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PROCEDIMENTOS

4. PROCEDIMENTO ESPECIAL DOS CRIMES DOLOSOS CONTRA A VIDA 4.1. Fundamentos do tribunal do jri A doutrina diverge quanto origem do tribunal do jri. No Brasil, a Constituio de 1988 assegura que o tribunal popular julgar os crimes dolosos contra a vida, prevendo a possibilidade de que seja sua competncia ampliada por lei. No contexto mundial, a organizao e competncia do tribunal do jri variam em conformidade com o sistema adotado em cada pas. A idia do tribunal popular a de que os casos importantes sejam julgados por pessoas que formam a comunidade, tal como o acusado seja parte desta, vale dizer, a noo que se tem do jri popular a de que o julgamento se d pelos pares do ru. A origem do tribunal do jri visualizada tanto na Grcia como em Roma, havendo quem veja um fundamento divino para a legitimidade desse rgo. Sob essa inspirao, o julgamento de Jesus Cristo, malgrado desprovido das garantias mnimas de defesa, lembrado como um processo com caractersticas que se assemelham ao jri. De lado as controvrsias sobre a origem, a maior parte da doutrina indica como raiz do tribunal do jri a Magna Carta da Inglaterra, de 1215, bem como seu antecedente mais recente, a Revoluo Francesa de 1789. No Brasil, desde a Constituio Imperial de 1822, o tribunal popular rgo com competncia para julgar crimes que afetam determinados bens jurdicos, em especial, os crimes contra a vida. A nica Constituio que no trouxe previso do tribunal popular foi a Carta de 1937, que foi outorgada e inaugurou um perodo ditatorial, instaurando-se dvida quanto a sua subsistncia at o ano de 193818. Com a Constituio do Brasil de 1988, o tribunal do jri foi conrmado como direito e garantia fundamental. Garantia de sujeio ao tribunal popular, nos crimes de sua competncia, para atendimento ao devido processo legal. E direito, conferido de forma ampla, de participar da atividade do Judicirio, na condio de jurado (juzes leigos). Partilhamos portanto, do magistrio de Guilherme Nucci, que sustenta: no deixamos de visualizar no jri, em segundo plano, mas no menos importante, um direito individual, consistente na possibilidade que o cidado de bem possui de partici-

18. ARAJO, Gladston Fernandes de. Tribunal do jri: uma anlise processual luz da Constituio Federal. Niteri: Impetus, 2004. p.13.

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par, diretamente, dos julgados do Poder Judicirio. Em sntese: o jri uma garantia individual, precipuamente,mas tambm um direito individual. Constitui clusula ptrea na Constituio Federal (cf. art. 60, 4, IV)19. 4.2. Princpio reitores A Constituio, em seu art. 5, inc. XXXVIII, assenta os princpios do tribunal popular: (1) plenitude de defesa; (2) o sigilo das votaes; (3) a soberania dos veredictos; e, (4) a competncia para o julgamento de crimes dolosos contra a vida. A plenitude de defesa revela uma dupla faceta, anal, a defesa est dividida em tcnica e autodefesa. A primeira, de natureza obrigatria, exercida por prossional habilitado, ao passo que a ltima uma faculdade do imputado, que pode valer-se do direito ao silncio. Prevalece no jri a possibilidade no s da utilizao de argumentos tcnicos, mas tambm de natureza sentimental, social e at mesmo de poltica criminal, no intuito de convencer o corpo de jurados. E se o ru, no interrogatrio em plenrio, apresenta tese defensiva distinta do seu advogado? Entendemos que as duas devem ser levadas votao dos jurados, apesar do STF j ter se manifestado que devem ser quesitadas apenas as teses sustentadas pela defesa tcnica, dando evidente prevalncia a esta ltima20.3 Com a recente reforma do procedimento do jri, o quesito obrigatrio sobre se o ru deve ser absolvido, gizado no inciso III, do art. 483, CPP (com redao dada pela Lei n. 11.689/2008), ndou por abranger tanto a tese do acusado quanto a do seu advogado. Com efeito, o 2, do art. 483, CPP, corrobora essa concluso, ao impor que, mesmo que tenha o jri armado a materialidade e a autoria do fato (nos dois primeiros quesitos), deve ser formulado quesito especco com a seguinte redao: o jurado absolve o acusado?. Como se depreende, tal questo engloba todas as teses de defesa. O sigilo das votaes envolve o voto e o local do voto. Para evitar intimidao dos jurados, as votaes ocorrem em uma sala especial,19. NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de processo penal e execuo penal. 3. ed. So Paulo: RT, 2007. p.667. 20. STF 2 T. HC 72.450/SP Rel. Min. Maurcio Corra DJ 24/5/1996. p.17413.

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com a presena das pessoas indispensveis a esse ato processual: o juiz, os jurados, o membro do Ministrio Pblico, o advogado e os auxiliares da justia (art. 481, CPP, redao anterior). Com o advento da Lei n. 11.689/2008, a nova redao do artigo 485, CPP, dispe que, ao nal dos debates e no havendo dvida a ser esclarecida, o juiz presidente, os jurados, o Ministrio Pblico, o assistente, o querelante, o defensor do acusado, o escrivo e o ocial de justia dirigir-se-o sala especial a m de ser procedida a votao. Em acrscimo, o seu 1 preconiza que na falta de sala especial, o juiz presidente determinar que o pblico se retire, permanecendo somente as pessoas mencionadas no caput deste artigo. Para assegurar o sigilo e cumprir a Constituio , adequado que o juiz se acautele para suspender a divulgao dos demais votos assim que se denir a votao de cada quesito, evitando que seja o sigilo violado por uma eventual votao unnime20-A. Nesse sentido, por ns defendido antes da Lei n. 11.689/2008, as novas redaes dos pargrafos 1 e 2, do art. 483, CPP, estabelecem que: (1) a resposta negativa, de mais de 3 (trs) jurados, a qualquer dos quesitos relativos autoria e materialidade delitiva encerra a votao e implica a absolvio do acusado; e, (2) respondidos armativamente por mais de 3 (trs) jurados tais quesitos, ser formulado quesito com a seguinte redao: O jurado absolve o acusado?. A soberania dos veredictos alcana o julgamento dos fatos. Os jurados julgam os fatos. Esse julgamento no pode ser modicado pelo juiz togado ou pelo tribunal que venha a apreciar um recurso. Da que em hiptese de julgamento manifestamente contrrio prova dos autos, a apelao provida ter o condo de nulicar o julgamento e mandar o acusado a um novo jri. Note-se que o tribunal no altera o julgamento para condenar ou absolver o acusado, ou mesmo para acrescer ou suprimir qualicadora. Como a existncia do crime e de suas circunstncias matria ftica, sobre ela recai o princpio da soberania dos veredictos, no podendo seu ncleo ser vilipendiado, seno por uma nova deciso do tribunal popular. Contudo, em prol da inocncia, tal princpio no absoluto, admitindo-se que o Tribunal de Justia absolva de pronto o ru20-A. SANTOS JNIOR, Rosivaldo Toscano dos. Constituio e sigilo das votaes no jri: o resultado unnime. In: Direitos Fundamentais na Constituio de 1988: estudos comemorativos aos seus vinte anos. Rosmar Antonni Rodrigues Cavalcanti de Alencar (org.). Porto Alegre: Nria Fabris, 2008. p. 301.

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condenado injustamente pelo jri em sentena transitada em julgado, no mbito da ao de reviso criminal. O tribunal do jri, com competncia para processar e julgar os crimes dolosos contra a vida, tentados ou consumados, veio com seu contedo mnimo denido pela Constituio da Repblica. Houve poca em que outros crimes, diversos dos dolosos contra a vida, eram tambm julgados pelo tribunal do jri, a exemplo dos crimes de imprensa. Atualmente, no h lei ordinria alargando a competncia desse tribunal popular. Para evitar a extino do instituto, o constituinte protegeu assim sua competncia mnima, em clusula ptrea gizada no captulo dos direitos fundamentais. Alm do ncleo bsico constitucional, vo tambm a jri as infraes comuns conexas aos crimes dolosos contra a vida. Desta forma, outros crimes comuns que no os dolosos contra a vida podem ser apreciados pelos jurados, desde que exista conexo, e mesmo que a infrao conexa seja de menor potencial ofensivo, ser atrada ao procedimento escalonado do tribunal popular. Advirta-se que o genocdio, por ser crime contra a humanidade, no ir a jri, da mesma forma que o latrocnio, que crime contra o patrimnio ( Smula n 603, STF). 4.3. Caractersticas a) rgo heterogneo: na Constituio de 1988, o jri popular rearmado como rgo do Poder judicirio. Sua composio formada por um juiz-presidente e por vinte e cinco jurados, nos termos da nova redao do art. 433, CPP, dada pela Lei n. 11.689/2008 (antes o CPP previa o nmero de vinte e um jurados), dos quais sete compem o Conselho de Sentena. O juiz-presidente aplica o direito de acordo com os fatos que so julgados pelos jurados. Aquele, o juiz do direito, estes, o juiz dos fatos. Sobre aquele, no vigora o princpio da soberania dos veredictos, pelo que o tribunal pode reformar sua sentena, para majorar ou minorar a pena por ele aplicada. J quanto ao julgamento dos fatos pelos jurados, no cabe ingerncia pelo rgo de segundo grau de jurisdio. b) rgo horizontal: no h de se falar em hierarquia entre o juiz presidente e os jurados. Tm funes diversas, e a conjugao de esforos faz a harmonia do tribunal.4

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c) rgo temporrio: o tribunal funcionar durante alguns perodos do ano. Desta forma, a reunio do jri perodo do ano em que o mesmo opera, ao passo que a sesso do jri concentra a realizao do julgamento. Pelo alto nmero de crimes dolosos contra a vida, no raro que o tribunal, notadamente nas capitais, opere durante todos os meses do ano. d) Decises por maioria de votos: no necessrio, ao contrrio do que ocorre no jri norte-americano, que haja unanimidade na votao. Basta a obteno de quatro votos num determinado sentido, par