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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA VANUZIA BISPO DOS SANTOS REFLEXÃO SOBRE A MORTE RESQUÍCIOS DE ATITUDES DIANTE DA MORTE (SÉCULOS XVIII E XIX). São Cristóvão 2014.2

REFLEXÃO SOBRE A MORTE RESQUÍCIOS DE ATITUDES … · diante da morte no oitocentos em espaços físicos diferentes. Philippe Ariés abrange o tema sob o ponto de vista ocidental;

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Text of REFLEXÃO SOBRE A MORTE RESQUÍCIOS DE ATITUDES … · diante da morte no oitocentos em espaços...

  • UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

    CENTRO DE EDUCAO E CINCIAS HUMANAS

    DEPARTAMENTO DE HISTRIA

    VANUZIA BISPO DOS SANTOS

    REFLEXO SOBRE A MORTE

    RESQUCIOS DE ATITUDES DIANTE DA MORTE (SCULOS XVIII E XIX).

    So Cristvo

    2014.2

  • VANUZIA BISPO DOS SANTOS

    REFLEXO SOBRE A MORTE

    RESQUCIOS DE ATITUDES DIANTE DA MORTE (SCULOS XVIII E XIX).

    Artigo Cientfico apresentado ao curso de Licenciatura em Histria da Universidade Federal de Sergipe como requisito para obteno do ttulo de Licenciado em Histria.

    Orientao: Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos.

    So Cristvo

    2014.2

  • REFLEXO SOBRE A MORTE

    Resqucios de Atitudes Diante da Morte (Sculos XVIII e XIX).

    Vanuzia Bispo dos Santos1

    Resumo:

    No presente artigo, foi feito um balano historiogrfico sobre as transformaes de atitudes diante da morte no oitocentos em espaos fsicos diferentes. Philippe Aris abrange o tema sob o ponto de vista ocidental; Cludia Rodrigues retrata a morte na cidade do Rio de Janeiro, mostrando os costumes fnebres da corte que chegou ao Brasil em 1808 e o autor Joo Jos Reis reflete tais atitudes particularmente na Bahia. Ao obter a leitura dos trs autores, possvel compreender algumas tenses que foram geradas na vida cotidiana de das pessoas encontrando-se diferenas e semelhanas de tais costumes, ritos e mticos dos seus povos. Palavras-chaves: A Morte na Histria Historiografia Cultura do Medo.

    Abstract:

    In this article, a historiographical overview on the transformation of attitudes toward death in eight in different physical spaces was done. Philippe Aris covers the topic from the Western point of view; Claudia Rodrigues portrays death in the city of Rio de Janeiro, showing the funeral of cutting customs that arrived in Brazil in 1808 and the author Joo Jos Reis reflects such attitudes particularly in Bahia. To get the reading of the three authors, it is possible to understand some tensions that were generated in everyday life of people lying differences and similarities of such customs, rites and mythical of their people. Keywords: Death in History - Historiography - Culture of Fear.

    1 Graduanda em Histria pela Universidade Federal de Sergipe. Em 2011 foi bolsista do PDPH-DHI-UFS; Monitora da disciplina Histria Moderna II em 2012; Estagiria do Arquivo do Poder Judicirio/Tribunal de Justia Sergipe em 2013 e 2014. Atualmente estagiria do Memorial do Poder Judicirio/ Tribunal de Justia Sergipe. E-mail: [email protected]

  • 2

    A morte um tema difcil de ser aceito pelas pessoas, mesmo havendo a certeza de

    que ela se apresenta como algo inevitvel. Mas no por ser um tema difcil e que provoca

    sentimentos de sofrimento e comoo, que no deva ou merea ser refletido, estudado e

    compreendido e mesmo valorizado como qualquer outro tema de grau de importncia

    elevado.

    Podemos perceber que h uma inquietao considervel em relao a esse tema.

    Isso acontece desde o final do sculo XVIII quando existiam costumes considerados

    essenciais para a salvao das almas e de uma vida melhor no "outro mundo". As pessoas

    valorizavam muito o modo de morrer. Acreditavam em formas de bem morrer para que a

    alma pudesse descansar em paz como se fosse uma receita qualquer que se no fosse

    seguida passo a passo a maneira do preparo, poderia dar algo errado. Semelhante era o

    comportamento das pessoas no final daquele sculo em relao a esse assunto. Acreditavam

    que, se certo ritual no fosse cumprido gradualmente como era de costume, a alma do

    defunto no iria para um bom lugar, mas, ficaria vagando no alm e precisaria de oraes

    para conseguir ter descanso.

    interessante observar que mesmo aps dois sculos de histria, atitudes

    relacionadas morte ainda perduram nossos dias, mostrando-nos como o tempo lento

    principalmente em relao a mudanas culturais, nesse caso, a cultura do medo da morte.

    Contribuir para uma boa reflexo em relao a esse assunto gratificante, pois,

    como disse Jos Carlos Rodrigues2,

    No se fala mais em morte, embora se pague cada vez mais seguro de vida; no se pensa mais em morte, no se formulam mais conceitos para pens-la, mas a ela se reage com sorrisos embaraados, com silncios reticentes, com conversas que so signos do aparecimento de algo cuidadosamente reprimido.

    Sabemos que a vida uma incerteza, que a nica certeza a morte e que esta de

    tempo e lugar desconhecido. Sendo assim, acompanhar os cessados da vida atravs de uma

    pesquisa com to pouco fascnio e muito temor chega a parecer insensvel para alguns, mas,

    2 RODRIGUES, Jos Carlos. Tabu da morte. Rio de Janeiro: Achiam, 1993. p. 188.

  • 3

    a "intimidade" com esse tema traz cada vez mais uma certeza do quanto devemos

    aproveitar a vida da melhor forma possvel, pois, no sabemos o qu e se existe algo alm

    dela. O que existem de fato so crenas e especulaes.

    O comportamento do homem diante da morte sob o ponto de vista histrico e o

    encontro de uma diversidade de atitudes que ainda perduram nossos dias sero alvo de

    nossa anlise reflexiva proposta. Anlise que tem como referncia alguns estudos sobre a

    morte, empreendidos pela Histria Social e das Mentalidades, cuja produo francesa a

    respeito das atitudes e sensibilidades coletivas diante da morte, realizada por Philippe

    Aris em sua obra clssica intitulada Histria da Morte no Ocidente (1998),

    especificamente em sua primeira obra que abrange as atitudes diante da morte no ocidente,

    onde o autor subdivide essa primeira parte em quatro captulos. Faremos uma anlise dos

    dois primeiros.

    Analisaremos tambm parte da obra da autora Cludia Rodrigues que trata dos

    costumes fnebres na corte, Rio de Janeiro, em Lugares dos Mortos na Cidade dos Vivos-

    1997. Esta nos leva a um momento de histria poltica e cultural que permitiu compreender

    as tenses geradas pelo processo de centralizao e construo do Estado Imperial no

    detalhe da gesto e controle de vida cotidiana. Porm, a segunda parte de sua obra

    intitulada A cidade e seus mortos que ser explorada aqui. Nessa parte, ela menciona as

    transformaes e representaes diante da morte.

    Por fim, abordaremos parte da obra do autor Joo Jos Reis, A morte uma festa -

    Ritos Fnebres e Revolta Popular no Brasil no sculo XIX 1991, em seu terceiro captulo,

    que tambm intitulado Atitudes diante da morte, (p.73). Sua viso , particularmente, na

    Bahia.

    Tais anlises sero feitas de forma a perceber transformaes e permanncia de

    atitudes que ocorreram em relao morte.

    Esse artigo est dividido em trs partes e estruturado de forma a identificar

    primeiramente as atitudes diante da morte no ocidente, segundo, atitudes diante da morte no

    Rio de Janeiro e, finalmente a terceira e ltima est consagrada s atitudes diante da morte

    na Bahia e as semelhanas dessas j referidas em suas diferentes pocas.

  • 4

    1 - As atitudes do homem diante da morte sob o ponto de vista da histria no ocidente

    Reintroduzir a morte nas nossas vidas desmascarar a mentira da mitificao e mistificao. Humanizar, na dor e na serenidade esta realidade irrecusvel, um gesto de generosidade do historiador que nos estimula a enfrentar temores, frustraes e medos, na forma da esperana3.

    Antes de qualquer leitura relacionada a esse tema, o que vem em mente a princpio

    a seguinte pergunta: como foi a relao da humanidade perante a morte? Ser que as

    pessoas tinham medo de morrer? O que ser que mudou no comportamento do homem em

    relao a esse assunto depois de dois sculos de histria?

    A relao das pessoas com a morte no perodo da Idade Mdia ao sculo XIX era

    uma relao de familiaridade, segundo Aris,[...] a coexistncia dos vivos e dos mortos.

    um fenmeno novo e surpreendente. Desconhecido da Antiguidade pag e mesmo crist,

    totalmente estranho para ns desde o fim do sculo XVIII. (p.36). As pessoas esperavam

    por ela, pois, acreditavam que aps a morte existia algo bom, como o paraso, por exemplo.

    O historiador tem uma relao com o tempo que no mesmo momento em que tenta

    observar detalhadamente os fatos para no se perder nele, tambm tem que ter um enorme

    cuidado para no deixar este passar por despercebido. Em suas anlises e pesquisas

    historiogrficas, este deve tentar enxergar os momentos em que as situaes vo se

    transformando, pois sabemos que o tempo no se rompe para depois haver um reincio, ele

    lento e gradual.

    Como muitos outros fatos de mentalidade que se situam em um longo perodo, a atitude diante da morte pode parecer quase imvel atravs de perodos muito longos de tempo. Aparece como acrnica. Entretanto, em certos momentos intervm mudanas, frequentemente lentas, por vezes despercebidas, hoje mais rpidas e mais conscientes. (Philippe Aris 1998. p.25).

    O homem ocidental cristo acreditava que era advertido antes de morrer. Ele tinha

    a plena confiana que a morte no viria de qualquer jeito, em qualquer momento, mas que

    ele seria advertido e daria tempo de providenciar tudo o que fosse necessria antes de sua 3 GOLDBERG, Jacob Pinheiro. Apud. ARIS, Philippe. Histria da morte no Ocidente. Trad. Priscila Viana de Siqueira. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1977. p. 10.

  • 5

    ida, inclusive e mais importante, sua preparao com o destino de sua alma. Toda

    preparao era para que a alma chegasse a um bom lugar assim que se desprendesse de seu

    corpo.

    Sendo assim, havia tempo para que o homem a esperasse em seu prprio leito e se

    preparasse para a sua chegada, ele sentia que a morte estava prxima chegando a afirmar

    at a quantidade de dias que lhes restavam. Ela no vinha de surpresa, eles eram advertidos

    de sua chegada.

    No se morre sem se ter tido tempo de saber que se vai morrer. Ou se trataria da morte terrvel, como a peste ou a morte sbita, que deveria ser apresentada como excepcional, no sendo mencionada. Normalmente, portanto, o homem era advertido (Philippe Aris, p.27).

    O aviso era dado por signos naturais ou por uma convico ntima, um

    reconhecimento espontneo e que s vezes vinha acompanhado de revolta, isso acontecia

    quando a pessoa no concordava que sua hora de partida chegara. Esse comportamento

    ainda semelhante aos nossos dias, visto que a morte ainda no bem vinda entre o mundo

    dos vivos, a no ser para aqueles que acham que sofrem na terra e que ir para um lugar

    melhor aps sua morte. Depende da crena de cada um.

    Para os catlicos, segundo a bblia (livro sagrado que seguem), os que merecerem,

    diante dos olhos de Deus, iro ressuscitar dos mortos e obter vida eterna. A multido dos

    que dormem no p da terra acordar, uns para a vida, outros para a rejeio eterna (Daniel

    12:2) Os que no merecerem a vida eterna ressuscitaro para o juzo final. no fiqueis

    admirados com isso, pois vem a hora em que todos os que esto nos tmulos ouviro a sua

    voz, e sairo. Aqueles que fizeram o bem ressuscitaro para a vida; e aqueles que

    praticaram o mal, ressuscitaro para a condenao (Joo.5:28-29). E ainda, no livro de

    Atos, Paulo diz: tenho em Deus a mesma esperana que eles tm: que h de acontecer a

    ressurreio dos justos e dos injustos (Atos.24:15). Essa foi e ainda uma forma

    esperanosa de lidar com o desconhecido.

    Ao sentir que seu fim estava prximo, a pessoa que se encontrava em seu leito,

    doente, organizava sua prpria cerimnia funeral. Pedia para chamar o padre, escolhia sua

    ltima veste e fazia tudo como mandava o protocolo, inclusive as divises de bens, atravs

  • 6

    de testamentos. Esses tipos de atitudes conclusivas do autor nos mostra que, ainda em

    nossos dias, h comportamentos idnticos das pessoas em relao a sua preparao para

    morrer. como se o tempo no tivesse passado, estivesse estagnado.

    Os contemporneos no as percebem porque o tempo que as separa ultrapassa a de vrias geraes e excede a capacidade de memria coletiva. O observador de hoje, se quer atingir um conhecimento que escapava aos contemporneos, deve, portanto, dilatar seu campo de viso e ampli-lo a um perodo maior do que o que separa duas grandes mudanas sucessivas. Em se atendo a uma cronologia muito curta, mesmo se esta j parece longa aos olhos do mtodo histrico clssico, arrisca-se a atribuir caracteres originais da poca a fenmenos que so, na realidade, muito mais antigos (Philippe Aris,1998. p.20)

    A preocupao mais aparente das pessoas na Idade Mdia, ou ainda nos sculos

    XVI e XVII no era exatamente com a destinao dos ossos, nem do corpo, mas da alma.

    Por isso, antes mesmo de haver construes de cemitrios, os corpos eram enterrados

    dentro das igrejas, de preferncia prximo ao santssimo sacramento ou Virgem Maria,

    como forma de garantia de sua proteo.

    O juzo final tambm era uma preocupao aparente naquela poca. As pessoas

    acreditavam que iam prestar contas de tudo o que fez na terra, bom e ruim. Que todos os

    acontecimentos da sua vida estaria escrito em um caderno e que se as atitudes boas

    tivessem sido maiores que as ruins, iriam para o cu, ou para o paraso e viver eternamente.

    Do contrrio, iriam para o inferno.

    [...] os mortos que pertenciam igreja e lhe haviam confiado seus corpos ( ou seja, que o haviam confiado aos santos) adormeciam como os sete adormecidos de feso (pausantes, in somno pacis) e descansavam (requiescant) at o dia do segundo advento, do grande retorno, quando despertariam na Jerusalm celeste, ou seja, no paraso. Nesta concepo no h lugar para uma responsabilidade individual, para um cmputo das boas e ms aes. Sem dvida, os maus aqueles que no pertenciam igreja no sobreviveriam sua morte, no despertariam, sendo abandonados ao no ser. Toda uma populao quase biolgica, a populao dos santos, tinha assim assegurada a ressurreio gloriosa, aps uma longa espera mergulhada no sono. (Philippe Aris, 1998. p.48)

  • 7

    O homem na Idade Mdia tinha conscincia de que a vida era apenas uma

    condio, que era apenas um perodo, que poderia ser curto ou no. Mas, independente de

    saber sua durao, tinham mais ambies em se preparar para a morte que ter maiores

    prazeres na vida. Porm isso no quer dizer que as pessoas no tinham amor pela vida, e

    sim que esse amor era manifestado cada vez que se recusavam a morrer quando sentiam sua

    partida. Philippe Ars disse que A morte tornou-se o lugar em que o homem melhor

    tomou conscincia de si mesmo. (p.58).

    Nas placas dos muros das sepulturas naquela poca, a princpio encontravam-se

    somente a frase, aqui jas...fulano de tal. Elas eram postas nos muros internos das igrejas,

    como uma forma de perpetuar a lembrana do defunto. Com o tempo foram surgindo outras

    formas mais detalhadas de identificao do morto, como a data de nascimento, de morte e,

    em alguns casos, o ttulo social da pessoa.

    Mortos e vivos eram tratados com a mesma importncia e significado. Era como se

    a sociedade fosse composta de pessoas vivas e pessoas mortas. Pois, estavam no mesmo

    ambiente fsico.

    Em seus testamentos, que era uma das formas de manifestar a sua vontade aps a

    morte, alguns defuntos j deixavam servios pagos, aqueles considerados para a salvao

    da sua alma, tamanha era a preocupao do seu destino. O que importava era a evocao

    da identidade do defunto e no o reconhecimento do lugar exato da colocao do corpo

    (Philipe Aris, p.62).

    A partir do sculo XVIII e a meados do sculo XX grandes mudanas comeam a

    surgir. Os ocidentais comearam a concentrar no outro sua preocupao em relao

    morte. No mais a sua prpria como antes. Atitudes de exaltaes, dramatizaes em

    sentimento ao outro o que passa a inspirar as pessoas. Essas manifestaes eram

    demonstradas em comportamentos que expressavam atravs de saudades, choros,

    lembranas. Ao olhar por esse vis, percebe-se que agora a morte passa a ser tratada com

    menos familiaridade e com sentido de ruptura, de sofrimento, principalmente quando se

    tratava de um defunto da prpria famlia.

  • 8

    At o sculo XVIII, a morte dizia respeito quele a quem ameaava, e unicamente a este. Tambm cabia a cada um expressar suas ideias, seus sentimentos, suas vontades. Para isso, dispunha-se de um instrumento: o testamento. Do sculo XIII ao sculo XVIII, o testamento foi meio para cada indivduo exprimir, frequentemente modo muito pessoal, pensamentos profundos, sua f religiosa, seu apego s coisas, aos seres que amava, a Deus, bem como as decises que havia para assegurar a salvao de sua alma e o repouso de seu corpo. O testamento era, ento, mais um simples ato de direito privado para a transmisso de uma herana, um meio para cada um afirmar seus pensamentos profundos e suas convices. (Philippe Ari, 1998, p.68).

    No perodo da Idade Mdia ao sculo XX, possvel perceber claramente que,

    apesar de no ser um perodo curto de tempo, as atitudes em relao morte mudaram

    muito pouco e muito lentas, capaz de no nos darmos conta e acharmos em alguns

    momentos que nada mudou. A cultura que a inteligncia humana tem dificuldade em

    explicar, realmente um processo demorado.

    No sculo XX, especificamente entre os anos de 1930 e 1950, alguns fenmenos

    relacionados a tal tema foram mudados. Nesse perodo, as pessoas passaram a morrer mais

    em hospitais que em seus leitos domiciliares. Dessa forma, aquele pblico de familiares,

    amigos, vizinhos que ficavam ao redor do leito do moribundo foi sendo substitudo por

    mdicos e solido. E as manifestaes, as condolncias feitas no ambiente fsico da casa do

    morredio, geralmente em seus quartos, foram sendo restritos ao final do enterro apenas.

    Assim como os locais, algumas formalidades tambm foram mudando com o

    tempo, como a manifestao dos parentes ou amigos. Esses comportamentos passaram a ser

    de formas mais discretas. A participao de crianas em enterros diminuiu, comportamento

    que podemos observar at os dias atuais. Assim como a forma de se apresentar como luto.

    As pessoas passam a no mais usarem como regra as roupas escuras. As manifestaes

    aparentes de luto so condenadas e desaparecem. (p.87). No se adota mais posturas

    diferentes das de dias normais em que nada aconteceu.

    A cremao outro fator de mudana. A forma como feita exclui a peregrinao

    ao cemitrio e todo o ritual comum do funeral, pelo fato de s haver as cinzas guardadas em

    urnas. A ligao com o morto que foi cremado mais distante, pois o corpo se desfazer

    com tamanha rapidez que d uma sensao de ruptura mais severa com a vida.

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    Quando prevalece a cremao, s vezes com a disperso das cinzas, as causas no so apenas uma vontade de ruptura com a tradio crist, uma manifestao de enlightenment, de modernidade; a motivao profunda que a cremao interpretada como a maneira mais radical de fazer desaparecer e esquecer tudo o que pode restar do corpo, de anul-lo, too final. (Philippe Aris, 1998, p.88).

    2 - Da morte ao morto: Costumes Fnebres na Corte - Rio de janeiro

    Cludia Rodrigues nos apresenta, em sua pesquisa, Lugares dos mortos na cidade

    dos vivos: tradies e transformaes fnebres no Rio de Janeiro (1997) e Nas fronteiras

    do Alm: a secularizao da morte no Rio de Janeiro (sculos XVIII e XIX), 2005, como

    era o rito de passagem ao longo do sculo XIX. Ela fala, alm de outros, sobre os

    sacramentos do morto assim como seu vesturio, seus ofcios fnebres e seu sepultamento.

    Ela nos mostra como os ritos fnebres foram se modificando ao longo do tempo.

    Ela no s abrange o perodo aps os escritos do clssico Philippe Aris, como o cita em

    vrios momentos do seu trabalho. Cita tambm o autor Joo Jos Reis que, no s escreveu

    o prefcio do seu livro, como foi mencionado pela autora como complemento e

    confirmao dos resultados da sua pesquisa.

    A discusso sobre a morte que Cludia Rodrigues faz na cidade do Rio de

    Janeiro, no perodo da corte portuguesa. Ela refora as palavras de Philippe Aris quando

    diz que as pessoas se preparavam para a morte. Os ritos e mticos. A preocupao dos

    homens e mulheres naquele tempo era no somente com a hora da morte, mas com a

    maneira como ela chegaria ao destino final de sua alma.

    Muitas atitudes diante da morte e do morto permaneceram e permanecem como se

    fossem imveis no tempo. Mas tambm, mudanas ocorreram em relao a essas mesmas

    atitudes, como por exemplo, a morte hospitalar. Em que o moribundo passa a estar mais

    solitrio e a morrer em hospitais pelo motivo da doena que estava a assombrar as pessoas

    na poca, a peste. Por esse motivo, o ritual de solidariedade para com o moribundo comea

    a ter novas formas de se dar, as pessoas passam a dar mais valor vida do que a boa

    morte.

  • 10

    As pessoas tinham o costume e sentiam-se familiarizados ao falarem sobre esse

    assunto. Escreviam, esperavam a chegada da sua morte, aprendiam os ritos com os mais

    velhos. Elas eram preparadas para morrer de uma boa maneira e com antecedncia.

    As pessoas se preparavam para morrer, com alguma antecedncia, escrevendo testamentos que instruiam sobre a mortalha que devia cobrir seus cadveres, os padres, pobres e irmandades que deveriam acompanhar seus funerais, o local de sepultura, o nmero e tipo de missas a serem rezadas e outras providncias que acreditavam ser necessrias salvao de suas almas. Mesmo os indivduos mais pobres, e at escravos, se no tinham como fazer seus testamentos por escrito, recomendavam oralmente como queriam enfrentar a derradeira viagem, protegidos com os recursos rituais e simblicos que seus recursos materiais permitissem (Cludia Rodrigues, p.12).

    Escreviam testamentos demonstrando suas ltimas vontades a exemplo da escolha

    do que gostariam que fosse sua ltima vestimenta e de seu caixo, muitas pessoas

    costumavam guardar em suas residncias. Muitas escolhiam at mesmo os padres que iam

    celebrar seu funeral, o nmero de missas a serem rezadas para a salvao de sua alma,

    inclusive poderia at haver um pagamento prvio para os que achassem necessrio.

    Cludia Rodrigues denominou de modelo barroco de morrer pela riqueza de

    rituais, smbolos e mticos desde o doente no leito s missas realizadas aps a morte. Tudo

    o que fosse necessrio para a salvao da alma daquele defunto era providenciado.

    O importante era no ser tomado de surpresa por este ltimo ato entre os vivos. Da porque a morte ocidental, prematura, sem os ritos devidos, era vista como grande desventura, que fazia sofrer a alma de quem partia e a conscincia de quem ficava. (p.12).

    Joo Jos Reis, em sua obra A Morte uma festa4, tambm se refere ao funeral

    barroco. Ele diz que esse

    4 RODRIGUES, Claudia. Lugares dos mortos na cidade dos vivos: tradies e transformaes fnebres no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura,1997.

  • 11

    [...] se caracterizava pela pompa: o luxo dos caixes, dos panos funerrios, a quantidade de velas queimadas, o nmero de participantes no cortejo de padres, pobres, confrarias, msicos, autoridades, convidados-, a solenidade e o nmero das missas de corpo presente, a decorao da igreja, o prestgio do local escolhido para sepultura. (p.64).

    A prtica de ostentao era uma forma de exibio de poder, uma demonstrao da

    condio social do morto. Esse tipo de funeral pomposo era uma das fontes de renda das

    irmandades, da igreja assim como tambm dos miserveis da cidade, pois estes tambm

    tinham o costume de serem beneficiados pelos ricos como mais uma maneira de facilitar

    sua aceitao no outro mundo.

    A condio social do morto tambm era demonstrada atravs do local em que ele

    era enterrado. As pessoas que tinham poder aquisitivo eram enterradas nas igrejas,

    enquanto que os escravos e ndios geralmente eram enterrados em locais distantes das

    cidades.

    A morte ideal no era a morte solitria, mas, a solidria, de maneira que o

    moribundo era cercado de cuidados desde o seu leito ao cemitrio. Apresentar-se solidrio

    para com um morto era um tipo de investimento para a prpria salvao. "Os funerais

    antigos eram manifestaes emocionantes da vida social". (p.12).

    Aps a epidemia da peste, os vivos passaram a no querer ser to solidrios para

    com os mortos. Eles temiam prpria sade e por esse motivo foram adotando posturas de

    manter por mais tempo a prpria sade fsica, sobrepondo a espiritual. Os vivos perceberam

    atravs de higienistas que no deveriam dividir seus espaos com os mortos e, aps essa

    percepo, o que era tradio passou a ficar em segundo plano e comeou a haver rejeio

    em enterrer seus mortos em igrejas ou at mesmo dentro da cidade. "Os mortos no

    deveriam ocupar mais a cidade dos vivos, as igrejas e cemitrios intramuros. E foi assim

    que os vivos expulsaram os mortos de seu meio, expulsaram-no da cidade que at ento

    pertencera a ambos". Cludia Rodrigues, (p.13)

    A partir dessa nova maneira de comportamento, os funerais passaram a ser menos

    participados. Segundo Joo Jos Reis,

  • 12

    Houve um empobrecimento e um esvaziamento dos cortejos fnebres a partir dos sustos epidmicos e da consequente proibio dos enterros nas igrejas e cemitrios paroquiais (...), o surto epidmico de meados do sculo XIX serviu como catalisador das mudanas que j vinham lentamente trabalhando a mentalidade do sculo, inclusive no que diz respeito ao modo de morrer (Cludia Rodrigues, p.15).

    Novas formas de movimentos, de hbitos que no eram religiosos comearam a

    ser manifestados. Dava incio o processo de secularizao. Cludia menciona Philippe

    Aris tambm em relao familiaridade do homem encarar a morte naquela poca:

    A familiaridade dos vivos com os mortos, no Ocidente cristo, pode ser expressa na realizao dos sepultamentos no interior das cidades e, em segundo lugar, na realizao de sufrgios dos vivos pelos mortos. A esta relao de familiaridade, Philippe Aris denominou - morte domesticada - , representativa de uma forma de encarar a morte, ao mesmo tempo como prxima e familiar, expressa pela vizinhana entre vivos e mortos atravs da localizao das sepulturas no interior das cidades, mais propriamente das igrejas. (Cludia Rodrigues, p.164-1650).

    Tais atitudes e ritos relacionados morte no Brasil, especificamente no Rio de

    Janeiro, chegaram atravs dos costumes de Portugal e tambm reforados dos africanos que

    eram trazidos para trabalharem como escravos.

    Assim como na atualidade, o comportamento das pessoas nos velrios so como se

    estivessem em uma festa. um encontro onde as pessoas conversam, do risadas, se

    conhecem, principalmente entre membros da famlia, comem, bebem, contam histrias,

    falam da vida do morto, comovem-se com a situao do morto, aqueles que tm

    supersties, observam pelo rosto do morto se ele est triste ou feliz com sua ida, rezam o

    tero de nossa senhora. Claro, todas essas atitudes so de acordo com a classe social da

    famlia do morto, da crena religiosa, alm de outros fatores.

    Rodrigues menciona em seu livro5 que Joo Jos Reis ao fazer uma comparao

    dessas atitudes no Rio de Janeiro na poca colonial com as atitudes das pessoas da cidade

    5 RODRIGUES, Claudia. Lugares dos mortos na cidade dos vivos: tradies e transformaes fnebres no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura,1997.

  • 13

    de Salvador do sculo XIX, percebeu prticas idnticas e, por isso denominou tais prticas

    escritas em sua obra A morte uma festa6. Para o autor, os vivos reunidos, solidrios para

    despachar o morto, recuperavam algo de equilbrio perdido com a visita da morte,

    afirmando a continuidade da vida. (p.167)

    Tanto o carter festivo na cidade do Rio de janeiro, quanto em Salvador

    apresentavam semelhanas aos rituais africanos, apesar do domnio eurocntrico na poca.

    Os valores africanos persistiam em suas lgicas simblicas. Os valores religiosos e tambm

    simblicos, Cludia classificou-os como modelo barroco.

    No caso dos costumes funerrios dos negros na Corte, as descries dos cortejos africanos pelos viajantes deixam isto suficientemente claro: as atitudes festivas davam-se diante do prtico da igreja, onde palmas, cantos e salmodia, sons de tambores e de sinos se misturavam. Atitudes festivas, na medida em que o barulho estava presente e poderia ser visto como um facilitador da passagem do morto ao Alm. (Cladia Rodrigues, p.167).

    Cludia tambm fala sobre a importncia que os sacramentos tinham para o cristo

    durante sua vida e, principalmente, em sua hora derradeira. Demonstrando a preocupao

    de sua morada no alm. Eram sete os sacramentos que a igreja ensinava: o sacramento do

    batismo, o da confirmao, da eucaristia, penitncia, uno dos enfermos ou a extrema

    uno, ordem e matrimnio. Esses eram sinais que simbolizavam o sagrado e pertenciam

    ao universo da comunicao entre Deus (emissor) e o fiel (receptor), mas eram sinais

    eficazes da graa que o emissor comunicava ao receptor para a salvao. (p.176).

    O sacramento usado na hora da morte era o da extrema uno. O ltimo em vida

    ou primeiro e nico em morte. Esse era o que dava conforto ao chegar a hora quando a

    pessoa ainda estava viva. E, se j estivesse morta, era o auxlio da boa ida. [...] na

    iminncia da morte, o consolo dos sacramentos foi buscado como forma de garantir uma

    "boa morte", aquela que proporcionaria a "salvao" nos padres religiosos catlicos.

    Cludia Rodrigues, (p.179).

    6 REIS, Joo Jos. A morte uma festa: ritos fnebres e revolta popular no Brasil do sculo XIX. So Paulo: Compahia das Letras, 1991.

  • 14

    A autora nos mostra tabelas quantitativas de tipos de ndice de recursos aos

    sacramentos, de ausncias de referncias aos sacramentos, de recursos aos sacramentos

    excludos os anos de 1850, 1855 e 1860; de recurso aos sacramentos segundo a condio do

    morto. De recursos aos sacramentos proporcionais aos mortos na freguesia do Santssimo

    Sacramento, na dcada de 1840 segundo a condio social e ndices de recursos dos negros

    aos sacramentos, segundo a origem.

    O vesturio fnebre como parte importante da passagem era escolhido com

    cuidado e formalidade. A pessoa escolhia aquela que gostaria de chegar bem representado

    no outro mundo, uma que fosse conveniente. Havia os que preferiam que sua vestimenta

    derradeira fosse roupa de santo, geralmente seu santo protetor.

    Nesse sentido, para cristos e africanos, tinha grande importncia a cor e o tipo da mortalha. Seu uso tinha a funo ritual de integrar o morto no outro mundo. Determinadas cores, mal empregadas, poderiam, na concepo crist, dificultar o desprendimento da alma, funcionando como uma espcie de barreira entrada no Alm; outras, pelo contrrio, poderiam servir de identificao e passaporte. Crianas geralmente eram amortalhadas em tecidos coloridos, talvez, pelo fato de que, por serem declaradas inocentes por parte da igreja, j eram consideradas em estado de graa e, portanto, o uso do colorido poderia indicar um estado de contentamento pela certeza da salvao - no caso de terem sido batizadas, claro. No caso das mortalhas de santos, a inteno era obter, por sua intercesso, a graa junto a Deus. Juntamente com a proteo, a fora do santo invocado poderia servir de salvo-conduto na viagem rumo ao paraso. (Cludia Rodrigues, p.196).

    Quando a escolha das vestes era no sentido religioso, demonstrando apelo pela sua

    alma, os homens vestiam-se de santos e as mulheres de santas.

    Cludia tambm trs tabela quantitativa de uso de mortalha nessa obra. Nesta,

    revela o ndice de uso de mortalhas de santos, das cores das mortalhas, do uso das

    mortalhas coloridas, ao longo do sculo XIX, do uso de mortalha segundo a condio do

    morto, do uso das mortalhas pelo forros, segundo a origem; do uso de mortalha pelos

    escravos, segundo a origem; do uso de mortalha pelos inoscentes, segundo o sexo; do uso

    de mortalha pelos inocentes, segundo a condio e dos tipos de mortalhas em relao ao

    total. Desta forma, d para ter uma ampla viso do detalhamento desse quesito tambm.

  • 15

    Era todo um cuidado para a passagem do morto. Alm do recebimento dos

    sacramentos e de todo o cuidado em relao a vestimenta do morto, havia a encomendao

    da alma atravs da missa de corpo presente realizada pelo padre da cidade.

    Segundo as Costituies primeiras do arcebispo da Bahia, nenhum defunto poderia ser enterrado sem ser primeiramente encomendado pelo seu proco ou outro sacerdote a seu mando, o que deveria ser feito com "muita diligncia", procurando saber anteriormente se o morto havia deixado testamento e/ou determinaes a respeito dos funerais, legados pios ou obrigaes de missas, a fim de que fossem cumpridos; aps o que deveria encomend-lo, onde o corpo estivesse, com sobrepeliz e estola preta ou roxa, segundo o ritual romano. (Cludia Rodrigues, p.214).

    Rodrigues diz que [...] a encomendao do defunto poderia ser simples, com a

    presena apenas do proco, ou mais aparatosa, com a participao de outros sacerdotes

    alm do vigrio, adquirindo carter solene. (p.216). Alm de nos apontar mais uma tabela

    quantitativa de ndice de padres nas encomendaes de corpos.

    O sepultamento do morto, segundo Joo Jos Reis cita na obra de Cludia, era

    realizado de modo que as pessoas iriam levar o morto at o local do sepultamento e os que

    no levavam o acompanhavam e l, antes do ltimo adeus e de finalmente enterr-lo, o

    padre fazia a encomendao da alma do defunto.

    Esse momento em que o morto levado at a sua sepultura em forma de cortejo,

    era um acontecimento social. Um momento coletivo para os vivos e individual e solitrio

    para o que foi cessado da vida. Depois de acompanh-lo como mais uma forma de

    encomendar a prpria alma, os vivos voltavam para a sua rotina diria enquanto chegara

    sua morada final para o morto.

  • 16

    3 - Atitudes Diante da Morte - Bahia

    A morte era vista como uma passagem tambm por Joo Jos Reis. Como um

    momento de transio sendo que dependendo da forma como a pessoa passaria para o

    outro mundo, esta seria plenamente feliz, teria paz em sua alma e poderia at interceder

    pelos vivos. Do contrrio, ficaria em um estado que no seria nem junto com os vivos nem

    com os mortos mas, ficaria vagando num local mediano inconformado, o que era perigoso

    para os que estariam vivos, pois este por no estar bem no deixaria os vivos terem paz. Por

    esse motivo tambm que as pessoas tinham interesse que os mortos tivessem uma boa

    passagem.

    Conforme Reis,

    No havia separao radical, como hoje temos, entre a vida e a morte, entre o sagrado e o profano, entre a cidade dos vivos e a dos mortos. No que a morte e os mortos nunca inspirassem temor. Temia-se, e muito, a morte sem aviso, sem preparao, repentina, trgica e sobretudo sem funeral e sepultura adequados. Assim como se temiam os mortos que assim morriam. Mas desde que os vivos cuidassem bem de seus mortos, enterrando-os segundo os ritos adequados, eles no representariam perigo espiritual ou fsico especial. Tais ritos eram experimentados por vivos e mortos de maneira a marcar com nfase a passagem para o outro mundo. (p.74).

    Mas ele tambm diz que uma nova atitude diante da morte e dos mortos se

    delineou ao longo do sculo XVIII no rastro do iluminismo, do avano do pensamento

    racional, da laicizao das relaes sociais, da secularizao da vida cotidiana. (p.74).

    O avano do pensamento racional resultou em transformaes no campo das

    mentalidades, o que bastante delicado quando se trata de alguns assuntos, pois requer um

    amadurecimento intelectual de um povo. Por isso necessrio que se tenha um ritmo de

    tempo lento e gradual para que aja o menor impacto possvel para a sociedade e para que,

    se houver impacto, que este seja positivo. Segundo Philippe Aris7, as transformaes do

    7 ARIS, Philippe. Histria da morte no Ocidente. Trad. Priscila Viana de Siqueira. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1977.

  • 17

    homem diante da morte so extremamente lentas por sua prpria natureza ou se situam

    entre longos perodos de imobilidade. (p.20)

    Talvez pela falta desses cuidados tericos houve tamanha manifestao de

    subsistncia no confronto da Cemiterada8. Este movimento foi o resultado manifestado em

    rebeldia da populao da cidade de Salvador, como mostra Reis.

    Extraordinrio acontecimento teve lugar na Bahia do sculo passado: uma revolta contra um cemitrio. O episdio, que ficou conhecido como Cemiterada, ocorreu em 25 de outubro de 1836. No dia seguinte entraria em vigor uma lei proibindo o tradicional costume de enterros em Salvador por trinta anos. (p.13).

    Segundo Philippe Aris, o recebimento dessas modificaes funerrias no

    aconteceu da mesma forma em Paris. Ele escreveu que o povo de Paris aceitou a

    destruio do cemitrio de seus ancestrais com total indiferena.9 o que no aconteceu

    em algumas povoaes rurais em que os moradores se revoltaram contra o proco e as

    autoridades conseguindo assim cancelar a transferncia do cemitrio para fora da cidade.

    Mdicos e higienistas estiveram engajados em uma nova forma de definir as

    noes de poluio do ritual de enterramento de defuntos dentro das cidades,

    especificamente dentro das igrejas. Para tamanha modificao de pensamento inserido na

    sociedade do sculo XVIII, eles apoiaram-se em critrios de perigo sade dos vivos,

    sobrepondo a boa ida ritualstica dos mortos.

    Alm das revoltas da mudana dos cemitrios, acontecia o processo de disputa dos

    cadveres dos pobres, durante a luta de classes e a formao do capitalismo francs.

    Mdicos passaram a usar cadveres para seus estudos de anatomia e esses cadveres s

    vezes eram adquiridos de forma errnea. Assim como a Cemiterada na Bahia, houve

    movimento de revolta tambm em Portugal.

    Mesmo aps tamanha revolta da populao, os critrios adotados pelos mdicos

    sobressaram-se aos religiosos. A cincia mdica da poca provou que a exalao de cheiro

    8 Movimento de revolta popular em que destruram um cemitrio recm-inaugurado para abrigar os mortos da cidade que at ento eram enterrados dentro das igrejas. 9 Apud. Joo Jos Reis, (p.81).

  • 18

    repugnante originada de matrias ptridas eram a causa suposta de vrias doenas

    endmicas. As matrias orgnicas em decomposio formavam vapores infecciosos que

    eram prejudiciais sade.

    As pessoas passaram a entender e a tomar as devidas providncias em relao

    proximidade com os mortos. A partir da vivos e mortos passaram a no mais estar no

    mesmo ambiente, ou seja, os mortos seriam tirados no somente de dentro das igrejas e

    levados para cemitrios como, de preferncia, estes eram para estarem localizados fora das

    cidades. A partir desse processo, as prticas ritualsticas praticadas principalmente pelo

    motivo do medo que as pessoas tinham de como seria a passagem para o outro mundo

    diminuiu. Joo Jos Reis disse que

    [...] os homens mudaram o comportamento diante da morte, e tambm diante dos mortos [...]. Os mortos nesse perodo comearam a ser encarados como um tabu pblico, passando pouco a pouco a serem velados e enterrados privadamente, pelo crculo ntimo da famlia. (Joo Jos Reis, p.74).

    Com isso, houve uma transformao no estilo da morte, com menos festividade e

    menos coletivismo. A morte passara a ter um carter mais individual.

    As pessoas passaram a falar e se preocupar menos com a prpria morte, tomando

    agora a postura de se preocupar mais com a morte do outro e com a sade prpria, ou seja,

    a preocupao com a morte passou menor, assim como a preocupao com a vida passou a

    ser maior.

    Essa nova forma de comportamento provocaram outras transformaes em relao

    ao assunto que nos remete a perceber que tais atitudes ainda refletem nos nossos dias. O

    cortejo do morto uma delas. As pessoas passaram a ter uma postura mais distanciada do

    morto assim, era cada vez mais raro elas acompanharem os velrios a p, segurando o

    caixo do morto. A melhor prtica agora seria o acompanhamento do defunto atravs do

    uso de carros funerrios.

  • 19

    As missas de corpo presente tambm passaram a ser raridade assim como as

    missas encomendadas aps a morte. A justificativa da diminuio da ltima era exatamente

    a mudana de pensamento religioso da poca. As pessoas comearam a ver menos

    necessidade nas prticas de rituais de encomendao de suas almas, assim como de utilizar

    menos os trabalhos de irmandades pela encomendao dessas.

    Concluso

    Ao ler sobre a morte, acabamos nos percebendo com outra postura diante de

    velrios. Passamos a ter um outro olhar. Ao invs de um olhar de sofrimento e de

    complacncia como os leigos nesse assunto, direcionamos nosso olhar de uma forma

    reflexiva e analtica.

    Ao fazer essa anlise prtica conseguimos perceber que, costumes que foram

    herdados dos nossos antecedentes portugueses e tambm africanos, da mesma forma que

    alguns conseguiram alcanar a contemporaneidade, outros ficaram perdidos no tempo

    devido a evoluo intelectual do homem.

    Enfim, o comportamento do homem diante da morte sob o ponto de vista histrico

    ao mesmo tempo que nos faz pensar que no houve uma evoluo de pensamento nos

    revela transformaes e o encontro de uma diversidade de atitudes que ainda perduram

    nossos dias.

  • 20

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    ARIS, Philippe. Histria da morte no Ocidente. Trad. Priscila Viana de Siqueira. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1977.

    CNBB. Bblia Sagrada. 10 ed. Braslia. Trad. Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil.

    REIS, Joo Jos. A morte uma festa: ritos fnebres e revolta popular no Brasil do sculo XIX. So Paulo: Companhia da Letras, 1991.

    RODRIGUES, Cludia. Lugares dos mortos na cidade dos vivos: tradies e transformaes fnebres no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1997.

    RODRIGUES, Cludia. Nas fronteiras do Alm: a secularizao da morte no Rio de Janeiro (sculos XVIII e XIX). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2005.

    RODRIGUES, Jos Carlos. Tabu da morte. Rio de Janeiro: Achiam, 1993.

    Elementos Pr-Textuais (verso final) - Vanzia - 2014.2.pdfElementos Textuais (verso final) - Vanzia - 2014.2