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Marx e o Marxismo 2015: Insurreições, passado e presente Universidade Federal Fluminense – Niterói – RJ – de 24/08/2015 a 28/08/2015 TÍTULO DO TRABALHO MUNDIALIZAÇÃO DO CAPITAL, ESTRANHAMENTO E UNIVERSALIDADE HUMANA AUTOR INSTITUIÇÃO (POR EXTENSO) Sigla Vínculo Antônio José Lopes Alves Universidade Federal de Minas Gerais UFMG Professor RESUMO (ATÉ 150 PALAVRAS) A comunicação terá por objeto de discussão a relação entre o desenvolvimento tardio do modo de produção capitalista da vida humana e os principais aspectos característicos da forma de individuação humana observada nos últimos 150 anos. Para tanto, servirá de balizamento principal as formulações marxianas constantes em sua crítica da economia política, principalmente em sua fase de maturidade. As categorias serão destacadas a fim de clarificar o caráter altamente contraditório de um momento histórico no qual a interdependência multilateral e universal da elaboração do humano procedida nos quadros de uma forma societária, que se torna dominante mundialmente, a qual tem como determinidades mais proeminentes são aquelas da indiferença e da repelência recíprocas, cujo modo de expressão cotidiano é aquele da competição em todos os níveis da vida social. PALAVRAS-CHAVE (ATÉ 3) Crítica Marxiana da Economia Política, Estranhamento, Universalidade Humana. ABSTRACT (ATÉ 150 PALAVRAS) This Communication have the subject of discussion the relationship between the late development of the capitalist mode of production of human life and the main characteristic features of the human form of individuation observed in the last 150 years. To this end, will serve as the main marking the constant Marxian formulation in his critique of political economy, especially in its mature stage. Categories will be highlighted in order to clarify the highly contradictory character of a historic moment in which the multilateral and universal interdependence of human development proceeded in the frames of the corporate form, which becomes dominant world, which has the most prominent are those specific things of indifference and reciprocal repellency, whose way of everyday expression is that of competition at all levels of social life. KEYWORDS (ATÉ 3) Marxian critique of political economy, Estrangement, Human Universality. EIXO TEMÁTICO 4. Ciência, Filosofia e ideologia: estranhamento ou emancipação

Marx e o Marxismo 2015: Insurreições, passado e presente · Grundrisse, O Capital (em especial, Capítulo VI - inédito) e Teoria do mais-valor, o conjunto de determinações que

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  • Marx e o Marxismo 2015: Insurreies, passado e presente Universidade Federal Fluminense Niteri RJ de 24/08/2015 a 28/08/2015

    TTULO DO TRABALHO

    MUNDIALIZAO DO CAPITAL, ESTRANHAMENTO E UNIVERSALIDADE HUMANA

    AUTOR INSTITUIO (POR EXTENSO) Sigla Vnculo

    Antnio Jos Lopes Alves Universidade Federal de Minas Gerais UFMG Professor

    RESUMO (AT 150 PALAVRAS)

    A comunicao ter por objeto de discusso a relao entre o desenvolvimento tardio do modo de produo capitalista da vida humana e os principais aspectos caractersticos da forma de individuao humana observada nos ltimos 150 anos. Para tanto, servir de balizamento principal as formulaes marxianas constantes em sua crtica da economia poltica, principalmente em sua fase de maturidade. As categorias sero destacadas a fim de clarificar o carter altamente contraditrio de um momento histrico no qual a interdependncia multilateral e universal da elaborao do humano procedida nos quadros de uma forma societria, que se torna dominante mundialmente, a qual tem como determinidades mais proeminentes so aquelas da indiferena e da repelncia recprocas, cujo modo de expresso cotidiano aquele da competio em todos os nveis da vida social.

    PALAVRAS-CHAVE (AT 3)

    Crtica Marxiana da Economia Poltica, Estranhamento, Universalidade Humana.

    ABSTRACT (AT 150 PALAVRAS)

    This Communication have the subject of discussion the relationship between the late development of the capitalist mode of production of human life and the main characteristic features of the human form of individuation observed in the last 150 years. To this end, will serve as the main marking the constant Marxian formulation in his critique of political economy, especially in its mature stage. Categories will be highlighted in order to clarify the highly contradictory character of a historic moment in which the multilateral and universal interdependence of human development proceeded in the frames of the corporate form, which becomes dominant world, which has the most prominent are those specific things of indifference and reciprocal repellency, whose way of everyday expression is that of competition at all levels of social life.

    KEYWORDS (AT 3)

    Marxian critique of political economy, Estrangement, Human Universality.

    EIXO TEMTICO

    4. Cincia, Filosofia e ideologia: estranhamento ou emancipao

  • 2

    Este trabalho tem por objeto de discusso a relao entre o desenvolvimento mais atual do

    modo de produo capitalista da vida humana e os principais aspectos caractersticos da forma de

    individuao humana observada nos ltimos 150 anos. Para tanto, servir de balizamento principal

    as formulaes marxianas constantes em sua crtica da economia poltica, principalmente em sua

    fase de maturidade. Neste sentido, busca-se evidenciar por meio da anlise de obras como

    Grundrisse, O Capital (em especial, Captulo VI - indito) e Teoria do mais-valor, o conjunto de

    determinaes que estabelecem a differentia specifica da individualidade em sua forma ocidental

    moderna em comparao com aspectos centrais de outros momentos histricos. As categorias sero

    destacadas a fim de clarificar o carter altamente contraditrio de um momento histrico no qual a

    interdependncia multilateral e universal da elaborao do humano procedida nos quadros de uma

    forma societria, que se torna dominante mundialmente, a qual tem como determinidades mais

    proeminentes so aquelas da indiferena e da repelncia recprocas, cujo modo de expresso

    cotidiano aquele da competio em todos os nveis da vida social. Deste modo, a figurao social

    tecida pelas redes de nexos de produo mtua da vida se derreia quanto mais pretende afirmar-se

    numa autodeterminao ilusria, arrimada que numa suposta e falsa genealogia de sua potncia

    numa natureza solitria. Verga-se assim sob o peso de sua prpria contradio a formao

    individual moderna na medida em que s se afirma fenomenicamente sob a regncia da negao de

    sua pressuposio essencial: o talhe eminentemente social da forma humana de ser.

    A relao assim tecida entre o evolver dos modos de sociabilidade tpicas do capital e a

    produo de formas de vida - bem como tambm de suas expresses ideais - no cotidiano no deve

    ser entendida como destinao da modernidade. Ao contrrio das fantasmagorias filosficas em

    torno de "modernidade" em geral ou de determinados Zeitgeiste, a posio marxiana, da qual

    pretende-se aqui partir, fixa como balizamentos importantes a compreenso terica da objetividade

    social, das Daseinsformen que a conformam e perfazem a sua sntese de determinaes essenciais

    particulares. Neste sentido, o entendimento crtico-cientfico da produo da riqueza como capital

    abre as vias da captao conceitual das questes em tela e permite deslindar as formas

    determinativas dos contraditrios fenmenos societrios, sem que se caia nem no reducionismo de

    entend-los como resultado de uma tendncia natural do gnero humano - biolgica ou

    transcendentalmente entendida -, nem, de outra parte, nas modalidades irracionalistas de

    "interpretao". A este respeito, a crtica marxiana da economia poltica, alm do aclaramento

    propriamente cientfico, permite igualmente a efetivao de um projeto implcito na oitava das teses

    Ad Feuerbach, de 1845. Ali Marx que "Toda vida social essencialmente prtica. Todos os

    mistrios que conduzem a teoria ao misticismo encontram sua soluo racional na prtica humana e

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    na compreenso dessa prtica" (MARX, 2009, p. 554). Ou seja, bastante apartado do que faria

    histria no desenvolvimento ulterior das chamadas cincias sociais, o princpio da crtica marxiana

    indica o necessrio remetimento das formas comportamentais e ideais determinao social

    objetiva da sociabilidade. No se trata, como certa tradio presunosamente "crtica" entendeu, de

    um tipo qualquer de reducionismo. Antes de aproximar-se teoricamente da efetividade da vivncia

    social dos indivduos e, partindo da compreenso racional desta, indicar como o modo de ser se

    expressa em uma mirade variada de modos de conscincia e de comportamento que cumprem

    determinadas funes naquela mesma vida societria.

    O diagnstico do estranhamento (Entfremdung) como carter da sociabilidade sempre fez

    parte da tematizao marxiana. E isto, no obstante com escopo e delimitao categoriais diversos

    segundo as particularidades dos diferentes momentos de sua elaborao e da natureza especfica dos

    problemas terico-prticos, desde seus incios, explicitamente nos clebres konomisch-

    philosophische Manuskripte 1844. O enfrentamento conceitual deste trao determinativo inclusive

    est articulado j naquele escrito com a decifrao da anatomia da sociedade civil: "Ns partimos

    de um fato atual da economia poltica (Wir gehn von einem nationalkonomischen, gegenwrtigen

    Faktum aus)" (MARX, 1968, p. 511). O ponto de partida no a alienao, como categoria geral

    atinente evoluo histrica "do" homem, mas sim a existncia da forma social da atividade

    produtiva tipicamente capitalista, cuja determinidade central a de que o resultado da produo, a

    riqueza, no pertence ao sujeito concreto que a engendra, o trabalhador assalariado. Como corolrio

    todo um conjunto de riquezas e das condies de produo existem em oposio ao trabalhador,

    como coisas e potncias estranhas1. No vem aqui ao caso a incompletude cientfica de considerar

    ainda que o trabalhador aliena em troca de salrio o seu trabalho e no a capacidade de trabalho

    tornada uma fora de trabalho. O ponto decisivo o fato de que a analtica marxiana que descortina

    o trabalho estranhado a partir das formas concretas da produo, do exame das relaes sociais

    objetivamente existentes entre os indivduos2. O complexo delineado pelas categorias alienao e

    estranhamento permanecer um parmetro importante da crtica da economia poltica ulteriormente

    desenvolvida. Como determinaes categoriais descritivas das relaes de produo, no mbito do

    momento de maturidade da crtica marxiana, estas categorias passam ento a integrar a analtica da

    produo do mais-valor, tanto no que concerne s conexes contraditrias do produtor com os

    1 Der Arbeiter wird um so rmer, je mehr Reichtum er produziert, je mehr seine Produktion an Macht und Umfang

    zunimmt. Der Arbeiter wird eine um so wohlfeilere Ware, je mehr Waren er schafft. Mit der Verwertung der

    Sachenwelt nimmt die Entwertung der Menschenwelt in direktem Verhltnis zu. Die Arbeit produziert nicht nur Waren;

    sie produziert sich selbst und den Arbeiter als eine Ware, und zwar in dem Verhltnis, in welchem sie berhaupt Waren

    produzier (MARX, 1968, p. 511). 2 Para maior e melhor detalhamento desta questo nos Manuscritos de 1844 remeta-se o leitor para as elaboraes da

    pesquisadora Mnica Hallak Martins da Costa, em especial: A exteriorizao da vida nos manuscritos econmico-

    filosficos de 1844. In: Revista Ad Hominem, tomo IV Dossi Marx. So Paulo: Estudos e Edies Ad Hominem,

    2001.

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    elementos simples da atividade produtiva em geral, quanto e principalmente com referncia ao

    carter que o desenvolvimento das foras produtivas tomam nos quadros da produo do capital. Ao

    contrrio do que certa vertente de interpretao marxista tentou fixar como ortodoxia no

    entendimento da cientificidade madura de Marx, o desvendamento da "lgica" de ordenao do

    capital no pressupe, nem implica, o abandono da problemtica do estranhamento, mas a adensa,

    no sentido de sua concreo, mediante a apropriao da concatenao categorial objetiva da

    sociabilidade capturada e expressa como Gedankenkonkretum3. Como Daseinsformen da

    determinidade da extrao do mais-valor no nvel das relaes nas quais transcorre concretamente a

    produo de riqueza, alienao e estranhamento emergem no exame marxiano figurando o

    horizonte da forma social particular da produo moderna, evidenciando certos traos que rematam

    a sua differentia specifica frente s demais formaes sociais historicamente discernveis.

    Longe de ser um efeito anmalo, a figurao contraditria das relaes entre os sujeitos

    produtores, as condies objetivas de sua produo, sua prpria atividade e os produtos desta

    ltima, constitui um resultado correspondente determinao essencial do capital. A relao de

    alienao reaparece ento desdobrada num nvel maior de concretude categorial, quando Marx

    enceta sua analtica na direo do discernimento formal das relaes em sua determinao mais

    precisa. Assim, nos Manuscritos de 1861-1863, observa Marx que o sujeito produtor concreto deve

    trazer

    (...) ao mercado sua prpria capacidade de trabalho, que tenha de vend-la porque

    ele no dispe mais, para a troca, de seu trabalho na forma de outra mercadoria, de

    trabalho objetivado (existente fora de sua subjetividade) numa outra forma de valor

    de uso, mas dispe apenas de uma nica mercadoria para ofertar, para vender,

    precisamente sua capacidade de trabalho viva, existente em sua corporeidade viva.

    (Capacidade no deve ser compreendida, aqui, de modo algum como fortuna,

    fortune, mas como potencia, .) Para que ele se veja forcado a vender sua

    capacidade de trabalho em lugar de uma mercadoria na qual ele objetivou seu

    trabalho essa mercadoria especificamente diferente de todas as outras

    mercadorias, existam elas sob a forma de mercadoria ou de dinheiro pressupe-se

    que faltem, que tenham desaparecido as condies objetivas para a objetivao de

    sua capacidade de trabalho, as condies de objetivao de seu trabalho, e, mais

    ainda, que essas condies oponham-se a ele como mundo da riqueza da riqueza

    objetiva submetida a uma vontade estranha , como propriedade do possuidor de

    mercadorias na circulao, como propriedade estranha (MARX, 2010, p. 50).

    3 Cf. Marx, K. Grundrisse der Kritik der politischen konomie, "Einleitung", In Marx-Engels Werke, Band 42. Berlin:

    Dietz Verlag, 1983, p. 36.

  • 5

    A relao de alienao, de cesso que o trabalhador forado pela lgica objetiva das relaes de

    produo tem por objeto, no mais o trabalho - numa acepo lata e inadequada, mas uma instncia

    objetivamente dada nele como ente humano real, um conjunto de competncias e potenciais de

    atividade. A distino entre trabalho e fora de trabalho possui um escopo determinativo no

    apenas para a soluo de um problema cientfico pontual - a explicao de um excedente em valor

    como resultante de uma troca formalmente parametrizado pela troca de valores em tese de igual

    grandeza (capital na forma salrio e o "valor do trabalho") - mas igualmente recoloca o tema em

    discusso num patamar de complexidade ainda maior. O acento estranhado advindo da relao de

    alienao no apenas se d no tocante aos liames do trabalhador para com sua atividade/produtos e

    condies objetivamente existentes, mas tambm no que respeita s relaes que ele entretm

    consigo mesmo, com a objetividade de suas capacidades e sentidos, como princpio subjetivo da

    produo. O capital aparece incorporando a si, e necessariamente apartando do trabalhador, no

    somente as condies de produo e os resultados objetivos dela, mas simultaneamente as

    capacidades subjetivas na forma da fora de trabalho.

    Deste modo, a operosidade potencial das virtualidades ativas do sujeito somente pode tomar

    um modo objetivo de existncia, sua atuao concreta, na medida em que aquele abra mo do

    controle sobre um momento essencial de sua individualidade concreta; que d a ela, de bom grado,

    no intercmbio com o capital, na persona do capitalista, a forma de ser do capital varivel. Neste

    sentido,

    O valor, o trabalho objetivado, obtm essa relao com o trabalho vivo somente na

    medida em que a capacidade de trabalho como tal se ope a ele, isto , portanto, na

    medida em que as condies objetivas do trabalho e, com isso, as condies de

    realizao da capacidade de trabalho se opem a ele em autonomia separada, sob

    o controle de uma vontade estranha. Assim, embora meio de trabalho e material

    como tal no sejam capital, eles mesmos aparecem como capital porque sua

    autonomia, sua existncia autnoma frente ao trabalhador e, por isso, ao trabalho

    mesmo, tornaram-se sua existncia. Exatamente do mesmo modo que o ouro e a

    prata, o dinheiro, quando surge, esta na representao imediatamente ligado a

    relao social de produo da qual e portador (MARX, 2010, p. 110).

    O capital aparece aqui determinado como forma de existncia autnoma, e estranhada, da riqueza

    como valor, como um dado quantum de trabalho social acumulado nas mos dos proprietrios que

    defronta o sujeito trabalhador imediatamente como capital, no obstante na determinidade do meio

    de produo. Esta determinao possui um carter reciprocamente permutvel. Por um lado, o

    capital aparece objetivamente como coisa, ou conjunto especfico de coisas. Entretanto, por outro

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    lado, as coisas da produo enfrentam o trabalhador na forma de ser do capital, como figuraes

    ou modos materiais e/ou objetivos do capital. Instaura-se aqui uma peculiar inverso das

    determinaes simples do processo de trabalho, aquelas explicitadas na relao de uso dos meios no

    curso da atividade, como relao de exteriorizao de capacidades e de realizao efetiva de

    finalidades. Trata-se antes, do remetimento necessrio da persona ativa do trabalho e das

    mobilizaes concretas das condies existncia do conjunto destas ltimas como trabalho morto

    a ser capitalizado, a ter seu valor conservado e incrementado. Assim,

    A relao de sujeito e objeto invertida. Se j no pressuposto as condies

    objetivas de realizao de sua capacidade de trabalho e, portanto, do trabalho real

    aparecem em face do trabalhador como potencias autnomas, estranhas, que antes

    se reportam ao trabalho vivo como as condies de sua prpria conservao e

    aumento instrumento, material, meios de subsistncia, que se dedicam ao

    trabalho somente para absorverem em si mesmos mais trabalho , a mesma

    inverso aparece ainda mais no resultado. As condies objetivas do trabalho so,

    elas mesmas, produtos do trabalho e, na medida em que so consideradas do lado

    do valor de troca, so apenas tempo de trabalho em forma objetivada. Segundo os

    dois lados, as condies objetivas do trabalho so ai, portanto, resultado do

    trabalho mesmo, sua prpria objetivao, e esta sua prpria objetivao, ela

    mesma como seu resultado, que o confronta como potncia estranha, como

    potncia autnoma em oposio a qual ele sempre se defronta novamente como

    mera capacidade de trabalho, na mesma carncia da objetividade (MARX, 2010,

    p.127).

    Um dos problemas centrais da tradio ocidental encontra aqui uma forma de posio que supera

    virtualmente a abstratividade em que se encontra comumente levantado. Ao contrrio de sujeito e

    objeto constarem como substncias isoladas, aparecem aqui como momentos, ontologicamente

    diversos, de uma conexo ativa real. O modo de ser da coisa como objeto, seja da atividade

    produtiva, seja da intuio, depende do carter efetivo da relao na qual o defrontar prtico do

    sujeito, ele mesmo uma forma material e objetiva de existncia, se apresenta na particularidade

    social concreta.

    O comportamento estranhado das condies objetivas da produo, em seu Dasein como

    capital, engloba novamente, como em 1844, a figura opositiva em relao ao trabalhador como

    propriedade de outrem, adensando-a, entretanto, no sentido de explicitar o seu domnio real sobre

    todos os momentos da produo. A produo da riqueza como mais-valor se revela como um

    verdadeiro parasitismo do passado sobre o presente, do morto sobre o vivo e determina o futuro

    como mera reatualizao ampliada em grandeza da relao de estranhamento. A capacidade de pr

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    riqueza e valor se desnuda na pressuposio e na efetuao de sua potncia como reproduo de

    um indigncia radical, de carter ontolgico. Com isso,

    Ele deve, antes, empobrecer, uma vez que a forca criativa de seu trabalho se ergue

    contra ele como forca do capital, como potncia estranha. Ele se aliena do trabalho

    como forca produtiva da riqueza; o capital se apropria dela como tal. A diviso do

    trabalho e da propriedade sobre o produto do trabalho, do trabalho e da riqueza e

    estabelecida, por isso, nesse ato de troca mesmo. O que aparece paradoxalmente

    como resultado j se encontra no pressuposto (MARX, 2010, p.180).

    A existncia do trabalho na forma do capital varivel, aquisitivo de fora de trabalho, de

    valorizao, evidencia o talhe especfico, alienante das relaes sociais pelas quais transcorrem as

    tratativas entre capital e trabalho, assim como o das formas de efetivao da atividade. A

    determinao estranhada indicada como posta no interior mesmo do sujeito concreto, na medida

    em que este tem relao com momentos de sua individualidade na forma de parcelas alienveis de

    si. Por este motivo,

    Em verdade: na medida em que o trabalhador ingressa no processo de trabalho real,

    ele j foi incorporado ao capital qua capacidade de trabalho, ele no se pertence

    mais, mas ao capital e, com isso, tambm as condies sob as quais ele trabalha so

    antes condies sob as quais trabalha o capital (MARX, 2010, p.293).

    O sujeito moderno dilacerado ganha contornos reais, superando em gravidade e implicaes

    categoriais as formas abstratas e transcendentais dominantes pelas quais foi tematizado no curso da

    histria do pensamento. Trata-se no mais de uma interioridade cindida, mas do desavir da

    concretude da individualidade, como necessidade interna imposta pelo modo peculiarmente

    contraditrio das pressuposies de sua prpria realizao objetiva. Ciso efetiva cuja dmarche

    especificamente social Marx trata de assinalar porquanto observe que o capital assimila a si no o

    indivduo abstrato, mas uma pluralidade simultnea de trabalhadores. E isto, no ao modo de uma

    simples justaposio, mas da determinao imediata da cooperao produtiva como mais uma fora

    essencial do capital. A existncia mesma da interatividade social emerge frente aos seus sujeitos

    como atributo do capital, imediatamente como potncia estranha, como coao exterior para

    reproduo social da riqueza como propriedade privada capitalizada (Cf. MARX, 2010, p.294).

    Em idntico diapaso, o conjunto das foras produtivas sociais, em especial na forma da

    mobilizao tcnica e tecnolgica da cincia, se afirma igualmente como potncia estranha e hostil

    ao sujeito: Falando muito em geral, a finalidade da maquinaria e diminuir o valor da mercadoria,

    ergo seu preo, barate-la, isto , encurtar o tempo de trabalho necessrio a produo de uma

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    mercadoria, mas, de modo algum, encurtar o tempo de trabalho enquanto o trabalhador e ocupado

    com a produo dessa mercadoria mais barata (Cf. MARX, 2010, p. 367). O carter estranhado da

    produo capitalista surge como elemento delimitando um dado liame com a temporalidade. O

    tempo que no uma mera condio suposta a priori da experincia, e sim um elemento da ordem

    objetiva de ser dos indivduos e de suas exteriorizaes. O tempo na formatao particular da vida

    concreta no se coaduna com a pretenso de enquadr-lo num esquema de categorias definida em

    completa anterioridade em relao s coordenadas das instncias prticas efetivas. Enquanto uma

    das formas determinativas da apropriao prtica humana de mundo, a temporalidade encontra nas

    elaboraes marxianas um papel simultaneamente ativo e sujeito s condies da prpria atividade

    produtiva. O tempo objetivo, mas objetivamente malevel. Da que a real economia, na sua

    significao ordinria, contbil, assim como naquela estritamente cientfica, nada mais que

    economia de tempo. Modo de reposicionar o tempo de trabalho que de maneira alguma se dirige

    diminuio deste em relao ao sujeito trabalhador individual e sim ao tempo social de trabalho, ao

    custo temporal societrio de produo do valor/mais-valor. Disto resulta que, na melhor das

    hipteses, o tempo de vida despendido na produo do capital per capita dos trabalhadores

    individualmente ocupados continua o mesmo, seno se acresce, se alonga. Uma vez que "O mais-

    valor = sobretrabalho - tanto absoluto quanto relativo - que o capital produz por meio do emprego

    da maquinaria, que no se origina da capacidade de trabalho que a maquinaria substitui, mas da

    capacidade de trabalho que ela emprega" (Cf. MARX, 2010, p. 378). O efeito real exatamente o

    incremento relativo do tempo excedente, porquanto se diminua drasticamente o quantum de capital

    trocado pela fora de trabalho, bem como, na proporo em que se afirme a tendncia dominante de

    expanso da base tecnolgica do capital constante, pode-se baratear em geral o valor dos insumos

    da prpria fora de trabalho. E tudo isto num requinte de extrema "civilizao", sem que a jornada

    fsica, imediatamente contada pelo relgio, tenha sofrido acrscimo. Tempo produtividade e

    produtividade tempo. Como alis, observar Marx argutamente, a respeito do sentido concreto da

    cientificidade tornada fora produtiva assimilada ao capital, no Captulo Indito de O Capital:

    A cincia, como o produto espiritual em geral do desenvolvimento social,

    apresenta-se, do mesmo modo, como diretamente incorporada ao capital (sua

    aplicao como cincia, separada do saber e poder {von dem Wissen und

    Knnen}do trabalhador individual, no processo material de produo); e o

    desenvolvimento geral da sociedade - porquanto usufrudo pelo capital em

    oposio ao trabalho e opera como fora produtiva do capital contrapondo-se ao

    trabalho -, apresentase como desenvolvimento do capital; e isso porque para a

    grande maioria, esse desenvolvimento corre paralelo com o esvaziamento da

    fora de trabalho (MARX, 1970, p. 75).

  • 9

    A temporalidade inerente ao capital se efetiva por essa via como medida direta da atividade social

    de produo com o uso capitalstico da tecnologia e do desenvolvimento em geral das foras

    produtivas. O tempo social abstrato o arrimo principal da forma de controle societrio da

    interatividade produtora de mais-valor.

    O processo de trabalho intermediado pela utilizao crescente e intensiva de fora produtiva

    na forma do trabalho morto incorporado ao capital, sendo capital, inverte a ordem das prprias

    conexes e mediaes. O elemento mediador existindo na funo objetiva de capital se torna o

    momento preponderante do processo de produo e reconfigura os agentes individuais ativos em

    seus elementos de mediao no ato de reproduzir-se de modo valorizado, de pr-se como mais-

    valor. O que, de certo modo, no deixa inclume nem a persona do capital, pois, "O prprio

    capitalista s poderoso enquanto personificao do capital (por isso, na contabilidade italiana

    figura constantemente como figura dupla, por exemplo, como devedor (debtor) de seu prprio

    capital)" (MARX, 1970, p. 75). Esta indicao marxiana aponta para o fato de que a categoria

    capital exprime uma dada forma de ser historicamente especfica, a qual delineia e determina como

    momento preponderante essencial o complexo categorial da produo da vida na modernidade.

    Neste contexto, o capital uma universalidade particular, ou uma particularidade universalizada,

    porquanto abranja determinativamente as demais categorias e fornea aos complexos em segunda

    potncia (como os da circulao e da realizao do valor, por exemplo) e aqueles expressivos (as

    formaes ideais e ideolgicas em geral) uma dada formatao categorial. Por esta razo, Marx

    explicitar a dominncia do capital a um ther onde todas as formas de existncia e de relao

    estariam mergulhados e pelo qual estas teriam seu "peso especfico" determinado4. A metfora

    cosmolgica do sculo XIX usada por Marx, ainda que sido invalidado seu referente pela fsica

    relativstica, conserva sua validade analgica, porquanto pretenda pr em relevo o carter irradiador

    da determinao, altamente mediada, das diversas dimenses da vida social pelo capital. Neste

    sentido, a delimitao da categoria capital como forma preponderante da produo de riqueza na

    modernidade implica o reconhecimento de seu carter determinante para a totalidade do modo de

    produzir a vida humana especificamente capitalista. O que apresenta consequncia de grande

    importncia porquanto estabelea tambm o talhe particular que as relaes obervadas neste modo.

    Por conseguinte, tomando-se a analtica marxiana do capital, pode-se afirmar que o

    complexo constitudo por alienao e estranhamento possuem uma determinidade bem

    particularizada, de maneira que no seria lcita estender sem mais sua validade para todas as demais

    4 Em todas as formas de sociedade uma produo que determina todas as outras e cujas relaes por isso designa

    tambm a todos os outros, seu lugar {Rang} e influncia. um matiz {Beleuchtung} geral, no qual todas as outras cores

    esto imersas e [que] as modifica em sua particularidade. um ter {ther} particular que determina o peso especfico

    de todo o existente {Daseins} que nele eclode {hervorstechend} (MARX, 1983, p.41).

  • 10

    formaes histricas. No obstante seja possvel identificar a ocorrncia de relaes estranhadas

    entre, por exemplo, os escravos da antiguidade e as condies objetivas com as quais eles

    operavam. Tal se verificava sob uma matriz diversa daquela do capital. O escravo como tal,

    economicamente, era por definio um instrumentum vocale, ou seja, um meio de trabalho, tal qual

    as ferramentas ou bestas de carga, com o inconveniente de manifestar-se linguisticamente. O

    escravo no entretinha com as condies objetivas de sua atividade uma relao de exterioridade,

    mas estava, de certo modo, imerso no conjunto delas. Por certo, aquelas no eram dele, pertenciam

    a outrem. Entretanto, ele prprio era um elemento pertencido por outrem. O escravo no se

    alienava, ao contrrio, era ele mesmo objeto de alienao. Tanto que Marx indica como uma das

    differenti specifica o fato de o proprietrio de escravo, ao adquiri-lo, pagar a totalidade do seu

    trabalho, tanto o contido nele quanto a ser por ele realizado. Na relao entre capital e trabalho

    livre, a situao pois de todo diversa. O capitalista no paga o trabalho feito (ou a ser

    concretizado) mas assume, na forma do capital varivel, apenas o pagamento do empenho da fora

    de trabalho, do conjunto de capacidades de produo dos sujeitos, com o intuito de produzir um

    valor que supere o valor daquela. E, isto decisivo no tocante determinao categorial, o

    resultante mais-valor pressupe uma operao de alienao na qual o sujeito trabalhador concreto, o

    indivduo vivo, cede, o direito de usufruto sobre sua fora de trabalho, das suas capacidades

    convertidas forma mercadoria, mediante pagamento por, em tese, seu valor. A alienao de

    "trabalho", relao especificamente capitalista transcorre num contexto no qual a coao ao trabalho

    se faz, por um lado, como consequncia da ausncia de propriedade sobre os meios de ser ativo; e

    no mais pelo pertencimento a outrem sob ao modo de coisa. Por outro lado, realiza-se como ato

    com a aparncia de uma expresso da autonomia da vontade, na qual o trabalhador entrega um

    momento de sua personalidade incorporao ao capital, passando este mesmo a se pontificar

    frente ao trabalhador como posse do, e fora a ser posta in actu pelo, capital.

    A aparncia que integra a totalidade do Dasein do modo de produo capitalista, oculta,

    evidentemente, no somente que o resultado final ser um reposio da equivalncia capital

    varivel = valor da Arbeitskraft, mas igualmente obnubila a assimetria ontologicamente necessria

    entre as funes sociais (capitalista e trabalhador assalariado) ao transcurso de efetivao da relao

    de alienao. No entanto, disso no se infere ser a relao mesma, concomitantemente Beziehung e

    Verhltnis, um embuste ou uma iluso. o modo como uma relao de dominao aparece segundo

    a vigncia dos padres mercantis como princpio do intercmbio e da mercadoria como forma

    imediata de existncia social da riqueza. Estranhamento e alienao se encontram deste modo

    determinados na medida em que concretizam nas formas do cotidiano das relaes de produo.

    No so figuras transitivas da conscincia, nem constituem um problema da subjetividade, ainda

  • 11

    que se expressem idealmente de vrias maneiras, em graus e amplitudes diversas. Os sujeitos

    devem alienar-se em geral, ceder aspectos integradores de sua pessoalidade concreta, para

    objetivarem-se. O que atinge, no obviamente de modo idntico, tanto proprietrios do capital

    quanto os trabalhadores livres assalariados. O primeiro convertido no feitor social supremo da

    alienao do uso num tempo determinado da potncia produtiva do segundo. No se trata da posse

    individual para desfrute, mas antes de tudo da relao na qual o proprietria vela e zela pela

    reproduo ampliada do valor, pela acumulao in actu, pela extorso continuada e aperfeioada de

    mais-valor. Desta especial conexo com a propriedade derivar para si, e para o conjunto dos

    trabalhadores que explora, formas de conscincia que se expressaro do direito religio, passando

    inclusive pela reflexo moral. Marx com referncia a isto notar nos Grundrisse que nada mais

    adequado acumulao como processo - e no mais entesouramento paralisante - que o

    engendramento de uma moral da ascese produtiva, do sacrifcio do prazer mundano em nome das

    bem-aventuranas do paraso do valor valorizado:

    O culto ao dinheiro tem seu ascetismo, sua renncia, seu autossacrifcio a

    parcimnia e frugalidade, o desprezo dos prazeres mundanos, temporais e

    efmeros; a busca do tesouro eterno. Da a ligao entre o puritanismo ingls ou

    tambm do protestantismo holands com o fazer dinheiro {Geldmachen}. No incio

    do sculo XVII, um escritor (Misselden) exprimiu a coisa de maneira assaz

    ingnua:

    A matria natural do comrcio a mercadoria, a artificial, o dinheiro. Muito

    embora o dinheiro, na natureza e no tempo, venha depois da mercadoria, tal

    como usado hoje, se converteu no principal.

    Ele compara isso com os dois filhos do velho Jacob, que pousou a mo direita

    sobre o mais novo e a esquerda sobre o mais velho (MARX, 1983, p.158-159).

    Em outros termos, o problema da alienao - das formas estranhadas resultantes - possui sim uma

    dimenso geral, qui "universal", porquanto seja o aparecer/realizar-se da determinao formal de

    ser da riqueza como capital no nvel das tratativas e mobilizaes dirias da produo do mais-

    valor.

    No obstante isto, marxianamente, o teor especfico que caracteriza cada um dos extratos da

    vida social capitalista, do conjunto de laos interativos e de sociabilidade, deveras diversificado

    em sentido e agudeza. A gravidade imediata e aquela propriamente ontolgica se expressa com

    mais vigor e contraditoriedade no mbito da funo social do trabalho, bem como na existncia

    societria concreta de suas person. Tal diagnose no um reflexo de uma preferncia pessoal ou

    de uma opo poltico-ideolgica a priori que requeriria uma "justificativa terica" que as

  • 12

    fundamentasse. Ao inverso, observadas as srias e complexas de mediaes, o engajamento que

    precisa ter por fundamento a identificao terica, categorial, a mais precisa e isenta possvel, das

    determinaes da forma social de ser que se exprimem como este ou aquele padecimento, esta ou

    aquela mazela social. Neste sentido, afirma em O Capital:

    De modo algum retrato com cores rseas as figuras do capitalista e do proprietrio

    fundirio. Mas aqui s se trata de pessoas na medida em que elas constituem a

    personificao de categorias econmicas, as portadoras de determinadas relaes e

    interesses de classes. Minha posio, que apreende o desenvolvimento da formao

    econmica da sociedade como um processo histrico-natural, pode menos do que

    qualquer outra responsabilizar o indivduo por relaes das quais ele continua a ser

    socialmente uma criatura, por mais que, subjetivamente, ele possa se colocar acima

    delas (MARX, 1998, p.16).

    Afora isso, os indivduos serem determinados como portadores de relaes sociais que se elevam

    frente a eles, os defrontam numa forma objetivamente estranha e se apresentam como sujeitos reais

    das conexes societrias constitui uma dmarche prpria da sociabilidade do capital. Neste sentido,

    no a teoria marxiana que entende ou l o capital como sujeito ou processo de assujeitamento dos

    homens s relaes sociais reificadas, mas estas so ocorrncias efetivas a que a teorizao

    apreende e expressa conceitualmente. Assim como o valor uma determinao objetiva de relaes

    e produes humanas, uma abstrao real, que se expressa por meio das interaes prticas e dos

    intercmbios sociais, segundo a particularidade - classe - sob a qual so subsumidos os indivduos

    vivos e ativos.

    Uma vez delineada a natureza objetiva do complexo categorial do estranhamento e

    esclarecido, em largos traos, o seu fundamento relacional subjacente, a relao concreta de

    alienao, cabe discutir o talhe contraditrio do prprio fenmeno. Ou seja, o estranhamento, em

    que pese sua objetividade social, no , para Marx, uma determinao unvoca. Como momento de

    uma formao societria real e particular, uma totalidade orgnica social (), comparte tambm do

    movimento interno e das vicissitudes virtuais do seu devir. Enquanto uma analtica que pretende

    apreender a dinmica objetiva do ser social do capital, as elaboraes marxianas exprimem, alm do

    desenho das determinaes preponderantes, igualmente certas linhas de tendncia histrica. Tender

    aqui, nota bene, no tem o peso de um destino, mas de um conjunto de virtualidades que na sua

    atualizao dentro de uma articulao categorial, a interatividade social capitalista, no caso, podem

    tambm indicar formas de ser da sociabilidade as quais potencialmente superam o enquadramento

    preponderante. Este problema se refere, em primeiro lugar, natureza mesma da forma societria

    do capital, daquela que dirige todos os atos produtivos dos indivduos para a criao e reproduo

  • 13

    da riqueza, e de, ao mesmo tempo, estranhamentos particulares. Neste diapaso, a forma social do

    capital aparece a Marx como momento mximo de um certo tipo de itinerrio histrico de

    constituio da individuao e da sociabilidade enquanto tais, a qual traria virtualmente em seu bojo

    os componentes de uma nova formao societria:

    (...) a forma extrema do estranhamento {uerste Form der Entfremdung}, forma

    sob a qual, na relao do capital com o trabalho assalariado, o trabalho, a atividade

    produtiva, aparece ante suas prprias condies e seu produto, representa um ponto

    de passagem necessrio {ein notwendiger Durchgangspunkt} - e porque esta

    forma, de cabea para baixo, simplesmente contm em si a dissoluo {Auflsung}

    de todos os pressupostos limitados da produo {bornierten Voraussetzungen der

    Produktion}, e mesmo, ao contrrio, cria e fabrica os pressupostos indispensveis

    da produo, e portanto o conjunto de condies materiais do desenvolvimento

    total, universal, das foras produtivas do indivduo.) (MARX, 1983, p. 422).

    A sociabilidade moderna, caracterizada predominantemente pela forma extrema do

    estranhamento que engendra, aparece na analtica marxiana sob um duplo aspecto: 1) o

    desenvolvimento mais vigoroso e pleno da atividade estranhada, com todas as consequncias

    gravosas para o ser da individualidade (pense-se no fato de o equivalente, e o intercmbio neste

    baseado, negar continuamente seu prprio fundamento efetivo: os indivduos, suas diferenas e

    diferentes produes/necessidades); e 2) o instante histrico no qual os modos limitados e

    entravados de ser e produzir dos indivduos encontram-se em progressiva negao, os indivduos e

    sua produo no sendo mais determinadas pelas coaes, violentas ou no, da comunidade, da

    tradio, da unidade entre produtor e meios, etc. A forma moderna da sociabilidade, em que pese

    todos os problemas e misrias, aparece como momento inegavelmente superior. As misrias

    modernas so, acima de tudo, modernas.

    Este modo de ser e de produzir a vida surge a Marx como um conjunto de enorme

    contraditoriedade, onde, por exemplo, forma e contedo da atividade, a equivalncia e a riqueza, se

    entrelaam e se negam reciprocamente. Antes de mais nada, a forma societria do capital, e a

    individualidade a ela correspondente, aparece marxianamente portando uma tendncia civilizatria,

    dimenso esta inexistente, mesmo nas formas clssicas da Antiguidade, dada a estreita ligao

    destas com a naturalidade e a premncia da sobrevivncia imediata:

    {(...) Esta tendncia propagadora (civilizatria) - em diferena s condies

    anteriores de produo - pertence somente ao capital}.

  • 14

    Os modos de produo, nos quais a circulao no constitui uma condio

    imanente, dominante, da produo no [tm], naturalmente, as necessidades de

    circulao especficas do capital e portanto, nem a elaborao das formas

    econmicas bem como das reais foras produtivas que lhe correspondem -

    (MARX, 1983, p. 448).

    A sociabilidade moderna deste modo, a mais completa elaborao, at agora, das foras

    produtivas dos indivduos. E isto exatamente em funo de que os indivduos confrontam os seus

    meios de objetivao em geral sob a forma da exterioridade. Que tal modo engendra um tipo

    especfico de estranhamento, aquele que determina as foras sociais de objetivao como elementos

    estranhos, independentes, e at, hostis, aos sujeitos ativos, isto j vimos mais acima. No entanto,

    cabe notar igualmente que estranhamento, para Marx, no uma forma metafsica ou unilateral de

    sofrimento. ao contrrio, a elaborao contraditria da vida humana. Elaborao esta que une e

    imbrica mximo enriquecimento dos indivduos com a, igualmente, mxima sujeio destes s suas

    prprias condies vitais, como capital. O que de maneira alguma impede a Marx de afirmar que,

    apesar, e pela sua, imanente contraditoriedade, o capital a ordem social do progresso real das

    formas de apropriao de mundo pelos indivduos:

    Este contnuo movimento progressivo de saber e experincia, diz Babbage,

    nossa maior fora. Essa progresso, este progresso social pertence

    exclusivamente [ao] e vem a ser explorado pelo capital. Todas as anteriores formas

    de apropriao condenavam grande parte da humanidade, os escravos, a serem

    instrumentos de trabalho. O desenvolvimento social, o desenvolvimento poltico, a

    arte, a cincia, etc., se desenrolava num crculo acima deles. O capital, ao contrrio,

    o primeiro que captura o progresso social servio da riqueza. (MARX, 1983, p.

    491-492).

    importante, neste passo, chamar a ateno ao fato de que na forma moderna, e dentro da

    contradio instaurada nesta, os indivduos podem, enquanto conjunto social, se apresentar no papel

    de tambm consumidores da cultura e da produo. E isto, por si s constitui, para Marx, um

    avano significativo. A produo da, e para a, riqueza carrega no apenas estranhamento, mas ao

    lado disso, a possibilidade de uma humanidade ampliada. Aprisionar a objetivao riqueza,

    colocar a produo dos indivduos imediatamente como produo para a troca, significa igualmente

    estabelecer o intercmbio social dos indivduos como norma da produo.

    A lei da sociabilidade moderna reside exatamente na produo da riqueza, que circula, e se

    realiza na apropriao dos indivduos. A forma desta lei, o modo sob o qual esta mesma riqueza

    existe , para Marx, todo problema; e no a produo de riqueza em si. Ao contrrio da

  • 15

    compreenso unilateral que condena a riqueza a partir de uma perspectiva antiga, a posio

    marxiana indica a forma burguesa da riqueza como o problema da modernidade e a sua superao

    constitui a condictio sine qua non da nova forma de individuaduao:

    (...) Mas, in fact, uma vez que a forma burguesa limitada tenha desaparecido, o que

    ser a riqueza seno a universalidade das necessidades, das capacidades, dos gozos,

    das foras produtivas dos indivduos, universalidade engendrada na troca

    universal? Seno o pleno desenvolvimento do domnio sobre as foras da natureza,

    tanto sobre aquelas que se denomina Natureza, quanto sua prpria natureza? Seno

    a absoluta reelaborao de suas aptides criativas, sem outra pressuposio que o

    desenvolvimento histrico inteiro desta totalidade do desenvolvimento, do

    desenvolvimento de todas as potncias humanas como tais, sem que elas sejam

    medidas por uma escala previamente fixada, feito um fim para si mesmo? Que ele

    no se reproduza segundo uma determinade, mas onde produza sua totalidade? No

    uma coisa qualquer que busque permanecer o que deveio {Gewordnes}, mas no

    movimento absoluto de devir? (MARX, 1983, p. 395-396).

    Esta condio necessria, a produo universal dos indivduos, evidentemente no , por si mesma,

    suficiente. O confronto dilacerante entre forma e contedo da objetivao prevalece no mundo

    moderno como o modo contraditrio concreto da reproduo social da vida dos indivduos; a

    existncia adstringida da objetivao produtiva dos homens. Neste sentido, a medida previamente

    determinada (vorhergegebnen Mastab) estabelecida pelo valor como princpio do intercmbio e

    movimento da riqueza, que converte este ltimo tambm em mediao do capital, a expresso do

    estranhamento como controle. A regulao no se cinge ao regulado, mas, ao contrrio, o limita

    como instncia pela qual se concretiza a reciprocidade social segundo uma proporo de tempos

    abstratamente confrontados no cotidiano do modo de produo. Desta maneira, a produo, como

    expresso da multiforme variedade de capacidades e virtualidades dos indivduos, apenas em

    aparncia seria uma finalidade. O lema da produo pela produo, ou da riqueza pela riqueza

    nada mais faz que atribuir a responsabilidade da forma social aos ombros do processo de trabalho,

    porquanto aquela o converta imediatamente em processo de valorizao. Assim, a produo pela

    produo outra coisa no seno a produo em nome da riqueza reduzida abstrao do valor, e

    deste em momento mais ou menos emprico, ou servo, da apario objetiva do mais-valor. O

    interessante que a riqueza mesma como potencializao dos tempos sociais de objetivao, a

    maximizao da eficincia pela eficcia da mobilizao dos meios, aparece concretamente como

    exponenciao do estranhamento. A riqueza como tal assume necessariamente um modo de ser

    contraditrio - uma diversidade que no ato de sua expresso se pe como defrontao de unidades

    abstratas do mesmo - e estranhado - a expresso manifesta das virtualidades criativas dos indivduos

  • 16

    e das foras elaboradas e operadas por eles emerge como predicado de uma substncia

    fantasmtica, a abstrao do valor valorizado.

    Entretanto, da indicao deste confronto situado no modo do Dasein do capital, no

    possvel tirar qualquer ilao no sentido de uma condenao tica ou moralizante da riqueza em

    Marx. Esta, a riqueza, em verdade, se apresenta como a generidade humana estranhada. Neste

    sentido, a propositura marxiana de um para-alm da forma capital do gnero humano no se apoia

    em alguma mxima abstrata qualquer ou no poder da volio individual. Tal indicativo, quando ele

    aparece no texto, radica na identificao das possibilidades e necessidades do devir real da

    individuao humana. , como vimos na citao acima, a afirmao e confirmao da produo

    social dos indivduos. a confirmao dos indivduos a partir de seu ser social, e deste pela prpria

    forma da individualidade. Para Marx, o revolucionamento humano a libertao necessria (da qual

    se carece) das possibilidades do gnero humano.

    Este conjunto formado por possibilidade/necessidade estatudo pelo prprio movimento real

    da sociabilidade surge, em Marx, entrelaado ao desenvolvimento das foras produtivas dos

    indivduos:

    Aparece aqui a tendncia universal do capital, que o diferencia de todos os

    estgios de produo anteriores. No obstante limitado por sua prpria natureza,

    forceja {strebt} a um desenvolvimento universal das foras produtivas e devm

    assim a pressuposio de um novo modo de produo, que no fundado sobre o

    movimento destinado a reproduzir, ou melhor, a sustentar um estado dado, onde o

    desenvolvimento livre, sem entraves, progressivo e universal das foras

    produtivas constitui ele mesmo a pressuposio da sociedade, e, portanto de sua

    reproduo, onde a nica pressuposio o ultrapassamento do ponto de partida.

    Esta tendncia que tem o capital, mas que ao mesmo tempo lhe contraditrio

    enquanto uma forma da produo limitada e que logo o impulsiona {treibt} sua

    dissoluo que diferencia o capital de todos os modos de produo anteriores e

    contm ao mesmo tempo sua posio como simples ponto de transio (MARX,

    1983, p. 445).

    evidente que o qualificativo de ponto de transio dado ao modo capital de produo social da

    vida dos indivduos no pode significar na fixao dum determinado intervalo definido de tempo. A

    natureza transitria advm, acima de tudo, do carter ontolgico presente contraditrio e

    estranhado, predominante, nesta forma societria. O ser dos indivduos e o ser da sociabilidade so,

    virtualmente, universais, e universais atravs da estreiteza e particularidade sufocantes do capital:

    existem e so o que so enquanto meios de reproduo do seu prprio estranhamento, como meio

  • 17

    de produo do valor. nesta funo social que os indivduos existem reciprocamente. O

    comportamento recproco dos indivduos, o conjunto da sociabilidade, atributo no das relaes

    interativas como tais, mas dos nexos havidos entre as coisas, valores, que aqueles indivduos

    produzem e intercambiam. A superao deste carter gentico do capital constitui a prpria

    condio de uma individualidade universal e livre. Este carter contraditrio gentico do capital

    exatamente aquilo que se apresenta como estorvo produo efetivamente social dos indivduos.

    Estorvo este que existe como barreira ao desenvolvimento livre dos indivduos, e no apenas

    delimitao ontolgica de um modo de vida. No obstante isto, neste modo de vida determinado

    pelo estorvo so postos aos indivduos os elementos imprescindveis ao seu desenvolvimento livre:

    foras produtivas cada vez mais sociais e histricas, distanciamento das coaes naturais, e,

    consequentemente, sociabilidade e individuao no sentido real do termo.

    Em Marx o que surge na sociabilidade do capital, muito embora de modo colateral e

    pervertido, a possibilidade de universalizao real dos indivduos, presente no interior mesmo do

    desenvolvimento tendencial do capital apresenta

    (...) como base a sua tendncia e para o desenvolvimento universal das

    foras produtivas da riqueza em geral e paralelamente da universalidade do

    intercmbio, e por conseguinte do mercado mundial como base. Base como

    necessidade do desenvolvimento universal do indivduo, e o desenvolvimento real

    dos indivduos a partir desta base, como superao constante de seu estorvo

    {Schranke}, estorvo que sabido {gewut} como tal, e no conta {gilt} como

    fronteira sagrada. A universalidade do indivduo, no como universalidade

    imaginada ou imaginria {gedachte oder eingebildete}, mas como universalidade

    de suas ligaes {Beziehungen} reais e ideais (MARX, 1983, p. 447).

    Vale dizer que a universalidade comparece aqui, no texto marxiano, destituda de qualquer carter

    de abstratividade. No sendo nem um telos ao qual a realidade deve por fora tender, nem, muito

    menos, uma pura atribuio racional dos sujeitos. A universalidade existe concretamente, mesmo na

    vigncia das formas estranhadas de vida. Esta universalidade, presa do estranhamento especfico

    contm em si a possibilidade de uma nova forma societria, por ser tambm a formao de nexos

    mais gerais, intrincados e ampliados (intensivamente, como riqueza de determinaes, e

    extensivamente, no espao e no nmero de indivduos abrangidos. Neste sentido, o aparecimento do

    Mercado Mundial na analtica marxiana constitui o referencial concreto da universalidade possvel

    dos indivduos. Universal humano que no se afirma pelo veio de uma moralidade abstrata, como

    figura da razo pura, vaga necessidade religiosa ou ainda delimitao natural distributiva. O

    Weltmarket a posio desta multilateralidade efetiva no decurso do desenvolvimento das relaes

  • 18

    produtivas e de interdependncia cada vez mais amplificada numa espacialidade indefinida, cujas

    fronteiras passa a viger sempiternamente de modo progressivamente relativo. Ou seja, a elaborao

    de um espao real de interdependncia produtiva, no que implica tambm das suas mltiplas e

    diversas mediaes efetivas, corresponde no somente expanso do escopo de conexes de uma

    suposta substncia humana a priori, mas na recriao contnua e contraditria da humanidade dos

    indivduos. A dependncia omnilateral da produo de cada um pela de todos os demais instaura

    potencialmente um fato societrio novo: a comunidade humana supera, ou ao menos relativiza, as

    conexes mais imediatas de carter geogrfico ou histrico particulares. Alm disso, por tornar

    exequvel a grande produo e a produo em mxima diversidade, tambm a universalidade

    concreta da objetivao dos indivduos. Porquanto coloque a atividade de todos os indivduos em

    interdeterminao recproca por meio do desenvolvimento sem par das foras produtivas, a

    extenso do capital como determinao universal serve de fundamento social formao de uma

    rede internacional de produo de riquezas. Fronteiras de talhe cultural, lingustico, tradicional, etc.,

    veem-se transtornadas, ou at mesmo revogadas, na medida em que a circulao do capital se

    afirma como intercmbio societrio em escala planetria. A lngua do valor se impe subsumindo as

    esferas de expresso simblica da sociabilidade, tecendo uma nova malha de relaes, cujas

    urdiduras so tramadas de modo intrincado e sem a univocidade do reconhecimento direto de

    identidades culturais e individuais. A mediao abstrata do valor em circulao impulsiona pelas

    suas demandas - por exemplo, a queda requerida dos tempos de desvalorizao, que precisam tender

    a zero - uma nova configurao das foras produtivas, no sentido da elaborao da prpria

    temporalidade como meio de intensificao do intercmbio e da realizao do mais-valor. Assim,

    observa Marx que,

    Mais se desenvolve o capital - e, portanto mais o mercado no qual ele circula, e que

    constitui o itinerrio de sua circulao, estendido -, mais ele busca ao mesmo

    tempo uma maior extenso espacial do mercado e uma maior aniquilao do

    espao pelo tempo {vernichtung des Raums durch die Zeit}. (da que no se

    considere mais o tempo de trabalho do trabalhador individual, mas jornada de

    trabalho indeterminada de um nmero indeterminado de trabalhadores, no que

    concerne ao todo da populao aqui em jogo; eis porque as teorias fundamentais da

    populao esto contidas neste primeiro captulo da mesma maneira que aquelas do

    lucro, do preo, do crdito, etc.) (MARX, 1983, p. 455).

    Frise-se o quanto a atividade de transformao se volta temporalidade como tal, tanto como meio

    quanto como objeto da mobilizao. O tempo se exprime na sua maleabilidade quase indefinida

    porquanto possibilite na sua diminuio extrema, hoje nas escalas da miniaturizao, o contato

    crescente e eficiente na interatividade social ampliada. Neste contexto, o tempo como instncia

  • 19

    objetiva de certo modo revoga os limites fsicos imediatos da espacialidade particular, conferindo

    produo social mundial um carter universal quanto mais ubiquidade os meios de comunicao e

    logstica trazem consigo. O que expe na sua descrio mesma as virtualidades de arrebentao dos

    limites impostos pelo princpio social da reproduo do valor, a valorizao estranhada dos meios

    de produo pela diminuio crescente do tempo socialmente necessrio de trabalho que ainda se

    apresenta como medida, em direo a um modus societrio cuja matriz seria a produo da riqueza

    social dos indivduos produtores livremente associados.

    Numa nova configurao social, da qual Marx quase sempre fornece to somente traos

    muito gerais e esparsos, onde o estorvo supramencionado se dissolve na produo social dos

    indivduos, os meios de objetivao perderiam seu carter predominantemente estranhado. No

    seriam mais foras estranhas e todo-poderosas que confrontam os indivduos e os dominam, mas

    existiriam enquanto extenso das potncias sociais destes mesmos indivduos:

    No preciso uma perspiccia particular para compreender que partindo, por

    exemplo, do trabalho livre resultante da abolio da servido, ou trabalho

    assalariado, as mquinas em oposio ao trabalho vivo, devm como propriedade

    estranha a ele e como fora hostil; isto que devem confront-lo como capital. Mas

    igualmente fcil compreender que no cessaro de tornar-se agentes da produo

    social a partir do momento no qual tornam-se propriedade dos trabalhadores

    associados. No primeiro caso, sua distribuio, isto o fato de que no pertencem

    ao trabalhador, antes de tudo condio do modo de produo fundado sobre o

    trabalho assalariado. No segundo caso, uma distribuio transformada advinda de

    um novo fundamento da produo, transmudada, em primeiro lugar proveniente do

    processo histrico (MARX, 1983, p. 723).

    Assim, a reconfigurao da forma da interatividade corresponde total transmutao do fazer e do

    ser dos indivduos. O novo modo de existncia imediata das foras produtivas consoante em sua

    relao com os sujeitos concretos da atividade a uma reelaborao da sua forma determinada de ser

    social. Em outros termos, da vigncia do princpio de reproduo da riqueza como modo de ser do

    tempo social subsumindo a maior parte dos indivduos como meio de posio de mais-valor

    subsuno real dos meios e insumos da atividade, bem como dos produtos e mediaes prticas, ao

    juzo de competncia efetivo, demandado pelo processo de objetivao dos sujeitos que trabalham.

    No se trata de um decreto meramente formal de propriedade. Em verdade, a propriedade, seja em

    suas determinaes essenciais, seja nas suas figuraes expressivas, as determinidades imediatas, s

    em aparncia so simples formas da posse em abstrato. A propriedade social um dado modo de

    existncia das formas de ser da produo social. O ponto decisivo reside na tomada de controle

  • 20

    social como regra da produo, no por meio de um volteio poltico ou da vontade poltica, mas no

    ato de submisso dos meios de produo objetivao numa sociedade liberada dos bices da

    propriedade privada. Esta transmutao significa o abandono da predominante forma reificada das

    relaes entre os indivduos, a qual vige como alma da individualidade e modo geral das interaes

    societrias:

    (...) Aqui [na sociabilidade do capital] dizem os economistas, os homens oferecem

    confiana coisa (ao dinheiro), a qual no oferecida s pessoas. Mas por que

    oferecem confiana coisa? Manifestamente, eles lhes oferecem confiana apenas

    como relao reificada {versachlichtem Verhltnis} das pessoas entre si. Enquanto

    atividade produtiva das pessoas umas s outras. (...) apenas como penhor da

    sociedade {Faustpfand der Gesellschaf}, mas tal penhor apenas em virtude de

    sua qualidade social (simblica); uma qualidade social possuda somente se os

    indivduos tenham estranhado {entfremdet} uma conexo social {eigne

    gesellschaftliche Beziehung} como coisa concreta {Gegenstand} (MARX, 1983, p.

    93-94).

    A principal caracterstica das relaes capitalistas entre os indivduos a sua reificao. A

    superao radical da forma societria capitalista corresponde, por conseguinte, tomada das

    relaes entre os indivduos como relaes existentes entre eles mesmos, e no mais das coisas

    independente deles. Neste caso, importante ressaltar a diferena categorial subentendida nos laos

    que intermedeiam a interatividade social num e noutro caso, implcita na distino entre a forma da

    relao (Verhltnis) posta pela proporcionalidade dos tempos sociais de trabalho postos como

    formas exteriores - privados - que a conexo (Beziehung) entre os indivduos sociais pode tomar, de

    um lado, e o aparecer efetivo das conexes recprocas na ausncia da reificao estranhada, ento

    como expresses objetivas da propriedade social direta dos indivduos, por outro lado.

    Nesta verdadeira reelaborao da vida societria o que se encontra transmudada a forma da

    mediao social, anteriormente vigente no mundo do capital, exprimida na troca de mercadorias,

    assentada na realizao do valor, fiada no penhor social expresso pelo dinheiro, por exemplo. Numa

    malha societria para-alm do capital, na pressuposio [social] mesma que se encontra a

    mediao; isto , est pressuposta uma produo em comum, a generidade {Gemeinschaftlichkeit}

    como fundamento da produo. O trabalho dos indivduos posto de incio como social (MARX,

    1983, p. 104). A individualidade no mais existiria como singularidade isolada, alma dos indivduos

    contrapostos e indiferentes, postos em contato apenas em virtude da troca dos equivalentes. A

    individualidade teria como pressuposto imediatamente sua substncia social. A atividade enquanto

    tal seria posta aos indivduos como modo de realizao, confirmao, produo e reproduo desta

  • 21

    mesma substncia social, no sendo a posio do outro a componente de acidentalidade ou de

    contingncia, que caracteriza as relaes entre os indivduos na sociabilidade do capital.

    Assim posto, o prprio carter da substncia social, do conjunto da sociabilidade, se altera

    radicalmente. Este preponderantemente post festum na sociabilidade capitalista, e no vigora

    como pressuposio da produo dos indivduos, seno sob a forma do estranhamento. O carter

    social da atividade dos seres sociais, os indivduos, dado, contraditoriamente, pelo intercmbio

    posterior dos produtos e capacidades, e no pela forma da atividade enquanto tal. No caso da nova

    sociabilidade,

    (...) o carter social da produo que est pressuposto e a participao ao mundo

    dos produtos, ao consumo, no mediatizada pela troca de trabalhos ou de

    produtos do trabalho independente uns dos outros. Ele mediatizado pelas

    condies sociais de produo no quadro das quais o indivduo exerce sua

    atividade (MARX, 1983, p. 103-104).

    Em suma, na propositura marxiana pode ser antevista uma forma societria na qual os

    indivduos tomam para si as foras de apropriao e transformao de mundo como suas foras,

    como potncias surtidas da sua prpria interatividade. No mais sob a forma das potncias

    estranhas e estranhadas. Na rede de relaes assim tecida possvel igualmente vislumbrar que o

    comportamento recproco dos indivduos como tal assumiria seu carter material, concreto, efetivo,

    no sendo mais atributo das coisas. At que ponto esta nova configurao social modificaria a

    existncia de uns para os outros dos indivduos, no que tange afetividade por exemplo, uma

    questo no respondida diretamente por Marx. No entanto, certo que num mundo onde as pessoas

    no fiariam sua confiana mtua pela mediao de coisas exteriores, os vrios nveis da

    interatividade social ver-se-iam alterados radicalmente. Pense-se apenas no fato de que as

    qualidades individuais seriam confirmadas, e no mais negadas, pela forma do intercmbio social.

    Assim, a efetivao de uma individualidade humana livre e universal, se desenha, em Marx,

    como mais que uma mera esperana, e muito menos que um destino inexorvel dos homens.

    configurada como possibilidade necessria ou necessidade possvel, na medida em que corresponde

    realizao dos indivduos livres a partir das condies objetivamente postas no mundo do capital,

    e, ao mesmo tempo, tambm ao carecimento humano de desenvolvimento timo destes mesmas

    condies objetivas, ultrapassando radicalmente, pela raiz, o pressuposto social limitado e

    estranhado do capital.

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    Referncias Bibliogrficas:

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    Tomo IV. So Paulo: Estudos e Edies Ad Hominem, 2001.

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    _________. Para a Crtica da Economia Poltica Manuscrito de 1861-1863 (cadernos I a V)

    Terceiro Captulo O capital em geral. Belo Horizonte: Autntica Editora, 2010.