Fronteiras da Narrativa

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  • Fronteiras da Narrativa

    GRARD GENETTE

    Caso se aceite, por conveno, permanecer no domnio da expresso literria, definir-se- sem dificuldade a nar-rativa como a representao de um acontecimento ou de uma srie de acontecimentos, reais ou fictcios, por meio da linguagem, e mais particularmente da linguagem escrita. Esta definio positiva (e corrente) tem o m-rito da evidncia e da simplicidade; seu inconveniente principal talvez, justamente, encerrar-se e encerrar-nos na evidncia, mascarar a nossos olhos aquilo que precisamente, no ser mesmo da narrativa, constitui pro-blema e dificuldade, apagando de certo modo as fron-teiras do seu exerccio, as condies de sua existncia. Definir positivamente a narrativa acreditar, talvez pe-rigosamente, na idia ou no sentimento de que a narra-tiva evidente, de que nada mais natural do que contar uma histria ou arrumar um conjunto de aes em um mito, um conto, uma epopia, um romance. A evoluo da literatura e a conscincia literria h meio sculo tero tido, entre outras felizes conseqncias, a de chamar a ateno, bem ao contrrio, sobre o as-pecto singular, artificial e problemtico do ato narrati-vo. E' necessrio voltar mais uma vez ao estupor de

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    '! al~y diante de um enunciado como A marquesa saiu as cmco horas. Sabe-se quanto, sob formas diversas e muitas vezes contraditrias, a literatura moderna viveu e ilustrou esse espanto fecundo, como se quis e se fez, em seu fundo mesmo, interrogao, abalamento, con-testao do propsito narrativo. Esta questo falsamente ~ng.nua: por que a narrativa? - poderia pelo menos mcitar-nos a pesquisar, ou mais simplesmente a reco-nhecer os limites de certo modo negativos da narrativa, a considerar os principais jogos de oposies por meio dos quais a narrativa se define, se constitui em face das diversas formas da no-narrativa.

    Diegesis e mimesis

    Uma primeira oposio aquela indicada por Aristte-les em algumas frases rpidas da Potica. Para Aris-tteles, a narrativa ( diegesis) um dos dois modos da imitao potica (mimesis), o outro sendo a renresen-tao direta dos acontecimentos por atares fai~ndo e agindo diante do pblico. 1 Aqui instaura-se a distino clssica entre poesia narrativa e poesia dramtica. Esta distino estava j esboada por Plato no 3'~ livro da Repblica, com duas diferenas, a saber que, por um lado, Scrates nega ali narrativa a qualidade (isto , para ele, o defeito) da imitao, e que por outro lado ele toma em considerao aspectos de representao di-reta (dilogos) que podem comportar um poema no dramtico como os de Homero. H portanto, nas ori-gens da tradio clssica, .duas parties aparentemente con~raditrias, em que a narrativa opor--se-ia imitao, aqm como sua anttese, e l como um dos seus modos.

    Para Plato, o domnio daquilo que ele chama lexis (ou maneira de dizer, por oposio a logos, que designa o .que dito) divide-se teoricamente em imitao pro-pnamente dita) (mimesis) e simples narrativa (diegesis). Por simples narrativa, Plato compreende tudo o que o

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    poeta narra falando em seu prprio nome, sem pro-curar fazer crer que um outro que fala : assim, quando Homero no canto I da Ilada nos diz a pro-psito de Criss: ele tinha vindo s belas naves dos Aqueus, para reaver sua filha, .trazendo um imenso res-gate e segurando, sobre seu basto de ouro, as fitas do arqueiro Apolo; e ele suplicava a todos os Aqueus, mas sobretudo aos dois filhos de Atreu, bons estrate-gistas. Ao contrrio, a imitao consiste, a partir do verso seguinte, no fato de Homero fazer falar o prprio Criss, ou, segundo Plato, de falar tingindo ser Criss, e esforando-se para nos dar na medida do possvel a iluso de que no Homero que fala, mas sim o velho, sacerdote de Apolo. Eis o texto do discurso de Criss: tridas e vs tambm, Aqueus de boas gre-vas, possam os deuses, habitantes do Olimpo, conceder-vos a destruio da cidade de Pramo, e depois vosso retorno sem ferimentos a vossos lares! Mas a mim, res-titu minha filha! E para isso, .aceitai o resgate que vedes aqui, por considerao ao filho de Zeus, ao ar-queiro Apolo. Ora, ajunta Plato, Homero teria po-.dido igualmente prosseguir sua histria sob uma forma puramente narrativa, narrando as palavras de Criss em vez de reproduzi-las, o que, para a mesma passagem, teria dado, em estilo indireto e prosa: 0 sacerdote tendo chegado pediu aos deuses que lhes concedessem a tomada de Tria e os preservassem de morrer em com-bate, e pediu aos Gregos que lhe devolvessem a filha em troca de um resgate, e por respeito ao deus. Esta diviso terica, que ope, no interior da dico potica, os dois modos puros e heterogneos da narrativa e da imitao, conduz e funda uma classificao prpria dos gneros, que compreende os dois modos puros (narra-tivo, representado pelo antigo ditirambo, mimtico, re-presentado pelo teatro), mais um modo misto, 1 ou, mais precisamente, alternado, que o da epopia, como se acaba de ver pelo exemplo da Ilada.

    393 a. li fada, I, 12-16,. traduo francesa de Mazon. 393 e, traduo francesa de Chambry.

    Anlise Estrutural - 17 257

  • . !1,,,

    A classificao de Aristteles primeira vista ~o~p_leta:nent~ ~ifer~nte, pois que reduz toda a poesia a 1~1taao, dtsyngumdo somente dois modos imitativos, o ~treto, que e o _que Plato nomeia propriamente imi-taa~, e . o n~rratrvo, que Aristteles denomina, como ~l~tao, dreges1s. Por outro lado, Aristteles parece iden-t~ftcar plenamente no s, como Pito, 0 anero dram-t~co ao_ modo imitativo, mas tambm, sem levar em con-stderaao em pr!ncpio seu carter misto, o gnero pico ao modo narrativo puro. Esta reduo pode prender-se ao fato de que Aristteles define, mais estritamente do que Plato, o modo imitativo pelas condies cnicas da representao dramtica. Ela pode justificar-se igual-~ente pelo fat? de que ~- obra pica, qualquer que seja a. parte matenal dos d1alogos ou discursos em estilo d1reto, e mesmo se esta parte sobrepuja a da narrativa perma~ece essencialmente narrativa visto que os dilo~ gos sao a necessariamente enquadrados e conduzidos pe!as partes narrativas que constituem, no sentido pr-pno, o fundo, ou, caso se queira, a trama de seu dis-curso: J?e resto, Aristteles reconhece em Homero esta sup~nondade sobre os outros poetas picos, que ele in-tervem pessoalmente o menos possvel em seu poema colocando na maior parte das vezes em cena persona~ ~e~s caracterizados, conforme o papel do poeta, que Im~tar o m~is r~ssvel. Desse modo, ele parece bem reconhecer Implicitamente o carter imitativo dos di-I_ol?os homricos, e portanto o carter misto da dico ep1~a, narrativa em seu fundo, mas dramtica na sua mawr extenso.

    A diferena entre as classificaes de Plato e Aris-tteles reduz-se assim a uma simples variante de ter-mos: essas duas classificaes concordam bem sobre 0 ess_encial, q~er .dizer, a oposio do dramtico e do nar-rativo, o pnme1ro sendo considerado pelos dois filsofos como mats plenamente imitativo que o segundo: acordo sobre o fato, de qualquer modo sublinhado pelo desa-cordo sobre os valores, pois Plato condena os poetas

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    enquanto imitadores, a comear pelos dramaturgos, e sem exceo de Homero, julgado ainda demasiado mi-mtico para um poeta narrativo, s admitindo na Cidade um poeta ideal cuja dico austera seria to pouco mimtica quanto possvel; enquanto que Aristteles, si-metricamente, coloca a tragdia acima da epopia, e louva em Homero tudo o que aproxima sua escritura da dico dramtica. Os dois sistemas so portanto idn-ticos, com a nica reserva de uma inverso de valores: para Plato como para Aristteles, a narrativa um modo enfraquecido, atenuado da representao literria - e percebe-se mal, primeira vista, o que poderia faz-los mudar de opinio.

    E' necessrio entretanto introduzir aqui uma obser-vao com a qual nem Plato nem Aristteles parecem .ter-se preocupado, e que restituir narrativa todo o seu valor e toda a sua importncia. A imitao direta, tal como funciona em cena, consiste em gestos e falas. Enquanto que constituda por gestos, ela pode eviden-temente representar aes, mas escapa aqui ao plano Jingstico, que aquele onde se exerce a atividade es-pecfica do poeta. Enquanto que constituda por falas, discursos emitidos por personagens ( evidente que em uma obra narrativa a parte de imitao reduz-se a isso), ela no rigorosamente falando representativa, pois que se limita a reproduzir tal e qual um discurso real ou fictcio. Pode-se dizer que os versos 12 a 16 da Ilada, citados mais acima, nos do uma representao verbal dos atos de Criss, mas no se pode dizer a mesma coisa dos cinco versos seguintes: eles no representam o discurso de Criss: trata-se de um discurso realmente pronunciado, eles o repetem, literalmente, e caso se trate de um discurso fictcio, eles o constituem, do mesmo modo literalmente; nos dois casos, o trabalho da repre-sentao nulo, nos dois casos, os cinco versos de Homero se confundem rigorosamente com o discurso de Criss: no acontece evidenremente a mesma coisa com os cinco versos narrativos que precedem, e que no se confundem de nenhuma maneira com os a tos de Criss:

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  • A palavra co, diz William James, no morde. Caso se chame imitao potica o fato de representar por meios verbais uma realidade no verbal, e, excepcio-nalmente, verbal (como se chama imitao pictural o fato de representar por meios picturais uma realidade no-pictural, e, excepcionalmente, pictural), preciso ad-mitir que a imitao encontra-se nos cinco versos nar-rativos, e no se encontra de modo nenhum nos cinco versos dramticos, que consistem simplesmente na in-terpolao, ao meio de um texto representando acon-tecimentos, de um outro texto diretamente tomado a es-ses acontecimentos: como se um pintor holands do sculo XVII, numa antecipao de certos procedimentos modernos, tivesse colocado no meio de uma natureza morta no a pintura de concha de ostra, mas uma con-cha de ostra verdadeira. Esta comp