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Goulart,sandra lucia

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Tese bem explicativa sobre as diferentes linhas das religiões ayahuasqueiras no Brasil

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  • 1. I Universidade Estadual de Campinas Instituto de Filosofia e Cincias Humanas Sandra Lucia Goulart CONTRASTES E CONTINUIDADES EM UMA TRADIO AMAZNICA: AS RELIGIES DA AYAHUASCA Tese de Doutorado em Cincias Sociais apresentada ao Departamento de Antropologia do Instituto de Filosofia e Cincias Humanas da Universidade Estadual de Campinas, sob orientao do Prof. Dr. Mauro William Barbosa de Almeida. Este exemplar corresponde a verso final da dissertao defendida e aprovada pela Comisso Julgadora em 31/03/2004 Banca Examinadora: Prof. Dr. Mauro William Barbosa de Almeida Prof. Dr. Robin M.. Wright Prof. Dra. Helosa Pontes Profa. Dr. Alberto Groisman Prof. Dr. Edward John Baptista Neves MacRae

2. II FICHA CATALOGRFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA DO IFCH - UNICAMP Goulart, Sandra Lucia G 729 c Contrastes e continuidades em uma tradio Amaznica: as religies da Ayahuasca / Sandra Lucia Goulart. - - Campinas, SP : [s. n.], 2004. Orientador: Mauro William Barbosa de Almeida. Tese (doutorado ) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Cincias Humanas. 1. Religies. 2. Cultura. 3. Seringueiros Amaznia. 4. Religiosidade. 5. Santo Daime. 6. Ayahuasca Amaznia. 7. Xamanismo Amaznia. 8. Psicotrpicos. I. Almeida, Mauro William Barbosa de. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Cincias Humanas. III.Ttulo. 3. III Resumo da Tese A presente tese enfoca a comparao entre religies distintas de uma mesma tradio, identificadas aqui como cultos ayahuasqueiros, por se caracterizarem pela utilizao ritual da bebida psicoativa ayahuasca, denominada de Daime ou Vegetal nos casos pesquisados. Esta tradio dividida em linhas, segmentos, centros, ncleos e igrejas. Trata-se de trs grandes linhas (Santo Daime, Barquinha e Unio do Vegetal), com suas vrias fragmentaes internas. A perspectiva comparativa tem como objetivo captar os contrastes e as semelhanas entre os diferentes grupos da mencionada tradio, procurando esclarecer, simultaneamente, como ela se constri e se transforma atravs de um constante jogo de oposies, acusaes e alianas entre esses grupos. Por isso, privilegiamos, na tese, a anlise de eventos de crise e conflitos que envolvem os adeptos das trs linhas religiosas enfocadas. 4. IV Abstract This dissertation focuses on a comparative study among distinct Brazilian religions from the same tradition, identified here as ayahuasqueiros cults, being characterized by the ritualistic use of a psychoactive substance ayahuasca, called Daime or Vegetal in the cases researched. This tradition has its unique and shared components in which there are divisions, centers, ncleos and churches. There are three main divisions (Santo Daime, Barquinha and Unio do Vegetal), with their several internal fragments. The comparative perspective has the objective of capturing the contrasts and similarities among the different groups from the mentioned tradition, aiming to clarify , simultaneously, how this tradition is built and transformed through a constant play of oppositions, accusations and alliances among these groups. For that reason, we have elected in this dissertation, the analysis of internal conflicts and crisis which have involved the practitioners of these three religions divisions focused. 5. 1 TESE: Contrastes e Continuidades em uma Tradio Amaznica: as religies da ayahuasca .......................... 5 Agradecimentos ........................................................................................................................................................ 5 Introduo ................................................................................................................................................................. 8 Dimenses conflitantes de uma tradio religiosa ................................................................................................ 8 Objetivos e contribuies gerais do estudo ......................................................................................................... 16 Questes de mtodo, hipteses e objetivos particulares ..................................................................................... 18 O enfoque terico................................................................................................................................................. 19 Pesquisa de campo: esclarecimentos ................................................................................................................... 21 Pesquisa de campo: mtodos empregados e algumas consideraes sobre a relao sujeito- objeto............................................................................................................................................. 21 Sinopse dos captulos........................................................................................................................................... 25 Cap. I - A Linha do Santo Daime.......................................................................................................................... 27 O Mestre Irineu e a revelao da doutrina do Santo Daime ............................................................................... 27 De So Vicente Frrer aos seringais da Amaznia....................................................................... 27 Os irmos Costa e a misso do Mestre Irineu: do cip ao Santo Daime ................................. 29 O Centro de Regenerao e F................................................................................................. 36 O culto do Santo Daime....................................................................................................................................... 38 Os primeiros tempos em Rio Branco: perseguies e estigmas do culto do Mestre Irineu .......... 38 Organizao do ritual e da doutrina do Santo Daime.................................................................. 46 A segmentao da linha do Santo Daime............................................................................................................ 63 A passagem do chefe da misso e a expanso da doutrina.................................................. 63 A sucesso do Mestre .................................................................................................................... 66 Outras dissidncias do Alto Santo................................................................................................. 72 Grfico de Parentesco: Alto Santo........................................................................................................................ 78 Novas e velhas acusaes: a droga, a Umbanda, os de fora........................................... 79 Mapa de Centros do Alto Santo: Vila Irineu Serra............................................................................................ 83 O povo do padrinho Sebastio: o deslocamento para a floresta e a Santa Maria......................... 84 O CEFLURIS: a Umbandaime, a expanso e as novas lideranas .................................................. 93 Grfico das Segmentaes e Extenses da Linha do Santo Daime................................................................. 105 Lista de Centros da Linha do Santo Daime no Acre........................................................................................ 105 . Segmento: Alto Santo....................................................................................................................................... 105 . Segmento: CEFLURIS ..................................................................................................................................... 106 Hinos do Santo Daime Citados............................................................................................................................ 107 Partituras dos Hinos............................................................................................................................................. 112 Cap. II - A Linha da Barquinha ......................................................................................................................... 113 O Mestre Daniel e a misso do Livro Azul........................................................................................................ 1 A gesto de Antnio Geraldo e a organizao da Barquinha........................................................................ 127 A presidncia de Manuel Arajo e as novas dissidncias da Barquinha.......................................................... 143 Questes relevantes nas Fisses da Barquinha.................................................................................................. 165 Linha do astral x Linha da floresta: a Barquinha e a Umbandaime .......................................... 173 Grfico das Dissidncias e Extenses da Barquinha ........................................................................................ 178 6. 2 Lista de Centros da Linha da Barquinha no Acre............................................................................................ 180 Cap. III - A Linha da Unio do Vegetal............................................................................................................. 181 O Mestre Gabriel e a recriao da Unio do Vegetal.................................................................................... 181 A vinda para a Amaznia ............................................................................................................ 181 O Batuque, a Macumba, a Umbanda: a UDV e os cultos afro-brasileiros .................. 185 ndios, caboclos, seringueiros: os Mestres de curiosidade e a criao da UDV ................. 196 Linha do Tempo: Mestre Gabriel e UDV .......................................................................................................... 208 Crenas, prticas, mitos: a cosmologia udevista............................................................................................... 209 Estrutura ritual, organizao e hierarquia da Unio do Vegetal ....................................................................... 219 Organizao e Hierarquia .......................................................................................................... 219 As Sesses.................................................................................................................................... 222 Organizao e Hierarquia: concluso........................................................................................ 227 As cises da UDV.............................................................................................................................................. 229 O Supremo Centro Esprita Beneficente Mestre Gabriel Templo de Salomo Augusta Ordem Manica Rosaluz Estrela Oriental Universal Soberana Unio do Vegetal............................ 233 Centro Espiritual Beneficente Unio do Vegetal ........................................................................ 241 Grfico das Fragmentaes e Extenses da Linha da Unio do Vegetal ....................................................... 250 Lista de Ncleos e Centros da Linha da UDV................................................................................................... 252 Cap. IV- Contrastes, Continuidades e Tipos de Relaes entre as Linhas: a definio das fronteiras internas e externas................................................................................................................................................ 254 Fisses e categorias acusatrias nas linhas do Santo Daime, Barquinha e UDV............................................. 254 Concepes sobre o ch sagrado: Daime ou Vegetal........................................................................................ 261 Fronteiras entre os grupos e relaes com a sociedade..................................................................................... 267 Alguns eventos elucidativos: acusao e conflito ....................................................................... 278 Localizao e Distribuio dos Centros, Igrejas e Ncleos das Trs Linhas em Rio Branco...................... 286 Legendado Mapa dos Grupos de Rio Branco ................................................................................................... 288 Concluso............................................................................................................................................................... 290 Fontes Orais .......................................................................................................................................................... 296 Introduo-............................................................................................................................................... 296 Cap. 01-.................................................................................................................................................... 296 Cap. 02-.................................................................................................................................................... 297 Cap. 03-.................................................................................................................................................... 298 Cap. 04-.................................................................................................................................................... 299 Concluso-................................................................................................................................................ 299 Bibliografia............................................................................................................................................................ 300 Outras Fontes........................................................................................................................................................ 308 7. 3 8. 4 9. 5 TESE: Contrastes e Continuidades em uma Tradio Amaznica: as religies da ayahuasca Agradecimentos Agradeo FAPESP pela concesso de bolsa auxlio pesquisa, sem a qual o trabalho de campo para o presente estudo se tornaria invivel. Muitas pessoas contriburam para a concretizao desse projeto e para que ele chegasse ao seu trmino. Agradeo aos meus colegas e amigos do NEIP (Ncleo de Estudos Interdisciplinar de Substncias Psicoativas), Henrique Carneiro, Jlio Simes, Maurcio Fiore e Thiago Rodrigues. Bia Labate agradeo especialmente, minha amiga, parceira de vrios projetos intelectuais e de pesquisas e aventuras ayahuasqueiras: sou grata pela leitura dos captulos da tese, pelos comentrios, conversas e estmulo constante. Agradeo de forma particular ao professor e amigo estimado Edward MacRae, igualmente neipiano, que com seus trabalhos pioneiros sobre as religies da ayahuasca me inspirou e contribuiu para o aumento do meu interesse no tema, e fico feliz tambm por ter aceito compor a minha banca examinadora. Agradeo ao casal Marcelo Justo e Helena Singer (amigos queridos) e a Glauber, Annie, Flvia, Andrei e Yolanda pela leitura de uma das primeiras verses do projeto desta pesquisa. A Srgio Brissac, antroplogo, estudioso da Unio do Vegetal, agradeo pela ateno e pela presteza com que sempre respondeu s minhas consultas. Agradeo ainda aos meus colegas do programa de ps-graduao de Cincias Sociais do IFCH, pelo companheirismo. Agradeo ao meu orientador, Mauro Almeida, por suas contribuies, comentrios sempre esclarecedores, e idias que invariavelmente conduziam a alteraes e desvios ricamente originais da tese. Agradeo ao professor Robin Wright, sempre interessado no tema e aberto a consultas. Obrigada por sua gentileza e por ter aceito fazer parte das bancas de exame de qualificao e de defesa. Igualmente, sou grata professora Helosa Pontes por concordar em participar da composio da banca examinadora. Ao professor Alberto Groisman, outra inspirao nesse campo de estudos, agradeo tambm particularmente. Agradeo a todos os membros da banca pela boa vontade em aceitarem o meu texto mesmo com um atraso e peo, de antemo, desculpas. Agradeo tambm s secretrias do programa de ps-graduao do IFCH, sempre to gentis e prestativas. Os agradecimentos aos ayahuasqueiros so muitssimos e no possvel, neste pequeno espao, citar a todos. A todo o pessoal da comunidade Cu do Mapi, que me abriram os braos e as portas para que eu comeasse a me dedicar efetivamente ao estudo destas religies. Ao senhor Antnio Geraldo (in memoriam), que num belo depoimento, concedido a mim ainda em 1994, sem saber, acabou por lanar as sementes da idia desta pesquisa. Ao Francisco Hiplito de Arajo, da Barquinha, pela gentileza e presteza em me fornecer informaes e documentos. madrinha Chica Gabriel. Ao Salu, Felicidade, Cac, Joca, enfim, a todo o povo da igreja da madrinha Chica, um agradecimento bem carinhoso. Ao adorvel casal Juarez e Maria Rosa Xavier. Ao senhor Jos do Carmo e sua esposa, Sheila, obrigada pela ateno e carinho. Ao senhor Antnio Geraldo Filho e sua esposa. Ao Incio, tambm da Barquinha. E, tem mais ! Ao pessoal do Alto Santo, seu Jos, Hortncia Gomes, Lurdes Carioca, Ceclia Gomes, Toninho Alves, senhor Ladislau e Peregrina Gomes Serra, pela amabilidade com que sempre me trataram. A Cludio Leme, agradeo especialmente pela concesso de partituras de hinos do Santo Daime. Nos grupos da 10. 6 UDV, h tambm muitos a quem quero agradecer. amiga J, de Rio Branco (do CEBUDV), sou especialmente grata. Lcia Gentil, conselheira do ncleo Lupunamanta (CEBUDV), agradeo sobretudo pelos comentrios, sugestes e correes feitas ao meu texto na fase final do meu trabalho. Em outros grupos udevistas, tambm sempre encontrei apoio ao desenvolvimento da presente pesquisa. Agradeo particularmente ao senhor Muniz (CEBTOUS), de Rio Branco, por sua extrema delicadeza e, principalmente, por sua pacincia em me guiar na compreenso de alguns mistrios do Vegetal. Aos membros do ncleo Tucunac (de Augusto Queixada), tambm de Rio Branco, sou igualmente muito grata, especialmente pela forma amvel com que me receberam. Agradeo aos meus amigos de Rio Branco, que me ajudaram nos momentos mais penosos da pesquisa. Ao querido Antoine, por seu apoio emocional e espiritual. Mariana Pantoja, colega, antroploga, por ter me hospedado em sua casa, permitindo que o trabalho de campo ficasse mais agradvel. Silvana Rossi e Chiquinha, pelo carinho. Agradeo ainda ao meu amigo e colega de estudos ayahuasqueiros, Wladimyr Sena Arajo, por ter me recebido em sua casa, em Rio Branco, e pelo apoio e incentivo; e a muitos outros personagens acreanos que no cabem aqui mas esto no meu corao, meus sinceros agradecimentos. Agradeo ainda aos amigos Cibele Celine, Aline Monzillo e Carlos Minuano, que acompanharam vrias etapas desse trabalho. minha famlia, pelo apoio constante, e especialmente aos meus pais, agradeo por tudo, de todo o meu corao. Ao Vegetal, Santo Daime, Hoasca, ayahuasca.... enfim bebida de tantas designaes, pela inspirao. 11. 7 12. 8 Introduo Dimenses conflitantes de uma tradio religiosa O presente trabalho tem como objetivo principal realizar uma comparao entre os grupos religiosos do Santo Daime, da Barquinha e da Unio do Vegetal (UDV), os quais so tratados aqui como diferentes linhas de uma mesma tradio religiosa, que agrupamos sob o nome geral de tradio religiosa ayahuasqueira ou ainda religies da ayahuasca.1 Estes grupos tm em comum a utilizao ritual da ayahuasca, a qual uma bebida psicoativa.2 A expresso religies da ayahuasca ou ayahuasqueiras foi inspirada em definies e categorias dos prprios adeptos dos grupos pesquisados. Afinal, independentemente da linha ou da diviso qual pertencem, todas estas religies se definem a partir do uso da ayahuasca, ou seja, assim que elas se auto-identificam, como tambm identificam umas s outras. Simultaneamente, como religies da ayahuasca que elas so imediatamente conhecidas por demais grupos religiosos e na sociedade mais ampla. Trata-se, portanto, de um termo que expressa o modo como estes cultos religiosos so reconhecidos, seja por eles mesmos ou por outros. A noo aparece ainda nos primeiros trabalhos sobre estas religies, mesmo que definida ou utilizada de forma tnue e indiretamente, para depois se consolidar como uma referncia conceitual neste campo de estudos (Labate, Sena Arajo e Goulart 2002, pp. 19-31). Clodomir Monteiro da Silva (1983) foi quem utilizou pela primeira vez o termo linha para designar os grupos do Santo Daime, da Unio do Vegetal e da Barquinha enquanto variantes doutrinrias no interior de uma mesma tradio religiosa ayahuasqueira. Ele foi seguido por outros estudiosos nesta via de interpretao, como por exemplo Fernando de La Rocque Couto (1989, pp. 42-67 e 244). Tanto Monteiro como La Rocque Couto 1 Ayahuasca um termo quchua, cuja etimologia dada por Lus Eduardo Luna como: Aya persona, alma, espritu muerto; Wasca cuerda, enradadera, parra, liana. A denominao, segundo este antroplogo, uma das mais usadas para designar tanto a bebida quanto uma das plantas que a compem: o cip Banisteriopsis caapi. (Luna 1986, pp. 73-4). Pode-se traduzir literalmente ayahuasca para o portugus, portanto, como corda dos espritos ou corda dos mortos e ainda como cip (liana) dos espritos ou dos mortos. Alguns dicionrios on-line colocam, tambm, que ayahuasca um neologismo quchua, surgido na segunda metade do sculo XIX. Em todos os grupos religiosos aqui discutidos, combina-se o cip B. caapi com as folhas de outra espcie vegetal, a Psychotria viridis, a qual contm o princpio ativo DMT (N-dimetiltriptamina). O cip e as folhas, juntos, so cozidos e fervidos, seguindo-se um processo ritual complexo. O resultado final um ch considerado sagrado, o qual ser consumido nas cerimnias das linhas religiosas do Santo Daime, da Barquinha e da UDV, constituindo-se no seu principal elemento ritual e simblico. Na presente tese utilizarei o termo ayahuasca sobretudo quando o objetivo for enfatizar o meu prprio ponto de vista, bem como um contexto mais geral, que se sobreponha aos contextos particulares dos diferentes grupos das trs linhas, nas quais a bebida recebe, alis, denominaes diversas. Embora ayahuasca no seja um vocbulo da lngua portuguesa, optei por no utilizar o modo itlico, dada a quantidade de vezes que o termo aparece no texto. 2 A noo de psicoativo se refere a um conjunto de plantas e tambm de substncias qumicas que agem sobre a mente e a psique do sujeito, provocando neles uma alterao (Seibel e Toscano 2001). As substncias psicoativas esto sujeitas a diversos tipos de classificaes, as quais tem, alis, mudado significativamente ao longo da histria e do desenvolvimento da cincia ocidental. No comeo do sculo XX, por exemplo, o farmaclogo Ludwig Lewin as dividiu em cinco categorias diferentes: excitantia, hypnotica, phantastica, euphorica e inebriantia. J nos anos cinqenta, J. Delay e outros cientistas propuseram uma outra classificao para esse tipo de substncia, agora baseada numa diviso em trs grupos: psicoanalpticos, que so os excitantes; os psicolpticos, que so os sedativos; e os psicodislpticos, que se referem aos alucingenos (Carneiro 2002; Goulart e Labate No Prelo). 13. 9 entendem que a distino entre as linhas feita atravs de diferenciaes no tocante ao contedo das narrativas mticas, s formas rituais e ao conjunto de entidades que integram cada panteo. Nesta tese linha um conceito elaborado para fins analticos, embora seja tambm uma noo utilizada por alguns dos grupos aqui analisados. Assim, o termo corrente nos cultos do Santo Daime e da Barquinha. Em ambos ele pode implicar em vrios significados. Inicialmente, nos dois cultos, ele utilizado como na Umbanda, ou seja, indicando uma linha de trabalhos espirituais, que compreende determinadas classes de seres sobrenaturais. Por exemplo, na Barquinha, h a linha dos pretos-velhos ou dos caboclos que atuam e se manifestam (incorporam nos fiis) de formas e em momentos diferentes. No Santo Daime, que como veremos, possui menos proximidade com o universo religioso afro-brasileiro, recorre-se tambm expresso para categorizar tipos de entidades, mas mais particularmente espcies de rituais, marcando-se as diferenas entre eles como entre os de concentrao e os de mesa branca ou de cruzes e ainda o de cura. J na Unio do Vegetal, o termo linha s utilizado ocasionalmente, de uma forma mais vaga, e no tem relao direta, como no Santo Daime e na Barquinha, com a sua ordem cosmolgica. Porm linha pode ser utilizado, igualmente, pelos fiis da Barquinha, Santo Daime e Unio do Vegetal, para se referirem, de uma forma genrica, sua distino mtua. Nesse sentido, Barquinha, Santo Daime e UDV so vistos, por seus prprios adeptos, como cultos ou religies ou doutrinas diferentes. Mas, simultaneamente, eles admitem que esto todos relacionados pelo uso da ayahuasca, entendendo-se, implicitamente, como linhas distintas em torno do consumo desta bebida. Por outro lado, em primeiro lugar, isto no conduz necessariamente a uma viso, de si mesmos, como totalidades homogeneizadas. Ao contrrio, pois existem, conforme veremos ao longo da presente tese, uma infinidade de rupturas internas aos cultos do Santo Daime, Barquinha e Unio do Vegetal, expressas, na maior parte das vezes, por oposies bastante definidas e conflitos de extrema tenso. Em segundo lugar, o fato dos membros, de cada um desses cultos, se conceberem, recproca e igualmente, como linhas da ayahuasca no impede que ocorram disputas entre o Sato Daime, a Barquinha e Unio do Vegetal para definir qual deles representa o uso mais legtimo do ch, ou seja, no anula as rivalidades e hostilidades entre eles. O mesmo pode ser dito com relao aos segmentos internos ao Santo Daime, Barquinha e Unio do Vegetal. Dito de outro modo, todos esses grupos podem aceitar que h varias linhas da ayahuasca, embora muitos deles reservem-se o privilgio de serem a linha autntica em detrimento das demais, consideradas menos legtimas ou verdadeiras. Nesse sentido, nossa definio de linha distingue-se, de fato, da noo que recebe o mesmo nome nos grupos pesquisados. O conceito analtico, privilegiado aqui, destaca a unidade de cada uma destas religies, enquanto a perspectiva mica ressalta a fragmentao e as diferenas. A unidade s , a, admitida de forma genrica. Inversamente, procuraremos mostrar que os contrastes ocorridos entre as religies ayahuasqueiras enfocadas dissimulam uma continuidade, que as insere numa mesma tradio. Explicaremos melhor no que consiste tal tradio mais adiante. No momento, importante frisar que a nossa perspectiva no coincide exatamente com a viso nativa. No comum, na verdade, que os adeptos do Santo Daime, Barquinha e Unio do Vegetal se visualizem como pertencentes a uma nica tradio. Portanto, sintetizando nossa argumentao, na prtica, um grupo, por exemplo, do que estamos chamando de linha do Santo Daime pode no considerar um outro grupo, que na minha classificao tambm faz parte desta linha, como pertencente a sua prpria linha. Isto ocorre porque, Santo Daime, Barquinha e UDV abarcam unidades que se distinguem e que funcionam autonomamente. Mas, simultaneamente, os grupos que se 14. 10 auto-definem como linhas (no sentido mico) podem ser reunidos (analiticamente) em uma s linha, na medida em que reivindicam uma origem comum e um mesmo conjunto de mitos e ritos. Por outro lado, embora realmente a extenso das diferenas e fisses no interior de uma linha principal (como emprego aqui, designando uma das trs grandes religies da ayahuasca) seja grande, com grupos determinados podendo distinguir-se uns aos outros como linhas diferentes no interior da linha principal, eles nunca se afirmaro como membros de uma outra linha principal, nem de uma linha menor contida em outra linha principal. Historicamente, a primeira religio ayahuasqueira aquela que ficou conhecida como Santo Daime. Ela foi criada pelo ex-seringueiro Raimundo Irineu Serra o Mestre Irineu no incio de 1930, na periferia da cidade de Rio Branco, no ento territrio federal do Acre. Uma das explicaes mais comuns para a designao Daime, entre os adeptos desta religio, que ela refere-se s invocaes que so dirigidas prpria bebida ou melhor, ao ser espiritual presente na beberagem. Assim, por exemplo, ao se ingerir o ch sagrado, seriam feitos pedidos ntimos, como: dai-me sade, dai-me amor ou dai-me luz. Afirma-se tambm que o nome Daime foi revelado ao Mestre Irineu por uma divindade feminina a qual ser posteriormente identificada Virgem crist , ainda durante suas primeiras experincias com esta bebida. Contudo, existem outras explicaes para a denominao Daime.3 Em 1945, surge outra religio da ayahuasca, e que consideramos como sendo historicamente a segunda linha dessa tradio religiosa, a Barquinha4 , tambm em Rio Branco, criada por Daniel Pereira de Mattos, o Mestre Daniel, que freqentou o culto fundado pelo Mestre Irineu por cerca de dez anos. Daniel optou por deixar o culto do Mestre Irineu porque passou a crer que era portador de uma outra misso religiosa (Sena Arajo 1999, pp. 44-47). Os depoimentos que discorrem a respeito desse perodo so praticamente unnimes em afirmar que a sada de Daniel do Santo Daime ocorreu pacificamente, com a orientao e o consentimento do prprio Mestre Irineu. Como nos grupos da linha do Santo Daime, em todos os centros da linha da Barquinha tambm se utilizar a designao Daime para se referir ao ch consumido nos rituais desta religio. Finalmente, em 1961, aparece a terceira religio da ayahuasca, ou seja, aquela que cronologicamente a terceira linha da tradio religiosa ayahuasqueira, a Unio do Vegetal ou UDV, como conhecida. Ela foi fundada por Jos Gabriel da Costa, natural do estado da Bahia, que chegou regio amaznica no incio de 1940, trabalhando a como seringueiro, tal como os fundadores das demais linhas. Inicialmente o nome do centro fundado pelo Mestre Gabriel era Associao Beneficente Unio do Vegetal. Um pouco antes de seu falecimento 3 Em seu primeiro trabalho sobre o Santo Daime, uma dissertao de antropologia, Monteiro da Silva sustenta que o rogativo dai-me teria sua origem no espanhol, idioma no qual comum a formao verbal da-me, e que utilizado na regio de fronteira entre o Brasil e pases como o Peru e a Bolvia, onde o Mestre Irineu teve suas primeiras experincias com o ch. O autor lembra, igualmente, que outros termos de origem espanhol so utilizados no contexto daimista, como por exemplo mirao, que remete a mirar, olhar, ver, e que no Santo Daime passa a significar as vises produzidas pelo prprio efeito do ch, entendidas como revelaes divinas ou espirituais (Monteiro da Silva 1983). Entretanto, em outro trabalho mais recente, Monteiro da Silva defende uma nova hiptese sobre a origem da designao Daime (Monteiro da Silva 2002). Voltaremos a este ponto no captulo 01. 4 Uma das explicaes para o nome Barquinha dada por Wladimyr Sena Arajo, o qual autor do primeiro estudo acadmico sobre este grupo religioso. Segundo Sena Arajo, Barquinha vm de barca, e associa-se misso dos seguidores de Mestre Daniel que, alm de seringueiro, foi tambm piloto fluvial. Assim, os fiis dos centros desta linha dizem: navegar nas ondas do mar sagrado; sendo que o mar aqui associado ao prprio ch da ayahuasca. (Sena Arajo 1999, pp. 75-84). Contudo, durante trabalho de campo que realizei na cidade de Rio Branco para este estudo, me foram fornecidas outras explicaes para a origem da designao Barquinha, as quais sero comentadas posteriormente. 15. 11 (que se deu em 1971), no ano de 1970, o nome foi mudado para Centro Esprita Beneficente Unio do Vegetal (CEBUDV), sendo oficialmente registrado com essa designao. At o falecimento do Mestre Gabriel, as duas denominaes, UDV e CEBUDV, se reportavam a um nico grupo. Porm, conforme veremos, aps a sua morte, surgem uma srie de cises que daro origem a outros grupos que reivindicam, tambm, o nome UDV. Verificaremos, inclusive, que a disputa pelas designaes que nomeiam, genericamente, estas religies uma constante entre os seus respectivos grupos, embora possa se manifestar de modos diversos em cada uma delas. Na Unio do Vegetal, este tipo de conflito parece assumir um carter mais enfaticamente legalista, embora tambm, ocasionalmente, grupos das outras linhas possam se envolver em disputas judiciais em torno do direito de usar determinadas designaes que os identifiquem. Assim, no nosso trabalho, quando estivermos nos referindo ao perodo de formao da religio da Unio do Vegetal, e poca em que o Mestre Gabriel era vivo, utilizaremos os termos UDV(ou Unio do Vegetal) e CEBUDV como equivalentes. Porm quando o alvo da nossa anlise for o processo de fragmentao dessa religio, a denominao CEBUDV passar a se referir apenas a um de seus grupos (o qual o primeiro deles), que se contrape aos demais. Por fim, utilizaremos a designao UDV para enfatizar a linha no seu conjunto, seguindo nossa argumentao analtica anteriormente explicada. Enquanto as duas outras linhas demonstram ter relaes bastante estreitas entre si, a Unio do Vegetal teve um desenvolvimento mais autnomo. Ela surge num seringal denominado Sunta, localizado nas proximidades da fronteira entre o Brasil e a Bolvia, criada5 por Jos Gabriel da Costa (Brissac 1999, pp. 60-63), o qual, como os fundadores das duas outras linhas, tambm ser chamado Mestre. Em 1965, Mestre Gabriel muda-se para a cidade de Porto Velho, e a comea a organizar mais sistematicamente o novo culto em torno do uso da ayahuasca. Na linha religiosa da UDV, diferentemente das duas outras linhas, o ch recebe o nome de Vegetal. Apesar das diferenas entre essas religies, h elementos comuns sua histria que justificam trat-las como linhas de uma mesma tradio religiosa, como fazemos aqui. Em primeiro lugar, os fundadores de todas elas eram nordestinos que migraram para a regio amaznica. Irineu Serra e Daniel Pereira de Mattos (fundadores do Santo Daime e da Barquinha, respectivamente) eram conterrneos, oriundos do estado do Maranho, e chegaram no Acre no comeo do sculo XX, para trabalhar na explorao da borracha. Mestre Gabriel (o fundador da UDV) era baiano, e se alistou no chamado Exrcito da Borracha6 em 1943, vindo para Porto Velho neste ano, j no segundo ciclo da extrao gumfera. Todos os trs exerceram a atividade de seringueiro em certos perodos de suas vidas. Mas o elo entre a origem desses cultos e uma realidade seringueira no se d apenas em funo de seus fundadores terem trabalhado na extrao da borracha. Muitos dos primeiros adeptos das religies ayahuasqueiras exerciam ou haviam exercido a atividade seringueira. Em alguns casos, 5 Segundo os adeptos da UDV, este fato ocorreu exatamente no dia 22 de julho de 1961. Contudo, conforme esclareceremos, para os seus fiis ela no foi criada nessa data, e sim recriada pelo Mestre Gabriel, pois este j teria criado a UDV anteriormente, quando vivia, no passado, uma outra encarnao. A cronologia da fundao da UDV envolve, portanto, complexas interpretaes cosmolgicas. Ainda no que alude ao surgimento deste grupo religioso, uma outra data importante a que se refere confirmao no plano espiritual denominado astral da Unio do Vegetal. Conta-se que isso teria sido feito pelo Mestre Gabriel em 1o de novembro de 1964, durante uma sesso com o ch, ainda no seringal Sunta. Estes fatos, bem como outros, sero comentados mais profundamente ao longo da presente tese. 6 As expresses Exrcito e soldado da Borracha se referem aos trabalhadores nordestinos que foram recrutados e levados para trabalhar nos seringais amaznicos do Brasil na poca da Segunda Guerra Mundial, conforme esclareceremos mais detalhadamente a seguir. 16. 12 como no Santo Daime do Mestre Irineu, o novo grupo religioso aparece, num primeiro momento, como uma clara reorganizao, material e simblica, de ex-seringueiros que, no perodo de refluxo do ciclo da borracha, haviam deixado as antigas colocaes rurais para viver na periferia da capital acreana (Goulart 1996). Embora a situao seja diferente nos casos da Barquinha e Unio do Vegetal, podemos tambm perceber a presena de elementos de uma cultura seringueira no processo de constituio dessas religies. A relao entre as religies ayahuasqueiras e a cultura seringueira cabocla da Amaznia se d num nvel profundo, expressa na sua mitologia, nos seus rituais e no seu conjunto moral. Alguns autores j argumentaram que o surgimento de um conjunto de prticas e crenas caboclas ou mestias em torno do uso da ayahuasca, na Amaznia, se deu justamente atravs do contato entre os caucheiros e grupos indgenas e populaes ribeirinhas diversas j bastante influenciadas por uma evangelizao crist. Tal a perspectiva de Luis Eduardo Luna, que estudou curadores xamnicos da selva peruana, denominados de vegetalistas, da regio de Iquitos e Pucallpa (1986-a). Os vegetalistas so assim designados, na regio, porque sustenta-se que todo o seu conhecimento provm das plantas, isto , dos espritos que se vinculam a elas. A ayahuasca uma das plantas mais usadas por esses agentes curadores. Segundo o autor, sobretudo os perodos de explorao da borracha impulsionaram um intenso intercmbio cultural entre diferentes grupos e etnias que ocupavam a selva peruana, bem como toda a extenso da bacia do Alto Amazonas. O consumo da ayahuasca voltado para a finalidade teraputica seria um dos pontos mais importantes deste intercmbio. Luna cita, inclusive, os comentrios de alguns de seu prprios informantes, os vegetalistas, os quais afirmam que foram os caucheiros que descobriram a ayahuasca (1986-a, p. 35), passando a utiliz-la com um meio de solucionar problemas e enfermidades as mais variadas. O autor conclui que a bebida aparecia, assim, para essa populao seringueira, como um remdio para todos os males, do corpo e do esprito, uma panacia. Outros estudiosos fazem comentrios similares, como Nunes Pereira, que chama a ayahuasca de Yerba del Cauchero (1979). Luna diz, ainda, que esta tradio vegetalista ayahuasqueira teria surgido h cerca de duzentos anos,7 havendo vrios tipos de vegetalismos, procedentes de diferentes sentidos migratrios e envolvendo populaes distintas (Luna 1986-a e 2002). Assim, por exemplo, as migraes vindas de Cuzco, passando pelo Vale de Urubamba ou do oriente equatoriano, seriam igualmente importantes na formao do complexo vegetalista, que se caracterizaria, portanto, por componentes do universo da selva amaznica, do andino e de aspectos advindos das misses crists. Luna sugere, num pequeno comentrio, que talvez tenha ocorrido um processo similar na Amaznia brasileira, justamente envolvendo a organizao das religies do Santo Daime, UDV e Barquinha, que teriam sofrido a influncia de tipos diferentes de vegetalismo, combinando as crenas deste ltimo com elementos de outras tradies, como o catolicismo popular, o espiritismo kardecista, os cultos afro-brasileiros e correntes esotricas como o Crculo Esotrico da Comunho do Pensamento (Luna 2002). Esta configurao de vegetalismos mestios ou caboclos, para o autor, seguiria, tambm, um movimento mais geral, que j se verifica, de forma clara, em toda a regio Amaznica desde o princpio do sculo XX, quando surgem vrios cultos messinicos-milenaristas que mesclam componentes indgenas, catlicos populares ou ainda protestantes e espritas (Luna 1986-a). Outros estudos apontam na mesma direo (Castres 1978, Oro 1989, Wright 1999 e No Prelo). Veremos, na nossa anlise, que algumas das suposies de Luna de fato se confirmam no caso das religies do Santo Daime, Barquinha e Unio do Vegetal. Em todas elas o complexo cultural-seringueiro, 7 Outro estudioso, Peter Gow, fala em trezentos anos de uma cultura vegetalista ayahuasqueira (1996). 17. 13 estreitamente vinculado ao uso da ayahuasca, possibilita o aparecimento do novo culto, doutrina ou misso, fornecendo elementos essenciais para a constituio de suas cosmologias e, por outro lado, sendo uma das principais referncias para a sua legitimao. Simultaneamente, os componentes da cultura cabocla seringueira do ch se combinam, nestas novas religies, a aspectos do catolicismo popular, afro-religiosos, kardecistas, entre outros, implicando, tambm, em alguns messianismos. Sua formao envolve, embora em menor ou maior grau, lderes e adeptos que vieram do meio rural aps uma srie de migraes, parecendo implicar num processo de mediao entre o mundo da floresta e o mundo da cidade. Conforme veremos, alis, as trs linhas aqui analisadas so, em certo sentido, fundadas por lderes carismticos, expressando a estruturao de doutrinas profticas. Contudo, vale registrar que, embora a utilizao da ayahuasca conte com uma longa tradio indgena e mestia (ou cabocla) no Brasil e em outros pases da Amrica do Sul, somente na regio brasileira (que abrange as bacias dos rios Madeira, Purus e Juru) que o uso do ch tomar a forma de religies urbanas organizadas e no indgenas fenmeno nico no cenrio sul-americano e representado pelo Santo Daime, a Barquinha e a Unio do Vegetal. Talvez exatamente porque surgem num momento de mudanas do mundo rural, todas esses cultos so organizados j num contexto urbano, embora seja na periferia de capitais de estados amaznicos Rio Branco, no caso do Santo Daime e Barquinha, e Porto Velho, no caso da UDV (Goulart 1996).8 As trs linhas so, a meu ver, diferentes reelaboraes de um mesmo complexo de crenas, o do vegetalismo amaznico peruano e da pajelana cabocla esta ltima estudada por autores como Eduardo Galvo (1955) e Heraldo Maus (1990) , os quais so resignificados como um forma de adaptao s transformaes que ocorriam no meio rural, atravs da recorrncia a outras tradies culturais e universos religiosos, como apontamos anteriormente. nesse sentido, tendo em mente este panorama mais geral, que poderamos considerar que as linhas do Santo Daime, Barquinha e Unio do Vegetal fazem parte de uma mesma tradio religiosa: a tradio religiosa ayahuasqueira urbana amaznica que, por comodidade, chamada aqui de tradio ayahuasqueira . Pode- se dizer tambm que estas linhas se inserem num campo religioso, o campo das religies ayahuasqueiras.9 Beatriz Caiuby Labate emprega a noo de campo ayahuasqueiro num sentido similar, embora de modo mais abrangente, ao inserir o que ela denomina de usos no-convencionais da ayahuasca, praticados por neo- ayahuasqueiros, no contexto mais amplo do campo ayahuasqueiro brasileiro (Labate 2000, cap. 03 e 04). Entre outras coisas, Labate afirma que os diferentes grupos religiosos que utilizam a ayahuasca participariam de uma tradio comum na medida em que compartilham de uma srie de categorias, como mirao, fora, luz, peia etc. 10 8 Em minha dissertao de mestrado tratei detalhadamente das relaes entre as origens do Santo Daime e as transformaes de uma cultura rstica brasileira, trabalhando com autores como Antnio Cndido (1964), Maria Isaura Pereira de Queiroz (1973) e Eduardo Galvo (1955). 9 Aqui creio que extremamente adequado o conceito de campo de Bourdieu. Para este autor, o campo (seja ele mdico, esttico, religioso etc) um espao onde ocorre uma espcie de jogo, no qual h uma constante disputa no que se refere ao poder de definir as regras desse jogo. Assim, de acordo com esta perspectiva, Santo Daime, Barquinha e UDV so diferentes partes de um mesmo campo religioso, que lutam para definir quais so as prticas, ou seja, as formas legitimamente religiosas deste campo (Bourdieu 1990, pp. 119-120). 10 Estes termos se referem aos efeitos diretamente provocados pelo ch da ayahuasca. Mirao e Luz aludem mais aos efeitos visuais; fora intensidade com que a ayahuasca est atuando; enquanto peia remete, em geral, a efeitos negativos suscitados pela bebida. Todas estas noes so encontradas nas trs linhas. 18. 14 Porm no se trata apenas do fato de que algumas categorias, termos ou noes dispersas sejam compartilhadas pelos diversos grupos religiosos ayahuasqueiros. No caso das linhas do Santo Daime, da Barquinha e da UDV, mais que isso, eu diria que ocorre uma verdadeira e intensa circulao de smbolos, elementos rituais, princpios doutrinrios e at mesmo de seres espirituais cultuados. Tal o caso, para citarmos apenas um exemplo, de Juramid11 , que considerada como a principal entidade em todos os grupos da linha do Santo Daime e que, no entanto, vai aparecer no panteo da Barquinha, s que representada de uma outra forma e tendo um destaque menor do que na linha do Santo Daime. Contudo, apesar de identificarmos uma tradio comum s trs linhas, os seus fiis, num processo de auto-afirmao de seus prprios cultos, ritos, mitos e universos mitolgicos destacam, constante e insistentemente, sua separao e distino. Isso claro nos depoimentos que cito a seguir, que so retirados de meus dados de pesquisa. No primeiro deles, um membro de um dos grupos da linha do Santo Daime fala a respeito da Barquinha e de seu fundador. verdade que o Daniel Pereira de Mattos foi primeiro dessa linha do Mestre Irineu (...) mas, depois, ele saiu e fundou a linha dele, que bem diferente (...) Ele disse para o Mestre que tinha outra misso [AS: C-1; if 1-a]. O prximo relato, por sua vez, um trecho de uma entrevista que fiz ainda na ocasio do trabalho de campo realizado para meu mestrado, em 1994, na cidade de Rio Branco. Trata-se de um relato do lder de uma das igrejas da Barquinha, o sr. Antonio Geraldo (falecido no final do ano de 2000), que explica algumas das diferenas entre a sua linha e a linha do Santo Daime. A Barquinha a linha de Daniel.... da misso do Mestre Daniel (...) Ns temos uma ligao forte com os seres do mar (...) Alm desses seres do mar, tem tambm os seres da floresta e do astral. So trs planos: astral, que o plano superior, o mais elevado; terra e mar, que so planos subordinados ao astral (...) Esses trs planos esto presentes em todos os trabalhos12 da Barquinha (..) J na linha do Mestre Irineu diferente, porque esses trs planos no so assim to destacados. Mas l mais destacado esse plano da terra, das matas (...) L j outra linha [B: AG]. Na fala seguinte, extrada de uma conversa informal com um antigo adepto de um ncleo paulista do CEBUDV (Unio do Vegetal), fundado em 1973, evidenciamos esta mesma tentativa de diferenciao com relao a outros grupos religiosos ayahuasqueiros. 11 Em linhas gerais, podemos dizer que Juramid a entidade que representa o fundador desta linha, o Mestre Irineu, no plano espiritual. Mas explicaremos melhor este ponto posteriormente. Verificamos a ocorrncia de duas grafias, Juramidam e Juramid. Oficialmente, o CEFLURIS, por exemplo, utiliza o vocbulo Juramidam, embora haja vrios estudos sobre este segmento da linha do Santo Daime nos quais encontramos a palavra grafada como Juramid. Aqui, optamos por esta ltima, por acreditarmos que ela de uso mais generalizado que a primeira. 12 A expresso trabalho aparece na linha da Barquinha e na linha do Santo Daime, para se referir s atividades espirituais desenvolvidas nestas duas religies. Mas na linha do Santo Daime que ela vai ser utilizada com mais nfase, para se referir especificamente aos seus rituais. Como sabemos, a expresso usada em cultos afro- brasileiros como a Umbanda, significando a as oferendas cerimoniais feitas s divindades desta religio. Um outro termo aplicado a esse tipo de atividade da Umbanda despacho, que tambm faz parte das noes daimistas. Assim, despacho se refere ao prprio ato de servir o Daime. 19. 15 A bebida que usamos aqui pode ser a mesma que se usa em outros lugares (...) a ayahuasca. Mas, no fundo, no a mesma bebida, porque aqui fazemos um uso diferente, dentro de um contexto diferente (...) As sesses da UDV, os nossos rituais (...) e principalmente os nossos objetivos so totalmente diferentes dos de outros grupos (...) Existem grupos, por exemplo, como o Santo Daime, do qual discordamos muito [CEBUDV, if. 1, SP]. importante esclarecer que conforme estas trs linhas vo crescendo, crescem tambm as rupturas no interior delas. Um fato que se destaca que em todas elas o processo de segmentao torna-se mais acirrado aps a morte de seus fundadores. O Mestre Daniel, fundador da Barquinha, falece em 1958 e tanto o Mestre Irineu, da linha do Santo Daime, quanto o Mestre Gabriel, da UDV, coincidentemente falecem no mesmo ano, em 1971. A partir da, cada uma destas trs linhas passou se reorganizar, fragmentando-se de diferentes maneiras. Por exemplo, veremos que, no interior da linha do Santo Daime, a fisso bastante complexa, com uma diviso inicial em dois grupos principais que se distinguem por uma srie de aspectos, e se organizam de maneira autnoma, embora ambos reivindiquem o pertencimento a uma mesma linha. Estes dois grupos constituem, a meu ver, diferentes segmentos da linha do Santo Daime: o ALTO SANTO 13 e o CEFLURIS (Centro Ecltico de Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra). Tais segmentos, por sua vez, dividem-se em diferentes e menores agrupamentos, que denomino de centros ou igrejas, os quais possuem um carter local, no sentido de que se referem a um espao fsico especfico, a determinadas lideranas, a um templo onde se renem um grupo de fiis que compartilham um mesmo conjunto de prticas rituais. A linha da Barquinha que, em nmero de adeptos, menor do que a linha do Santo Daime, dividida diretamente em vrios pequenos centros diferentes, os quais surgiram a partir de um processo de cises, cada qual tendo, atualmente, uma organizao independente, apesar de tambm se colocarem, todos, como grupos que se originaram da linha religiosa fundada pelo Mestre Daniel. J a linha da UDV, que a maior de todas as trs em termos de nmero de membros, possui uma estrutura organizacional bastante rgida, de carter marcadamente centralista. Contudo, tambm nela observamos a presena do fenmeno da fragmentao, com o aparecimento de grupos, aps o falecimento do Mestre Gabriel, que romperam com a instituio criada por ele, isto , o CEBUDV (Centro Esprita Beneficente Unio do Vegetal), apesar de igualmente se visualizarem como seus seguidores, bem como de sua doutrina. Tanto o CEBUDV, quanto os grupos mais recentes desta linha, esto organizados em pequenas unidades que se distribuem por vrias regies do Brasil, e se subordinam a uma nica administrao e direo. Tais unidades so denominadas, pelos adeptos desta linha, de ncleos. Assim, de um modo geral, teramos uma mesma tradio religiosa que se divide em trs grandes linhas e, depois, linhas que se fragmentam em diferentes grupos, maiores ou menores, que so aqui classificados como segmentos ou/e centros e igrejas locais de uma determinada linha. Estes ltimos conceitos so utilizados para nos referirmos s diferenas internas s linhas. As noes de segmento, igrejas, centros locais e ncleos tambm so utilizadas pelos grupos pesquisados, embora no tenham necessariamente, como no caso de linha, o mesmo sentido que os conceitos analticos empregados na presente tese. 13 Em 1945, o Mestre Irineu recebeu a doao de um terreno, a colnia Custdio Freire, situada na periferia rural de Rio Branco. Ele repartiu a terra entre os seus seguidores e construiu neste local a sua igreja. O local, o templo e, em algumas situaes, o prprio culto, passaram a ser conhecidos como Alto Santo. 20. 16 importante registrar aqui, igualmente, que eventualmente utilizamos o termo dissidncias para tratar das cises surgidas em todas essas religies. Contudo, ele utilizado como um recurso analtico para referir-se a grupos surgidos por segmentao no interior da tradio religiosa ayahuasqueira. No sentido aqui usado, uma dissidncia simplesmente sinnimo para um grupo surgido a partir de algum conflito com um grupo anterior, do qual continua a utilizar nomes e smbolos, tendo sido fundado em parte por membros do grupo anterior. O termo, portanto, no implica um juzo de valor sobre qual o grupo mais autntico ou legtimo. Objetivos e contribuies gerais do estudo O presente estudo tem como um objetivo geral relacionar o fenmeno das religies ayahuasqueiras a debates mais amplos. Assim, tendo em vista que o perodo de surgimento das religies ayahuasqueiras coincide com a ocorrncia de profundas mudanas na sociedade rural brasileira, procurou-se, atravs desta pesquisa particular, enfatizar, no interior daquelas mudanas, os processos que ocorriam na Amaznia, relativizando a idia de isolamento desta regio. Afinal, como coloca o estudioso portugus Carlos Alberto Afonso, ao contrrio do que se imagina, a primeira religio ayahuasqueira, que o Santo Daime, surgiu numa regio de (...) fronteira internacionalizada pela economia da borracha e urbanizada pela cultura comercial e por vrias hierarquias de deslocaes internas (seringueiros, militares, comerciantes, burocratas, polticos) (....) O Acre era, em particular, o espao de fronteira e de trfegos inter-culturais entre a sociedade diasprica que se formava, no lado brasileiro, e o multiculturalismo tradicional da Amaznia, nomeadamente o xamanismo dos ayahuasqueiros (Afonso s.d.). 14 A partir dos anos setenta, estas religies da ayahuasca comeam a se expandir em ritmo acelerado para outras partes do Brasil. Hoje em dia, existem extenses desses grupos em quase todas as principais metrpoles do pas. Srgio Brissac, por exemplo, constata que oitenta por cento dos adeptos da Unio do Vegetal residem em cidades de mais de 100 mil habitantes (Brissac 1999, p. 21). A expanso destas religies tambm ocorre embora em menor escala no exterior.15 Esta disseminao das religies da ayahuasca para outras regies, alm da Amaznica, coloca com mais agudez a questo dos relacionamentos dessas religies com a sociedade mais ampla um relacionamento j presente em suas origens, e que parte integrante de sua dinmica contempornea. Desta forma, de um modo geral, um estudo sobre as religies ayahuasqueiras remete e contribui para a reflexo de discusses sobre processos bastante atuais, como a globalizao cultural e o papel das tradies no seu interior. 14 Afonso sd., pp. 10-11. CF. O Prefcio de Mauro Almeida a um volume dedicado aos usos rituais da ayahuasca: Os seringueiros so os extratores do ltex da Hevea; so por definio seres deslocados que viajaram do extremo rido do Brasil s mais remotas cabeceiras da Amaznia e ficaram no meio de uma viagem de volta. Durante esse priplo que fundaram religies consagradas ao uso de seivas extradas de vegetais da selva, com as quais continuam e estendem sua viagem, nas ondas do mar sagrado, ou talvez mesmo prosaicamente em um avio espiritual. Esses seringueiros deram assim uma lio importante de criatividade cultural e percepo ambiental, em anos de crise global e em um ambiente de dispora, em religies que reencenam as viagens foradas pelo sistema econmico, e transmutando-as em viagens do esprito (Almeida 2002). 15 O CEFLURIS, da linha do Santo Daime, tem grupos afiliados na Argentina, Espanha, Itlia, Frana, Sua, Alemanha, Holanda, EUA, Japo, entre outros. A UDV tambm conta com ncleos no exterior; j a linha da Barquinha no possui extenses fora do pas. 21. 17 Igualmente, seguindo essa via de argumentao, vale lembrar que, no s as religies da ayahuasca comeam a se organizar num perodo no qual as transformaes do mundo rural brasileiro esto se iniciando o que na Amaznia significa a crise da economia assentada no extrativismo dos anos trinta, e a urbanizao acelerada dos anos setenta , como o processo atual de expanso dessas religies relaciona-se configurao de uma nova sociedade na qual o domnio rural e o espao urbano se interpenetram, interligados por novos personagens e atores. Tornam-se freqentes, por exemplo, ecologistas que se transformam em caboclos, ou intelectuais e ex-guerrilheiros polticos que se convertem em profetas de religies da floresta.16 Com efeito, o surgimento de ncleos e igrejas dos grupos da UDV e do Santo Daime em grandes metrpoles da regio sudeste do Brasil, a partir dos anos setenta e oitenta, parece estar ligado a um processo de desencanto da vida urbana e, por outro lado, de reencantamento do universo da floresta; processo este no qual a converso religiosa muitas vezes alia-se a anseios ecolgicos, levando a um deslocamento definitivo para a selva amaznica (Goulart 1996). Um outro elemento importante a destacar que, a partir do momento em que a ayahuasca deixa de ser uma bebida extica consumida apenas na distante e tambm extica Amaznia, sua utilizao se insere, cada vez mais, numa discusso sobre o tema das drogas em nossa sociedade. Um primeiro aspecto a evidenciar, que o aparecimento de religies que fazem do uso de uma substncia psicoativa o ponto central de seus conjuntos rituais traz tona novos modos de pensar e de tratar a questo do consumo de substncias alteradoras da percepo no mundo moderno, e sobretudo daquelas classificadas como drogas ilcitas. Afinal, guardadas as devidas diferenas, a ayahuasca se equipara, em termos de estrutura qumica, a psicoativos como o prprio cido lisrgico (LSD), o qual considerado uma das substncias semi-sintticas mais potentes no que se refere capacidade de alterar o sistema nervoso (Stafford 1992). Contudo, para os seguidores dos cultos religiosos aqui considerados a ayahuasca uma bebida sagrada, cujos significados, como veremos ao longo deste trabalho, se relacionam constituio de todo um conjunto simblico, ritual e cosmolgico, associando-se, de uma certa forma, noo de sacramento. Ao mesmo tempo, a constituio e a permanncia dessas religies na sociedade brasileira representa, se no exatamente uma exceo no tratamento convencionalmente dado a uma determinada classe de substncias psicoativas, ao menos uma brecha na legislao relativa ao seu uso. O vnculo entre o caso das religies ayahuasqueiras brasileiras e o debate sobre a atual poltica proibicionista de algumas drogas psicoativas foi colocado j em um dos primeiros estudos sobre estas religies. Assim, Edward MacRae, em seu Guiado pela Lua: xamanismo e uso ritual da ayahuasca no culto do Santo Daime, sustenta que no caso deste fenmeno religioso ocorre um uso controlado de uma substncia psicoativa. Ele contrape este uso controlado, bem como seus efeitos, viso corriqueira, apresentada em nossa sociedade, acerca do consumo de tais substncias, marcada por traos que estariam associados a usos no- controlados socialmente. De acordo com MacRae, o caso do culto do Santo Daime (bem como de outras religies ayahuasqueiras) fornece um exemplo de uso de um psicoativo contrrio aquele geralmente enfatizado pelos propagandistas da guerra s drogas (MacRae 1992, p. 16). O autor argumenta que o consumo da ayahuasca, no contexto destes cultos religiosos, produz resultados estruturantes para seus usurios, tanto psquica como socialmente. 16 Este o caso de Alex Polari, ex-guerrilheiro poltico, preso nos anos 70, e atualmente importante liderana de uma das igrejas da linha do Santo Daime. 22. 18 Ser interessante observar, no decorrer deste trabalho, que argumentaes similares, longe de se restringir a um debate de especialistas ou acadmicos, sero acionadas, resignificadas, ou ainda contrapostas a outras argumentaes no interior do prprio campo religioso aqui estudado, vinculando-se ao processo de legitimao dos diversos grupos deste campo, tanto uns em relao aos outros, como de todos eles na sociedade mais ampla. Questes de mtodo, hipteses e objetivos particulares A anlise comparativa entre Santo Daime, Barquinha e UDV visou, sobretudo, captar a continuidade que ocorre entre tais linhas e, ao mesmo tempo, apreender o processo de fragmentao institucional e simblica entre elas. At agora, toda a argumentao destacou a unidade entre as linhas como parte de um todo. Essa unidade foi apresentada como hiptese, justificada pela origem histrica comum e pela afinidade dos conjuntos rituais e cosmolgicos. Porm, por outro lado, a idia de uma mesma tradio, que tem sido defendida aqui, parece ser refutada pela presena de afirmaes em contrrio dos fiis, na forma de conflitos, acusaes, cismas e rupturas, e parece ser colocada em questo tambm pelo fato de que alguns grupos negam as afinidades que mencionamos. Contudo, em vez de tomar os conflitos e divergncias como evidncia de uma separao essencial entre as religies da ayahuasca, adotamos a perspectiva segundo a qual precisamente o jogo de conflitos que caracteriza as relaes entre as linhas do Santo Daime, UDV e Barquinha, e seus grupos internos, permite-nos enxergar melhor a continuidade e diferenciao subjacente enquanto um processo. Em suma, o movimento de simultnea distino e relaes de afinidades entre as trs linhas foi observado atravs do enfoque de um jogo de acusaes, afastamentos e intermediaes existente entre os membros dos seus respectivos grupos. Na verdade, uma das principais hipteses que guiaram o presente trabalho a idia de que uma pesquisa comparativa poderia ser mais elucidativa do que estudos que focalizassem estes grupos religiosos isoladamente. Assim, o j mencionado processo de transformaes e reelaboraes de antigas crenas amaznicas e rurais em geral, poderia ser melhor compreendido se tratssemos em conjunto as diversas e complexas relaes entre as vrias religies da ayahuasca. Por exemplo, enquanto a linha do Santo Daime destaca, em seu panteo principal, seres da floresta associando-se a ndios, caboclos e seringueiros , a linha da Barquinha reconhece a si mesma como mais ligada a entidades das guas podendo ser identificada a ribeirinhos e pescadores. Dessa forma, h oposies e complementaridades que se tornam evidentes apenas quando consideramos as crenas e prticas das linhas em seu conjunto, e no cada uma delas separadamente. Uma outra idia que norteou esta pesquisa, subjacente hiptese anterior, que o estudo de conflitos pode esclarecer pontos importantes seja de uma estrutura social, de um sistema cultural ou de uma tradio religiosa. Deste modo, ao privilegiar-se a anlise das oposies e dos conflitos entre os grupos do Santo Daime, Barquinha e UDV, objetivou-se compreender o que estes eventos conflitantes evidenciavam a respeito desses sistemas religiosos. Simultaneamente, acreditamos que o jogo de contrastes entre as trs linhas aqui consideradas parte fundamental do prprio processo de construo e reconstruo do conjunto de crenas e prticas de cada um destes grupos, e da tradio mais ampla da qual eles participam; permitindo, em ltima instncia, a configurao do campo religioso enfocado, posicionando os seus atores, estruturando as relaes entre eles, e possibilitando modificaes nessas relaes. Nesse sentido, ao estudarmos os conflitos entre as linhas do Santo Daime, Barquinha e Unio do Vegetal visamos observar como os seus adeptos, a partir de posies sociais diferenciadas e de trajetrias pessoais especficas, elaboram este universo religioso. 23. 19 Os conflitos entre os diferentes grupos da tradio religiosa ayahuasqueira remetem tambm, como ficar claro ao longo deste trabalho, a um processo de definio de fronteiras internas e externas, processo no qual a identidade de cada um dos grupos construda a partir do contraste com os demais. O entendimento deste processo de construo de fronteiras contou no s com uma perspectiva sincrnica, mas tambm diacrnica. Desta forma, identificamos dois momentos cruciais na histria da tradio religiosa analisada. Uma fase inicial se refere poca em que surge o Santo Daime. Uma segunda fase, refere-se ao perodo em que ocorre a fragmentao do grupo original e o aparecimento de dissidncias e disputas no interior deste campo religioso. Procuraremos mostrar que existem lgicas acusatrias que se repetem nestas duas fases da tradio religiosa ayahuasqueira, mas formuladas de pontos de vistas diferentes. Assim, muitas das acusaes que na primeira fase eram dirigidas contra a primeira religio ayahuasqueira (o Santo Daime do Mestre Irineu) pela sociedade mais ampla, se reproduzem mais tarde, agora como acusaes feitas por uma religio ayahuasqueira em relao a uma outra. Ao mesmo tempo, a observao de diferentes perodos da histria desses cultos, vai revelar, como poderemos verificar, transformaes na lgica acusatria mencionada. Pois, enquanto algumas acusaes foram perdendo importncia ao longo do tempo, outras foram gradualmente ganhando fora. O enfoque terico A abordagem metodolgica adotada no nosso estudo privilegiou a perspectiva do estudo emprico e da anlise de processos, sucesses de eventos no tempo, e de conflitos entre agentes sociais, como um meio (um mtodo) para entender a continuidade com segmentao que caracteriza o campo das religies ayahuasqueiras. Na prtica, porm, esse tipo de anlise nem sempre ganhou o primeiro plano. Assim, boa parte dos captulos iniciais da tese constituram-se em descries e interpretaes que visam reconstruir a histria e o movimento de constituio de cada uma das trs linhas, sobretudo a partir do material proporcionado pela pesquisa de campo em Rio Branco (Acre), contendo ainda descries dos conjuntos rituais caractersticos de cada uma delas; e apenas posteriormente nos concentramos nas acusaes e conflitos entre os grupos pondo em jogo tanto verses conflitantes sobre a origem de cada linha e acerca das relaes entre elas, como acusaes sobre a legitimidade e mesmo legalidade dos rituais e prticas religiosas respectivas. Pode-se dizer que foi necessrio seguir tal trajetria para delinear primeiro, atravs de narrativas por assim dizer paralelas, as linhas tais como elas se vem em separado, para depois evidenciar o fato de que ao longo das histrias narradas tais linhas de fato esto sempre interagindo entre si, em um processo de auto-constituio que, por trs da referncia a um passado prprio, contm uma constante referncia a outros grupos ayahuasqueiros, seja como fonte de prticas e smbolos, seja como referncia contrastiva. Um estudo que particularmente inspirou o enfoque da presente pesquisa foi Guerra de Orix, de Yvonne Maggie (1977). A autora se debrua sobre os conflitos ocorridos entre os membros de um terreiro, analisando-os por meio da noo de drama social de Victor Turner (1968). Ela constata que os conflitos sempre se iniciavam com uma acusao. Por meio deste jogo acusatrio, tornavam-se visveis a existncia de posies diferentes, a possibilidade de mudanas na disposio hierrquica, e a existncia de regras ambguas, valores, cdigos e modelos opostos. O enfoque de Turner, por sua vez, inscreve-se entre as abordagens tericas que 24. 20 tratam da ao social, as quais procuram enfatizar as aes concretas dos atores sociais, ao invs de privilegiar a idia de modelos em equilbrio (Feldman-Bianco1987).17 Algumas das questes e dos temas enfatizados em estudos influenciados pela teoria da ao foram cruciais para o desenvolvimento da anlise que empreendi nesta pesquisa. Este o caso, por exemplo, da concepo de uma estrutura que abrange no s equilbrio, mas tambm irregularidades e contradies, concepo que coaduna-se com a idia de um ator social manipulador de normas ou crenas conflitantes. A anlise situacional, proposta por Max Gluckman, baseada em tal perspectiva, de certa forma contribuiu para iluminar a compreenso sobre as relaes entre os adeptos dos grupos religiosos aqui considerados. Inspirada por essas idias, procurei resgatar, atravs da investigao dos contrastes e mediaes entre os fiis dos diversos grupos do Santo Daime, da Barquinha e da UDV, quais princpios, representaes, crenas e prticas por exemplo, acerca do relacionamento com entidades sobrenaturais, sobre transe, doena, cura ou salvao so privilegiados e quais se colocam de um modo perifrico, tendo menor nfase nesses grupos. Como mencionamos anteriormente, a anlise de eventos conflitantes entre os centros, ncleos e igrejas das trs linhas contribui tambm para a compreenso do processo de construo das fronteiras e limites entre eles, vinculando-se definio da sua identidade. Nesse sentido, adotamos aqui uma perspectiva que privilegia a noo de identidade contrastiva, e nos apoiamos em enfoques como o de Manuela Carneiro da Cunha, a qual defende que a identidade construda situacionalmente, sempre num jogo de contrastes, constituindo-se numa estratgia de diferenas (Carneiro da Cunha 1985, p. 206). Ao mesmo tempo, procuramos refletir, neste estudo, sobre os relacionamentos que os diferentes grupos da tradio religiosa ayahuasqueira mantm com a sociedade mais inclusiva, conforme sustentamos que o processo de definio das fronteiras internas desta tradio liga-se, tambm, definio daqueles relacionamentos. Para esse tipo de reflexo nos foram muito teis idias e noes desenvolvidas por Pierre Bourdieu. Este autor analisa minuciosamente as diversas relaes existentes entre sistemas religiosos e estrutura social. Bourdieu visualiza a religio, e as produes simblicas em geral, como contedos que se definem a partir de relaes objetivas, previamente estruturadas. Ele concebe esses diversos sistemas simblicos como campos, entendendo estes como espaos onde ocorre uma espcie de jogo, no qual h uma constante disputa no que se refere ao poder de definir as regras desse jogo (Bourdieu 1990, p. 119). Contudo, a anlise desse jogo envolve a demarcao de causas externas ao campo, as quais remetem estrutura social mais ampla. A perspectiva de Bourdieu contribuiu para esclarecer pontos importantes de nossa pesquisa. Dessa maneira, a anlise dos diversos tipos de relaes entre os grupos religiosos enfocados levou em considerao os relacionamentos que eles possuem com a sociedade na qual se inserem, bem como com instncias representativas da mesma, como a mdia ou o poder judicirio. O enfoque de Bourdieu nas interaes individuais como relaes de fora bem como nas causas externas de um campo especfico, auxiliou na compreenso dos posicionamentos dos adeptos dos grupos do Santo Daime, da Barquinha e da UDV, sobretudo daqueles assumidos por suas lideranas em situaes pblicas. A noo de campo religioso de Bourdieu foi fundamental para a anlise aqui empreendida. Procurou-se situar as linhas religiosas do Santo Daime, Barquinha e Unio do 17 O mtodo e a teoria da ao social so ilustrados em uma anlise de Max Gluckman, fundador da chamada Escola de Manchester, na forma de um estudo sobre um episdio: a inaugurao de uma ponte (Gluckman 1987, pp. 227-344). 25. 21 Vegetal, e seus respectivos grupos e sub-grupos, num mesmo campo, identificando e descrevendo neste seus principais atores, as relaes entre eles e suas posies. Porm, a configurao do campo das religies ayahuasqueiras foi alcanada atravs do enfoque dos conflitos, das acusaes e das alianas ocorridas entre os grupos desta tradio religiosa. Pesquisa de campo: esclarecimentos O trabalho de campo para este estudo teve incio no ano de 2001, quando foram feitos os primeiros contatos com vrios dos grupos aqui pesquisados. Durante o ms de janeiro de 2001 foi realizado um primeiro levantamento de dados junto aos centros, igrejas e ncleos das linhas do Santo Daime, da Barquinha e da Unio do Vegetal da cidade de Rio Branco, Acre. Em janeiro de 2002, contudo, iniciou-se o trabalho de campo mais propriamente sistemtico, quando ento passei a contar com uma bolsa-auxlio da FAPESP. Neste ano, foram realizadas duas viagens a Rio Branco, para aprofundamento da pesquisa de campo. No primeiro semestre, permaneci nesta cidade de janeiro maro e, no segundo semestre, de outubro dezembro. A cidade de Rio Branco foi um local privilegiado para o trabalho de campo do presente estudo pois a localizam-se centros, igrejas e ncleos ligados s trs linhas religiosas enfocadas, sendo possvel observar com mais clareza os diversos tipos de relacionamentos entre os diferentes grupos do Santo Daime, Unio do Vegetal e Barquinha, bem como ampliar a compreenso do funcionamento deste campo religioso. Contudo, dados adicionais foram coletados em outras localidades, junto a grupos situados na regio sudeste, em cidades como So Paulo e Rio de Janeiro. Embora a pesquisa de campo na regio sudeste tenha tido um carter complementar, menos intensa do que a pesquisa com os grupos localizados no Acre, ela tratou de questes importantes para o nosso estudo. O dilogo entre os dados da regio sudeste e amaznica permitiu a insero de fenmenos amaznicos em um contexto e em um debate mais geral. Nesse sentido, o trabalho de campo com grupos do sudeste contribuiu para uma das nossas principais preocupaes, que a de recolocar a relevncia das pesquisas de fenmenos amaznicos para a compreenso de processos culturais mais amplos e, reciprocamente, enfatiza a importncia de situar em um quadro nacional processos regionais e locais. A pesquisa de campo com grupos da regio sudeste foi importante na medida em que nos possibilitou compreender melhor a extenso do campo religioso ayahuasqueiro, bem como algumas diferenas cruciais entre as trs linhas no que diz respeito ao seu processo de expanso. Por exemplo, h um contraste visvel ao considerarmos o processo de crescimento e disseminao de alguns grupos, como o CEFLURIS ou a UDV, em comparao com grupos como o Alto Santo e a Barquinha. Enquanto os dois primeiros contam com centros, igrejas e ncleos em grandes metrpoles da regio sudeste, e at mesmo no exterior, o Alto Santo e a Barquinha caracterizam-se por um relativo isolamento, apresentando uma orientao mais localista e menos proselitista e expansionista. Por outro lado, embora CEFLURIS e UDV tenham um processo de expanso intenso, este processo apresenta, nos dois grupos, aspectos bem diferentes. Pesquisa de campo: mtodos empregados e algumas consideraes sobre a relao sujeito- objeto O trabalho de campo combinou os mtodos da observao participante de rituais e a realizao de entrevistas, sobretudo com as lideranas dos grupos pesquisados. A combinao destas duas tcnicas de pesquisa se revelou bastante frutfera na medida em que foi possvel visualizar uma relao estreita entre as aes 26. 22 enfatizadas nos rituais e as falas contidas nas entrevistas, e conforme possibilitou, ao mesmo tempo, apontar para a importncia dessa relao no que alude ao processo de afirmao da legitimidade dos grupos. Em geral, as entrevistas feitas com os lderes dos grupos apresentaram um cunho doutrinrio, colocando-se muitas vezes como documentos orais de pontos-de-vistas oficiais sobre aspectos pblicos destas linhas religiosas, bem como sobre os aspectos relacionados aos seus dogmas, smbolos e elementos rituais. De certo modo, pode-se dizer tambm que as entrevistas feitas com os fiis desses cultos, e que no so lderes, tambm possuem um carter doutrinrio, embora talvez devam ser entendidas como pontos-de-vistas no- oficiais, ou semi-oficiais. Quanto aos rituais observados, foi possvel perceber que eles pem em ao aqueles dogmas, signos e gestos que formam o conjunto de crenas das respectivas religies, confirmando, atravs da experincia vivida, a fala, isto , o texto das entrevistas. Pois, nos rituais se afirmam publicamente tanto o contedo doutrinal de cada linha nas verses apresentadas pelos diferentes grupos como os smbolos que representam, nelas, a continuidade da tradio sagrada. Nesse sentido, as entrevistas e a observao dos rituais se constituiriam em dois caminhos de acesso ortodoxia que cada grupo procura estabelecer e afirmar. Alis, mais do que isso, pois a combinao das duas tcnicas: entrevistas (falas) e observao de rituais (vivncia), nos permitiu chegar a verses legitimizantes da histria e da teologia dos respectivos grupos. Por outro lado, as entrevistas contm uma verso sobre as histrias e as doutrinas dos demais grupos, enquanto os rituais efetivamente realizados ilustram, implicitamente, as diferenas entre um grupo e os outros. Assim, ao ouvir as entrevistas como narrativas sobre os outros, pudemos tambm visualizar os conflitos, as acusaes e oposies existentes entre estas religies ou no seu interior. Analogamente, os rituais, particularmente quando comentados e justificados pelas entrevistas, puderam ser vistos como afirmaes sobre os rituais dos outros, afirmando o modo certo de fazer, e assim, indiretamente, delimitando modos no-corretos. Esse uso dialgico da narrativa e do ritual, como fonte de afirmaes sobre o grupo e sobre os seus outros, converteu-se de fato em nossa metodologia. No que se refere ao processo de cises e formao de novos grupos no interior de uma linha um processo que poderamos chamar de segmentao, incluindo tanto a criao de sub-linhas como o surgimento de novos igrejas ou centros locais autnomos , essa metodologia utilizada permitiu apreender simultaneamente o movimento de afirmao da autoridade das lideranas e as situaes nas quais tal autoridade contestada, justamente nos momentos em que ocorrem as crises e, em determinados casos, os rompimentos propriamente ditos. Para compreender os significados das fisses, enfatizamos, nas entrevistas e na observao de campo, certos eventos de conflito ou de crise, previamente identificados, e que envolveram fiis de todos os grupos religiosos pesquisados. Um dos meios utilizados para a visualizao dos eventos conflitantes foi a realizao de entrevistas com o formato de histrias de vida ou narrativas biogrficas, as quais permitiram reconstruir as redes sociais, de parentesco, afinidades, cooperao e alianas entre os integrantes do campo enfocado. Alm do mtodo das narrativas e da observao participante, junto aos grupos das trs linhas pesquisadas, levantamos dados, em menor escala, atravs de fontes documentais, tanto internas quanto externas, e que nos auxiliaram no esclarecimento dos processos de conflito e de ciso. As fontes internas referem-se a estatutos, regulamentos, ou ainda materiais como salmos e hinos dos diferentes grupos religiosos considerados; as fontes externas so documentos tais como notcias de imprensa, leis, portarias de rgos pblicos relativas ao uso da ayahuasca e semelhantes. A anlise de fontes documentais, apoiando as narrativas biogrficas que destacam as diversas redes sociais a que pertencem esses fiis, permitiu a reconstruo de alguns eventos 27. 23 pblicos que os envolvem direta ou indiretamente, possibilitando a identificao de personagens, de suas posies e motivaes, das principais tenses das crises e conflitos, bem como de momentos cruciais destes ltimos. Ainda no que se refere s questes metodolgicas da pesquisa, importante enfatizar, mais uma vez, que a observao de aspectos particulares das linhas do Santo Daime, da Barquinha e Unio do Vegetal visou a comparao entre elas, no que se refere presena ou ausncia de determinados elementos doutrinrios, simblicos e rituais nas mesmas. Tal preocupao guiou as entrevistas e a observao participante nos rituais. As entrevistas feitas com integrantes dos grupos das linhas, embora tivessem, claro, suas particularidades, seguiram um mesmo roteiro de questes, para que pudessem, posteriormente, ser comparadas em relao a alguns aspectos. Assim, havia sempre blocos de questes sobre : a) os motivos da converso e primeiras experincias com o ch; b) o conjunto ritual e simblico; c) as concepes sobre doena e cura espiritual; d) as concepes sobre a cosmologia e o panteo de entidades; e) as crenas e prticas relativas a tipos de transe exttico; f) as diferenas entre o grupo abordado e outros grupos, sejam grupos da mesma linha ou de outra linha; g) o processo de crescimento e expanso destas religies. Nas entrevistas realizadas com os dirigentes dos grupos enfatizou-se tambm questes sobre a criao do centro, ncleo ou igreja, a histria de sua fundao, as razes da criao do novo grupo e do seu rompimento com um grupo anterior. Cabe esclarecer ainda que a pesquisa de campo foi facilitada porque contou com conhecimento prvio da pesquisadora a respeito do tema enfocado, j que um dos grupos pesquisados no presente estudo o Santo Daime, e mais particularmente o segmento CEFLURIS foi tambm objeto do meu trabalho de mestrado. O meu contato com as religies ayahuasqueiras iniciou-se h quase vinte anos atrs, quando comecei um projeto de pesquisa em antropologia sobre o tema. O envolvimento intelectual e do trabalho de campo com esses grupos religiosos, acabou conduzindo a uma curiosidade pessoal cada vez mais marcada acerca de cada um deles. A intensa fragmentao deste conjunto de religies saltava aos meus olhos, ao mesmo tempo em que todas elas pareciam, tambm, desenvolver suas oposies e expressar suas cises por meio de uma mesma linguagem, isto , acionando um conjunto de smbolos, imagens, metforas, objetos rituais muito semelhantes, em alguns casos, idnticos. Esta viso particular, que apresento sobre as religies ayahuasqueiras, conduziu realizao do presente estudo. A questo da minha posio nesta pesquisa bastante complexa, visto que o estudo trata da observao e anlise de conflitos e acusaes de um campo religioso, implicando na visualizao das diferentes verses apresentadas pelos respectivos grupos deste campo. A relevncia vem do fato de que, tratando de tais verses e tais conflitos por assim dizer de fora, mas apoiando-me em verses de dentro, a apresentao dos dados passa a defrontar-se com questes de tica de pesquisa que cabe mencionar. Por exemplo, as acusaes estudadas envolvem a existncia ou no de transgresso lei. Mas a pertinncia das acusaes uma assunto controvertido; e mais ainda, o modo de aplicar a lei, e mesmo a legitimidade das leis envolvidas, tambm , no caso, assunto controverso. Outro ponto, relacionado com esse, que a apresentao dos dados poderia, por si mesmo, constituir-se em uma arma de legitimao de um grupo contra os argumentos dos demais. A minha posio foi, ento, de procurar manter no uma neutralidade, mas um respeito a cada um dos grupos pesquisados, procurando tratar os seus respectivos materiais (rituais, mticos, discursivos etc) da mesma maneira, atravs de uma s metodologia. Nesse sentido, tambm, ressalto que de acordo com a tica desenvolvida nesta tese, todos os grupos religiosos enfocados so igualmente legtimos, independentemente das 28. 24 suas dimenses, do seu tempo de existncia, da sua anterioridade ou ulterioridade no que se refere aos demais ou dos vnculos e tipos de relaes que possam existir entre eles. Trata-se de um esclarecimento importante, j que justamente analisamos, aqui, o movimento de afirmao e legitimao de cada um desses grupos, uns frente aos outros, destacando suas respectivas disputas em tal processo. Observaremos, ao longo da nossa tese, que freqentemente muitos dos grupos pesquisados negam ou questionam a legitimidade de outros deste campo religioso, classificando-se, mutuamente, como clandestinos, menos autnticos ou verdadeiros, originais etc. Porm o presente estudo no pretende entrar no mrito de tais acusaes para avaliar sua veracidade e sim analisar, socio-antropologicamente, as implicaes deste jogo acusatrio. Da mesma forma, no decorrer da pesquisa de campo, ocorreram situaes onde integrantes de um determinado grupo questionavam, criticavam ou desconfiavam das informaes fornecidas por integrantes de outros grupos, seus rivais. Assim, por exemplo, era comum que membros de um grupo matriz de uma das trs linhas procurassem desacreditar os discursos, relatos mticos, as explicaes e exegeses acerca de elementos rituais ou cosmolgicos realizadas pelos fiis de uma de suas dissidncias, e vice-versa. Evidentemente, isto no nos impediu de considerar esses diferentes grupos (matrizes e suas dissidncias) como pertencentes a uma mesma linha religiosa, segundo a perspectiva analtica aqui seguida e anteriormente explicada. Ao contrrio, trabalhamos com a concepo de que os vrios grupos de uma linha ayahuasqueira possuem verses diferentes sobre o seu contedo doutrinal, mtico e das suas prticas rituais. Podemos dizer que todos eles participam de uma s religio, embora apresentem pontos-de-vistas distintos e particulares sobre ela. O confronto constante de tais verses foi um procedimento importante na nossa metodologia para o entendimento do conjunto de cada um das linhas consideradas. bom lembrar, contudo, que ao expormos os pontos-de-vistas particulares dos membros de diferentes grupos destas religies no estamos, necessariamente, corroborando com eles. Estamos, acima de tudo, enfatizando a legitimidade de cada um desses posicionamentos e vises no que concerne a uma tradio religiosa. Em segundo lugar, o objetivo foi justap-los como num tipo de debate, buscando assim alcanar uma composio mais completa dos cultos do Santo Daime, Barquinha e Unio do Vegetal, bem como da tradio a qual eles pertencem e, por fim, elaborar a nossa prpria interpretao sobre o nosso objeto, a qual pode ser entendida tambm como uma verso exegtica sobre estes grupos religiosos, fundada justamente na anlise das diferentes verses (mticas, rituais, doutrinais etc) que eles apresentam. Ao mesmo tempo, o meu posicionamento particular se evidencia e se colocou, creio eu, de forma clara ao longo do trabalho de campo, como diferente da perspectiva nativa, na medida em que procurei destacar a unidade, a semelhana e as continuidades que as fragmentaes constantes parecem esconder. Dito de outro modo, conforme defendi a tese de que todos os grupos aqui estudados participam de uma nica tradio religiosa. Trata-se, na verdade de um argumento e um posicionamento com um carter, por assim dizer, poltico. Isto no sentido de que ele tem um propsito especfico, que o de salientar e promover posturas entre essas religies que, por um lado, destaquem a tolerncia e o respeito mtuo apesar das distines e, por outro, permitam a visualizao das semelhanas e pontos em comum por de trs das diferenas e oposies. Pois penso que esse tipo de atitude particularmente importante quando estamos falando de religies que possuem prticas e caractersticas (no caso, o uso de uma substncia psicoativa) que podem trazer, em nossa sociedade, o perigo do estigma e, em ltima instncia, inclusive, a ameaa da punio legal. Nesse sentido, as idias que desenvolvo nessa tese tm tambm a inteno de contribuir para a criao de condies que possibilitem a construo de 29. 25 estratgias e posturas unificadas por esses grupos religiosos, as quais possam aumentar a sua aceitao e legitimidade social. Por ltimo, gostaria de salientar, ainda, que como trata-se de um estudo sobre os conflitos e contrastes entre grupos religiosos, que envolve as acusaes que os seus membros fazem uns contra os outros, foi especialmente importante um cuidado com a forma de apresentao dos dados. Alis, muitas das polmicas e disputas observadas envolviam inclusive delicadas questes pessoais destes fiis. Por isso, a exposio de determinadas informaes foi feita muitas vezes com reserva e, em alguns casos, alis, optamos por omitir certos comentrios e eventos. Porm, acreditamos que essa atitude no prejudica nosso estudo, mas ao contrrio o enriquece, pois expressa um respeito ao objeto pesquisado, valorizando uma perspectiva que visualiza a pesquisa, de fato, como uma interao entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados. Trata-se, na verdade, de uma atitude tica, fundada sobretudo na certeza de que as nossas produes acadmicas produzem efeitos no apenas no meio cientfico, mas geram conseqncias as mais variadas na realidade dos objetos analisados. importante, portanto, que o estudioso, ao redigir seu texto, tenha conscincia das influncias que ele vai produzir no grupo pesquisado. Foi exatamente esse tipo de procedimento que procuramos seguir aqui. Nesse sentido, importante dizer, igualmente, que tivemos um cuidado e uma reserva especial com a exposio de um determinado material mtico e ritual de alguns dos grupos aqui considerados. Isso se deu, principalmente, nos casos que envolviam mistrios, revelaes secretas e espcies de dogmas destas religies. A questo se colocou sobretudo com a Unio do Vegetal, onde, mais do que nas duas outras linhas, o processo de iniciao na doutrina se d atravs da revelao gradual de mistrios. Consideramos, na presente tese, esta lgica inicitica da Unio do Vegetal, procurando respeit-la. Assim, em alguns casos, evitamos descrever certos aspectos rituais ou relatar passagens e trechos de algumas histrias e mitos desta religio. Adotamos esta postura sobretudo quando tratava-se de um material realmente bastante reservado no mbito da UDV, e inclusive em algumas situaes em que aqueles que nos cederam dados, relatos, histrias etc nos solicitaram uma certa descrio com relao alguns pontos e elementos das informaes fornecidas. Quando conclumos que citar determinados contedos mticos, doutrinrios, rituais etc era realmente imprescindvel para nossa argumentao, optamos por recorrer a alguns recursos, como a parfrase, substituindo termos e expresses originais por similares. Esta nos pareceu uma boa soluo j que na Unio do Vegetal muitos dos mistrios se exprimem atravs do uso de vocbulos especficos. Em outros casos, que envolviam por exemplo aspectos mitolgicos ou narrativas cujo acesso mais aberto, fizemos descries e exposies mais detalhadas. Buscamos, assim, um ajuste entre o ponto de vista mico e a perspectiva do conhecimento cientfico, simultaneamente procurando respeitar a lgica dos grupos pesquisados e produzindo um texto final que seja relevante para a sua compreenso socio-antropolgica. Pois importante ressaltar, aqui, que se bastante evidente que os contedos e significados mticos, rituais ou doutrinrios destas religies os pertencem, por outro lado, eles podem se relacionar tambm a demais cultos religiosos e tradies. para esse tipo de relao que desejamos apontar nesse estudo, objetivando inserir as prticas e crenas dos grupos do Santo Daime, Barquinha e Unio do Vegetal numa cultura mais ampla, e esperando contribuir para o seu registro. Sinopse dos captulos Os primeiros trs captulos se detm, respectivamente, nos casos particulares de cada uma das linhas. Assim, o captulo 01 aborda o culto do Santo Daime, quando descrevemos o processo de formao histrica desta linha, com a constituio de seu conjunto ritual, mitolgico e doutrinrio, bem como nos detemos nas suas 30. 26 descries e anlises. Numa seo posterior do captulo, passamos a analisar o processo de segmentaes desta linha, surgido aps a morte de seu fundador, visando identificar os elementos e mecanismos mais relevantes desse processo. Aplicamos a mesma estrutura de exposio dos dados e de sua anlise para os captulos 02, da Barquinha e 03, da Unio do Vegetal. Assim, inicialmente, apresentamos os componentes que definem a unidade das linhas, para depois mostrar como eles so acionados pelos fiis na construo de suas oposies e na demarcao das fronteiras dos diferentes grupos que com