O protestantismo no Brasil e suas encruzilhadas

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O protestantismo no Brasil e suas encruzilhadas

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1. ANTONIO GOUVA MENDONA O protestantismo no Brasil e suas encruzilhadas ANTONIO GOUVA MENDONA professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. 2. O ttulo deste artigo exige desde logo um esclarecimento preliminar sob pena de cair na confuso reinante quando se trata de estudar o campo religioso brasileiro sob qualquer ponto de vista. Nunca se viu uma diversidade religiosa to grande como a que se nota atualmente no Brasil. Para complicar mais ainda, a dinmica interna desse campo, que demonstra intensa itinerncia entre grupos religiosos, assim como as variaes numricas indicadas no ltimo censo (2000) apontam para a necessidade de se buscar conceitos mais atuais e capazes de estabelecer distncias e aproximaes entre os diversos gru- pos que disputam o espao religioso. Estamosdiantedoconceitodeprotestantismo brasileiro, usado sem maiores preocupaes pe- losprimeirosestudiososdoassunto.Entreeles,o respeitvel historiador francs mile G. Lonard que, estando no Brasil por dois anos (1948-49) como professor contratado pela Faculdade de A utopia s trabalha em prol do presente a ser alcanado, e assim o presente, sendo a ausncia dedistanciamento intencionadapara o m, estar, no nal,borrifadopor todososintervalos utpicos (Ernst Bloch, O Princpio Esperana). 3. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200550 Filosoa, Cincias e Letras da Univer- sidade de So Paulo, fez observaes e pesquisas que lhe permitiram publicar o seu O Protestantismo Brasileiro, hoje j na terceira edio (2002). Lonard, que publicou na Frana outros trabalhos sobre o protestantismo no Brasil, tambm autor da monumental obra Histoire Gnrale du Protestantisme, em trs volumes, a partir de 1961. No ltimo volume aparecem no- tas a respeito do Brasil. De certo modo, o conceitodeprotestantismobrasileiroganha legitimidade com Lonard para expressar o cristianismono-catliconoBrasil,embora j fosse usado por outros antes dele. Em 1973, com a publicao do livro Catlicos, Protestantes, Espritas por Cn- dido Procpio F. de Camargo, o conceito, includo entre duas outras religies (cat- licos e espritas), assume carter distintivo. Note-se aqui que os prprios protestantes, desde o incio de sua presena no Brasil, ainda no sculo XIX, preferiam o conceito evanglico.Bastamdoisexemplos:opri- meirojornalprotestantepublicadonoBrasil, que circulou de 1864 a 1892, chamou-se ImprensaEvanglica,comotambmaCon- federao Evanglica do Brasil, fundada em 1934 e extinta nos primeiros anos da dcada de 60 do sculo passado. Desde os primeiros tempos os cristos no-catlicos no Brasil se identicam como evanglicos, alis a auto-identicao oriunda mesmo desde os primrdios da Reforma conforme atestaohistoriadorMartinN.Dreher(1999, pp. 216 e segs.) (1). No fosse a diversidade confusa do campo religioso brasileiro, o conceito evanglico, hoje usado de modo universal pelos no-evanglicos, como a Igreja Catlica e a mdia, caberia perfeita- mente ao grupo cristo oriundo da Reforma do sculo XVI. Mas no cabe. O conceito traz consigo enorme confuso, a no ser para aqueles que, mesmo trabalhando com categorias cientcas, insistem em colocar sob a mesma categoria todos os grupos cristos no-catlicos. Assim, pergunta-se: o que mesmo isso que se chama protestantismo brasileiro? o mesmo que evanglico? e no . O conceito evanglico aplica-se parte dos cristos no-catlicos e no se aplica de maneiraadequadaaovastogrupodosassim chamados pentecostais e neopentecostais. claro que deixa de lado tambm todas as igrejas crists no romanas como as cha- madas em geral por orientais ou ortodoxas. Assim, quando se fala em protestantismo brasileiro vem logo tona a necessidade de definir, estabelecer o conceito com clareza. O que protestantismo e o que protestantismo brasileiro? Ainda, o que um protestante? O QUE PROTESTANTISMO? O protestantismo um dos trs prin- cipais ramos do cristianismo ao lado do catolicismo romano e das igrejas orientais ou ortodoxas. Essa categorizao, muito ampla e abrangente, a adotada por J. L. Dunstan (1980, p. 7). Justamente por sua amplitude, a categorizao desse autor deixa logo em aberto um problema: onde colocar o anglicanismo, hoje estendido por todo o mundo como uma comunidade que extrapola o Reino Unido? A Igreja da Inglaterra resulta, sem dvida, da Reforma Religiosa, mas, como se diz com freqn- cia, cou a meio caminho entre Roma e as igrejas protestantes, tanto luteranas como calvinistas. De fato, a ala propriamente dita anglicana recusa o ttulo de protestante. Desse modo, seria melhor estabelecer qua- tro categorias de igrejas crists mundiais: romana,ortodoxasouorientais,anglicanae protestantes. Embora a ala chamada Evan- glicadaIgrejaAnglicanasejasignicativa por se aproximar bastante dos protestantes em geral, creio no se justicar uma outra categoria, vez que o anglicanismo, apesar disso, mantm sua unidade. Interessa-nos agora a Reforma propria- mente dita. Em outro lugar (Mendona & Velasques Filho, 2002, , cap. 1) propus a diviso da Reforma em trs ramos: angli- cano, luterano e calvinista, ou reformado propriamente dito. Feita aquela ressalva quanto ao anglicanismo, os protestantes propriamente ditos so os luteranos e cal- 1 Como nos chama a ateno esse autor, no confundir com os evanglicos de vertente inglesa mais moderna que de- signam a ala conservadora do protestantismo contemporneo equeestosendoidenticados atualmente pelo neologismo evangelical. 4. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 2005 51 vinistas que se espalham pelo mundo em numerosa diversicao, particularmente estes ltimos. Ento, protestantes seriam aquelas igrejas que se originaram da Refor- maouque,emborasurgidasposteriormente, guardamosprincpiosgeraisdomovimento. Essas igrejas compem a grande famlia da Reforma: luteranas, presbiterianas, meto- distas, congregacionais e batistas. Estas ltimas, as batistas, tambm resistem ao conceitodeprotestantesporrazesdeordem histrica, embora mantenham os princpios da Reforma. Creio no ser, por isso, neces- srio criar para elas uma categoria parte. Sointegrantesdoprotestantismochamado tradicional ou histrico, tanto sob o ponto de vista teolgico como eclesiolgico. Esses cinco ramos ou famlias da Reforma multiplicam-se em numerosos sub-ramos, recebendo os mais diferentes nomes, mas que, ao guardar os princpios fundantes, podem ser includos no universo do protestantismo propriamente dito. O QUE PROTESTANTISMO BRASILEIRO? Talvez a pergunta mais adequada seja esta: podemos falar em protestantismo brasileiro? Ou seria melhor falar em pro- testantismonoBrasilprecisamentequando a referncia recai sobre as igrejas acima mencionadas? Embora seja certo que as re- ligiesuniversais,comosoasprotestantes, sempre assimilam ou mantm traos das culturas locais, como me permitido falar em catolicismo brasileiro, por exemplo, o protestantismoquechegouaoBrasiljamais seidenticou com a culturabrasileira.Con- tinua sendo um protestantismo norte-ame- ricano com suas matrizes denominacionais e dependncia teolgica. Por isso, prero falar em protestantismo no Brasil e no emprotestantismobrasileiro.Omesmovale para o que talvez fosse exceo, isto , o luteranismo.Apesar de proceder de verten- tesgeogrcaseculturaisdiferentes,ambos os luteranismos brasileiros vinculam-se ao centro mesmo da Reforma Luterana, isto , a Europa alem. Por essas razes, quando se fala em protestantismo brasileiro, creio que se deve entender por protestantismo no Brasil. O QUE UM PROTESTANTE, O QUE SER PROTESTANTE? O grande e maior princpio da Reforma o da liberdade e est explcito no talvez menor dos livros de Martim Lutero (2) e mesmo de toda a literatura reformada. Diz Lutero que o cristo senhor livre sobre todas as coisas e no est sujeito a ningum, mas completa: um cristo um servo prestativo em todas as coisas e est sujeito a todos. Essa aparente contradio se resolve assim: o cristo livre para fazer e no fazer ou, ainda, o cristo no est debaixo de nenhuma mediao e se refere diretamente a Deus pela f, instrumento de sua salvao. A salvao individual e sua vida religiosa pautada exclusivamente pela Bblia cuja leitura direta e tambm no mediada. Como pontica Dunstan, o homem o centro de sua religio. Em suma, o protestante o homem que se sente liberto por Cristo, segue exclusi- vamente a Bblia como nica regra de f e prtica, cultiva uma tica racional de desempenho para contribuir para a glria de Deus e vive moralmente segundo os 10 mandamentos e os padres da moral burguesa vitoriana. A converso, que no perodo do Grande Despertamento (3) era mais propriamente uma reconsagrao vida devota, reajustava o indivduo ao modelo burgus vitoriano acompanhado da tica do trabalho apropriada ideologia do progresso. A preguia, a ociosidade e a falta de objetividade na vida, assim como desregramentos sexuais e desorganizao familiar, eram pecados graves para os vi- torianos (4). O protestantismo, principal- mente o calvinismo posterior, privilegiou as relaes sociais e econmico-polticas no sentido horizontal, buscando pr de 2 Da Liberdade Crist, escrito em 1520 (Lutero, 2004). Ver tambm: Altmann, 1994. 3 Grande Despertamento ou Grandes Avivamentos desig- nam movimentos esparsos de renascimento de vitalidade religiosa que ocorreram na Amrica do Norte a partir dos primeiros anos do sculo XIX. 4 Quantoaissomuitointeressan- te ver: Gay, 2000 e 2005. 5. REVISTA USP, So Paulo, n.67, p. 48-67, setembro/novembro 200552 lado todo tipo de dependncia piramidal ou vertical. Em suma, uma desconana permanente de monarquias absolutas em favor de repblicas democrticas. Isso ga- nhou muita fora aps a independncia das colnias norte-americanas e da expanso protestante durante o sculo XIX (5). Nonecessrioquenosalong