Fundef e municipalização do Ensino Fundamental: breves ... ?· Pioneiros da Educação Nova, em 1932,…

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  • Fundef e municipalizao do Ensino Fundamental: breves consideraes

    Julio Cesar Torres (UNESP) Vitor Hugo Pissaia (UNESP)

    Resumo Objetiva discutir os aspectos determinantes da descentralizao da Educao Bsica brasileira no perodo ps-1988 (nova Constituio Federal), com um enfoque na municipalizao do Ensino Fundamental a partir da instituio do Fundef (Fundo de Manuteno e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorizao do Magistrio). Investiga os sistemas de ensino de quatorze municpios que compem a Diretoria Regional de So Jos do Rio Preto (SP). A partir desta amostra, busca identificar quais aderem municipalizao por meio da anlise da evoluo das matrculas nos sistemas municipais de ensino no perodo compreendido entre 1997 e 2007, visto que grande parte da literatura aponta o Fundef como um fator indutor do processo de municipalizao do Ensino Fundamental. Os resultados indicam que uma parte desses municpios inicia um processo de municipalizao das matrculas do Ensino Fundamental com a implementao do Fundef. No caso especfico da Regio Administrativa estudada, no ano de 2002 que ocorre a inverso do contexto anterior, qual seja, a partir deste ano o nmero de matrculas nos sistemas municipais de Ensino Fundamental supera o total de alunos matriculados na rede estadual de ensino. Palavras-chave: Fundef; Ensino Fundamental; Municipalizao. 1. Apresentao

    Nosso estudo tem como objetivo central apontar aspectos da descentralizao da

    educao bsica brasileira no perodo ps-1988, com um enfoque na municipalizao do

    Ensino Fundamental. Nosso recorte histrico, mais especificamente, est compreendido no

    perodo de 1996 a 2007, momento de instituio e vigncia do Fundef (Fundo de Manuteno

    e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorizao do Magistrio).

    Procuramos, num primeiro momento, retratar os marcos histrico-institucionais da

    poltica de educao que determinam, ou no, a descentralizao da oferta do ensino no

    Brasil contemporneo. Verificamos, destarte, se aps a instituio do Fundef os municpios

    aderem a uma estratgia de municipalizao das matrculas do Ensino Fundamental.

    Traamos como locus de nossa pesquisa emprica os sistemas de ensino de quatorze

    municpios da Diretoria Regional de So Jos do Rio Preto (SP), a saber: Bady Bassitt, Cedral,

    Guapiau, Ibir, Icm, Ipigu, Mirassolndia, Nova Granada, Onda Verde, Orindiva,

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    Palestina, Potirendaba, So Jos do Rio Preto e Uchoa. A partir desta amostra selecionada,

    nossa pesquisa, ainda em andamento, visar identificar se esses mesmos sistemas de ensino

    apresentam melhorias no tocante ao desempenho escolar, visto que dentre as vrias

    justificativas para a implementao do Fundef, destaca-se a melhoria da qualidade da

    educao brasileira pelo vis do aperfeioamento das polticas de financiamento da educao.

    Destacamos que o processo de municipalizao do Ensino Fundamental constitui-se

    em uma questo de grande relevncia, uma vez que tem gerado discusses acaloradas em

    diversas arenas sociais: nos meios polticos, acadmicos, sindicatos de professores e

    comunidade escolar. Para aqueles que acreditam ser possvel a construo de uma escola

    pblica democrtica que garanta o acesso e a permanncia dos educandos em todo o processo

    de escolarizao, proporcionando-lhes ensino/aprendizagem de qualidade visando formao

    de cidados crticos e transformadores, este processo recente de descentralizao da educao

    bsica configura-se numa categoria analtica importante para a pesquisa educacional.

    2. Contextualizando a municipalizao do ensino

    Nem a centralizao nem a descentralizao so garantias de um Estado democrtico, que se evidencia no desenvolvimento econmico, social e poltico da Nao (MONTORO, 1974, p. 99). Desta maneira, a desconcentrao reflete um movimento cujo sentido de cima para baixo, ao tempo que a descentralizao refletiria um movimento contrrio, de baixo para cima (CASASSUS, 1995, p. 84). Por descentralizao entende-se que as entidades regionais ou locais, com graus significativos de autonomia, definam as formas prprias com as quais vo organizar e administrar o sistema de educao pblica em suas respectivas reas de ao (...) neste caso a transferncia se d do rgo central (Secretaria da Educao) a outro, que poder ter personalidade jurdica diferente, seja (...) Prefeitura Municipal, ou entidades privadas (OLIVEIRA, 1992, p. 24).

    A compreenso do processo de municipalizao do ensino requer a reconstruo do

    contexto onde ele ocorreu e uma anlise da trama em que foi inserido na lgica/dinmica da

    descentralizao.

    As afirmaes a pouco arroladas de diferentes pesquisadores foram citadas e

    analisadas por Borges (2002). O pesquisador realizou uma anlise partidria que, a priori,

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    demonstrou alguns aspectos relevantes sobre duas vertentes inesgotveis de reflexo (Poltica

    e Educao). Adentrando em discusses num perodo histrico e poltico de redemocratizao

    no Brasil, focou o estado de So Paulo.

    O presente trabalho no tem a pretenso de analisar se ocorreu desconcentrao ou

    descentralizao, bem como refletir sobre o carter verticalizado do processo de

    descentralizao, ou se tal processo garante a condio de um Estado democrtico e,

    tampouco, a mensurar questes que envolvem a relativa autonomia dos municpios.

    Entretanto, sabemos que tais questes compem a contextura do cenrio posto em

    especial nas ltimas duas dcadas no Brasil. Da a pertinncia do foco desta pesquisa que

    buscou refletir sobre, primeiro, a relao intrnseca entre o processo de descentralizao com a

    municipalizao do ensino, bem como analisar o carter indutor do Fundef na municipalizao

    do Ensino Fundamental.

    As discusses e lutas quanto descentralizao do ensino brasileiro no so recentes.

    Segundo Oliveira (1999, p. 11):

    [...] fizeram-se presentes aps o Ato Adicional de 1834, passando por discusses ocorridas na Primeira Repblica, estando presente em relao questo curricular no Manifesto dos Pioneiros de 1932, nas Constituies Federais quanto ao financiamento, na debatida proposta de Ansio Teixeira (1957), durante a tramitao das Leis n. 4.024/61 e n. 5.692/71, durante a Constituinte dos anos 80, alm das discusses ocorridas em diferentes Estados, a partir da redemocratizao do pas, quando da implementao de polticas de parcerias/convnios com os municpios.

    Um grande marco, nesse sentido, de acordo com Azanha (1991), seria a propositura de

    Ansio Teixeira que, j em 1957, apresentava suas ideias num Congresso Nacional de

    Municipalidades:

    a) a municipalizao abrangeria apenas o antigo ensino primrio (na poca, o ensino pr-primrio era algo muito distante e irrealizvel). Com relao ao ensino primrio, o municpio teria as atribuies de organizao, administrao e execuo. Apenas a superviso ficaria a cargo do Estado;

    b) o desempenho das atribuies municipais de educao ficaria a cargo de um Conselho de Educao. Na ordenao do ensino municipal, o Conselho local atenderia s normas de uma lei orgnica do ensino elaborada por um Conselho Estadual de Educao em consonncia com as diretrizes e bases da educao nacional, interpretadas por um Conselho Federal de Educao;

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    c) ao Conselho Municipal de Educao caberia a determinao do custo do aluno nas escolas do municpio e a fixao da cota municipal de contribuio possvel para fazer face a esse custo. A complementao desses recursos seria feita pela transferncia ao municpio de uma cota estadual e de uma cota federal. Para administrao desses recursos haveria, em cada esfera, os respectivos fundos de educao;

    d) para A. Teixeira, a municipalizao do ensino primrio ofereceria vantagens de ordem administrativa, social e pedaggica. Quanto primeira, as razes so bvias. Quanto segunda, as vantagens adviriam do fato do professor ser um elemento local ou pelo menos a integrado e no mais um cnsul representante de um poder externo. Quanto terceira, residiria principalmente na possibilidade do currculo escolar refletir a cultura local (AZANHA, 1991, p. 01).

    Percebe-se que Ansio Teixeira tinha, sobre o tema da municipalizao do ensino,

    ideias j inovadoras para a poca. Para este educador e pensador brasileiro de grande destaque,

    a municipalizao do ensino:

    [...] era a resposta a uma situao a ser modificada, a fim de que o ensino primrio reunisse condies de melhoria de padro que, de outro modo, no parecia vivel. Inspirado na educao norte-americana, de tradies fortemente locais, pareceu a Teixeira que uma reordenao das responsabilidades municipal, estadual e federal seria suficiente para que a instituio escolar de nvel primrio se fortalecesse e se consolidasse. Sabemos, hoje, que essa viso era um pouco simplista e algo romntica, porque Teixeira ignorava, deliberadamente, toda a complexidade do jogo poltico que cerca o traado de uma poltica educacional de dimenses to amplas (AZANHA, 1991, p. 02).

    Ferreira (2008) aponta que as primeiras discusses sobre descentralizao vm a

    debate com o Ato Adicional de 1834 que remetia s provncias a responsabilidade com os

    ensinos primrio e secundrio, cabendo ao governo central a responsabilidade com as

    universidades.

    Essa iniciativa do governo imperial seria, de acordo com Mendes (2001), um forte

    estmulo para a constituio dos sistemas estaduais e, por conseguinte, a criao mais tarde, j

    no sculo XX, de sistemas municipais de ensino.

    Como observa Souza (1998, p. 17):

    Foi somente com o advento da Repblica, ainda que sob a gide dos estados federados, que a escola pblica, ent