Jesse de Souza

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(NO) RECONHECIMENTO E SUBCIDADANIA, OU O QUE SER GENTE?*JESS SOUZAO imaginrio social dominante no Brasil interpreta o brasileiro como um tipo social homogneo, como no homem cordial de Srgio Buarque, possuindo as mesmas caractersticas, quase sempre associadas emocionalidade, ao personalismo, ao jeitinho, independentemente de sua classe ou pertencimento social. Tudo acontece como se esses indivduos essencialmente semelhantes apenas diferissem na renda que ganham e que o progresso econmico seria, portanto, o Deus ex machina ao qual caberia resolver problemas como desigualdade, marginalizao e subcidadania. Existe entre ns uma crena fetichista no progresso econmico, que faz esperar da expanso do mercado a resoluo de todos os nossos problemas sociais. O fato de que o Brasil tenha sido o pas de maior crescimento econmico do globo entre 1930 e 1980, sem que as taxas de desigualdade, marginalizao e subcidadania jamais fossem alteradas radicalmente, deveria ser um indicativo mais do que evidente do engano dessa pressuposio. Isto, no entanto, no aconteceu e no acontece ainda hoje. A ausncia de uma adequada problematizao dos aspectos de aprendizados coletivos morais e polticos envolvidos na questo da desigualdade e da sua naturalizao e, conseqentemente, na problemtica da construo social da subcidadania, deve-se, tambm, creio eu, complexa configurao do campo cientfico entre ns. Inicialmente, o essencialismo culturalista que articula as noes de personalismo, familismo e patrimonialismo continua hegemnico, seja na dimenso do senso comum seja, na dimenso da reflexo metdica.1 A partir de um paradigma explicativo semelhante quele* O argumento que fio condutor deste texto parte de uma discusso desenvolvida em maior detalhe em SOUZA, Jess, A Construo Social da Subcidadania: Para uma Sociologia Poltica da Modernidade Perifrica, Ed. UFMG, 2003. Agradeo a Faperj pelo financiamento da pesquisa que viabilizou este artigo 1 Uma discusso crtica em detalhe de diversas variantes desse ponto de partida terico foi realizada em SOUZA, Jess, A Modernizao Seletiva: Uma Reinterpretao do Dilema Brasileiro, Ed. UnB, 2000.

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do paradigama culture and personality, dominante na sociologia e antropologia americanas da primeira metade do sculo XX2, parte-se de uma perspectiva culturalista sem adequada vinculao com a eficcia de instituies fundamentais, onde a cultura percebida como uma entidade homognea, totalizante e auto-referida. Seria por conta dessa soberania do passado sobre o presente que nos confrontamos com solidariedades verticais baseadas no favor, subcidadania para a maior parte da populao e abismo material e valorativo entre as classes e as raas que compem nossa sociedade. Paralelamente, na outra ponta das teorizaes mais conjunturais e de menor nvel de abstrao, a situao milita a favor da construo de um contexto de opacidade em relao s variveis mais estruturais que envolvem um grau maior de abstrao terica. que em pases como o Brasil, onde a institucionalizao em larga escala das cincias sociais se d a partir da dcada de 1970, refletindo a tendncia mundial da disseminao dos modelos do parcelizao do conhecimento, a fragmentao dos esquemas explicativos tendem a perder sua relao com qualquer realidade mais ampla. Este fato, associado propagao paralela de teorias de mdio alcance, que renunciam a esclarecer ou tematizar seus prprios pressupostos e escolhas categoriais, tendem a inibir a reflexo acerca de realidades que no tenham vnculo imediato com realidades pragmticas e conjunturais. Por mais bem sucedidos e interessantes que sejam vrios desses esforos, que recuperam contextos e sentidos histricos e ajudam a mapear empiricamente dados relevantes acerca da realidade, eles no contribuem para renovar a compreenso mais totalizadora acerca dos princpios estruturantes bsicos que perfazem a singularidade da modernidade perifrica, dado que seu horizonte categorial rejeita, de plano, qualquer preocupao com essa dimenso mais abstrata da reflexo terica. O mais das vezes, o paradigma personalista e patrimonialista, em suas vertentes tradicionais ou contemporneas e hbridas, permanece como a referncia implcita da maior parte desse tipo de anlise.32 Uma excelente exposio da pr-histria, desenvolvimento e contradies internas ao paradigma da teoria da modernizao pode ser encontrada em KNBL,Wolgang, Spielrume der modernizierung, Velbrck, 2002. 3 Mesmo as tentativas mais recentes de construo de um paradigma do hibridismo, como uma reao ao inegvel dinamismo modernizante de vrias sociedades perifricas, como a brasileira por exemplo, na realidade, no abandonam o campo categorial do paradigma personalista, familista e patrimonialista. Em suas verses mais bem-sucedidas, essas teorizaes postulam a convivncia de dois princpios de estruturao social, um personalista e um individualista, os quais, no entanto, permanecem indeterminados, como se tratassem de duas realidades paralelas, e, apesar da dominncia silenciosa da varivel personalista nesse tipo de abordagem, a questo central da articulao e da dominncia relativa de cada um desses princpios jamais explicitamente formulada ou resolvida. Como nas verses tradicionais do

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Estou convencido que a tematizao dos aspectos socioculturais da desigualdade, que permita superar o contexto de opacidade construdo pelo fetichismo do progresso econmico, exige a construo de um paradigma terico alternativo que permita preencher as lacunas e silncios da configurao cientfica hegemnica que articula essencialismo cultural, por um lado, e a fragmentao conjuntural e pragmtica da explicao terica, por outro. No mbito da reconstruo que gostaria de levar a cabo neste artigo, gostaria de procurar me afastar dos pressupostos do essencialismo culturalista, sem, no entanto, abrir mo de uma perspectiva que contemple o acesso a realidades culturais e simblicas. E precisamente nesse contexto que gostaria de incorporar as reflexes de Charles Taylor acerca da singularidade que as questes culturais, morais e simblicas, em sentido amplo, assumem no mundo moderno. Aqui me interessa, antes de tudo, seu ponto de partida comunitarista como uma hermenutica do espao social a partir da sua crtica ao naturalismo, que perpassa tanto a prtica cientfica quanto a vida cotidiana, como meio de articular precisamente a configurao valorativa implcita ao racionalismo ocidental que d ensejo, como veremos, a um tipo especfico de hierarquia social e uma tambm singular noo de reconhecimento social baseada nela. Juntamente com a sociologia de Pierre Bourdieu, creio encontrar, nesses dois autores, uma complementariedade fundamental de modo a unir a percepo de configuraes valorativas implcitas e intransparentes conscincia cotidiana, e ancoradas de modo opaco e inarticulado eficcia de algumas instituies do mundo moderno como mercado e Estado, com a percepo de signos sociais visveis que permitam mostrar o ntimo vnculo entre uma hierarquia valorativa, que se traveste de universal e neutra, com a produo de uma desigualdade social que tende a se naturalizar tanto no centro quanto na periferia do sistema. A articulao da perspectiva desses dois clssicos contemporneos permite, a meus olhos, uma reformulao muito mais sofisticada e til do tema clssico marxista da ideologia espontnea do capitalismo, seja no contexto central, seja no perifrico. * * *

paradigma do personalismo, o poder de convencimento e o preenchimento das lacunas do argumento garantido pelo paralelismo com os preconceitos do senso comum dessas sociedades. Exemplos recentes de teorias latino-americanas de hibridismo so as de CANCLINI, Nestor Garcia, Culturas hbridas, Edusp, 1998, e DAMATTA Roberto, Carnavais, malandros e heris, Zahar, 1981.

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Gostaria de iniciar a discusso com a anlise de uma obra de um pensador perifrico que, segundo penso, consegue estabelecer a questo decisiva em pauta nessa problemtica, ainda que a resposta final seja insatisfatria: trata-se da Integrao do Negro na Sociedade de Classes, de Florestan Fernandes. Neste livro, Florestan se predispe a empreender uma anlise de como o povo emerge na histria brasileira. A concentrao no negro e no mulato se legitima, nesse contexto maior da empreitada terica, posto que foram precisamente esses grupos que tiveram o pior ponto de partida4 na transio da ordem escravocrata competitiva. Desse modo, a reflexo de Florestan pode ser ampliada para abranger tambm os estratos despossudos e os dependentes em geral e de qualquer cor, na medida em que o nico elemento que os diferenciava de negros e mulatos era o handicap adicional do racismo.5 O perodo estudado por Florestan vai de 1880 a 1960, o que d uma idia da amplitude do alentado estudo, e o horizonte emprico concentra-se na cidade de So Paulo, permitindo, desse modo, observar as dificuldades de adaptao dos segmentos marginais na mais burguesa e competitiva das cidades brasileiras. O dado essencial de todo o processo de desagregrao da ordem servil e senhorial foi, como nota corretamente Florestan, o abandono do liberto prpria sorte (ou azar). Os antigos senhores, na sua imensa maioria, o Estado, a Igreja, ou qualquer outra instituio, jamais se interessaram pelo destino do liberto. Este, imediatamente depois da abolio, se viu responsvel por si e seus familiares, sem que dispusesse dos meios materiais ou morais para sobreviver numa nascente economia competitiva de tipo capitalista e burgus. Ao negro, fora do contexto tradicional, restava o deslocamento social na nova ordem. Ele no apresentava os pressupostos sociais e psicossociais que so os motivos ltimos do sucesso no meio ambiente concorrencial. Faltava-lhe vontade de se ocupar com as funes consideradas degradantes (que lhe lembravam o passado) pejo que os imigrantes italianos, por exemplo, no tinham no era suficientemente industrioso nem poupador e, acima de tudo, faltava-lhe o aguilho da nsia pela