A. J. Cronin - Balada da Infância

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    I

     _  Todos os dias. às seis horas, enchia a casa umaatmosfera de expectativa, que tornava mais bela a tarde

    longa. vaga. sonhadora...Quando eu fui para a sala, a minha mãe, na cozinha, aofazer os preparativos para a ceia, principiava umacanção. Era qualquer coisa acerca da filha de um moleiroque adoecera e morrera. Entoava essas canções de formatão animada e com uma jovialidade tão natural que elastomavam um acento de pura alegria. Empolei-rei-me nogenuflexório para chegar à janela; embora devesse entrarpara a escola na semana seguinte, ainda precisava daquelerecurso.

    O caminho para a estação estava deserto a essa hora:apenas à porta da forja se via um cão a dormir, deitado àsombra do plátano. Para lá do embarcadoiro e dos seuscanteiros de cravos e calceolárias amarelas, abria-se alarga extensão vazia da costa, e, mais além, no estuáriodo Clyde, descia um vapor de rodas, de chaminé branca.Por fim apareceu um vulto, não o esperado mas igualmentemeu conhecido: o da minha amiga Maggie, ou, como adenominavam os rapazes «maus», a Doida Maggie, pequena detreze anos, alta e desajeitada, que trazia vasilhas deleite da herdade de Snoddie e estava a esgueirar-se entreos varões da cancela fechada da passagem de nível. Era,de facto, o caminho mais curto, mas rigorosamenteproibido, e eu observei-a com ar de censura enquanto elaentrava na rua, iniciando a sua tarefa nocturna dadistribuição do leite. Ao passar pela nossa casa, uma dasquatro vivendas bonitas do quarteirão, viu-me à janela e,com um chocalhar de latas, agitou o braço e saudou-me.

    Comecei a acenar, retribuindo, mas nesse momento ouviu-

    se um apito. Desviando os olhos de Maggie, descobri umfumozinho, atrás do qual serpenteava lentamente, na curvada linha férrea, uma espécie de cobra acastanhada. Comdificuldade, como se fatigada, veio arquejando até aopequenino cais. No ano de 1900 só os comboios maisronceiros da Companhia Britânica do Norte paravam naaldeia de Ardencaple.

    Como muitas vezes acontecia, meu pai foi o únicopassageiro que se apeou. Saltou rapidamente, com o passode quem aprecia regressar a penates: figura ágil que

    dava, mesmo ao longe, uma impressão de elegânciainconfundível. Trazia o seu fato castanho, sapatos tambémcastanhos, chapéu de feltro da mesma cor, de aba

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    revirada, e sobretudo curto de tom mais claro. Quando seaproximava, o cão ergueu a cabeça e, alheio aos in-convenientes de uma aldeia, levantou poeira com a cauda.Notei então, com ansiedade crescente, que o Pai sobraçavaum embrulho. Não raramente, quando visitava a suaclientela de Winton, trazia-nos — a mim e à mãe — 

    qualquer surpresa para a ceia, e que nunca deixava de nosentusiasmar: cachos de uvas, postas de salmão, algumabebida exótica, tudo coisas que indicavam não ser elepróprio inimigo de boas especialidades, as quais, éclaro, fugiam à modesta norma da nossa vida diária. E,quando as exibia, olhava-nos, com uma sobrancelha alçada,gozando secretamente o nosso espanto.

    A porta abriu-se e a Mãe, tirando o avental, correu aoencontro dele e abraçou-o, acto com que eu não concordavamuito mas que era infalível. O Pai despiu o sobretudo,pendurou-o num cabide (tinha muito cuidado com a suaroupa), e depois entrou na cozinha, ergueu-me com mododespreocupado e tornou a sentar-me. A Mãe trouxe para amesa a terrina. Era sopa à escocesa, que o Pai muitoapreciava mas da qual, quando não me obrigavam a ingerirtudo, eu só comia as ervilhas, dispon-do-as primeiro emcírculo na borda do prato. A seguir, havia carne cozida.Contra o costume da terra (e isto constituía apenas umadas faltas de conformação com os usos da comunidade em

    que vivíamos), tomávamos à noite a nossa refeiçãoprincipal, pois o Pai, nas suas andanças de todo o dia,raras vezes tinha oportunidade de levar à boca mais doque uma sanduíche. Entretanto, com ar muito diferente dohabitual, e até um tanto constrangido, principiou adesembrulhar vagarosamente o pacote. — Ora bem, Grace — disse ele. — Está tudo resolvido.A Mãe começara a servir a sopa. Muito pálida, parou.

     — Pode lá ser, Conor!O Pai olhou-a com um sorriso afectuoso, ainda que

    cómico, e afagou as pontas do bigodinho louro.* Tive o encontro final com Hagemann esta tarde.

    Assinámos o nosso contrato. Ele embarca esta noite para aHolanda.* Oh, Con, não estás a falar a sério!* Vê. Tens diante dos teus olhos a primeira amostra.Colocou sobre a mesa um frasco redondo, sentou-se

    pacificamente, tirou o prato de sopa das mãos trémulas damãe e pegou na colher. Pensei que ela — coisa absurda— iachorar. Como não se aguentasse nas pernas, deixou-se cairna cadeira. Perturbado, com a vaga impressão de quesucedera algo de terrível para a paz do nosso lar, eu nãodesviava a vista daquele frasco. Continha um pó amarelado

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    Nesse momento, de queixo apoiado na mão, ela escutavameu pai, que fora o único a fazer honras à carne. — Deves concordar... — dizia ele. — Passa-me a mos-

    tarda, se fazes favor. Obrigado. Deves concordar que eunão podia perder esta oportunidade. Estamos em vésperasde alterações revolucionárias na indústria da

    panificação. 0 velho método da levedura tem os seus diascon-ta-dos. — Quando o Pai queria impressionar separavabem as sílabas. — Mas o nosso pão, Conor, é bastante bom. 0 Pai,mastigando com gosto, abanou a cabeça.

     — Não sabes quantas vezes tenho visto a leveduraazedar, borbulhando para fora das masseiras. E umafornada inteira de pão fica completamente estragada. Onovo processo tornará o pão melhor e mais barato. Pensa

    nesta oportunidade, Grace, com as minhas relações; porqueeu conheço todos os padeiros de Oeste. Serei o primeironeste terreno. E trabalharei por minha conta.

    A Mãe ia ficando persuadida. — Estás bem seguro do senhor Hagemann? O Pai acenoucom a cabeça, de boca cheia. — É um homem às direitas. Posso importar de Roterdão

    nas condições mais favoráveis. Além disso ele adianta-memetade do dinheiro, para me dar um empurrãozinho. Fariaisso se não confiasse em mim?

    Um débil clarão de esperança surgiu nos olhos da Mãe,substituindo-se à anterior expressão de ansiedade. Findaa ceia, não se levantou para retirar a loiça da mesa. Nemo Pai seguiu o seu costume de me dedicar meia hora(período com frequência prolongado pelas minhasimportunações) antes de eu ir para a cama. Exceptuando ocurto passeio que ocasionalmente dava, para depois sedeitar, o Pai quase nunca saía à noite.Depois de um longo dia passado entre os amigos, pareciaperfeitamente satisfeito por se encontrar, como eledizia, junto da sua lareira. Além disso, nada oestimulava a sair. Embora tivesse poucos conhecimentosnunca desejara, digamo-lo, um amigo na aldeia. Ardencapleera para ele, como para todos nós, um campo hostil.

    O nosso convívio à noite tinha, em parte, aspectopedagógico; fora o Pai quem me ensinara as primeirasletras e me instruíra, lendo em voz alta (para benefíciomútuo), certos artigos menos conhecidos do seu volumedilecto, a Enciclopédia Pears; mas o que principalmente

    desejava, em especial durante a minha doença, era fazer-me passar o tempo. Com espantosa fertilidade deimaginação, inventava e contava séries intermináveis dealiciantes aventuras, nas quais um protagonista infantil,

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    precisamente da minha idade, pequenino e débil, porémdotado de incrível intrepidez, praticava acções debravura extraordinária em ilhas desertas ou nas selvastropicais, entre tribos primitivas e selvagensantropófagos. De vez em quando intercalava observaçõesrelacionadas com acessórios e atavios dos componentes

    femininos das tribos, e esses apartes, cujo significadoeu não compreendia, destinavam-se à minha mãe, que sefartava de rir.

    Nessa noite, contudo, os meus pais continuaram absortosna conversa e eu percebi que passara a hora de ele meregalar com as histórias de canibais. Encontrando o seuolhar, durante um silêncio, perguntei de súbito, no tomde pessoa injustamente esquecida:* 0 que tem aquele frasco ?*

    É fermento, Laurence. Para ser mais rigoroso: RealFermento Holandês de Hagemann.* Fermento? — repeti, boquiaberto.

    Assim mesmo. Uma substância fungiforme composta deinúmeras células vivas. Sim, uma forma de vida, bem sepode dizer, um organismo que germina, cresce, torna oamido em açúcar, o açúcar em álcool e gás carbónico, eassim faz levedar aquilo que é o esteio da vida.Preparado — continuou o Pai, muito contente— numa soluçãomineral salina, moderna técnica bastante superior à do

    antigo sistema da massa levedada, oferece a únicapossibilidade de introduzir um processo completamentenovo que reorganizará a indústria da panificaçãoescocesa.

    Dir-se-ia que o Pai é que descobrira o fermento e, pormuito tempo, julguei que de facto fora ele. A suaexposição, evidentemente estudada com antecedência,deixou-me quase sem fala. A Mãe parecia da mesma formaachar aquilo excessivo (pelo menos para mim, emsemelhante ocasião). Levantou-se e, se bem que o relógio

    da prateleira do fogão me assegurasse ainda não ser omomento de me deitar, mandou-me ir para a cama num tomque não admitia réplica.

    Recolher ao leito era em geral uma operação lenta,demorada por todos os pretextos que eu inventava paradeter a Mãe, e complicada por toda a espécie de rituaispor mim criados para me defender e que, embora não valhaa pena enumerar, podem ser imaginados pelo meu primeirogesto, que era verificar se não se encontrava alguma

    cobra escondida debaixo da cama. Naquela noite, contudo,a vinda do frasco de fermento distraiu-me de todas estascerimónias e abreviou tudo da maneira mais desagradável.

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    Mesmo depois de estar deitado e de a Mãe me ter dadoboa noite, deixando como de costume a porta entreaberta,a tal estranha substância, misterioso invasor da nossacasa, continuou a «fermentar» no meu espírito. Eu nãoconseguia adormecer. Quando estava de olhos fechados, vio fermento crescer, crescer, sair do frasco, elevar-se

    numa nuvem avermelhada e pairar sobre a nossa residência,tomando a forma do génio da garrafa, conforme uma dashistórias que meu pai contara. Seria o começo de um sonhoou singular visão do futuro?

    Apesar de falarem em voz baixa, a conversa de meus paisentrava-me em fragmentos pela porta entreaberta do quartoexíguo. De vez em quando chegavam-me aos ouvidos frasesimpressionantes como «partir desta maldita aldeia»,«retomares a tua música», «ele», pode ir para Rockcliff,como Terence...» E, finalmente, pouco antes de pegar nosono, ouvi o Pai declarar, em tom grave e decidido". — Demonstraremos à tua família, Gracie, e à minha

    também, que não podem continuar a tratar-nos assim. Umdia se reconciliarão contigo. E será em breve.

    II

    Durante semanas eu desejara ir para a escola, aventurahabilmente urdida para mim, nos termos mais ternos, pelomeu pai, e diferida somente pela minha susceptibilidadeaos bacilos mais vulgares. Mas, agora que chegara o dia,o meu estado de espírito avizinhava-se do pânico. Quandoa Mãe me dava os últimos retoques, abotoando-me as calçasnovas de sarja azul escura e ajeitando-me a camisola,roguei, de lágrimas nos olhos, que não me mandasse para aescola. Riu-se e beijou-me. — Vais muito bem com a Maggie. Olha, aqui tens a tua

    sacola nova. Põe aos ombros, como um verdadeiro

    estudante.A sacola, embora vazia, reanimou-me um pouco. Começavaa sentir-me com mais coragem quando uma pancada à portadas traseiras me fez sobressaltar.Maggie estava no limiar, com o seu aspecto habitual,humilde e cabisbaixo e as madeixas emaranhadas caindo-lhesobre os olhos, que tinham aquela expressão triste esuplicante dos novilhos das Highlands. Era filha dalavadeira da aldeia, mulher desalinhada, cujo marido hámuito fugira à sua língua viperina e que, lastimando a

    sorte dessa vergôntea abandonada, fazia dela, no entanto,sua escrava. Vestida com uma saia velha de mescia queminha mãe lhe dera e com as meias passajadas no joelho,

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    Maggie tinha poucos sinais exteriores de graça. Sabendo-se pouco inteligente e com um ar acabrunhado que revelavaexcesso de trabalho e mau tratamento em casa, eraarreliada impiedosamente pelos berros de Doida Maggie dosgarotos da terra, que todavia se acautelavam dela, poistinha um braço forte e boa pontaria com um calhau redondo

    apanhado na praia e sempre disponível na algibeira. Mas amim servia tanto de amiga como de mentora. Confiava nelaplenamente, tal como minha mãe, que gostava de Maggie e abeneficiava. Apesar das inúmeras obrigações que lhe eramimpostas (depois das horas da escola raras vezes a víamossem uma trouxa de roupa ou a sua armadura de vasilhas deleite, as quais, terminada a distribuição, tinha deescaldar e arear na quinta, antes do trabalho final dedar de comer às galinhas), apesar disso havia sido, noslongos dias das férias de Verão, uma espécie de aia paramim, levando-me a passeio, à tarde, durante o período daminha convalescença. A nossa romagem favorita era aocomprido da praia, passando, de caminho, por uma casitaisolada, quase em ruínas, com uma caniçada verdeapodrecida, e que tinha o nome mal aplicado de Roseiral.Para minha eterna humilhação, parece haver sido lá olugar onde nasci. Como tão momentoso evento puderaacontecer num edifício assim decrépito era coisa que eunão compreendia; contudo, devia ser verdade, porque, de-

    pois de passarmos o Roseiral, Maggie lançava-se numaespantosa mas irresistível narração (sem dúvida escutadaà mãe dela) de como eu viera ao mundo numa noite escura emedonha, em que chovia a cântaros e a maré subira tantoque o meu pai, ao ir aflito em procura do doutor Duthie,estivera em risco de não poder chegar à aldeia.

    * E para mais, comentava Maggie, dirigindo-me um olharde comiseração — o menino nasceu ao contrário.* Ao contrário? Como?* Não foi de cabeça. Os pés é que vieram primeiro.

    * E isso era mau ? — Inquiri, petrificado.* Fez um gesto afirmativo.Depois desta revelação vexatória, Maggie

    reanimou-me conduzi ndo-me um pouco mais além, aolongo do estuário, até Erskine Rocks, onde, pedindo-me que não o dissesse a minha mãe (a qual ficariahorrorizada ao saber que o seu querido filhoestragava o estômago com semelhante «porcaria»)apanhámos mexilhões, que Maggie assou na casca, numafogueira de detritos lançados à costa. Só pelanovidade é que essa refeição me seduziu, sendo eu,como era, um superalimentado; mas, quanto a Maggie,a quem minguava a comida, isso constituía um

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    sustento abençoado. Para sobremesa, depois de tiraras botas amolgadas e as meias pretas (com buracos,apesar de passajadas), ela patinhou nas águas sujasdo braço de mar,enterrando os dedos dos pés na areialamacenta, e descobriu amêijoas pequeninas, quedevorou como se fossem ostras, mesmo cruas e ainda

    palpitantes.* Olha que estão vivas, Maggie!—protestei,

    impressionado com a ideia do que esses inocentes bivalvesdeviam sofrer sob os dentes aguçados da rapariga.

    * Não sentem nada, assegurou-me tranquilamente.É questão de as comer depressa. E agora vamos brincar à«loja».

    Maggie inventava todo o género de jogos e possuía todasas habilidades da gente do campo. Sabia fazer assobios de

    raminhos de salgueiro, tecer complicadas tranças depalha, de uma forma que os meus dedos não conseguiamexecutar, e construir barquinhos de papel que púnhamos anavegar no regato de Gielston. Também sabia cantar, e emvoz rouca, mas afinada, entoava canções em voga, comoAdeus, Dolly e A Madressilva e a Abellia.

    Mas o jogo de que ela gostava mais era sem dúvida oda «loja». Disso nunca se cansava. Depois de dispormos napraia os nossos diversos símbolos, bocadinhos de conchas,sementes de funcho, pontas de folhas de bardana e algas,

    cada qual representando uma mercadoria diferente, Maggieassumia os ares e responsabilidade de proprietáriaenquanto eu fazia de freguês. Isto dava a Maggie, tãopobre e desprezada, uma sensação de desafogo e até deabastança. Olhando para a sua «loja», com o sentimentoorgulhoso de posse, contando o seu fornecimento de coisasboas, como chá, açúcar, café, farinha, manteiga, presuntoe, é claro, pastilhas de hortelã-pimenta, esquecia-se dosdias em que matava a fome com amêijoas, um nabo cru,apanhado num dos campos de Snoddie, ou mesmo frutos deroseira brava e bagas de espinheiro.

    Juntos éramos felizes. Eu sentia a sua amizade e,erguendo subitamente a vista durante o nosso jogo, des-cobri-lhe os olhos cravados em mim, com a expressãoadmirada de quem é atraído por qualquer singularidadeincompreensível. Percebi então de que se tratava, quandoela por fim, num tom meio intrigado meio lastimoso,monologou deste modo: — Quando olho para si, Laurie, ainda me custa a crer.

    Quero dizer que... o menino não parece muito diferente denós. E também os seus paizinhos, tão boas pessoas... quemhavia de dizer que fossem... isso.

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    Pendi a cabeça,Maggie, nos seus despropósitos bemintencionados, já uma vez pusera a nu um dos opróbriosque afligiram os meus primeiros anos e que, sem maisfingimentos, precisa de ser confessado. Eu era ai de mim!

     — católico apostólico romano! Um rapaz amarrado de pés emãos ao carro triunfal do Papa, miserável acólito do

    Mulher de Escarlata, queimador de velas e de incenso,virtual osculador do dedo grande do pé de São Pedro. Alémdisto, eu e os meus pais éramos os únicos adeptos dessareligião vilipendiada e, pior ainda, os únicos que jamaisse tinham estabelecido na aldeia de Ardencaple, reservadaexclusivamente aos protestantes. Estávamos tão deslocadosnaquela estreita comunidade como o estaria uma família dezulos. Éramos, portanto, uns proscritos.

    Fosse qual fosse a atitude do público para com meu pai(a qual ele mais gostava de exacerbar do que de apaziguar), eu por mim não sofria nada, salvo a costumadacuriosidade compassiva que despertam todas asextravagâncias. Contudo, nessa manhã de segunda-feira emque enfrentava a perspectiva da escola primária, issocontribuía para me aumentar a depressão moral. E quando,após as últimas recomendações da minha mãe, a Maggie meagarrou firmemente na mão e nos pusemos a caminho, senti-me dominado pelo nervosismo.

    Na forja ferravam um cavalo, no meio de uma bela nuvem

    de fumo dos cascos queimados, mas eu mal reparei. Asmontras da mercearia, contra as quais costumava apoiar onariz para observar a rica exposição de guloseímas,hortelã-pimenta, geleias e bolos, passaram-me entãodespercebidas. Foi uma via dolorosa, tornada maisangustiante pela recitação de Maggie, em voz baixa, dostremendos castigos aplicados pelo mestre-escola, senhorRankin. — É coxo — acrescentou ela, abanando a cabeça.

     — Esteve para ser padre, nem mais nem menos! Mas, com achibata, é um terror.

    Embora seguíssemos devagar, não tardou que alcan-çássemos a escola.

    Era um prédio pequeno e antigo, de tijolos vermelhos,com um pátio, à frente, de terra batida e pedras, ondeeu, se não fosse Maggie, teria certamente dado às de Vila-diogo. Nesse recinto travava-se uma batalhamovimentada. Os rapazes corriam, lutavam, gritavam; asraparigas saltavam à corda e guinchavam; viam-se ehapéuspelo ar, botas ferradas erguiam-se e contundiam, ferindolume nas pedras, tudo no meio de um barulho ensurdecedor.

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    de repente, dando fé da minha presença, o maior dosrapazes «maus» soltou um berro: — Olhem quem ali vem! O Papazinho!Esta súbita elevação ao trono do Vaticano, em vez de me

    incutir coragem, produziu efeito contrário. Num momentovi-me rodeado de uma multidão que pretendia de  mim maisdo que a bênção apostólica.Mas desse e  outros perigosMaggie me defendeu, afastando a turba com os cotovelosafiados estendidos combativamente, até que um sommetálico sufocou o tumulto e o mestre--escola apareceu,de sineta na mão, nos degraus da porta.

    Era sem dúvida Rankin, com a sua perna direitadeformada e tristemente mais curta do que a outra,suportada por um taco de doze polegadas fixo a umaestranha botinha por um estribo de ferro e coberto naparte terminal por uma tira de borracha. Com espanto meu,não me causou impressão alarmante. Apesar das explosõesinesperadas de cólera e do bater com os nós dos dedos nasecretária, era na realidade um homenzinho inferiorizado,brando, insípido. Orçava pelos cinquenta anos, usavaóculos de aros de aço e barbicha pontiaguda. Trajavasempre de preto, a rabona lustrosa e a gravata (nocolarinho de gutapercha, sobre peitilho postiço). Nasua mocidade estudara para sacerdote, mas, em virtude doreferido aleijão e tendência para gaguejar, falhara na

    carreira e tornara-se por fim um exemplo melancólicodaquele supremo malogro escocês, o padre gorado que setransforma em mestre-escola.

    Não foi, contudo, a ele que me entregaram. Desviando-seda corrente tumultuosa, Maggie confiou-me finalmente àprofessora adjunta da primeira classe, onde, com outrosvinte alunos alguns mais novos que eu, recebi uma ardósiae me sentei num dos bancos da frente. Senti-me melhordepois de reconhecer na nossa mestra (rapariga de aspectoafectuoso, de olhos castanhos meigos, e sorriso animador)

    uma das filhas do senhor Archibald Grant, dono damercearia. A irmã mais nova, Polly, nunca deixava de meoferecer um rebuçado quando eu ia ao estabelecimentofazer qualquer compra por mandado da minha mãe.

    — Alegro-me por os ver de volta depois das férias, esaúdo os nossos estudantes. — começou Miss Grant, estremeci de comoção imaginando

    que o seu sorriso me era dedicado. — Lady Meikle fará hoje a sua visita habitualdo dia da

    abertura da escola, e espero que todos se portem o melhorpossível. Agora vou fazer a chamada. Cada um que respondana altura em que ouvir o seu nome.

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    Quando ela disse «Laurence Carrol», imitei os outroscom um «Presente», mas tão a medo como se duvidasse daminha identidade. No entanto, foi aceite, e  depois detodos responderem, Miss Grant fechou o livro dasinscrições e preparou-nos para o trabalho. A aula era dediferentes graus. Em breve uma secção zumbia na recitação

    da tabuada. Outra copiava do quadro somas nas suasardósias, enquanto uma terceira se esforçava com asletras maiúsculas do alfabeto. Tudo isto me pareceu tãomanifesta brincadeira de crianças que as minhasapreensões anteriores começaram a dissipar-se e  a sersubstituídas por uma segura consciência do meu própriovalor. Que infantis! Não sabiam distinguir um B de um D!E qual, daqueles pequenos mais velhos, mergulhara, comoeu, nos mistérios da Enciclopédia Pears, com a gravura docaminhante no frontispício, a anunciar que por cinco anosnão usara outro sabonete? Rodeado de tais demonstraçõesda ignorância pueril, experimentava o poder do meuconhecimento superior e a  elegância do meu fato novo.Queria provar os meus talentos, brilhar...

    Mal havia principiado o ruído característico dos lápisa raspar nas lousas quando a porta se abriu e soou estaordem: — Meninos, de pé. Enquanto nos levantávamos, o senhor

    Rankin apareceu e, com muita deferência, introduziu na

    sala uma senhora baixinha, tesa, empertigada, de bustotão saliente e agressivo que, juntamente com o tufo deplumas no chapéu, lhe dava notável semelhança com umapomba de papo de vento. Olhei-a receoso. Lady Meikle eraviúva de um fabricante de espartilhos de Winton, o qual,escudado no inocente mas intrigante anúncio: «Senhoras,só usamos a mais bela barba de baleia natural» colocadoem todas estações de caminho de ferro, obtivera riquezaconsiderável e, após uma temporada como presidente domunicípio de Levenford, ascendera à dignidade de

    cavaleiro, distinção que o animara a adquirir uma grandepropriedade no termo de Ardencaple, para onde se retirou.Aí teria vagar de satisfazer a sua mania de cultivarorquídeas e plantas tropicais, enquanto a esposa nãoperderia tempo em assumir os deveres e afirmar asprerrogativas de uma senhora dessa categoria, se bem que,com as suas maneiras terra-à-terra e lapsos do dialectoescocês, não fosse (e francamente o confessava) indicadapara semelhantes funções. Contudo Lady Barba de Baleia,como meu pai a chamava, era uma mulher digna, generosapara o povo de Ardencaple (concorrera para a construçãodo edifício novo da Junta de Freguesia) e caritativa paracom todo o resto da comarca. Tinha uma noção

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    característica do humor negro e uma forte ostentação desentimentos, visto que mandara fazer, para o choradomarido, um jazigo monumental, cheio de vasos horríveis.Mantinha, e tornara famosa, a colecção de orquídeas queele iniciara antes da sua morte. Por mais estranho quepareça, mesmo sem haver trocado uma palavra com tão

    ilustre personagem, eu tinha boas razões para estarfamiliarizado com toda a sua propriedade, matas e cursosde água, e a alameda de uma milha de extensão queserpeava através do parque, entre rododendrosgigantescos, até à residência majestosa, com a sua enormeestufa adjacente. — Meninos, sentem-se. — Adiantou-se, impotente. — Esta sala está sufocante. Abra uma janela.Miss

    Grant apressou-se a obedecer, enquanto a dama, semnos perder de vista, conversava com o professor; este,curvado para a frente, recuava a perna deformada,escondendo-a em parte atrás da sã (posição que cedoverifiquei ser a habitual) e emitia submissos murmúriosde concordância. Depois a visitante dirigiu-nos apalavra, em escocês, abrindo muito as vogais:

    — Meninos, são novos e despreocupados, mas espero erogo que não tenham feito nenhuma maldade nem enveredadopelo mau caminho. Devem saber o interesse que  tomo por

    esta terra, e, por isso mesmo, peço que dêem atenção aoque vou dizer.

    Continuou neste teor por algum tempo, exortando-nos atrabalhar com afinco, a nos afeiçoarmos e a observarsempre uma atitude elevada no nosso comportamento moral,pois, se assim não fosse, isso nos custaria muito, nopresente e no futuro. Terminado o discurso, premiu oslábios e contemplou-nos com um sorriso grave mas ao mesmotempo meio irónico, no qual se poderia discernir uma notade astúcia. — Até agora não sabem nada. Solo virgem, eis o que são.

    Solo virgem. Mas eu hei-de experimentar-lhes ainteligência natural para ver se têm espírito prático ouqueda para o que pretendem. Um lápis, Miss Grant.

    O lápis, amarelo, foi-lhe logo apresentado e ela,segurando-o por instantes defronte de nós, arremessou-oao chão, num gesto teatral. Ficámos ofegantes. — Suponham que não possuem mãos, disse de maneira que

    nos causou um calafrio.

     — Nenhum tem mãos! Mas eu quero que apanhem o lápis.Fosse o que fosse que lhe sugeriu esta experiênciaextravagante (talvez houvesse visitado uma das suasmuitas obras de caridade, o Lar do Paralítico, em Ard-

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    trouxera, olhei-a com vivacidade e respondi em voz clara,alta, confiante: — É o Real Fermento Holandês de Hagemann!

    Na aula elevou-se um sussurro tímido, que cresceu erebentou numa gargalhada estrondosa. Inteiramente des-coroçoado, vi o rosto da minha protectora alterar-se, vi

    os sinais de aplauso substituídos por uma expressãocarrancuda. A mão que me afagava a cabeça contraiu-se numapertão forte.* Atreves-te a troçar comigo, rapazinho?* Não, senhora, não!Observou-me detidamente, por muito tempo, enquanto eu

    me sentia gelar cá por dentro. Depois, repudiando-me,afastou a mão, com tanta força que me impeliu para afrente e me obrigou a retomar o meu lugar. — Vai-te! Enganei-me a teu respeito. Não passas de um

    idiota.Humilhado, desfavorecido para sempre, tornado de novo

    num proscrito, sentei-me e fiquei toda a manhã de cabeçapendida.

    No regresso a casa, procurando a mão da minhaverdadeira protectora, piscava os olhos para soltar aslágrimas. E murmurei com voz lastimosa:* Não vale a pena, Maggie. Não presto para nada, sou

    apenas um idiota.* Fazemos um lindo par, respondeu Maggie, satírica e

    desalentada, como se também houvesse tido uma manhã má nasua própria aula.

    III

    Apesar das dúvidas de minha mãe quanto ao fermento eda humilhação pública que ele me havia causado, o negóciodo Real Holandês iniciou-se de modo auspicioso.

    Evidentemente que a oportunidade estava ali, e meu

    pai, inteligente e cheio de clarividência, era o homemmais indicado para a aproveitar.

    O seu conhecimento da indústria de panificação, asrelações que travara por todo o Oeste da Escócia duranteos cinco anos de viajante da firma Murchison, a suapersonalidade simpática e trato lhano, que o tornavampopular, e, acima de tudo, a arrogância com que despia ocasaco e punha um avental para demonstrar a excelência donovo processo, tudo isto concorria para lhe firmar o

    êxito.A solidez do triunfo provou-se cinco meses depois,numa digressão da família a Swinton, quando o Pai, depoisde nos mostrar, com orgulho, o seu novo escritório no

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    prédio Caledónia, nos levou de tarde ao Teatro Real, àexibição de Aladino, e, em seguida, ao famoso restauranteO Cardo. Sempre fora um mãos rotas, e nesse Natalmostrou-se ainda mais generoso. Além de um sobretudo novode Inverno, que não me interessou muito, recebi um trenómagnífico, equipado com um guiador. E minha mãe teve, num

    dia daquele Dezembro, vindo de Winton, numa carroçapuxada por dois cavalos, algo que ela desejava desde oseu casamento, uma dádiva inesperada (visto que o Pai nãotranspirara nada do seu intento), que a encheu de imensaalegria: um piano vertical. Não era nenhum desses móveispequenos, amarelados, com guarnições de pelúcia, como oque havia na nossa escola e que soavam como banjosvelhos, mas um instrumento de um negro luzídio, sólido,novinho em folha, ostentando o nome mágico de Bluthner,com dois candelabros doirados e teclas de marfimreluzente, que a um simples toque emitia acordesvibrantes e profundos.

    A Mãe, ainda deslumbrada, sentou-se no banco giratórioque viera com o piano e, enquanto eu me postava juntodela, correu as mãos pelo teclado com uma agilidade queme. espantou, observando ao mesmo tempo: — Oh, meu Deus, Laurie, como tenho os dedos en-

    torpecidos!Deteve-se um instante, para conciliar as ideias, e

    então principiou a tocar. Tão vívida tenho na memóriaesta cena que até me recordo do que ela tocou. Foi aDanse des Écharpes, da Chaminade. Dizer que fiqueiboquiaberto e fascinado não é exagero, não só pelos sonsdeliciosos que me chegavam aos ouvidos como pelo facto deque antes nunca lhe escutara uma única nota de piano. Porlealdade para com meu pai, incapaz até aí de se permitiressa despesa, minha mãe jamais aflorara esse assunto naminha presença. Como era possível que, após tantos anosde silêncio, repentinamente revelasse esse talento

    insuspeitado e perfeito e me encantasse com um caudalcintilante de música?

    Os dois carregadores, que tinham recebido, cada qual,um xelim e já estavam de boné na cabeça, pararam nocorredor, enlevados com os acordes. Quando a Mãe acabou,juntaram os seus aplausos aos meus. Ela riu-sealegremente, abanando a cabeça. — Oh, não, Laurie! Estou muito enferrujada. Mas

    depressa voltarei a desembaraçar-me.Nesta observação havia mais um enigma a acrescentar aos

    outros ainda por decifrar e que complicavam e perturbavamos meus primeiros anos: quando pedia à Mãe que mosexplicasse, limitava-se a sorrir e a dar qualquer

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    resposta evasiva. Entretanto, nada podia desviar-me destanova alegria. 0 Pai não era dado à música e, emboracondescendente, não se importava na realidade com opiano; isto bem podia (porque eu começava a conhecer  oPai) ter de certa maneira demorado aquela aquisição. Assuas preferências iam para uma boa banda de instrumentos

    de sopro, e por isso se fornecera de vários cilindrosfonográficos, sistema Edison-Bell, das famosas marchas deSousa. Mas para a minha mãe, particularmente na nossasituação de apartheid, o esplêndido Bluthner era umaconsolação e um requinte. Todas as tardes, depois deconcluir o trabalho doméstico e de verificar que estavatudo limpo e arrumado, sentava-se ao piano e «praticava»,inclinando-se para a frente de vez em quando, pois era umpouco míope, a fim de estudar uma passagem difícil; e,antes de recomeçar, afastava para o lado uma madeixa decabelo castanho e sedoso que lhe pendia sobre a testa.Não raramente, quando regressava da escola, e sempre queo tempo estava chuvoso, eu entrava em silêncio na sala einstalava-me junto da janela, a escutar. Em breve soubeos nomes das músicas de que mais gostava: Polonaise em mibemol de Chopin, Rapsódia Húngara de Liszt, MomentoMusical de Schubert, e a minha grande favorita, para oque talvez contribuía o nome, a Sonata ao Luar  deBeethoven. Esta, acima de todas as outras, incitava-me a

    uma precoce melancolia, criando visões em que, sob umluar brilhante, me via pleiteando causas perdidas emterras longínquas e obtendo recompensas de almasatisfeita numa campa isolada de herói, da qual,ressuscitado, eu corria à cozinha a fim de pôr acafeteira ao lume e fazer torradas para o chá...

    Foi um Inverno feliz que nenhum facto subsequente pôdedestruir. O nosso barquinho, com todas as velasdesfraldadas, navegava a um vento de feição, seguindoalegremente a sua rota solitária mas segura. O Pai enri-

    quecia. Na escola, eu transitara de classe e, emboralastimando a falta de Miss Grant, tive a grata surpresade ser aluno do senhor Rankin. Este, tão injustamentecondenado por Maggie (os seus ímpetos eram devidos mais anervosismo do que a mau temperamento) podia ter falhadono púlpito mas, como professor, parecia excelente. 0sistema que usava valia mais que a média do ensinoministrado pelos mestres-escolas de aldeia e, além disso,ele possuía a habilidade de apresentar as coisas de umaforma agradável. Com admiração minha, começou ainteressar-se pelo seu novo pupilo. O falso conceito danossa inferioridade, tão divulgada na terra, talvezobrasse em meu favor; ou quem sabe se, embora nunca o

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    tornasse evidente, o seu propósito fosse converter-me,como quem torce um ferro em brasa? Em qualquer caso,obtive mais benefícios do que merecia daquele homenzinhodesprezado e repudiado.

    Quão depressa passaram aqueles meses! Quase nem deipela aproximação da Primavera, até que o Pai, que tinha

    aquilo a que chamava «tendência para bronquite», apanhouuma constipação tremenda em Março, devido ao seudesrespeito sardónico de irlandês pelo aforismo escocês«Não dispas o sobretudo antes de Maio findar». Ele,porém, despiu-o quando o plátano da forja começava areverdecer. Num instante chegámos aos dias floridos deAbril. Soprava aragem de Oeste, levando nas suas asas anotícia da nossa prosperidade crescente. Não teria sidoesta a causa da visita sub-reptícia de meu primo Terence,rapaz de dezasseis anos, que desde muito novo fora dotadode uma pituitária sensível aos mais ligeiros eflúvios daabastança?

    Terence era invulgarmente bem parecido, alto, arro-gante, possuidor, em alta percentagem, do encanto inatodos Carrolls. A sua casa, que eu nunca vira, ficava emLochbridge, apenas a vinte milhas de distância, onde opai possuía um estabelecimento com o nome curioso deCaves de Lomond. Conquanto eu não percebesse asimplicações da misteriosa palavra «Caves», além do seu

    significado de profundezas subterrâneas, a grande dis-tinção de Terry, invejável a meus olhos, era ele seraluno interno do famoso Colégio Rockcliff, de Dublim.Agora, porque estávamos nas férias da Páscoa, ei-lochegando à nossa casa numa bicicleta nova e cintilante.Vestia calças de flanela cinzenta bem vincadas, das quaisnegligentemente tirou as molas de ciclista, casaco azuldo colégio e chapéu de palha posto à banda, cuja fitatambém ostentava as cores escolares. Um olímpico,directamente vindo do Parnaso... as Caves?... pensei,

    maravilhado.A Mãe, hospitaleira por natureza, e há muito tempo

    ansiosa de visitas, ficou encantada ao ver Terence, em-bora confusa por ser apanhada desprevenida.* Meu filho, se ao menos me houvesses avisado de que

    vinhas, ter-te-ia preparado um bom almoço. - Olhou para orelógio, que marcava vinte minutos para as três. — Diz-meo que te posso arranjar agora.* Na realidade, tia Grace, eu já almocei. — Percebi que

    o tratamento de tia agradara à minha mãe. Contudo,petiscarei qualquer coisa.* Diz-me então o que te apetece.

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    * Não desgostaria de ovos cozidos, se é que tem emcasa...* Claro que tenho. Quantos queres?* Poderá ser meia dúzia, tia Grace? — Sugeriu Terence,

    um pouco a medo.Quinze minutos depois estava sentado à mesa, ele-

    gantemente a contas com seis ovos cozidos e várias fatiasde pão barradas de manteiga, enquanto nos ia relatando,com grande à-vontade e um acento em que havia laivos damelhor pronúncia de Dublim, o seu notável triunfo noperíodo findo, a conquista do primeiro lugar numa corridade cem jardas efectuada no colégio. Seria impossível nãoo admirar, e assim fizemos, embora a Mãe parecesse umtanto maçada quando, pela terceira vez, Terence repetiu: — A maneira como os deixei para trás no último

    arranque bem podia tê-los feito desistir.Foi até por sugestão da Mãe que, depois, Terence melevou a dar um breve passeio enquanto meu pai nãovoltava. Já no caminho para a aldeia, agarrei-lhe na mãoe exclamei enlevado: — Oh, primo Terry, como eu gostaria de estar contigo

    no Rockcliff!Terence fitou-me e, exibindo um palito, começou

    distraidamente a esgaravatar os dentes. — Não digas nada á tua mãe, que foi tão amável, mas um

    daqueles ovos já não estava lá muito bom.E Terence deu um leve arroto para justificar as suaspalavras. — Lastimo, Terry. Mas ouviste o que eu disse acerca de

    Rockcliff?Meneou indolentemente a cabeça, com o propósito de me

    desanimar. — Meu pobre pequeno, não aguentarias a severidade

    daquele ensino. Rockcliff matar-te-ia logo. Santo Deus,que é aquilo que ali vai?

    Voltei-me. Era Maggie, numa das suas missões servis,com uma trouxa de roupa à cabeça, mal vestida,desgrenhada, acenando-me de modo amigável para mostrarque me tinha visto. Senti um calafrio. Dar a entender aTerence que.conhecia Maggie? Não, isso era inadmissível.Virei-lhe as costas, e assim cometi o primeiro dos doisgrandes actos de apostasia da minha infância. — Não faço ideia de quem seja, resmunguei, numa fraca

    imitação das maneiras de meu primo.

    E prosseguimos o nosso caminho, deixando Maggie comoque petrificada, ainda de braço no ar.Ao fundo da rua, Terence deteve-se diante da montra da

    mercearia, onde, numa prateleira de vidro, se exibia uma

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    das tortas de maçã do fabrico especial de Grant. Paraalém, no interior do estabelecimento, de costas voltadaspara nós, estava Polly Grant debruçada sobre um livro ecom os cotovelos apoiados ao balcão. A sua atitude, quenos oferecia uma notável vista daquela parte arredondadado corpo que geralmente se usa para o descansar sentado,

    pareceu divertir bastante o primo . Apoiando-se ematitude atlética na vidraça, por cima da torta de maçãpara a inconsciente; Parece bem boa, comentou.* Ah, sim, é óptima, Terry.* Muito redondinha.* São sempre redondas.Para minha surpresa, Terence

    desatou a rir, eu, perturbada na sua leitura,endireitou-se e virou-se nós. Encontrando o olhar do meuprimo, ruborizou-e fechou o livro, com um estaloviolento.

     — Devemos fazer qualquer coisa para adoçar a boca,pois dos ovos, volveu Terence. — Aposto que você tem aqui conta aberta.

     — Pois temos. Venho cá muitas vezes buscar mercadoriapara a minha mãe, e eles tomam nota. — Suponhamos então que vais buscar a torta e que põem naconta, propôs ele com todo o desembaraço.

     — Partiremos depois ao meio. Obedeci com entusiasmo.Polly parecia transtornada. Até se esqueceu de meoferecer o rebuçado habitual. — Quem é aquele rapaz que está contigo ? — perguntou, ainda corada. — O meu primo Terence — respondi com orgulho. — Então diz-lhe da minha parte que é um grandedescarado.

    É claro que nem pensei em entregar semelhante recadoao meu primo, o qual, quando saí com a torta, sugeriu quefôssemos até a um recanto sombrio do prado conhecido na

    região por Baldio.Aí se instalou confortavelmente, encostando-se a umcastanheiro, e abriu o saco de papel, donde se evolou oaroma apetitoso do bolo saído há pouco do forno.

    — Vista de perto não é tão grande como julguei — Observou, inspeccionando a torta, que a mim se

    afigurava muito maior do que na montra. Media pelo menosnove polegadas de diâmetro, destilava deliciosa calda e era coberta de açúcar.

     — Não tens por acaso um canivete?

    — Não. Terry. Não me dão licença para usar, com medode que me corte. — É pena — disse Terence, pensativo.

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     — Não se  pode dividir isto sem ficarmos todosbesuntados.

    Seguiu-se uma pausa, durante a qual Terence, de cenhocarregado, pareceu ponderar no assunto, enquanto aperspectiva daquele saboroso recheio me fazia crescerágua na boca.

     — Só há uma solução, declarou por fim. Tirar à sorte,e comê-la quem ganhar.És suficientemente «desportivista»para não ficar aborrecido, se perderes?* Se tu és, eu também sou, Terry.* Óptimo!* Extraiu do bolso uma moeda.

     — Se for caras, ganho, se for cunhos, perdes.Escolhe tu, dou-te essa vantagem. Cunhos, arrisqueitimidamente. Descobriu a moeda.

     — É cunhos, que pena! Não me ouviste dizer que, sefosse cunhos, perdias? Bem, para a outra vez pode ser quetenhas mais sorte.

    De certa maneira, embora os meus olhos pestanejassem,não me senti muito infeliz por ter perdido. ObservandoTerence a comer a torta vagarosamente, com todos ossinais da maior satisfação, eu reservei para mim o papelde gozar com a vista, e fi-lo até à última migalha.* Era boa, Terry?* Regular. Mas suculenta de mais para o teu estômago.

    Sem mudar a sua posição de reclinado no tronco,Terence puxou do bolso uma cigarreira de aço, tirou daíum cigarro de ponta dourada e acendeu-o perante o meuolhar reverente. — Terry, disse eu; é tão bom ter-te cá! Por que não

    vens mais vezes? E por que não posso ir visitar-te?Deitou uma baforada de fumo pelo nariz.* Questões de família...* Agarrei-me a este intróito.* Fala-me disso, Terry.

    Ele ponderou, meio hesitante, como se fosse anuir, e emseguida esboçou um gesto de negação.* És muito novo para te afligires com este género de

    assuntos.* Mas não me aflijo, Terry. Há muitas coisas que não

    compreendo, em especial a razão por que não conheço osnossos parentes.

    Olhou-me de revés. Não veria quanto me sentia ansiosopor ter notícias dos membros desconhecidos da nossafamília? —Então nenhum dos parentes da tua mãe os visitou, a

    vocês?

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     — Não, Terry. Só um dos irmãos da minha mãe, o que estána Universidade, o mais novo, chamado Stephen. E apenasuma vez em todo este tempo.

    Seguiu-se nova pausa. — Pois bem, disse por fim Terence, em tom sentencioso.

    É um pouco delicado, confesso. As relações são tensas.

    Mas como é natural que mais dia menos dia te venham adizer, não há prejuízo nenhum em saberes já.

    Deitou-se para trás, puxando fumaças do cigarro,enquanto eu esperava atento. E então começou: — Em primeiro lugar. Falava num tom quase de acusação,

    que me impressionavam, se não fosse a CompanhiaCaledoniana dos Caminhos de Ferro, não estarias hoje aísentado. De facto, não existirias.

    Esta declaração imprevista deixou-me atordoado.

    Olhei para ele, cheio de medo. Terence continuou: — Todas as tardes, quando regressava do seu trabalho emWinton, o tio Con tinha de mudar de comboio em Levenforde tomar o transporte local para Lochbridge, onde residianaquela época. Se não fosse isso, nunca teria conhecido atua mãe.

    Tal contingência pareceu-me tão incrível que ainda maisalarmado fiquei. Notando quanto eu estava atento, edivertindo-se com isso, Terry recomeçou com ar indi-ferente e um grande à-vontade.

    * Em geral Conor entrava na sala de espera, munido doWinton News, porque o comboio de Caley vinha sempreatrasado. Mas, nessa tarde, encontrou qualquer coisa, oumelhor, encontrou alguém que valia a pena contemplar.

    * A Mãe! — exclamei, tomando fôlego.* Ainda não era, Laurie. Não te apresses. Nesse momento

    tratava-se apenas de Grace Wallace, de dezassete anosencantadores.Carregou o cenho, numa expressão de censura.Chegava ali regularmente, com a sua pasta de músicas,para receber o irmão, estudante que regressava no comboiode Caley, vindo do Colégio de Drinton. — Interrompeu-sè eprosseguiu: — Ora o teu futuro pai sempre fora sensível,se me permites que o diga, às raparigas bonitas. Esta,contudo, era diferente. Embora estivesse morto por lhefalar, receava melindrá-la. Uma tarde, porém, levantou-see dirigiu-lhe a palavra. E nesse instante, Laurie, bradouTerry espectacularmente, olharam um para o outro... e omal estava feito.

     — Que mal ? — murmurei a custo. — Os pais dela eram presbiterianos ferrenhos e Grace a

    menina querida do seu progenitor, o qual, para cúmulo,

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    tinha costela escocesa que remontava a William Wallace,se é que já ouviste mencionar este nome. Raparigaadorável, estimada por todos, ajudava a mãe nas lides dacasa, cantava como um anjo no coro da igreja e nunca deraum passo em falso.

     — Terry abanou a cabeça, condoído. Quando descobriramque ela se enamorara de um irlandês adventício, para maiscatólico, e irmão de um taberneiro e, ainda, de um padre,não queiras saber o barulho que fizeram. Houve súplicas elágrimas. Durante semanas tentaram tudo o que é possívela um mortal para os separar. Não deu resultado. No fim,sem uma palavra, e embora Conor nem uma nota de cincolibras possuísse, foram ambos ao Registo Civil. Gracesabia que os parentes nunca mais lhe falariam e Conorsabia que seria banido pelos seus por  não casar na

    igreja; mas não se importaram e casaram. — Ainda bem, Terry — exclamei, aliviado, pois escutara a sua narrativa com

    certo receio.Terence soltou uma gargalhada.

     — Pelo menos tiveram-te como filho legítimo. Por ummomento observou-me como se tentasse ler-me no rosto, noqual só havia palidez. Talvez o que me contara nãoconstituísse novidade para mim, pois suspeitava vagamenteda situação melindrosa de meus pais. Contudo senti-me

    repentinamente deprimido e mais ainda pelo facto deTerence tratar com aquela ligeireza um assunto que meafectava tanto. — Agora já sabes,rematou. — Mas não digas que te falei

    nisto.* Não direi, Terry, prometi, com ar entorpecido.

    Considerava-me menos feliz do que esperara e,  para meanimar, disse: — Com que então tenho dois tios?

    * Três, do nosso lado. Meu pai, que é o teu tioBernard, de Lochbridge, e o reverendo Simon, de PortCregan, sem falar do tio Leo, de Winton, embora destepouco se saiba. — Pôs-se de pé e ajudou-me a fazer omesmo. — É altura de regressar. Preciso de uma caixa defósforos, de maneira que paramos na mercearia.

    -Vamos a correr.Partiu veloz, determinado a mostrar-me o seu estilo. Eu

    não estava com disposição para corridas, mas sen-frffieextremamente combativo para com esse primo tão cheio detalentos. Corri o mais que pude, e tanto que Terry, 

    olhando por cima do ombro, se viu obrigado a perder acompostura a fim de alargar as passadas. Talvez que atorta de maçã e os ovos cozidos o incomodassem, ou talvezque a narração que nos fizera das suas proezas nos

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    desportos de Rockcliff fosse alindada par nma habilidadeinata para o exagero. O certo é que mão me venceu; quandoalcançámos a mercearia de Gcant eu estava precisamente aseu lado. Depois de tomarmos fôlego, Terence olhou-mepela primeira vez com certo respeito.

    — És rápido. Nunca pensei. É claro, não tomei isto asério.

    Enquanto eu ficava do lado de fora, à  espera, eleentrou na loja e gastou muito tempo a escolher fósforos.Polly, que o atendia, não parecia desagradada com a suareaparição nem com o seu gosto exigente quanto afósforos. Observando através da montra, afigurou-se-meque Terry fazia rir a rapariga. Aquilo era do seu feitiolivre, despreocupado. Poderia Terence realmente amaralguém... e deixar abandonado um pobre fedelha como eu?

    Senti um nó na garganta.A minha tristeza persistiu todo o percurso até casa,aumentando durante o jantar de galinha, que estava deli-ciosa e a Mãe preparara, mas que eu mal provei. O Pai,que se achava nos seus dias de melhor disposição, deumostras de profunda amizade pelo sobrinho e presenteou-ocom uma libra, que Terry parecia já esperar e que talvezhouvesse sido o objectivo da sua visita. Por fim,acendendo a lâmpada de carboneto da bicicleta, meu primomontou na máquina e partiu para Lochbridge.

    Quando ele desapareceu da vista, entrei eu na cozinha. — Mãe, disse aproximando-me, pode ser que eu não valha

    muito, mas ao menos sou «desportivista». — Sim? — retorquiu ela, sem entusiasmo. — Não sei de que me servirá que sejas isso.* Mas é uma coisa boa. O Terry disse que era quando

    tirámos à sorte para ver quem comia a torta de maça.* Torta de maçã ? — A Mãe voltou-se com as mãos

    cobertas de espuma de sabão.

     — Por isso te faltou apetite para jantar!* Não, mãe, eu não comi uma só migalha do bolo. Terry

    comeu-o todo. — E donde veio essa torta famosa? — A Mãe observava-me

    agora com atenção.— Comprei-a e mandei pôr na nossa conta.

     — O quê ? Na nossa conta!Ficou estupefacta. Mas o Pai,que estivera a ouvira conversa, interveio:* Como foi que Terry tirou à sorte?* Fez tudo correctamente, pai. Combinámos como devia

    ser. Ele disse: se sair caras ganho eu, se for cunhos tuperdes.

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    O Pai teve um ataque de riso tão forte e prolongado quelhe provocou tosse. — Ai, o maroto! — dizia, quase sufocado. — Bem se vê que é um Carrol. — Não acho graça nenhuma —> declarou friamente a Mãe. — Amanhã de manhã falar-te-ei a sério acerca disso,

    Laurence. Agora vai já para a cama.Despi-me com lentidão e tristeza.Aquela tarde, começada tão alegremente, acabara por me

    trazer amargura. Sentia-me deprimido, com um peso naconsciência. Eu não repudiara abertamente a Maggie, aquerida Maggie, minha amiga e protectora, e por causa deum primo que me ligava tanta importância como, vamos lá,a uma caixa de fósforos? E, acima de tudo, o mistério queenvolvia meus pais e que Terry me desvendara, oisolamento em que nos víamos obrigados a viver, aca-

    brunhava-me deveras. Escondi a cara no travesseiro edeixei correr as lágrimas.

     IV 

    Nesse ano o Outono veio mais cedo. As folhas da minhaárvore preferida, franjadas de ouro e escarlate, haviamcomeçado a desprender-se, tecendo um tapete principesco àporta da forja. Os nevoeiros matinais, arrastando-se do

    estuário, deixavam cristais de orvalho nas ervasaveludadas dos campos de Snoddie. O ar suave dava umasensação de mudança e de qualquer coisa intangível que mefazia sonhar com lugares distantes, estranhos reinosdesconhecidos onde eu, contudo, achava que podia terestado em épocas remotas.

    Mas eis-nos num domingo, dia que me arrastava aconsiderações mais práticas quando eu acordava e sentia ocheiro característico de ovos e toucinho frito.

    O Pai, por tradição e crença, era o que se pode chamar

    católico declarado, no que persistia teimosamente, a des-peito de certas reservas suas, pouco ortodoxas,comopraticante, porém, devia ser classificado de tíbio. Se osol brilhava ao sétimo dia e o tempo prometia manter-sebom, o Pai alugava o potro e o veículo do fazendeiroSnoddie e ia até S. Patrício, a igreja católica maispróxima, situada em Drinton, a nove milhas de distância.A Mãe, apesar da sua educação evangélica, acompanhava-ode boa vontade, era-lhe tão afeiçoada que, estoupersuadido, iria com ele mesmo a um templo hindu, só essafosse a fé do marido. É claro que me levavam consigo, eeu, como minha mãe, sustinha a respiração perante oamadorismo de meu pai no segurar das rédeas, uma

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    temeridade mal disfarçada com fingída perícia, o que nãoconvencia nenhum de nós e ainda menos o cavalo. Este, comum mover rápido dos cascos quando meu pai dobrava renteuma esquina, virava o pescoço e olhava para ele comindignação e espanto. Às vezes aparecia nas estradasalgum raro automóvel, geralmente um Argèle encarnado,

    vindo de Lochbridge, o qual, passando rápido por nós numanuvem de poeira, só por milagre nos não atropelava. Entãoa Mãe, agarrando as abas largas do chapéu, exclamavaformalizada: — Oh, meu Deus, que máquinas horríveis! — Não, Gracie,replicava o Pai, muito calmo, segurando

    o cavalo assustadiço — é uma invenção extraordinária. Nãodesfaças nesses carros que eu ainda hei-de ter um. — Eles é que nos desfazem, murmurava a Mãe ao meu

    ouvido.Mas havia domingos em que o Pai pressentia que Deus

    não desejava que elé expusesse a família aos azares daestrada. Lendo-lhe no rosto, quando o Pai inspeccionava océu pardacento e farejava o ar que prometia chuva,percebia que esse domingo seria para mim de grandeexcitação. E, na verdade, após o almoço, que ele tomavaem roupão, o Pai virou-se para a Mãe e disse: — Talvez, minha filha, devesses fazer umas sanduíches

    para mim e para o pequeno.

    Em geral tratava-a por «minha filha» quando queria asatisfação de qualquer serviço.Foi ao andar superior e voltou com o seu traje ha-

    bitual das nossas expedições, fato de golfe, cinzento,amplo, botas fortes, meias altas, capa inteira de bor-racha com um buraco para enfiar a cabeça e presa aopescoço com fecho de metal. Saímos, subindo a rua daEstação e atravessámos a aldeia, onde os sinos da igrejaparoquial começavam a tanger. Em resposta a este apelo,os «indígenas», como o  pai insistia em apoiá-los,

    dirigiam-se para o templo, numa onda vagarosa e solene,quase todos vestidos de preto e munidos com as suasBíblias. — Escaravelhos negros! — Tal foi a exclamação proferida

    a meu lado.Tenho a certeza de que o  Pai escolhera de propósito

    esse momento para, como católico intruso, mostrar o seupúblico desdém pelas convenções do rito escocês. Era asua maneira de desafiar os preconceitos da aldeia quecirculavam em nosso desfavor. Hoje em dia, quando umliberalismo esclarecido procura promover a unidade dasigrejas, é difícil conceber a má vontade que noutrostempos se levantava contra os católicos, em especial os

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    irlandeses, no Oeste da Escócia. Esses descendentes deindesejáveis refugiados famélicos, muitos dos quais nãotinham ainda conseguido elevar-se acima do nível daclasse operária, eram sempre designados por «desprezíveisIrlandeses» e execrados por todos, tanto por causa da suanacionalidade como da sua religião, a que se referiam em

    termos tais como: «Meretriz Romana, Bebedora do Cálix daAbominação, Prostituta Sentada sobre as Sete Colinas doPecado». Eu próprio tremera ao soletrar a notícia de umsermão que seria pregado na igreja paroquial da aldeia,com este tema: «Roma, o Assento da Besta, segundo oApocalipse, 18-19.»

    Mas o temperamento do Pai, muito diferente do meu, eracombativo; divertia-o provocar os olhares indignados e oslábios franzidos e o não ligar importância à reprovaçãogeral que a nossa aparição suscitava. Naquele dia, comode costume, cortou a aldeia a passo elástico, quasegarboso, de cabeça erguida, ar distante e um sorrisodesdenhoso nos lábios, que ele de vez em quando comprimiasimulando assobiar. Para mim, trotando a seu lado etemendo algum desaire, a provação era torturante, somentealiviada um pouco pelos olhares invejosos e disfarçadosdos outros rapazes para quem o domingo era umapenitência, preenchida com duas horas de sermão, um diade tédio excruciante em que o simples levantar da voz

    constituía uma profanação, o rir representava um crime, ea passagem do comboio ronceiro (conhecido como «rebenta-domingos» por desafiar a santidade do dia) significava umexemplo publicamente proclamado do mal que estava levandoo mundo à perdição.

    Comecei a respirar mais à vontade quando atingimos oúltimo marco da aldeia, a serração de Macintyre, echegámos ao campo raso. Aí, passámos pela entrada dapropriedade de Meikle, portão nobre com altas colunas,cada qual sobrepujada de uma águia de bronze e ladeada de

    dois cubelos iguais de pedra, no estilo grandioso dopaís. A alameda subia serpeando, entre rododendrosatravés do parque, aparentemente até ao infinito. A vistadesta quinta magnífica e privilegiada já me causara umtremor preliminar, que se intensificou quando o pai, auns duzentos passos abaixo da estrada real, lançou umolhar cauteloso derredor e, fazendo-me sinal para que oseguisse, se introduziu por uma abertura da sebe.Encontrávamo-nos agora nos terrenos arborizados,rigorosamente defesos, de Lady Barba de Baleia. Eu tremiasó a este pensamento. O Pai, todavia, imperturbávelsempre, seguiu o seu caminho sob as faias (cujos frutosnos estalavam debaixo das botas) e conduziu-me a uma

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    encosta coberta de fetos. Depois, circundou uma plantaçãode pinheirinhos novos e penetrou numa mata mais cerrada,cheia de árvores grandes e pequenas, que murmuravam aosom de água corrente. Era o rio Gielston, estritamentereservado, notável pela abundância das suas trutas.

    Chegado à margem do rio, logo abaixo das quedas de

    água, a primeira coisa que o Pai fez foi tirar de sob acapa um saco de lona e armar as várias secções da cana depesca. Ajustado o molinete e enfiada a linha, começou poratirá-la à parte espumante do cimo do poço. Em pequeno,quando vivíamos perto das margens do Loch Lomond, pescaraentusiasmado em todos os arroios que alimentam o lago, eagora, enquanto eu observava atento e me era permitidopegar uma vez por utra na cana, comunicava-me tambémaquele mesmo dor.

    Gostaria de enaltecer as qualidades piscatórias, doai, contar que ele usava plumas ou, pelo menos, mostraras verdadeiras. Mas não era assim. Pescava com minhocas,que Maggie procurara na quinta e que eu ia apanhando,fervilhantes e escorregadias, de uma lata de cacau quetrazia no bolso. O objectivo do Pai era apanhar peixe, eele seguia o mesmo sistema que utilizara na juventude.Nesse dia, porém, dir-se-ia que não estávamos com sorte. — Nem sequer mordem o isco, exclamou, maçado, mas sem sedar por vencido. — Contudo, aqui, deve haver trutas...

    Deixemos a linha na água e vamos almoçar.As sanduíches da mãe eram sempre boas, em especial detomate. Sentámo-nos numa pequena clareira, debaixo de umvidoeiro, que espalhava suave claridade de verdeprateado. O rio esparrinhava e cintilava através daservas altas e dos caniços. O rumor das árvores incutia-nos uma sensação assustadora de isolamento. De tempos atempos a voz de gaio, manifestando-se de súbito, fazia-meestremecer. Como em todas as nossas excursões eu tinha ummedo horrível de que o couteiro os apanhasse, ou, pior

    ainda, que surgisse a dona da propriedade, aquelamulherzinha que troçara de mim o meu primeiro dia deescola e a quem, no íntimo, eu designava apenas, e comódio, pelo pronome de ela. Era o pensamento que meestragava a alegria. O Pai, vez de propósito, para meexperimentar, fingia de vez em quando alarmar-se.«Caluda! Aí vem ela!», o que e causava calafrios,enquanto ele abanava a cabeça, como se a escarnecer dasminhas aflições.

    Terminado o nosso piquenique, o Pai estendeu-se, commãos por baixo da cabeça e o chapéu desabado sobre olhos.Tinha o olhar levemente amortecido, que pronunciava a

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    sesta, o que me foi confirmado quando lhe vi estaspalavras: — Vai apanhar framboesas.As framboesas cresciam silvestres por toda a parte da

    mata. Não havia necessidade de ir muito longe, tínhamo-las ali à mão em grande quantidade. Logo que me encontreientre o enredado da vegetação, escondido e seguro,despertou em mim o espírito de aventura. Já não era ofedelho, como me considerava o Terry, mas transformara-me, de repente, no herói das histórias de meu pai.Colhendo framboesas maduras, besuntando as mãos e a caracom o suco avermelhado, senti-me numa ilha deserta, numafloresta virgem, matando a fome e extinguindo a sedeardente no oásis, para onde fora levado ao dorso de umcamelo.

    De súbito, uma série de ruídos, como de chafurdar naágua, levou-me a correr para o lado do Pai. Estava estede pé, na margem do rio, tenso no esforço que fazia desegurar com ambas as mãos a cana incrivelmente curvada emarco, enquanto um peixe enorme se debatia furioso àsuperfície líquida, torcendo-se e mergulhando, saltandono ar e tornando a cair com um chape retumbante.

    A luta demorou minutos intermináveis. A água refervia eeu experimentava uma angústia imensa, com medo de que avítima nos escapasse. Por fim, lentamente, o ambicionadopeixe cedeu, esgotado e vencido, doirado pela turfa emque embatera, e o pai, com um puxão rápido mas delicado,lançou-o na vertente pedregosa.* Que beleza! — exclamei.* Uma linda truta!* replicou o Pai. Também ele respirava com dificuldade.

     — Pesa pelo menos cinco libras.Depois de nos acalmarmos, e de ter admirado o troféu em

    todos os aspectos, o Pai resolveu que já chegava por

    aquele dia, tanto mais que o sol agora vencera as nuvens.Mas o que ele estava era morto por mostrar o peixe à Mãe,que muitas vezes troçava do tamanho da nossa pescaria.Abaixou-se, passou uma corda rija através das guelras datruta, ergueu o peixe até à altura do cinto e ali oamarrou fortemente. — Olhos não vêem, coração não pena — observou risonho,

    pondo a capa. — Vamo-nos embora, Laurie. — Não, por aínão...

    O Pai, encantado com o seu êxito, achava-se na melhor

    disposição. Com o peixe oculto sob a capa embaraçosa masnecessária, ele decidira, como percebi, evitar o longodesvio pela mata. Sem fazer caso dos meus protestos,

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    * Real Fermento Holandês de Hagemann. — De novo osseus olhos me procuraram. — Intimamente ligado àquilo queé o esteio da nossa vida...* Sim, minha senhora — redarguiu o Pai, com a modéstia

    e a segurança de quem conduzira a sua causa a bom termo.Ali de pé, quase satisfeito, não tinha consciência dasmisteriosas gotas de água que lhe escorriam para o chão,onde formavam já um charco razoável, mesmo a seus pés. Eusentia-me desolado. Teria ela visto? E que iria fazer,nesse caso?* Com que então o seu sócio interessa-se por orquí-

    deas... — Meditou um instante. — Pensei que os holandesessó cultivavam túlipas.* Decerto, túlipas, minha senhora. Campos cheios

    delas. Mas também orquídeas.

    Fiquei esperançado quando vi nos lábios de Lady Meikea sombra de um sorriso. Infelizmente era ilusão.* Venha daí — disse ela em tom categórico. Mostrar-

    lhe-ei a minha colecção e pode depois descrevê-la ao seucaprichoso Mynheer.* Contudo, minha senhora, era só uma autorização...

    protestou o Pai. — Não queremos incomodá-la num domingo.* É o melhor dia, meu caro senhor, realmente o

    melhor. Quero ver como ambos reagirão perante as minhasorquídeas.

    * Pela primeira vez, o Pai pareceu desanimado, eficou mudo. No entanto, não havia outra alternativa. Adama levou-nos pela alameda, depois pelo terraçofronteiro à residência imponente, até que chegámos àestufa, grande construção de vidro, de estilo vitoriano,com uma armação de ferro pintado de branco e anexa à alamais afastada da casa. Entrámos nesse palácio de cristalatravés de uma dupla porta de vidro, que a dona fechouatrás de nós, e, saudados por um bafejo de ar húmido,

    achámo-nos imediatamente nos trópicos. Erguiam-sepalmeiras até ao teoto alto, de mistura com fetosarbóreos, que estendiam a copa enorme muito acima daminha cabeça; bananeiras com cachos de frutos emminiatura; estranhas trepadeiras enroscadas; iúcasespinhosas; nenúfares do tamanho de bandejas, flutuandonum tanque; tufos de plantas luxuriantes, de que eu nempodia adivinhar o nome; e, no meio de tudo isto, de tonssingulares, cintilando como aves exóticas, estavam asorquídeas.

    * No meu estado normal sentir-me-ia arrebatado poressa grandiosa materialização de tantos dos meus sonhos.Mas, mesmo assim, a minha inquietação ficou meio

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    esquecida. Eu olhava pasmado, seguindo lentamente a nossaguia, a qual, divagando de uma forma que não era de tododesagradável, apresentava os seus espécimes a  meu Pai.Havia ali calor, muito calor. Eu já começava atranspirar. Por toda a parte se viam tubos donde seelevava vapor, e pareceu-me que o Pai era obrigado a

    parar, examinar e escutar sempre que se aproximava maisdos tubos. Olhando directamente para ele, pela primeiravez desde que entrámos, compreendi que estava aflito porcausa do seu fato pesado de lã. Escorriam-Ihe grossasgotas de suor pelo rosto, que, embora ainda não tivesse acor dos tomates que a  Mãe pusera nas sanduíches,adquirira no entanto o tom do ruibarbo cozido.* Talvez esteja aqui um pouco abafado. Por que não tira

    a sua capa?*

    Muito obrigado, minha senhora — respondeuapressadamente o Pai. — Não me sinto mal assim. Até gostodo ar quente.* Então depare nesta cataleia tão rara. Pode ver de

    mais perto, se se inclinar sobre os tubos.Ao contrário das outras orquídeas, cujo aroma me

    passara despercebido, aquela cataleia tinha um odor muitoespecial. Cheirava, em suma, quando o Pai se inclinou, apeixe...

    Novo terror me dominou. A nossa truta, habituada às

    águas frígidas do oceano, não se adaptava de bom grado aesse clima equatorial. — Linda... belíssima... — O Pai já nem sabia o que

    estava a dizer, enquanto disfarçadamente limpava a testaencharcada, com as costas da mão.* Meu caro senhor — disse, muito solícita, o nosso

    algoz de saias — está positivamente a transpirar. Insistoem que tire essa capa tão pesada.* Não... não vale a pena — respondeu o Pai em voz

    sufocada. — Estamos muito gratos, mas... um compromissoimportante... já é tarde... temos de nos retirar... — Que disparate! Nem pense nisso. Ainda não viu senão

    metade dos meus tesouros.E enquanto a nossa temperatura subia e aumentavam as

    emanações ardentes, a terrível mulherzinha fez-noscompletar o lento e sufocante circuito da estufa,forçando-nos ainda a trepar a escada de ferro pintada debranco que se elevava em caracol até ao tecto onde,intensificado pela sua ascensão, o calor mortal produzia

    uma miragem em que o panorama que fôramos induzidos aapreciar assumia o aspecto de um mar verde e túrgido comfrias ondas tentadoras, nas quais o Pai, pelo menos, de

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    boa vontade mergulharia. Por fim, ela abriu a portaenvidraçada e, enquanto parávamos exaustos no abençoadoar livre, dirigiu, primeiro a mim e depois a meu pai, umsorriso de certo modo amável. — Não se esqueça de transmitir os meus cumprimentos ao

    seu amigo holandês — disse quase com benevolência.

     — E, por esta vez, pode ficar com o peixe.O Pai desceu em profundo silêncio toda a alameda. Nem

    me atrevia a olhar para ele. Como devia ser terrível asua humilhação, o enorme vexame de um homem que, até aí,eu julgara capaz de vencer tudo e se via agora na maisembaraçosa e aflitiva das situações! De súbito,estremeci. O Pai estava a rir; sim, ria a bom rir, às gargalhadas. Pensei que nunca mais acabaria. Vol-tando-separa mim, com um olhar de cumplicidade, deu-me umapalmada nas costas. — A velhota levou a melhor! Palavra que fiquei a

    gostar dela!Com estas poucas palavras se recompôs. A minha fé nele

    havia-se restaurado. 0 Pai era sempre assim; tinha ahabilidade de transformar a derrota em vitória. Mas, umpouco antes de chegarmos a casa, pôs um. dedo nos lábiose piscou-me o olho esquerdo.

    — Apesar de tudo, não se diz nada à tua mãe.

     V 

    Fiz as pazes com Maggie, acto de reparação pelo qual

    mais tarde abençoei minha mãe.Consultando-a sobre os meios mais apropriados para a

    reconciliação, sugeriu-me que despendesse o meu dinheirosemanal na compra de qualquer coisa que fosse mais doagrado da minha atraiçoada amiga. Por conseguinte gastei,na loja de Luckie Grant, metade dessa quantia em

    rebuçados e a outra metade em bonecos de decalcar, elevei esses presentes a casa de Maggie, situada no outrolado da linha férrea.

    Encontrei-a sentada junto de um fogo mortiço, nacozinha pequena, escura e lajeada, que cheirava a água delavagens. Estava com uma inflamação de garganta e tinhaem volta do pescoço uma meia de lá presa com alfinete deama. Talvez por causa disso, recebeu-me com gentileza, etão grande que não pude conter e chorei de remorso. Poresta fraqueza, Maggie admoestou-me em tom brando, compalavras que ainda tenho nos ouvidos: — Oh, Laurie, está cada vez mais chorão! Tem o saquinho

    das lágrimas sempre pronto.

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    A mãe de Maggie saíra, o que me deu grande alívio, nãosó porque importunava de contínuo a filhamas tambémporque, chamando-me embora «querido» e outras expressõesque eu sabia serem falsas, pretendia tirar nabos dapúcara em relação às coisas da minha casa, pois faziaperguntas insidiosas, tais como: se os meus pais viviamem boa harmonia, quanto pagara o Pai pelo chapéu novo daMãe, e por que motivo comíamos peixe à sexta-feira.

    Toda a tarde eu e Maggie ficámos sentados à mesa dacozinha, entregues à decalcomania e a chupar rebuçados.Para festejar a nossa amizade restabelecida, dei-lhe umamedalhinha que afirmei ser capaz de lhe curar a doença degarganta, era um S. Cristóvão de prata, do tamanho eforma de uma moeda de meio xelim, mas não me atrevi ainvocar a qualidade religiosa da oferta e aleguei ser

    apenas um amuleto. Maggie, que apreciava objectos dessegénero, gostou bastante e, quando nos separámos,repetidamente me declarou que íamos de novo ser amigos.

    Apesar disto, não a tornei a ver muitas vezes nesseInverno. A minha pobre amiga nunoa tinha momentosdisponíveis. Entretanto, quando fazia em casa os meusexercícios escolares, fiquei ciente, escutando com umouvido a conversa de meus pais, que estavam a prepararboas coisas para Maggie e para a melhoria da suasituação.

    Desde que vivíamos com mais desafogo, o Pai insistiacom a Mãe para que tivesse uma pessoa que a ajudasse nalida caseira. Nunca gostara de a ver esfregar ou varrer,embora deva confessar que raramente se oferecia para aauxiliar nesses serviços. A Mãe, creio-o firmemente,sentia prazer no trabalho e gozava a satisfação depossuir um lar ordenado, limpo, reluzente. Tinha o que osEscoceses chamam orgulho na casa, e eu lembro-me bem decomo, nessas dias em que ela lavava a cozinha e asprateleiras dos armários, eu tirava os sapatos e, empeúgas, passava sobre jornais espalhados no chão. Porisso ela punha objecções à sugestão do Pai, mas por fimduas circunstâncias a induziram a mudar de ideias: opiano novo, que lhe exigia maior cuidado na conservaçãodas mãos, e Maggie, agora com catorze anos e que deixavaa escola no fim do mês.

    A Mãe era de coração sensível. Tinha pena de Maggie, aquem se afeiçoara. Fez uma proposta ao Pai, queimediatamente a aceitou e da qual me tornei instrumento

    quando a Mãe me ordenou: — Laurie, se vires a Maggie diz-lhe que desejo falarcom a mãe dela.

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    No dia seguinte, quando à hora do almoço Maggie sedeteve à nossa porta a fim de prevenir que a suaprogenitora viria no sábado à noite, minha mãe aproveitoua ocasião para a sondar. Não assisti à entrevista, mas aexpressão da rapariga, à partida, era de orgulho efelicidade. E quando, à tarde, a vi na escola, apre-

    sentava um ar diferente, importante, superior, enquanto,interrompendo-se apenas para me dirigir um sorriso,confidenciava às outras pequenas da sua classe que, livreda tirania das eternas vasilhas de leite, ia ser nossacriada, ter o seu quartinho, um vestido novo e um bomordenado.

    O outro dia foi sábado. De tarde, conforme era costumetodas as semanas, a Mae envergou o seu fato cor de peito-de-rola, e, levando-me pela mão, encaminhou-se para a

    aldeia, com aqueles modos francos e amigáveis queinvariavelmente assumia em tais circunstâncias e que emnada se pareciam com os que o marido afectava. A atitudedo Pai em público era na verdade indesculpável. Penso quefora desconsiderado, de qualquer forma desconhecida paramim, nos seus primeiros tempos, em Rosebank, e osinsultos não os esquecia facilmente. A Mãe, pelocontrário, mostrava-se amável para todos, perdoava tudo,procurava granjear amizades, e queria sempre aplanar asusceptibilidade do marido, desfazer preconceitos e

    acabar com situações hostis. Essas saídas ao sábado,embora ostensivamente para fazer compras, tinham outroobjectivo, e durante o nosso passeio, enquantocorrespondia prontamente às saudações dos seus poucosconhecidos, a Mãe, respirando uma atmosfera de bonssentimentos, mantinha comigo animada conversa acerca detodos os assuntos e dava assim ao povo da aldeia umaforte impressão dos nossos instintos sociais.

    Na referida tarde, gastou meia hora agradável na lojade Miss Todd, escolhendo um vestido escuro e também um

    par de meias e sapatos para Maggie. Depois, conversou comPolly Grant, que nunca deixava de perguntar pelo meuprimo Terence, e, ao sair da mercearia, recebeu umcumprimento da senhora Duthie, mulher do médico. Ascoisas iam correndo bem. Mas não ficou por aqui. Quandoregressávamos a casa, encontrámos Rankin, que atravessoua rua com dificuldade para nos vir falar.

    — Tem um momento disponível, senhora Carroll? A Mãe,naturalmente, dispunha de tantos momentos quantos fossemprecisos. Rankin, solteirão, era sempre tímido perante asmulheres. Respirou fundo, o que percebi ser o prelúdio deum longo discurso tão cheio de gaguez como aquela que,semdúvida, o prejudicara na oratória sagrada.

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     — Tem um filho brilhante, minha senhora. Algumas dassuas redacções são notáveis. Leio-as a toda a classe. Masnão é disso que pretendo agora falar-lhe. Trata-se doseguinte. Lady Meikle está a organizar um concerto decaridade, em benefício do Asilo das Crianças, que deveráefectuar-se no dia cinco do próximo mês, e eu lembrei-

    me... nós lembrámo-nos de que talvez a senhora acedesse atocar um solo de piano. Eu... nós ficaríamos muitohonrados e gratos se nos desse a sua colaboração.

    Olhei para minha mãe. Corava até à raiz dos cabelos e,por momentos, não soube que responder.

    — Oh, mãe, diga que sim! — exclamei. — Sabe tocar tãobem! — Aceito o convite — proferiu ela vagarosamente. — 

    Tocarei.

    No trajecto para casa, a Mãe, em geral tão faladora,guardou silêncio completo. Contudo, pelo seu própriomutismo, compreendi quanto se sentia contente por essaprova de estima há tanto tempo esperada.

    O Pai estava na cozinha a preparar uma infusão deervas. A sua constipação não desaparecera inteiramente eele resolvera medicar-se a si mesmo. Parecia abatido,numa disposição muito longe de ser favorável. Quando aMãe revelou a grande novidade, ele olhou-a com fixidez.Palpitou-me que repeliria esse precioso convite, para se

    desforrar da gente da terra. — Naturalmente mandaste-os à fava. — Não, Conor. — A Mãe abanou a cabeça com ar decidido.

     — É uma coisa agradável. Significa que estão, enfim, aaceitar-nos. — Vieram ter contigo porque precisam de ti.

    Mas a Mãe já sabia que ele ia objectar e estava resolvidaa levar a sua avante. Contradisse todos os argumentos,discutiu e, por fim, o Pai não só concordou como semostrou ufano com a ideia. Compreendendo que Lady Meikleestava «por trás daquilo», sentiu-se inclinado (comovelho conquistador) a atribuir o convite à influência quetinha sobre a dama em resultado daquele memorávelencontro. — Como vês, filho — disse-me com ar de cumplicidade — 

    ela não nos esqueceu.Esse olhar jocoso do Pai foi como um selo aposto aos

    novos moldes da nossa existência. Estávamos a progredirna sociedade. 0 Pai prosperava, a Mãe ia tocar no

    concerto, eu fora elogiado pelo meu professor, por causadas redacções semanais, e, para coroar tudo, o povo daaldeia começava a gostar de nós. Que feliz eu era e quebelo futuro se me deparava ao longe!

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    Ficou calada. Esperava invectivas e preparava-se paraisso, não para ouvir a nossa digna resignação. Antes deela voltar a si do espanto, o Pai fechou a porta com todaa serenidade.

    Como eu o admirei naquela ocasião! Sabia-o capaz degrandes rompantes, de ostentações contundentes e des-

    denhosas e afinal vi-o reduzir o incidente a uma dis-cussão vulgar. Nós mesmos, sem razão, ficámos silenciososo resto da noite. Por causa da Mãe, o Pai estavaevidentemente irritado, e até acendeu um cigarro: não erafumador, por falta de propensão para isso, ou talvezporque se orgulhava da brancura dos dentes e não quisessemaculá-la, mas em certos e raros momentos de contensãorecorria ao tabaco. E agora, soprando baforadas com ainexperiência de um principiante, semicerrava um olhopara evitar que o fumo o molestasse e arregalava o outropara minha mãe, desejoso de a serenar,tanto a ela como asi mesmo.

    No dia seguinte, na escola, a notícia da situação deMaggie havia já atingido a cerca do recreio, e eu pudeobservar que atormentavam a rapariga. Maggie, no entanto,embora desanimada, conseguiu resistir e ripostava comolhe era possível. Depois das lições, esperou por mim e,pegando-me na mão, desceu comigo a rua. — Apesar de tudo, continuamos amigos, Laurie. E

    qualquer dia hei-de trabalhar para a sua mãe.Mas a Mãe estava ainda transtornada. Não tinha ânimode se treinar para o concerto. Na noite, porém, do últimodia do mês, após haver feito a ceia, sentou-se ao pianoenquanto esperava pelo regresso do marido. Eu achava-meno meu posto, à janela, tão mergulhado, contudo, empensamentos que o apito do comboio me pareceu soar deoutro mundo. A pouco e pouco tomei consciência de que oPai já vinha há muito tempo da estação, a caminho decasa, e por fim ouvi o estalo familiar da porta. A Mãe

    foi logo ao seu encontro. Lá fora era quase noite. Desúbito, através da janela, descobri dois homens quedesciam devagar a rua. Cheguei-me à vidraça, que limpeidepois de a bafejar com o hálito, e conheci o carregadorJim e o sinaleiro que trabalhava na passagem de nível.Passavam agora defronte da nossa residência, sem pressa,atrás um do outro, de cabeça pendida, transportando nãosei quê. Parecia uma tábua comprida, tapada com umcobertor. A princípio não compreendi, mas foi tãosinistra a impressão recebida daquela coisa alongada e dopasso cadenciado dos homens que a seguravam que de re-pente experimentei um medo terrível. Corri ao Pai, que seencontrava no vestíbulo, com a Mãe, e não tirara o chapéu

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    nem o sobretudo; o rosto apresentava-se lívido, e, numavoz que mal reconheci, ele dizia à mulher: — Devia ter enfiado o pé nas agulhas. O comboio vinha

    devagar. Grace — acrescentou, quase sufocado da comoção — se a visses, quando a levantámos!

    A Mãe, soltando um grito lancinante, tapou a cara com

    as mãos.Mudo de horror, não avaliei imediatamente a minha

    mágoa: percebi apenas que Maggie se libertara para sempredas suas vasilhas de leite.

     VI

    Quão triste e confuso, e sobretudo, imprevisto foi operíodo que se seguiu! Mesmo agora, ao evocá-lo, ainda

    não consigo rever aquilo tudo sem sentir imensa dor.Ninguém, evidentemente, poderia censurar minha mãe pelamorte da Maggie. Naquela mesma noite o Pai voltou àpassagem de nível munido de uma lanterna da própriaestação e descobriu, entalado no carril, o saltodesprendido de uma bota de Maggie. A minha desgraçadaamiga ficara ali presa e fizera, sem dúvida, esforçosdesesperados para se libertar. No inquérito, o delegadodo procurador declarou que, se Maggie tivesse querido

    suicidar-se, não meteria ali cuidadosamente o pé paradepois tentar tirá-lo. E eu sabia muito bem, pelas derra-deiras palavras tão esperançosas da rapariga, que nãohavia nela nenhuma intenção de se matar. No entanto,apesar da evidência, a certeza do acidente foi rejeitadapela gente da aldeia em favor da pior alternativa, eMaggie, exaltada na imaginação popular pelo horror datragédia, tornou-se uma mártir de cujo sacrifício nós éque teríamos a culpa. O tema foi glosado com variações. 0

    Pai, relatando amargamente o último falatório, não nospoupou também. Se não houvéssemos interferido entre umamãe ciosa e a sua filha única. Fazendo-lhe falsas promessas e dando-lhe esperançasilusórias, se ao menos tivéssemos deixado a pobre pequenaem paz, ela ainda estaria viva e feliz. E que necessidadetínhamos nós de uma criada?

    A Mãe, que não saía de casa há vários dias e que nessaaltura nem lhe apetecia jantar, uniu as mãos, suplicante.

     — Temos de nos ir embora, Conor. — Ir embora? — O Pai parou de comer. — Sim. Sair desta malfadada Ardencaple. Foi sempre o

    teu desejo.

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     — O quê! — O Pai ergueu as sobrancelhas, de formaassustadora. — Partir! Fugir como um coelho! Quem pensasque sou? Ardencaple não tem nada de mau em si mesma.Gosto desta terra. Agora, principalmente, nada me fariasair daqui. Além disso... — Falava devagar, acentuandobem as palavras. — Não te esqueças de que tecomprometeste a tocar no concerto.

    —Não irei a concerto nenhum! — exclamou a Mãe,arrepiada só a essa ideia.

    * Vais, sim, Grace.* Não, não tenho coragem.* É teu dever.* Não serei capaz. Desisto.* Não podes desistir.- Oh, Conor, estar ali sozinha perante toda essa gente!

    * Não estarás EÓ. Estarei contigo. E também o Laurence.Deves compreender, acrescentou ele, olhando-a comseveridade, que a tua não comparência será considerada umreconhecimento de culpa. Ora nós não somos culpados doacidente que provocou a morte da Maggie. Temos, portantode ir, para nossa defesa e para mostrar que não ligamosimportância ao que se diz.

    Já eu estremecia à perspectiva que de longe me estendiaos braços gelados. Entretanto, tal como minha mãe, fiqueiconsternado diante do olhar calmo e resoluto do Pai.

    — Verás — disse ele, como se falasse consigo mesmo. — Sim... verás.Na tarde do concerto o Pai veio para casa noutro

    comboio mais cedo. Debaixo do braço trazia uma caixacomprida de papelão, cujo conteúdo só me foi reveladoquando, às seis e meia, a Mãe saiu do seu quarto e desceulentamente a escada, quase contra vontade. Vinha muitopálida, mas linda, com um vestido novo de seda azul,decotado e de longa saia pregueada.

    * Óptimo, declarou o Pai em tom categórico, depois de aexaminar com olhar crítico. Exactamente da cor dos teusolhos.* É muito bonito, disse a Mãe com voz sumida, e devia

    ter-te custado um dinheirão. Mas... oh, sinto-me tãonervosa!* Isso passa, volveu o Pai, com o mesmo ar peremptório.Então, para meu espanto (pois nunca vira semelhante

    coisa lá em casa e sabia que meu pai tinha em tal grau avirtude da temperança que raras vezes ia além de umacerveja, na roda dos seus clientes), exibiu uma garrafaque ostentava o seguinte rótulo, Conhaque Três Estrelasde Martell. Cuidadosamente, como se doseasse um remédio,

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    deitou determinada porção num copo, acrescentou um poucode soda do sifão, e por fim entregou à mãe a bebida assimpreparada. — Não, Conor, não.— Toma, insistiu meu pai, implacável.Isto dar-te-á

    coragem.

    Enquanto a Mãe hesitava, ouviu-se o barulho de cavalose o rodar de uma carruagem aproximando-se da nossa porta.Tremendo àquele som, ela agarrou no copo e, enquanto eu aobservava, de olhos arregalados, esvaziou-o de um trago,o que a fez sufocar.

    A escuridão dentro do cupé proporcionou-nos alíviotemporário. Sentei-me no extremo do banco, muito im-pertigado por causa do colarinho de goma e do meu fato dever a Deus. O Pai envergava também o melhor traje; quantoao bigode, frisara-o e virara-lhé as pontas para cima,dando-lhe um ar aguerrido. Ao menos apresentávamos umafrente combativa, para ò que desse e viesse.

    De súbito, quando o clarão vermelho da forja iluminou ointerior do veículo, vi a Mãe estender o braço e agarrarna mão do Pai. — Agora não tenho medo, Con. Sinto-me cheia de coragem,

    e sei que vou tocar o melhor que puder.O Pai riu-se baixinho, o que me causou espanto.

     — Eu não te dizia?

    — Sim, meu querido. — A voz da Mãe tinha uma entoaçãoestranha. — No entanto... gostava que me beijasses.

    Estaria ela também louca? Para minha vergonha e horror,sem se importarem comigo nem com a possibilidade de seremvistos da rua, beijaram-se e em seguida a Mãe soltou umlongo suspiro de consolação.

    Foi um alívio vê-la desaparecer, bem disposta, pelaporta lateral, a dos artistas, enquanto eu e o Paivirávamos para a entrada principal. O átrio estava cheio,

    e já havia gente nos lugares do fundo da