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Cooperação Intermunicipal

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Matos, Fernanda; Dias, Reinaldo. Cooperação Intermunicipal na Bacia do Rio Paraopeba Rev. Adm. Pública — Rio de Janeiro 46(5):1225-250, set./out. 2012 Palavras-chave: municípios; parcerias; consórcio; associação; comitê

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  • 1. Cooperao intermunicipal na bacia do rio ParaopebaFernanda MatosCentro Universitrio UNA/MGReinaldo DiasUniversidade Presbiteriana Mackenzie Neste artigo aborda-se o processo da descentralizao do poder da esfera federal para o nvel local, a responsabilidade dos consrcios e os fatores que dificultam e facilitam a cooperao intermunicipal. Os consrcios tm se mostrado uma alternativa para o gerenciamento das atribuies municipais. Este modelo gerencial prope a participao de todos os atores sociais no gerenciamento das questes de interesse comum. O trabalho fornece uma viso geral sobre a cooperao intermunicipal, em especial na bacia do rio Paraopeba Minas Gerais, Brasil , a partir da anlise de questionrios direciona- dos aos gestores dos municpios. Evidencia-se uma abertura por parte dos municpios participao em consrcios, considerando que 83% dos municpios da bacia fazem parte de um ou mais tipos de arranjos intermunicipais e, tambm, a necessidade de desenvolvimento de aes para melhorar e/ou apoiar a cooperao entre os municpios. P a l av r a s - c h av e : municpios; parcerias; consrcio; associao; comit. Cooperacin intermunicipal en la cuenca del ro Paraopeba Este artculo aborda el proceso de descentralizacin del poder del nivel federal a local, la responsa- bilidad de los consorcios y los factores que dificultan y facilitar la cooperacin intermunicipal Con- sorcios han sido una alternativa para el manejo de las funciones municipales. Este modelo de gestin propone la participacin de todos los actores sociales en la gestin de los asuntos de inters comn. El documento proporciona una visin general de la cooperacin inter-municipal, especialmente en la cuenca del ro Paraopeba Minas Gerais, Brasil a partir del anlisis de los cuestionarios dirigidos a los administradores de los municipios. Evidenciando una apertura por parte de los municipios para que participen en consorcios, mientras que el 83% de los municipios de la cuenca son parte de uno o ms tipos de acuerdos intermunicipales, as como la necesidad de desarrollar acciones para mejorar y/o apoyar la cooperacin entre municipios. Palabras c l av e : municipios; asociaciones; consorcio; asociacin; comit.Artigo recebido em 16 ago. 2011 e aceito em 18 jul. 2012.Rev. Adm. Pblica Rio de Janeiro 46(5):1225-250, set./out. 2012

2. 1226 Fernanda Matos Reinaldo DiasIntermunicipal cooperation in Paraopeba river basinThis article discusses the process of decentralization of power from the federal to the local level, theconsortia responsibilities and the factors that complicate and facilitate the inter-municipal cooperation.Consortia have been shown to be an alternative for managing municipal assignments. This mana-gerial model proposes the participation of all social actors in the management of issues of commoninterest. The work provides an overview of the inter-municipal cooperation, in particular in the basinof Paraopeba Minas Gerais, Brazil from the analysis of questionnaires targeted at managers ofmunicipalities. Evidencing an openness on the part of local participation in consortia, whereas 83% ofthe municipalities of the basin, part of one or more types of inter-municipal arrangements, and alsothe need to develop actions to improve and/or support cooperation between municipalities.Key words: municipalities; partnerships; consortium; association; committee. 1. Introduo A Constituio Federal de 1988 fortaleceu o papel dos municpios e redefiniu suas responsabili- dades. E, na busca de alternativas de gerenciamento, os governos locais vm transferindo suas responsabilidades para associaes e fundaes na forma de parcerias entre sociedade e Estado. Essas parcerias passam a prover os servios pblicos, sociais e cientficos, a fim de torn-los mais geis e eficazes no atendimento das necessidades da populao (Bresser-Pereira, 1998).De acordo com Almeida e colaboradores (2009), os consrcios possibilitam a reunio de esforos em torno de problemas comuns aos municpios. Esses arranjos institucionais atu- am em variadas esferas de interesse, tais como sade, turismo, tratamento e destinao de re- sduos slidos, e em aes de saneamento bsico, de habitao, bem como no gerenciamento de recursos hdricos (IBGE, 2008).Este artigo apresenta uma reflexo sobre o desenvolvimento das cooperaes intermu- nicipais, sobretudo na bacia do rio Paraopeba (MG). O objetivo discutir as responsabilidades dos consrcios e os fatores que facilitam e dificultam a cooperao intermunicipal. A partir de uma reviso bibliogrfica, conceitua-se e explica-se o surgimento da expresso consrcio in- termunicipal e descreve-se de forma geral sua organizao. Finalmente elaborada a anlise dos questionrios semiestruturados direcionados aos gestores dos 48 municpios pertencentes bacia do rio Paraopeba com a inteno de identificar a formao de cooperaes intermu- nicipais, bem como as motivaes da participao e a percepo dos representantes pblicos sobre dificuldades, facilitadores e aes para fomentar a cooperao intermunicipal. 2. Cooperao intermunicipal A cooperao internacional tem suas origens aps a Segunda Guerra Mundial como um pro- duto do contexto dos pases europeus, fragilizados em suas estruturas polticas e econmico- sociais. Esta aproximao traduziu-se numa reconciliao entre as naes e conduziu ao sur- gimento da tipologia de cooperao a cooperao intermunicipal (Xavier, 2000). Rev. Adm. Pblica Rio de Janeiro 46(5):1225-250, set./out. 2012 3. Cooperao intermunicipal na bacia do rio Paraopeba1227 Nesse contexto, a Frana, a Inglaterra e a Alemanha foram pioneiras no desenvolvi-mento e fomento das relaes de cooperao intermunicipal. As ligaes entre cidades sonumerosas e assumem formas variadas: relaes recprocas, pactos de amizade, contratos,protocolos etc., derivando de diferentes motivaes, objetivos e entendimento das polticas aserem assumidas. Tendo por base as principais preocupaes nas reas da sade, da educao,do ambiente, da gesto e administrao de municpios, o urbanismo e suas infraestruturas, oalvio da pobreza, os intercmbios profissionais e culturais, o desenvolvimento social, a assis-tncia tcnica, a formao profissional, entre outras (Xavier, 2000; Ribeiro e Faria, 2009). Embora se torne instrumento mais disseminado no final do sculo XX, a ideia de con-sorciamento antiga, remontando Constituio Paulista de 1891. Sua existncia concretaocorre na dcada de 1960, registrando-se como os mais antigos no estado de So Paulo osConsrcios de Promoo Social da regio de Bauru (SP), criados na dcada de 1960, e o Con-srcio de Desenvolvimento do Vale do Paraba (SP) Codivap, criado em 1970 (Junqueira,1990). Sua utilizao como parte de uma estratgia de descentralizao de polticas pblicasocorre nas dcadas de 1980 e 1990, se colocando ento como uma alternativa para racionali-zao do modelo de gesto (Cruz et al., 2009). No estado de So Paulo, o governador FrancoMontoro (1983-86) incentivou a criao e a implementao de consrcios de desenvolvimen-to microrregional e tambm os vinculados produo de alimentos (Cruz et al., 2009:2). nesse perodo que entre 1983 e 1986 registra-se o apogeu de criao dos consrcios,sendo tambm o de maior ndice de mortalidade, do total de 32, doze no conseguiram so-breviver (Barros, 1995:61). A Constituio Federal de 1988 constituiu um fato novo em termos de administraopblica, pois, segundo Matias-Pereira (2010), a Constituio Federal definiu sistemas de ges-to democrtica em diversas reas de atuao da administrao pblica, como os colegiadosdos rgos pblicos, na rea da previdncia social, onde os interesses profissionais e previden-cirios so discutidos e deliberados pelos trabalhadores (art. 10). E, ainda, o planejamentoparticipativo, mediante a cooperao das associaes representativas no planejamento muni-cipal, como preceito a ser observado pelos municpios (art. 29, XII). Alm da gesto democr-tica do ensino pblico na rea da educao (art. 206, VI). Na rea da sade, atravs do siste-ma nico que integra uma rede regionalizada e hierarquizada organizado com a participaoda comunidade (art. 198). Esses diferentes tipos de conselhos apontam para a existncia deum espao pblico de composio plural e paritria entre Estado e sociedade civil de naturezadeliberativa (Jacobi, 2009). Os conselhos de polticas constituem espaos pblicos de composio plural e paritriaentre Estado e sociedade civil, de natureza deliberativa, cuja funo formular e controlar aexecuo das polticas pblicas setoriais (Tatagiba, 2002:54). Os conselhos constituem umdos aspectos do controle social da administrao pblica, permitindo populao um maioracesso aos espaos de formulao, implementao e controle social das polticas pblicas(Santos, 2010:13). Alm disso, esses conselhos constituem arranjos constitucionais com fei-es novas, pois no so meramente comunitrios, e tambm no so meramente estatais.Rev. Adm. Pblica Rio de Janeiro 46(5):1225-250, set./out. 2012 4. 1228 Fernanda Matos Reinaldo Dias Tm um carter compartilhado na formulao, gesto, controle e avaliao das polticas p- blicas (Bucci, 2002:327-328).Outra medida que aponta para um fortalecimento da gesto democrtica tomada pela Constituio de 1988 foi ter dado incio no art. 23, pargrafo nico, ao estabelecimento de normas para a cooperao entre a Unio, estados e municpios incluindo acordos firmados en- tre entidades estatais, autrquicas ou paraestatais, sempre da mesma espcie, para realizao dos objetivos comuns. Nesse artigo constitucional fica estabelecido que Lei complementar fixar normas para a cooperao (Brasil, 1988). Em 1990, no mbito da sade, as Leis no 8.080/1990 e no 8.142/1990 definiram que os consrcios intermunicipais poderiam integrar o Sistema nico de Sade (SUS).Em junho de 1998, a Emenda Constitucional 19, no art. 241, passou a permitir a gesto associada dos servios pblicos (Brasil, 1988; Diniz, 2009). No entanto, o disposto no art. 241 ficou dependente de legislao complementar durante vrios anos, o que ocorre somente em 2005 com a Lei de Consrcios Pblicos, de no 11.107 (Brasil, 2005, art. 1o). Sua regul