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OS MANUSCRITOS DE QUMRAN E A COMUNIDADE JUDAICA DO MAR MORTO

II - JUDASMO

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GERALDO J. A. COELHO DIAS

Branca

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OS MANUSCRITOS DE QUMRAN E A COMUNIDADE JUDAICA DO MAR MORTO

7 - Os manuscritos de Qumran e a Comunidade Judaica do Mar Morto*Temos a honra e o privilgio de ter entre ns uma curiosa exposio sobre antiqussimos manuscritos bblicos e todo o contexto arqueolgico em que se encontravam envolvidos. Na verdade, os Documentos de Qumran, ou Manuscritos do Mar Morto, ou Rolos do Deserto de Jud, j que variados so os nomes para indicar a sensacional descoberta deste conjunto de documentos judaicos, fazem-nos dar o salto qualitativo e cronolgico do sculo X d.C. para o sculo II a.C., da Idade Mdia para antes de Jesus Cristo. Na verdade, estes numerosos documentos manuscritos, mais de 800, e inumerveis e complicados fragmentos, constituem verdadeira biblioteca. Por um lado, apresentam-nos documentos em hebraico, aramaico e grego; por outro lado, dada a importncia e antiguidade dos manuscritos bblicos, pem-nos diante do problema cientfico da fidelidade e veracidade do texto hebraico massortico, constitudo bastante mais tarde; do-nos ainda a conhecer o quadro ideolgico judaico ao tempo do nascimento do Evangelho cristo, isto , o ambiente vital em que o Cristianismo nasceu. Com os documentos de Qumran, portanto, todo um labirinto de problemas a afectar o mundo das cincias bblicas e das origens do Cristianismo, que veio trazer algumas perturbadoras perguntas sobre a figura de Joo Baptista, cuja vida e pregao os Evangelhos cristos situam no Deserto de Jud. Ter ele sido, afinal, um membro desta desaparecida comunidade, possivelmente essnica, que, ao fugir dos romanos aquando da primeira revolta judaica de 66-70, escondeu os seus preciosos manuscritos? O prprio Cristianismo tocado pela questo do messianismo e pela hipottica identificao do Mestre de Justia com Jesus Cristo. Ter mesmo Jesus sido influenciado pelas doutrinas dos essnios? Ter Jesus aprendido ou tirado deles alguma coisa?

* Texto indito. Conferncia proferida no Museu dos Transportes e Comunicaes, Porto, no dia 12 de Maio de 2005.

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I O acaso da descoberta e a riqueza das pesquisas arqueolgicas Um mero acaso est na origem da mais sensacional e importante descoberta de documentao hebraica 1. Na Primavera de 1947, um pastor da tribo beduna dos Ta`mirah, que vagueiam com seus rebanhos ao sabor da transumncia entre Belm e o Mar Morto, o Mar do Sal para os hebreus, Yam HaMmelah, encontravase quase na embocadura do Wdi Qumran, um desses muitos ribeiros secos, que atravessam o deserto de Jud. Estava preocupado e aflito pelo desaparecimento duma cabra. Olhando para a parede rochosa do Wdi, viu um buraco e atirou uma pedra, porque talvez a cabra tivesse entrado por ali. Ficou, porm, atarantado porque a pedra produzira um baque, como se se tivesse partido qualquer objecto de barro. Assustado, juntou o rebanho e partiu para o acampamento, mas, ainda assim, decido a voltar com um amigo para encontrar resposta quele rudo estranho. Muhammad ed-Di`b (Maom o Lobo) voltou no dia seguinte com um primo, e penetraram na gruta. Descobriram, ento, uma gruta com pedaos de barro partidos e 8 jarras ou nforas intactas, 7 das quais vazias, mas dentro da oitava acharam trs rolos de couro, que levaram a um antiqurio de Belm para vender. Este, pensando que estavam escritas em caracteres siracos, levou-as a Mar Atansio, arquimandrita do mosteiro siraco de S. Marcos de Jerusalm. Era a descoberta em 1947 da gruta n 1 de Qumran (1 Q). A notcia da descoberta divulgou-se e outros bedunos comearam a fazer pesquisas por conta prpria, de tal modo que em Dezembro de 1947, a Universidade Hebraica de Jerusalm, por meio do arquelogo judeu Eliezer Sukenik, que tinha intudo a antiguidade dos documentos e a sua ligao aos essnios, comprou um mao de trs manuscritos, que hoje se conservam e mostram atravs de rplicas no Santurio do Livro em Jerusalm. Entretanto, em Fevereiro de 1948, Mar Atansio mostrou os 4 rolos da 1 Q ASOR (American School of Oriental Research) para ver se os seus tcnicos podiam decifrar aquela estranha escrita. Contudo, o rebentar da guerra pela independncia de Israel, obrigou-o a emigrar para os Estados Unidos, levando consigo os manuscritos, onde, em seguida, por intermdias pessoas, o novo Estado de Israel os comprou por 250 mil dlares. Aps o armistcio da guerra Palestino-Israelita, em Julho de 1948, com a diviso da Palestina entre Israel e a Jordnia, a parte oriental da Palestina, chamada Cisjordnia, ficou integrada no Reino Hashemita da Jordnia e, logo no comeo de 1949, o Departamento de Antiguidades da Jordnia, em colaborao com a cole Biblique et Archologique Franaise e outras instituies cientficas de Jeru1

MILIK, Joseph Thadeus Dieci anni di scoperte nel Deserto di Giuda, Roma, Marietti, 1957.

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salm oriental, empreendeu escavaes na regio de Qumran, cujas descobertas arqueolgicas, desde 1947 a 1958, foram logo estudadas e publicadas. Quando em 1951 decorria a campanha associada de escavaes, os bedunos trouxeram a Jerusalm mais um lote de documentos descobertos um pouco mais abaixo nas grutas de Murabba`t, que foram datados da 2 Guerra Judaica, entre 132-135, a revolta de Bar Kokheba (Filho da Estrela) no tempo de Imperador Adriano. H mesmo algumas cartas autografas deste chefe de rebelio, considerado um avatar messinico ou realizao messinica da profecia de Balao, segundo o Livro dos Nmeros 24, 15-18: Eu vejo, mas no para j; contemplo-o, mas ainda no prximo. Uma estrela surge de Jacob e um ceptro se ergue de Israel. Em Fevereiro de 1952, os bedunos Ta`mirah descobriam a 2 Q com fragmentos semelhantes aos da 1 Q. Imediatamente se associaram em pesquisa arqueolgica, sob a direco do Pe. Roland De Vaux, OP, os vrios organismos interessados na antiguidade (Direction des Antiquits de Jourdanie, cole Biblique et Archologique Franaise, American School of Oriental Research, Palestine Museum ou Rockefeller Museum). De facto, passaram a pente fino numa pesquisa arqueolgica sistemtica toda a regio da zona rochosa ou falsia de Qumran com uma extenso de 8 quilmetros passando por `Ain Fesha, a fonte de gua potvel da regio, at s grutas Murabbaat. Exploraram tambm o stio das runas das instalaes de Qumran ou antigo mosteiro de Qumran, possivelmente sede dos essnios. Trata-se de Hirbet Qumran, mas chegaram tambm 3 Q com dois rolos de cobre, e, mais no interior, exploraram Hirbet Mird, restos de antigo mosteiro bizantino, perto de Mar Saba, onde descobriram documentos gregos do sculo VIII depois de Cristo. Contudo, em Setembro de 1952, os bedunos, guiados pela histria da perdiz, contada por um ancio, fizeram-se eles tambm pesquisadores e, ao longo do Wadi Qumran, descobriram as grutas 4, 5, 6 Q. Entretanto, foi criado em 1960 um grupo de estudiosos, que eu conheci no Museu Rockefeller em 1961 (John Allegro pela Universidade de Manchester, John Strugnel pela de Oxford, os Padres Joo Starky e Jos Tadeu Milik por Paris e outros), os quais foram fazendo a decifrao e leitura dos documentos no Museu Palestiniano ou Rockefeller Museum, na zona oriental de Jerusalm ou Jerusalm Velha. Neste comenos, a Universidade de Oxford, por meio de Millar Burrows, iniciava a publicao: Discoveries in the Judaean Desert. Todavia, seria longa, difcil e controversa a leitura dos documentos. Em Frana, Andr Dupont-Sommer traduziu os textos principais e levantou algumas interrogaes a esse respeito. Tambm John Allegro, um dos especialistas dos textos, embarcou, luz dos mesmos, na viso mtica de Jesus, negando a sua historicidade e reduzindo-o uma espcie de anestesiante cogumelo sagrado (The sacred Mushroom). De 1955 a 1956, novas escavaes, sempre dirigidas pelo Pe. De Vaux, acabaram por pr a descoberto as 11 grutas de Qumran, sendo as mais importantes113

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a 1 Q descoberta em 1947, a 4 Q em 1952, a 11 Q em 1956. Depois de algumas hesitaes e divergncias, ao Pe. De Vaux que se deve o sistema em vigor das siglas para a citao dos documentos de Qumran, apontando o nmero da gruta e a inicial de cada documento (1 QS = Serek HaYahad; 1 QM = Milhamah; 1 Q P = Pesher de Habacuc; 1 QH = Hodayot; f indica fragmento: 1 Q 35f7) ou antepondo a este o M (grutas de Murabba`at), ou pospondo o P (papiro). Com a vitria da Guerra dos Seis Dias, que em 1966 levou Israel a tomar a faixa ocidental do Jordo e toda a zona de Qumran at Eilat ou Aqaba, comeou a levantar-se uma onda de crtica demora na leitura e publicao dos textos de Qumran, como se algum intencional atraso ou discreto secretismo favorecido pela Igreja Catlica acerca das origens crists, quisesse encobrir a verdade dos documentos. Ao mesmo tempo, a comisso internacional tinha os seus membros a envelhecer, com Strugnel diminudo e convertido do Anglicanismo ao Cristianismo, mesmo contando com o dinamismo do epigrafista Emlio Puech do CNRS, o que favoreceu ainda mais a campanha que eu acompanhei pela revista Biblical Archaeology Review. Era preciso apressar a leitura dos textos e completa publicao dos manuscritos e esse desafio que os cientistas ficam a dever Universidade Brigham Young pelo seu acordo com o governo de Israel em 1983 e pelo denodo com que se atirou tarefa, ajudada por Emmnuel Tov. Com muito trabalho, imenso esforo e pacincia mais que beneditina, foi possvel termos hoje a edio completa em 6 volumes dos Discoveries in the Judaean Desert pela E. J. Brill de Leiden. Os textos esto todos publicados, abertos aos estudiosos de qualquer religio, e desapareceu a maldosa tentativa de soupon. H manuscritos dispersos por vrias instituies, mas os dois depsitos principais so o belssimo Santurio do Livro, cuja silhueta decalca a tpica tampa das jarras de Qumran junto ao Museu de Israel em Jerusalm e o Rockefeller Museum. II A singu