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XXIV CONGRESSO NACIONAL DO CONPEDI - … · dentro do pensamento jurídico e político ocidental. E, por fim, trataremos da visão de Hamilton, Madison e Jay em “O federalista”,

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XXIV CONGRESSO NACIONAL DO CONPEDI - UFMG/FUMEC/DOM

HELDER CMARA

TEORIA E FILOSOFIA DO ESTADO

JOSE LUIS BOLZAN DE MORAIS

LEONARDO DA ROCHA DE SOUZA

KARINE SALGADO

Copyright 2015 Conselho Nacional de Pesquisa e Ps-Graduao em Direito

Todos os direitos reservados e protegidos. Nenhuma parte deste livro poder ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados sem prvia autorizao dos editores.

Diretoria Conpedi Presidente - Prof. Dr. Raymundo Juliano Feitosa UFRN Vice-presidente Sul - Prof. Dr. Jos Alcebades de Oliveira Junior - UFRGS Vice-presidente Sudeste - Prof. Dr. Joo Marcelo de Lima Assafim - UCAM Vice-presidente Nordeste - Profa. Dra. Gina Vidal Marclio Pompeu - UNIFOR Vice-presidente Norte/Centro - Profa. Dra. Julia Maurmann Ximenes - IDP Secretrio Executivo -Prof. Dr. Orides Mezzaroba - UFSC Secretrio Adjunto - Prof. Dr. Felipe Chiarello de Souza Pinto Mackenzie

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T314 Teoria e filosofia do Estado [Recurso eletrnico on-line] organizao CONPEDI/ UFMG/ FUMEC/Dom Helder Cmara; coordenadores: Jose Luis Bolzan De Morais, Leonardo da Rocha de Souza, Karine Salgado Florianpolis: CONPEDI, 2015. Inclui bibliografia ISBN: 978-85-5505-134-0 Modo de acesso: www.conpedi.org.br em publicaes Tema: DIREITO E POLTICA: da vulnerabilidade sustentabilidade

1. Direito Estudo e ensino (Ps-graduao) Brasil Encontros. 2. Teoria do Estado. 3. Filosofia do Estado. I. Congresso Nacional do CONPEDI - UFMG/FUMEC/Dom Helder Cmara (25. : 2015 : Belo Horizonte, MG).

CDU: 34

Florianpolis Santa Catarina SC www.conpedi.org.br

http://www.conpedi.org.br/http://www.conpedi.org.br/

XXIV CONGRESSO NACIONAL DO CONPEDI - UFMG/FUMEC/DOM HELDER CMARA

TEORIA E FILOSOFIA DO ESTADO

Apresentao

CONPEDI 2015-MG

TEORIA E FILOSOFIA DO ESTADO

PREFCIO

Os livros que abordam Teoria e Filosofia do Estado tm o grande desafio de enfrentar

questes tericas, relacion-las a questes prticas e realizar propostas de avanos ou de

solues para os problemas enfrentados. Tudo isso nem sempre atingido. O livro que

organizamos a partir dos trabalhos selecionados e apresentados no GT CONPEDI Teoria e

Filosofia do Estado -, e ora apresentamos, pretende dar conta de tudo isso.

Dos textos apresentados, percebemos uma grande preocupao nas discusses sobre os tipos

de Estado. Nessa temtica, um dos textos deste livro trata do Estado de Bem-Estar Social,

com uma anlise das suas origens at os dias atuais. Outros cinco textos abordam o Estado de

Direito, relacionando esse tema esfera pblica, soberania e ps-modernidade, alm de

analisar sua evoluo histrica e as relaes de poder presentes nesse projeto, sempre

inacabado.

O livro tambm conta com trabalhos relacionados soberania dos Estados e suas relaes

transnacionais. So textos que estudam: a relativizao da soberania quando necessria para

garantir a proteo ambiental, os desafios da nao na globalizao, bem como os exrcitos

privados e os diplomatas independentes em uma realidade cosmopolita.

Outro bloco de artigos se preocupou com temas que envolvem a Constituio e a democracia.

So propostas de reconstruo da teoria deliberativa, da relao entre democracia e Estado na

Amrica Latina, e entre democracia e crise, bem como sobre os fundamentos da

representao poltica. Alm desses temas, dois trabalhos abordaram o novo

constitucionalismo na Amrica Latina, um deles envolvendo o surgimento do Estado

Plurinacional e outro estudando a busca pela libertao da diversidade.

Trs outros trabalhos apresentaram temas relacionados federao, um deles mais terico,

voltado jurisdio constitucional, e dois abordando a autonomia e as atribuies dos

Municpios no modelo federativo brasileiro.

Por fim, tivemos textos com temas mais diversificados, tratando de: separao de poderes e

funo judiciria, natureza humana e origens do Estado, direito de resistncia, servido

voluntria e a questo das massas, concepes de justia, humanismo e segurana jurdica.

Percebemos, assim, com os trabalhos constantes neste livro, a riqueza de temas e de

abordagens que podem ser feitas quando se estuda a Teoria e a Filosofia do Estado. Aqui se

apresentam as grandes dificuldades e os imensos desafios para aqueles que se dedicam a (re)

pensar as circunstncias que envolvem as instituies poltico-jurdicas, em particular na sua

expresso moderna, projetando-as para o futuro. Um futuro incerto que nos leva a termos

presente a necessidade de revisitar o conhecimento jurdico para que possamos dar conta dos

dilemas que incidem nas experincias da modernidade.

Uma boa leitura a todos!

Prof. Dr. Jos Luis Bolzan de Morais - UNISINOS

Prof. Dra. Karine Salgado - UFMG

Prof. Dr. Leonardo da Rocha de Souza - UCS

A SEPARAO DE PODERES E A FUNO JUDICIRIA EM JOHN LOCKE, MONTESQUIEU E HAMILTON, MADISON E JAY.

THE SEPARATION OF POWERS AND THE JUDICIAL FUNCTIONS IN JOHN LOCKE, MONTESQUIEU E HAMILTON, MADISON E JAY.

Maurcio Pires Guedes

Resumo

Surgem atualmente no cenrio poltico mundial diversos movimentos que buscam conformar,

no plano da teoria do direito e do Estado, as bases de um novo paradigma filosfico

relacionado a novas tcnicas de hermenutica constitucional. Este movimento fruto de um

longo desenvolvimento histrico e poltico cujas bases imediatas esto diretamente fincadas

ao perodo de consolidao do Estado moderno. O objeto que se pretende tratar no presente

artigo cientfico, a separao de poderes a partir da funo do poder judicirio em diferentes

matrizes culturais neste perodo, reflete bem esta condio. A anlise das vises do ingls

John Locke, do francs Montesquieu e dos norte-americanos Hamilton, Madison e Jay

demonstrar a diversidade de acepes acerca da funo judiciria e as respectivas

influncias delas decorrentes. Sero estes traos que se pretender apontar no presente artigo,

buscando-se, na historicidade, o reconhecimento fundamental da prpria experincia do

direito, de modo a permitir, ao final, uma compreenso mais adequada da realidade

institucional que hoje vivemos.

Palavras-chave: Pensamento poltico, Separao de poderes, Teorias do estado

Abstract/Resumen/Rsum

Currently there are emerging on the world political scene several movements that search for

the foundation of a new philosophical paradigm related to new techniques of constitutional

hermeneutics. This movement is the result of a long historical and political development

whose immediate bases are directly attached to the consolidation of the modern state. This

paper pretend to study the separation of powers, of diverse cultural matrices, from the

judiciary function view, pretending to show these influences. From the perspective on history

and law experience, these are the parameters we pretend to study, trying, at the end, an

adequate understanding of institutional reality in which we live today.

Keywords/Palabras-claves/Mots-cls: Political thought, Separation of powers, Theory of the state

381

1. INTRODUO:

A anlise comparativa dos principais sistemas jurdicos ocidentais aponta menos para

uma proximidade ontolgica que para uma diversidade de estruturas e de aspectos funcionais,

demonstrando a dissenso de suas matrizes histrico-culturais.

E, por outro lado, o constitucionalismo contemporneo, influenciado pela recproca

interao destes sistemas busca conformar, no plano da teoria do direito e do Estado, as

bases de um novo paradigma juspoltico-filosfico que surge no cenrio jurdico mundial

aps a segunda grande guerra.

A partir dos prefixos neo e ps agregados ao positivismo e ao

constitucionalismo, como marca da superao das bases do regime anterior, estas diversas

concepes do direito buscam a compreenso de que o formalismo que imperou no

pensamento jurdico a partir do sculo XVIII deve ser substitudo por consideraes

superiores de natureza moral e axiolgica, de modo que, relacionadas a novas tcnicas de

hermenutica, implicariam em verdadeira mutao da cultura jurdica1 contempornea.

Imbricado a este novo movimento paradigmtico decorre a proeminncia poltica

do Poder Judicirio sobre os demais poderes, na medida em que, de fato, a ele delegado

um papel fundamental para o regular funcionamento deste organismo.

Ao lado dos mtodos tradicionais de interpretao da norma surgem novas tcnicas

de hermenutica que remodelam o pensamento da teoria do direito, notadamente o princpio

da separao de poderes, fornecendo ao magistrado a liberdade necessria para decidir a

causa que lhe apresentada a partir de valores que extrapolam a mera aplicao formal da

norma ao caso concreto.

O objeto que se pretende tratar no presente artigo cientfico, a funo do poder

judicirio em diferentes matrizes culturais no perodo histrico que antecede o surgimento do

Estado moderno, reflete bem esta condio.

A anlise das vises do ingls John Locke, do francs Montesquieu e dos norte-

americanos Hamilton, Madison e Jay demonstrar a diversidade de acepes acerca da funo

judiciria e as respectivas influncias delas decorrentes.

Embora tal distino, no presente caso, apresente relativo alcance, j que os rumos da

histria demonstram hoje a infiltrao e contaminao entre tais acepes2, principalmente se

1 A expresso de SARMENTO (2010, p.239). 2 Nesse sentido a expressa referncia Constituio Americana como tendo recebido ateno da Assembleia

Nacional Francesa, conforme esclarece DUGUIT (1996, p. 18-21).

382

considerarmos os diferentes perodos em que foram produzidos, certo que modelos estatais

delas decorrentes apresentaram relevantes traos prprios e caractersticos que auxiliam, em

nossa viso, o estudioso preocupado em compreender as bases polticas do mundo

contemporneo.

Sero estes traos que se pretender apontar no presente artigo, buscando-se, na

historicidade, o reconhecimento fundamental da prpria experincia do direito, de modo a

permitir, ao final, uma compreenso mais adequada da realidade institucional que hoje vivemos.

Quanto a necessidade da apreenso dos elementos histricos para a melhor

compreenso do perodo subsequentes valemo-nos das lies de SALDANHA que, ao destacar

a relevncia do fenmeno poltico a partir de uma abordagem histrica dos fatos, nos aponta

elementos fundamentais, ao nosso ver, para o estudo mais completo da teoria do direito:

Cabe, destarte, a uma teoria do direito que se disponha a ser fundamental, reconhecer

e recolher, na prpria experincia do direito (incluindo nesta ou relacionando com esta

as formas do conhecimento jurdico culturalmente respectivas), sua dimenso

histrica. Vale dizer: reconhecer a relativa variabilidade das formas, e sua relativa

invariabilidade, ambos os casos compreensveis historicamente, e no apenas

logicamente. Tambm a variabilidade e a invariabilidade relativas dos valores se situa

numa compreenso histrica. (...) Historicidade de valores no significa aqui

propriamente negao da ndole racional da idia de valor, nem significa desconhecer

que um valor se toma quase sempre em perspectiva intemporal. Mas que as

valoraes so sempre atos situados em circunstncias, e so elas que preenchem

as formas, ou que as pedem, ou fabricam; de modo que a intemporalidade est no

valor como numa idia, mas no em sua presena ou atuao nas relaes concretas

dos homens. (1987, p. 26)

Nestes termos, iniciaremos nossa anlise pelo Segundo tratado sobre o governo de

John Locke, e sua definio para as funes a serem exercidas pelos diferentes poderes

polticos, especialmente a legislativa e executiva.

Posteriormente passaremos a analisar a clssica tripartio de Montesquieu em seu O

Esprito das leis, o que de certa forma j aproxima este estudo da realidade contempornea

dentro do pensamento jurdico e poltico ocidental.

E, por fim, trataremos da viso de Hamilton, Madison e Jay em O federalista, e a

separao de poderes enquanto instrumento de defesa da constituio norte-americana, o que,

ao nosso ver, constitui a efetiva base para o direito constitucional contemporneo.

2- DA DIVISO BIPARTIDA DE FUNES DE JOHN LOCKE:

Em 1632, quarenta e quatro anos depois de Hobbes, nasce em Bristol, na Inglaterra,

John Locke, no turbulento perodo de restaurao dos Stuarts que somente se encerraria em

383

1660. Defensor do partido whig, e vencedor na revoluo de 1688, Locke se coloca a servio

do partido com o objetivo de acalmar a inquietao e apaziguar as tenses de seus compatriotas.

Diante daqueles que viam a expulso do Stuart Jaime II como violao ao sagrado

soberano legtimo, poder este que se alicerava na ideia de origem divina, representante que

era de Deus na terra, tem esta tese em Locke um dos seus principais contendores, sendo

manifesto este posicionamento quando defende a existncia de direitos naturais do indivduo j

no estado de natureza, na tentativa de desmistificar e deslegitimar o estado absoluto at ento

existente.

Curioso relevar, nesse giro, que a justificativa para a insero do homem no novo

contexto social decorre da necessidade de se evitar alguns inconvenientes que poderiam advir

do estado da natureza, aproveitando-se Locke deste momento para fixar diversos mecanismos

e institutos anti-absolutistas na tentativa de evitar uma futura e eventual retomada do poder pelo

regime anterior.

Este o sentido da leitura de CHEVALLIER, em especial do seguinte trecho:

No Estado de natureza, cada um juiz em causa prpria; cada um, igual ao outro,

de certo modo rei; ele pode achar-se tentado a observar com pouco exatido a

equidade, a ser parcial em seu proveito e no dos amigos, por interesse, amor-prprio

e fraqueza; pode-se achar-se tentado a punir por paixo e vingana: quantas ameaas

graves conservao da liberdade, da igualdade natural, ao gozo tranquilo da

propriedade! Em suma, nesse estado natural, primeira vista idlico, faltam: leis

estabelecidas, conhecidas, recebidas e aprovadas por meio de comum consentimento;

juzes reconhecidos, imparciais, criados para terminar com todas as diferenas de

acordo com as lei estabelecidas; enfim, um poder coercitivo, capaz de assegurar a

execuo dos juzos proferidos. Ora, tudo isso encontra-se no estado de sociedade,

sendo precisamente o que caracteriza tal estado. E foi para se beneficiarem de tais

aperfeioamentos que os homens mudaram. (1999, p. 109-110)

Nesse contexto, nessa engenhosa retrica trazida para justificar a falta de legitimidade

do poder absolutista derrotado, surge a distino e separao de poderes na viso de Locke,

como decorrente do pacto dos cidados firmados nesse novo estado social.

A diviso apresentada por Locke j demonstra sua preocupao em evitar o abuso do

poder que o assenhoramento de tais funes nas mos de uma s pessoa ou um s grupo poderia

levar, embora de fato, no reste dvida ter o referido autor propugnado uma maior relevncia

na atuao do funo legislativa.

De fato, partindo dos poderes do homem no estado da natureza, Locke nos apresenta

duas funes soberanas internas nessa sociedade poltica a ser instaurado: a legislativa, que teria

a tarefa de definir o modo com que se dever utilizar a fora da comunidade para a preservao

dela prpria e de seus membros; e a executiva, que teria o encargo de assegurar internamente a

execuo das leis positivas.

384

Ao lado deste dois poderes inclua Locke o poder federativo, cuja atribuio passaria

notadamente pela gesto das relaes exteriores com outras sociedades politicamente

organizadas, em especial a questo da decretao da guerra ou da celebrao da paz e o

estabelecimento de acordos ou alianas.

Necessrio nesse ponto destacar que embora relevante no possvel incluir Locke

como efetivo expoente da trplice separao de poderes que se consolidaria com a formao do

Estado moderno, faltando-lhe, de fato, um maior desenvolvimento que somente seria alcanado

por Montesquieu posteriormente, conforme bem esclarece FARIAS NETO (2011):

Locke explanou sobre a forma de governo civil que deve ser escolhido no contexto do

contrato social determinante do estado civil estabelecido pelo consentimento unnime

dos indivduos, visando aliar o interesse comum aos interesses individuais. Na escolha

do governo, ao invs da unanimidade do contrato originrio, assomaria o princpio da

maioria, em que a posio majoritria resultaria prevalecente, embora

concomitantemente ao respeito pelos direito da minoria. Locke propugnou o fim da

concentrao de poder no monarca, de modo que o poder legislativo, escolhido pela

maioria, teria superioridade sobre os demais poderes de Estado, ficando constitudo

como o poder supremo. O denominado poder federativo ficaria encarregado de gerir

as relaes exteriores, com outras sociedades politicamente organizadas, abrangendo

a deliberao sobre guerra, paz, alianas e tratados. Ao poder legislativo, ficaria

subordinado o poder executivo, confiado ao monarca, alm do poder federativo. O

poder executivo e o poder federativo poderiam, inclusive, ser exercidos pelo mesmo

governante. A abordagem de Locke preceituou a existncia de uma clara separao

do poder legislativo em relao aos poderes executivo e federativo. Ao concentrar o

poder executivo e o poder federativo, contudo, Locke no delineou a tripartio

completa do poder, que ficou mais bem desenvolvida por Montesquieu (1689-1755),

posteriormente, no sculo XVIII. (2011, p, 253)

De fato no h, dentro do quadro delineado por Locke, expressa referncia a funo

jurisdicional a ser exercida independentemente dos demais poderes tal qual hoje ns a

conhecemos, o que no significa, evidentemente, que no houvessem responsveis por

determinar, em lides concretas, a aplicao do direito da forma adequada

De acordo com este autor, a funo executiva deveria englobar a funo de julgar casos

em que houvessem partes litigando, na medida em que a administrao e a execuo das leis

inclua sua aplicao particular da norma no caso concreto. Significa dizer, em outras palavras,

que cabia ao executivo a aplicao das leis na medida em que nsito a finalidade deste rgo

encontrava-se a necessidade de preservao da paz nas relaes sociais.

Interessante observar, nesse passo, a preponderncia da funo legislativa sobre a

executiva, tendo Locke explicitamente qualificado a produo da norma como sendo o poder

supremo da comunidade. Nesse sentido a seguinte passagem encontrada no Segundo tratado

sobre governo o civil:

o poder supremo da comunidade, mas sagrado e intocvel nas mos a que a

comunidade o confiou; nem pode um edito, seja de quem for, concebido de qualquer

385

modo ou apoiado por qualquer poder, ter a fora e a validade de lei se no tiver sano

do legislativo eleito pela comunidade. (2010, p. 90)

Relevante destacar, nesse sentido, que embora aparentemente inferior e submissa, a

funo executiva desempenhava, luz de um critrio de relevncia social, funo de igual

repercusso ao do legislativo, o que possibilitaria, como consequncia, o exerccio do famoso

direito de resistncia e revolta por parte dos cidados, considerado por Locke direito natural e,

por isso mesmo, inerente natureza humana.

E mais: defendia Locke que ambos poderes recebiam dos governados o mesmo

consentimento daquele suposto poder supremo e superior, de modo que tanto um, como outro,

estavam submissos a soberania e a confiana do povo. Era o prprio povo, em ltima instncia,

quem tinha o poder de confiar a administrao de suas vidas a quem lhe aprouvesse.

Dessa forma, e diante desse quadro, fica evidente que a diviso trazida por Locke

das funes entre poder executivo e legislativo, excludo aqui o federativo pelas razes acima

expostas tinha por finalidade, em ltima instncia, resguardar a soberania do povo da

concentrao de poderes em uma nica pessoa ou em nico rgo, o que permitiria, em sua

viso, um maior equilbrio no desenvolvimento das relaes polticas e sociais. Nesse tema

esclarece CHEVALLIER:

embora Locke evite elaborar aqui uma construo rigorosa, o povo conserva sempre

uma soberania potencial, em reserva: ele, e no o legislativo, o detentor do

verdadeiro poder soberano. (...) Quem julgar, entre o legislativo e o executivo, se

este ltimo fez bom ou mau uso da prerrogativa? Quem julgar, entre o legislativo e

o povo, se o primeiro conspira para escravizar o segundo? Quem julgar, quem

sancionar a fidelidade dos depositrios (trustees) do poder, a eles confiado para o

bem pblico? O povo, a ttulo de depositante, deve julgar a tal respeito. (1999, p.

109-110)

Interessante observar, conforme visto acima, que a maneira como Locke desenvolve

essa ideia contrastar com aquela empregada por Montesquieu em sua obra, embora o

desenvolvimento da funo executiva de Locke em duas realidades distintas poder

administrativo e poder judicirio acaba exatamente por caracterizar a tripartio apresentada

e defendida pelo autor francs.

Diante de tal especificidade, e para uma melhor compreenso sobre este tema,

passemos a analisar tal questo na tica de Montesquieu, tendo como referncia o seu clssico

trabalho O Esprito das leis.

3. DA DIVISO TRIPARTIDA DE FUNES DE MONTESQUIEU:

386

A preocupao de usurpao do poder apresentada por Locke ecoa significativamente

em Charles-Louis de Secondat, ou Baro de Montesquieu, pensador poltico francs do perodo

iluminista, tendo merecido deste uma teorizao muito mais completa e elaborada. De fato, a

liberdade o ponto de partida para a diviso de Montesquieu, como forma de evitar a

preponderncia de um poder sobre os demais.

No a liberdade do povo em que cada um pode fazer o que se quer. Na viso de

Montesquieu, a liberdade poltica, baseada nas leis nos moldes da constituio da Inglaterra

em que s se pode fazer aquilo que as leis permitem.

Nesse passo defende MONTESQUIEU em clssica passagem para a Teoria do

Direito:

A liberdade poltica, em um cidado, esta tranqilidade de esprito que provm da

opinio que cada um tem sobre sua segurana; e para que se tenha esta liberdade

preciso que o governo seja tal que um cidado no possa temer outro cidado. (2005,

p. 168)

Nesse momento que surge, por um lado, a diviso vertical 3, visando resguardar,

na clebre frase de Montesquieu, que para que no se possa abusar do poder, preciso que,

pela disposio das coisas, o poder limite o poder (2005, p. 166).

Este o germe de sua separao de poderes, j que na viso de Montesquieu mesmo

nos estados moderados garantidores da liberdade poltica, esta s existe efetivamente quando

no h o abuso de quem possui o poder, experincia que o prprio apresenta como eterna no

sentido de que todo o homem levado a dele abusar.

Exsurge, nesse momento, a clssica diviso de funes entre os rgos executivo,

legislativo e judicirio, a partir da prpria argumentao de que tambm a liberdade, luz de

sua teoria, precisaria ser limitada de modo a evitar a concentrao de poderes nas mos de uma

nica pessoa. Quem diria! afirma Montesquieu, at a virtude precisa de limites (2005, p.

166).

Pela eloquncia da argumentao, transcrevemos o seguinte trecho sobre este tema,

que fulcral para a compreenso daquilo que marcaria o pensamento poltico e jurdico do

mundo ocidental contemporneo:

Quando, na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratura, o poder legislativo

est reunido ao poder executivo, no existe liberdade; porque se pode temer que o

mesmo monarca ou o mesmo senado crie leis tirnicas para execut-las tiranicamente.

Tampouco existe liberdade se o poder de julgar no for separado do poder legislativo

e do executivo. Se estivesse unido ao poder legislativo, o poder sobre a vida e a

liberdade dos cidados seria arbitrrio, pois o juiz seria legislador. Se estivesse unido

ao poder executivo, o juiz poderia ter a fora de um opressor. Tudo estaria perdido se

3 As expresses diviso vertical e diviso horizontal foram cunhadas por BOBBIO (1997. p. 136).

387

o mesmo homem, ou o mesmo corpo dos principais ou dos nobres, ou do povo

exercesse os trs poderes: o de fazer as leis, o de executar as resolues pblicas e o

de julgar os crimes ou as querelas entre os particulares. (2005, p. 168).

Por outro, a diviso horizontal de poder defendida por Montesquieu,

consubstanciada no clssico conceito de governo misto de Polbio em que as trs foras

concretas da sociedade4 o povo, o monarca e a nobreza esto combinados como forma de

harmonizar as tenses sociais, em especial diante do efeito moderador deste ltimo.5

Interessante observar, nesse passo, que embora a teoria da separao dos poderes tenha

tido maior projeo, tanto que as primeiras constituies escritas, a norte-americana de 1789 e

a francesa de 1791 nela se basearam, foi a diviso horizontal a grande proposta apresentada

por Montesquieu em sua obra.

Isso porque, e esta questo nos interessa em especial no presente estudo, Montesquieu

via na funo jurisdicional um poder invisvel e nulo: no se tm continuamente juzes sob os

olhos; e teme-se a magistratura, e no os magistrados. (2005, p. 169).

Dentro desse quadro que surge a expresso "bouche de la loi"6 (boca da lei)

imputada aos magistrados, no sentido de que os juzes devem apenas aplicar da forma mais

mecnica possvel as leis editadas pelo Legislativo, como forma de democraticamente garantir

e assegurar os direitos do cidado em face dos excessos do Estado.

Sobre esta atividade meramente mecnica esclarece Luiz Guilherme Marinoni

(2009, p. 29-30)

De acordo com Montesquieu, o poder de julgar deveria ser exercido por meio de

uma atividade puramente intelectual, no produtiva de direitos novos. Essa

atividade no seria limitada apenas pela legislao, mas tambm pela atividade

executiva, que teria tambm o poder de executar materialmente as decises que

constituem o poder de julgar. Nesse sentido, o poder dos juzes ficaria limitado a

afirmar o que j havia sido dito pelo Legislativo, devendo o julgamento ser apenas

um texto exato da lei. Por isso, Montesquieu acabou concluindo que o poder de

julgar era, de qualquer modo, um poder nulo (en quelque faon, nulle). Assim,

conferiu-se o poder de criar o direito apenas ao Legislativo. A prestao judicial

deveria se restringir mera declarao da lei, deixando-se ao executivo a tarefa de

executar as decises judiciais. Para que se pudesse limitar o poder do juiz declarao

da lei, a legislao deveria ser clara e capaz de dar regulao a todas as situaes

conflitivas. Os Cdigos deveriam ser claros, coerentes e completos. O medo do

arbtrio judicial, derivado da experincia do ancien rgime, no apenas exigia a

separao entre o poder de criar o direito e o poder de julgar, como tambm orientava

a arquitetura legislativa desejada. Alm disto, o racionalismo exacerbado, tpico da

poca, fazia acreditar que a tarefa judicial poderia ser a de apenas identificar a norma

aplicvel para a soluo do litgio.

4 E mais uma vez fica evidente a referncia da diviso de poderes inglesa, cuja exteriorizao, a partir da revoluo

de 1688, assumiria tal fisionomia. 5 Nos moldes ingleses: o povo, na cmara dos comuns, por eleio; os nobres na cmara dos lordes, por

hereditariedade; e o monarca, na chefia do poder executivo. 6 Expresso cunhada por Montesquieu, no livro O esprito das leis

388

Esta concepo dos magistrados decorria da neutra posio na qual Montesquieu

inseria a funo jurisdicional, em contraposio aquela ativa do regime anterior em que, em

razo da ausncia de limites para a sua atuao, se confundia em muitas vezes com a prpria

funo administrativa.

Por outro lado, elemento estrutural da sociedade poltica para Montesquieu passava

pelo reconhecimento de que era a funo legislativa, por suas duas casas, e o executivo os

efetivos rgos que exerciam plenamente o poder. Nesse sentido afirma MONTESQUIEU:

Eis ento a constituio fundamental do governo de que falamos. Sendo o corpo

legislativo composto de duas partes, uma prende a outra com sua mtua faculdade de

impedir. Ambas estaro presas ao poder executivo, que estar ele mesmo preso ao

legislativo. (...) Estes trs poderes deveriam formar um repouso ou uma inao. Mas,

como, pelo movimento necessrio das coisas, eles so obrigados a avanar, sero

obrigados a avanar concertadamente." (2005, p.176)

Fica evidente que mais do que a equivalncia to difundida na teoria da separao

dos poderes, a preocupao de Montesquieu era propiciar a existncia de instncias

independentes que assegurassem que no houvesse o abuso por parte de quaisquer deles. E tal

papel, na viso de Montesquieu, seria exercido na interao entre as funes legislativas e

executiva.

Em igual sentido apresentamos a viso de ALBUQUERQUE:

(...) Montesquieu mostra claramente que h uma imbricao de funes e uma

interdependncia entre o executivo, o legislativo e o judicirio. A separao de

poderes da teoria de Montesquieu teria, portanto, outra significao. Trata-se, dentro

dessa ordem de idias, de assegurar a existncia de um poder que seja capaz de

contrariar outro poder. Isto , trata-se de encontrar uma instncias independente capaz

de moderar o poder do rei (executivo). um problema poltico, de correlao de

foras, e no um problema jurdico-administrativo, de organizao de funes. Para

que haja moderao preciso que a instncia moderadora (isto , a instituio que

proporcionar os famosos freios e contrapesos da teoria liberal da separao dos

poderes) encontre sua fora poltica em outra base social. Montesquieu considera a

existncia de dois poderes ou de duas fontes de poder poltico, mas precisamente: o

rei, cuja potncia provm da nobreza, e o povo. preciso que a classe nobre, de um

lado, e a classe popular, de outro lado (na poca o povo designa a burguesia,

tenham poderes independentes e capazes de se contrapor. Em outras palavras, a

estabilidade do regime ideal est em que a correlao entre as foras reais da sociedade

possa se expressar tambm nas instituies polticas. Isto , seria necessrio que o

funcionamento das instituies permitisse que o poder das foras sociais contrariasse

e, portanto, moderasse o poder dos demais. (2006, p. 119-120)

Nesse passo, conforme visto acima, de acordo com Montesquieu o poder de julgar

deveria ser exercido por meio de uma atividade puramente intelectual, no limitada apenas pela

legislao, mas tambm pela funo executiva que teria tambm o poder de fazer cumprir

materialmente tais decises.

389

Nesse sentido, conferiu-se o poder de criar o direito apenas ao legislativo, ficando o

poder dos juzes limitado mera declarao da norma ao caso concreto. O medo do arbtrio

judicial no apenas exigia tal separao na viso de Montesquieu, como tambm orientou,

inequivocamente ao nosso ver, a opo legislativa de buscar, a partir da codificao, disciplinar

todas as situaes conflitivas que pudessem surgir no seio social.

Talvez no por outro motivo a preocupao de usurpao do poder apresentada por

Montesquieu tenha ecoado significativamente nos revolucionrios franceses que tomaram

o poder em 17897.

Nesse sentido, necessrio observar que foi exatamente esta conformao dada

funo jurisdicional, recm consolidada nas mos do Estado, a mola-mestra para o

desenvolvimento da Escola da Exegese na Frana a partir da codificao realizada por

Napoleo em 1804, em que ser submetido, de fato, o poder dos juzes mera declarao

da norma ao caso concreto.

Replicada em sua gnese pelos adeptos da doutrina da Escola da Exegese, fica

evidente a restrita concepo deferida funo de julgar neste perodo a partir da anlise

do seguinte trecho de Montesquieu:

Mas, se os tribunais no devem ser fixos, os julgamentos devem s-lo a tal ponto

que nunca sejam mais do que um texto preciso da lei. Se fossem uma opinio

particular do juiz, viveramos em sociedade sem saber precisamente os

compromissos que ali assumimos. [...] Mas os juzes da nao so apenas, como

dissemos, a boca que pronuncia as palavras da lei; so seres inanimados que no

podem moderar sua fora, nem seu rigor. (2005, p.170-175)

Segundo esta concepo que se instaura a partir da Escola da Exegese, legalista ao

extremo, aos juzes compete unicamente a aplicao do direito produzido expresso da

vontade do povo tal como manifestada nas deliberaes do poder legislativo , esvaziando-

se desta funo, portanto, qualquer poder de fonte do direito na produo da norma.

Nesse sentido o discurso de Jean-Paul Marat Assemblia Geral Francesa em

agosto de 1789:

7 Nesse sentido o discurso de Jean-Paul Marat Assemblia Geral Francesa em agosto de 1789, apresentado

textualmente por FAUR (1995, p. 276, traduo livre): Montesquieu? Sim, Montesquieu, o maior homem que

produziu o sculo e que ilustrou a Frana. No se falar nem de seu gnio nem de suas virtudes: quem pode

ignor-las? Mas seu amor pela humanidade do qual sempre foi seu vingador; seu dio contra o despotismo, ao

qual buscou sempre lutar; seu respeito pela lei, seu zelo pelo bem-estar pblico, a sua devoo ao seu pas,

mereciam ser melhores conhecidos. Mentes superficiais e frvolas o criticam por ter favorecido a aristocracia.

Talvez admirado um pouco alm da conta por seu esprito de luta que mostrou durante muito tempo nobreza da

cavalaria: mas que homem no mundo poderia apreciar melhor o que h de vulgar nos nobres, que homem no

mundo se sentiu mais diminudo pelos tribunais? Talvez nos faa falta um exagerado prejuzo que envolve os

injustos e ingratos? Quo obrigados no estamos com ele? Seria o primeiro entre ns que desarmaria a

superstio, arrancaria o punhal do fanatismo, reivindicando os direitos do homem contra a tirania. ! E em que

momento. Em um tempo no qual ningum na Frana se atreveu a falar contra um ministro, em uma poca em que

os franceses eram escravos por princpio.

390

As leis so o caminho do direito, da inocncia e da liberdade dos cidados:

contudo, as mais sbias leis seriam vs, se pudessem ser contornadas,

interpretadas a dizer o que no dizem, se o acusado ou o demandado tivessem que

temer pela ignorncia, pela parcialidade ou pela corrupo dos juzes.

importante ento que as leis sejam justas, claras e precisas; que sejam tomadas

sempre ao p da letra [sic]; que os juzes sejam sensatos e ntegros, e que a

instruo do processo seja pblico. (apud FAUR. 1995, p. 290, traduo livre)

Necessrio destacar, por fim, agora tendo como paradigma o direito anglo-saxo,

as bases do estado federal implementado a partir da Constituio estadunidense de 1789,

cujas bases, embora tendo como referncias a obra de Montesquieu, ultrapassaro, de certo

modo, aquilo que este autor havia delineado.

De fato, se princpio da separao de poderes recebe na Frana os elementos

necessrios consolidao do Estado moderno e a superao do Antigo Regime, o

paradigma norte-americano ter como primordial finalidade estabelecer o elo necessrio ao

fortalecimento das 13 (treze) colnias recm-independentes do governo britnico, e, por via

oblqua, organizar o prprio pacto federativo adotado a partir da Constituio americana de

1789, cujo debate, diante de sua especificidade, ser analisado no prximo tpico.

4. DA SEPARAO DOS PODERES EM O FEDERALISTAS DE HAMILTON,

MADISON E JAY.

Vistas as questes referentes separao de poderes em John Locke e Montesquieu,

matrizes de fundamental importncia para o pensamento poltico contemporneo, passemos a

analisar a adaptao realizada por Hamilton, Madison e Jay no livro O federalista, cujas bases

marcaro o tema sob a tica do direito estadunidense.

Antes, entretanto, cumpre-nos destacar que O federalista um conjunto de 85 artigos

escritos por Alexander Hamilton, John Jay e James Madison publicados anonimamente sob o

pseudnimo Publius entre 1787 e 1788, e que tinha como intuito convencer a populao de

Nova Iorque a ratificar a Constituio estadunidense redigida na Conveno da Filadlfia, em

especial a proposta do novo sistema que da surgia: o federalismo.

Importante observar, nesse giro, a inegvel influncia que Montesquieu causou nas

ideias de Hamilton, Madison e Jay quanto a separao dos Poderes, assimilado e denominado

de checks and balances freios e contrapesos pelos federalistas enquanto interao entre os

Poderes com o propsito de evitar que qualquer deles preponderasse.

391

Partiam tambm Hamilton, Madison e Jay, de acordo com o pensamento de

Montesquieu, do fato de que haveria uma natural tendncia de abuso por parte daquele que

exerce o poder. Nesse sentido, esclarece MADISON no escrito n 48:

Foi assinalado no artigo anterior que o aforismo poltico ento analisado no exige

que os ramos legislativo, executivo e judicirio sejam totalmente desconectados uns

dos outros. Tentarei mostrar a seguir que, salvo se esses ramos forem de tal modo

entrelaados para que cada um possa exercer um controle constitucional sobre os

outros, o grau de separao que aquele aforismo requer, como essencial a um governo

livre, jamais poder ser devidamente mantido na prtica. (...) No se nega que o poder

, por natureza usurpador, e que precisa ser eficazmente contido, a fim de que no

ultrapasse os limites que lhe foram fixados. (2010. p. 315)

Por outro lado essa perspectiva acaba afastando-se da viso de Montesquieu na medida

em que as instituies que compunham a teoria do governo misto por ele propugnada no

encontravam instituies correspondentes no modelo norte-americano. E mais, no esclio de

Christian Lynch, a prpria diversidade de concepo de soberania e de povo j apontava para

uma incompatibilidade entre tais modelos.

De fato, diferentemente da viso francesa em que a soberania poltica

circunscrevia-se preponderncia ordem legislativa e que justifica a predominncia

poltica do Poder Legislativo sobre os demais poderes , a diviso poltica estadunidense

pendia para um conceito muito mais amplo, abrangendo no s o exerccio pelo Congresso

norte-americano, mas tambm do chefe do Poder Executivo e dos integrantes do Poder

Judicirio, o que acabou por importar, como consequncia, na prpria consolidao deste

peculiar positivismo jurdico em solo estadunidense no nicio do sculo XIX.

No esclio de Christian Lynch:

A concepo francesa hegemnica de Estado de direito consagrava a soberania do

povo como princpio ordenador da ordem poltica. A lei era a vista como um

instrumento de uma vontade eticamente definida e, como tal, poderia ser suspensa

ao seu arbtrio. Ou seja, era a poltica que formatava o direito, e no o contrrio.

[...] No entanto, o juscontratualismo anglo-americano considerava a soberania

popular de modo completamente diverso. Para eles, Estado e representao eram

elementos apartados do povo e soberania. Se estes ltimos davam-lhes origem por

meio das eleies, nem por isso estes adquiriam qualquer fora autnoma. Os

federalistas entendiam que era da natureza do poder soberano uma avidez (...)

que dispe os que esto investidos de seu exerccio a ver com maus olhos todas

as tentativas de limitar (...) suas aes (MADISON, HAMILTON & JAY,

1993:163). Assim, ao invs de concentrar o poder soberano do povo nas mos de

um nico representante, como preconizavam os republicanos franceses, os

fundadores da repblica norte-americana preferiram desinstitucionalizar

completamente o locus da soberania, deixando-o nas mos do povo. (2010, p.110)

Nesse passo, a partir das ideias de Montesquieu e da teoria da separao de poderes,

obliquamente aplicadas ao positivismo jurdico anglo-saxo e a preocupao de se buscar

mecanismos para limitar os abusos que eventualmente adviriam do Poder Legislativo,

392

consolida-se, em nossa viso, este novo paradigma da separao dos poderes que

influenciaria, de forma inequvoca, o pensamento poltico ocidental.

Interessante observar, nessa perspectiva, que ao contrrio do modelo francs em que

as questes polticas ditavam os rumos do direito e das normas jurdicas demonstrada no

tpico anterior pela subservincia do poder judicirio diante dos demais poderes , a viso de

Hamilton, Madison e Jay se colocava em sentido contrrio a esta perspectiva, na medida em

que eram as usurpaes legislativas, em uma repblica representativa, a maior ameaa

liberdade do povo.

Interessante observar, nesse passo, que enquanto o poder executivo seria exercido por

uma pessoa, o presidente da repblica, o poder judicirio seria composto por juzes vitalcios e

pela suprema corte, ambos os poderes, na viso de Hamilton, Madison e Jay, absolutamente

limitados.

Revela-se evidente, dessa forma, a grande a preocupao de tais autores com a funo

legislativa, na medida em que poderia este poder perseguir suas prprias ambies sem qualquer

limite dos outros dois. Nesse sentido esclarece MADISON:

Onde o Legislativo exercido por uma assembleia, credenciada por uma suposta

influncia sobre o povo e com uma absoluta confiana em seu poderio; sendo

suficientemente numerosa para perceber as tendncias que atuam sobre a massa, mas

no tanto que se torne incapaz de perseguir os objetivos de suas ambies, utilizando

os meios prescritos pela razo contra os abusos deste legislativo que o povo deve

orientar suas suspeitas e concentrar todas as suas precaues. (2010. p. 316)

Surge diante de tal perspectiva a diviso bipartida do poder legislativo apresentada por

Montesquieu, no como meio de contemplar os diferentes grupos sociais integrantes da

sociedade na esteira da tese polibiana, mas, ao contrrio, visando resguardar os demais poderes

j que o legislativo naturalmente seria constitucionalmente mais abrangente e menos suscetvel

de uma limitao. Argumenta MADISON a esse respeito:

Ser suficiente assinalar com preciso, ao constituir-se o governo, os limites dos trs

ramos e confiar nessas barreiras de papel impresso como capazes de deter o esprito

usurpador do poder? Esta a segurana que parece ter sido a principal imaginada

pelos elaboradores da maioria das Constituies americana. Todavia, a experincia

ensina-nos que a eficcia da proviso tem sido gradativamente superestimada e que

indispensvel alguma defesa suplementar, protegendo os ramos mais fracos do

governo contra os mais fortes. O Legislativo est, por toda a parte, estendendo a esfera

de suas atividades e abarcando todo o poder com seus ambiciosos tentculos. (2010.

p. 110)

A soluo para o equilbrio das funes polticas, dentro dessa viso inicial, poderia

residir no senado federal, na medida em que dele poderia se esperar a funo de regulador

estrutural do sistema constitucional. Ocorre, entretanto, que esta concepo do senado como

393

poder moderador colapsou no s pelo carter oligrquico e elitista de sua atuao nos

primeiros momentos de independncia estadunidense, como tambm em razo de sua

natural sujeio s presses poltico-partidrias.

Nesse contexto surge o relevante papel do Poder Judicirio para a democracia

norte-americana, na medida em que, em detrimento da representao do Poder Legislativo,

fundamentava sua atuao na concepo criada pelo povo enquanto detentor real e efetivo

da soberania estatal, e, por isso mesmo, materializada por intermdio da Constituio.

Negar tal evidncia, diz Hamilton (2010), corresponde a afirmar que o

representante superior ao representado, que os delegados do povo esto acima dele

prprio, que aqueles que agem em razo de delegaes de poderes esto impossibilitados

de fazer no apenas o que tais poderes no autorizam, mas, sobretudo, o que eles probem.

Dessa forma a Constituio surge enquanto o cerne da organizao estadunidense,

instrumento normativo no s apto a equacionar a nova realidade decorrente da

centralizao das 13 (treze) colnias e o estado federal, mas tambm por ser o balizador

desta nova acepo da separao dos poderes trazida a partir da consolidao do povo

enquanto titular soberano do exerccio do poder estatal.

Nesse sentido, apontando a relevncia da Constituio para o sistema norte-

americano poltico, conclui Madison:

Todavia, esta concluso no deve significar uma superioridade do Judicirio sobre

o Legislativo. Somente supe que o poder do povo superior a ambos; e que,

sempre com vontade do Legislativo, traduzida em suas leis, se opuser do povo,

declarada na Constituio, os juzes devem obedecer a esta, no quela, pautando

suas decises pela lei bsica, no pelas leis ordinrias. (2010, p. 480)

Assim, na medida em que a organizao poltico-administrativa estadunidense se

consolidava, ao Poder Judicirio era lcito lanar mo dos termos da Constituio

instaurada, ainda que de forma discreta e neutra, para invalidar atos dos demais poderes

polticos.

E foi exatamente esta concepo e paradigma da Constituio que preponderou no

contexto do incio do sculo passado, inclusive no Brasil, tendo sido determinante para a

superao da dogmtica exegtica no pensamento poltico constitucional ptrio.

O que se observa, desse modo, que vinculado defesa dos dogmas do federalismo

enquanto forma de estado, este movimento constitui, de forma inequvoca, o embrio da

atuao independente da funo jurisdicional, ainda que nesse primeiro momento de fundo

conservador, na medida em que, alando o Poder Judicirio suprema funo de guardio

394

da Constituio, concede-lhe a relevante atribuio para efetivar os atos necessrios a defesa

de seus ideais.

Em sntese, e valendo-se do admirvel simbolismo dos autores de O Federalista, as

funes estatais se consubstanciariam no seguinte esquema:

Quem analisar atentamente os diferentes ramos do poder percebe desde logo que, em

governo em que eles so separados uns dos outros, o Judicirio, pela prpria natureza

de suas funes, ser sempre o menos perigoso para os direitos polticos previstos na

Constituio, pois ser o de menor capacidade para ofend-los ou viol-los. O

Executivo dispe no apenas das honrarias, mas tambm da espada. O Legislativo,

alm de manter os cordes da bolsa, prescreve as normas pelas quais cada cidado

deve regular seus direitos e deveres. O Judicirio, porm, no tem a menor influncia

sobre a espada nem sobre a bolsa; no participa da fora nem da riqueza da sociedade

e no toma resolues de qualquer natureza. (2010. p. 478)

Foi nesse sistema, em que cada um dos trs poderes tinha a recproca possibilidade de

intervir nos demais a fim de evitar a concentrao e a usurpao nas mos de um s, que se

constituiu e desenvolveu uma nova acepo da teoria da separao dos poderes norte-americana

a teoria dos freios e contrapesos , instrumento fundamental para a democracia representativa

instaurada e, por via de consequncia, para o prprio desenvolvimento de inmeras teoria de

direitos nos ltimos sculos.

5. CONSIDERAES FINAIS:

De tudo o que foi exposto, o que se observa, de fato, que extrapolando o mero

limite das questes legais, os movimentos polticos da organizao dos poderes estatais da

tradio jurdica ocidental surgem como paradigmas para a construo e consolidao da

sociedade tal qual ns atualmente o conhecemos.

Pretendeu o presente artigo discutir as matrizes fundamentais do princpio da

separao dos poderes, em especial na perspectiva da funo judiciria.

Desde John Locke e seu clebre Segundo Tratado sobre o Governo vimos que a

concentrao de todos os poderes em uma s pessoa ou um s grupo acarreta na inequvoca

usurpao por parte de seu titular.

Nestes termos, sugere o pai do liberalismo a necessidade da bipartio dos poderes

internos do estado, a fim de que ambos se limitem mutuamente. A funo judiciria, nesse

espectro, estaria includa na tarefa executiva, que englobaria tanto o que a executiva

propriamente dita, como a funo jurisdicional.

Vimos, ainda, que a preocupao de usurpao do poder apresentada por Locke ecoa

significativamente em Montesquieu, de modo que mereceu por parte deste uma teorizao

395

muito mais completa e elaborada, resultando exatamente na elaborao da clssica teoria da

tripartio de poderes.

Outrossim, constatamos que a diviso horizontal de poder defendida por

Montesquieu, consubstanciada no clssico conceito de governo misto de Polbio foi a grande

proposta apresentada no livro O esprito das leis, principalmente em razo do nulo e invisvel

exerccio da funo jurisdicional na viso do referido autor, de modo que a equivalncia to

difundida na teoria da separao dos poderes visava, na realidade, menos uma independncia e

harmonia to comumente difundidas, mas propiciar a existncia de instncias independentes

que assegurassem que no houvesse o abuso por quaisquer deles.

Relevante destacar, por outro lado, que a partir destes dogmas apresentados no

Esprito das leis no foi possvel constituir plenamente o desenvolvimento que as bases

estatais estadunidenses demandavam em seu perodo inicial de organizao, tanto que,

conforme visto em tpico especfico acima, a adaptao das ideias de Montesquieu por

Hamilton, Madison e Jay iria acrescentar ingredientes fundamentais e necessrios para a

estabilizao deste novo Estado que surgia.

De fato, possvel observar em O federalista que ao contrrio do modelo francs

em que as questes polticas ditavam os rumos do direito e das normas jurdicas, a viso de

estadunidense se colocou no sentido de que eram as usurpaes legislativas, na repblica

representativa, a maior ameaa liberdade do povo.

E mais, eram necessrios critrios de freios e contrapesos (checks and balances)

possibilitando que cada um dos trs poderes interviesse nos demais a fim de evitar a

concentrao e a usurpao nas mos de um s.

Esta viso, adaptada democracia representativa, se constituiu a maior contribuio

norte-americana para a teoria da separao dos poderes que seria utilizada por diversos outros

pases posteriormente, inclusive o Brasil.

De fato, por tudo que foi debatido no presente artigo, conclui-se que foi a natural

tendncia de usurpao do poder por aquele que o detm o principal combustvel para o

aperfeioamento da teoria da separao dos poderes.

Se por um lado John Locke apresentou o germe da discusso ao buscar uma sada para

evitar o retorno do absolutismo dos Stuarts; Montesquieu a teorizao muito mais completa e

elaborada resultando na clssica teoria da tripartio de poderes; e Hamilton, Madison e Jay a

instituio dos freios e contrapesos que equilibrassem a democracia representativa americana;

foi o conjunto deste estudo (e muitos outros, a partir destes) que, por outro, propiciou a

396

consolidao desta relevante teoria como princpio fundamental do constitucionalismo

moderno

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