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  • Educao Fsica 35

    Fascculo 1 Eduacao Fsica Unidade 2

    Educao Fsica e CorporeidadesPara Incio de Conversa...

    Corpo tambm gente

    A famosa mxima Penso, logo existo. implica uma concepo que per-

    meia todo o conhecimento e os valores ocidentais, e que tem duas caractersticas

    muito definidas: a de que corpo e mente so opostos, e a de que o corpo um

    mero suporte para as nobres atividades mentais. Essa concepo, na escola, se

    materializa como a crena de que s se aprende com a mente.

    Por que estabelecemos uma

    hora para cada atividade? Ser que

    todo mundo tem fome junto? Quem

    diz que hora de dormir? Alm dis-

    so, por que propomos determinadas

    atividades e no outras? Temos, na

    escola, uma hora para danar? E para

    fazer aquilo de que se tem vontade?

    Para Maturana (2001), o co-

    nhecimento no representativo,

    no est gravado na mente huma-

    na, mas corpreo est gravado

    em nossos corpos, o que inclui ou-

    tras dimenses que no s a men-

    te racional humana: inclui as sen-

    saes corporais e os sentimentos

    vivenciados. No entanto, estamos

    Figura 1: Corpo como suporte da mente: pre-valece na sociedade a ideia de que o ser hu-mano est dividido em corpo e mente, sendo o corpo entendido apenas como um suporte para a mente, nica construtora de conhe-cimentos. Vamos refletir sobre isso? Somos estes seres humanos fragmentados? Ser possvel agir sem pensar?

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    inseridos em uma cultura que enfatiza o conflito mente/corpo, e a escola acaba reproduzindo esta dualidade em suas

    estruturas curriculares e em suas rotinas.

    H uma grande valorizao do intelecto, j que a sociedade em que vivemos tende a ignorar tudo aquilo que

    nos identifica como animais. Relegando o corpo a um segundo plano, ficam tambm esquecidos outros canais de

    expresso, entre eles as sensaes fsicas, as emoes, os afetos, os desejos.

    Fontes: Aconchegando o corpo na escola: as perspectivas. Pensando o lugar do corpo na escola. In Salto para o Futuro. O Corpo na escola. Ano XVIII boletim 04 - Abril de 2008 Alexandra Pena, Isabel C. Boga e Leonor Pio Borges.

    Objetivos de aprendizagem Reconhecer o corpo como uma construo sociocultural, compreendendo a indissociabilidade entre corpo e

    mente e as mltiplas corporeidades;

    Analisar criticamente a presena das mdias na constituio dos modelos corporais que circulam na sociedade

    contempornea;

    Identificar diferentes sentidos e significados expressos nas prticas corporais cotidianas.

  • Educao Fsica 37

    Seo 1Corpo, cultura e sociedade

    Figura 2: Pluralidade dos corpos: vivemos num pas multicultural em que as manifestaes e expresses corporais se cons-troem a partir de uma vasta pluralidade histrica, social, econmica e cultural.

    O corpo atravessado pelas vibraes que o cercam; da, desliza, se transforma, escapa, muda de forma, con-

    tagia, afeta e afetado. Ele , no mundo, passivo e ativo paradoxalmente. A todo esse movimento transformacional

    do corpo-no-mundo; a todas essas derivas e desdobramentos que lhe so possveis, chamamos de corporeidade! Tal

    corporeidade atua na (re)criao de sentidos, e no apenas os aloja corporalmente. , portanto, veculo produtor de

    sentidos. As corporeidades expressam, assim, a capacidade que o corpo tem de ser o motor da construo de novas

    subjetividades e sensibilidades; de novas e diferentes maneiras de se ser sujeito.

    (Fonte: http://nuvic.com.br/2012/03/sobre-corpo-e-corporeidade/Texto: Rogrio Machado Rosa. Acesso em 29/10/2013.)

    Cada gesto que fazemos, a forma como nos sentamos, a maneira como caminhamos, os costumes com o corpo

    da gestante (a mensagem hoje que ela se movimente, ao contrrio de poucos anos atrs), os cuidados com o beb...

    tudo especfico de uma determinada cultura, que no melhor nem pior que qualquer outra. A forma de lutar, os

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    cuidados higinicos com o corpo, os esportes que se praticam numa determinada poca e num determinado local

    so influenciados pela cultura. As brincadeiras, os tipos de ginstica, os cuidados estticos com o corpo... enfim, tudo

    influenciado pela cultura. Numa multido, podem-se notar certos comportamentos corporais comuns, que caracte-

    rizam e padronizam um determinado povo. Alis, como relata RODRIGUES (1987), pode-se reconhecer um brasileiro

    num outro pas pela sua forma de andar e gesticular, sua postura, seus movimentos corporais. Duas selees de volei-

    bol, jogando com as mesmas regras e tcnicas, e com sistemas tticos similares, possuem estilos diferentes, um jeito

    caracterstico de praticar o voleibol ou o futebol, que reflete tradies culturais distintas.

    (Fonte: Os significados do corpo na cultura e as implicaes para a Educao Fsica. Jocimar Dalio. Revista Movimento. Ano 2 N.2 Junho/ 1995.)

    O multiculturalismo expresso nos corpos: o corpo como produto e produtor de cultura.

    Observe e analise criticamente as imagens abaixo, identificando marcas polticas, his-

    tricas, culturais e sociais nos corpos. Voc pode fazer este exerccio utilizando as diferentes

    linguagens (oral, escrita e/ou corporal). Exera sua criatividade!

    Verbete

    MULTICULTURALISMO: o reconhecimento das diferenas e da individualidade de cada um. Da

    ento surge a confuso: se o discurso pela igualdade de direitos, falar em diferenas parece uma

    contradio. Mas no bem assim. A igualdade de que se fala igualdade perante alei, igual-

    dade relativa aos direitos e deveres. As diferenas s quais o multiculturalismo se refere so dife-

    renas de valores, de costumes etc., posto que se trata de indivduos de raas diferentes entre si.

    (Fonte: http://www.infoescola.com/sociologia/multiculturalidade/. Acesso em 29/10/2013.)

  • Educao Fsica 39

    Seo 2As mdias e os modelos corporais

    Atualmente, com a difuso global e intensa da informao, a imagem corporal vem sofrendo inter-venes variadas, que esto mais ligadas ao marketing do que prpria estrutura tnica de cada grupo. Fronteiras sociais e padres estticos anteriormente estabelecidos perderam seus limites. Em um passado no muito remoto, a identidade grupal era mais facilmente preservada, pois a distncia geogrfica mantinha os grupos relativamente isolados. No vivamos em uma aldeia global, j pre-conizada por Marshall McLuhan.

    PITANGUY, 2009, p. 79.

    Certamente, a evidncia do corpo no do corpo em si, considerado na sua especificidade, mas a evidncia de

    um modelo de corpo. Esse modelo de corpo entra em pauta nos discursos miditicos da sociedade contempornea,

    que, via publicidade e propaganda, forma esteretipo e reproduz e veicula imagens de representao de um dado

    padro de corpo vigente. E esse corpo, tomado como referncia da cultura contempornea e veiculado pela mdia

    via publicidade, um corpo bonito por dever, um corpo que se pauta pelo culto a certo padro de beleza ocidental

    disseminado pelo restante do mundo.

    Cabe ressaltar que as concepes de corpo edificadas historicamente pela civilizao ocidental a que nos

    referimos referem-se padronizao dos conceitos de beleza, fundados no corpo magro ou musculoso,

    ancorada pela necessidade de consumo criada pelas novas tecnologias e homogeneizada pela lgica

    da produo. So essas a que nos referimos e que parecem corroborar com os modelos estticos atuais.

    Ante o exposto, constata-se a necessidade de desvelar os mecanismos de construo dos modelos est-

    ticos referidos e os interesses mercadolgicos envolvidos na sua determinao e propagao.

    claro que, como nos informa o renomado cirurgio plstico brasileiro, Ivo Pitanguy (2009, p. 85), a busca pela

    beleza to antiga quanto o ser humano; mtica. As esculturas, as pinturas e todas as manifestaes de represen-

    tao da perfeio e da forma nos remetem aos mdulos que representaram o cnone dominante. A meu ver, esse

    cnone dominante essencialmente ocidental. Mas, provavelmente, na contemporaneidade, ele est cada vez mais

    se globalizando, pois j consenso entre vrios autores que vivemos atualmente numa aldeia global em que o inter-

    cmbio no acontece somente no plano econmico, mas tambm nas formas culturais e do comportamento.

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    Desde os nossos mais remotos ancestrais, elementos estticos faziam parte do seu cotidiano. O que parece ser

    um elemento questionvel a valorizao extrema da beleza e a idealizao de um modelo de corpo considerado

    perfeito e passvel de ser construdo de acordo com as condies e possibilidades da cultura contempornea.

    (Fonte: Corpo, mdia e mercado: o corpo objeto de discurso publicitrio. Lions Arajo dos Santos. http://revistas.unibh.br/index.php/ecom/article/view/604/342. Acesso em 29/10/2013.)

    Figura 3: As influncias das mdias na constituio dos modelos e padres corporais: no mundo contemporneo, somos todos consu-midores miditicos, especialmente da mdia televisiva. Sabemos que essas mdias tm uma intencionalidade evidente de divulgao de modelos corporais, visibilizando determinados padres e associando-os felicidade, ao prazer e ao sucesso. Assim, sem refletirmos sobre estas questes, somos facilmente capturados e passamos a adotar comportamentos na busca incessante para atingir esse ideal.

    Figura 4: Distoro da imagem corporal: o que vemos um exemplo extremo de uma situao que pode ocorrer quando no conseguimos nos tornar consumidores miditicos crticos sobre os modelos corporais, levando-nos ao sofrimento.

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    Distores da imagem corporal

    A anorexia nervosa e a bulimia nervosa so transtornos alimentares caracterizados por um padro de compor-

    tamento alimentar grav