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Teoria da comunicação livro texto

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2. i i i i i i i i 3. i i i i i i i i J. Paulo Serra Manual de Teoria da Comunicao Universidade da Beira Interior 2007 4. i i i i i i i i Livros Labcom http://www.labcom.ubi.pt/livroslabcom/ Srie: Estudos em Comunicao Direco: Antnio Fidalgo Design da Capa: Joo Sardinha Paginao: Catarina Rodrigues Covilh, 2007 Depsito Legal: 268620/07 ISBN: 978-972-8790-87-5 5. i i i i i i i i Contedo Introduo 1 I Questes epistemolgicas 7 1 O estatuto epistemolgico das cincias da comunicao 9 1.1 Origens e institucionalizao dos modernos estudos de comunicao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 1.2 As trs fontes dos estudos de comunicao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 1.3 O campo espistmico das cincias da comunicao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 2 A Teoria da Comunicao no campo das cincias da comu- nicao 33 2.1 A multiplicidade das teorias da comunicao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 2.2 Paradigmas e teorias . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 2.3 Cincias paradigmticas e cincias multi-paradigmticas . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 2.4 Paradigmas da comunicao . . . . . . . . . . . . . . 41 2.5 A heterogeneidade dos fenmenos comunicacionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 2.6 O lugar da Teoria da Comunicao . . . . . . . . . . . 49 i 6. i i i i i i i i ii Paulo Serra II Teoria da Comunicao 59 3 A comunicao como problema 61 3.1 O sculo XX e a emergncia da questo comunicaci- onal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 3.2 Breve histria dos estudos de comunicao . . . . . . 63 3.3 As duas grandes noes de comunicao . . . . . . . . 69 3.4 A sociedade actual como sociedade da comunicao sentido e problematizao do conceito . . . . . . . . 73 4 Caracterizao genrica do fenmeno comunicacional 77 4.1 A complexidade da comunicao e a multiplicidade das suas descries . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 4.2 Classicao dos tipos de comunicao . . . . . . . . 80 4.3 Comunicao e meios de comunicao a Escola de Toronto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82 4.4 Comunicao e incomunicao a improbabilidade da comunicao (Luhmann) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88 5 A Teoria Matemtica da Comunicao 93 5.1 A crtica de Shannon ao conceito tradicional de infor- mao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 5.2 A informao como medida da liberdade de escolha da mensagem e os trs nveis da comunicao . . . . . 95 5.3 Informao, redundncia e entropia . . . . . . . . . . 97 5.4 O canal e o meio para uma tipologia dos meios . . . 100 6 A concepo ciberntica da comunicao 103 6.1 A concepo ciberntica da comunicao e a crtica a Shannon . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103 6.2 Do poder da informao ubiquidade . . . . . . . . . 106 www.labcom.ubi.pt 7. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao iii 6.3 A Ciberntica de segunda ordem de Heinz von Foerster e a sua repercusso na sociologia de Niklas Luhmann . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108 6.4 Feedback e meios de comunicao a questo da inte- ractividade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 7 A comunicao interpessoal 115 7.1 Interaco social e mediatizao . . . . . . . . . . . . 115 7.2 O papel dos sentidos na interaco . . . . . . . . . . . 120 7.3 A Nova Comunicao da Escola de Palo Alto . . . . 127 7.4 A co-presena e os encontros (Goffman) . . . . . . . 133 8 A comunicao de massa e os mass media 143 8.1 Da comunicao de massa como problema ao problema dos efeitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 8.2 A era das multides e os mass media (Gustave Le Bon)146 8.3 A articulao entre a comunicao de massa e a comunicao interpessoal: a teoria do two- step ow of communication . . . . . . . . . . . . . . . 150 8.4 A realidade dos mass media (Niklas Luhamnn) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 160 9 A comunicao mediada pela Internet 167 9.1 Internet e teoria da comunicao . . . . . . . . . . . . 167 9.2 As vises utpicas sobre a Internet . . . . . . . . . . . 169 9.3 Paradigmas da comunicao na Internet . . . . . . . . 175 9.4 A web e a publicao universal . . . . . . . . . . . . . 181 Bibliograa 187 www.labcom.ubi.pt 8. i i i i i i i i 9. i i i i i i i i Introduo A comunicao assumiu um lugar to central nas nossas sociedades que se tornou corrente a armao de que vivemos em plena socie- dade da comunicao; uma tal expresso tornou-se mesmo tema de Congressos dos cientistas da comunicao.1 Porque que a nossa so- ciedade se tornou uma sociedade de tal forma conquistada pela comu- nicao que, quer individual quer colectivamente, nos encontramos submetidos a uma verdadeira obrigao de comunicao?2 Uma primeira resposta, mais evidente, a esta pergunta uma res- posta que todos os dias, a todas as horas, nos entra, literalmente, pelos olhos e ouvidos adentro a de que as chamadas tecnologias da in- formao e comunicao assumiram, nas nossas sociedades, um papel to decisivo que praticamente impossvel passar (e pensar) sem elas. Uma segunda resposta, tambm ela mais ou menos evidente, a de que a natureza democrtica das nossas sociedades, em que os pro- cessos de deciso assentam cada vez mais, pelo menos idealmente, na discusso entre os participantes, na troca de informaes, na prpria 1 Para nos referirmos apenas a dois acontecimentos cientcos relativamente re- centes, o I Congresso Ibrico de Comunicao, realizado em Mlaga em Maio de 2001, escolheu como tema A Sociedade da Comunicao no Sculo XXI; e o II Congresso da Associao Portuguesa de Cincias da Comunicao (SOPCOM), rea- lizado em Lisboa em Outubro de 2001, a expresso Rumos da Sociedade da Comu- nicao. 2 Retomamos aqui as expresses de Bernard Mige, La Socit Conquise para la Communication, Grenoble, Presses Universitaires de Grenoble, 1989, p. 211 et passim. 10. i i i i i i i i 2 Paulo Serra mediatizao, exige o alargamento constante das trocas comunicati- vas. Uma terceira resposta, menos evidente mas qui mais essencial, a de que, como defendem autores como Jrgen Habermas e Niklas Luhmann, ainda que a partir de pressupostos diferentes, a sociedade , basicamente, comunicao. De facto, como avisa Habermas logo nas primeiras pginas da sua Teoria do Agir Comunicacional, esta no uma meta-teoria, antes permanece, no seu ncleo, uma teoria da soci- edade.3 Por seu lado, Luhmann arma, nos seus Sistemas Sociais, que [o] processo elementar que constitui o social como realidade especial um processo comunicacional.4 Tendo em conta esta perspectiva de Luhmann e Habermas, ar- maes do gnero da de tericos da comunicao de massa como Melvin DeFleur e Sandra Ball-Rokeach, segundo a qual a natureza dos processos de comunicao de uma sociedade est relacionada, de forma signicativa, virtualmente com todos os aspectos das vidas quo- tidianas das suas pessoas5 , s pecam por no serem sucientemente radicais na medida em que acabam por nos remeter para a primeira das respostas que acabmos de mencionar. Essa resposta no , apesar da sua evidncia, uma falsa resposta. De facto, foi o desenvolvimento exponencial dos media, e em particu- lar dos chamados mass media, a partir dos nais do sculo XIX, que chamou a ateno para a necessidade de uma pesquisa em comunica- o (communication research) que se confundiu, na maior parte dos casos, com a pesquisa em comunicao de massa (mass communi- cation research). Essa resposta acabou por se repercutir, tambm, no linguistic turn que se inicia mais ou menos na mesma altura e que, de forma muito signicativa, em grande medida tambm um commu- 3 Cf. Jrgen Habermas, Thorie de lAgir Communicationnel, Tome 1, Rationalit de lAgir et Rationalisation de la Socit, Paris, Fayard, 1987, p. 11. 4 Niklas Luhmann, Sistemas Sociales. Lineamientos para una Teora General, Barcelona, Anthropos, 1998, p. 141. 5 Melvin L. DeFleur, Sandra Ball-Rokeach, Theories of Mass Communication, Nova Iorque, Longman, 1988, p. 10. www.labcom.ubi.pt 11. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 3 nicational turn, como o demonstra a importncia que teorias como a semiologia de Saussure ou a semitica de Peirce concedem funo comunicacional dos signos. A tomada de conscincia da importncia dos meios os media, os signos acabou por levar, no espao de cerca de um sculo, to- mada de conscincia da importncia dos ns: a prpria existncia da sociedade humana. Esta segunda tomada de conscincia designada, hoje, pela expresso cincias da comunicao. Estas cincias no so, assim, um saber mais ou menos instrumental, uma simples arte (techn) que poderia ser posta ao servio de no importa que ns.6 Elas so teoria no mais puro sentido do termo aristotlico: um saber que se sabe a si prprio e que, ao saber-se a si prprio, acaba por trans- formar aquele que o sabe. Como refere James Carey, os modelos de comunicao so, ento, no apenas representaes da comunicao (of communication) mas representaes para a comunicao (for com- munication), e, por conseguinte, criam aquilo que ns, de forma no ingnua, ngimos que eles meramente descrevem, fazendo assim, da nossa cincia e da cincia da comunicao em particular uma ci- ncia a que Alvin Gouldner chama reexiva.7 Uma outra forma de dizermos o anterior seria, parafraseando a ciberntica da ciberntica ou ciberntica de segunda ordem de Heinz von Foerster, armarmos que as cincias da comunicao acabaram por nos fazer tomar consci- ncia de que os sistemas observadores esto includos nos prprios sistemas observados, que o homem no um observador indepen- 6 A instrumentalizao , como sublinha Adriano Duarte Rodrigues, um dos v- cios mais graves a que se encontra sujeito o ensino universitrio, nomeadamente o dos estudos de comunicao. Cf. Adriano Duarte Rodrigues, Os Estudos de comuni- cao na Universidade, 2001, www.bocc.ubi.pt. 7 James W. Carey, A cultural approach to communication, in Denis McQuail, McQuails Reader in Mass Communication Theory, Londres, Sage Publications, 2002, p. 43. www.labcom.ubi.pt 12. i i i i i i i i 4 Paulo Serra dente que observa como vai o mundo mas antes um actor participante no drama da interaco mtua.8 A incluso do observador naquilo que observa tem, como uma das suas consequncias fundamentais,9 a natureza sempre parcial e limi- tada da observao; o que signica que a diferentes observadores no podero deixar de corresponder diferentes observaes, isto , diferen- tes modelos de comunicao e, decorrentes destes, diferentes teorias da comunicao. Assim, as cincias da comunicao no so apenas um saber reexivo, mas tambm multi-paradigmtico e, assim, du- plamente problemtico. Se h disciplina em que se revela este (duplo) carcter problem- tico das cincias da comunicao ela , sem dvida, a de Teoria da Comunicao. Compreende-se, assim, que a I Parte deste Relatrio incida sobre aquilo a que chammos Questes epistemolgicas, em que procura- mos reectir, num primeiro momento, sobre o estatuto epistemolgico das cincias da comunicao as suas origens, as suas fontes e o seu campo epistmico; e, num segundo momento, sobre o lugar da Teoria da Comunicao no campo das cincias da comunicao um lugar que se torna problemtico quer pelas diculdades de conciliao dos mltiplos paradigmas e teorias que integram o campo de tais cincias, quer pela prpria heterogeneidade dos fenmenos comunicacionais. Numa II Parte, que intitulmos Teoria da Comunicao e se de- senrola ao longo de sete captulos, apresentamos os tpicos e as teorias 8 Cf. Heinz von Foerster, Ethics and Second Order Cyberne- tics, in Constructions of the Mind: Articial Intelligence and the Hu- manities, Stanford Humanities Review, 4, No.2, S. 308-327, 1995, http://www.stanford.edu/group/SHR/42/text/foerster.html. 9 Outra das consequncias, no despiciendas, de tal processo a transformao da nossa sociedade numa sociedade eminentemente "reexiva e de risco uma sociedade que, e em virtude daquilo que ela mesma cria, se v desapossada de toda a garantia de certeza e previso. Cf. Ulrich Beck, Risk Society. Towards a New Modernity, Londres, Sage Publications, 1998; Anthony Giddens, As Consequncias da Modernidade, Lisboa, Celta, 1992. www.labcom.ubi.pt 13. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 5 da comunicao que consideramos fundamentais. A impossibilidade de tratar todos os tpicos e todas as teorias da comunicao imps- nos, como no podia deixar de ser, uma necessidade de seleco. Essa seleco foi feita de acordo com os seguintes critrios: relevncia ter- minolgica; impacto trans e interdisciplinar; poder heurstico; ca- rcter abrangente. precisamente tendo em conta esses critrios que esta II Parte prev, depois de dois captulos de cariz mais ou menos introdutrio e de contextualizao o primeiro, intitulado A comuni- cao como problema, e o segundo, Caracterizao genrica do fe- nmeno comunicacional , cinco outros captulos que se referem no s quelas que consideramos como as principais teorias contempor- neas da comunicao mas tambm aos principais tipos de comunica- o, interpessoal ou de massas, directa ou mediatizada, verbal ou no verbal. Obviamente que, como qualquer seleco, esta acabar sempre por ser discutvel mas seleccionar e discutir so, precisamente, duas das principais tarefas e responsabilidades do ensino e da investigao universitrios. Visa-se, com esta II Parte, a consecuo de trs grandes objectivos de carcter geral: reectir sobre o papel da comunicao na sociedade contempornea; interpretar os fenmenos comunicacionais a partir dos conceitos bsicos da teoria da comunicao; analisar criti- camente algumas das principais teorias da comunicao. Acrecente-se, nalmente, que dado o carcter de Manual da presente obra, bem como o seu intuito assumidamente didctico, no incio de cada um dos ca- ptulos indicam-se os principais objectivos a atingir e os contedos a tratar. www.labcom.ubi.pt 14. i i i i i i i i 15. i i i i i i i i Parte I Questes epistemolgicas 7 16. i i i i i i i i 17. i i i i i i i i Captulo 1 O estatuto epistemolgico das cincias da comunicao 1.1 Origens e institucionalizao dos moder- nos estudos de comunicao Entendida a comunicao no seu sentido amplo no sentido em que, por exemplo, ela denida por George Gerbner como interaco so- cial atravs de mensagens 1 , poderamos dizer que os estudos de comunicao2 remontam pelo menos a Plato e a Aristteles, e s suas tematizaes da linguagem em geral e da retrica e da potica em par- ticular. Entendida a comunicao no seu sentido hodierno, restrito, de co- 1 George Gerbner, apud Denis McQuail, Teoria da Comunicao de Massas, Lis- boa, Gulbenkian, 2003, pp. 13-4. Esta mesma denio retomada por John Fiske, Introduo ao Estudo da Comunicao, Porto, Asa, 2002, p. 14. 2 Neste texto inicial utilizamos esta expresso em vez da expresso pesquisa em comunicao, pelas conotaes que a expresso inglesa communication resarch tem com a masss communication research americana; e em vez da expresso cincias da comunicao, porque esta ltima denotaria uma denio que, em termos epistemo- lgicos, acadmicos e institucionais no corresponde do perodo seminal a que aqui nos referimos. 9 18. i i i i i i i i 10 Paulo Serra municao mediatizada3 , os estudos de comunicao tm um comeo muito mais recente embora nem todos os investigadores estejam de acordo acerca do momento em que se d tal comeo. Assim, para Kurt Lang, que ressalta a relao entre a pesquisa em comunicao e as transformaes trazidas pela Revoluo Industrial, As razes histricas da moderna pesquisa da comunica- o remontam ao sculo dezanove, altura em que os acad- micos comearam as suas investigaes sistemticas acerca das mudanas nos padres de vida trazidas pela Revoluo Industrial.4 Entre tais acadmicos poderamos incluir, para alm de Tocque- ville - a que Lang se refere explicitamente , nomes como os de Comte, Le Bon, Tarde, Durkheim, Simmel ou Weber que prope, no I Con- gresso de Socilogos, que teve lugar em Frankfurt, em 1910, a cons- tituio de uma sociologia da imprensa que pode ser vista como a percursora da futura sociologia da comunicao.5 Ainda que preferindo ressaltar a relao entre teoria da comuni- cao em sentido amplo correspondendo quilo a que ns temos vindo a chamar estudos de comunicao e media, Denis McQuail chega a uma concluso mais ou menos semelhante, ao armar que A teoria da comunicao, denida em sentido amplo, tem mais ou menos a mesma idade que o seu objecto de es- tudo, os media nas suas formas modernas de imprensa de 3 O termo mediatizao utilizado aqui na seguinte acepo: Processo que consiste em tornar acessvel a um pblico mais ou menos vasto e distante uma men- sagem sobre um acontecimento ou uma opinio atravs do recurso a um ou mais media. Adriano Duarte Rodrigues, Dicionrio Breve da Informao e da Comuni- cao, Lisboa, Presena, 2000, p. 85. 4 Kurt Lang, Communications Research: origins and development, in Erik Bar- now et al. (eds.), International Encyclopaedia of Communication, Nova Iorque, Ox- ford, Oxford University Press, vol. 1, 1989, p. 369. 5 Cf. Max Weber, Towards a sociology of the press, Journal of Communication, no 26-3, Philadelphia, 1976. www.labcom.ubi.pt 19. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 11 massa, rdio, lme e televiso, reectindo a estreita inter- dependncia entre a teoria social e a realidade social mate- rial.6 J Elihu Katz prefere situar os incios dos cem anos de pesquisa em comunicao no ensaio Lopinion et la conversation de Gabriel Tarde, publicado originalmente em 1898 na Revue de Paris e inserto depois, em 1901, como captulo da obra LOpinion et la Foule.7 Considera-se geralmente, no entanto, que pelo menos em termos acadmicos e institucionais , o momento inaugural dos estudos de co- municao se situa na criao em Leipzig, em 1916, pelo economista poltico Karl Bcher, do primeiro Instituto para o Estudo dos Jornais (Institut fr Zeitungskunde) isto mesmo se a primeira tese de dou- toramento conhecida sobre jornalismo, a De Relationibus Novellis, de Tobias Pencer, da Universidade de Leipzig, data de 1690; ou mesmo ainda se no seu Essay Concerning Human Understanding, de 1690, John Locke considera a semitica, centrada no estudo dos sinais (as palavras) atravs dos quais se torna possvel a comunicao de pen- samentos, como uma das trs partes da Filosoa. Seguindo a cria- o daquele Instituto, em 1926 eram j nove as universidades alems, das vinte e trs ento existentes, em que funcionava a rea de Cincia dos Jornais (Zeitungswissenschaft): Berlim, Frankfurt, Freiburg, Ham- burgo, Heidelberg, Colnia, Leipzig, Munique e Mnster. No nal dos anos 20, o termo Publizistik surge para abarcar o conjunto dos estudos de comunicao, referentes no s ao jornal mas tambm aos meios ento emergentes como a rdio e o cinema. A seguir II Guerra Mun- dial, e aps o comprometimento das cincias da comunicao com o regime de Hitler, foi sob o ttulo de Publizistik que se deu a refundao 6 Denis McQuail, The future of communication theory, in Jos A. Bragana de Miranda, Joel Frederico da Silveira (orgs.), As Cincias da Comunicao na Vi- ragem do Sculo, Actas do I Congresso da Associao Portuguesa de Cincias da Comunicao, Lisboa, Vega, 2002, p. 57. 7 Cf. Elihu Katz, One hundred years of communication research, in Jos A. Bragana de Miranda, Joel Frederico da Silveira (orgs.), ibidem, p. 21. www.labcom.ubi.pt 20. i i i i i i i i 12 Paulo Serra dos estudos em comunicao na Alemanha ainda que, na actualidade, o termo Publizistik, se bem que usado mais ou menos como sinnimo do termo Kommunikationswissenschaften (Cincias da Comunicao), tenda a ser preterido em relao a este e ao termo Medienwissenschaf- ten (Cincias dos Media).8 Apesar destas origens europeias mais propriamente alems dos estudos de comunicao, a armao destes viria a dar-se, no ps-II Guerra Mundial, nos Estados Unidos. Como armam McQuail e Win- dahl, S depois da segunda guerra Mundial a comunicao foi efectiva e articuladamente encarada como tal. Tal como os primrdios da investigao emprica se constituram em grande medida como um fenmeno americano, foi igual- mente nos Estrados Unidos, no perodo do ps-guerra, que a possibilidade de uma cincia da comunicao se discutiu pela primeira vez.9 O anterior no signica, no entanto, que antes da II Guerra Mun- dial no houvesse j nos Estados Unidos investigaes relativas co- municao mediatizada. Assim, e para darmos apenas trs exemplos: a partir de 1910, os autores da chamada Escola de Chicago, e nomeada- mente Robert Park antigo jornalista, que foi aluno de Georg Simmel e introduziu as teorias de Gabriel Tarde nos Estados Unidos investi- gam a natureza dos jornais e o seu papel na integrao dos imigrantes na vida dos EUA; nos anos 20, o Payne Fund promove um estudo em larga escala, cujo relatrio foi publicado em 1933, intentando determi- nar os efeitos das comunicaes de massa, nomeadamente dos carto- ons, sobre as crianas; em 1927 publicada aquela que podemos con- siderar como a primeira pea do dispositivo conceptual da corrente da 8 Sobre estes desenvolvimentos parafraseamos aqui Antnio Fidalgo, Publizistik ou as Cincias da Comunicao na Alemanha, 1998, www.boccc.ubi.pt. 9 Denis McQuail, Sven Windahl, Modelos de Comunicao para o Estudo da Comunicao de Massas, Lisboa, Editorial Notcias, 2003, pp. 14-15. www.labcom.ubi.pt 21. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 13 Mass Commmunication Research: a obra Propaganda Techniques in the World War, de Harold Lasswell.10 Apesar destes e de muitos outros estudos, como observam Melvin DeFleur e Sandra Ball-Rokeach, antes da II Guerra Mundial a co- municao de massa no existia enquanto campo academicamente consolidado: Os pesquisadores que estudavam os media eram, usu- almente, investigadores das cincias sociais bsicas, ou de outros backgrounds acadmicos, que usavam o comporta- mento das audincias dos media como uma arena conveni- ente para estudar conceitos, hipteses e teorias que eram, de facto, os das suas prprias disciplinas.11 A consolidao a que se referem DeFleur e Ball-Rokeach dar-se- com a sociologia funcionalista do ps-II Guerra Mundial, podendo-se considerar como seu momento mais decisivo a fundao do Buraeau of Applied Social Research em 1941, na Universidade de Colmbia, por Paul Lazarsfeld que fora j, desde 1938, responsvel pelo Prin- ceton Radio Project. Os estudos de comunicao propostos por esta sociologia viriam a ter o seu programa decisivo na clebre frmula de Lasswell, de 1948 Quem diz, o qu, por que canal, a quem, e com que efeito? e a sua consagrao denitiva na formulao, pelo pr- prio Lazarsfeld e por Elihu Katz, na obra Personal Inuence: The Part Played by People in the Flow of Mass Communication, da hiptese do two-step ow of communication. Constitui-se assim aquilo a que, e com razes bem fundadas, Todd Gitlin chama o paradigma dominante nos estudos de comunicao.12 10 Armand e Michle Mattelart, Histria das Teorias da Comunicao, Porto, Campo das Letras, 1997, p. 31. 11 Melvin L. DeFleur, Sandra Ball-Rokeach, Theories of Mass Communication, Nova Iorque, Longman, 1988, p. 170. 12 Cf. Todd Gitlin, Media sociology: The dominant paradigm, Theory and So- ciety, Vol. 6, Nr. 2, 1978 (Traduo portuguesa: Sociologia dos meios de comunica- www.labcom.ubi.pt 22. i i i i i i i i 14 Paulo Serra Para alm da sociologia funcionalista da comunicao, o outro ele- mento terico importante na denio e consolidao do paradigma dominante , como refere McQuail, a Teoria Matemtica da Comuni- cao de Claude Shannon e Warren Weaver.13 Esta teoria ou, como talvez fosse mais correcto dizer, uma certa interpretao desta teoria no s impulsionou os cientistas sociais a formular as suas prprias teorias da comunicao sob a forma de modelos, a partir dos nais dos anos 40 e princpios dos anos 50, como inuenciou em grande medida a forma desses modelos e das prprias teorias subjacentes, a comear pela linguagem utilizada algo que se evidencia, desde logo, quando atentamos nos elementos que os diversos modelos consideram como fazendo parte da comunicao: emissor, codicao em sinais ou sm- bolos, mensagem, canal, meio, receptor, relao, descodicao dos sinais ou smbolos, cdigo, referente, efeitos, etc..14 Assim, referindo- se teoria de Shannon e Weaver, os Mattelart armam que a sua con- cepo da comunicao como linha direita entre um ponto de partida e um outro de chegada acabar por estar subjacente a escolas e cor- rentes de investigao no s muito diferentes entre si como mesmo opostas. Assim, Ela subentende o conjunto da anlise funcional dos efei- tos e inuenciou, tambm profundamente, a lingustica estrutural (...). As complexicaes que a sociologia dos media progressivamente trouxe a este modelo formal de o social. O paradigma dominante, in Joo Pissarra Esteves (org.), Comunicao e Sociedade. Os efeitos sociais dos meios de comunicao de massa, Lisboa, Livros Horizonte, 2002). 13 Cf. Denis McQuail, Teoria da Comunicao de Massas, Lisboa, Gulbenkian, 2003, p. 48. Uma posio anloga defendida por John Fiske, Introduo ao Estudo da Comunicao, Porto, Asa, 2002, p. 19. 14 Cf. Denis McQuail, Sven Windahl, Models of communication, in Erik Bar- now et al. (eds.), International Encyclopaedia of Communication, Nova Iorque, Ox- ford, Oxford University Press, vol. 1, 1989, pp. 36-37; Denis McQuail, Sven Win- dahl, Modelos de Comunicao para o Estudo da Comunicao de Massas, Lisboa, Editorial Notcias, 2003, p. 15. www.labcom.ubi.pt 23. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 15 base, introduzindo-lhe outras variveis, respeitam este es- quema origem-trmino (...). Renam-no mas no lhe mo- dicam a natureza, que a de considerar a comunicao como evidente, como um dado bruto.15 Numa perspectiva anloga dos Mattelart, arma Mauro Wolf a propsito da communication research que o modelo informacional foi, durante muito tempo, o verdadeiro paradigma dominante, raramente posto em questo e o mais frequentemente utilizado; e nisso, a tradio emprica e a pesquisa crtica andaram a par e passo.16 Em termos globais, o paradigma dominante pode ser caracteri- zado sumariamente da seguinte forma: do ponto de vista poltico ideal de sociedade liberal e pluralista; do ponto de vista sociolgico perspectiva funcionalista; do ponto de vista da teoria da comuni- cao modelo de transmisso linear de efeitos; do ponto de vista da teoria dos media media poderosos modicados pelas relaes de grupo; do ponto de vista metodolgico investigao quantitativa e anlise das variveis.17 No que se refere especicamente a Portugal, a investigao e o en- sino universitrios na rea dos estudos de comunicao iniciaram-se com a criao da Licenciatura em Comunicao Social, na Faculdade das Cincias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em 1979, a que se seguiu, em 1980/81, a criao de um curso homnimo no Instituto Superior de Cincias Sociais e Polticas (ISCPS); a partir de ns da dcada de 80, os cursos de comunicao social, jornalismo e cincias da comunicao multiplicaram-se pelas vrias instituies de ensino superior, universitrias e politcnicas, do pas de tal modo que, e de acordo com um estudo de Mrio Mesquita e Cristina Ponte, 15 Armand e Michle Mattelart, Histria das Teorias da Comunicao, Porto, Campo das Letras, 1997, p. 51. 16 Mauro Wolf, Teorias da Comunicao, Lisboa, Presena, 1995, p. 106. Sobre as razes que explicaro a dominncia de tal modelo, cf. pp. 106-108. 17 Denis McQuail, Teoria da Comunicao de Massas, Lisboa, Gulbenkian, 2003, p. 50. www.labcom.ubi.pt 24. i i i i i i i i 16 Paulo Serra no ano lectivo de 1996 existiam, em Portugal, mais de trinta cursos, frequentados por cerca de 6500 alunos. Em matria de investigao, notaremos apenas que o primeiro doutoramento na rea dos estudos de comunicao foi apresentado em 1990, na Faculdade de Cincias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.18 Assim, se possvel falar, como o fazia Katz em 1999, na conferncia de abertura do I Congresso da Associao Portuguesa de Cincias da Comunica- o (SOPCOM), dos cem anos de pesquisa em comunicao, esse perodo reduz-se, no caso portugus, a um escasso quarto de sculo. Esta breve descrio das origens dos estudos de comunicao, que acabmos de fazer, no contm em si nada de inovador de facto, ela reproduz e sintetiza, de forma mais ou menos el, as descries que constam dos diverso manuais que versam sobre as teorias da comu- nicao e que so realmente, na maior parte dos casos, manuais de teorias da comunicao de massa ou de teorias dos media e da comu- nicao de massa. Tal descrio servir-nos-, contudo, como ponto de partida para a reexo propriamente dita sobre a natureza das cincias da comunicao. 1.2 As trs fontes dos estudos de comunicao A breve descrio das origens e institucionalizao dos estudos de co- municao atrs delineada permite-nos concluir, desde logo, que: i) Os primeiros e alguns dos mais signicativos trabalhos relativos aos fenmenos da comunicao emergem, a partir dos nais do s- 18 Dados extrados de Jos Rebelo, Da comunicao social s cincias da comu- nicao. Breve anlise crtica de duas dcadas de ensino e de investigao, in Jos A. Bragana de Miranda, Joel Frederico da Silveira (orgs.), As Cincias da Comu- nicao na Viragem do Sculo, Actas do I Congresso da Associao Portuguesa de Cincias da Comunicao, Lisboa, Vega, 2002, pp. 131-2. www.labcom.ubi.pt 25. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 17 culo XIX e princpios do sculo XX, no campo da sociologia e, mais tarde, no da sociologia da comunicao; ii) A primeira grande problemtica da sociologia da comunicao foi a dos efeitos dos meios de comunicao de massa uma proble- mtica que, como refere Joo Pissarra Esteves, sobressai como grande problemtica mobilizadora de esforos para a constituio e, depois, para a rpida consolidao da sociologia da comunicao tendo a sua presena marcado at aos nossos dias, quase todos os grandes momen- tos do desenvolvimento desta disciplina cientca e acabando, assim, por exercer uma espcie de funo ordenadora sobre uma outra srie de outras importantes problemticas da disciplina.19 iii) A armao epistemolgica, acadmica e institucional uni- versitria mas no s dos estudos de comunicao efectuou-se, ba- sicamente, nos departamentos de sociologia das grandes universidades americanas. Compreende-se, assim, que se tenha armado, como paradigma dominante nos estudos de comunicao, um paradigma no apenas funcionalista e centrado nos efeitos mas tambm sociolgico. No entanto, logo na altura da sua constituio, este paradigma foi considerado como reducionista a vrios ttulos, a saber: i) Epistemolgico: reduz os estudos de comunicao sociolo- gia da comunicao e, dentro desta, sociologia da comunicao de massa e, ainda dentro desta, sociologia dos efeitos com a exclu- so ou, pelo menos, a secundarizao no s das outras cincias sociais como das chamadas humanidades; ii) Ontolgico: reduz a comunicao comunicao de massa, e esta aos seus (supostos) efeitos com a excluso, ou pelo menos a secundarizao, dos outros tipos de comunicao e de outras proble- mticas importantes no estudo da comunicao;20 19 Joo Pissarra Esteves (org.), Comunicao e Sociedade. Os efeitos sociais dos meios de comunicao de massa, Lisboa, Livros Horizonte, 2002, p. 13. Ainda sobre a problemtica dos efeitos, cf. Jennings Bryant, Dolf Zillman (eds.), Los Efectos de los Medios de Comunicacin. Investigaciones y teoras, Barcelona, Paids, 1996. 20 Compreende-se, assim, que uma obra ainda (relativamente) recente sobre as te- www.labcom.ubi.pt 26. i i i i i i i i 18 Paulo Serra iii) Metodolgico: reduz o mtodo cientco ao mtodo emprico, quantitativo e estatstico excluindo, como no cientcos, os mtodos qualitativos, descritivos e interpretativos e prolongando, assim, uma viso positivista da cincia e o seu monismo metodolgico; iv) Poltico: reduz a comunicao e os media a instrumentos da integrao social, da estabilidade e do consenso excluindo assim de facto, em nome da pesquisa administrativa, toda e qualquer possibi- lidade de uma verdadeira crtica da comunicao e da sociedade vigen- tes. Em consequncia, todos e cada um destes pressupostos do pa- radigma dominante foram sendo postos em causa por teorias, seja contemporneas seja posteriores, pressupondo paradigmas alternativos. No sendo nosso objectivo, nesta introduo, analisar esse processo, limitar-nos-emos a indicar algumas das principais teorias integrantes desses paradigmas e alguns dos seus principais fundadores: a te- oria crtica da Escola de Frankfurt, nomeadamente Theodor Adorno e Max Horkheimer; a teoria dos media da Escola de Toronto, no- meadamente Harold Innis e Marshall McLuhan; os estudos culturais (cultural studies) da Escola de Birmingham, nomeadamente Richard Hoggartt, Raymond Williams e Stuart Hall; a semitica, estruturalista ou no, nomeadamente Roland Barthes e Umberto Eco; o chamado es- truturalismo, nomeadamente Michel Foucault; a crtica da cultura de autores como Kenneth Burke e Alann Bloom; a esttica da inun- cia e da recepo de Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser; a fenomeno- logia e a hermenutica, nomeadamente Martin Heiddeger, Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur; o marxismo, nomeadamente Louis Althus- ser, Hans Magnus Henzensberger e Henri Lefbre; a teoria dos actos de fala de John Austin e John Searle; a pragmtica conversacional orias da comunicao de massa arme que, com o seu primeiro captulo, pretende- se estreitar o hiato entre o estudo da comunicao humana enquanto processo geral e o estudo especco da comunicao de massa. Melvin L. DeFleur, Sandra Ball- Rokeach, Theories of Mass Communication, Nova Iorque, Longman, 1988, p. xi. www.labcom.ubi.pt 27. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 19 de autores como Oswald Ducrot e Paul Grice; a antropologia interpre- tativa de Clifford Geertz; etc. Dentro do campo da prpria sociologia, teorias como a dos usos e graticaes, de Elihu Katz e J. Blumer, ambos trnsfugas do campo funcionalista, a fenomenologia social de Alfred Schutz, o in- teraccionismo simblico de George Herbert Mead e Herbert Blumer, a sociologia das interaces de Erving Goffman, a etnometodologia de Harold Garnkel, a nova comunicao dos autores da escola de Palo Alto, a comear por Gregory Bateson, a prpria teoria dos siste- mas sociais de Niklas Luhmann, bem como autores como Egar Mo- rin, Pierre Bourdieu, Jean Baudrillard e Anthony Giddens, para alm de muitas outras teorias e autores, representaram tambm contributos importantes para o pr em questo do paradigma dominante. Mas, mais do que enumerar todos estes autores e teorias que, de uma forma ou outra, contriburam para pr em questo os pressupos- tos do paradigma dominante e obrigados a esquecer muitos outros que tambm poderamos ter nomeado , o que nos interessa chamar a ateno para o facto de que eles provm de campos muito diversos, que incluem a sociologia, nomeadamente a no funcionalista, mas tambm disciplinas como a antropologia, a economia, a histria, a psicologia social, a cincia poltica, a lingustica, a semitica, a losoa, os es- tudos literrios, etc., defendendo perspectivas tambm elas muito di- versas. antes de mais esta multiplicidade e diversidade que, como veremos adiante, torna problemtico o campo a que hoje generaliza- damente nos referimos como o das cincias da comunicao e, dentro deste, a rea disciplinar da teoria da comunicao. Na expresso ci- ncias da comunicao, a palavra cincia no pode entender-se num sentido limitativo e limitativo a um duplo ttulo: i) Limitando o campo cientco s cincias ditas lgico-formais ou empricas - as verdades de razo e as verdades de facto de que j falava Leibinz , o que excluiria, do campo das cincias da comunica- o, todas as disciplinas ditas normativas que, como a tica, a Retrica, etc., tratam de valores e de normas de aco; www.labcom.ubi.pt 28. i i i i i i i i 20 Paulo Serra ii) Limitando o campo cientco s cincias ditas tericas o que excluiria, do campo das cincias da comunicao, todas as disciplinas que, seguindo a terminologia de Aristteles, podemos chamar poiti- cas (disciplinas como os ateliers de Jornalismo, de Publicidade, etc.) e prticas (as j referidas tica, Retrica, etc.). Em obra recente, Klaus Bruhn Jensen resume toda esta multipli- cidade e diversidade referindo-se s Humanidades e s Cincias Soci- ais como as duas grandes reas epistemolgicas que se encontram na base das cincias da comunicao destacando, no seio das primei- ras, quatro grandes tradies, algumas delas remontando aos comeos da prpria losoa: a retrica, a hermenutica, a fenomenologia e a semitica.21 Enfatizando a importncia destas quatro tradies das Humanidades na emergncia dos estudos de comunicao, e relativi- zando, ao mesmo tempo, o papel da sociologia da comunicao nessa emergncia, Jensen acrescenta, noutro passo da mesma obra, que [...] antes das primeiras origens da pesquisa sobre os media, a maior parte do pensamento sobre a comunica- o e os seus efeitos tinha sido conduzida nas tradies retrica e esttica de investigao, desde a retrica de Aris- tteles, passando pela esttica de Kant e a hermenutica do sculo dezanove, at semitica continuando todas elas a informar a teoria contempornea da comunicao.22 21 Cf. Klaus Bruhn Jensen, The humanities in media and communication re- search, in Klaus Bruhn Jensen (ed.), A Handbook of Media and Communication Research. Qualitative and quantitative methodologies, Londres, Routledge, 2003, pp.15-39; Graham Mudock, Media, culture and modern times. Social science in- vestigations, ibidem, pp. 40-57. Cf., sobre a mesma temtica, tambm Klaus Bruhn Jensen, On the Edge. A Meta-Analysis of the State of Media and Communication Research, www.nordicom.gu.se/reviewcontents/ ncomreview/ncomreview200/KBJensen.pdf. 22 Klaus Bruhn Jensen, Media reception. Qualitative traditions, in Jensen (ed.), A Handbook of Media and Communication Research. Qualitative and quantitative methodologies, pp. 156-7. www.labcom.ubi.pt 29. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 21 Sublinhemos, nesta citao de Jensen, a sua armao de que as quatro tradies referidas as Humanidades continuam todas elas a informar a teoria contempornea da comunicao. Indo ainda mais longe do que Jensen, armaremos mesmo que, nos tempos mais recen- tes, so essas tradies que tm vindo a fornecer algumas perspectivas tericas e mtodos que tm possibilitado a renovao de estudos de co- municao que tinham atingido uma certa cristalizao teortica, epis- temolgica e metodolgica, muito por responsabilidade e pelo peso do tal paradigma dominante da sociologia da comunicao. O resultado do processo que temos vindo a descrever que nos con- duz, no fundo, situao presente foi, como dissemos, a alterao de todos e cada um dos vrios pressupostos do paradigma dominante. Assim, e retomando a enumerao feita algumas pginas atrs, as ac- tuais cincias da comunicao podem ser caracterizadas da forma que se segue a ttulo: i) Epistemolgico: englobam uma multiplicidade de disciplinas, das cincias sociais s humanidades, e mesmo de perspectivas dentro de cada uma da dessas disciplinas (veja-se, mais uma vez, o caso da sociologia); ii) Ontolgico: centram-se no estudo de uma enorme multiplicidade de aspectos das vrias formas de comunicao, de massa e inter- pessoal, directa e mediatizada, verbal e no-verbal, passadas e contem- porneas, etc.; iii) Metodolgico: utilizam o mtodo quantitativo e estatstico, mas tambm o mtodo qualitativo e descritivo, o mtodo experimental (com as devidas adaptaes), o mtodo crtico-reexivo e, mais generica- mente, todos os mtodos que possibilitem o controlo intersubjectivo dos resultados, de tal forma que, e recorrendo terminologia de Dilthey, podemos dizer que coexistem nelas a explicao, prpria das cincias da natureza, e a compreenso, das cincias do esprito fazendo com que o monismo metodolgico d lugar a um verdadeiro plura- www.labcom.ubi.pt 30. i i i i i i i i 22 Paulo Serra lismo metodolgico, para no dizermos mesmo anarquismo episte- molgico, no sentido que Feyerabend d a tal expresso;23 iv) Poltico: vem a comunicao e os media como promotores da integrao mas tambm da desintegrao social, da estabilidade mas tambm da instabilidade, do consenso mas tambm do dissenso, tudo isto com variantes e em graus diversos congurando uma situao a que, para utilizarmos novamente uma expresso de Feyerabend, cha- maremos relativismo democrtico. Acrescente-se, nalmente, que s Humanidades e Cincias Sociais referidas por Jensen como fontes dos estudos de comunicao, teremos de juntar as Cincias Fsico-Matemticas j que, como armmos na seco anterior, e pelas razes ento aduzidas, a Teoria Matemtica da Comunicao de Shannon e Weaver e a prpria Ciberntica de Wiener e Foerster so outra das grandes fontes dos estudos de comunicao. Falaremos, assim, no em duas mas em trs grandes fontes desses es- tudos. 1.3 O campo espistmico das cincias da comunicao A histria dos estudos de comunicao que delinemos explica, em grande medida mas no totalmente, como procuraremos argumen- tar adiante , porque que o actual campo das cincias da comuni- cao epistemologicamente problemtico: como conciliar a multipli- cidade e diversidade de disciplinas, cada uma com as suas perspectivas, os seus centros de interesse e os seus mtodos prprios? Como estudar o que h de comum na multiplicidade e diversidade de fenmenos co- municacionais que as diversas disciplinas estudam? Em que medida se pode falar de um conjunto unicado de cincias que tm como objecto especco a comunicao? E o que se entende por comuni- cao? Acresce, ao anterior, que algumas das disciplinas que constam 23 Cf. Paul K. Feyerabend, Contra o Mtodo, Lisboa, Relgio D gua, 1993. www.labcom.ubi.pt 31. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 23 dos chamados cursos de cincias da comunicao dicilmente po- dem ser consideradas cincias no sentido restrito e moderno, mas to-s no sentido antigo e aristotlico, do termo: seja porque so cin- cias poiticas, que visam e ensinar a produzir um determinado saber- fazer, prossionalizante (como o caso das disciplinas ditas prticas, como os diversos ateliers), seja porque so cincias prticas, que vi- sam ns mais ou menos normativos (com o o caso da tica ou deon- tologia). No admira, assim, que ainda em 1994, Adriano Duarte Ro- drigues, um dos principais fundadores e impulsionadores dos estudos de comunicao em Portugal, referindo-se ao desenvolvimento desses estudos sobretudo a partir de 1930, arme que [...] apesar da quantidade dos trabalhos e do nmero das equipas a que desde ento deram origem, no existe ainda hoje, neste domnio do saber, um corpo homogneo de conhecimentos nem uma metodologia capaz de consti- tuir um processo cumulativo de investigaes. Existe antes uma congurao de orientaes muito diversicadas, um conjunto de referncias provenientes da losoa, da antro- pologia, da lingustica, da sociologia, da psicossociologia, referncias a que os estudiosos da problemtica comuni- cacional recorrem e que articulam em funo das questes que procuram equacionar e resolver.24 Escassos dois anos depois, este carcter problemtico dos estudos de comunicao continua a ser sublinhado pelo mesmo autor quando se refere ao lugar paradoxal desta rea na Universidade: , por um lado, uma rea em expanso, preferida por um nmero crescentes de candidatos ao ensino superior, mas , por outro lado, uma rea em que o esforo pedag- gico e prossionalizante se sobrepe ao trabalho cientco, 24 Adriano Duarte Rodrigues, Comunicao e Cultura. A experincia cultural na era da informao, Lisboa, Presena, 1994, p. 40. www.labcom.ubi.pt 32. i i i i i i i i 24 Paulo Serra tornando-se por isso uma rea desacreditada, olhada com suspeio por parte das outras reas do saber.25 Para obviar a tal situao, o autor aponta quatro tarefas urgentes e prioritrias, a segunda das quais consiste exactamente em delimitar as fronteiras da rea da comunicao em relao s outras reas de saber, procurando denir a sua especicidade. Para isso, o autor v apenas duas maneiras possveis, a material e a formal. De acordo com a maneira material, os estudos de comunicao inci- diriam nas reas da oralidade, da escrita, do audiovisual e do multim- dia. Esta maneira apresenta, no entanto, dois tipos de problemas: por um lado, cada uma das reas mencionadas estudada por outras disci- plinas, no constituindo, portanto, uma rea especca dos estudos de comunicao; por outro lado, a comunicao no se reduz materia- lidade das reas mencionadas, antes exigindo uma elaborao terica especca e transversal a essas materialidades. Resta-nos, por con- seguinte, a maneira formal, centrada numa perspectiva propriamente comunicacional uma perspectiva de que o Ensaio sobre a Ddiva, de Marcel Mauss, poder servir como orientao , e que se deixa resumir na tese de que a comunicao o domnio em que se proces- sam as trocas simblicas e se constituem, se alimentam, se reproduzem e se restabelecem as relaes intersubjectivas da sociabilidade.26 Uma tal maneira formal de denir a comunicao e, por conse- guinte, de resolver o problema da especicidade dos estudos de comu- nicao incluindo o prprio recurso ao exemplo de Mauss, consi- derado um dos pais da antropologia moderna , coloca, desde logo, 25 Adriano Duarte Rodrigues, Os Estudos de comunicao na Universidade, 1996, www.bocc.ubi.pt. O que se segue uma explicitao das principais teses deste artigo, que serviro de ponto de partida para a nossa reexo ulterior. Sublinhe-se, ainda, que Daniel Bougnoux apresenta uma delimitao da comunicao que vai no mesmo sentido, ao armar que o agir comunicacional no coloca em relao o sujeito e o objecto (par tcnico), mas o sujeito com o sujeito (par pragmtico). o homem agindo sobre (as representaes de) o homem pela via dos signos. Daniel Bougnoux, Introduction aux Sciences de la Communication, Paris, La Dcouverte, 2001, p. 9. 26 Cf. Rodrigues, ibidem. www.labcom.ubi.pt 33. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 25 um problema epistemolgico crucial: o da possvel identicao do so- cial com o comunicacional e, por consequncia, das cincias sociais e humanas com os estudos de comunicao.27 De facto, e como fazamos notar em artigo recente,28 h hoje um conjunto de autores que pensam uma tal identicao como justi- cada ainda que geralmente no coincida o conceito de comunica- o que tais autores pressupem. Referiremos, aqui, apenas alguns exemplos mais conhecidos. Assim, no campo da antropologia Claude Lvi-Strauss propunha-se, logo em ensaio de 1951, considerar as re- gras de casamento e os sistemas de parentesco como uma espcie de linguagem, quer dizer, um conjunto de operaes destinadas a assegu- rar, entre os indivduos e os grupos, um certo tipo de comunicao [no caso, das mulheres entre os cls, linhagens ou famlias];29 acrescente- se que o captulo/ensaio a que pertence esta citao o captulo III, intitulado Linguagem e sociedade se inicia, precisamente, com a re- ferncia de Lvi-Strauss a Norbert Wiener e ao seu livro Ciberntica, ou Controlo e Comunicao no Animal e na Mquina, de 1948. Al- guns anos depois, e ainda no campo da antropologia, um dos tericos da Escola de Palo Alto, Edward T. Hall, armava de forma lapidar que "a cultura comunicao e a comunicao cultura".30 No campo da lingustica, Roman Jakobson armava mesmo, num dos seus ensaios, a incluso da lingustica no crculo da semitica e a desta, da antro- pologia social, da sociologia e da economia no crculo mais largo 27 Esta questo fundamental embora referindo-se Semitica ou Semiologia, e no s cincias da comunicao , era colocada, j h alguns anos, num manual de sociologia da comunicao, decidindo o autor deix-la, por razes de oportuni- dade, fora do mbito das suas preocupaes: Trata-se da questo da possibilidade de incorporar a Sociologia, juntamente com outras Cincias Sociais, a uma cincia geral dos sistemas de signos: a uma Semiologia, ou Semitica, portanto. Gabriel Cohn, Sociologia da Comunicao. Teoria e Ideologia, S. Paulo, Pioneira, 1973, p. 13. 28 Cf. Paulo Serra, Comunicao e utopia, in Jos M. S. Rosa, J. Paulo Serra (orgs.), Da f na Comunicao comunicao da F (a aguardar publicao). 29 Claude Lvi-Strauss, Anthropologie Structurale, Paris, Plon, 1974, p. 69. 30 Edward T. Hall, A Linguagem Silenciosa, Lisboa, Relgio Dgua, 1994 (1959), p. 215. www.labcom.ubi.pt 34. i i i i i i i i 26 Paulo Serra de uma cincia integrada da comunicao ainda que, e por razes que aqui no explicitaremos, atribuisse lingustica um papel central no seio dessa cincia integrada da comunicao , fazendo sua a observao sempre oportuna de Sapir de acordo com a qual todo o sistema cultural e cada acto isolado de comportamento social implica a comunicao quer num sentido explcito quer num sentido implcito.31 No campo da sociologia, Niklas Luhmann tem vindo a armar que a sociedade unicamente composta de comunicaes (e no de homens, por exemplo) e [que] tudo o que no comunicao pertence ao ambi- ente desse sistema.32 Numa reexo em que se mesclam a antropolo- gia, a psicologia, a psiquiatria e a prpria losoa, os investigadores da chamada Nova Comunicao, nomeadamente os da Escola de Palo Alto - referimo-nos, concretamente, a autores como Gregory Bateson, Ray Birdwhistell, Erving Goffman, Edward Hall, Don Jackson, Arthur Scheen e Paul Watzlawick - propem-se considerar os diversos sis- temas interpessoais, incluindo a grupos de estrangeiros sem ligao entre si, casais, famlias, relaes psicoteraputicas e mesmo relaes internacionais, como outros tantos fenmenos de comunicao, re- duzindo esta s relaes entre as entradas (input) e as sadas (out- put) de informao33 , e acabando, assim, por identicar comporta- mento e comunicao.34 No campo da losoa e da sociologia, e se 31 A semitica, enquanto estudo da comunicao de todas as espcies de mensa- gens, o crculo concntrico mais pequeno que envolve a lingustica, cujo domnio de pesquisa se limita comunicao das mensagens verbais. O crculo concntrico seguinte, mais largo, uma cincia integrada da comunicao que abraa a antropolo- gia social, a sociologia e a economia Roman Jakobson, Le langage en relation avec les autres systmes de communication, Essais de Linguistique Gnrale, Volume 2, Rapports Internes et Externes du Langage, Paris, Les ditions de Minuit, 1973, p. 93. Cf. ainda, na mesma obra, o ensaio Relations entre la science du langage et les autres sciences, pp. 9-76. 32 Niklas Luhmann, La diffrentiation de la politique et de lconomie", in Politi- que et Complexit, Paris, Les ditions du Cerf, 1999, p. 52. 33 Cf. P. Watzlawick, J. Helmick Beavin, D. Jackson, Une Logique de la Commu- nication, Paris, ditions du Seuil, 1972, p. 26. 34 Watzlawick, Beavin, Jackson, ibidem, p. 16. www.labcom.ubi.pt 35. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 27 bem que partindo de pressupostos no s diferentes como antagnicos em relao a muitos dos autores que acabmos de referir, Jrgen Ha- bermas tem vindo a enfatizar a importncia do agir comunicacional35 em relao ao agir instrumental, propondo o ideal de uma sociedade em que no s se mantenham separados os dois tipos de aco mas em que o primeiro tipo acabe por, em ltima anlise, dirigir o segundo; uma sociedade em que, atravs da destruio das restries da comu- nicao, se torne possvel a discusso pblica, sem restries e sem coaces (...) em todos os nveis dos processos polticos e dos proces- sos novamente politizados de formao da vontade.36 Quanto s origens desta viragem comunicacional, j h mais de trs dcadas Michel Foucaul atribua-a prpria lingustica de Saussure interpretando, assim, a viragem lingustica como viragem comu- nicacional , assente numa concepo de lngua no como traduo do pensamento e representao mas sim como forma de comu- nicao, e a partir da qual o colectivo ou social deixar de ser a universalidade do pensamento, quer dizer, uma espcie de grande su- jeito que seria uma algo como uma conscincia social ou personalidade de base, para ser um conjunto constitudo por plos de comunica- o, por cdigos que so efectivamente utilizados e pela frequncia e estrutura das mensagens que so enviadas.37 Uma perspectiva que, sublinha Foucault, no se limita s cincias sociais e humanas, antes se estendendo generalidade das cincias, nomeadamente biologia, atravs dos estudos sobre a hereditariedade e o cdigo gentico: Para resumir tudo isso, direi que a lingustica se arti- cula actualmente sobre as cincias humanas e sociais por uma estrutura epistemolgica que lhe prpria, mas que 35 Cf. Jrgen Habermas, Thorie de lAgir Communicationnel, Tome 1, Rationalit de lAgir et Rationalisation de la Socit, Paris, Fayard, 1987, p. 102. 36 Jrgen Habermas, Tcnica e Cincia como Ideologia, Lisboa, Edies 70, 1993, p. 88. 37 Michel Foucault, Linguistique et sciences sociales (1969), in Dits et crits, Volume I (1954-1969), Paris, Gallimard, 1998, pp. 826-7. www.labcom.ubi.pt 36. i i i i i i i i 28 Paulo Serra lhe permite (...) fazer aparecer o carcter se no universal pelo menos extraordinariamente espalhado dos fenmenos de comunicao, que vo da microbiologia sociologia (....).38 A maior parte dos cientistas sociais e humanos no aceita, obvia- mente, esta (possvel) identicao entre o social/humano e o comuni- cacional, as cincias sociais e humanas e as cincias da comunicao tendendo a considerar a comunicao como um elemento entre ou- tros do seu objecto de estudo (a sociologia da comunicao, a eco- nomia da comunicao, o direito da comunicao, etc.), e a ver-se como cientistas da sua prpria cincia mesmo quando, e sobretudo quando, fazem as suas incurses nos domnios da comunicao.39 Um dos corolrios desta posio a armao de que as cincias da comunicao no passam de um espao ou territrio interdiscipli- nar em que as vrias cincias sociais e humanas conuem, cada uma com a sua perspectiva prpria, os seus prprios mtodos e objectivos para o estudo da sobredita comunicao constituindo assim as cin- cias da comunicao uma espcie de apndice sem direito a existncia prpria, sua prpria autonomia. Mas uma tal posio ignora, precisamente, que aquilo a que se chama a comunicao no um objecto emprico ou material, mas antes um objecto formal: uma certa perspectiva ou ponto de vista so- bre os fenmenos sociais e humanos. Um ponto de vista que se refere quilo a que, nos fenmenos sociais e humanos, Adriano Duarte Rodri- gues chama, como vimos, as trocas simblicas e as relaes inter- subjectivas da sociabilidade, ou quilo a que Daniel Bougnoux chama a aco do homem sobre o homem por via dos signos. O mesmo dizer que, e para recorrermos a alguns exemplos, a sociologia da co- municao menos o estudo sociolgico de um fenmeno chamado 38 Foucault, ibidem, p. 828. 39 Cf. Bernard Mige, "Le communicationnel et le social: dcits rcurrents et n- cessaires (re)-positionnements thoriques", in Loisir et Socit, vol. 21, No 1, Presses de l Universit du Qubec, 1998, http://www.u-grenoble3.fr/les_enjeux. www.labcom.ubi.pt 37. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 29 comunicao que uma viso comunicacional dos factos sociais; a antropologia da comunicao menos o estudo antropolgico da co- municao que o estudo comunicacional da cultura; a lingustica menos o estudo lingustico da comunicao que a viso comunica- cional da lngua; e assim sucessivamente. Isso mesmo parece querer signicar Bougnoux quando arma sobre as cincias da informao e da comunicao que, [...] no campo intelectual, a disciplina surgiu de uma interrogao antropolgica sobre a redenio da cultura, identicada com as diferentes maneiras de comunicar e centradas, em primeiro lugar, nos anos 60, na troca e na formalizao lingustica (com as pesquisas estruturalistas de Lvi-Strauss, Barthes ou Jakobson).40 Esta viso das cincias da comunicao no nega que, e como se arma correntemente, elas constituam um espao interdisciplinar ou uma interdisciplina, como lhe chama Bougnoux.41 No cremos, no entanto, que tal interdisciplina possa ser concebida como o faz o au- tor, seja como uma espcie de continuao da losoa tradicional por meios menos idealistas,42 seja como uma espcie de actividade de colagem de saberes que, sem isso, permaneceriam dispersos e cegos uns perante os outros,43 seja ainda como uma espcie de nuvem meta- 40 Daniel Bougnoux, Introduction aux Sciences de la Communication, Paris, La Dcouverte, 2001, p. 7. 41 Cf. Bougnoux, ibidem, p. 3 et passim. 42 sua maneira, a comunicao prolonga a losoa relanando as grandes questes tradicionais (....). Com menos idealismo que a abordagem losca, as SIC examinam as condies prticas (a ferramenta meditica, institucional e simblica) que so as nossas. Bougnoux, ibidem, pp. 7-8. 43 Pensar os fenmenos de comunicao leva a vrias ingerncias em outras dis- ciplinas, nas quais ns exerceremos um direito de acompanhamento. No pelo prazer de adicionar pedaos de saberes dispersos, mas para colocar estes em unio, parar os ligar e esclarecer uns pelos outros. Bougnoux, ibidem, p. 5. www.labcom.ubi.pt 38. i i i i i i i i 30 Paulo Serra frica que cobre todos os saberes (para os velar?).44 Todas estas vises nos parecem oscilar entre aquilo a que, e passe o exagero, chamaremos o paternalismo e o providencialismo epistemolgicos. Na realidade, a interdisciplinaridade que caracteriza as cincias da comunicao resulta no do facto de mltiplas disciplinas, com pers- pectivas diferentes, estudarem a mesma coisa a comunicao , mas, ciomo dissemos, do facto de mltiplas disciplinas, adoptando a mesma perspectiva comunicacional , estudarem coisas diferentes, correspondendo aqui, estas coisas diferentes, aos diferentes objectos das vrias cincias sociais e humanas.45 Assim, e ainda que pelas ra- zes contrrias s aduzidas pelo autor, parece continuar a justicar-se a armao feita pelo mesmo Bougnoux, em 1999, de que a metfora da saladeira , sem dvida, mais apropriada do que a do melting pot para pensar esta diversidade do pr em comum das cincias da comunica- o, cujo plural inultrapassvel, rebelde a toda a tentativa prematura de unicao.46 Quanto s razes pelas quais a identicao do social com o comu- nicacional e das cincias sociais e humanas com as cincias da comu- nicao no anula a especicidade das primeiras em relao s segun- das uma hiptese que, dada a viragem comunicacional que acima referimos, no parece de todo descabida , uma primeira razo, epis- temolgica, tem a ver com o facto de cada uma das cincias sociais continuar a manter, a par da perspectiva comunicacional, o seu objecto (formal) especco, a sua linguagem prpria e, em muitos casos, uma particular forma de utilizao dos mtodos e tcnicas de investigao 44 A comunicao como uma grande nuvem que os ventos empurram e esfar- rapam, e que plana praticamente sobre todos os saberes. Bougnoux, ibidem, pp. 10-11. 45 Cf., acerca da distino das diversas cincias sociais, o clssico de A. Sedas Nunes, Questes Preliminares sobre as Cincias Sociais, Lisboa, Presena, 2001. 46 Daniel Bougnoux, La communication au carrefour des savoirs, in Jos A. Bra- gana de Miranda, Joel Frederico da Silveira (orgs.), As Cincias da Comunicao na Viragem do Sculo, Actas do I Congresso da Associao Portuguesa de Cincias da Comunicao, Lisboa, Vega, 2002, p. 99. www.labcom.ubi.pt 39. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 31 cientca. Outra razo reside, obviamente, na posio institucional, acadmica e no s, de ambos os grupos de cincias. De facto, e como mostrou Thomas Kuhn, a denio de uma disciplina ou de um con- junto de disciplinas como cientcas no envolve apenas critrios epis- temolgicos, mas tambm sociolgicos mais concretamente, a cada paradigma corresponde uma determinada comunidade cientca e, a esta, determinados papis e estatutos acadmicos e institucionais que determinam o seu reconhecimento no s pela comunidade cientca em geral como pelo conjunto da sociedade, e que se materializam na existncia de cursos universitrios visando, nomeadamente, a forma- o prossional para determinadas reas, de investigaes, de reunies e publicaes cientcas, etc.. Ora, a este nvel, a distino entre os cientistas sociais e humanos e os da comunicao continua a ser forte. Uma posio algo semelhante tambm defendida por Roland Barthes quando, referindo-se s cincias sociais e humanas, arma que o que dene a cincia [...] no nem o seu contedo (ele , frequentemente, mal limitado e lbil), nem o seu mtodo (ele varia de uma cincia para outra: o que h de comum entre a cincia his- trica e a psicologia experimental), nem a sua moral (a se- riedade e o rigor no so propriedade da cincia), nem o seu modo de comunicao (a cincia impressa nos livros, como tudo o resto), mas to-s o seu estatuto, quer dizer, a sua determinao social: objecto da cincia toda a ma- tria que a sociedade julga digna de ser transmitida. Numa palavra, a cincia aquilo que se ensina.47 47 Roland Barthes, "De la science la littrature", in Oeuvres Compltes, Tome II, Paris, ditions du Seuil, 2002, p. 1263. www.labcom.ubi.pt 40. i i i i i i i i 41. i i i i i i i i Captulo 2 A Teoria da Comunicao no campo das cincias da comunicao 2.1 A multiplicidade das teorias da comunicao Ao contrrio do que indica a sua morfologia, teoria da comunicao uma expresso que se refere no s a um plural como a um plural extremamente problemtico. Bastaria, para tal constatao, limitarmo- nos a percorrer os ndices dos vrios manuais ou a consultar os progra- mas das vrias instituies universitrias que versam sobre o tema; se quisssemos apenas nomear os autores que enfatizam uma tal multipli- cidade e problematicidade, a lista seria quase interminvel.1 Faremos referncia, por isso mesmo, apenas a trs exemplos recentes. Assim, logo no incio de uma obra destinada a introduzir alguma 1 Cf. Luiz C. Martino, "pistmologie de la communication: scepticisme et in- telligibilit du savoir communicationnel", in Les Enjeux de lInformation et de la Communication, 2003, http://www.u-grenoble3.fr/les_enjeux. 33 42. i i i i i i i i 34 Paulo Serra ordem na matria, interroga-se o autor: como cobrir estes territrios imensos e articul-los entre si? Como entender-se acerca de uma base ou um corpus mnimo de referncias tericas, de conceitos ou, como se diz, de paradigmas?2 Noutra, destinada a analisar as metodologias da pesquisa em media e comunicao, o autor refere que Anderson (1996) identicou, recentemente, 249 denies ou teorias da comu- nicao.3 Numa terceira, os organizadores de umas jornadas e de um volume recentes sobre as teorias da comunicao referem-se ao risco de que a reunio de anlises provenientes de to diferentes perspecti- vas acabe por no ser mais do que uma ecltica manta de retalhos que apenas servir, quando muito, para fazer um balano mais ou menos exaustivo ou monumental, das abordagens tericas em voga.4 No admira, portanto, que quase a terminar o seu volumoso clssico apenas sobre a teoria da comunicao de massas, McQuail arme: impossvel aqui apresentar uma avaliao adequada do que se entende por teoria em relao comunicao de massas, mas h que admitir que o grosso do trabalho descrito de forma sumria neste livro ainda muito frag- mentrio e tambm de qualidade varivel.5 Mas nada disto, diga-se, passa da constatao pura e simples. Im- porta, pois, indagar as razes da pluralidade e problematicidade que caracterizam o domnio da teoria da comunicao o que faremos, 2 Daniel Bougnoux, Introduction aux Sciences de la Communication, Paris, La Dcouverte, 2001, p. 3. 3 Klaus Bruhn Jensen, Context, cultures and computers. The cultural contexts of mediate communication, in Klaus Bruhn Jensen (ed.), A Handbook of Media and Communication Research. Qualitative and quantitative methodologies, Londres, Routledge, 2003, p. 172 (Jensen refere-se a J. Anderson, Communication Theory: Epistemological Foundations, Nova Iorque, The Guilford Press, 1996). 4 Jos Manuel Santos, Joo Carlos Correia (orgs.), Teorias da Comunicao, Co- vilh, UBI, 2004, p. 7. 5 Denis McQuail, Teoria da Comunicao de Massas, Lisboa, Gulbenkian, 2003, p. 484. www.labcom.ubi.pt 43. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 35 a seguir, tomando como ponto de partida o conceito kuhniano de para- digma. 2.2 Paradigmas e teorias Apesar das crticas a que foi submetida a obra de Thomas S. Kuhn A Estrutura das Revolues Cientcas, de 1962, e em particular o seu conceito de paradigma em posfcio de 1969 o prprio Kuhn se refere ao facto de Margaret Masterman ter concludo que o termo era utilizado naquela obra de vinte e duas maneiras diferentes ,6 esse con- ceito, bem como os conceitos conexos, continua a ter um inegvel valor explicativo e heurstico no domnio da epistemologia. No sendo nosso objectivo analisar aqui de forma detalhada um tal conceito, interessa- nos, no entanto, e por razes que adiante se percebero, analisar dois aspectos fundamentais a ele atinentes: i) a relao ente os conceitos de paradigma e teoria cientca; ii) a tese kuhniana acerca da inco- mensurabilidade dos paradigmas. Relativamente ao primeiro aspecto, e como decorre, desde logo, do prprio conceito de paradigma, a relao entre teoria e paradigma a relao que existe entre a parte e o todo j que a teoria , juntamente com os mtodos de investigao e padres cientcos (ou exemplos), um dos elementos que constituem essa mistura inextricvel que cons- titui um paradigma, e que dene no s o que so problemas cient- cos como o tipo de solues aceitveis para esses problemas.7 Mais 6 Thomas S. Kuhn, A Estrutura das Revolues Cientcas, S. Paulo, Perspec- tiva, 2000, p. 226. Sobre as crticas a Kuhn cf. por exemplo Imre Lakatos, Alan Musgrave (eds.), Criticism and the Growth of Knowledge, Cambridge, Cambridge University Press, 1999. Note-se, no entanto, que no artigo que dedica ao conceito de paradigma, inserto nesta ltima obra, Masterman refere-se apenas a vinte e um sentidos que podem, em ltima anlise, reduzir-se a trs: paradigmas metafsicos ou meta-paradigmas, paradigmas sociolgicos e paradigmas construtivos ou artefactuais (construct paradigms ou artefact paradigms). Margaret Masterman, The nature of a paradigm, in Lakatos, Musgrave, ibidem, pp. 61-66. 7 Ao aprender um paradigma, o cientista adquire ao mesmo tempo uma teoria, www.labcom.ubi.pt 44. i i i i i i i i 36 Paulo Serra especicamente, a relao entre paradigmas, teorias e fenmenos ca- racterizada de forma sumria, por Kuhn, da seguinte forma: Os para- digmas fornecem a todos os fenmenos (excepo feita s anomalias) um lugar no campo visual dos cientistas, lugar esse determinado pela teoria8 ; acrescentando, noutro passo mais ou menos do mesmo teor, que o paradigma [...] informa o cientista que entidades a natureza con- tm ou no contm, bem como as maneiras segundo as quais essas entidades se comportam. Essa informao for- nece um mapa cujos detalhes so elucidados pela pesquisa cientca amadurecida. (...) Por meio das teorias que encarnam, os paradigmas demonstram ser constitutivos da actividade cientca.9 Sublinhemos, nestas armaes de Kuhn, dois pontos que nos pa- recem fundamentais: em primeiro lugar, que no h fenmenos em si, fora do campo de viso ou do horizonte aberto por um para- digma e pelas teorias que o integram, que os fenmenos so, por ou- tras palavras, construes paradigmtico-tericas; em segundo lugar, que o paradigma fornece o mapa do territrio cientco o conjunto dos fenmenos relevantes que as teorias esto destinadas a elucidar e pormenorizar, estabelecendo relaes e previses fenomnicas. pre- cisamente esta articulao entre paradigmas, teorias e fenmenos que vista no sentido inverso explica porque que a rejeio de um para- digma pode ser ocasionada seja pela descoberta de um novo fenmeno, inexplicvel pelas teorias que integram o paradigma vigente e consti- tuindo, assim, uma anomalia, seja pela inveno de uma nova teoria, mtodos e padres cientcos, que usualmente compem uma mistura inextricvel. Por isso, quando os paradigmas mudam, ocorrem alteraes signicativas nos crit- rios que determinam a legitimidade, tanto dos problemas, como das solues propos- tas. Kuhn, op. cit., p. 144. 8 Kuhn, ibidem, p. 131. 9 Kuhn, ibidem, p. 143. www.labcom.ubi.pt 45. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 37 que visa explicar e/ou prever os fenmenos que as teorias que integram esse mesmo paradigma j/ainda no conseguem explicar e/ou prever e, para alm disso, contraditria com essas mesmas teorias.10 Assim, no podemos pensar que as teorias que integram um paradigma so uma espcie de acessrio de que o paradigma se poderia livrar sem qual- quer consequncia. Muito pelo contrrio: so as teorias que servem de suporte ao paradigma. Quando essas teorias comeam a titubear, a falhar na resposta s questes colocadas pelas anomalias, so no s as teorias que se afundam mas tambm os prprios paradigmas. Relativamente ao segundo aspecto, a incomensurabilidade dos pa- radigmas, podemos dizer que ela foi, sem dvida, uma das teses de Kuhn que deu azo a mais discusses e, segundo o prprio, tambm a mais ms interpretaes da sua obra. Essa incomensurabilidade existe a um duplo nvel, que poderamos designar por ntico e epistmico: a nvel ntico, porque os paradigmas sucessivos nos ensinam coisas diferentes acerca da populao do universo e sobre o comportamento dessa populao;11 a nvel epistmico, porque a recepo de um novo paradigma requer com frequncia uma redenio da cincia corres- pondente.12 So as alteraes a estes dois nveis ntico e epistmico - que explicam, portanto, porque que a tradio cientca normal que emerge de uma revoluo cientca no somente incompatvel, mas muitas vezes incomensurvel com aquela que a precedeu.13 De forma mais metafrica, o tipo de conversa possvel entre dois paradig- mas incomensurveis ser o de um autntico dilogo de surdos.14 Atendendo s crticas a que foi sujeita a obra de Kuhn, e que aqui tam- bm no pormenorizaremos, no Psfcio-1969 de A Estrutura das Revolues Cientcas o autor parece relativizar de alguma forma a sua tese da incomensurabilidade, substituindo a metfora do dilogo de surdos pela metfora da traduo. De acordo com esta ltima, a 10 Cf. Kuhn, ibidem, pp. 130-1. 11 Kuhn, ibidem, p. 137. 12 Kuhn, ibidem, p. 138. 13 Kuhn, ibidem, p. 138. 14 Cf. Kuhn, ibidem, p. 144. www.labcom.ubi.pt 46. i i i i i i i i 38 Paulo Serra incomensurabilidade signica, to-s, que os cientistas que partilham diferentes paradigmas so membros de diferentes comunidades de lin- guagem e que, para se entenderem entre si, tm de tornar-se traduto- res15 ainda que Kuhn no deixe de enfatizar que traduzir uma teoria ou uma viso do mundo na sua prpria linguagem no faz-la sua, uma traduo no equivale a uma converso.16 Sublinhe-se, ainda, que a incomensurabilidade dos paradigmas, bem como as revolues cientcas de que ela decorre, refere-se situao de uma cincia j rmada como tal e em que, portanto, existia um paradigma dominante e no situao a que Kuhn chama pr-paradigmtica, em que no seio de uma futura cincia existem vrios paradigmas em competio, sem predominncia de qualquer deles.A situao pr-paradigmtica , por consequncia, uma situao caracterstica da fase no-cientca ou pr-cientca de uma determinada cincia ou campo cientco. 2.3 Cincias paradigmticas e cincias multi-paradigmticas O que que tem a ver o conceito kuhniano de paradigma com a situao epistemolgica das cincias da comunicao e, dentro des- tas, da disciplina de Teoria da Comunicao? Para comear, podera- mos perfeitamente aplicar aos cientistas da comunicao, colocando-a no presente, a armao que George Ritzer faz acerca da importn- cia do trabalho de Kuhn para os socilogos: O trabalho de Tho- mas Kuhn forneceu um meta-sistema atractivo para os socilogos in- teressados em analisar o estatuto do seu campo.17 O autor refere-se, mais particularmente, ao conceito de paradigma e tese de que numa cincia plenamente constituda impera um paradigma e a correspon- 15 Kuhn, ibidem, p. 248. 16 Kuhn, ibidem, pp. 250-1. 17 George Ritzer, Sociology: a multiple paradigm science, The American Socio- logist, 1975, Vol. 10, Agosto, p.156. www.labcom.ubi.pt 47. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 39 dente comunidade cientca. Precisamente contra esta tese de Kuhn, Ritzer arma que a maior parte das cincias, incluindo a sociolo- gia contemporneas, carece de um nico paradigma abrangente. Elas so, de acordo com Masterman, cincias multi-paradigmticas.18 E, referindo-se ainda sociologia, acrescenta Ritzer que ela uma ci- ncia multi-paradigmtica; cada um dos seus paradigmas encontra-se em competio pela hegemonia no seio da disciplina como um todo, bem como, virtualmente, no seio de cada uma das sub-reas dentro da sociologia.19 Para sermos mais precisos, o texto de Masterman citado por Rit- zer refere-se no maior parte das cincias, como este diz, mas s cincias psicolgicas, sociais e da informao e sua presente situ- ao global (o texto de Masterman de 1965); o que no obsta a que, e como parece depreender-se de algumas passagens do texto, se no possa dizer que grande parte das cincias ditas naturais, e mesmo exactas, so hoje tambm multi-paradigmticas (basta pensar-se no problema dos fundamentos das matemticas e na sua interpretao por logicistas, intuicionistas e formalistas) de tal modo que a situa- o de cincias mono-paradigmticas (a expresso nossa) , talvez, uma excepo reservada a momentos e domnios do saber muito raros e especcos. Por conseguinte, se levssemos letra a tese de Kuhn que faz equi- valer cientco a mono-paradigmtico, teramos que dizer que a maior parte das cincias contemporneas, incluindo todas as cincias sociais e humanas e as cincias da comunicao, no seriam verdadeiramente cientcas algo que, obviamente, nenhum cientista ou epistemlogo contemporneo poderia aceitar (ou talvez s algum positivista mais em- 18 Ritzer, ibidem, p. 157. Entre ns, Joo Ferreira de Almeida e Joo Madu- reira Pinto optam pela utilizao do termo pluri-paradigmticas para caracterizar as cincias sociais. Cf. Joo Ferreira de Almeida e Joo Madureira Pinto, Da te- oria investigao emprica. Problemas metodolgicos gerais, in Augusto Santos Silva, Jos Madureira Pinto (orgs.), Metodologia das Cincias Sociais, Porto, Afron- tamento, 1987, p. 67. 19 Ritzer, ibidem, p. 158. www.labcom.ubi.pt 48. i i i i i i i i 40 Paulo Serra pedernido). De facto, e ainda segundo Masterman, o que acontece nas cincias multi-paradigmticas que cada paradigma dene um sub- campo, com a suas teorias prprias, as suas metodologias, as suas tc- nicas, e vai fazendo avanar a tarefa de puzzle-solving nesse sub-campo especco. Desta maneira, e mesmo no havendo nela um campo uni- cado, a cincia multi-paradigmtica cincia em sentido pleno (full science), de acordo com os prprios critrios de Kuhn; com a ressalva de que estes critrios tm de ser aplicados tratando cada sub-campo como um campo separado.20 A posio de Ritzer e Masterman assemelha-se, nesta matria, de Imre Lakatos que, a partir do seu conceito de programa de investiga- o, considera que o que Kuhn chama cincia normal no mais do que um programa de investigao que obteve o monoplio, acon- tecendo na realidade que os programas de investigao s raramente obtiveram o monoplio completo e, nesses casos, s por perodos rela- tivamente curtos. Assim, acrescenta Lakatos, A histria da cincia tem sido e devia ser uma histria de competio entre programas de investigao (ou, se se preferir, paradigmas), mas no tem sido e no se deve transformar numa sucesso de perodos de cincia nor- mal: quanto mais cedo se inicia a competio, melhor para o progresso.21 Quanto importante questo de saber como so eliminados os programas de investigao, a resposta de Lakatos a de que, gene- ricamente, a razo objectiva pela qual um programa de investigao elimina um seu rival deriva do facto de o paradigma vitorioso ser do- tado de um maior poder heurstico; mas este processo no nem 20 Margaret Masterman, The nature of a paradigm, in Imre Lakatos, Alan Mus- grave (eds.), Criticism and the Growth of Knowledge, Cambridge, Cambridge Uni- versity Press, 1999,p. 74. 21 Imre Lakatos, Falsicao e Metodologia dos Programas de Investigao, Lis- boa, Edies 70, 1999, p. 80. www.labcom.ubi.pt 49. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 41 imediato nem linear, sendo antes a regra a coexistncia, competitiva, de diversos programas de investigao durante longos perodos de tempo o que mostra no s a importncia da tolerncia metodolgica mas tambm a nossa incapacidade de responder questo de saber como so eliminados os programas de investigao.22 2.4 Paradigmas da comunicao Dando como adquirido que as cincias da comunicao em geral e a Te- oria da Comunicao em particular so disciplinas multi-paradigmticas, interessa determinar, desde j, quais so e qual a natureza dos princi- pais paradigmas que nelas se digladiam. A descrio sumria da histria dos estudos de comunicao que fuzemos atrs, bem como a anlise da ntima relao desses estudos com as cincias sociais e humanas, permitem-nos desde logo supor que tais paradigmas so, no essencial, originrios dessas cincias em que, alis, continuam a ter um papel fundamental. De facto, e embora no mencionando explicitamente o conceito de paradigma, Adriano Duarte Rodrigues observa que As razes desta ausncia de uma teoria consensual no domnio dos estudos de comunicao, alm de se prende- rem obviamente com a complexidade dos problemas, tm sobretudo a ver com a diversidade e com o antagonismo das teorias sociais que se confrontam na modernidade.23 Referindo-se especicamente teoria da comunicao de massa, mas podendo aplicar-se tambm teoria da comunicao em geral, Mc- Quail defende uma perspectiva semelhante: 22 Cf. Lakatos, ibidem, pp. 80-2. 23 Adriano Duarte Rodrigues, Comunicao e Cultura. A experincia cultural na era da informao, Lisboa, Presena, 1994, p. 40. www.labcom.ubi.pt 50. i i i i i i i i 42 Paulo Serra A ausncia de uma base disciplinar xa durante muita da histria da teoria da comunicao de massa permitiu o desenvolvimento de um corpo de teoria substantiva, mas promoveu a mudana e a diversidade das abordagens te- ricas. De forma no surpreendente, contudo, estas reec- tiram, em grande medida, as correntes de pensamento e os conitos afectando de forma mais geral as cincias soci- ais.24 Ainda na mesma linha, tambm DeFleur e Ball-Rokeach armam, no seu clssico sobre as teorias da comunicao de massa, que os mais importantes paradigmas disponveis para o cientista da comuni- cao incluem conjuntos de suposies [sobre a natureza do homem e da sociedade] extrados fundamentalmente da psicologia, da psicologia social e da sociologia.25 Quanto questo de saber quais so, concretamente, esses paradig- mas, estes ltimos autores destacam os seguintes: i) no caso da soci- ologia (indica-se, a seguir ao nome do paradigma, o papel social que nele se atribui comunicao): funcionalismo estrutural - estabilidade; evoluo social mudana; modelo do conito social conito; in- teraccionismo simblico signicados; ii) no caso da psicologia: o behaviorismo, a psicanlise e o paradigma cognitivo (considerando os autores este ltimo como o actualmente dominante nos estudos de co- municao).26 Numa obra que hoje j tambm um clssico na mesma matria, e que citmos atrs, Mauro Wolf distingue trs modelos ou para- digmas: o informacional, o semitico-informacional e o semitico- textual.27 24 Denis McQuail, McQuails Reader in Mass Communication Theory, Londres, Sage Publications, 2002, pp. 5-6. 25 Melvin L. DeFleur, Sandra Ball-Rokeach, Theories of Mass Communication, Nova Iorque, Longman, 1988, p. 31. 26 Cf. DeFleur, Ball-Rokeach, ibidem, p. 31 e ss. 27 Cf. Mauro Wolf, Teorias da Comunicao, Lisboa, Presena, 1995, pp. 98-118. www.labcom.ubi.pt 51. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 43 Na perspectiva de Mcquail podemos, seguindo uma proposta de Rosengren (1983), agrupar as diversas teorias da comunicao (e da sociologia) em quatro paradigmas, distintos entre si quanto forma como concebem a natureza da cincia (subjectiva/objectiva) e a da so- ciedade (regulao/mudana radical), como se indica a seguir ao nome de cada paradigma: funcionalista objectiva/regulao; interpretativo subjectiva/regulao; humanista radical subjectiva/mudana radi- cal; e estrutural radical objectiva/mudana radical. No entanto, se- gundo o mesmo autor, de forma ainda mais bsica, possvel classi- car as diversas teorias da comunicao de massa em mediacntricas e sociocntricas.28 No rejeitando totalmente estas classicaes, achamos que, para alm de se referirem especicamente comunicao de massa mes- mo quando, tomando a parte pelo todo, os autores falam simplesmente em comunicao , elas esto demasiado prximas da sociologia obviamente porque, e como explicmos em ponto anterior, os estudos de comunicao desenvolveram-se e institucionalizaram-se (sobretudo) com a sociologia. Importa, por isso, procurar classicaes que, para alm da comunicao de massa e da sociologia das cincias sociais , tenham em conta no s as mltiplas formas e aspectos da comu- nicao humana como o relevante contributo das cincias humanas e humanidades para o seu estudo. Inclinamo-nos, por isso mesmo, para perspectivas mais abrangentes como as de James Carey ou John Fiske. Em artigo publicado em 1975, Carey distingue duas vises da comunicao: i) como transmisso (transmission view of communi- cation) que, diz, a mais comum na nossa cultura e denida com termos como fornecer, enviar, transmitir ou dar informao a outros. formada a partir de uma metfora de geograa ou transporte. (...) O centro desta ideia de comunicao a transmisso de sinais ou men- sagens distncia com a nalidade de controlo;29 ii) como ritual 28 Cf. Denis McQuail, McQuails Reader in Mass Communication Theory, Lon- dres, Sage Publications, 2002, p. 6. 29 James W. Carey, A cultural approach to communication, in Denis McQuail, www.labcom.ubi.pt 52. i i i i i i i i 44 Paulo Serra (ritual view of communication) de acordo com a qual a comunica- o est associada a termos como partilha, participao, associao, camaradagem e a posse de uma f comum. (...) Uma viso ritual da comunicao est orientada no para a extenso das mensagens no es- pao, mas sim para a manuteno da sociedade no tempo; no para o acto de fornecer informao, mas sim para a representao de crenas partilhadas.30 Como observa McQuail, ao discutir ambos os modelos a que junta o publicitrio e o de recepo , o modelo transmis- sivo tem mais a ver a com as cincias sociais, em particular a socio- logia, e o ritual ou culturalista tem mais a ver com as humanidades, nomeadamente a literatura, a lingustica e a losoa.31 Quanto a Fiske, ainda que utilizando uma terminologia algo dife- rente da de Carey, tem uma perspectiva praticamente idntica deste ltimo. Assim, defende que h duas escolas principais no estudo da comunicao: i) A processual, que concebe a comunicao como transmisso de mensagens atravs da qual se procura produzir um determinado efeito sobre os receptores, se centra nas questes da eccia e da exactido da comunicao e se relaciona sobretudo com as cincias sociais, nomeadamente a sociologia e a psicologia; ii) A semitica, que concebe a comunicao como produo e troca de signicados resultante da interaco das pessoas com as men- sagens ou textos, se centra nas questes relativas s diferenas culturais entre emissores e receptores e se relaciona sobretudo com discipli- nas como a lingustica e do domnio das artes.32 ibidem, p. 38. O texto, publicado originalmente em Communication, no 2, 1975, pp. 1-22, foi retomado em James W. Carey, Communication as Culture, Boston, MA, Unwin Hyman, 1989. 30 Carey, ibidem, p. 39. 31 Cf. Denis McQuail, Teoria da Comunicao de Massas, Lisboa, Gulbenkian, 2003, p. 94. 32 Cf. John Fiske, Introduo ao Estudo da Comunicao, Porto, Asa, 2002, pp. 14-16. Para uma viso de conjunto de muitas das teorias da escola semitica uma viso que comea, signicativamente, com as teorias do signo de Saussure e Peirce www.labcom.ubi.pt 53. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 45 E se, na sequncia de Gerbner, Fiske prope a denio de comu- nicao como interaco social atravs de mensagens, no deixa de observar que ambas as escolas interpretam de forma diferente quer o conceito de interaco social quer o conceito de mensagem. As- sim, mais concretamente: i) Conceito de interaco social para a escola processual, ela o processo pelo qual uma pessoa se relaciona com outras ou afecta o comportamento, estado de esprito ou reaco emocional de outra e, claro, vice-versa; para a escola semitica, ela aquilo que constitui o indivduo como membro de uma cultura ou sociedade determinadas; ii) Conceito de mensagem para a escola processual, o que transmitido pelo processo de comunicao, de modo necessariamente intencional, segundo alguns, mesmo de modo no intencional, segundo outros; para a escola semitica, uma cons- truo de signos que, pela interaco com os receptores, produzem sig- nicados.33 No que se refere relao entre ambos os paradigmas - ideias ou escolas da comunicao, nem Carey nem Fiske defendem que eles sejam incompatveis. No entanto, enquanto que para Fiske eles po- dem, simultaneamente, complementar-se um ao outro em certos pon- tos e entrar em conito noutros,34 j para Carey a comunicao como transmisso acaba por subsumir-se na comunicao como ritual, que necessariamente (a primeira) pressupe para que possa efectuar-se pelo que se poder denir a comunicao, no seu conjunto, como o verdadeiro processo social mediante o qual as formas simblicas sig- nicantes so criadas, apreendidas e usadas35 ou, ainda, como um processo simblico mediante o qual a realidade criada, partilhada, modicada e preservada.36 A questo que se coloca , contudo, se os diferentes estudiosos da , cf. Paul Cobley (ed.), The Communication Theory Reader, Londres, Routledge, 1996. 33 Cf. Fiske, ibidem, pp.15-6. 34 Cf. Fiske, ibidem, p. 16. 35 Carey, ibidem, p. 42. 36 Carey, ibidem, p. 44. www.labcom.ubi.pt 54. i i i i i i i i 46 Paulo Serra comunicao no interpretaro os termos desta denio de Carey nomeadamente processo simblico e realidade se no de tantas formas diferentes quantas esses estudiosos, pelo menos de acordo com os paradigmas no s diversos como antagnicos que defendem. Por outras palavras: no ser toda a denio de comunicao um verda- deiro crculo no sentido em que toda a denio de comunicao j pressupe uma certa teoria da comunicao, e vice-versa? E, a ser assim, que sentido ter falar-se numa disciplina de Teoria da Comuni- cao como se tratasse de algo unicado e consensual? No seria mais adequado manter aqui o plural e antagnico - e falar em Teorias da Comunicao? 2.5 A heterogeneidade dos fenmenos comunicacionais As questes anteriores no se colocam apenas pelo facto de, como di- zamos mais atrs, o actual campo das cincias da comunicao derivar de e envolver uma multiplicidade e diversidade de disciplinas, cada uma com as suas perspectivas, os seus centros de interesse e os seus mtodos prprios, tudo isto ainda diferenciado em funo dos diversos paradigmas. Coloca-se, tambm, pelo facto obviamente relacionado com o anterior de aquilo a que se chama a comunicao envolver um conjunto de nveis e de fenmenos sobre os quais se torna dif- cil, seno mesmo impossvel, elaborar uma teoria com mais ou menos pretenses de generalidade. Assim, seguindo McQuail, podemos distinguir pelo menos os se- guintes nveis do processo de comunicao (os exemplos de fen- menos so tambm de McQuail): intrapessoal reexo; interpessoal dade/casal; intergrupal ou associao comunidade local; instituci- onal/organizacional sistema poltico ou empresa; alargado a toda a www.labcom.ubi.pt 55. i i i i i i i i Manual de Teoria da Comunicao 47 sociedade comunicao de massas.37 Sobre a possibilidade de articu- lar todos estes nveis, o problema colocada por McQuail nestes ter- mos: Embora os problemas colocados em cada nvel sejam semelhan- tes nesta forma abstracta, na prtica esto envolvidos conceitos muito diferentes e a realidade da comunicao varia muito de nvel para n- vel; o que explica, tambm, porque que qualquer cincia da comu- nicao tem necessariamente de ser construda por diferentes corpos de teoria e testemunhos trazidos de vrias disciplinas tradicionais (es- pecialmente sociologia e psicologia nos primeiros tempos, mas agora tambm economia, histria, literatura e estudos flmicos).38 Uma das consequncias que daqui extramos a de que qualquer teoria da comunicao no a teoria da comunicao em geral mas a teoria de um certo tipo ou aspecto da comunicao que, de forma implcita ou explcita, ela toma como ponto de partida e mo- delo.39 Ilustraremos esta tese recorrendo apenas a dois exemplos de autores j citados neste trabalho, a saber, Habermas e Luhmann. No que diz respeito a Habermas, e ao contrrio das pretenses do seu autor, a teoria do agir comunicacional parece-nos ser, em ltima anlise, uma teoria da comunicao centrada no apenas na conversa- o face-a-face, mas, mais do que isso, numa conversao cooperante, em que os interlocutores fazem um esforo para se entenderem e coor- denarem as suas aces. Compreende-se, assim, a armao de Haber- mas de que o agir comunicacional [...] diz respeito interaco de pelo menos dois sujei- tos capazes de falar e de agir que se empenham numa rela- o interpessoal (seja por meios verbais ou extra-verbais). 37 Denis McQuail, Teoria da Comunicao de Massas, Lisboa, Gulbenkian, 2003, p. 10. 38 McQuail, ibidem, p. 12. 39 Fazendo nossas as palavras de Bougnoux, diremos tambm que em nenhuma parte nem para ningum existe A comunicao. Este termo recobre demasiadas pr- ticas, necessariamente dspares, indenidamente abertas e no enumerveis Daniel Bougnoux, Introduction aux Sciences de la Communication, Paris, La Dcouverte, 2001, p. 7. www.labcom.ubi.pt 56. i i i i i i i i 48 Paulo Serra Os actores procuram um entendimento sobre uma situa- o de aco, a m de coordenarem consensualmente os seus planos de aco e, assim, as suas aces. (...). Neste modelo de aco, a linguagem ocupa, como veremos, um lugar preeminente.40 E, acrescenta Habermas, s no agir comunicacional ao contrrio do que acontece no agir teleolgic, no normativo ou na dramatrgico, a linguagem utilizada de forma no unilateral, como um meio de in- tercompreenso.41 Tendo em conta estas armaes, podemos mesmo ser tentados a ver o agir comunicacional de Habermas como a tradu- o, para termos da teoria da sociedade, do princpio de coopera- o de Paul Grice.42 teoria do agir comunicacional de Habermas objecta Luhmann que, de facto, a questo que considera trivial - no reside em ar- mar que existem formas especcas de aco por meio das quais os interlocutores aderem comunicao orientada para a compreenso, aceitando razes sucientemente convincentes para justicar a prpria escolha das su