2 casos praticos de direito do consumo

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  • Casos Prticos deDireito do Consumo

    Dezembro de 2015

  • Casos Prticos deDireito do Consumo

    ngela Frota

    Cludia Tique

    Elionora Cardoso

    Marcelino Antnio Abreu

    Maria Paula Gouveia Andrade

    Mnica Pereira Ferreira

  • Publicado por:

    Observatrio do Direito do Consumo

    www.oa.pt/odc | odc@cg.oa.pt

    Largo de So Domingos 141169-060 Lisboa

    Telefone:218823550

    Fax:218862403

    Coordenao:Sandra Horta e SilvaMafalda de Oliveira

    Produzido para o ODC por JP

  • Casos Prticos de Direito do Consumo 3

    Prefcio

    O ODC-Observatrio do Direito do Consumo uma estrutura coordenada pelaBastonria da Ordem dos Advogados empenhada no estudo e divulgao de temascom interesse na rea da defesa dos direitos dos consumidores.

    Constitudo em Novembro de 2014, o ODC tem dado apoio aos Advogados que nasua actividade profissional intervm no mbito do direito do consumo, contribuindoassim para a melhoria da sua qualificao tcnica.

    Durante o primeiro ano da sua existncia, o ODC promoveu aces formativas,elaborou pareceres, publicou fichas informativas na rea das relaes de consumo eprestou apoio a todos os Advogados que a ele se dirigiram para esclarecimento dequestes de direito do consumidor.

    Surgiu, assim, a oportunidade de lanamento do presente E-book atravs daseleco das matrias onde as dvidas so mais frequentes.

    O tratamento dessas questes passou pela escolha de situaes concretas, emcasos prticos associados realidade de consumo, na qual se apresenta a suaresoluo legal.

    So casos de aparente fcil resoluo, mas que envolvem um conhecimentoaprofundado de diversa legislao avulsa aplicvel e que o consumidor raramenteconsegue, com sucesso, defender-se perante os agentes econmicos envolvidos.

    Para o efeito, contou-se com a profissional e dedicada colaborao de membrosda Comisso Executiva do ODC, no tratamento e enquadramento legal destes casos,ficando aqui um especial agradecimento a todos os relatores que tornaram possvel apresente publicao.

    Sandra Horta e Silva

    Mafalda de Oliveira

  • 4 Casos Prticos de Direito do Consumo

    NDICE:

    Custo da factura em papelngela Frota

    Servios de comunicaes electrnicas assegurado a pessoa declarada insolventengela Frota

    Dvida prescrita - Obrigao naturalngela Frota

    Mquinas de venda automtica de bebidas e outros produtos alimentares Marcelino Abreu

    Revises, reparaes e avarias do carro Marcelino Abreu

    Danos em carro parqueado Marcelino Abreu

    Falta de informao das clusulas contratuais gerais Marcelino Abreu

    Direito de livre arrependimento e sua consequncia em contratos conexosMarcelino Abreu

    Garantias de imveis Marcelino Abreu

    Hotel em obrasCludia Tique

    Praia paradisacaCludia Tique

    Contrato de mtuo com hipotecaMaria Paula Gouveia Andrade

    Comisses bancriasMaria Paula Gouveia Andrade

    Ordem de pagamento dada por via telefnicaMaria Paula Gouveia Andrade

    Exerccio do direito de preferncia e comisso de empresa de mediao imobiliriaMnica Pereira Ferreira

    Garantia de bem mvelMnica Pereira Ferreira

  • Casos Prticos de Direito do Consumo 5

    Atraso de embarque em transporte areo de passageirosElionora Cardoso

    Direito substituio de bem mvel em desconformidade e renovao da garantiaElionora Cardoso

    Direito a fatura discriminada em Servio Pblico Essencial e quitao parcialElionora Cardoso

  • 6 Casos Prticos de Direito do Consumo

    Custo da factura em papel

    Maria foi confrontada por parte da empresa que lhe presta o servio de TV porcabo, com a cobrana do valor de 1,22, por no aderir factura electrnica.

    Quid Juris?

    Nos servios deste jaez, o consumidor enquanto tal, dotado de cuidados eproteco especiais uma vez que estamos perante servios essenciais ao quotidianode qualquer cidado.

    Objectivamente, a facturao regulamentada pelo disposto no art 9 da Leidos Servios Pblicos Essenciais, Lei n. 23/96, de 26 de Julho, segundo o qual:

    1 O utente tem direito a uma factura que especifique devidamente osvalores que apresenta.

    2 A factura a que se refere o nmero anterior deve ter uma periodicidademensal, devendo discriminar os servios prestados e as correspondentes tarifas.

    3 No caso do servio de comunicaes electrnicas, e a pedido dointeressado, a factura deve traduzir com o maior pormenor possvel os serviosprestados, sem prejuzo do legalmente estabelecido em matria de salvaguardados direitos privacidade e ao sigilo das comunicaes.

    A facturao fornecida sem qualquer encargo, tal como se estabelecia noDecreto-Lei n. 230/96, de 29 de Novembro, mormente o seu art 1 n. 1.

    A facturao a que se reporta o referenciado artigo , como se reconhece e deacordo com os usos e costumes e a utilizada data da elaborao da Lei de que aquise trata, a que figuraria em suporte papel.

    Destarte, no pode, por conseguinte, a operadora de comunicaes electrnicasalterar a seu bel talante o suporte, impondo encargos aos consumidores quereclamem o mtodo tradicional.

    o que elementarmente se retira da lei e do esprito do sistema.

    Qualquer alterao fere de morte os direitos do consumidor e importa a nulidadedo acto, por fora dos princpios plasmados no art 294 do Cdigo Civil.

    Ainda que acordassem as partes em sentido diverso, certo que o carcterinjuntivo destes direitos no permite que assim suceda.

    ngela Frota

  • Casos Prticos de Direito do Consumo 7

    Servios de comunicaes electrnicas assegurado a pessoa declarada insolvente

    Paula foi contactada por um colaborador da operadora de comunicaes parasubscrever um dos servios daquela operadora.

    Todavia, quando estava a facultar os seus dados pessoais para formalizar ocontrato, nomeadamente o seu nmero de identificao fiscal, aquele informou-a queexistia algum problema, e por esse motivo entraria em contacto posteriormente.

    De novo contactada, foi informada que no poderia celebrar o contrato com aoperadora, uma vez que se encontrava declarada insolvente e, sendo assim, oprocedimento a seguir pela empresa era de recusar a celebrao de qualquercontrato.

    Quid Juris?

    A questo apresentada insere-se no mbito dos mecanismos de preveno decontratao previstos na Lei das Comunicaes Electrnicas (LCE) Lei n. 5/2004, de10 de Fevereiro, com as alteraes introduzidas a posteriori, que permite s empresasde servios de comunicaes electrnicas gerir um conjunto de procedimentos quepossibilita identificar clientes que no tenham satisfeito as suas obrigaes depagamento nos contratos celebrados.

    Deste modo, o art 46 legitima que as operadoras de comunicaes electrnicasfiquem () habilitadas por esta lei, directamente ou por intermdio das suasassociaes representativas, a criar e a gerir mecanismos que permitam identificar osassinantes que no tenham satisfeito as suas obrigaes de pagamento relativamenteaos contratos celebrados, nomeadamente atravs da criao de uma base de dadospartilhada..

    Atravs da base de dados, as operadoras de comunicaes electrnicas tmacesso ao registo dos clientes que no cumpriram as obrigaes a que seencontravam adstritos no mbito do contrato celebrado, seja qual for a operadora emquesto, uma vez que a base partilhada pelas vrias operadoras que ofereamservios de comunicaes electrnicas, sempre num contexto preventivo no querespeita contratao dos servios.

    No entanto, segundo o diploma citado, nem todos os montantes de crdito emdvida so includos na base de dados partilhada, mas somente os que sejam igual ousuperior a 20% da remunerao mnima mensal garantida - cfr. alnea a) do n. 4 doart 46 da LCE.

    Assim, caso existam crditos em divida As empresas que oferecem redes eservios de comunicaes electrnicas podem recusar a celebrao de um contratorelativamente a um assinante que tenha quantias em dvida respeitantes a contratosanteriores celebrados com a mesma ou outra empresa, salvo se o assinante tiverinvocado excepo de no cumprimento do contrato ou tiver reclamado ouimpugnado a facturao apresentada..

    Remetendo para o caso concreto, Paula, segundo informao que facultou, foisubmetida a um processo de insolvncia de pessoa singular, sendo no seu mbito

  • 8 Casos Prticos de Direito do Consumo

    declarada insolvente e proferido despacho de exonerao do passivo restante.

    O que significa que a sua autonomia para celebrar negcios jurdicos se encontrainibida, uma vez que, encontrando-se sujeita ao processo de insolvncia, durante operodo de cesso (5 anos), aquela ficar adstrita ao pagamento dos crditos dainsolvncia, cumprindo um plano de pagamentos, escrupulosamente definido.

    Ora, aquando da contratao, o seu nome figurava no banco de dados partilhado,o que faz prever a existncia de um crdito em dvida respectiva operadora decomunicaes electrnicas ou a outra operadora e, como tal, atento o supra exposto,aquele agente econmico tem toda a legitimidade para recusar a celebrao docontrato, se o montante da dvida for superior ao quantitativo referido supra.

    No entanto, s no ser assim, no que concerne ao servio universal decomunicaes electrnicas, que () consiste no conjunto mnimo de prestaesdefinido (), de qualidade especificada, disponvel para todos os utilizadores finais,independentemente da sua localizao geogrfica e a um preo acessvel., cfr. alneaii) do art 3 e n. 1 do art 86 da LCE, e que abrange a ligao rede telefnica fixae o acesso ao servio fixo de telefone a todos os utilizadores que o solicitem - cfr. art87 da LCE. Pois, neste particular, ao prestador do servio universal est vedada apossibilidade de recusar a contratao.

    Assim