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    Dilogo Canoas n. 18 jan-jun 2011

    a poLtiCa naCionaL De reSDuoS SLiDoS: oS refLexoS naS CooperativaS De CataDoreS e a LoGStiCa reverSa

    Tiago Jos Pereira Neto

    Resumo

    O Brasil, por muitos anos, criou um vcuo na gesto de resduos slidos pela falta de uma poltica pblica am-biental, que determinasse diretrizes e instrumentos de ao para a gesto ambiental adequada de seus resduos slidos. Aps 21 anos de tramitao no Congresso Nacional, o Presidente da Repblica sancionou a Lei Federal n 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Poltica Nacional de Resduos Slidos PNRS. A PNRS tem como destaque a insero do conceito de responsabilidade compartilhada, o incentivo ao desenvolvimento de cooperativas ou de outras formas de associao de catadores como forma de uma ao socioambiental, bem como traz o conceito da logstica reversa. Os principais mecanismos de operacionalidade da PNRS, tanto da coleta seletiva como da logstica reversa, priorizam a participao e a atuao estratgica e incisiva dos catadores de resduos e suas cooperativas. Inegavelmente, a PNRS e sua regulamentao trouxeram grandes desafios aos catadores de materiais reciclados, que precisaro mu-dar os modelos atualmente adotados para o xito de sua implementao.

    Palavras-chave

    Poltica Nacional de Resduos Slidos, Logstica re-versa, Cooperativas de catadores, Gesto de resduos slidos

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    NATIONAL POLICy FOR SOLID WASTE: REFLECTIONS ON THE WASTE PICKER

    CO-OPERATIVES AND REVERSE LOGISTICS

    Abstract

    For many years, Brazil has created a gap on the solid waste management due to the lack of an environmental public policy that could determine guidelines and action tools for an appropriate environmental management of its solid wastes. After 21 years waiting for approval, the Brazilian President sanctioned the Federal Law number 12.305, dated of August 2nd, 2010, which establishes the National Policy for Solid Wastes PNRS. The PNRS stresses the insertion of the concept of shared responsibility, the incentive to the co-operatives development or other alternatives of waste pickers association as the way to achieve a social environmental action, also bringing up the concept of reverse logistics. The main operational mechanisms of the PNRS, not only for the selective collection but also for the reverse logistics, prioritize the strategic and incisive participation and performance of waste pickers and their co-operatives. Undeniable the PNRS and its regulation brought up great challenges to the pickers of recycled wastes who will need to change the actual adopted standards for the success of its implementation.

    Key words

    National Policy for Solid Wastes, Reverse logistics, Pickers co-operatives, Management of solid wastes.

    1 INTRODUO

    Segundo Monteiro (2001), a gesto dos resduos slidos no tem merecido a ateno necessria por parte do poder pblico. Porm, no ano de 2010, a gesto

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    de resduos slidos e a incluso social dos catadores foram um assunto em pauta em diversos fruns ambientais.

    O ano de 2010 foi um ano histrico para a gesto de resduos slidos no Brasil, pois nesse ano foi sancionada pelo Presidente da Repblica a Poltica Nacional de Resduos Slidos PNRS, que determina as diretrizes polticas para a gesto de resduos slidos em todo o territrio Nacional. A lei contempla ins-trumentos como a logstica reversa e fomenta a participao dos catadores de materiais reciclveis nos sistemas de gesto de resduos slidos como forma de incluso social e econmica dos mesmos.

    Para Monteiro (2001), a participao de catadores na segregao informal do lixo, seja nas ruas ou nos vazadouros e aterros, o ponto mais agudo e visvel da relao do lixo com a questo social. Trata-se do elo perfeito entre o inservvel lixo e a populao marginalizada da sociedade que, no lixo, identifica o objeto a ser trabalhado na conduo de sua estratgia de sobrevivncia.

    Este texto tem a finalidade de comentar os principais aspectos para PNRS relacionados ao instrumento da logstica reversa, bem como o papel, as oportu-nidades e as exigncias impostas aos catadores de materiais reciclados.

    2 A POLTICA NACIONAL DE RESDUOS SLIDOS

    O Brasil, por muitos anos, criou um vcuo na gesto de resduos slidos pela falta de uma poltica pblica ambiental, que determinasse diretrizes e instru-mentos de ao para a gesto ambiental adequada de seus resduos slidos. As discusses para elaborao de uma Poltica Nacional de Resduos Slidos tiveram origem no Senado Federal, com o protocolo do projeto de lei do Senado PLS n 354, de 1989. Por um longo perodo, discutiu-se a redao proposta no PLS n 354/1989, com a participao de rgos pblicos, representantes dos setores privados, tais como Confederaes, Federao, Sindicatos e Associaes de in-dstrias e comrcio de produtos, alm de representantes da sociedade.

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    No ano de 2006, um substitutivo foi aprovado em Comisso Especial. Ao longo de 2008 e 2009, as discusses sobre o tema foram retomadas com maior intensidade no mbito de um Grupo de Trabalho coordenado pelo Deputado Federal Arnaldo Jardim. Do trabalho desse Grupo, resultou um texto de emenda substitutiva global, debatido com diferentes setores e com o governo, que aca-bou aprovado com algumas alteraes no Plenrio da Cmara dos Deputados e, posteriormente, no Senado.

    Aps 21 anos de tramitao, depois de a matria ser aprovada na Cmara dos Deputados, em 11 de maro de 2010, e no senado federal, em 7 de julho de 2010, o Presidente da Repblica sancionou a Lei Federal n 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Poltica Nacional de Resduos Slidos PNRS. A PNRS tem como principais pontos de inovao a insero do conceito de responsabilidade compartilhada, reconhecendo a necessidade de participao de todos os elos da cadeia, o incentivo ao desenvolvimento de cooperativas ou de outras formas de associao de catadores como forma de uma ao socioambiental, bem como traz o conceito da logstica reversa.

    A criao e a plena efetivao da Responsabilidade Compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, de forma individualizada e encadeada, envolvendo fabricantes, importadores, distribuidores, comerciante, Poder Pblico e consu-midores nas vrias cadeias de produo e consumo, so um grande desafio para a implementao da PNRS. A Lei Federal 12.305/2010 define que:

    Art. 3. Para os efeitos desta Lei, entende-se por: (...)XVII - responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos: conjunto de atribuies individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, dis-tribuidores e comerciantes, dos consumidores e dos titulares dos servios pblicos de limpeza urbana e de manejo dos resduos slidos, para minimizar o volume de resduos slidos e rejeitos gerados, bem como para reduzir os impactos causados sade humana e qualidade ambiental decorrentes do ciclo de vida dos produtos, nos termos desta Lei;

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    Outro ponto importante da PNRS a insero da participao efetiva dos catadores nas aes de responsabilidade compartilhada, conforme um dos objetivos da PNRS descritos no Art. 7, inciso xII da Lei 10.305/2010:

    Art. 7 So objetivos da Poltica Nacional de Resduos Slidos:(...)XII - integrao dos catadores de materiais reutilizveis e reciclveis nas aes que envolvam a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos;

    2.1 A LOGSTICA REVERSA

    A PNRS apresenta o instrumento da logstica reversa como sendo uma ferramenta a ser adotada para a coleta dos resduos slidos gerados no Brasil, incluindo as embalagens ps-consumo. A Lei Federal 12.305/2010 define a lo-gstica reversa em seu Artigo 3, pargrafo xII, como:

    Art. 3 Para os efeitos desta Lei, entende-se por: (...)XII - logstica reversa: instrumento de desenvolvimento econmico e social caracteri-zado por um conjunto de aes, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituio dos resduos slidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinao final ambientalmente adequada;

    A PNRS estabelece responsabilidades para os diferentes atores na lo-gstica reversa, onde cada um dever comprometer-se com o desenvolvimento de suas aes para o xito da implementao do sistema. A Figura 1 apresenta o fluxo da logstica reversa, sendo que os consumidores devem efetuar a de-voluo de produtos e embalagens aos comerciantes e distribuidores, que, por sua vez, devem devolver ao fabricante ou importador e, por fim, o fabricante ou importador deve dar destinao ambientalmente adequada aos produtos e embalagens devolvidos.

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    Figura 1 Fluxo da Logstica Reversa

    Segundo a Lei Federal 12.305/2010, a Logstica Reversa deve ser aplica-da independente do servio pblico de limpeza urbana. Ento, os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes so obrigados a organizar a cadeia produtiva para receberem de volta os resduos slidos que forem contemplados na logstica reversa. Conforme a PNRS, j so obrigados a implementar o sistema de logstica reversa os resduos slidos de pilhas e baterias, leos lubrificantes, pneus, lmpadas, contendo mercrio, eletroeletrnicos e agrotxicos e seus re-sduos e embalagens, assim como outros produtos cuja embalagem, aps o uso, constitua resduo perigoso.

    A logstica reversa obrigatria para os resduos citados anteriormente, porm a