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Variantes Oxiologicas

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Artigo do Dr. Miguel Reale

Text of Variantes Oxiologicas

  • Invariantes axiolgicasMIGUEL REALE

    No creio possa haver tema mais fascinante do que este das inva-riantes axiolgicas, isto , da existncia ou no de valores fun-damentais e fundantes que guiem os homens, ou lhes sirvamde referncia, em sua faina cotidiana. Seriam como que estrelas valo-rativas determinantes ou esclarecedoras de cada vocao, desde a dosacerdote para o sagrado do poeta para a beleza, desde a do empresriopara a riqueza do filsofo para a verdade, desde a do jurista para ajustia do trabalhador para a produo e o til-vital.

    A magnitude do assunto suscita logo uma srie de perguntasinquietantes: "sero tais valores primordiais inatos? Se no o forem,tero objetividade em si, mas como e quando a constituram? Ou sero,ao contrrio, meras aparncias, simples idealizaes subjetivas com quenos enganamos a ns mesmos, mascarando a nossa ignorncia?".

    Vede que esto em jogo a natureza e o destino do homem, parasabermos se a sua vida tem um sentido, ou mera folha solta e inerme,entregue aos surpreendentes e imprevistos avatares da Histria?

    Compreendeis, pois, nesta conferncia, com que provocis minhavaidade, por ser o modo gentil e generoso de homenagear-me emmeu octogsimo aniversrio compreendeis que aconselhvel come-armos pela anlise da prpia palavra Valor, dada a transparncia pri-meira do verbo.

    Numa indagao fenomenolgica, que partindo da conscinciaintencional se proteja nos horizontes da Histria e da Cultura, tentareicaptar algo do sentido da palavra Valor nos momentos iniciais e semprereveladores de sua compreenso. No cuidarei de fazer arqueologia nomundo das idias, mas apenas discernir algo de significativo no " es-tado nascente" da experincia valorativa.

    Nessa ordem de entendimento, cabe-me lembrar que a Antigi-dade clssica no teve plena percepo do fenmeno axiolgico, como orevela a verificao de que o substantivo Valor ou inexiste, como se dem Roma, ou apenas representa um esboo dessa multiplicidade cadavez mais rica e desafiante de sentidos que o homem moderno sente ne-cessidade de descobrir no mago da palavra Valor.

    Os gregos usavam, sem dvida, o substantivo xia raiz do

  • termo Axiologia mas ainda era de pobre contedo, servindo maispara indicar o preo ou valor de uma coisa, para distinguir uma situaomeritria, ou seja, uma "dignidade" como tal merecedora de nossoapreo, ou ainda a fim de estimar-se a espcie e o grau de pena a seraplicada. A bem ver, os gregos davam mais realce ao adjetivo xios, querdizer digno de estima, com que enalteciam a valentia dos heris ou dosguerreiros, os seus valorosos estadistas e artistas e as virtudes vlidas dosartfices.

    No plano filosfico, ento, quando Plato ou Aristteles se refe-rem ao valor mais alto, preferem empregar a palavra gathon, quesignifica bem, na qual estava inerente o sentido de valor. Na considera-o do bem, todavia, j variavam as " valoraes", apresentado que erao Bem por Plato como um arqutipo ideal, enquanto Aristteles, rea-listicamente achegado s vicissitudes humanas, o via antes segundo ra-zes de proporcionalidade.

    Ora, foi a prevalncia do adjetivo xios sobre o substantivo xiaque levou Ccero, ao transladar para o latim os vocbulos gregos, a tera feliz percepo da palavra aestimabile, o que deve ser salientado, pois,em portugus, dizemos tanto "mundo dos valores" como "mundodas estimativas".

    Na falta do substantivo Valor, os romanos,a exemplo dos gregos,propenderam para a palava Bonum, um valor singular que assumia sen-tido genrico, prevalecendo entre os jurisconsultos, como bem supre-mo, a Justitia, universalmente entendida como divinarum ac humanarumrerum notitia.

    No ser demais notar que os romanos, ao indagarem do bem su-premo, acolhiam a herana dos Esticos, os quais haviam transferido otratamento de gathon, do bem, do plano ontolgico ainda preva-lecente em Plato e Aristteles para o plano tico, dominante em suacosmoviso naturalista.

    Permiti que, ao concluir este breve escoro histrico sobre a idiade Valor na Antigidade clssica, me arrisque a observar que era indaimprecisa ou reduzida a acepo dos termos xia ou aestimabile, o queconfirma minha afirmao sobre a inexistncia ento de uma Axiologia

    qua talis, de sorte que, na linha do pensamento clssico, no haveriaque falar em invariantes axiolgicas, mas sim em invariantes ontolgicasou ticas, estas no pensamento de Zeno e de Crisipo.

    Talvez se possa dizer que, enquanto um sentido no se substancia-liza plenamente, sinal de que ainda se encontra em processo de forma-o ou de revelao, o que mostra o contraste impressionante entre o

  • uso da palavra Valor entre os antigos mestres ocidentais e os pensa-dores modernos, por assim dizer angustiados pelo emprego dominadordessa palavra-chave, to ligada ao sentimento dos riscos que atualmenteameaam o destino do homem.

    Salvo engano, parece-me que a palavra Valor somente aparece nolatim medieval, e, com mais plenitude, nas lnguas novilatinas, notada-mente no provenal e no italiano, fazendo pendant com o termo wertdos alemes.

    Todavia, nos textos filosficos clssicos da Idade Mdia, escritosem latim, no encontramos a palavra Valor, prevalecendo ainda a pa-lavra Bonum, mas em correlao direta com a idia de Ens, a partir daconvico, de manifesto sentido religioso, de que quod est bonum est.Haveria muito que indagar sobre as razes da inexistncia da palavra

    Valor na obra, por exemplo, de Santo Toms de Aquino, to rica demotivos axiolgicos.

    E num discpulo de Santo Toms, no entanto, em Dante Alighierique encontramos a expresso eterno valore para indicar o supremo bem,como nos seguintes versos:

    " Si ch, quantunque carita si stendeCresce sovr 'essa l 'eterno valore" (Purg. XV, 71)

    ou

    " Guardando nel suo Figlio con l 'AmoreChe 1'uno e l 'altro eternalmente spiraLo primo ed ineffabile Valore..." (Par. X, 1).

    ou ainda,11 Vedi l 'eccelso e Ia larghezza

    De I'eterno Valor..." (Par. XXIX, 142).Como se v, Deus sentido por Dante como o primeiro, o eterno

    e o inefvel Valor, o que demonstra quanto Heidegger se afasta da ver-dade quando assevera, na Carta sobre o Humanismo, que considerarDeus "o Valor mais alto" seria perpetrar a maior blasfmia, por de-gradar-lhe a essncia...

    Talvez Heidegger tenha tirado essa concluso da tese, que nos vemde Nicolau de Cusa, de que o Valor diz respeito to-somente ao homeme sua problemtica, em virtude de sua finitude ante o Deus Oculto,perante cuja qualificao somente podemos confessar nossa ignorncia,mas na Idia dantesca de Valor inefvel est implcito o sentimento denossa precria cincia do divino.

  • deveras relevante, porm, que no Quattrocento, na era do Hu-manismo, uma ponte entre a Idade Mdia e o Renascimento, um pen-sador como Nicolau de Gusa, cuja modernidade salientei em meu livroVerdade e conjetura, haja retomado e desenvolvido o problema do Valorsituando-o na relao entre o homem e Deus, e suscetvel to-somentede conjeturas.

    No obstante o interesse do Gusano pelo valor do homem, noencontramos a palavra Valor em seus escritos latinos, em De DoctaIgnorantia ou em De Coniecturis, nos quais recorre a parfrase para in-dicar o que designamos hoje com a palavra Valor. Assim , por exemplo,quando ele indaga do valor da coincidncia dos opostos um de seustemas principais e se refere a quantum valeat coincidentia oppositorum

    Podemos, pois, concluir que, at a poca do Humanismo, no nosseria possvel tratar de invariantes axiolgicas, como algo " a se stante",pois o que prevalece a subordinao do Valor (implcito no tratamentoda matria) ao conceito primordial de Ens. Todos os discursos axiol-gicos ficavam, em suma, ancorados na idia de Ser e de suas proprieda-des transcendentais, nem sequer constituindo um captulo ou livro au-tnomo dos estudos ontolgicos.

    No houve, penso eu, uma Teoria do Valor qua talis, donde aimpossibilidade, repito, de falar-se em pressupostos axiolgicos fundan-tes da ao humana, mas sim em princpios ontolgicos sobre os quaisse fundava a noo do dever e da realizao de tudo que fosse digno deadmirao, por ser expresso da verdade, da beleza, do herosmo, etc.

    Na linha tradicional da inspirao clssica, parece-me que se poderelacionar os pressupostos legitimadores da conduta humana com aconcepo dos transcendentalia, ou propriedades primeiras do Ser. Daa preferncia e apego idia de bonum como algo de reversvel com aidia de ens.

    No fundo, tratava-se empregando eu expresses mais corres-pondentes forma do discurso atual de "invariantes axiolgicastranscendentes", reveladas umas ou conquistadas outras pela razo, massempre transpessoais e objetivas, em funo das quais o homem adquiriaconscincia e medida de si mesmo e de seus atos, sendo a pessoa humanavista, antes de mais nada, como criatura de Deus, e no como ente deper si vlido.

    Parafraseando Hugo Grocio, diria que, na Idade Moderna, homovalet, etiam daremous Deum non esse , mas, como veremos, essa super-valorizao do homem enquanto tal no foi bastante para a elaboraode uma Teoria do Valor que, para empregarmos linguagem afinada ao

  • discurso de Giambattista Vico, fatto degli uomini, ou seja, coisahumana.

    necessrio lembrar, com efeito, neste passo de minha exposio,que, com o Renascimento, o sentido teocntrico da cultura medievalcede lugar a uma viso antropocntrica que podemos sintetizar no Co-gito de Descartes, quando este funda o fato de existir sobre o ato depensar.

    No cogito, ergo sum, o "ser" um consecutivum do "pensar,"de maneira que na razo enquanto tal que se ancoram as razes (per-miti-me o jogo de palavra) de nosso conhecer e de nosso agir.

    Apesar, porm, dessa virada de 180 na posio do homem nocosmo cultural, Descartes se limita a estabelecer as condies primeirasdas idias claras e distintas, sem se altear cogitao do que hoje de-nominamos " invariantes ou constantes axiolgicas", ainda que em ter-mos de idias mestras ou princpios primeiros e irrenuncivei

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