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Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 16
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Área: 17,70 x 24,00 cm²
Corte: 1 de 14ID: 67482147 23-12-2016
1 )1/ o crit ico Fernando leio, autor cios textos que se seguem, que «vn
4410 aguardentes é trabalho digno de perfumistas-. I 'tier esta água que
arde e também um trabalho de mestres. que dominam a delicada arte
da destilação. \qui pereorre• se o mapa das aguardentes, com as suas
ffiacões 1 egionais, e laia,se daquelas que vale a pena ter na mesa.
BFBIDA NOBRE E PATRIMÓNIO NACIONAL
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 17
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Área: 17,70 x 24,00 cm²
Corte: 2 de 14ID: 67482147 23-12-2016
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 18
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Área: 17,70 x 24,00 cm²
Corte: 3 de 14ID: 67482147 23-12-2016
AGUARDENTE Beber uma boa aguardente nacional é honrar praticamente toda a
fileira do vinho, desde a vinha até aos muitos anos de barrica que leva a afinar. Não
goza da maior popularidade e raramente se vê na mesa dos restaurantes, mas está
mais do que na hora de pelo menos provar e conferir a nobreza desta bebida única.
POR FERNANDO MELO
BEBIDAGUA DURA
VIBRANTE
H á assuntos em que o melhor é dispensar a fase interrogatória e saltar logo para a con-fissão. Eu gosto mui-to de aguardente. Pro-vei muitas, nossas e so-bretudo francesas, nas
variantes célebres de Cognac e Armagnac. Apaixonei-me, a propósito, em torno dos meus 30 anos, pelas aguardentes de fru-ta que os franceses produziam. As de lean Danflou, especialmente a de ameixa rainha--cláudia e a de pera william, prazer indizí-vel e bandeira do resplendor do gosto, de-ram-me a mim e aos meus amigos momentos de prazer de que nem suspeitávamos antes.
Nessa altura, por imperativos profissio-nais, ia bastante a Paris e tornei-me amigo da casa, não falhava nunca a escalada ao primei-ro andar daquele prédio lindíssimo da Rue du Mont-Thabor, muito perto da Place VendOme.
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 19
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UMA AGUARDENTE E
ESTAVEL, RESISTENTE
A OXIDACAO DO
TEMPO, PRODUTO
EXTRAORDINARIO DO
TALENTO HUMANO
Duas produçtks de aguardente em diferentes zonas do pais.
À esquerda, no Gradil, no
Cadaval. À direita, a adega
da Quinta da Aveleda, em
Penafiel.
Conversa, café e algumas provas em copos mignon - nunca bebi muita aguardente em tempo algum, dai manter a paixão até hoje-, comprar uma garrafa para juntar às outras que já tinha em casa, depois cada uma sua história à mesa e a sua sobremesa.
Uma aguardente é exatamente isto. Es-tável, resistente à oxidação e ao tempo, pro-duto extraordinário do talento humano e da sua relação com o que o rodeia, símbolo su-premo do venerável hábito de eternizar cos-tumes e memórias. Vencido o obstáculo do grau alcoólico elevado - que de resto à tem-peratura de 17 graus centígrados é menos sensível -, começamos a comparar umas aguardentes com as outras e queremos sa-ber mais; queremos entrar. Entremos, en-tão, a viagem é interminável.
A mim levou-me à descoberta do vinho do Porto sem o preconceito do álcool nem de que «fazia mal à saúde»; conhecer os seus veneráveis produtores, alguns com quatro
ou mais gerações na bandeira; «desci» o grau alcoólico mas subi na diversidade e passei a ver com outros olhos o vinho de mesa. Pro-var aguardentes é trabalho digno de perfu-mista e provar vinhos com os proverbiais 12 a 15% de álcool é de loucos, pois tudo se passa em menos de 3% da bebida, matéria corante e aromática, que é aquilo que de facto se prova. Aprende-se a ser pequeno e humilde quan-do se toca nas grandes bebidas. Chego a con-vencer-me que é para isso que elas servem.
O "VINHO QUEIMADO" Estamos no domínio dos brandies. sempre que falamos de destilados. A palavra vem do holandês brandevijn, que quer dizer «vi-nho queimado». Eau-de-vie. aguardente em francês, tem uma pronúncia parecida, e a nossa aguardente temo sentido evidente da queima com que é produzida em alambique. Pelo mundo fora, vodka (Rússia) é aguar-dente de cereais, essencialmente centeio;
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 20
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Área: 17,70 x 24,00 cm²
Corte: 5 de 14ID: 67482147 23-12-2016
PROPOSITO PRINCIPAL
E A SUSTENTABILIDADE
POROUE SE DESTILA
AMBEM PARA
PROVEITAR
O SUE EXISTE ATE
A EXAUSTAO.
das fora, para que metanóis e outros com-postos nocivos não contaminem o produto final. Há multo trabalho envolvido e ainda mais paciência até chegar ao que conhece-mos como aguardente.
As várias geraçtles da família Guedes, que detém a Quinta da Avelada, muito dedicada ao seu ex-Ilbris, a aguardente Adega Velha.
grappa (Itália) é feita a partir dos bagaços - películas, grainhas e engaces - dos cachos, tal como a nossa bagaceira; o kirsch (Alema-nha) é feito a partir de cereja, produzindo no copo o famoso kirsch royal quando mis-turado com champanhe: o brandy de mal-te de cevada é o whisky (Escócia); o saké é um destilado produzido a partir de arroz fermentado; o rum é destilado de melaço de cana-de-açúcar, assim como a cachaça que os portugueses Introduziram no Brasil: e nos países nórdicos a aguardente de batata é bebida secular.
A forma varia mas a essência é a mesma. Destila-se - ou seja, separa-se por vapori-zação e condensação as partes voláteis das fixas - para obter uma expressão aromática mais intensa e uma bebida mais pura. É por isso que o resultado é sempre incolor, a cor típica de cada uma vem depois com o está-gio. Destilar é uma arte em que muito pou-cos são mestres e é também um risco, por isso mesmo. Sabe quem faz que a cabeça e a cauda de uma destilação têm de ser deita-
PATRIMÓNIO DE FAMÍLIA Em Portugal a aguardente é património fá-miliar. Desde os minúsculos pipinhos dos minifundiários da zona dos vinhos verdes e de Trás-os-Montes até aos grandes cas-cos dos principais armazenistas nacionais, o destilado rei é produzido e temo cunho das famílias proprietárias das vinhas. O propó-sito principal é a sustentabil idade, porque se destila também para não estragar. Depois da produção do vinho, a bebida que se produz é imbebível e destila-se para aproveitar o que existe até à exaustão.
Destilando-se vinho, temos aguardente vínica, totalmente distinta da bagaceira lo-go desde a origem. É por natureza mais de-licada, aromática e profunda do que a ba-gaceira, mais rústica e amarga, mas que os
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 21
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Área: 9,66 x 24,00 cm²
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Dois aspetos da Quinta da Aveleda, que tem a peculiaridade de albergar um jardim romântico. A Adega Velha é destilada a partir de vinho verde.
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italianos fazem com particular cuidado, amaciando-a muito.
O estágio em barrica de carvalho francês dá às aguardentes mais nobres complexida-de e longevidade, exatamente o mesmo que se dá ao vinho de mesa e ao vinho do Porto. Em termos da estrutura, cria-se cadeias no-vas de pollfendis e enriquece-se os existen-tes, com a impressão sensorial de boca ma-cia. Velhas, muito velhas, velhissimas, é uma questão de gosto, mas não há como uma boa aguardente velha portuguesa. Todas as ou-tras, do resto do mundo, podem ser termo de comparação, mas não são melhores. SÓ isto já me deu vontade de beber um fundo de balão de uma aguardente hoje a seguir ao jantar, com um bom charuto cubano. Saúde!
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 22
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Área: 17,70 x 24,00 cm²
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GARRAFAS PRECIOSAS
ADEGA VELHA 6 ANOS DOC AGUARDENTE VÍNICA DE VINHO VERDE1QUINTA DA AVELEDA (500 ML) 20 EUROS
A aguardente é feita a partir de vinho verde, por sua vez produzido
com uvas das castas vinhão, azal tinto, borraçal e espadeiro, das frias vinhas de solos graníticos e areno-sos da região. O grau alcoólico é
baixo, pelo que a designação de verde ao vinho se aplica totalmente. A acidez é bastante pronunciada, o vinho muito seco - teor de açúcares muito baixo - e depois destilado
duas vezes em alambique charen-
tais, que é a configuração mais clássica, originária da região de Cognac. É de cobre e permite a queima muito lenta, com chama moderada, aspeto importante quando se procura obter um resultado macio e aromático. Seguiu-se um estágio de seis anos em carvalho Limousin, razão pela qual a cor é âmbar aberta, mais
tempo teria provocado um matiz mais profundo. No aroma evoca frutos torrados secos, num fundo de torrefação de café. A boca é vibrante e fresca, pedindo sobremesas ou compotas moderadas na doçura. A doçaria conventual pode funcionar bem com esta aguardente. Mas o consumo direto, sem mais, é a principal vocação da bebida.
AGUARDENTE VÍNICA VELHAINIEPOORT 82 EUROS
A Niepoort encara a tradição de uma forma muito particular, propondo sempre soluções de perfil clássico com um toque acentuado de desafio. Sente-se tanto no mais
elementar vinho de entrada de gama como nos supervinhos do Douro, Dão e Bairrada que está a produzir. É, de facto, o «momento Niepoort» que está a espalhar-se pelo mundo fora, graças ao telúrico Dirk van der Niepoort e a uma equipa de sonho que não conhece a palavra «impossível». linha originalmente 25 anos esta aguar-dente única, envelhecida em cascos de pequena dimensão, e fez as delicias de muitos. Em hora de relançamento, sabemos que estamos perante um ligeiro refres-camento do lote original com uma
aguardente de 10 anos, o que faz que se mantenha a assinatura de outrora, mas com um ataque e força em boca que a tornam vibrante e rica em aromas. Continua a sentir--se a madeira velha com laivos de café e mineral. Nas grandes aguar-dentes não é preciso mexer muito.
PROVA Todas estas garrafas guardam, além de aguardentes produzidas em todo o país, uma história. De família, de uma paixão, de um processo apurado ao longo dos anos, amadurecido depois pelo melhor amigo dos destilados, o tempo. A ponderar compras para prestigiar a garrafeira ou para consumir já, entre doçaria ou sem ela, pode fazê-lo a partir desta lista de dez rótulos.
POR FERNANDO MELO
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 23
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Área: 17,70 x 24,00 cm²
Corte: 8 de 14ID: 67482147 23-12-2016
A adega velha da Quinta da Aveleda é um espaço «jota da família» e é lá que estagia a aguardente com o mesmo nome, em carvalho.
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 24
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MAGISTRA DOC AGUARDENTE DA LOURINHÃ I ESPORÃO 125 EUROS
Por incrível que pareça, há apenas
três aguardentes vínicas com
denominação de origem protegida
(DOP). São elas Armagnac, Cognac
e... Lourinhã! As duas primeiras são
francesas e no pódio está a nossa,
que vem pela mão do Esporão.
A vinificação e destilação são em
tudo semelhantes às de Cognac,
mas em vez da tradicional e agreste
ugni blanc figuram no elenco as
castas tália, malvasia rei, alicante
branco e boal. Estagiou em madeira
mais de 15 anos e apresenta-se
macia e consensual na prova.
Complexidade acrescida à partida e
ligação forte ao terroir da Lourinhã,
pressupostos plenamente cumpri-
dos nesta aguardente que apetece
sempre que chega o momento
derradeiro de um grande jantar e já
estamos a planear o havano que
vamos fumar. Curiosamente, uma
ligação com o charuto muito feliz,
melhor do que com Cognac ou
Armagnac. No nariz evoca nozes e
amêndoas torradas, toques de
baunilha e na boca há impressões
de especiarias e ervas secas. Pode
acompanhar bem nógados de
amendoim ou amêndoa.
RAMOS PINTO AGUARDENTE VÍNICA VELHA ADRIANO RAMOS PINTO 50 EUROS
Marca com uma reslllência grande
no mercado, expressão direta da
casa especialista em vinhos do
porto e Douro. A horda de aprecia-
dores não deixa desistir de a fazer e
tem tido sucessivos melhoramentos
e afinações com os seus públicos.
É referência quase obrigatória nos
restaurantes de serviço estruturado
e é marcada pela consensualidade.
Pertence há já algum tempo ao
universo Louis Roederer e tem
mantido a sua presença ao lado dos
míticos champanhes produzidos
com essa marca em França. Apesar
da vocação internacional e de luxo
que apresenta, a regionalissima
aguardente ainda está de ótima
saúde no grupo. Não surpreende
que a aguardente estagie em cascos
de carvalho português avinhados
com vinho do porto. Há uma bateria
de polifenóls - taninos - e outras
substâncias fenólicas que ajudam a
construir o bouquet da aguardente
com a assinatura Inconfundível do
grande vinho que o Douro faz
nascer, Apesar das evoluções por
que tem passado, o estilo Ramos
Pinto permanece
SÃO DOMINGOS PRESTÍGIO AGUARDENTE VELHA CAVES SOLAR SÃO DOMINGOS 95 EUROS
A Bairrada é um dos territórios
nacionais em que humano e divino
trabalham em misteriosa conso-
nância. Os solos são, como o nome
indica, barros fortes, de uma acidez
notável, Impossíveis de pisar no
inverno chuvoso, impenetráveis
quando vem a canícula. Não é em
vão que aqui existe a principal
produção de espumantes portu-
gueses, de qualidade assinalável.
A extensão é bem-vinda e por isso
há áreas grandes cobertas de vinhas
caprichosas, aumentando as
possibilidades de seleção. A forte
acidez e o grau alcoólico potencial
tradicionalmente moderado torna
as uvas ótimas para a destilação e
produção de aguardente. É aqui que
nasce esta aguardente velha nas
fabulosas caves São Domingos.
A destilação é feita em alambique
pelo método charentais, e o ponto
de partida são vinhos jovens de
baixo teor alcoólico e elevada acidez.
O envelhecimento é feito em cascos
de carvalho francês Limousin de
250 litros ao longo de mais de 20
anos. É a aguardente ideal para
partilhar com os amigos no final
de uma boa refeição.
QUINTA DO SANGUINHAL RESERVA AGUARDENTE VÍNICA VELHA COMPANHIA AGRÍCOLA DO SANGUINHAL 50 EUROS
Se a história falasse e se sentasse
connosco à mesa! A Quinta das
Cerejeiras, no Bombarral, foi palco
de momentos marcantes do vinho e
da vinha portugueses e testemunha
de praticamente tudo o que se
passou no setor. O grande nego-
ciante Abel Pereira da Fonseca
imprimiu um ritmo notável à lavoura
em diversas frentes e artes. Ainda
hoje damos com produtos criados
há décadas por este verdadeiro
agente de inovação. Os alambiques
de grande porte ainda impressio-
nam pelo matiz de cobre que deitam
para todo o espaço e põem-nos a
Imaginar a grandeza da operação,
e o número de pessoas que ali
trabalhavam, para chegar a néctares
de antologia. Pois da tradição nem
tudo se perdeu, e esta aguardente
é disso exemplo. Tem uma idade
média de 20 anos e por isso é
conhecida como «a 20 anos», foi
produzida a partir de uvas das
castas boal de alicante e malvasia
fina, dando origem a vinhos de
acidez elevada e baixo teor alcoólico.
Evoca mel e flores no nariz, na boca
aparece mais citrino no inicio,
terminando longo em sugestões
de torrefação e toffee.
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 25
Cores: Cor
Área: 17,70 x 24,00 cm²
Corte: 10 de 14ID: 67482147 23-12-2016
QUINTA DO GRADIL AGUARDENTE VÍNICA EXTRA OLD PARRAS 148 EUROS
Luís Vieira comprou há cerca de duas décadas a Quinta do Gradil, onde criou uma plataforma de crescimento e diversificação impressionante a vários títulos, desde a vocação da exportação à presença matizada no território nacional. Esta aguardente repre-senta muito para o empresário porque foi feita pelo seu avó, e também porque simboliza a sua assunção como vinhateiro, um legado, afinal. É notável em prova e foi produzida a partir de vinho das castas malvasia rei, ugni blanc e tamarez, grau alcoólico baixo e acidez elevada. Utilizou-se dupla destilação charentais, à moda de Cognac, e também a de coluna de cobre contínua, mais ao estilo de Armagnac. A originalidade da aguardente está essencialmente ai, havendo que acrescentar a evidente qualidade excelsa das massas vínicas iniciais. Depois foi feito um blend e chegou-se a uma das melhores aguardentes nacionais. Seguiu-se estágio longo em cascos de carvalho, para amaciar e enve-lhecer bem.
VALLE PRADINHOS AGUARDENTE BAGACEIRA ENVELHECIDA MARIA ANTÓNIA P. AZEVEDO MASCARENHAS 50 EUROS
A imensa ilha de xisto que constitui o vale vinhateiro do Douro é limitada por granitos, quartzos e solos de transição. Se não dão o mesmo grau alcoólico preconizado e desejado pelo marquês de Pombal ao traçá-lo, emprestam salinidade, frescura e leveza aos vinhos que saem das suas vinhas. Valle Pradinhos fica em Trás-os-Montes, perto de Macedo de Cavaleiros, e as suas vinhas estendem-se pela paisagem quase lunar de grandes pedras, como se de repente se tivesse tornado fecunda. Saem dali vinhos excecionais, a um tempo concentrados e equilibrados. Esta bagaceira exprime exatamente ambas as caraterísticas. Constituída essencialmente por bagaços de castas tintas, é feita por dupla destilação em alambique de cobre, posteriormente estagiada em cascos de carvalho ao longo de cerca de 8 anos. É incrivelmente macia e aromática, com um ataque de que se aprende a gostar e um frutado que é típico das bagaceiras. Na boca cresce ao longo da prova, terminando suave e longa. Bebida fascinante.
CRF RESERVA AGUARDENTE VÍNICA CARVALHO, RIBEIRO & FERREIRA 15 EUROS
Outra grande aguardente de um grande armazenista, com 120 anos de operação contínua no mundo das bebidas. A CRF é uma das aguar-dentes mais conhecidas e reputadas de Portugal. Em tempos diferentes, servindo públicos diferentes e alterando o estilo e perfil também em tempos diferidos. É tão impor-tante que marca o inicio de funcio-namento da casa. O nome do destilado e do negociante são indissociáveis. Todos temos ideia de que a aguardente tinha um sabor e aromas diferentes e até que a antiga era mais profunda e autêntica que a atual, mais moderna. No entanto há muitos fatores a ter em conta quando se prova uma bebida em momentos que podem distar de 30 ou 40 anos. O nosso gosto mudou, o que comemos mudou, e sobre-tudo o que bebemos mudou. Com um preço francamente democrático, a proposta de retomar o consumo regular de uma CRF é irrecusável e é dar uma hipótese à bebida de nos surpreender. Se isso acontecer, num tempo como o que vivemos, em que gin, vodka e rum são alternativas Interessantes, saberemos que estamos perante uma grande aguardente. Porque estamos.
PALÁCIO DA BREJOEIRA AGUARDENTE VELHA DE ALVARINHO PALÁCIO DA BREJO EIRA 50 EUROS
A marca Palácio da Brejoeira continua a ser das mais valiosas do cenário vitivinicola português. O palácio em si, as vinhas, o patri-mónio e historial de vinhos ali produzidos substancia e potencia ainda mais a marca. Representou a casta alvarinho num dos seus melhores terroirs, em Monção, Instituindo-se como sua demons-tradora. No capitulo das aguarden-tes, as bagaceiras e as vínicas — sempre alvarinho — ombreiam numa primeira instância e é muito raro existir uma perceção de qualidade tão forte tanto num estilo como noutro. Chegamos à arte de João Garrido, enólogo, pois só um conhecimento profundo permite este tipo de especialização. É que antes dos destilados estão ainda os vinhos alvarinho do Palácio da Brejoeira, de longevidade notável e qualidade mítica. Todo um universo de excelência. A aguardente vínica velha é envelhecida em barricas de carvalho francês Angoulême e Limousin ao longo de mais de 10 anos. O resultado é fascinante, todo um universo novo. Especiarias, aromas florais frescos, na boca é gigante dormente, tudo no sitio a denunciar aveludados que querem permanecer.
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 26
Cores: Cor
Área: 17,70 x 24,00 cm²
Corte: 11 de 14ID: 67482147 23-12-2016
BEM LOGO NA PONTA
DA LINGUA. PARA AS
BAGACEIRAS, OS COPOS
ESTREITOS FUNCIONAM
O BALAO E MELHOR
PARA A AGUARDENTE
VINICA VELHA, SUE SABE
MELHOR
e proporção corretas. Isso tem que ver com a geometria geral do copo. A boca larga per-mite passar tudo ao mesmo tempo. por as-sim dizer, mas uma boca mais estreita vai acelerar mais o ar e fazer chegar primeiro os compostos primários, ou seja, os fruta-dos. Por principio, devemos escolher estes para as aguardentes. A bondade da prova
A DESTILAÇÃO EM (MUITO) POUCAS PALAVRAS O método charentais, que referimos diversas vezes nos textos desta edição e sobre que lemos outras tantas em publicaçOes, é o sistema mais tradicional de destilação que existe, em alambique. Diz-se semicontinuo e vem do século xvi a sua utilização, em Cognac. Fisicamente, é um pote de cobre ligado a uma cúpula em forma de cebola — é assim que se chama a peça —, onde o vinho a destilar é pré-aquecido, e a um condensador, onde se produz o destilado. Vai-se acrescentando vinho à medida que o processo vai avançando. Nós por cá utilizamos maioritariamente este sistema. O procedimento repete-se e em duas passagens obtém-se a pureza e grau alcoólico desejados. Mais requintado, e para muitos mais puro, é o alambique de Armagnac, que contempla uma destilação apenas. As bagaceiras são produzidas em caldeiras nas quais se coloca a água e os bagaços, sujeitando-se depois ao calor. Sai o vapor pela coluna de saída que se faz depois passar por uma serpentina para condensação e arrefecimento, obtendo-se o destilado.
A AGUARDENTE
TAMBEM MERECE BOM COPO ESCOLHA Vivemos momentos de vaidade e até de um certo exibicionismo, para
gáudio dos fabricantes de copos para vinho, que nos propõem dois ou mais modelos
para cada tipo de vinho, casta ou proveniência. A verdade é que sem um bom copo é
quase em vão o investimento numa boa garrafa.
POR FERNANDO MELO
A s diferenças de pre- ço que encontramos
de uns copos para ou-tros parecem brin-cadeira de mau gos-to, mas muitas vezes o mais caro é mesmo o melhor. A matéria
de que é feito um copo é transparente e só mesmo o uso pode determinar a diferença e
as vantagens. O segredo está mesmo no que não se vê. Em primeiro lugar, o vidro de que é feito deve ser cristal, pela elasticidade e pelo entalhe que permite fazer nas paredes inte-riores. Se olhar com uma lupa, vai descobrir um escadeado cuja função é forçar a micro--oxigenação da bebida quando a agitamos.
É por isso que se deve agitar ligeiramente. E é por isso também que é Inútil agitar quan-do o copo não tem essa microgeometria. Em segundo lugar, da agitação resulta a volati-lização de compostos aromáticos, que o co-po deve fazer chegar ao nariz na velocidade
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 27
Cores: Cor
Área: 17,70 x 24,00 cm²
Corte: 12 de 14ID: 67482147 23-12-2016
Na Adega Cooperativa da Lourinhã, há visitas guiadas para explicar como se faz a única aguardente portuguesa com região demarcada própria.
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 28
Cores: Cor
Área: 17,70 x 24,00 cm²
Corte: 13 de 14ID: 67482147 23-12-2016
está depois na forma como provamos e no que procuramos, mas mesmo o tradicional balão obedece a este princípio geral de re-ter o álcool no fundo e forçar a salda da par-te mais elegante e prazerosa. Finalmente, a entrada na boca. Aqui trata-se de ver em ca-da copo a velocidade a que o fluido chega aos recetores da nossa língua, bem como a zona da língua em que o primeiro contacto se vai dar. Uma aguardente vínica velha vai saber bem logo na ponta da língua, onde estão os recetores mais sensíveis de doce e salgado, viajando depois vagarosamente na língua. O balão é o meu favorito, neste caso. lá os copos ma is estreitos funcionam melhor quando se trata de bagaceiras, em que que-remos explorar mais os aromas do que as im-pressões de boca. Mas não há como experi-mentar. Escolha o copo para si e use sempre esse. Não vá pelos outros nem escolha um co-po com que não se identifique. Boas provaste
OS COPOS Da panóplia de marcas disponível no mercado, a escolha do crítico Fernando Melo recai sobre os modelos da Riedel.
Mais informações e pontos de venda em riedel.portfoliovinhos.pt.
SOMMELIERS COGNAC VSOP
53,40 EUROS FEITO À MÃO
SOMMELIERS COGNAC XO
53,40 EUROS
FEITO A MÃO
VINUM BRANDY 25,10 EUROS
FEITO À MÁQUINA
VINUM COGNAC HENNESSY 53,40 EUROS FEITO A MÃO
Tiragem: 150000
País: Portugal
Period.: Semanal
Âmbito: Viagens e Turismo
Pág: 1
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Área: 15,63 x 16,65 cm²
Corte: 14 de 14ID: 67482147 23-12-2016
O crítico Fernando Melo ajuda a compreender esta aflua bendita, a escolher as dez grandes e os copos ideais.