Especial Clarice Lispector

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ESPECIAL CLARICE LISPECTOR

Clarice aborda o imprevisto que rompe o rotineiro.

Clarice Lispector, dcada de 1960ESPECIAL CLARICE LISPECTOR (1920-1977)

O seu nome judeu Chaya, que significa Vida. Clarice Lispector ir certamente continuar a viver.

Segundo Affonso Romano de SantAnna, as obras de Clarice, em geral, percorrem quatro etapas:1. Personagem disposta em determinada situao cotidiana2. Prepara-se um evento que pressentido discretamente pela personagem.3. Ocorre o evento que ilumina (epifania) a vida da personagem.4. Ocorre o desfecho em que a vida da personagem revista.

O livro se divide em trs segmentos. O primeiro, Com Clarice, uma sensvel introduo obra, com dois textos nos quais os amigos relembram carinhosamente facetas de seu convvio com a escritora. De Marina para Clarice e De Affonso para Clarice, segunda e terceira partes, compem-se de diversas crnicas sobre a escritora produzidas ao longo das ltimas dcadas, alm de trs ensaios de carter analtico sobre textos centrais de sua obra, comoA ma no escuroeA paixo segundo G.H.Marina Colasanti e Affonso Romano de SantAnna esboam aqui um retrato sensvel da amiga Clarice Lispector.

Nasce, a 10 de dezembro, em Tchetchelnik, uma aldeia da Ucrnia, ento pertencente Rssia, Haia Lispector, terceira filha do comerciante Pinkouss e de Mania Lispector. O casal j tinha duas outras meninas: Leia, de 9 anos, e Tania, de 5. O nascimento ocorre durante viagem de emigrao da famlia em direo Amrica os pais, judeus, resolveram vir para o Brasil para a fim de escapar das consequncias da Revoluo de 1917 e da Primeira Guerra Mundial.Clarice Lispector 1920-1977

A famlia Lispector. Da esquerda para direita: Mania, Clarice e Pinkouss (sentados); Elisa e Tania (em p). Recife, dcada de 1920.Aqui eles adotaram novos nomes. exceo de Tania, todos, por iniciativa de Pinkouss, mudaram de identidade: o pai se tornou Pedro; Mania, Marieta; Leia se transformou em Elisa; e Haia ( Chaya) que significa vida, ou clara , em Clarice.

A me requer cuidados especiais porque sofre de paralisia progressiva.

Com base em pesquisa, o autor, Benjamin Moser, formulou uma tese: a de que Clarice sentia-se predestinada a salvar a me da doena adquirida (sfilis) durante a violncia na Ucrnia. O peso dessa falha ecoaria ao longo de toda sua vida e obra. Para o autor, compreender a dor de Clarice como filha e como me ajuda a entender a escritora.Sua me, Mania, teria contrado sfilis na poca sem cura, depois de ter sido estuprada por soldados russos. Segundo uma crena da regio, uma gravidez poderia cur-la. Com essa finalidade, Haia esse o nome de batismo de Clarice foi concebida. Mas no deu certo.

1922- A famlia chega a Macei em maro desse ano embora Clarice tenha declarado em algumas ocasies que os Lispectors haviam desembarcado na capital alagoana quando ela contava dois meses de idade.Aqui eles adotariam novos nomes. exceo de Tania, todos, por iniciativa de Pinkouss, mudariam de identidadePedro Lispector passa a trabalhar com Rabin: primeiro, como mascate, vendendo mercadorias que o concunhado financiava, e, mais tarde, na fbrica de sabo que o parente criaria contando com a tcnica que o pai de Clarice aprendera durante sua viagem de exlio.

1925- A famlia muda-se de Alagoas para Pernambuco Pedro, descontente com os negcios em Macei, tenta construir sua independncia econmica em Recife. Os Lispectors vo viver no bairro da Boa Vista, habitado pela comunidade judaica, que inclua tios e primos do lado materno. O casaro onde Clarice morou, na praa Maciel Pinheiro, em Recife.1928- Aos 7 anos, aluna da primeira srie do curso primrio, aprendeu a ler. A famlia vive de maneira modesta, as meninas almoando s vezes suco de laranja aguado e um pedao de po. Mais tarde, contudo, a autora se recordaria da infncia como um perodo bom, em que roubava flores e pitangas e tomava banhos de mar em Olinda. Episdios que contar, respectivamente, em Cem anos de perdo, e Banhos de mar

Clarice, no jardim Derby, veste luto pela morte da me. Recife, 1930.1930- Assiste a uma pea no teatro Santa Isabel e, inspirada, escrevePobre menina rica, obra em trs atos, cujos originais acaba perdendo.Morre sua me, em 21 de setembro, aos 41 anos. O corpo sepultado no Cemitrio Israelita do Barro, em Recife.1931- Envia, sem sucesso, vrios contos para a seo O Dirio das Crianas doDirio de Pernambuco, e a razo para os escritos no serem publicados uma s, conforme afirmar mais tarde: suas histrias no falavam de fatos, mas de sensaes.

1932- Frequenta a livraria Imperatriz, cujo dono era Jac Berenstein, divulgador de cultura e dono tambm de uma biblioteca particular. Entre as leituras de Clarice, ento, encontram-seReinaes de Narizinho, de Monteiro Lobato, que pedira emprestado a Reveca, sua colega de escola e filha de Jac no sem antes ter de insistir muito para obter a obra, episdio que ser narrado no conto Felicidade clandestina.

1933- Mudam-se para casa prpria.1935- Viaja para o Rio com o pai e a irm Tania. Elisa, compromissada com o trabalho, iria depois.

1936- Nesse perodo, passa a ler livros selecionados segundo os ttulos, numa biblioteca de aluguel do seu bairro entre eles,O lobo da estepe, de Hermann Hesse, que escolheu pensando ser romance de aventuras e que a impressiona muito. Inspirada pela obra, escreve um conto cuja histria no acaba nunca e que mais tarde ela destruiria. L tambm Julien Green e Dostoivski, alm de autores da literatura portuguesa, como Jlio Dinis e Ea de Queiroz, e dos brasileiros, como Machado de Assis, Jos de Alencar, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Rachel de Queiroz.

Foto de formatura do curso ginasial do colgio Slvio Leite, em 1936.1937- Objetivando o ingresso na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, comea o curso complementar. Paralelamente aos estudos, d aulas particulares de matemtica e portugus, aprende datilografia e frequenta a Cultura Inglesa.

Nesse mesmo ano, morre seu pai, no dia 26 de agosto, a escritora talvez motivada por esse acontecimento escreve diversos contos:A fuga,Histria interrompidaeO delrio. Esses contos sero publicados postumamente emA bela e a fera, de 1979. Passa a morar com a irm Tania, j casada. 1939- Comea o curso superior na Faculdade Nacional de Direito.Comea o curso superior na Faculdade Nacional de Direito.1940-Em 25 de maio, sai no semanrioPan, dirigido pelo escritor Tasso da Silveira, o conto Triunfo. A narrativa traz temas que sero recorrentes na fico de Clarice: as dificuldades do relacionamento amoroso, relatadas a partir das sensaes de uma mulher que, abandonada pelo marido, em sua solido descobre a fora interior.

Ainda em 1940, consegue um emprego de tradutora no temido Departamento de Imprensa e Propaganda DIP. Como no havia vaga para esse trabalho,Clariceganha o lugar de redatora e reprter da Agncia Nacional. Inicia-se, ai, sua carreira de jornalista. No novo emprego, convive com Antonio Callado, Francisco de Assis Barbosa, Jos Cond e, tambm, com Lcio Cardoso, por quem nutre durante tempos uma paixo no correspondida: o escritor era homossexual. Com seu primeiro salrio, entra numa livraria e compra "Bliss - Felicidade", de Katherine Mansfield, com traduo de Erico Verissimo, pois sentiu afinidade com a escritora.

Lcio Cardoso

1941- Alm de textos jornalsticos, continua a publicar textos literrios. Cursando o terceiro ano de direito, colabora com a revista dos estudantes de sua faculdade, "A poca", com os artigosObservaes sobre o fundamento do direito de punire Deve a mulher trabalhar?Passa a frequentar o bar "Recreio", na Cinelndia, centro do Rio de Janeiro, ponto de encontro de autores como Lcio Cardoso, Vinicius de Moraes, Rachel de Queiroz, Otvio de Faria, e outros.1942-Comea a namorar com Maury Gurgel Valente, seu colega de faculdade. Com 22 anos de idade, recebe seu primeiro registro profissional, como redatora do jornal "A Noite". L Drummond, Ceclia Meireles, Fernando Pessoa e Manuel Bandeira. Realiza cursos de antropologia brasileira e psicologia, na Casa do Estudante do Brasil. Nesse ano, escreve seu primeiro romance,Perto do corao selvagem.

Capa da primeira edio do romance Perto do corao selvagem

1943- Casa-se com o colega de faculdade Maury Gurgel Valente e termina o curso de Direito. Seu marido, por concurso, ingressa na carreira diplomtica.1944- Muda-se para Belm do Par (PA), acompanhando seu marido. Fica por l apenas seis meses. Seu livro recebe crticas favorveis de Breno Accioly, Dinah Silveira de Queiroz, Lauro Escorel, Lcio Cardoso, Antnio Cndido e Ledo Ivo, entre outros. lvaro Lins publica resenha com reparos ao livro mesmo antes de sua publicao, baseado na leitura dos originais. Qualifica o livro de "experincia incompleta".

Ainda em 1944, 13 de julho, o casal volta ao Rio e, muda-se para Npoles, em plena Segunda Guerra Mundial, onde o marido da escritora vai trabalhar. J na sada do Brasil,Claricemostra-se dividida entre a obrigao de acompanhar o marido e ter de deixar a famlia e os amigos. Quando chega Itlia, depois de um ms de viagem, escreve: "Na verdade no sei escrever cartas sobre viagens, na verdade nem mesmo sei viajar." Termina seu segundo romance,O lustre. Recebe o prmio Graa Aranha com Perto do corao selvagem, considerado o melhor romance de 1943. Conhece Rubem Braga, ento correspondente de guerra do jornal "Dirio Carioca".

Clarice com oficiais da Fora Expedicionria Brasileira em Npoles. Dcada de 1940.

1945- D assistncia a brasileiros feridos na guerra, trabalhando em hospital americano. O pintor italiano Giorgio De Chirico pinta-lhe um retrato. Viaja pela Europa e conhece o poeta Giuseppe Ungaretti.

Clarice e Maury em Veneza. Viaja pela Itlia vai a Florena, Venezae de novo a Roma e tambm visita Crdoba, na Espanha.Tambm em dezembro, no Brasil, a Livraria Agir Editora fundada no ano anterior, entre outros, pelo crtico literri