Quem Ve Cara, Nao Ve Coraca

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Sobre a violência nas organizações

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  • E&G - REVISTA ECONOMIA E GESTO ISSN 1984-6606

    194 Revista Economia & Gesto v. 14, n. 36, jul./set. 2014

    QUEM V CARA, NO V CORAO: ASPECTOS DISCURSIVOS E EUFEMSTICOS DA SEDUO ORGANIZACIONAL QUE DISFARAM

    VIOLNCIA E SOFRIMENTO NO TRABALHO

    WHAT IS SEEN DOES NOT REVEAL WHAT IS INSIDE: DISCURSIVE AND EUPHEMISTIC ASPECTS OF ORGANIZATIONAL SEDUCTION THAT DISGUISE

    VIOLENCE AND SUFFERING AT WORK

    Fernando de Oliveira Vieira

    Universidade Federal Fluminense

    prof.fernandovieira@gmail.com

    Submisso: 17/12/2013

    Aprovao: 06/10/2014

    RESUMO

    Esse ensaio tem o intuito de trazer ao debate o uso de aspectos discursivos e eufemsticos da

    seduo organizacional, que podem disfarar violncia e sofrimento no trabalho. Discute-se o

    conceito de seduo organizacional como um recurso discursivo. Este atrai o indivduo para

    defender qualquer ideia ou ao, em nome da produtividade no trabalho. A dinmica

    encontra-se calada no gerencialismo, sobre o qual se imputam prticas perversas de gesto.

    Sugere-se pensar tal paradoxo das relaes de trabalho, por meio de referenciais crticos de

    gesto, tais como a Psicodinmica e Clnica do Trabalho. Cumpre defender a manuteno do

    sofrimento criativo, por meio da inteligncia prtica, dos coletivos de trabalho e do

    reconhecimento, como balizadores importantes sade mental do trabalhador.

    Palavras-chave: Discurso organizacional. Seduo organizacional. Psicodinmica e Clnica

    do Trabalho.

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    ABSTRACT

    This paper has the intention to debate the use of euphemistic and discursive aspects, that may

    disguise violence and suffering at work. The concept of organizational seduction is

    discussed as a discursive resource. This one attracts individuals to defend any idea or action,

    in the name of productivity at work. This dynamic is based on managerialism, which is

    considered responsible for perverse management practices. It is suggested to think this

    paradox of work relations by CMS Critical Management Studies, such as the

    Psychodinamics and Work Clinical Approach. It is recommended that the maintenance of

    creative suffering be worked by practical intelligence, collective of work and recognition, as

    an important basis to mental health workers.

    Keywords: Organizational discourse. Organizational seduction. Psychodinamic and

    Work Clinical approach.

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    Introduo

    As pesquisas identificadas como Estudos Crticos Organizacionais j revelaram e

    tm explicado o carter exageradamente prescritivo de modelos de gesto (Qualidade Total,

    Reengenharia etc.) e de suas respectivas filosofias, conhecidas como tayloristas, fordistas,

    toyotistas etc (MERLO; LAPIS, 2007; PAULA, 2008; FERNANDES; GOMES, 2012). A

    Psicodinmica e Clnica do Trabalho, por exemplo, parte do pressuposto de que o real do

    trabalho no permite o controle de gesto, pretensamente normatizado no discurso

    organizacional. Esse real complexo e escapa ao previsvel (DEJOURS, 2000, 2006, 2012;

    GAULEJAC, 2007; MENDES, 2007; VIEIRA; MENDES; MERLO, 2013; MERLO

    MENDES; MORAES, 2013).

    Argumenta-se que muitos trabalhadores modernos so capturados por um discurso

    organizacional, que lhes promete bem-estar psicolgico e emocional, caso sejam leais e

    obedientes. No nvel do discurso, quanto mais seduzidos pelo imaginrio social e

    organizacional modernos (FREITAS, 1999), mais os indivduos se prendem nas teias

    organizacionais (ENRIQUEZ, 1997) e sujeitam-se servido voluntria (DEJOURS, 2006;

    LA BOTIE, 2009).

    Nesse processo, os indivduos acatam, produzem e reproduzem ideias e aes, que

    podem ocultar violncia psicolgica a si prprios e a outrem. Em nome da produtividade, so

    convidados a dar a sua contribuio, mesmo que isso signifique promover injustias sociais,

    para salvar a economia financeira da empresa. O objetivo desse ensaio pensar esse

    cenrio, por meio da Psicodinmica e Clnica do Trabalho. Tem-se o intuito de se discutir

    aspectos discursivos e eufemsticos, em contextos de precarizao da sade psquica do

    trabalhador. Trata-se de se debater como ideias aparentemente inofensivas e ligadas ao bem-

    estar psicolgico dos indivduos podem disfarar violncia e sofrimento no trabalho.

    O texto est organizado em trs sees, alm dessa introduo e das consideraes

    finais. Na primeira parte, busca-se pensar bases conceituais sobre aspectos discursivos e

    seduo organizacional, numa perspectiva ideolgica, ancorada, principalmente, em Eugne

    Enriquez, Maria Ester de Freitas e Marcus Siqueira. A segunda seo visa trazer ao debate

    como as organizaes empresariais contemporneas conseguem adeso para ampliar e

    solidificar esse discurso. Trazem-se exemplos que auxiliam a visualizar a materializao de

    tais ideias e prticas. Por ltimo, sugere-se pensar esse processo em uma dimenso que

    ultrapassa o aspecto semntico e que se reconstri continuamente. Apontam-se conceitos-

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    chave da Psicodinmica e Clnica do Trabalho, como teoria e mtodo de diagnstico de

    problemas relacionados com o binmio prazer x sofrimento no trabalho.

    1 Aspectos discursivos e seduo organizacional

    O conceito de discurso pode ser definido como um fenmeno complexo, sobre

    o qual no h consenso. H diferentes vertentes sobre discurso, que tentam caracterizar os

    respectivos elementos lingusticos e contextuais, os quais do vida aos processos dinmicos

    de comunicao e de relaes sociais.

    Nesse ensaio, trata-se de apontar como aspectos discursivos um conjunto de

    conhecimentos produzidos socialmente e que servem aos interesses dos atores sociais de

    determinado contexto (NATIVIDADE; PIMENTA, 2009, p. 25).

    Discursos so conhecimentos e mensagens (implcitas e explcitas) socialmente

    construdos. Podem ser relativamente cristalizados, dependendo do jogo de foras, da

    conscincia crtica e da apropriao lingustica, em vias de (trans)formar a realidade de seus

    atores (LIMA et al., 2009).

    Um discurso pode ser relativamente solidificado, ao usar ideias, palavras,

    imagens, valores, gestos, entonaes, artefatos e outros elementos subjetivos. Revela de onde

    se fala e para quem se fala, caracterizando um determinado pblico, que vai reagir

    positivamente ou no a esses elementos. Pode ocultar contradies, pois nem sempre

    consegue sustentar relativa coerncia entre as ideias e aes que determinam a sua dinmica.

    Um discurso pode ser delineado via ideologia. Esta pode ser conceituada como

    um processo de dominao. Para se sustentar, o discurso ideolgico composto por espaos

    em branco, por lacunas; ele no pode se mostrar por completo; caso contrrio a mensagem

    explcita revelaria a dominao e a violncia. O discurso ideolgico se sustenta, justamente,

    porque no pode dizer at o fim aquilo que pretende dizer. Se o disser, se preencher todas as

    lacunas, ele se autodestri como ideologia [...](ROCHA, 2013, p. 127).

    A ideologia se apresenta com direta conexo e correlao com o discurso.1 Nesse

    texto, entende-se por discurso um conjunto de elementos que vo desde o contexto no qual

    determinados grupos esto inseridos, tais como caractersticas da Economia e da Poltica, na

    1 Para aprofundar entendimento sobre diferentes noes de ideologia, pode-se recorrer a DUNKER, 2008, p.

    185-214. Alm deste artigo, ver, tambm, outras referncias, tais como ALTHUSSER, 1999, p. 275-283,

    MZAROS, 2004 e MARX; ENGELS, 2002.

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    atualidade, at a linguagem, que traduz as palavras, os smbolos, as conexes, a entonao, o

    explcito, o implcito etc.

    Rocha (2013, p. 124-130), destacando os Escritos de Marilena Chau, explica que

    a ideologia pretende coincidir o que diz sobre a realidade com a prpria realidade; que o

    trabalho especfico do discurso ideolgico consiste em realizar a lgica do poder, [...]

    fazendo com que as divises e as diferenas apaream como simples diversidade das

    condies de vida de cada um [...]. Estabelece-se um entrelaamento harmnico, com ares de

    universalidade.

    No que se refere ao carter de dominao ideolgica, de valores, crenas e

    artefatos do discurso organizacional, Gaulejac (2007) aduz que a gesto se apresenta como

    uma cincia, pretensamente neutra, cuja funo seria estabelecer os princpios da eficincia,

    da inovao e da melhoria contnua de produtividade. A falsa neutralidade dos instrumentos

    de gesto contestada por esse autor, ao questionar a forma autoritria como so construdas

    suas bases, sem dilogo com os principais atores, que desempenharo seus papis, no

    cotidiano organizacional.

    Torna-se imprescindvel apontar a funo que a ideologia gerencialista exerce na

    manuteno desse poder das organizaes. Para Gaulejac (2007, p. 65) Designar aqui o

    carter ideolgico da gesto mostrar que, por trs dos instrumentos, dos procedimentos, dos