Carência de profissionais: um desafio para as grandes empresas brasileiras

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Estudo da Fundao Dom Cabral registra escassez de mo de obras na economia do pas e suas consequncias para as organizaes. A pesquisa intitulada Carncia de Profissionais, que j est em sua segunda edio, realizada pelo Ncleo de Logstica, Supply Chain e Infraestrutura. Os dados foram compilados no final de 2013 e permitem uma comparao com a primeira edio do levantamento, realizado em 2010. O Relatrio de Pesquisa completo est disponvel no Portal FDC: www.fdc.org.br/professoresepesquisa/publicacoes/Paginas/publicacao-detalhe.aspx?publicacao=18442

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  • 1. Carncia de profissionais: um desafio para as grandes empresas brasileiras 1 Carncia de profissionais: um desafio para as grandes empresas brasileiras Paulo Tarso Vilela de Resende e Paulo Renato de Sousa A FE1401 Estudo da FDC registra escassez de mo de obras na economia do pas e suas consequncias para as organizaes Todos os pases que enfrentam os desafios do desenvolvimento acelerado se deparam com gargalos de difcil superao. Muitas vezes, so entraves que podem comprometer as prprias metas desse crescimento em ritmo mais rpido. Entre os diversos problemas enfrentados por essas naes, est o desafio da oferta de profissionais. Esse gargalo, que afeta diretamente a competitividade das economias nacionais, torna-se mais grave diante da combinao de duas realidades: a escassez dessa mo de obra e a falta de qualificao dos profissionais em geral. O Brasil , hoje, um dos pases que se encaixam com perfeio nesse contexto. Diante dos desafios do crescimento, a economia brasileira se depara com essa carncia de profissionais. Isso faz com que as empresas, especialmente as mais intensivas em mo de obra, passem a mudar suas estratgias de gesto de recursos humanos. Uma das principais alteraes nessa rea , por exemplo, a reduo das exigncias em relao capacitao e experincia de trabalho dos profissionais buscados no mercado e, consequentemente, uma maior necessidade de treinamento das equipes. Esse o contexto do pas e de grandes empresas no qual se insere a pesquisa intitulada Carncia de Profissionais, que j est em sua segunda edio, realizada pelo Ncleo de Logstica, Supply Chain e Infraestrutura. Os dados foram compilados no final de 2013 e permitem uma comparao com a primeira edio do levantamento, realizado em 2010. O Relatrio de Pesquisa completo est disponvel no Portal FDC: http://www.fdc.org.br/professoresepesquisa/ publicacoes/Paginas/publicacao-detalhe.aspx?publicacao=18442. economia brasileira vem enfrentando o grave e crescente problema da escassez de mo de obra. O cenrio torna-se ainda mais preocupante ao se considerar os segmentos menos capacitados do mercado formado pelos trabalhadores manuais do setor de produo o chamado cho de fbrica. Diante da indagao: Sua empresa est tendo problemas com contratao?, nada menos do que 91,02% dos respondentes disseram sim, contra apenas 8,98% de no. Nossa pesquisa foi realizada com 167 empresas de capital nacional e internacional que, juntas, controlam mais de um milho de trabalhadores. Ressaltamos que estudo torna-se mais relevante na medida em que esse engloba parte considervel da Populao Economicamente Ativa (PEA). Por sua vez, a soma do faturamento das empresas respondentes representava mais de 23% do Produto Interno Bruto (PIB) do pas em 2013. Pesquisa refora contexto nacional Um dos maiores problemas enfrentados pela economia brasileira hoje, especialmente na indstria e no comrcio, falta de mo de obra qualificada. A escassez de profissionais capacitados faz com que sobrem vagas nas empresas e leva o pas a perder competitividade no exterior. As empresas informaram que as dificuldades de contratao, como registrado na pesquisa, decorrem, em boa parte, pelos gargalos na educao.
  • 2. Carncia de profissionais: um desafio para as grandes empresas brasileiras 2 De acordo com o Global Competitiveness Report 2013/2014, o Brasil perdeu oito posies no ranking mundial de competividade, voltando em 2013 ao 56 lugar mesma posio que ocupou em 2009. No restam dvidas de que o pas precisa repensar sua poltica de ensino, visando a gerar mais conhecimento acadmico e profissionalizante, visando a atender s demandas da indstria como um todo. E essa gerao de conhecimento precisa estar atrelada busca constante da inovao. Esse o capital humano necessrio para que o Brasil d um salto na qualidade de sua mo de obra. Vale destacar que o pas vem, nos ltimos anos, formando um nmero decrescente de profissionais de tecnologia. Temos de reverter essa tendncia para atender s demandas do mercado. Segundo dados da Organizao Internacional do Trabalho (OIT), 90% dos novos empregos gerados no Brasil exigem ensino mdio completo. No entanto, 40% dos trabalhadores no completam o ensino fundamental e 16% so os chamados analfabetos funcionais, que, embora saibam ler, no conseguem interpretar um texto ou fazer operaes matemticas bsicas. Essas estatsticas afetam diretamente as empresas, com impactos diretos na produo, no desempenho industrial e na competitividade da economia nacional. Um dos indicadores da elevao na demanda na economia, apesar da escassez da mo de obra, , por exemplo, a elevao salarial. S na indstria, a remunerao do trabalhador subiu 169% entre 2001 e 2014. Em compensao, a produtividade caminha a passos bem mais lentos. Na indstria de transformao, por exemplo, o aumento foi de apenas 1,1% entre 2001 e 2012, segundo a Confederao Nacional da Indstria. Um mergulho na realidade empresarial Dividimos o relatrio da pesquisa em trs partes. Em primeiro lugar, ele traa as caractersticas gerais das empresas pesquisadas: setor de produo, mercado de atuao, prosses mais escassas, motivos para a escassez de prossionais, entre outros. Em segundo lugar, estabelece um paralelo entre a pesquisa de 2010, as evolues e os retrocessos registrados nesse perodo de trs anos. Por m, o trabalho apresenta uma anlise regional, com o objetivo de identicar os padres regionais de contratao de mo de obra e a falta de certos tipos de prossionais nas macrorregies brasileiras. Minerao e construo em destaque Os setores das empresas pesquisadas e a participao de cada um deles na amostra podem ser vistas no quadro demonstrativo. Ressaltamos que houve uma boa diversificao entre os setores, com destaque para os de minerao e indstria da construo. (Clique aqui e veja o quadro 1) A regio de maior atuao das empresas a Sudeste (85%), seguida pela Sul (58%), Nordeste (47%), Centro- Oeste (43%) e Norte (40%). Do total de empresas, 27% tambm atuam no exterior. Em relao aos mercados de atuao, 46% responderam que esto no pas e no exterior, sendo que 19% esto presentes s no mercado nacional. Oferta de mo de obra baixa ou mdia O estudo indicou que 33% das empresas pesquisadas disseram que convivem com uma baixa oferta de mo de obra, seguidas por 48% que se consideram em um contexto mdia oferta. A alta oferta s ocorre em 8,9% dos casos e a muito alta oferta se resume a 2%. Na outra ponta, a muito baixa oferta registrou 6% dos casos. Em nossa avaliao, uma tima viso da escassez de mo de obra no pas e as principais funes ou profisses em que ela ocorre. Como j observamos, o trabalhador manual e o tcnico aparecem em destaque entre os profissionais considerados muitssimo escassos ou mesmo muito escassos. Algumas profisses de nvel superior, como contadores e administradores, esto entre as que apresentam menos dificuldade de contratao, dentre as quais se encaixam tambm as secretrias e assistentes. (Clique aqui e veja o quadro 2) A pesquisa oferece um conjunto de dados fundamental para se compreender o fenmeno carncia de mo de obra no pas, que so os motivos da dificuldade de contratao. Em primeiro lugar, est a escassez de profissionais capacitados (30%), seguido por falta de experincia na funo (18%), deficincia na formao bsica (21%), dificuldade de atender a pretenso salarial dos candidatos (13%), aceitar trabalhar fora da rea de atuao (8%), e caractersticas pessoais incompatveis com a empresa (8%), entre outros motivos (2%). O estudo indica ainda que os maiores gargalos de mo de obra no pas ocorrem entre os profissionais de nvel tcnico (65%) e os de nvel superior (51%).
  • 3. 3 FDC Executive Por outro lado, a maior faixa etria das contrataes est entre os mais jovens: 56% delas acontecem com profissionais com idade entre 18 e 29 anos. Outros 40% ocorrem entre os 30 e 39 anos, e os restantes 2,9% ficam com as pessoas entre 40 e 49 anos. Em decorrncia desse cenrio, 59% das empresas pesquisadas tm diminudo no nvel de exigncias para contratao no nvel tcnico. Essa flexibilizao ocorre em relao a experincia, habilidades, necessidade de curso tcnico e caractersticas pessoais. Destacamos, ainda, que, como parte complementar dessa estratgia, as empresas vm ampliando a oferta de benefcios no trabalho para a reteno de profissionais. Nada menos do que 93% dos entrevistados confirmaram que oferecem esses benefcios, com destaque para a rea de sade e aposentadoria privada: assistncia mdica e odontolgica (87%), previdncia privada (61%), salrio varivel (50%), ajuda de custo para educao (45%), celular empresarial para uso pessoal (35%), ajuda de combustvel (30%), carro para o trabalho (25,%), compensao salarial (14%), auxlio-moradia (9%), entre outros. Como compensao, as empresas tambm relataram as caractersticas mais valorizadas por elas como forma de mensurar o desempenho dos profissionais de nvel tcnico e superior. No alto dessa relao esto proatividade, capacidade para trabalhar em equipe, orientao para resultados, relacionamento interpessoal, entre outros. Vale destacar que o item menos valorizado trabalhos sociais. E ainda, 91% das empresas afirmaram que no abrem mo, tambm, de promover a capacitao profissional de seus funcionrios, contra apenas 7% que disseram no se preocupar com a questo. Entre os tipos de treinamento citados, destacam-se processos, tcnico operacional, liderana, produo e operao, gesto e financeiro, entre outros. Cenrio negativo desde 2010 As pesquisas realizadas em 2010 e 2013 podem ter seus resultados comparados, pois em ambas tivemos como foco grandes empresas de diferentes setores. Em 2010, foram ouvidas 130 empresas, que representavam na poca