Anfíbios - livro vermelho fauna Brasileira

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  1. 1. ANFBIOS
  2. 2. | 287 | Anfbios A classe Amphibia (anfbios) corresponde ao grupo que engloba os animais conhecidos como Gymnophiona ou Apoda (cobras-cegas), Caudata ou Urodela (salamandras) e Anura (sapos, rs e pererecas). No Mundo, so conhecidas cerca de 6.100 espcies de anfbios (AmphibiaWeb, 2006; Frost, 2007), das quais cerca de 800 ocorrem no Brasil (SBH, 2005). O grupo dos sapos, rs e pererecas de longe o mais diversicado no mundo, o mesmo ocorrendo no Brasil. O grupo das cobras-cegas relativamente diversicado no pas, com cerca de 30 espcies, e o grupo das salamandras representado por apenas uma espcie conhecida, que ocorre na bacia Ama- znica. Os anfbios so um grupo de grande importncia ecolgica, tanto por sua grande diversidade quanto pelo fato de corresponderem a um grupo de interface entre a gua e a terra. Grande nmero de espcies de anfbios apresenta ciclo de vida bifsico, com uma fase larval aqutica ex- clusiva de gua doce e outra fase terrestre, ps-metamrca. Cada uma dessas fases tem ecologia parti- cular. Na fase larval, podemos encontrar dietas que variam de acordo com a espcie: as larvas podem ser comedoras de algas, detritvoras, ltradoras, onvoras ou carnvoras. Na fase ps-metamrca, os anfbios so predadores por excelncia, capturando presas nos ambientes aquticos e terrestres, principalmente in- vertebrados. Tambm servem de alimento a uma imensa gama de animais, desde invertebrados at peixes, rpteis, aves, mamferos e mesmo algumas espcies de anfbios. Tendo em vista a pele permevel e exposta e a ocupao de habitats aquticos e terrestres, os anfbios so considerados como indicadores sensveis a diversos fatores ambientais (Blaustein, 1994). So tambm uma fonte riqussima em compostos biologi- camente ativos, usados em pesquisas farmacolgicas (e.g., Daly et al., 2005; Van Compernolle et al., 2005; Tempone et al., 2007). Por esse motivo, a perda em diversidade de anfbios poderia limitar descobertas bio- medicamente relevantes. Declnios Populacionais de Anfbios, Ameaas de Extines e Medidas de Conservao Recomendadas Muito tem sido falado e discutido acerca dos declnios populacionais das espcies de anfbios ao redor do mundo (e.g., Blaustein, 1994; Alford & Richards, 1999; Stuart et al., 2004; Lips et al., 2005). No Brasil, pas que apresenta a maior diversidade de espcies de anfbios (AmphibiaWeb, 2006), os declnios populacionais no so necessariamente motivo de concordncia entre os autores (e.g., Pimenta et al., 2005; Stuart et al., 2005). A verdade que, nos pases megadiversos em anfbios, no h ainda programas de monitoramento populacional em larga escala e, portanto, quase nada se sabe sobre os tamanhos populacionais das diferentes espcies de anfbios e sobre suas oscilaes. Como praticamente no h monitoramento de populaes de anfbios no Uma Anlise da Lista Brasileira de Anfbios Ameaados de Extino Clio F. B. Haddad1 1 Departamento de Zoologia, I.B., UNESP CP 199, CEP: 13.506-900, Rio Claro/SP.
  3. 3. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaada de Extino | 288 | Brasil, os declnios e expanses populacionais so puro exerccio especulativo, sem embasamento cientco (veja, e.g., Eterovick et al., 2005). Assim, para o Brasil, o que podemos armar, de forma bem geral, que os desmatamentos prejudicam ou chegam a extinguir localmente algumas populaes de anfbios de ambientes orestais (porm nem todas), favorecendo ao mesmo tempo algumas populaes de ambientes abertos, que invadem as reas outrora ocupadas pelas orestas (Haddad, 1997). Mesmo com a remoo ou forte perturbao da oresta, muitas populaes de anfbios de ambientes fechados sobrevivem e se adaptam s novas condies. No entanto, importante ter em mente que um imenso contingente de espcies pode de fato estar em declnio, beira da extino ou j extinto e que, pela insucincia de dados, esse panorama escapa nossa percepo. Outro problema aparentemente srio so as infeces causadas pelo fungo Batrachochytrium dendrobatidis, que podem ser letais para determinadas espcies. Infelizmente, esse fungo j foi detectado em territrio bra- sileiro (Carnaval et al., 2005; Toledo et al., 2006), mas a compreenso da importncia desse problema para as espcies brasileiras ainda est em seus primrdios. Alm dos fatores acima mencionados, a interferncia humana, ao gerar poluio, efeito estufa, diminuio na camada de oznio, entre outros, provavelmente est afetando negativamente muitas espcies de organismos, inclusive os anfbios. Recentemente, comearam a surgir evidncias cientcas dos efeitos sinrgicos entre dois ou mais fatores, potencializando o declnio de anfbios. Pounds et al. (2006), por exemplo, apresentaram evidncias de que diversas extines de anfbios ocorridas em ambientes montanhosos da Costa Rica resultaram da irrupo de um patgeno, potencializada pelo aquecimento global. No Brasil, h grande necessidade e urgncia de estudos de monitoramento das populaes de anfbios, para que se possa compreender a real dimenso dos problemas de declnios populacionais e de ameaas s nossas espcies. Alm do monitoramento de espcies consideradas ameaadas, so urgentes os estudos daquelas con- sideradas como Decientes em Dados (DD). O fato de uma espcie ser DD signica que ela pode pertencer categoria das ameaadas, s que estaria desprotegida pela lei. No entanto, no podemos nos esquecer de que a taxonomia dos anfbios brasileiros e tropicais em geral ainda engatinha, pois todos os anos espcies tm sido revalidadas e, principalmente, diversas espcies novas de anfbios tm sido descobertas (Figura 1) e descritas. Assim, na medida em que no sabemos exatamente o que possumos em termos de riqueza de espcies e que pouco sabemos acerca das populaes das espcies j descritas, a conservao se torna uma tarefa bastante di- fcil. Aqui vale o axioma de que s se conserva aquilo que se conhece e, portanto, imperativo que os estudos avancem e se aprofundem. A forma mais adequada e economicamente mais vivel de se proteger espcies em pases megadiversos como o Brasil por meio da conservao in situ, dentro de reas protegidas. A criao e a manuteno de reservas com diversidade representativa dos ecossistemas seriam, portanto, as melhores sadas para evitar extines em mas- sa. Nos ecossistemas j intensamente fragmentados pela ao humana, seriam necessrias outras aes, como, por exemplo, a recuperao de reas degradadas e a criao de corredores de migrao conectando as manchas ilhadas do ecossistema. O ideal seria a criao de reservas em reas onde ocorrem espcies ameaadas, pois o hbitat natural o melhor local para se preservar os seres vivos. Alm disso, uma reserva atende aos objetivos de conservao de diversas espcies de diferentes grupos taxonmicos, alm de ser, em geral, economicamente mais vivel. A conservao ex situ (manuteno e reproduo de espcies ameaadas fora do hbitat natural) no a melhor estratgia para os anfbios brasileiros no atual momento. Medodologia e Principais Resultados da Lista Oficial Brasileira de Anfbios Ameaados de 2003 A avaliao das espcies de anfbios ameaadas de extino no Brasil culminou por ocasio de um workshop cientco no qual dez especialistas estiveram presentes (vide Metodologia). Este grupo de especialistas analisou a situao de todos os anfbios brasileiros conhecidos, bem como as sugestes prvias feitas durante o processo de consulta ampla, coordenado pela Fundao Biodiversitas. Dezoito especialistas (Tabela 1) que atenderam consulta ampla sugeriram 48 espcies como ameaadas (Tabela 2).
  4. 4. | 289 | Anfbios Tabela 2. Espcies que foram sugeridas como ameaadas por especialistas (veja Tabela 1) que fizeram contribuies via Web. Alteraes nomenclaturais (sensu Faivovich et al., 2005) aps a publicao da lista so apresentadas na segunda coluna. Espcies Alteraes nomenclaturais1 Adelophryne baturitensis Adelophryne maranguapensis Brachycephalus pernix Ceratophrys aurita Colostethus olfersioides Cycloramphus valae Dermatonotus muelleri Elachistocleis erythrogaster Eleutherodactylus paranaensis Frostius pernambucensis Holoaden bradei Holoaden luederwaldti Hyalinobatrachium eurygnathum Hyalinobatrachium parvulum Hyla cymbalum Hypsiboas cymbalum Hyla fluminea Aplastodiscus flumineus Hyla izecksohni Bokermannohyla izecksohni Hyla langei Bokermannohyla langei Hyla musica Aplastodiscus musicus Hylodes heyeri Hylodes sazimai Hylomantis aspera Hylomantis granulosa Tabela 1. Especialistas que colaboraram por intermdio da consulta ampla, indicando nomes de espcies candidatas a entrar na lista de ameaadas. Colaborador Instituio Carlos A. G. da Cruz Museu Nacional, Rio de Janeiro, RJ Clio F. B. Haddad Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, SP Cynthia P. de A. Prado Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, SP Denise de C. Rossa-Feres Univ. Estadual Paulista, So Jos do Rio Preto, SP Dbora L. Silvano Ministrio do Meio Ambiente, DF Diva M. Borges-Nojosa Universidade Federal do Cear, CE Elosa M. Wistuba Centro Universitrio Campos de Andrade, PR Itamar A. Martins Universidade de Taubat, SP Jaime Bertoluci ESALQ, Universidade de So Paulo, SP Luciana B. Nascimento PUC, Minas Gerais, Belo Horizonte, MG Luciano M. Castanho PUC, So Paulo/Sorocaba, SP Magno V. Segalla Sociedade Brasileira de Herpetologia Marcelo F. Napoli Universidade Federal da Bahia, BA Paulo C. A. Garcia Universidade de Mogi das Cruzes, SP Renato N. Feio Universidade Federal de Viosa, MG Rodrigo Lingnau Universidade Federal de Gois, Goinia, GO Rogrio P. Bastos Universidade Federal de Gois, Goinia, GO Ulisses Caramaschi Museu Nacional, Rio de Janeiro, RJ
  5. 5. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaada de Extino | 290 | Espcies Alteraes nomenclaturais1 Leptodactylus marambaiae Megaelosia boticariana Melanophryniscus cambaraensis Melanophryniscus dorsalis Melanophryniscus macrogranulosus Odontophrynus moratoi Paratelmatobius gaigeae Paratelmatobius lutzii Paratelmatobius mantiqueira Paratelmatobius poecilogaster Phrynomedusa bokermanni Phrynomedusa fimbriata Phrynomedusa vanzolinii Phyllomedusa ayeaye Phys