Rafael Marquese & Ricardo Salles

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Text of Rafael Marquese & Ricardo Salles

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    Escravido e Capitalismo Histrico: histria e historiografia no Brasil

    do sculo XIX1

    Rafael Marquese

    Universidade de So Paulo

    &

    Ricardo Salles

    Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

    Paper apresentado ao Seminrio Internacional

    Escravido e Capitalismo Histrico: Histria e Historiografia Brasil, Cuba e Estados Unidos, sculo XIX.

    Lab-Mundi/ Programa de Ps-Graduao em Histria Social

    Universidade de So Paulo

    Sala 24 do Departamento de Antropologia

    16 de Setembro de 2013

    Verso provisria para discusso no Seminrio.

    Solicita-se no circular ou citar sem autorizao prvia do autor.

    1 Agradecemos a Mariana Muaze por sua leitura da primeira verso do manuscrito e pelas sugestes

    apresentadas, muitas das quais incorporadas.

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    Neste texto realizaremos um balano seletivo da chamada nova historiografia da

    escravido sobre o sculo XIX, desenvolvida no Brasil a partir dos anos 1980 e 1990.

    Por um lado, cotejaremos alguns de seus temas e trabalhos mais significativos com

    temas e trabalhos da historiografia anterior. Por outro lado, buscaremos apontar algumas

    limitaes e impasses dessa nova historiografia, sem desconhecer, contudo, seus

    avanos. A partir desse balano, proporemos o esboo de um quadro interpretativo da

    escravido brasileira oitocentista que aponte novas possibilidades de pesquisas.

    1. Historiografia

    Nossa anlise comea na dcada de 1970, quando a historiografia sobre a

    escravido brasileira foi marcada por um duplo movimento. Por um lado, ela

    representou o ponto de chegada de uma forte tradio ensastica, cujas origens se

    encontravam na prpria crise da escravido em fins do sculo XIX, e que procurava

    apreender de modo abrangente o papel fundador da escravido negra na formao

    histrica do pas. Por outro lado, os anos setenta verificaram a profissionalizao

    definitiva do ofcio da histria por meio da criao dos primeiros programas nacionais

    de ps-graduao, cujos perfis so bem semelhantes ao que ainda hoje se tem.

    Tanto um caso como em outro, naquele perodo a escrita da histria da

    escravido brasileira foi bastante informada pelo marxismo, no exato momento em que

    este, no quadro historiogrfico internacional, passara a ser questionado. Esse

    questionamento apontava as limitaes do marxismo ortodoxo em termos de uma

    concepo economicista do processo histrico e pelo foco quase que exclusivo na classe

    operria, deixando de lado a histria das mulheres, das minorias, dos grupos marginais.

    O combate ao marxismo no era novo, vinha de antes e se prendia a uma concepo da

    histria cuja nfase repousava no papel das mentalidades, das ideias, das linguagens,

    das culturas e dos indivduos ou grupos de indivduos no devir histrico. Assinalava-se,

    ademais, o carter singular e nico dos acontecimentos histricos, tudo isso em

    contraposio s possibilidades de apreenso do processo histrico em suas dimenses

    estruturais, que caracterizariam o marxismo e outras escolas totalizantes de

    interpretao histrica, como a geo-histria ou a sociologia histrica. Esses

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    questionamentos e ataques s pretenses de uma histria total tiveram na micro-histria

    italiana e na antropologia histrica suas expresses mais elaboradas.2

    Essas correntes historiogrficas s se fizeram sentir no Brasil para valer a partir

    da segunda metade dos anos 1980. No final dos anos 70 e incio dos 80, havia ainda um

    impulso represado pelas perseguies, cassaes e pelo clima de terror promovido pela

    ditadura militar, que repercutia as discusses no campo das Cincias Sociais originrias

    da dcada de 1960. Essas discusses haviam sido e ainda eram fortemente

    influenciadas, poltica e teoricamente, pelo marxismo em suas diversas correntes. A

    pauta delimitada por estes debates girava em torno da identificao e da compreenso

    das foras sociais e dos processos socioeconmicos e culturais que haviam moldado

    historicamente a realidade nacional. Entre estas foras e tendncias histricas,

    destacavam-se a escravido e o passado colonial. Quanto ao tema da escravido, a

    questo de sua abolio ganhara grande destaque particular nos anos 60. Como a

    instituio se manteve no sculo XIX, e por que sua abolio ocorreu to tarde? Quem a

    promoveu? Qual o papel desempenhado pelos escravos nesse processo?

    A histria da escravido escrita no Brasil na dcada de 1970 foi informada por

    esse quadro poltico e intelectual. Dos debates que ento se travaram, a categoria de

    modo de produo, ao enfatizar os aspectos internos, locais, das relaes sociais

    escravistas, ganhou relevncia, particularmente nos trabalhos de Ciro Flamarion

    Santana Cardoso e Jacob Gorender.3 As vises em torno do modo de produo

    escravista colonial tinham por objetivo superar ou tornar mais complexas as abordagens

    que priorizavam as relaes externas com o mercado internacional na caracterizao da

    sociedade escravista brasileira. Tais abordagens, cujos fundamentos bsicos se

    encontravam nos trabalhos de Caio Prado Jr., de Celso Furtado e nas formulaes da

    teoria da dependncia, tiveram seu pice tambm nos anos 1970, na obra de Fernando

    Novais.4 Se o trabalho de Gorender foi ainda elaborado margem da estrutura

    acadmica, tanto Novais como Ciro Cardoso (ainda que este ltimo estivesse no

    2 Sobre uma apreciao de conjunto desse movimento, ver William Sewell Jr., Logics of History. Social

    Theory and Social Transformation. Chicago: Chicago University Press, 2005, Geoff Eley, A Crooked Line. From Cultural History to the History of Society. Ann Arbor: The University of Michigan Press,

    2005. Sobre a micro-histria italiana, ver Henrique Espada Lima, A micro-histria italiana. Escala,

    indcios e singularidades. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2006. 3 Ciro Flamarion Cardoso, Sobre os modos de produo coloniais na Amrica" e "O modo de produo escravista colonial na Amrica. in: Tho Arajo Santiago (org.), Amrica Colonial, Rio de Janeiro: Pallas, 1975; Jacob Gorender, O escravismo colonial, So Paulo: tica, 1978. 4 Fernando Novais, Estrutura e Dinmica do Antigo Sistema Colonial (Sculos XVI - XVIII). in: Caderno Cebrap, N 17, 1973; Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). So

    Paulo: Hucitec, 1979.

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    exterior, em parte por conta do quadro poltico da ditadura) atuavam dentro do espao

    universitrio. Eventualmente por essa razo comungaram diversas outras filiaes alm

    do marxismo, notadamente o aporte da Escola dos Annales. Em Cardoso, encontramos o

    forte peso da histria demogrfica e econmica serial, que remetia a Ernest Labrousse;

    no caso de Novais, a percepo das diferentes temporalidades histricas, de inspirao

    braudeliana, conjugada com as teses de Eric Williams sobre as relaes entre

    capitalismo e escravido.

    Esse debate, ainda que marcado pelas particularidades brasileiras, inseria-se em

    um contexto latino-americano e internacional mais amplo, seguindo em suas linhas

    gerais as discusses que tinham se instaurado desde a dcada de 1950 sobre a transio

    do feudalismo ao capitalismo.5 Em fins dos anos 70 e comeos dos anos 80, a categoria

    de modo de produo escravista colonial imps-se no campo da historiografia brasileira

    da escravido, principalmente aps a publicao de O escravismo colonial, de Jacob

    Gorender, em 1978. Demonstrando o quanto o debate intelectual e poltico em geral

    estavam explicitamente conectados com o debate historiogrfico, o livro de Gorender,

    mesmo sem ser produzido nos marcos acadmicos convencionais, conheceu imediato

    sucesso.

    Prova disso foram os simpsios organizados para avaliar a problemtica da

    trazida pela obra, dentre os quais se destaca o que resultou, dois anos depois, no livro

    Modos de Produo e Realidade Brasileira. Pouco antes, tambm ocorrera um evento

    no qual a discusso sobre as determinaes externas e internas da escravido

    brasileira estivera no centro do debate. importante registrar que, nessas duas ocasies,

    foram apresentadas propostas distintas para se conceituar a inscrio do Brasil no

    sistema capitalista mundial, e que no recaam nas dicotomias analticas que opunham a

    produo (modo de produo escravista colonial) circulao (Antigo Sistema

    Colonial) como pontos de partida privilegiados da anlise. Assim, se Antonio Barros de

    Castro procurava ver nos processos produtivos que se desenvolveram base do

    trabalho escravo o segredo ltimo da economia colonial escravista, seu modelo das

    zonas geogrficas superdotadas (ou pioneiras), maduras e residuais (ou

    decadentes) em permanente mutao, isto , com padres cambiantes de competio

    intercolonial e, portanto, de relaes entre metrpoles e colnias, integrava de forma

    orgnica, em um movimento analtico unificado, os momentos da produo, da

    5 Para uma sntese desse debate, ver Eduardo Barros Mariutti, Balano do debate: a transio do

    feudalismo ao capitalismo, So Paulo: Hucitec, 2004.

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    circulao e do consumo.6 Ao mesmo tempo, esse modelo reservava grande espao para

    aquilatar o peso decisivo do conflito social entre senhores e escravos na determinao

    do devir histrico das sociedades escravistas.7

    Em um sentido convergente, Maria Sylvia de Carvalho Franco propunha

    examinar a