio Romano, o uso do concretus desapareceu por mais de mil anos, ressuscitando somente na Idade Contempornea.

    6 Mil passos romanos - mille passus (singular), milia passuum (plural) - equivaliam a 1.481 metros.

  • Maurcio Waldman

    Geografia (Londrina), v.22, n.1, p. 59-77, jan/abr, 2013 77

    7A props, uma enganadora pea de fico disseminada no meio digital informa que as bigas estariam na origem da bitola das ferrovias e at mesmo dos trens de pouso de avies e veculos espaciais. Uma afirmao que alm de imprudente, absolutamente incorreta (Cf. NASA, 2001).

    8 Habitantes dos confins dos domnios romanos.

    9 A terminologia fora inercial corresponde a conceito elaborado pelo gegrafo Milton Santos. Neste texto, refere-se a acrscimos resultantes da interveno humana que redirecionam as fruies prstinas do meio natural, e singularmente, capacidade destes em revivificarem processos e dinamismos junto ao espao habitado (Cf. SANTOS, 1999, 1998, 1988 e 1978).

    10 Na ocasio, o exrcito ingls conseguiu o feito de cobrir 400 km em menos de quinze dias.

    11 Crculo da Terra em latim, em cujo seio se inseria o Orbis Romanum, as terras imperiais.

    12 Estrada que ligava Roma atravs dos Montes Apeninos ao Mar Adritico na altura de Ariminum, atual Rimini.

    13 Na Tbua, a ilha referida como Insula Taprobane: Ilha de Tapobrana, topnimo usual nas referncias

    geogrficas do mundo clssico. 14

    O destaque a estas trs cidades como abrigos imperiais, reporta aos anos 337-338, perodo no qual os trs filhos do imperador Constantino co-governaram o imprio durante trs meses. Esta particularidade, juntamente como o fato de que Constantinopla ter sido inaugurada por Constantino no ano de 330 - constitui pista adicional de que a Tbua Peutingeriana cpia de uma carta do Sculo IV.

    15 A morte do imperador Teodsio I, ocorrida em 395, entendida pelos historiadores como evento que anuncia a diviso definitiva do Imprio Romano. Neste ano, o filho mais novo de Teodsio, Flavio Honrio, assume o trono do Imprio de Ocidente, com capital em Roma. Arcdio, filho primognito, torna-se senhor do Imprio de Oriente, com sede em Constantinopla.

    16 Essa afirmao, corrente na historiografia tradicional, pode ser objeto de acrscimos. Seria lcito considerar que o Imprio de Trebizonda, um naco de territrio que se destacou do poder de Bizncio em 1204, perdurou at 1461, ano de sua conquista pelos otomanos. Assim, a queda de Constantinopla em 1453, tida como o apagar das luzes final do imprio romano, poderia ento ser vista como penltimo, e no ltimo lampejo da antiga glria romana.

    17 As duas terminologias acatam o idioma de prestgio poltico-social dominante em cada metade do imprio.

    Mas, contundentemente, nem o latim e sequer o grego conseguiram fazer tabula rasa das lnguas que antecederam a hegemonia romana. Na frica do Norte, muitas formas do berbere e dialetos do pnico foram largamente utilizados. Idiomas celtas e germnicos tambm mantiveram toda sua fora em muitas regies do Ocidente. No Egito, o copta - ltima evoluo do antigo idioma dos faras - permaneceu como linguagem cotidiana durante sculos. Isso sem contar a enorme difuso do aramaico, lngua veicular em toda a sia Ocidental.

    18 Isto : acrscimos que ofertam ao espao geogrfico contedos tcnicos, imbudos de artificialidade e

    animados por sistemas de aes tendentes a fins estranhos ao lugar e seus habitantes (apud SANTOS,

    1999, p. 51).