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ESTATUTO DO DESARMAMENTO

Lcio Valente (luciovalente@pontodosconcursos.com.br)

ESTATUTO DO DESARMAMENTO (LEI 10.826/2003)

O que arma de fogo? Bom, segundo o Decreto 3.665/00 arma qualquer objeto que tem por objetivo causar dano, permanente ou no, a seres vivos e coisas. As armas podem ser classificadas em: a) Arma branca: artefato cortante ou perfurante, normalmente constitudo por pea em lmina ou oblonga (arredondada). Podemos citar como exemplos: facas, espadas, bastes etc. Obs.: espingarda de chumbinho pode ser considera arma branca. As armas brancas no so objeto da presente lei. Mas, portar arma branca configura infrao penal? Sim. Apesar de no ser abrangida pelo Estatuto do Desarmamento, a Lei de Contravenes Penais, em seu art. 19, assim descreve: Art. 19. Trazer consigo arma fora de casa ou de dependncia desta, sem licena da autoridade: Pena priso simples, de quinze dias a seis meses, ou multa, de duzentos mil ris a trs contos de ris, ou ambas cumulativamente. A arma a que se refere a lei de contravenes s pode ser a branca, uma vez que armas de fogo so objeto da Lei 10.826/03. Assim, portar soco ingls, faca, nunchako etc. podem configurar contraveno penal caso no haja justificao para tal (ex.: um lenhador pode portar machados, um escoteiro pode portar canivetes etc.) b) Arma de fogo: arma que arremessa projteis empregando a fora expansiva dos gases gerados pela combusto de um propelente confinado em uma cmara que, normalmente, est solidria a um cano que tem a funo de propiciar continuidade combusto do propelente, alm de direo e estabilidade ao projtil (ex.: revlveres, pistolas, garruchas, fuzil, canhes etc.).

c) arma de uso permitido: aquela cuja utilizao autorizada a pessoas fsicas, bem como a pessoas jurdicas, de acordo com as normas do Comando do Exrcito e nas condies previstas na Lei no 10.826, de 2003 (Decreto 5.123/04). Podemos citar como armas de uso permitido as armas de fogo curtas, de repetio ou semi-automticas (nem todas), como por exemplo, os calibres .22 LR, .25 Auto, .32 Auto, .32 S&W, .38 SPL e .380 Auto. d) arma de uso restrito: aquela de uso exclusivo das Foras Armadas, de instituies de segurana pblica e de pessoas fsicas e jurdicas habilitadas, devidamente autorizadas pelo Comando do Exrcito, de acordo com legislao especfica (Decreto 5.123/04). So de uso restrito as armas, munies, acessrios e equipamentos iguais ou que possuam alguma caracterstica no que diz respeito aos empregos ttico, estratgico e tcnico do material blico usado pelas Foras Armadas nacionais e por foras policiais. Exemplo: pistola automtica de qualquer calibre, fuzis etc. e) Acessrio de arma de fogo: artefato que, acoplado a uma arma, possibilita a melhoria do desempenho do atirador, a modificao de um efeito secundrio do tiro ou a modificao do aspecto visual da arma (ex.: mira laser). f) Munio: artefato completo, pronto para carregamento e disparo de uma arma, cujo efeito desejado pode ser: destruio, iluminao ou ocultamento do alvo; efeito moral sobre pessoal; exerccio; manejo; outros efeitos especiais; Obs.: a chamada bala de borracha pode ser considerada munio para efeitos desta lei. Quais bens jurdicos so protegidos pelo Estatuto de Desarmamento? Bom pessoal, a lei procura proteger a incolumidade pblica, quer dizer, a garantia da segurana de todos ns contra possveis atos perigosos praticados por terceiros. Afirma-se que os crimes previstos no Estatuto so classificados como crimes de perigo. O que significa isso? Os crimes de perigo so aqueles que ficam configurados com a simples possibilidade do dano. No se exige efetiva leso a bem jurdico. Por exemplo, o crime previsto no art. 130 do Cdigo Penal, assim descreve: Expor algum, por meio de relaes sexuais ou qualquer ato libidinoso, a contgio de molstia venrea, de que sabe ou deve saber que est contaminado. Veja que a lei exige apenas que a vtima seja exposta ao perigo. Nesse passo, mesmo que a vtima no pegue a doena o crime estar configurado. Se Jos, portador de cancro mole 1, mantm relaes sexuais com Maria sem alert-la de tal situao, responder pelo crime, mesmo que Maria no pegue a doena. Os crimes de perigo subdividem-se em:

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O cancro mole, lcera mole venrea ou cancroide uma doena sexualmente transmissvel (DST), causada pela bactria Haemophilus ducreyi (fonte: Wikipdia).

a) crime de perigo concreto, quando o perigo precisa ficar demonstrado (ex.: o art. 130 do CP acima); b) crime de perigo abstrato, no qual o perigo se presume (ex.: o crime de quadrilha ou bando configurado mesmo que no se tenha iniciado qualquer outro crime). c) crime de perigo individual, em que apenas uma pessoa ou um grupo de pessoas determinadas so colocadas em perigo (ex.: periclitao vida ou sade de outrem, art. 132 do CP). Art. 132 - Expor a vida ou a sade de outrem a perigo direto e iminente. d) crime de perigo comum, que so aqueles que colocam toda a comunidade em perigo (ex.: CP, art. 254, Inundao). Os crimes previstos no Estatuto so, em geral, de perigo abstrato e de perigo comum, pois no precisa ficar demonstrado que andar armado na rua ou disparar arma de fogo em via pblica, como exemplos, algo perigoso. Isso se presume. Com o Estatuto o legislador procurou coibir a prtica de crimes em seu estgio embrionrio, antes que se tornam efetivamente danosos. Os crimes de perigo so muito importantes nesse sentido. De tal modo, consegue-se ampliar a proteo vida, ao patrimnio, integridade fsica etc. No entanto, sem a devida fiscalizao estatal de nossas fronteiras, o Estatuto tem sido enfraquecido pela facilidade com que criminosos conseguem importar armas de fogo, mesmo aquelas de uso restrito s Foras Armadas. Muitas vezes at armas que nem mesmo as Foras Armadas esto autorizadas a utilizar, como armas qumicas. A reduo da criminalidade organizada no pas passa, necessariamente, pelo maior controle de nossas fronteiras. Difcil trabalho, diga-se, pelas propores continentais de nosso pas. Mais a frente vou falar de importante discusso no mbito do STF sobre a natureza do porte de arma desmuniciada (se de perigo concreto ou abstrato).

A quem compete o julgamento dos crimes cometidos neste Estatuto? A competncia para julgamento dos delitos do Estatuto do Desarmamento da Justia Comum Estadual, em regra. O nico crime capaz de invocar a competncia da Justia Federal seria o trfico internacional de armas (art. 18). Valente, e se a arma for de uso restrito s Foras Armadas, no levaria a competncia para a Justia Federal? No. Veja, a propsito, o que diz o STJ:

A apreenso de armas de uso restrito ou proibido no tm o condo de deslocar a competncia para a Justia Federal, se no evidenciado a prtica de delitos que violem bens jurdicos tutelados pelo artigo 109, inciso IV da Constituio Federal (STJ, HC 160.547/SP, DJe 25/10/2010). O Estatuto admite a comercializao de brinquedo, rplicas e simulacros de arma de fogo? No. Conforme o disposto no art. 26 do Estatuto so vedadas a fabricao, a venda, a comercializao e a importao de brinquedos, rplicas e simulacros de arma de fogo, que com estas se possam confundir. Esta ltima parte (que com estas se possam confundir) importante, no est proibida a venda de qualquer brinquedo, mas somente aquele que possa se confundir com uma arma de fogo. Isso porque esses instrumentos so muito utilizados para a prtica de roubos. Assim, no se preocupe com a Bazuca da Super Xuxa contra o Baixo Astral, porque ela no poder ser confundida com uma arma de fogo verdadeira. Mas cuidado! O Estatuto no repete a besteira que fez a revogada lei de armas anterior (Lei 9437/97) que considerava CRIME portar arma de brinquedo. Nesse sentido, as armas de brinquedo e simulacros no so objeto de CRIMES pela nova lei, mas esto administrativamente vedadas por ela.

Isso significa que a Estrela, por exemplo, no pode produzir brinquedos dessa natureza. Como fica, ento, a situao do roubo praticado mediante arma de brinquedo? O crime de roubo pode ter a pena aumentada, caso seja praticado com uso de arma (CP, art. 157, 2, I). At o ano de 2001 estava vigente a Smula n 174 do STJ que preceituava que no crime de roubo, a intimidao feita com arma de brinquedo autoriza o aumento de pena. Entretanto, a referida Smula foi cancelada. Com o cancelamento, os tribunais passaram a rever a posio anterior. Hoje h duas posies a respeito: 1) MINORITRIA: O revlver de brinquedo instrumento hbil a tornar circunstanciado o roubo pelo emprego de arma, mxime quando a sua aparncia no permite constatar-se, de logo, que se trata de artefato desprovido de mecanismo apto a produzir disparo de projtil. A vtima, durante a evoluo dos fatos, no pode avaliar a lesividade do instrumento que lhe apontado: se de brinquedo ou no, a arma apavora-a igualmente; alm disso, a presuno a de que o objeto seja verdadeiro, pois legtimo supor que, se no o fosse, no seria empregado em atividade to arriscada. 2) MAJORITRIA: Com o cancelamento da Smula n. 174 do Superior Tribunal de Justia, a simples atemorizao da vtima pelo emprego da arma (de brinquedo) no mais se mostra suficiente para configurar a majorante, dada a ausncia de incremento no risco ao bem jurdico, servindo, apenas, a caracterizar a grave ameaa, j inerente ao crime de roubo (STJ, HC 87.630/SP, DJe 14/12/2009).

Em resumo, a posio majoritria hoje a de que o emprego de arma de brinquedo CONFIGURA a grave ameaa para ou roubo, mas no pode aumentar a pena pelo emprego de arma, pelo simples fato de no ser arma de fogo e sim brinquedo. O SINARM O Estatuto criou o Sistema Nacional de Armas Sinarm, institudo no Ministrio da Justia, no mbito da Polcia Federal, com circunscrio em todo o territrio nacional. Ao Sinarm compete identificar as caractersticas e a propriedade de armas de fogo, mediante cadastro; cadastrar as armas de fogo produzidas, importadas e vendidas no Pas; cadastrar as autorizaes de porte de arma de fogo e as renovaes expedidas pela Polcia Federal etc. O Registro de Arma de Fogo O cidad