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TRANSFORMAÇÕES DA TERRA: PARA UMA PERSPECTIVA · PDF file23 Transformações da terra - DONALD WORSTER TRANSFORMAÇÕES DA TERRA: PARA UMA PERSPECTIVA AGROECOLÓGICA NA HISTÓRIA*

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    Transformaes da terra - DONALD WORSTER

    TRANSFORMAES DA TERRA: PARA UMA PERSPECTIVAAGROECOLGICA NA HISTRIA*

    DONALD WORSTER**

    H quarenta anos atrs, um homem sbio e visionrio, o conservacionistae bilogo da vida selvagem, Aldo Leopold, de Wisconsin, reivindicou uma interpre-tao ecolgica da Histria, pela qual propunha usar as idias e a pesquisa do emer-gente campo da ecologia para ajudar a explicar porque os fatos que constituem opassado desenvolveram-se da maneira como os conhecemos1. Naquela poca a ecolo-gia ainda estava em sua infncia cientfica, mas sua promessa era radiante e a neces-sidade de suas apreciaes estava comeando a ficar evidente para um grande nme-ro de lderes nas cincias, na poltica e na sociedade. Levou algum tempo para oshistoriadores darem ateno ao conselho de Leopold, mas finalmente o campo dahistria ambiental comeou a ganhar forma e seus praticantes esto tentando cons-truir a partir de sua iniciativa.

    A prpria sugesto de Leopold de como uma histria ecologicamente in-formada deveria proceder tinha a ver com as terras de fronteira do Kentucky, cruciaisno movimento da nao em direo ao oeste. No perodo da guerra revolucionria eraincerto quem possuiria e controlaria aquelas terras: os ndios nativos, os imprios Fran-cs ou Ingls, ou os colonizadores americanos ? E ento, de uma forma rpida, a luta seresolveu a favor dos americanos, que trouxeram seus arados e seu gado para tomarposse. Foi mais do que sua bravura como lutadores, sua determinao como conquis-tadores, ou sua virtude aos olhos de Deus, que permitiu queles colonos agricultoresganhar a competio; a prpria terra contribura para o seu sucesso. Leopold acentuouque, crescendo ao longo das terras planas do Kentucky, os locais mais acessveis aosrecm-chegados eram formidveis taquarais, onde os ps de taquara cresciam bemuns quinze ps de altura (cerca de cinco metros) e se colocavam como uma barreirainstransponvel ao arado. Mas, felizmente para os americanos, quando a taquara eraqueimada ou pisoteada pelo gado, o mgico capim-do-prado do Kentucky ouKentucky bluegrass, (Poa pratensi L.) germinava em seu lugar. O pasto substitua a

    * Esse artigo foi originalmente publicado em Journal of American History, em Maro de 1990. Traduo do Ingls parao Portugus de Maria Clara Abalo Ferraz de Andrade, com apoio financeiro da Clacso. Reviso tcnica de Eli de Jesus.** Donald Worster Professor de Histria Americana na Universidade de Kansas e considerado um dosfundadores da Histria Ambiental.Recebido em 12/11/2002 e aceito em 23/02/2003.

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    taquara no que os ecologistas chamam de padro da sucesso ecolgica secundria,que ocorre quando a vegetao sofre perturbaes, mas o solo no destrudo, comoquando o fogo arrasa uma pradaria ou um furaco derruba uma floresta. A sucessorefere-se ao fato de que um novo conjunto de espcies entra e substitui o que haviaantes. No Kentucky, a principal daquelas novas espcies era o capim-do-prado, e umaampla extenso de capim-do-prado era tudo o que qualquer pioneiro rural, procurade um pouso fixo e de uma pastagem para seus animais, poderia querer. Ao descobrireste fato, os americanos entraram no Kentucky aos milhares, e logo a luta pela posseestava terminada. Leopold se perguntava o que aconteceria se a sucesso de plantasinerente a este solo escuro e cruel tivesse, sob o impacto dessas foras, oferecido-nosalgum capim com espinhos, arbustos ou ervas daninhas sem valor? Teria o Kentuckyse transformado em territrio americano da maneira e quando se transformou?2

    Realmente, os fatos no caso so mais complicados do que Leopold pode-ria ter explorado nos limites de seu ensaio, e eles exigem mais do que uma formasimples de determinismo ambiental, que o que um leitor menos atento poderia en-contrar em seu exemplo. O capim-do-prado do Kentucky no era uma espcie nativa,mas uma importao europia3. Trazida pelos imigrantes nos bagageiros dos navios,suas sementes se espalharam por meio das viagens e estercagem de seu gado, brotandoprimeiro ao redor dos cochos de sal, onde se aglomeravam os animais, e dispersando-se depois sobre a rea antes ocupada pelos taquarais e ganhando ascendncia sobresuas competidoras indgenas, assim como os colonizadores estavam fazendo com osndios. A conquista do Kentucky foi, em outras palavras, imensamente ajudada pelofato de que os invasores humanos trouxeram suas plantas aliadas acidentalmente.Assim, de continente em continente, aconteceu o triunfo do que Alfred Crosby Jr.Chamou de imperialismo ecolgico4.

    sobre estas questes que trata o novo campo da histria ecolgica ouambiental (a maioria dos especialistas prefere usar o ltimo termo, por ser mais amploquanto ao mtodo e ao material). Esta nova histria rejeita a suposio comum de quea experincia humana tem sido isenta de constrangimentos naturais, que as pessoasso uma espcie separada e singularmente especial, que as conseqncias ecolgicasde nossos feitos passados podem ser ignorados. A histria mais antiga dificilmentepoderia negar o fato de que as pessoas vm vivendo h bastante tempo neste planeta,mas a desconsiderao geral deste fato sugeriria que elas no eram e verdadeiramenteno so parte do planeta. Os historiadores ambientais, por outro lado, compreendemque o conhecimento no pode mais se permitir ser to ingnuo.

    O campo da histria ambiental comeou a tomar forma nos anos 70, quan-do houve diversas conferncias sobre a grave situao global e os movimentos ambientaiscresciam, popularizando-se. Foi uma resposta s perguntas que as pessoas estavamcomeando a se fazer em muitas naes: Quantos seres humanos a biosfera pode su-portar sem entrar em colapso sob o impacto da poluio e do consumismo? As mudan-as na atmosfera, causadas pela atividade humana, levaro uma maior incidnciade cncer ou a menores colheitas de gros, ou ao derretimento das calotas polares?Est a tecnologia tornando a vida mais perigosa, ao invs de mais segura? Tem o Homo

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    Transformaes da terra - DONALD WORSTER

    sapiens quaisquer obrigaes morais para com a terra e seu ciclo de vida, ou esta vidaexiste meramente para satisfazer aos desejos infinitamente expansivos de nossa prpriaespcie? A Histria no foi o nico campo da cincia a ser atingido por essas preocu-paes emergentes; os acadmicos em Direito, Filosofia, Economia, Sociologia e ou-tras reas foram igualmente receptivos. Certamente uma receptividade permanen-te, que ganha importncia medida que as questes que a precipitam aumentam emurgncia, freqncia e amplitude. A histria ambiental nasceu de uma forte preocu-pao moral, podendo ainda ter alguns compromissos de reforma poltica, mas me-dida que amadurecia, tornava-se um empreendimento intelectual que no tem qual-quer agenda moral ou poltica simplista ou nica para promover. Seu objetivo aprofundar nossa compreenso de como os humanos tm sido afetados pelo seu ambi-ente natural atravs do tempo e, contrariamente e talvez de modo mais importante,na viso da insustentvel situao global atual, como a ao humana afetou o ambien-te e quais foram as conseqncias5.

    Muito do material para a histria ambiental, como o que advm do traba-lho acumulado dos gegrafos, dos especialistas ligados s cincias naturais, dos antro-plogos, e de outros, tem estado disponvel h geraes e est simplesmente sendoabsorvido pelo pensamento histrico luz da experincia recente. Ele inclui dadossobre as mars e os ventos, sobre as correntes ocenicas, a posio dos continentes unsem relao aos outros, e as foras geolgicas e hidrolgicas que criam a base para agua e para a terra do planeta. E inclui a histria do clima e das condiesmetereolgicas, enquanto estes contriburam para danificar ou beneficiar as colhei-tas, para fazer os preos subirem ou carem, promoveram ou colocaram fim s epidemi-as, ou levaram a um aumento ou declnio demogrfico. Todas essas foram poderosasinfluncias no curso da histria, e continuam sendo. Numa categoria de algum mododiferente desses fatores fsicos esto os recursos vivos da terra, ou a biota, que o eco-logista George Woodwell considera o mais importante de tudo para o bem-estar hu-mano: as plantas e animais que, em sua prpria expresso, mantm a biosfera como ohabitat adequado para a vida6. Estes recursos vivos tambm tm sido mais suscetveis manipulao humana do que os fatores no-biolgicos, sobretudo hoje em dia. De-vemos incluir o fenmeno da reproduo humana como uma fora natural que dforma histria, e que de forma alguma uma fora desprezvel, como as ltimasdcadas de explosiva fertilidade global tm amplamente demonstrado.

    Assim, definida etimologicamente, a histria ambiental lida com o papele o lugar da natureza na vida humana. Ela estuda todas as interaes que as socieda-des do passado tiveram com o mundo no humano, o mundo que no criamos emnenhum sentido primrio. O ambiente tecnolgico, o conjunto de coisas que as pesso-as produziram, que pode ser to onipresente a ponto de constituir um tipo de segundanatureza em torno dela, tambm parte deste estudo, mas no sentido muito especfi-co em que a tecnologia um produto da cultura humana assim como condicionadapelo ambiente no-humano. Mas, diante de tais fenmenos, como o deserto e o cicloda gua, ns encontramos energias autnomas e independentes que no derivam dastendncias e invenes de nenhuma cultura. Pode-se argumentar que, medida que a

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    vontade humana crescentemente deixa sua marca sobre as florestas, cadeias genticas emesmo oceanos, no h uma maneira prtica de se distinguir entre o natural e o cultu-ral. Entretanto, a maioria dos historiadores ambientais argumentariam que vale a penamanter a distino, porque esta nos lembra que nem todas as foras que trabalham nomundo emanam dos humanos. Onde quer qu