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Revista Científica Gamaliel - ISSN 2674-9149– FATEJ / FADISA | Vol.1 | Nº. 3 | julho /dezembro – Ano 2020 | g ACADEMIA BRASILEIRA DE PENSADORES CRISTÃOS FACULDADE DE TEOLOGIA FATEJ / WWW.FATEJ.EDU.BR l EDIÇÃO CRISTOLÓGICA O CONTRATO COM DEUS E JUSTIÇA RESTAURATIVA EM TEMPOS DE PANDEMIA A TERCEIRIZAÇÃO DA FÉ NOS TEMPOS DE PANDEMIA E ISOLAMENTO SOCIAL O SACERDÓCIO UNIVERSAL DE JESUS NO APOCALIPSE REVELAÇÃO MESSIÂNICA NO LIVRO DE LEVÍTICO AMALIE REVISTA CIENTÍFICA

REVISTA CIENTÍFICA AMALIE · 2020. 7. 6. · REVELAÇÃO MESSIÂNICA NO LIVRO DE LEVÍTICO AMALIE REVISTA CIENTÍFICA . ... Idiomas: Aceitos artigos escritos em português, espanhol

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Page 1: REVISTA CIENTÍFICA AMALIE · 2020. 7. 6. · REVELAÇÃO MESSIÂNICA NO LIVRO DE LEVÍTICO AMALIE REVISTA CIENTÍFICA . ... Idiomas: Aceitos artigos escritos em português, espanhol

Revista Cientiacutefica Gamaliel - ISSN 2674-9149ndash FATEJ FADISA | Vol1 | Nordm 3 | julho dezembro ndash Ano 2020 |

g ACADEMIA BRASILEIRA DE PENSADORES CRISTAtildeOS

FACULDADE DE TEOLOGIA ndash FATEJ WWWFATEJEDUBR

l

EDICcedilAtildeO CRISTOLOacuteGICA

O CONTRATO COM DEUS E JUSTICcedilA RESTAURATIVA EM TEMPOS DE PANDEMIA

A TERCEIRIZACcedilAtildeO DA FEacute NOS TEMPOS DE PANDEMIA E ISOLAMENTO SOCIAL

O SACERDOacuteCIO UNIVERSAL DE JESUS NO APOCALIPSE

REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NO LIVRO DE LEVIacuteTICO

AMALIE REVISTA CIENTIacuteFICA

Revista Cientiacutefica Gamaliel - ISSN 2674-9149ndash FATEJ FADISA | Vol1 | Nordm 3 | julho dezembro ndash Ano 2020 |

copyFATEJ FADISA

Faculdade de Tecnologia Jardim

Faculdade de Direito Santo Andreacute

REVISTA

CIENTIacuteFICA

GAMALIEL

Vol1 | Nordm 3 | julhodezembro - Ano 2020

SANTO ANDREacute ndash SAtildeO PAULO BRASIL

Os direitos de publicaccedilatildeo desta revista satildeo da FATEJ FADISA

Os textos publicados na revista satildeo de inteira responsabilidade de seus autores

Permite-se a reproduccedilatildeo desde que citada a fonte

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CORPO EDITORIAL

Direccedilatildeo Cientifica Intelectual Reitora Dra Arleide Braga Poacutes-Doutora em Direito Constitucional pela Universitaacute degli Studi di Messina ndash Itaacutelia

Doutora em Ciecircncias Juriacutedicas e Sociais pela Universidad del Museo Social Argentino ndash UMSA ndash Bs

As | ARG

Doutora em Ciecircncias Sociais pela PUC | SP

Mestre em Direito pela Universidade Metropolitana de Santos | SP ndash UNIMES

Poacutes-Graduada em Direito Previdenciaacuterio e Direito do Trabalho pela Universidade Gama Filho | RJ

Graduada em Letras (Licenciatura) pelo Centro Universitaacuterio de Santo Andreacute | SP

Presidente da Comissatildeo de Direito Previdenciaacuterio da OAB ndash Santo Andreacute | SP ndash Triecircnio 20162018

Diretora Estrateacutegica Dra Karina Costa Braga

Mestre em Direito - PUC | SP

Diretora Institucional da Faculdade de Tecnologia Jardim ndash FATEJ e da Faculdade de Direito Santo

Andreacute ndash FADISA em Santo Andreacute | SP

Diretora e Procuradora Dra Karen Costa Braga

Mestre em Direito - PUC | SP

Procuradora Institucional Coordenadora Administrativa do Departamento de Poacutes-Graduaccedilatildeo da

Faculdade de Tecnologia Jardim e da Faculdade de Direito Santo Andreacute ndash FADISA em Santo Andreacute |

SP

Diretor Acadecircmico Institucional Dr Mauriacutecio Tintori Piqueira

Doutor em Ciecircncias Sociais Mestre em Histoacuteria PUC-SP

Editor

Me Marcelo Alves Dantas

Periodicidade da Publicaccedilatildeo

Semestral

CAPA

Marcos Camilo Santana

Idiomas Aceitos artigos escritos em portuguecircs espanhol e inglecircs

AUTOR CORPORATIVO

Faculdade de Tecnologia Jardim - FATEJ

Faculdade de Direito Santo Andreacute - FADISA

Campus I - R Almirante Protoacutegenes 44 - B Jardim - Santo Andreacute - SP CEP 09090-760

(11) 4436-6489 | (11) 4992-3822

(11) 95238-4306 | (11) 99891-4846

1 Religiatildeo 2 Teologia Criacutetica 3 Histoacuteria ndash CDD 22067

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SUMAacuteRIO

O LIVRO DE JOacute O CONTRATO COM DEUS E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA 6

1 UM LIVRO ATEMPORAL 7 2 O PROMOTOR ACUSADOR DE JOacute E O ENTRELACcedilAMENTO DAS IDEIAS DE RETRIBUICcedilAtildeO E CONTRATO 8

3 O DESEJO DE JOacute E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA 12 4 O ENCONTRO RESTAURATIVO DE JOacute E IAWEH 14

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 17 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 18

A CONTRIBUICcedilAtildeO DOS MANUSCRITOS DE QUMRAN PARA EXEGESE DO

APOCALIPSE DE JOAtildeO 20 APOCALIPSE 51-14 ndash O CAcircNTICO CERIMONIAL DA CELEBRACcedilAtildeO DO SACERDOacuteCIO UNIVERSAL DE JESUS Agrave LUZ DAS TRADICcedilOtildeES DO MISTICISMO

JUDAICO - UMA EXEGESE CONTEMPORAcircNEA 20 INTRODUCcedilAtildeO 22

1INTRODUCcedilAtildeO AO MISTICISMO JUDAICO - ldquoANAacuteLISE DOS TEXTOS FUNDANTESrdquo 23 11 ndash Isaiacuteas Cap 6 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 23

12 ndash Ezequiel Cap 1 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 25 13 ndash I Enoque Cap 14 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 27

14 - Daniel (79-14) e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 28 2 Apocalipse 51-14 ndash O Cacircntico Cerimonial da Celebraccedilatildeo do Sacerdoacutecio Universal de Jesus agrave Luz das Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico - Uma Exegese Contemporacircnea 30

21 - O Misticismo Judaico e Apocaliacuteptico em (Apocalipse 51-14) 34 CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 44

REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 46

A TERCEIRIZACcedilAtildeO DA FEacute NOS TEMPOS DE PANDEMIA E ISOLAMENTO SOCIAL O SURGIMENTO DO ldquoPERSONAL PROFECTrdquo ndash E AS CRISES DE

ESPIRITUALIDADE 53 INTRODUCcedilAtildeO 54 1OUTROS PROBLEMAS INFLUENCIANDO A ESPIRITUALIDADE NO TEMPO DE

ISOLAMENTO SOCIAL DO ATEIacuteSMO CETICISMO OU UMA BUSCA MAL DIRECIONADA DA ESPIRITUALIDADE PODERAtildeO INFLUENCIAR AS RELACcedilOtildeES

DE FEacute 55 2VIVEMOS - ldquoUMA NOVA FEacute PARA UM NOVO TEMPOrdquo ONDE VERIFICAMOS COMO COMPREENDER A FEacute E SUAS APLICACcedilOtildeES COMO VIVENCIAR A FEacute NA

ATUALIDADE 56 3HOJE Eacute PRECISO RESSIGNIFICAR ALGUNS CONCEITOS SOBRE A FEacute 57

4QUAL A MENSAGEM OU CONSELHO SOBRE O VIVER UM CRISTIANISMO COERENTE QUE SOBREVIVA A ISOLAMENTOS SOCIAIS E PANDEMIAS 59

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 62 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 63

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O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO 67 INTRODUCcedilAtildeO 68

1 EM BUSCA DO CENAacuteRIO HISTOacuteRICO68 2 A EXPANSAtildeO DA FEacute CRISTAtilde69

3 DE PEDRO A PAULO (EXPANSAtildeO DA OBRA DE MISSOtildeES)69 4 O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO72 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 73

REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NO LIVRO DE LEVIacuteTICO 74 INTRODUCcedilAtildeO 75 1 TIPOLOGIA 76

11 - Definiccedilatildeo de tipologia77 12 - A tipologia como ferramenta da hermenecircutica 77

13 - As Escrituras e a tipologia77 14 - A tipologia e as correntes teoloacutegicas78 141- ldquotiposrdquo natildeo ratificados pelo Novo Testamento 79

142 - Siacutembolos ratificados pelo Novo Testamento 80 142 - Corrente intermediaacuteria ldquotiposrdquo expliacutecitos e impliacutecitos 81

2 ESTABELECIMENTO DA CORRENTE INTERPRETATIVA81 3 REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NA OFERTAS VOLITIVAS E COMPULSOacuteRIAS 82

31 - As ofertas volitivas 82 311 - Os Holocaustos 82

312 - Exigecircncias para o Holocausto 83 313 - As ofertas de manjares 85 314 - As ofertas de comunhatildeo ou ofertas pacificas 86

4 AS OFERTAS COMPULSOacuteRIAS86 41 - Ofertas pelos pecados cometidos por ignoracircncia87

42 - Oferta pela culpa ou restituiccedilatildeo 87 43 - Oferta pelo pecado ou de purificaccedilatildeo 88 44 - Aplicaccedilatildeo tipoloacutegica das ofertas 88

5 OS SACERDOTES E O SUMO SACERDOTE89 51 - A mediaccedilatildeo 89

52 - A unccedilatildeo e a pureza 90 53 - As vestimentas sacerdotais e os rituais de purificaccedilatildeo 90 54 - O Yom Kippur92

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 93 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 94

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O LIVRO DE JOacute O CONTRATO COM DEUS E A JUSTICcedilA

RESTAURATIVA1

RESUMO

O presente artigo escrito durante a pandemia da COVID-19 tem o intuito de relembrar a

histoacuteria de Joacute Partindo de uma perspectiva interdisciplinar entre Teologia e Direito

analisam-se as diferentes visotildees de Justiccedila contidas no Livro de Joacute Pretende-se

demonstrar a prevalecircncia da ideia de justiccedila restaurativa em detrimento das concepccedilotildees de

justiccedila retributiva (ligada ao tema do castigo divino) e contratualista (ligada ao tema da

teologia da prosperidade)

Palavras-chave Livro de Joacute Justiccedila retributiva Contrato Justiccedila restaurativa

ABSTRACT

This article written during the pandemic of COVID-19 is intended to recall Jobs story

Starting from an interdisciplinary perspective between theology and law the different

views of justice contained in the Book of Job are analyzed It is intended to demonstrate

the prevalence of the idea of restorative justice instead of the concepts of retributive

justice (linked to the theme of divine punishment) and contractualist (linked to the theme

of prosperity theology)

Key words Book of Job Retributive justice Contract Restorative justice

1 Doutor em Direito Penal pela Universidade de Satildeo Paulo Juiz Federal e Professor de Direito Penal da

FADISA

autor

Excelentissiacutemo Juiz Federal

Dr Paulo Bueno de Azevedo

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1 UM LIVRO ATEMPORAL

O presente artigo eacute escrito durante um periacuteodo turbulento certamente ineacutedito para

muitos de noacutes embora natildeo seja o primeiro evento da espeacutecie em nosso planeta A

pandemia da COVID (Corona virus Disease) -19 tal como outras doenccedilas no passado

(peste negra gripe espanhola etc) ainda estaacute causando milhares de mortes no mundo

todo forccedilando medidas eneacutergicas de isolamento social levando muitos ao desemprego agrave

falecircncia e agrave desesperanccedila

Neste cenaacuterio alguns ousam perguntar onde estaacute Deus Por que Deus esconde sua

face nesse momento Jaacute outros enxergam o sinal do fim dos tempos a puniccedilatildeo divina

decorrente dos pecados humanos E haacute ainda quem reforce a sua descrenccedila se Deus

existisse mesmo nada disso poderia ocorrer Enfim num momento tatildeo difiacutecil a

desesperanccedila a raiva e a incerteza encontram terreno feacutertil para disseminaccedilatildeo As

muacuteltiplas vozes se chocam e a feacute arrefece

Na verdade tais anguacutestias vecircm de certas concepccedilotildees que as pessoas tecircm de Deus

as quais por sinal estatildeo profundamente entrelaccediladas com pensamentos juriacutedicos A ideia

do castigo vem do tirociacutenio que invoca a justiccedila retributiva divina Jaacute o pensar que Deus

natildeo poderia permitir tais cataacutestrofes parece traduzir uma espeacutecie de obrigaccedilatildeo do Senhor

para com a humanidade E se existisse mesmo tal obrigaccedilatildeo quem poderia levar Deus ao

tribunal para que fosse compelido a cumprir esse contrato

O problema parece insoluacutevel pois quer se trate da puniccedilatildeo quer de um contrato

descumprido ningueacutem poderia confrontar o Criador em juiacutezo Ou poderia O desespero eacute

atual no entanto a histoacuteria eacute antiga Haacute milhares de anos foi retratada no Livro de Joacute A

autoria desse livro que compotildee o Antigo Testamento da Biacuteblia eacute desconhecida e existem

muitas duacutevidas sobre possiacuteveis trechos inseridos ou modificados a posteriori Imaginaria o

seu autor (ou sua autora2) que sua obra continuaria atual e sendo objeto de estudos e

reflexotildees mais de dois mil anos depois

Natildeo natildeo eacute por acaso que Jorge Luis Borges (BORGES 2009 p 156) considerava

o Livro de Joacute um dos mais impressionantes da Biacuteblia nem que Freud o tenha situado

como a mais alta das literaturas humanas (apud BORGES 1965) Natildeo eacute coincidecircncia que

o Livro de Joacute seja considerado ldquoo mais saacutebio da Biacuteblia Hebraicardquo (BLOOM 2005 p 15)

e tenha sido recontado tantas vezes como nas versotildees de HG Wells (apud BORGES

1965) e Fabrice Hadjadj bem como objeto de longos estudos a exemplo daqueles de Carl

2 A hipoacutetese de que o texto javista da Biacuteblia Hebraica poderia ter sido escrito por uma mulher hitita eacute

aventada por Harold Bloom (BLOOM 2005 p 27)

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Gustav Jung e de Reneacute Girard A histoacuteria de Joacute tambeacutem ecoa na seacutetima arte como em A

aacutervore da vida de Terrence Malick (apud CARBAJOSA 2017) e tambeacutem na chamada

nona arte como na graphic novel ldquoO contrato com Deusrdquo de Will Eisner (EISNER 2019

p 21-79)

Enfim ateacute por abordar o eterno problema do sofrimento humano trata-se de obra

atemporal cujo reexame no momento atual eacute mais do que propiacutecio inclusive com um

olhar detalhado sobre suas possiacuteveis liccedilotildees especialmente acerca de um valor tatildeo caro

tanto para a Teologia quanto para o Direito qual seja a Justiccedila O grito de Joacute ainda se

prolonga eacute o grito de Jesus na cruz eacute o grito dos pobres e desamparados e eacute o grito de

todos noacutes em nossos momentos de maior fragilidade Eacute dele que vem o nosso clamor por

justiccedila e restauraccedilatildeo

2 O PROMOTOR ACUSADOR DE JOacute E O ENTRELACcedilAMENTO DAS IDEIAS

DE RETRIBUICcedilAtildeO E CONTRATO

A histoacuteria de Joacute pode ser vista por muacuteltiplos olhares desde o seu enigmaacutetico

comeccedilo De fato o proacutelogo conteacutem amplo material para se discutir a teodiceia ou mais

exatamente como se justificar que um Deus infinitamente bom permita o mal E tudo

parece se complicar quando num determinado dia em que os Filhos de Deus se apresentam

a Iaweh entre eles veio tambeacutem Satatilde (Joacute 16)

De acordo com o senso comum Satanaacutes eacute o anjo caiacutedo inimigo da humanidade

Todavia conforme observa Ari Marcelo Solon ldquono Livro de Joacute Satanaacutes deve ser

entendido no sentido hebraico de lsquoacusadorrsquo um servo obediente de Deus e natildeo

necessariamente maurdquo (SOLON 2009 p 2)

Neste diapasatildeo podemos olhar o Livro de Joacute sob uma perspectiva de um drama de

tribunal sendo que o iniacutecio da acusaccedilatildeo eacute feito por Satanaacutes uma espeacutecie de promotor que

atua perante o Juiacutezo de Deus Mas qual seria o teor desta accedilatildeo penal satacircnica Eacute a

falsidade da feacute de Joacute Satatilde potildee em duacutevida a feacute de Joacute dizendo num primeiro momento que

ele apenas se comporta como um servo obediente em razatildeo de seus muitos bens Se

perdesse seus bens de acordo com o acusador Joacute lanccedilaria maldiccedilotildees contra Deus (Joacute 1 9-

11)

E o que faz Iahweh Recebe a acusaccedilatildeo e deixa tudo o que pertence a Joacute em poder

de Satanaacutes (Joacute 1 12) Inicia-se pois a celeuma Um mal seraacute praticado contra Joacute e nem se

poderaacute aqui falar-se ldquoapesar de Deusrdquo Natildeo o texto biacuteblico eacute categoacuterico ao estabelecer que

todo o mal seraacute praticado por autorizaccedilatildeo expressa de Iahweh Como Por quecirc Como

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pode um Deus bom autorizar expressamente que o mal seja praticado contra um homem

justo Seria uma aplicaccedilatildeo do ditado popular ldquoaqui se faz aqui se pagardquo Mas o que Joacute

fez

Natildeo obstante natildeo haja respostas a tais perguntas no Livro importa por ora observar

que a feacute de Joacute natildeo falhou embora trageacutedias o tenham tirado seus bens e tambeacutem os seus

filhos Eis a resposta de Joacute

ldquoNu saiacute do ventre de minha matildee

e nu voltarei para laacute

Iaweh o deu Iaweh o tirou

bendito seja o nome de Iawehrdquo3

Joacute perseverou em sua feacute Eacute evidente que se abalou ateacute pela informaccedilatildeo de que

rapou a cabeccedila e caiu por terra inclinando-se no chatildeo (Joacute 1 20)4 poreacutem sua feacute se

mostrou verdadeira Ou natildeo O promotor Satanaacutes ainda duvida e adita a acusaccedilatildeo se a

carne fosse ferida se a sua vida e sauacutede estivessem em jogo Joacute revelaria a sua verdadeira

face e amaldiccediloaria Deus (Joacute 2 4-5) E Deus uma vez mais autoriza o acusador

proibindo-lhe apenas de tirar a vida de Joacute (Joacute 2 6)

Esta eacute a autorizaccedilatildeo final a Satanaacutes que jaacute sai de cena no segundo capiacutetulo do

Livro de Joacute Contudo ao contraacuterio do que alguns possam pensar o Acusador falhou

novamente em seu intento De fato Joacute manteve sua feacute apesar das chagas em seu corpo

quando responde ao comentaacuterio de sua esposa que deveria amaldiccediloar Iaweh ldquose

recebemos de Deus os bens natildeo deveriacuteamos receber tambeacutem os malesrdquo (Joacute 2 10)

Mas como A histoacuteria natildeo termina aiacute Se o acusador saiu de cena o que fez Joacute

comeccedilar a expressar a sua anguacutestia ou em outras palavras o que fez Joacute comeccedilar a perder

a sua paciecircncia

Eacute certo que na Biacuteblia o acusador fez sua uacuteltima apariccedilatildeo apoacutes lanccedilar a Joacute o

sofrimento em sua pele Contudo na versatildeo irreverente contada pelo filoacutesofo Fabrice

Hadjadj o Acusador depois disso ainda lanccedila matildeo de sua uacuteltima arma contra Joacute ldquoa uacutenica

matilha capaz de devorar seu coraccedilatildeordquo (HADJADJ 2017 p 20) Hadjadj estaacute se

referindo com uma boa dose de razatildeo aos amigos de Joacute

E com efeito na versatildeo biacuteblica Joacute somente comeccedila os seus lamentos apoacutes a

chegada de seus trecircs amigos Elifaz Baldad e Sofar

3 Joacute 1 21 4 De acordo com nota da Biacuteblia de Jerusaleacutem tais gestos significam expressatildeo de dor ou de lu to (Biacuteblia de

Jerusaleacutem 2011 p 804)

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Os diaacutelogos de Joacute com seus amigos constituem beliacutessimos exemplos de disputas

retoacutericas e reforccedilam a perspectiva desse livro biacuteblico como um drama de tribunal Em

grande esforccedilo de siacutentese os amigos que tambeacutem podem ser comparados pela mesma

oacutetica a assistentes da acusaccedilatildeo culpam Joacute por todos os males por ele sofridos De fato se

Joacute sofre eacute porque pecou contra Deus E Deus em sua infinita bondade e justiccedila estaacute

apenas castigando Joacute por seus pecados Em suma Elifaz Baldad e Sofar sustentam a

justiccedila retributiva

Eacute mais do que relevante notar que essa concepccedilatildeo de retribuiccedilatildeo complementa

perfeitamente a acusaccedilatildeo de Satanaacutes segundo a qual Joacute soacute tinha feacute porque tudo corria bem

com ele natildeo passava por dificuldades nem provaccedilotildees E a acusaccedilatildeo de Satanaacutes em

verdade seria totalmente procedente em relaccedilatildeo aos amigos de Joacute pois eles demonstram

acreditar nessa visatildeo contratualista da relaccedilatildeo com Deus Se Joacute natildeo tivesse realmente

pecado Deus nunca faria nada de mal com ele Ou dito de outro modo se a pessoa natildeo

peca Deus tem a obrigaccedilatildeo de natildeo deixar nada de mal ocorrer com ela Porque o mal sem

pecado tornaria Deus injusto e isto seria uma verdadeira blasfecircmia Nas palavras de

Baldad ldquoacaso Deus torce o direito ou Shaddai perverte a justiccedilardquo (Joacute 8 4)

Se natildeo pecarmos nada de mal nos aconteceraacute Desde quando foi elaborado esse

contrato com Deus O contrato foi celebrado por um representante da humanidade em

nome de todos ou cada um de noacutes o celebra individualmente

O renomado quadrinista William Erwin Eisner mais conhecido como Will Eisner

brindou-nos com uma das mais belas histoacuterias da nona arte intitulada ldquoUm contrato com

Deusrdquo (EISNER 2019) Neste conto moderno que ecoa o Livro de Joacute acompanhamos o

judeu Frimme Hersh que desde crianccedila embora oacuterfatildeo soacute praticava boas accedilotildees Numa

conversa com um rabino o menino lhe pergunta sobre a justiccedila de Deus e se Ele saberia se

Frimme se comportaria bem O rabino fala sobre a onisciecircncia de Deus e surge aiacute a ideia

do contrato entatildeo redigido numa pequena pedra (EISNER 2019 p 35-36) Fugindo da

perseguiccedilatildeo aos judeus de seu paiacutes Frimme Hersh vai para os Estados Unidos e ali cresce

tornando-se um respeitado membro da sinagoga Talvez por sua reconhecida bondade e

generosidade com todos uma menina receacutem-nascida foi abandonada na porta de Hersh E

Frimme Hersh a adotou e a criou com todo o seu amor batizando-a com o nome de sua

falecida matildee Rachele Hersh considerou sua filha uma daacutediva de Deus

Contudo passados os anos na flor da idade Rachele adoece e vem a falecer Neste

momento depois de enterrar sua filha numa noite tempestuosa Hersh explode em fuacuteria

ldquoNAtildeO Vocecirc natildeo pode fazer isso comigo noacutes temos um contrato VOCEcirc QUEBROU

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NOSSO CONTRATOrdquo () ldquoSe Deus exige que homens honrem seus acordos entatildeo

Deus tambeacutem natildeo tem essa obrigaccedilatildeordquo (EISNER 2019 pp 41-43)5

Seraacute mesmo que existe esse contrato Um contrato que garante que nada de ruim

aconteceraacute com pessoas boas Aparentemente a resposta era positiva para os amigos de Joacute

Tanto que buscavam imputar a Joacute a culpa pelas desgraccedilas que se abateram sobre ele

Portanto a loacutegica da justiccedila retributiva (castigo para quem peca) e contratual (Deus tem

obrigaccedilatildeo de proteger quem natildeo peca) estatildeo intrinsecamente ligadas E tal pensamento

perdura ateacute hoje como observa Luiz Alexandre Solano Rossi ldquoMais angustiante ainda eacute

reconhecer que mesmo hoje fazemos teologia com a mesma loacutegica dos amigos de Joacute

Trata-se portanto de uma loacutegica que temos muita dificuldade para quebrarrdquo (ROSSI

2017 p 31) Mesmo Carl Gustav Jung ao falar de ldquoquebra de juramentordquo aduzindo que

ldquonatildeo se pode contrapor um Deus arcaico agraves exigecircncias da eacutetica modernardquo parece sucumbir

agrave oacutetica contratualista (JUNG 2018 p 22)

Especificamente Rossi critica a chamada teologia da prosperidade tratando-a

como uma teologia da retribuiccedilatildeo poacutes-moderna (2017 p 65)

ldquoUma das possiacuteveis expressotildees da teologia da retribuiccedilatildeo em ambiente

eclesiaacutestico poacutes-moderno eacute a lsquoteologia da prosperidadersquo Essa teologia declara

que o plano de Deus para o ser humano eacute fazecirc-lo feliz abenccediloado saudaacutevel

proacutespero enfim uma pessoa de sucesso Mas onde estaria a complexidade dessa

afirmaccedilatildeo Sua complexidade reside justamente no fato de que para essa

teologia soacute natildeo eacute proacutespero financeiramente soacute natildeo eacute saudaacutevel e feliz nesta vida

quem carece de feacute natildeo cumpre o que a Biacuteblia diz a respeito das promessas

divinas e estaacute envolvido com o diabo ou seja quem estaacute em pecadordquo

Janaina Conceiccedilatildeo Paschoal (2018 p 183) comentando sobre crimes cometidos

por alguns liacutederes religiosos observa que ldquoos interesses econocircmicos tambeacutem passam mais

claramente a motivar os fieacuteisrdquo Nesse diapasatildeo Rossi observa que muitas teologias estatildeo

tratando os fieacuteis como clientes (2017 p 129)

Como se vecirc portanto embora a histoacuteria de Joacute sempre seja lida com criacuteticas aos

seus amigos podemos ver que a teologia deles retributiva e contratualista permanece

sendo praticada por muitos homens de feacute ateacute os dias de hoje

5 As belas e tristes cenas da fuacuteria de Frimme Hersh satildeo retratadas como um diaacutelogo entremeando -se os gritos

furiosos do enlutado pai com os terriacuteveis relacircmpagos da tempestade que assola a cidade neste momento Este

eacute apenas o comeccedilo da histoacuteria de Frimme Hersch que merece ser lida Natildeo diremos mais sobre ela anotando

apenas que esse diaacutelogo pode ser comparado com o de Joacute e Iaweh que aparece no seio de uma tempestade

(Joacute 38 1) De qualquer forma a dor eacute semelhan te agrave da matildee que perde um filho no filme ldquoA aacutervore da vidardquo

o qual conteacutem referecircncias expressas ao Livro de Joacute

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Mas Joacute natildeo se calou perante seus amigos Discutiu com eles agrave exaustatildeo Ele queria

mais do que provar o seu ponto natildeo desejava simplesmente amaldiccediloar a Deus O que

afinal queria Joacute Joacute ansiava sim algo profundamente encontrar Deus no tribunal

3 O DESEJO DE JOacute E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA

A ideia de levar Deus ao tribunal parece absurda e fadada agrave derrota e Joacute sabe muito

bem disso Afinal ele se pergunta quem citaraacute Deus (Joacute 9 19) e sabe que entre mil

razotildees natildeo haveraacute uma para rebatecirc-lo (Joacute 9 3) Mas Joacute ainda assim insiste Por quecirc

Dentre as inuacutemeras respostas possiacuteveis falaremos sobre aquela que mais nos

parece proacutexima da verdade do livro E para isso faremos uma pequena digressatildeo

aproveitando-nos de um pouco de nossa experiecircncia com os tribunais Muitos pensam e

falam como se tratasse de um dogma que os juiacutezes sempre tecircm o dom de desagradar uma

das partes do processo aquela que perde De acordo com essa visatildeo na praacutetica o processo

eacute um jogo em que as partes soacute tecircm uma finalidade vencer Nem sempre isso eacute verdade eis

que natildeo raramente mesmo os vencedores se desagradam com os magistrados que lhe

deram ganho de causa ao passo que os perdedores podem se conformar e ateacute aderir agrave

pretensatildeo adversa Para muitos isso pode parecer um desatino poreacutem ainda que desafie a

loacutegica e o senso comum trata-se uma conclusatildeo vaacutelida que tem a ver com um conceito

diverso de justiccedila qual seja o de justiccedila restaurativa Talvez essa seja a melhor forma de

justiccedila superando ateacute mesmo a justiccedila distributiva pois essa tambeacutem natildeo perde seu

caraacuteter impositivo A justiccedila restaurativa eacute a mais simples e paradoxalmente a mais

complexa A mais faacutecil e a mais difiacutecil A mais simples de se entender e a mais impossiacutevel

de se acreditar Essa eacute a justiccedila do diaacutelogo em que todos falam e ouvem-se uns aos

outros

Joacute natildeo quer vencer Deus no tribunal Joacute quer simplesmente falar ldquoEntatildeo lhe falaria

e natildeo teria medo pois eu natildeo sou assim a meus olhosrdquo (Joacute 9 35) Joacute tambeacutem quer ouvir

ldquoDirei a Deus Natildeo me condenes explica-me o que tens contra mimrdquo (Joacute 10 2)

Joacute sabe que nenhuma razatildeo poderaacute derrotar o Criador Mesmo assim quer ser

ouvido por Ele e tambeacutem quer escutaacute-lo

O processo judicial pode ser encarado como um jogo poreacutem nem sempre eacute assim

Muitos reacuteus mesmo de processos criminais conformam-se com sua condenaccedilatildeo quando

percebem que foram efetivamente ouvidos e compreendidos no julgamento A pena entatildeo

eacute aceita pois o proacuteprio acusado compreendeu e aceitou a sua proacutepria responsabilidade O

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processo penal com sua estrutura adversarial eacute um ambiente pouco propiacutecio para a justiccedila

restaurativa embora talvez ateacute por obra do acaso algumas vezes ela ocorra nele E talvez

esse acaso possa ser provocado justamente quando o juiz natildeo condena o reacuteu mas sim lhe

explica o que tem contra ele6 Poder-se-ia objetar que isso seria mera questatildeo de

semacircntica todavia seraacute que em tantas situaccedilotildees o problema natildeo estaacute exatamente no que

se diz mas no como se diz

O encontro entre o autor da infraccedilatildeo e a viacutetima eacute uma das possiacuteveis formas pelas

quais se pratica a justiccedila restaurativa Este diaacutelogo para dar certo deve ser preparado

pelos facilitadores restaurativos7 No processo penal autor da infraccedilatildeo e viacutetima raramente

se encontram Ateacute porque o ofendido frequentemente pede para natildeo depor na frente do

reacuteu por fundado temor Eacute certo que amiuacutede o medo eacute justificaacutevel contudo o que se vecirc

no cotidiano forense eacute que ele eacute praticamente presumido automaticamente aprofundando

o trauma do crime de modo que natildeo se vislumbre mais qualquer possibilidade de perdatildeo

ou reconciliaccedilatildeo

Joacute disse que Shaddai8 lhe encheu de terror (Joacute 23 16) todavia deseja

ardorosamente o encontro

ldquoOxalaacute soubesse como encontraacute-lo

como chegar agrave sua morada

Exporia diante dela a minha causa

com minha boca cheia de argumentos

Gostaria de saber com que palavras iria responder-me

e ouvir o que teria para me dizer

Usaria ele de violecircncia ao pleitear comigo

Natildeo bastaria que me desse atenccedilatildeo

Ele reconheceria em seu adversaacuterio um homem reto

e eu triunfaria sobre meu juizrdquo (Joacute 23 3-7)

Joacute pretende expor seus argumentos diante de Deus ouvir o que Ele tem a dizer e

bastaria que Ele reconhecesse a sua retidatildeo para que Joacute se considerasse vitorioso Ora o

desejo de Joacute se coaduna com os preceitos da justiccedila restaurativa De fato como observa

Helena Zani Morgado ldquocomunicaccedilatildeo assertiva e escuta compassiva portanto satildeo verso e

anverso da moeda restaurativardquo (2018 p 158)

6 Eacute inusitado que um reacuteu parabenize o juiz que o condenou As vezes em que isso nos ocorreu podem ser

contadas nos dedos Poreacutem olhando agora para traacutes percebemos um lugar comum nesses casos Os acusados

se sentiram efetivamente ouvidos no processo Embora o julgamento lhes tenha sido adverso natildeo foram mal

compreendidos Sentiram eles que foram efetivamente ouvidos E souberam eles aceitar a su a

responsabilidade Uma rara poreacutem feliz combinaccedilatildeo que resultou de um processo penal 7 Entenda-se bem natildeo para se instigar um discurso artificial de arrependimento e perdatildeo mas sim para que

os envolvidos compreendam o processo especialmente no tocante agrave igualdade entre as partes e falem com

honestidade sobre seus sentimentos em relaccedilatildeo ao conflito Os facilitadores em regra satildeo voluntaacuterios que se

especializam em determinadas teacutecnicas restaurativas visando garantir um efetivo diaacutelogo entre as partes 8 Outro nome de Deus no Livro de Joacute

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Eacute preciso enfatizar que Joacute mais do que a reversatildeo dos seus infortuacutenios deseja o

reconhecimento de Deus exatamente como a viacutetima deseja ser reconhecida como pessoa

por seu ofensor Na justiccedila retributiva dos amigos de Joacute e do processo penal em geral

ofendidos e acusados satildeo instrumentalizados vale dizer satildeo apenas peccedilas de um jogo que

determinaraacute ou natildeo a aplicaccedilatildeo da pena A viacutetima eacute um instrumento para a condenaccedilatildeo

pois o Estado-Juiz natildeo se importa com o seu trauma Jaacute o acusado tambeacutem eacute um

instrumento na medida em que serve de exemplo para a prevenccedilatildeo geral de delitos

reforccedilando a crenccedila na vigecircncia da norma ou como diz expressamente Guumlnther Jakobs ldquoa

finalidade da culpabilidade eacute a estabilizaccedilatildeo da norma deacutebilrdquo (JAKOBS 2003 p 31)

Elifaz Baldad Sofar natildeo soacute instrumentalizam Joacute como o pecador que certamente

estaacute recebendo o merecido castigo como tambeacutem o proacuteprio Deus que passa a ter funccedilotildees

claras de puniccedilatildeo ou recompensa (ou ateacute pagamento na perspectiva contratualista)

independentemente de sua vontade Enfim Deus passa a ser uma ideia que justifica o

sofrimento do pobre (pecador) e o bem-estar do rico (justo) Posteriormente em reforccedilo a

essa concepccedilatildeo ainda surge Eliuacute que censura Joacute simplesmente por falar9 e se coloca em

posiccedilatildeo de superioridade pretendendo instrui- lo10

Eliuacute assim humilha Joacute colocando-o num patamar inferior em que sua liberdade

de expressatildeo e de sentimentos por si soacute jaacute eacute tida como uma ofensa Enfim mais uma

personagem que tenta desviar Joacute de seu encontro restaurativo com Deus tratando-o como

um insensato que multiplica palavras

Joacute natildeo responde a Eliuacute talvez ateacute porque demais humilhado por ele11 Ou entatildeo Joacute

simplesmente natildeo tenha tido tempo de responder a Eliuacute pois eacute nesse momento que surge a

tempestade e finalmente o desejo de Joacute eacute atendido

4 O ENCONTRO RESTAURATIVO DE JOacute E IAWEH

No seio da tempestade estaacute Iaweh que passa a responder a Joacute (Joacute 38 1) O que

seria o cliacutemax do livro de Joacute torna-se o anticliacutemax Se por um acaso se esperava o retorno

do Acusador e sua eventual derrota ou qualquer esclarecimento ou justificativa divina para

o ocorrido o que se tem eacute que o livro terminaraacute sem qualquer explicaccedilatildeo para os atos de

Satanaacutes ou de Deus nem qualquer alusatildeo agrave inocecircncia ou eventual culpabilidade de Joacute

9 ldquoJoacute abre a boca para o vazio e insensatamente multiplica palavrasrdquo (Joacute 35 16) 10 ldquoEspera um pouco que eu te instruireirdquo (Joacute 36 2) 11 Uma liccedilatildeo que serve para os encontros restaurativos com autores de crimes pois a justiccedila restaurativa deve

empoderar as pessoas contribuindo para o desenvolvimento comunitaacuterio e natildeo para censuraacute -los ou colocaacute-

los em posiccedilatildeo de inferioridade o que apenas contribui para o ressentimento

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Iahweh pergunta e desafia ldquoOnde estavas quando lancei os fundamentos da terra

Dize-mo se eacute que sabes tantordquo (Joacute 38 4) A ironia utilizada por Deus em seu desafio a

Joacute por um lado poderia chocar como de fato tem chocado inuacutemeros autores e inteacuterpretes

da Biacuteblia Contudo temos aqui de fato um encontro restaurativo em que Joacute e Iahweh

puderam de fato dizer tudo o que pensavam Com efeito um diaacutelogo restaurativo natildeo pode

ser mal-entendido como uma conversa artificial uma espeacutecie de teatro em que cada um

procura dizer exatamente aquilo que o outro quer ouvir mostrando um (falso)

arrependimento em busca de uma (falsa) reconciliaccedilatildeo ou (falso) perdatildeo Apenas quando

duas pessoas falam a verdade ainda que dolorosa eacute possiacutevel a construccedilatildeo da justiccedila

restaurativa Neste sentido a observaccedilatildeo de Elizabeth M Elliot citando Hal Pepinsky e a

sabedoria do povo navajo para o processo de conceituaccedilatildeo da justiccedila ldquoCompareccedila Preste

atenccedilatildeo Fale a verdade Natildeo fique preso a resultadosrdquo (2018 p 103)

Assim veja-se a formaccedilatildeo da justiccedila restaurativa no livro de Joacute 1) Deus

compareceu diante de Joacute 2) Apesar de Deus natildeo ter surgido antes o livro aponta

claramente que Ele prestou atenccedilatildeo em tudo o que Joacute dizia (Joacute 38 1-4) 3) Tanto Joacute

quanto Deus falam francamente e por fim 4) Natildeo existe um resultado certo que devemos

esperar vale dizer natildeo estamos diante de um contrato em que cada uma das partes tecircm

obrigaccedilotildees previamente estipuladas a serem cumpridas

Um diaacutelogo fluido e natural e natildeo riacutegido e artificial eacute o que propiciaraacute a justiccedila

restaurativa A rigidez e a artificialidade somente poderatildeo produzir uma ilusatildeo de justiccedila

O discurso de Iahweh eacute duro e nisso reside a Sua verdade ou pelo menos

franqueza A restauraccedilatildeo natildeo pode ser alcanccedilada sem que se diga aquilo que se sente

Deus assim quebra expectativas com o que alguns inteacuterpretes chegam ao ponto

de lhe acusar de ausecircncia de compaixatildeo (HABEL 2004 p 37) De fato quando

expectativas comportamentais satildeo quebradas a proacutepria acusaccedilatildeo tambeacutem se mostra

implacaacutevel e sem misericoacuterdia assemelhando-se ao que ocorre no julgamento criminal12

Contudo a restauraccedilatildeo natildeo ocorreraacute tentando-se mudar aquilo que a pessoa eacute para se

atender a determinados preacute-conceitos

12 Embora a moderna dogmaacutetica penal seja unacircnime na rejeiccedilatildeo do ldquodolo pela conduccedilatildeo de vidardquo concepccedilatildeo

de Mezger com repercussotildees no direito penal nazista (cf SOUZA 2019 p 285) estudos da criminologia

criacutetica demonstram que o direito penal amiuacutede as sume caraacuteter altamente seletivo o que explicaria um

encarceramento massivo de negros pobres pessoas com baixa instruccedilatildeo etc Natildeo eacute funccedilatildeo deste trabalho

investigar os fatores que levam a isso mas fica aqui rapidamente consignado que desde a lei penal eacute

possiacutevel constatar irracionalidades no sistema de justiccedila criminal Como jaacute tivemos oportunidade de

mencionar alhures basta ver a pena destinada ao crime de fraude em licitaccedilatildeo (art 90 da Lei 86661993)

ainda que milionaacuteria e a pena do crime de moeda falsa ainda que envolvendo uma uacutenica ceacutedula de cinquenta

reais (art 289 do Coacutedigo Penal) e fazer um breve exerciacutecio de imaginaccedilatildeo tentando traccedilar um perfil de quem

costumeiramente costuma praticar o primeiro e o segundo delito (AZEVEDO 2019 p 210)

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E Joacute compreendeu isso dizendo que havia chegado o seu momento de escutar (Joacute

40 4-5) Ao final Joacute menciona ldquoQuem eacute aquele que vela teus planos com propoacutesitos sem

sentidordquo (Joacute 42 3)

Interpretamos esse trecho da seguinte forma Joacute reconheceu o seu erro e

finalmente entendeu que natildeo existe contrato aliaacutes nunca existiu um contrato Mas

tambeacutem natildeo houve retribuiccedilatildeo E isso ficou subentendido nos discursos de Iahweh nos

quais em momento algum existe alusatildeo a alguma acusaccedilatildeo contra Joacute Joacute estava certo ao

se considerar inocente poreacutem equivocado ao se considerar imune a quaisquer mazelas

como se protegido por uma obrigaccedilatildeo de Deus

Natildeo foi outra a conclusatildeo de Luiz Felipe Pondeacute (2017 p 7)

ldquoO lsquoerrorsquo de Joacute (como o de todos noacutes) foi achar-se justo e portanto merecedor

de uma vida feliz Quando ele finalmente se entrega a Deus e a tudo que existe

agrave sua volta sem se perguntar por que ele sofre Joacute entende seu pecado a

idolatria de sua proacutepria virtuderdquo

Depois do reconhecimento do proacuteprio erro por Joacute abre-se entatildeo o caminho para a

restauraccedilatildeo E espancando quaisquer duacutevidas Deus se dirige aos amigos de Joacute e fala algo

surpreendente ldquoEstou indignado contra ti e teus dois companheiros porque natildeo falastes

corretamente de mim como o fez meu servo Joacuterdquo (Joacute 42 7) Eacute curioso porque ao longo

dos diaacutelogos aparentemente os amigos de Joacute colocavam-se como os advogados de Iahweh

contra as blasfecircmias de Joacute Contudo como visto na verdade isto era apenas a ilusatildeo de

uma suposta justiccedila retributiva que puniria somente os pecadores de modo que quanto

aos natildeo pecadores evidentemente nada de mal ocorreria o que traduzia a ideia de

contrato com Deus A instrumentalizaccedilatildeo de Deus para permitir tais concepccedilotildees

definitivamente natildeo agradou Iahweh que natildeo soacute os desautorizou como ainda por cima

elogiou a fala sincera de Joacute Mesmo errado Joacute acertou mais que seus amigos ao afastar a

retribuiccedilatildeo divina como causa de suas mazelas O comparecimento e o reconhecimento de

Deus representaram o triunfo de Joacute ldquoEu te conhecia soacute de ouvir mas agora meus olhos te

veemrdquo (Joacute 42 5)

Tudo isso contudo natildeo resolveu o misteacuterio Muito tempo depois a duacutevida

novamente surgiu na boca dos disciacutepulos de Jesus e ele novamente a afastou embora

tenha aprofundado o misteacuterio

ldquoAo passar ele viu um homem cego de nascenccedila Seus disciacutepulos lhe

perguntaram lsquoRabi quem pecou ele ou seus pais para que nascesse cego

Jesus respondeu lsquoNem ele nem seus pais pecaram mas eacute para que nele sejam

manifestadas as obras de Deusrdquo

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A melhor soluccedilatildeo para o misteacuterio parece vir de Tolstoacutei que nos lembra que desde

o iniacutecio de nossas vidas a sombra da morte nos espreita A morte eacute inexoraacutevel para todos

noacutes e todos os nossos bens desejos e interesses desapareceratildeo depois dela Por isso

Tolstoacutei natildeo vecirc sentido numa ldquovida vivida soacute para sirdquo A uacutenica vida racional com

verdadeiro significado seria a vida vivida para os outros Apenas essa vida natildeo pode ser

destruiacuteda pela morte (TOLSTOacuteI 2011 p 148) Essa uma liccedilatildeo ainda a ser aprendida

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

Como dito no iniacutecio o presente artigo estaacute sendo escrito durante uma pandemia

num momento de fragilidade de muitas pessoas tempo em que o choque de vozes

favorece o temor e a desesperanccedila Poreacutem aqui recordamos a histoacuteria de Joacute todos os seus

infortuacutenios e sofrimentos e ao final sua restauraccedilatildeo

A propoacutesito do final alguns autores o consideram escrito posteriormente por outro

autor um ldquoepiacutelogo ineptordquo (BLOOM 2005 p 27) ou proacuteprio de ldquoum grande sucesso de

bilheteria hollywoodianordquo (GIRARD 2014 p 163)13 Natildeo cremos nessa hipoacutetese14

poreacutem ainda que verdadeira natildeo eacute muito relevante Na verdade o final com a devida

vecircnia natildeo recebeu a devida interpretaccedilatildeo dos ilustres autores citados

De fato esse fim de Hollywood parece resultar do enfoque na restauraccedilatildeo15 dos

bens e de novos filhos para Joacute como se fosse isso o que realmente importasse Ou seja

novamente uma interpretaccedilatildeo que se apega ao contratualismo como o pagamento de uma

diacutevida em atraso por Deus Natildeo eacute este o melhor entendimento

A restauraccedilatildeo ocorre com o reconhecimento por Deus da retidatildeo de Joacute natildeo

obstante todos os males que se abateram sobre ele a respeito dos quais Iahweh tambeacutem

natildeo fornece qualquer explicaccedilatildeo Isso aliado ao comparecimento de Deus eacute o bastante

para o triunfo e reparaccedilatildeo de Joacute Enfim tudo isso eacute suficiente para a restauraccedilatildeo do seu

conflito com Deus Novos bens e novos filhos bem como provaacuteveis novos revezes

embora natildeo citados satildeo apenas meras consequecircncias da continuidade da vida

13 Natildeo obstante Reneacute Girard mesmo considerando que o epiacutelogo tenha sido adicionado reconhece nele uma

frase marcante na qual Deus falando aos amigos acrescenta que natildeo os castigaraacute ldquopor natildeo terdes falado

corretamente de mim como o fez meu servo Joacute (Joacute 48 8) rdquo (GIRARD 2014 P 163) 14 O fim do livro eacute perfeitamente compatiacutevel com o seu conteuacutedo afastando a ideia de justiccedila retributiva 15 A propoacutesito desta restauraccedilatildeo Norman C Habel sugere que o uso do verbo restaurar pode ser fortuito

poreacutem sugere uma justiccedila restaurativa em vez de uma retributiva (HABEL 2004 p 35)

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A oportunidade do diaacutelogo com Deus foi a verdadeira restauraccedilatildeo de Joacute pois ele

compreendeu dois fatos fundamentais 1ordf) mesmo sendo justo natildeo estava imune ao mal e

ao sofrimento 2ordf) apesar de ter chegado a amaldiccediloar o dia em que nasceu (Joacute 3 1) Joacute

percebeu que sua vida teve um verdadeiro significado como no sentido proposto por

Tolstoacutei Foi uma vida vivida para os outros como demonstra a lembranccedila de Joacute em um

dos diaacutelogos

ldquoA justiccedila eu vivia como tuacutenica

o direito era meu manto e meu turbante

Eu era olhos para o cego

era peacutes para o coxo

Era o pai dos pobres

e examinava a causa de um desconhecidordquo (Joacute 29 14-16)

Nestes tempos de pandemia temos uma escolha reclamar da sorte e maldizer a

Deus ou continuar dando um verdadeiro significado agraves nossas vidas ajudando-nos uns aos

outros da melhor forma que pudermos Sem lamentar um contrato natildeo cumprido e sem nos

desesperarmos pela crenccedila de que estamos sofrendo um castigo divino A vida vivida para

os outros com espaccedilo para o perdatildeo e para a reconciliaccedilatildeo levaraacute agrave restauraccedilatildeo e ao

desenvolvimento de nosso senso de comunidade Esta a liccedilatildeo que extraiacutemos do Livro de

Joacute

REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS

AZEVEDO Paulo Bueno de Ensaio sobre a irracionalidade do sistema criminal agrave

luz da obra religiosa de Lev Tolstoacutei Rio de Janeiro Lumen Juris 2019

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BLOOM Harold Onde encontrar a sabedoria Traduccedilatildeo de Joseacute Roberto OrsquoShea

Revisatildeo de Marta Miranda OrsquoShea Rio de Janeiro Objetiva 2005

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BORGES Jorge Luis Sete conversas com Fernando Sorrentino Organizador

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CARBAJOSA Ignacio Joacute potildee Deus no banco dos reacuteus Sobre o sofrimento inocente

In httparquivorevistapassoscombrdefaultaspid=344ampid_n=5530amppagina=1

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ELLIOTT Elizabeth M Seguranccedila e cuidado justiccedila restaurativa e sociedades

saudaacuteveis Traduccedilatildeo de Cristina Telles Assumpccedilatildeo com revisatildeo teacutecnica de Tonia

Van Acker Satildeo Paulo Palas Athena 2018

EISNER Will Biblioteca Will Eisner um contrato com Deus Will Eisner [histoacuteria e

arte] Traduccedilatildeo Marquito Maia Satildeo Paulo Devir 2019

GIRARD Reneacute A rota antiga dos homens perversos Traduccedilatildeo de Tiago Joseacute Risi

Leme Satildeo Paulo Paulus 2014

JAKOBS Guumlnther Fundamentos do direito penal Traduccedilatildeo Andreacute Luiacutes Callegari

Satildeo Paulo Revista dos Tribunais 2003

HABEL Norman C The verdict onof Goda at the end of Job In Jobrsquos God

London SCM Press 2004

HADJADJ Fabrice Joacute ou a tortura pelos amigos Traduccedilatildeo de Clara Carvalho Satildeo

Paulo Eacute Realizaccedilotildees 2017

JUNG CJ Resposta a Joacute Traduccedilatildeo do Pe Dom Mateus Ramalho Rocha 10 ediccedilatildeo

Petroacutepolis Vozes 2018

MORGADO Helena Zani Direito penal restaurativo em busca de um modelo

adequado de justiccedila criminal Rio de Janeiro Revan 2018

PASCHOAL Janaina Conceiccedilatildeo Religiatildeo e direito penal interfaces sobre temas

aparentemente distantes Satildeo Paulo LiberArs 2018

PONDEacute Luiz Felipe Joacute e a alegria (prefaacutecio) In HADJADJ Fabrice Joacute ou a

tortura pelos amigos Traduccedilatildeo de Clara Carvalho Satildeo Paulo Eacute Realizaccedilotildees 2017

ROSSI Luiz Alexandre Solano A origem do sofrimento do pobre teologia e

antiteologia no livro de Joacute Satildeo Paulo Paulus 2017

SOLON Ari Marcelo Direito e tradiccedilatildeo o legado grego romano e biacuteblico Rio de

Janeiro Elsevier 2009

SOUZA Luciano Anderson de Direito penal parte geral Satildeo Paulo Revista dos

Tribunais 2019

TOLSTOacuteI Liev Minha religiatildeo Traduccedilatildeo Dinah de Abreu Azevedo Satildeo Paulo A

Girafa 2011

Autor ndash Excelentiacutessimo Juiz Federal Dr Paulo Bueno de Azevedo

Docente FATEJ FADISA

JUIZ FEDERAL e Professor de Direito Penal da

FADISA

DOUTOR em Direito Penal pela Universidade

de Satildeo Paulo

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ldquoA CONTRIBUICcedilAtildeO DOS MANUSCRITOS DE QUMRAN PARA

EXEGESE DO APOCALIPSE DE JOAtildeOrdquo

APOCALIPSE 51-14 ndash O CAcircNTICO CERIMONIAL DA

CELEBRACcedilAtildeO DO SACERDOacuteCIO UNIVERSAL DE JESUS Agrave LUZ DAS TRADICcedilOtildeES DO MISTICISMO JUDAICO - UMA EXEGESE

CONTEMPORAcircNEA

RESUMO

Nos uacuteltimos anos as descobertas dos manuscritos de Qumran intensificaram as propostas

de exegese da literatura apocaliacuteptica dando novas ecircnfases dentre elas estatildeo as hipoacuteteses de

Rowland16 de que os textos do Apocalipse 4 e 5 possuem em sua narrativa uma

semelhanccedila baacutesica com a liturgia descrita nas tradiccedilotildees do misticismo apocaliacuteptico do

judaiacutesmo no I seacuteculo bem como em textos de Qumran principalmente no fragmento

4Q405 Nogueira17 seguindo esta linha de pesquisas cita que Ezequiel capiacutetulo 1 eacute

considerado chave de uma tradiccedilatildeo miacutestica do judaiacutesmo enoquita sendo tambeacutem um

elemento central do Apocalipse de Joatildeo o principal visionaacuterio do cristianismo Sebastiana

Nogueira18 lembra que foi Scholem quem realmente usou este misticismo para produzir a

chave das histoacuterias de ascensatildeo celestial presentes nos apocalipses dos uacuteltimos dois seacuteculos

aC e dos primeiros dois seacuteculos dC de forma que Scholem na verdade foi quem

iniciou a discussatildeo acadecircmica dos miacutesticos judaicos em seu livro Major Trends in Jewish

Myticism - Principais Tendecircncias no Misticismo Judaico em 1941 Destarte esta linha de

pesquisa ecoa nos estudos do misticismo apocaliacuteptico e do ecircxtase visionaacuterio relativo ao

contexto do judaiacutesmo e cristianismo primitivos sendo fundamentada em autores tais

como Christopher Rowland Alan Segal C R A Morray-Jones e John Ashton John

Collins Adella Collins Jonas Machado Paulo A S Nogueira Carol Newsom David E

Aune Philip Alexander Crispin HT Fletcher-Louis Florentino Garciacutea Martiacutenez dentre

outros sendo que estes autores se alinham aos resultados das pesquisas iniciais de

Gershom Scholem sobre o Misticismo Judaico e aos desenvolvimentos mais recentes neste

acircmbito Corroborando com a tradiccedilatildeo destes estudos se encontram as descobertas dos

manuscritos de Qumran como a dos Cacircnticos do Sacrifiacutecio Saacutebatico uma composiccedilatildeo de

treze cacircnticos tambeacutem chamada de liturgia angeacutelica e que tem contribuiacutedo para o

desenvolvimento das pesquisas bem como sustentado os argumentos de Scholem

16 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 20097273 17 NOGUEIRA Paulo Augusto de S (org) Religiatildeo de Visionaacuterios ndash Apocaliacuteptica e Misticismo no

Cristianismo Primitivo Satildeo Paulo Ed Loyola ndash 200543 18 NOGUEIRA Sebastiana M Silva 2 Coriacutentios 12 e o Misticismo Judaico (Os Quatro que Entraram no

Pardes) Oracula 201204

autor

Me Marcelo Alves Dantas

E-mail marcelodantasteologiagmailcom

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Portanto este artigo faz uma breve exposiccedilatildeo das tradiccedilotildees da miacutestica judaica e suas

contribuiccedilotildees para exegese do capiacutetulo 5 do Apocalipse de Joatildeo

Palavras chave Judaiacutesmo Misticismo Apocaliacuteptica Trono Cacircntico

ABSTRACT

In recent years the discoveries of the Qumran manuscripts have intensified the proposals

for the exegesis of apocalyptic literature with new emphases among them are Rowlands

hypotheses that the texts of Revelation 4 and 5 have in their narrative a basic similarity

with the liturgy described in the traditions of Judaisms apocalyptic mysticism in the first

century as well as in Qumran texts mainly in fragment 4Q405 Nogueira following this

line of research and based on other scholars mentions that Ezekiel chapter 1 is considered

key to a mystical tradition of enochite Judaism being also a central element of the

Apocalypse of John the main visionary of Christianity Sebastiana Nogueira recalls that it

was Scholem who really used this mysticism to produce the key to the stories of celestial

ascension present in the apocalypses of the last two centuries BC and the first two

centuries AD So Scholem in fact who started the academic discussion of mystics Jews in

his book Major Trends in Jewish Myticism - Main Trends in Jewish Mysticism in 1941

Thus this line of research echoes in the studies of apocalyptic mysticism and visionary

ecstasy concerning the context of primitive Judaism and Christianity with some of the best

known authors Christopher Rowland Alan Segal CRA Morray-Jones and John Ashton

John Collins Adella Collins Jonas Machado Paulo AS Nogueira Carol Newsom David

E Aune Philip Alexander Crispin HT Fletcher-Louis Florentino Garciacutea Martiacutenez among

others these authors are aligned with the results of Gershom Scholems initial research on

Jewish Mysticism and with the most recent developments in this area Corroborating the

tradition of these studies are the findings of the Qumran manuscripts such as the Song of

Sacrifice Saacutebatico a composition of thirteen songs also called angelic liturgy which has

contributed to the development of research as well as supporting the arguments of

Scholem Therefore this article briefly exposes the traditions of Jewish mysticism and

their contributions to the exegesis of chapter 5 of the Apocalypse of John

Keywords Judaism Mysticism Apocalyptic Throne Song

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INTRODUCcedilAtildeO

Segundo Nogueira19 o cristianismo primitivo nasceu como religiatildeo extaacutetica e que

para se compreender a literatura antiga eacute importante levar-se em consideraccedilatildeo a pergunta

sobre a situaccedilatildeo cultural da eacutepoca e a produccedilatildeo dos textos Diante do reconhecimento de

que visotildees audiccedilotildees e revelaccedilotildees natildeo acontecem sem um quadro cultural de referecircncia

assim o exegeta deve partir da busca de possiacuteveis contribuiccedilotildees para o estudo deste quadro

cultural tendo como finalidade contribuir para a compressatildeo das experiecircncias visionaacuterias e

apocaliacutepticas tanto quanto da experiecircncia religiosa dos primeiros cristatildeos

Assim procurando situar o quadro cultural de referecircncia elencamos no trabalho

comparativo os dados apresentados por Sacchi20 permitindo a distinccedilatildeo de quatro periacuteodos

da Apocaliacuteptica

a) A primeira fase apocaliacuteptica com seu iniacutecio antes de 200 aC

b) A segunda fase apocaliacuteptica desde 200 aC a 100 aC

c) A terceira fase apocaliacuteptica desde 100 aC a 50 dC

d) A quarta fase apocaliacuteptica desde 50 dC a 120 dC

Sob a mesma linha de hipoacuteteses temos a contribuiccedilatildeo de Collins21 que por meio de

um levantamento exaustivo dos textos que puderam ser classificados como Apocalipses e

datados com qualquer plausibilidade no periacuteodo de 250 aC ndash 250 dC procurou ver ateacute

onde podiam ser considerados como membros de um mesmo gecircnero Para ele haacute uma

distinccedilatildeo entre ldquoApocalipses Histoacutericosrdquo e os ldquoApocalipses de Viagensrdquo de sorte que

considera necessaacuterio a elucidaccedilatildeo de que um apocalipse eacute ldquouma estrutura geralrdquo que

incorpora outros gecircneros literaacuterios (carta testamento paraacutebola hino oraccedilatildeo etc)

De sorte que sendo a dimensatildeo das fases da Apocaliacuteptica de grande extensatildeo e com

muitos textos produzidos se impotildee a necessidade de delimitaccedilatildeo da pesquisa e nesse

quesito contribui Machado22 ao citar um importante aspecto que deve ser levado em

consideraccedilatildeo a distinccedilatildeosimilaridade em relaccedilatildeo aos gecircneros literaacuterios que envolvem a

19 NOGUEIRA Paulo Augusto de Souza Experiecircncia Religiosa e Criacutetica Social no Cristianismo Primitivo

Satildeo Paulo ndash Paulinas 200417 20 SACCHI P Jewish Apocalyptic and its History Sheffield Academic Press England 1990110 21 Artigo Intitulado Apocalipses Judaicos - p 1-8 COLLINS John J SEMEIA 14 Apocalypse The

Morphology of a Genre The Society of Biblical Literature 1979 22 Apud SEGAL Alan F Paul The Convert The Apostolate and Apostasy of Saul The Pharisee New

HavenLondon Yale University Press 1990 p 38 ndash Life After Death A History of the Afterlife in the

Religions of the West New York Doubledy 2004410

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apocaliacuteptica e a miacutestica judaica uma vez diferentes e facilmente distinguiacuteveis mas que

relatam experiecircncias religiosas semelhantes

Os apocalipses combinam tambeacutem uma seacuterie de formas menores sendo as mais

importantes 1) Panoramas da histoacuteria em forma de futuro - o interesse dos

apocaliacutepticos volta-se em primeiro lugar para os iminentes acontecimentos

escatoloacutegicos para os horrores do tempo final e a gloacuteria do novo mundo 2)

Descriccedilatildeo do aleacutem - outro interesse consiste em dar ao leitor uma visatildeo do

mundo do aleacutem Para isso se recorre a descriccedilotildees de arrebatamentos visionaacuterios

Em um ecircxtase o visionaacuterio passa por mudanccedila de lugar e perambula por regiotildees

estranhas e misteriosas na terra e no ceacuteu (Ez 83ss) Elas oferecem a

oportunidade de transmitir conhecimentos sobre a topografia do ceacuteu e do inferno

sobre hierarquia dos anjos etc 3) Visotildees da sala do trono - ponto alto dessas

viagens seu alvo mas agraves vezes tambeacutem seu desenlace eacute a visatildeo da sala do trono

de Deus Sua descriccedilatildeo tem por objetivo mostrar sua inacessibilidade de Deus e

documentar simultaneamente a competecircncia do visionaacuterio que remonta

diretamente a Deus o qual recebe nessas audiecircncias uma missatildeo especial e ao

qual se confere um status especial (Atos 9 1011 101011 2619) As visotildees da

sala do trono formam um elo intermediaacuterio entre visatildeo de convocaccedilatildeo dos

profetas (cf Is 6 Ez 1ss) e da posterior miacutestica merkaba (carruagem divina)

judaica23

Reforccedilando as hipoacuteteses da exegese apocaliacuteptica com base nas tradiccedilotildees do

misticismo judaico Vielhauer a semelhanccedila de Collins fala da abrangecircncia e relevacircncia da

literatura apocaliacuteptica identificando que nas visotildees da sala do trono se encontram a

formaccedilatildeo de um elo intermediaacuterio entre a visatildeo de convocaccedilatildeo dos profetas e das tradiccedilotildees

do misticismo da Mercavaacuteh o que tambeacutem eacute atestado por Collins sendo fontes das quais

participam os apocaliacutepticos

1 INTRODUCcedilAtildeO AO MISTICISMO JUDAICO - ldquoANAacuteLISE DOS TEXTOS

FUNDANTESrdquo

11 ndash Isaiacuteas Cap 6 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

Machado24 em sua tese de doutorado elucida que o texto de (Isaiacuteas 61-13) pode ser

visto como pertencente agrave tradiccedilatildeo de participaccedilatildeo profeacutetica na corte celestial de anjos

ainda que a visatildeo esteja restrita ao Templo terrestre todavia estaacute situado na base do

judaiacutesmo poacutes-exiacutelico que vecirc Isaiacuteas como uacutenico ser humano que viu a Deus colocando

assim a passagem no centro da apocaliacuteptica e miacutestica judaica

23 VIELHAUER Philipp Literatura Cristatilde Primitiva - Introduccedilatildeo ao Novo Testamento aos Apoacutecrifos e aos

Pais Apostoacutelicos Ed Academia Cristatilde Satildeo Paulo 2005517 24 MACHADO Jonas Transformaccedilatildeo Miacutestica na Religiatildeo do Apoacutestolo Paulo Recepccedilatildeo do Moiseacutes

Glorificado em 2 Coriacutentios na Perspectiva da Experiecircncia Religiosa Satildeo Bernardo do Campo (Tese de

Doutorado) - UMESP 2007107

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O texto de Isaiacuteas em sua narrativa apresenta uma visatildeo da sala do trono de Deus a

partir do santuaacuterio terrestre local geograacutefico onde Isaiacuteas se encontra Um estudo dos

termos hebraicos utilizados no texto permitem entender claramente a visatildeo que o profeta

viu

Com base no verso 1 a experiecircncia do profeta se concentra numa visatildeo (האראו -

varingereumleh) o termo hebraico aqui utilizado traz o sentido natildeo apenas de ver mas de temer

honrar respeitar diante do impacto e da grandeza da visatildeo

O termo hebraico (שי yoshev ldquosentadordquo) tem o significado de sentar morar habitar ndash ב

viver residir permanecer ficar

Trono alto e elevado

Temos aqui o termo (סא para (al ndash לע) kise) usado para a palavra Trono e ndash א

elevado

margem borda referindo-se a borda do manto (veumlshularingyv ndash השלעבה)

במ) meumlleym) encher completar ndash םעא

Evidenciamos que Isaiacuteas no verso 1 usa o termo (וובהע - haheykharingl) para o

Templo e que este tambeacutem pode ser traduzido por ldquoPalaacutecio ou Assembleiardquo com efeito

seu uso aqui levantou a hipoacutetese da concepccedilatildeo de que Isaiacuteas era um integrante da ldquocorte

celestialrdquo ou ldquoassembleia dos deusesrdquo O fato de o Trono estar no ldquoalto ou elevadordquo junto

ao termo (וובהע - haheykharingl - Palaacutecio) nos permite entender que a visatildeo de Isaiacuteas parece

se referir a uma visatildeo da sala do Trono no Templo ldquoPalaacuteciordquo Celestial Assim temos a

visatildeo do Templo Celestial a partir do Templo Terrestre sendo portanto uma visatildeo do

Templo Celestial isenta de uma ascensatildeo ao mesmo

Essa hipoacutetese eacute corroborada quando tambeacutem notamos que no verso 4 ao se

mencionar que o Templo se encheu de fumaccedila se usa outro termo ou seja (ו ndash הובב

veumlhabayt ldquoe a casardquo) para se referir ao mesmo

Deste modo o texto do profeta Isaiacuteas nas tradiccedilotildees do judaiacutesmo antigo tem sua

leitura no hebraico justaposta as experiecircncias da sala do trono de Deus sendo um

documento preservado e achado plenamente conservado em Qumran a preservaccedilatildeo do

רמraringm

סא אkise

לעal

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documento tem levado muitos pesquisadores a considerar a tradiccedilatildeo do profeta Isaiacuteas como

uma importante hipoacutetese dos elos das tradiccedilotildees do judaiacutesmo enoquita

12 ndash Ezequiel Cap 1 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

Apoacutes uma breve introduccedilatildeo em busca das origens da Apocaliacuteptica e seus possiacuteveis

elos histoacutericos enquanto tradiccedilotildees de judaiacutesmos e suas praacuteticas lituacutergicas literatura e

movimento social demonstrando a existecircncia de contextos e ambiente histoacuterico nos quais

podemos inserir a pesquisa e a produccedilatildeo exegeacutetica a proposta agora eacute a de apresentar

meacutetodos que auxiliem no processo da exegese

Como porta de entrada citamos a tese de doutorado de Machado25 que indica o

texto de (Isaiacuteas 61-13) como podendo pertencente agrave tradiccedilatildeo de participaccedilatildeo profeacutetica na

corte celestial de anjos ainda que a visatildeo esteja restrita ao Templo terrestre todavia estaacute

situado na base do judaiacutesmo poacutes-exiacutelico que vecirc Isaiacuteas como uacutenico ser humano que viu a

Deus colocando assim a passagem no centro da apocaliacuteptica e miacutestica judaica

Portanto a proposta de antematildeo preacute-estabelecida para exegese eacute a de um olhar dos

aspectos literaacuterios com base naquilo que haacute ldquocomumsimilardiferente26rdquo nos textos A isso

somamos levamos as noccedilotildees do meacutetodo exegeacutetico de W Egger27 que abrange forma e

gecircnero respectivamente como ldquoa configuraccedilatildeo individual de um texto particular e por

classe de textogecircnero o que vaacuterios textos possuem em comumrdquo

Assim temos como pressuposto que um texto pertencente a um mesmo gecircnero

quando assinalado pelos seguintes aspectos

a) Revelam uma estrutura linguiacutestico-sintaacutetica semelhante

b) Possuem uma estrutura semacircntica e narrativa anaacuteloga

c) Tem uma intenccedilatildeo parecida em relaccedilatildeo ao efeito que pretendem produzir

d) Mostram uma situaccedilatildeo vital semelhante o entorno social e comunicativo eacute

semelhante

Portanto para conduccedilatildeo de uma exegese estes olhares analiacuteticos satildeo singulares

procurando manter um processo da que evidencie a participaccedilatildeo ou proximidade de

25 MACHADO Jonas Transformaccedilatildeo Miacutestica na Religiatildeo do Apoacutestolo Paulo Recepccedilatildeo do Moiseacutes

Glorificado em 2 Coriacutentios na Perspectiva da Experiecircncia Religiosa Satildeo Bernardo do Campo (Tese de

Doutorado) - UMESP 2007107 26 MARGUERAT Daniel amp BOURQUIN Yvan Para Ler as Narrativas Biacuteblicas Iniciaccedilatildeo agrave Anaacutelise

Narrativa 200913-16 27 EGGER Wilhelm Lecturas Del Nuevo Testamento Verbo Divino Navarra 1990304

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tradiccedilotildees apocaliacutepticas permitindo acessar os aspectos que possam ligar as tradiccedilotildees a

viabilizar a interpretaccedilatildeo do texto

Assim temos a contribuiccedilatildeo de Evans28 que resume o comentaacuterio em concordacircncia

com os autores ateacute aqui mencionados justapondo que os elementos baacutesicos do misticismo

judaico ldquoTrono-Carruagemrdquo encontrados na visatildeo biacuteblica do Trono em Ezequiel corrobora

com os paradigmas formando os elos das tradiccedilotildees apocaliacutepticas sendo a visatildeo do

chamado profeacutetico de Ezequiel junto ao rio Quebar um modelo de judaiacutesmo miacutestico uma

vez que o sacerdote Ezequiel traz a identidade de um sacerdote que natildeo aceita e natildeo

convive amigavelmente com o templo uma vez que o templo estaacute profanado pela idolatria

e poliacutetica religiosas (Ezequiel 11-28)

O texto nos daacute uma extensa e enigmaacutetica imagem do que ficou conhecido como

Mercavaacuteh orraC) ם ר ה י ו-Trono) aparentemente uma espeacutecie de Trono real sobre rodas

(cf Dn 79) com vento tempestuoso e uma nuvem de fogo que se aproxima a partir do

norte (v 4)

Ezequiel comeccedila a visatildeo que se desdobra com uma descriccedilatildeo de quatro imagens

enigmaacuteticas (והבח - as hayot - seres viventes) cada um com quatro faces (homem leatildeo boi

e aacuteguia) quatro asas e quatro rodas (5-21) acima de suas cabeccedilas se encontra uma

plataforma como o cristal (vv 22-25) e por cima da plataforma esta assentado um

pesonagem uma manifestaccedilatildeo antropomoacuterfica de Deus em um Trono de pedra como

safira descrito com ldquoo aspecto da semelhanccedila da gloacuteria do Senhorrdquo (vv 26-28)

Ezequiel aparece como um dos parametros miacutesticos de sonsideravel relevacircncia

para a comunidade de Qumran e seus pergaminhos fornecerem algumas das primeiras

evidecircncias de que o Trono na sua visatildeo foi chamado de Merkavaacuteh Segundo o fragmento

(4Q38529) o que os estudiosos tecircm apelidado ldquoSegundo Ezequielrdquo a visatildeo que

Ezequiel viu foi agrave divina Mercavaacuteh ( ו י ה ר ם ) juntamente com os ldquoquatro seres

viventesrdquo (4 5-6)

Os Manuscritos do Mar Morto tecircm muito a dizer sobre o Trono da divina

carruagem com efeito um dos maiores objetivos da Comunidade de Qumran parece ter

sido a participaccedilatildeo na liturgia celeste angelical e ver o grande Trono-Carruagem de Deus

entrar no Templo celeste

28 EVANS Craig A and FLINT Peter W Eschatology Messianism and the Dead Sea Scrolls Edited by

Wm Β Eerdmans Publishing Co1997102-103 29 Conhecido como 4QPseudo-Ezequiel eacute citado em fontes mais antigas como 4QSecond Ezequiel Pseudo-

Ezequiel Trata-se de um texto hebraico fragmentaacuterio e pseudopigraacutefico encontrado na Caverna 4 em

Qumran e portanto pertence ao conjunto de manuscritos popularmente conhecidos como Manuscritos do

Mar Morto

27

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Para Evans o texto achado na Caverna 4 de Qumran eacute uma composiccedilatildeo lituacutergica

preacute-cristatilde conhecida como Cacircnticos do Sacrifiacutecio Saacutebatico ou Liturgia Angeacutelica

composta por treze partes separadas uma para cada um dos treze saacutebados Os Cacircnticos

invocam o louvor angelical descrevem o sacerdoacutecio angelical e o Templo celestial e datildeo

conta do culto realizado no saacutebado no santuaacuterio celestial O 13ordm Cacircntico do saacutebado comeccedila

com uma longa descriccedilatildeo da aparecircncia e movimento do divino trono-carruagem

Considerando que a 7ordf e a 11ordf Canccedilotildees do Sabbath referem-se a uma pluralidade da

o 13ordm Cacircntico descreve a divina Merkavaacuteh o trono carruagem de gloacuteria ( ו ה י ה ר ם )

tomando emprestado enfaticamente os termos de Ezequiel 1 e 10 Estes Cacircnticos

receberam a identificaccedilatildeo (4Q400 a 4Q407) devido agrave localizaccedilatildeo da Caverna em Qumran

onde foram encontrados

13 ndash I Enoque Cap 14 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

O texto de I Enoque 148-21 apresenta vaacuterios elementos associados miacutestica da sala

do Trono A descriccedilatildeo da sala celestial do Trono (Hehaloth - Palaacutecio) o tema do rio do

fogo que procede do trono a face e o Trono de Deus em si elementos estes que satildeo

reproduzidos mais tarde em outros textos apocaliacutepticos judaicos e cristatildeos satildeo os

elementos que permancem sempre reproduzidos em outros textos da tradiccedilatildeo

(I Enoque 14 8-21) na traduccedilatildeo proposta por Alejandro Diez Macho30 que

concorda com outras traduccedilotildees que avaliamos como a de Rowland31

Entrei ateacute chegar-me ao muro construiacutedo com pedras de granizo que eacute rodeado

por uma liacutengua de fogo e comecei assustar-me Entrei na liacutengua de fogo e me

aproximei ateacute a casa construiacuteda com pedras de granizo cujo muro e pavimento

satildeo laacutepidas pedras de granizo Seu solo eacute tambeacutem de granizo Seus tetos claros

como estrelas e relacircmpagos onde estatildeo os iacutegneos querubins e seus ceacuteus satildeo

como aacutegua Havia fogo ardente ao redor das paredes e tambeacutem a porta se

abrasava em fogo Entrei nesta casa que ardia como fogo e fria como granizo

onde natildeo havia nenhum prazer ou vida e o medo tomou-me e o terror oprimiu-

me Caiacute com a face no chatildeo e tive uma visatildeo eis que havia outra casa maior

que esta a qual as portas estavam abertas diante de mim construiacutedas de liacutenguas

de fogo ndash era tudo tatildeo esplendido ilustre e grande que natildeo posso contar o

tamanho da gloacuteria e grandeza Seu solo era de fogo por cima tinham

relacircmpagos e orbitas astrais seu teto de fogo abrasador Mirei e vi em um alto

trono com um esplendor aspecto e (tinha ao seu redor) um ciacuterculo com sol

brilhante e voz de querubins Debaixo do trono saiam rios de fogo abrasador de

modo que era impossiacutevel mirar A grande Majestade estava sentada sobre o

30 Fonte DIEZ MACHO Alejandro Apoacutecrifos del Antigo Testamento Vol IV Madri Ed Cristiandad

198751 31 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 200976 77

28

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trono com uma tuacutenica mais brilhante que o sol e mais resplandecente que o

granizo de modo que nenhum dos anjos poderia entrar na casa

Como jaacute podemos obsevar eacute perfeitamente claro que o texto Enoquita possui seu

campo imaginaacuterio moldado pela estrutura semacircntica e imageacutetica dos textos de Isaiacuteas e

Ezequiel

Boccaccini32 argumenta que esses textos de I Enoque provavelmente foram escritos

por membros do sacerdoacutecio de Jerusaleacutem poreacutem tem procedecircncia por parte de um grupo

antizadoquita Um movimento sacerdotal dissidente ativo em Israel no fim do periacuteodo

persa e iniacutecio do helecircnico no IV seacuteculo aC Para Boccaccini esse movimento enoquita era

um grupo de oposiccedilatildeo entre a elite do Templo e natildeo um simples grupo de separatistas No

entanto o centro do judaiacutesmo enoquita natildeo era a Toragraveh nem o Templo Os dois grupos

(zadoquita e enoquita) interpretavam Ezequiel diferentemente e tinham ideias

completamente contrastantes Ateacute cerca de 200 aC enoquismo e zadoquismo eram duas

distintas e paralelas linhas de pensamentos no judaiacutesmo

14 - Daniel (79-14) e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

O livro do profeta Daniel tambeacutem marca sua presenccedila em Qumran atualmente se

entende que sua composiccedilatildeo aconteceu alguns anos depois de I Enoque e as conclusotildees de

muitos pesquisadores como Collins33 Rowland34 Martiacutenez35 entre outros eacute de que Daniel

possui relaccedilotildees intimas e demonstra ter recebido influecircncia da literatura enoquita

9 Eu continuava olhando uns tronos foram instalados e um Anciatildeo se assentou

vestido de veste branca como a neve cabelos claros como a latilde O seu trono era

como labaredas de fogo com rodas de fogo em brasa 10 Um rio de fogo brotava

da frente dele Milhares e milhares o serviam e milhotildees estavam agraves suas ordens

Comeccedilou a sessatildeo e os livros foram abertos 11 Eu continuava olhando atraiacutedo

pelos insultos que aquele chifre gritava vi que mataram a fera fazendo-a em

pedaccedilos e jogando-a no fogo 12 Quanto agraves outras feras o poder delas foi tirado

mas foi-lhes dado um prolongamento de vida ateacute um tempo determinado 13 Em

imagens noturnas tive esta visatildeo entre as nuvens do ceacuteu vinha algueacutem como um

filho de homem Chegou ateacute perto do Anciatildeo e foi levado agrave sua presenccedila 14 Foi-

lhe dado poder gloacuteria e reino e todos os povos naccedilotildees e liacutenguas o serviram O

32 BOCCACCINI Gabriele Beyond the Essene Hypothesis The Parting of the Ways between Qumran and

Enochic Judaism Grand Rapids W B Eerdmans 199848 76 78 33 COLLINS John J A Imaginaccedilatildeo Apocaliacuteptica ndash Uma Introduccedilatildeo Literaacuteria a Apocaliacuteptica Judaica Satildeo

Paulo ndash Paulus 2010 34 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 2009 35 MARTIacuteNEZ Florentino Gaacutercia Qumran and Apocalyptic Studies on the Aramaic Texts from Qumran

New York EJ Brill 1994

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seu poder eacute um poder eterno que nunca lhe seraacute tirado E o seu reino eacute tal que

jamais seraacute destruiacutedo

Segundo Evans36 um total de oito manuscritos do livro de Daniel foi descoberto em

Qumran nenhum veio agrave luz ateacute agora em outros locais no deserto da Judeacuteia

Dois dos manuscritos de Daniel foram descobertos na Gruta 1 cinco na Gruta 4 e

um (Escrito em papiro) em Gruta 6 Com base na anaacutelise Paleacuteografica noacutes podemos saber

que quatro foram copiados no periacuteodo dos Hasmoneus (lQDanᵇ 4QDanordf 4QDan

4QDan e quatro no periacuteodo de Herodes (lQDanordf 4QDanᵇ 4QDan pap6QDan) Por causa

dos estragos do tempo dos elementos nenhum desses achados preserva uma coacutepia

completa do livro de Daniel No entanto entre eles pocircde-se preservar uma quantidade

substancial destes

Evans considera que os graacuteficos fazem a indicaccedilatildeo da autoridade da tradiccedilatildeo de

Daniel em Qumran e deixa claro o manuseio dos textos por parte da comunidade isto

fundamenta a forccedila da tradiccedilatildeo e do pensamento apocaliacuteptico em Qumran ainda que o

Livro de Daniel natildeo seja considerado um apocalipse em si mesmo mas caracterizado pelo

seu sentido profeacutetico

Assim as pesquisas apontam com precisatildeo que os textos de Isaiacuteas Ezequiel Daniel

e I Enoque perpassaram a comunidade de Qumran e a presenccedila de os seus conteuacutedos

linguiacutesticos e imageacuteticos aparecem nos cacircnticos do Sacrifiacutecio Sabaacutetico sendo que as

liturgias em Qumran fazem declaraccedilotildees das tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do

segundo templo e nestes cacircnticos os sacerdotes se sentiam participantes do culto junto aos

anjos na sala do trono de Deus esta liturgia reflete um afastamento do templo terreno e a

busca do templo celestial gerando a hipoacutetese que inuacutemeros pesquisadores acreditam

validar o tipo de experiecircncia religiosa de um judaiacutesmo dissidente cuja origens estaacute no

periacuteodo do segundo templo Portanto ateacute aqui podemos apreciar um relato histoacuterico das

fontes literaacuterias e seus conteuacutedos imageacuteticos o que permite ver o Apocalipse de Joatildeo como

um texto que traz consigo conteuacutedos narrativos e imagens das tradiccedilotildees do misticismo da

Mercavaacuteh

36 EVANS Craig A and FLINT Peter W Eschatology Messianism and the Dead Sea Scrolls Edited by

Wm Β Eerdmans Publishing Co 199741-43

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2 Apocalipse 51-14 ndash O Cacircntico Cerimonial da Celebraccedilatildeo do Sacerdoacutecio Universal

de Jesus agrave Luz das Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico - Uma Exegese Contemporacircnea

A pesquisa das tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do segundo templo

apoacutes as descoberta dos manuscritos de Qumran em 1947 revolucionaram portanto a

exegese do Novo Testamento acerca disto concordam os argumentos de Rowland37

aferindo que havia uma lacuna importante nos estudos da cristologia do Novo Testamento

e que as pesquisas da exegese avanccedilaram na busca tanto do cenaacuterio e ambiente das

experiecircncias religiosas nos tempos de Jesus bem como das crenccedilas em uma figura

angelical exaltada no judaiacutesmo apocaliacuteptico

Seus apontamentos em primeiro lugar nos permitiram ver certos desenvolvimentos

no pensamento rabiacutenico sob uma nova luz e em segundo lugar do ponto de vista da

Exegese do Novo Testamento se ilustra um aspecto negligenciado sobre o

desenvolvimento doutrinaacuterio judaico e que natildeo tinha recebido suficiente atenccedilatildeo no estudo

da Cristologia do Novo Testamento

A anaacutelise do material sobre o mundo celestial produz consideraccedilotildees que nos

permitem ver as perspectivas distintivas da apocaliacuteptica como tambeacutem o modo pelo qual

o visionaacuterio justo entrava em contato com Deus Desta forma percebemos a infiltraccedilatildeo dos

padrotildees de pensamento da comunidade de Qumran na cristologia do Novo Testamento

A partir das consideraccedilotildees preliminares desta pesquisa e suas indicaccedilotildees a anaacutelise

da cerimocircnia da entronizaccedilatildeo de Jesus se estabelece sob os criteacuterios da oacutetica propiciada nos

termos das tradiccedilotildees do misticismo judaico com suas raiacutezes no periacuteodo do segundo templo

Como visto os textos considerados fundantes junto a cacircnticos e documentos da nos remete

a antiguidade da tradiccedilatildeo miacutescitca de modo que a hipoacutetese sustentanda nesta linha de

peesquisa eacute a de que Joatildeo participou ativamente de uma corrente literaacuteria com antecedentes

expressivos nos documentos de Qumran presente nas tradiccedilotildees do misticismo judaico e

apocaliacuteptico no periacuteodo do Segundo Templo e tambeacutem encontradas em Qumran

Assim de antematildeo podemos considerar em Apocalipse 5 evidencia aspectos das tradiccedilotildees

miacutesticas da sala do trono

Contudo os criteacuterios morfoloacutegicos adotados por Deutsch38 proposcinaram melhor

clareza para discernir as tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do segundo templo

onde os atributos angelomoacuterficos e posteriormente a elaboraccedilatildeo de uma ldquocristologia-

37 ROWLAND Christopher The Open Heaven - A Study of Apocalyptic in Judaism and Early Christianity

First published 198277 e 113 38 DEUTSCH Nathaniel The Guardians of the gates Angeuc Vice Regency In Late Antiquity Brill Leiden -

Boston - Koln 1999 ndash (Introduccedilatildeo)

31

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angelomoacuterficardquo se estabeleceu e apresentou as imagens de forma sitematizada produzindo

compreensatildeo acerca das funccedilotildees sacerdotais junto ao trono de Deus a saber (1) Funccedilatildeo

Demiuacutergica satildeo atribuiacutedas funccedilotildees na Criaccedilatildeo ao vice-regente angelomoacuterfico neste caso

se levarmos em conta (Ap 314) como parte contextual correspondente ao texto de (411)

Jesus eacute claramente interpretado por Joatildeo nesta linha de raciociacutenio Portanto participa como

agente de Deus na confecccedilatildeo do universo (2) Guardiatildeo do Portal Cabe ao vice-regente

permitir ou natildeo a entrada de seres humanos e ou celestiais agrave presenccedila imediata de Deus o

que pode ser tambeacutem acolhido em nossa leitura de Ap 5 porquanto neste Jesus por assim

dizer funciona como uma porta de acesso tanto a abertura dos selos como pelo seu

sacrificio pascoal abre o caminho para que todos tenham livre acesso ao Trono Deus uma

vez que por meio do seu sangue ldquoos fizeste reis e sacerdotesrdquo (3) O vice-regente

angelomoacuterfico exerce governo sobre os seres humanos e ou seres angeacutelicos todos

reconhecem sua dignidade e se submentem a seu comando o que eacute perfeitamente tambeacutem

concebiacutevel no texto em questatildeo

Embora natildeo possa ser dito que seja um traccedilo tiacutepico de todos os apocalipses em

estudo contudo parece haver evidecircncias de que uma angelologia tenha

produzido uma figura de status consideraacutevel cuja posiccedilatildeo na hierarquia celestial

colocou-o aparte do resto dos anjos () Embora poucos detalhes existam acerca

dessas angelofanias parece que havia um ser angeacutelico que em algum sentido era

considerado comunicando a aparecircncia de Deus mesmo e que agraves vezes aparecia

em forma humana (Gecircnesis 182) () O que a maioria das discussotildees modernas

da cristologia primitiva falha eacute em natildeo incluir a extensatildeo da influecircncia de uma

cristologia angeacutelica sobre a doutrina cristatilde primitiva Natildeo eacute apenas uma questatildeo

aiacute da rejeiccedilatildeo de uma cristologia angeacutelica como um fator no desenvolvimento

cristoloacutegico haacute quase total ausecircncia de tal toacutepico39

Sob esta oacutetica encontramos no proacuteprio Apocalipse uma alusatildeo pela qual podemos

concluir que tanto a imagem como os atributos angelomoacuterficos natildeo estavam restritos a um

uacutenico personagem poreacutem percebemos distinccedilotildees no uso dos termos gregos para descrevecirc-

los No texto de (Ap 115 16) Jesus eacute representado com ldquoκαὶ οἱ πόδες αὐτοῦ ὅμοιοι

χαλκολιβάνῳ ὡς ἐν καμίνῳ - os peacutes dele semelhantes a bronze (polido) como em fornalha

ardente ἡ ὄψις αὐτοῦ ὡς ὁ ἥλιος φαίνει ἐν τῇ δυνάμει αὐτοῦ - e a aparecircncia do rosto dele

como o sol brilha em o poder delerdquo

No entanto em (Ap 101) encontramos a descriccedilatildeo feita para o anjo forte que

descia do ceacuteu ldquoκαὶ τὸ πρόσωπον αὐτοῦ ὡς ὁ ἥλιος καὶ οἱ πόδες αὐτοῦ ὡς στῦλοι πυρός ndash e

o rosto dele como o sol e os peacutes dele como colunas de fogordquo

39 Apud CARDOSO Joseacute Roberto Correcirca Cristologia Angelomoacuterfica de Hebreus Estudo Soacutecio-Retoacuterico e

Histoacuteria das Religiotildees Comparadas em Hebreus 11-14 25-18 71-10 Satildeo Paulo Tese de Doutorado ndash

UMESP 200515

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O que podemos aferir eacute que se trata de niacuteveis de ldquoangelomorfiardquo com intensidades

diversificadas sendo as de Jesus norteadas por aspectos mais intensos de brilho

Gieshen40 apresentou uma excelente contribuiccedilatildeo em sua anaacutelise da Angelologia

judaica para a Cristologia do cristianismo das origens segundo ele o ponto de partida natildeo

deveria ser primariamente as paacuteginas do Novo Testamento e do Judaiacutesmo mas as tradiccedilotildees

angelomoacuterficas presente na miacutestica judaica preacute-cristatildes sendo provenientes da angelologia

judaica As hipoacuteteses assim levaram a compreensatildeo de ldquoAntecedentsrdquo trazendo a luz um

estudo abrangente das figuras hipostaacuteticas do Antigo Testamento e do Judaiacutesmo do

Segundo Templo buscando compreender a angelologia e os seres humanos

angelomoacuterficos presentes na literatura miacutestica do judaiacutesmo do segundo templo

Assim ficou perceptiacutevel a inter-relaccedilatildeo das vaacuterias tradiccedilotildees judaicas a respeito dos

mediadores celestes

Outro estudioso do tema Hannah41difere Gieshen na terminologia Enquanto este

utilizou o termo ldquoCristologia-Angelomoacuterficardquo de modo abrangente Hannah se utiliza de

quatro termos objetivando uma maior especificidade ldquoAngelo-Cristologiardquo para delimitar

as Cristologias influenciadas por ideias angeloloacutegicas ldquoCristologia-Angeacutelicardquo para definir

Cristo como ser angeacutelico ldquoCristologia-Angelomoacuterficardquo para se referir apenas as imagens

visuais de Cristo e ldquoCristologia Angeacutelico-Teofacircnicardquo aplicado agrave identificaccedilatildeo patriacutestica de

Cristo com o Anjo do Senhor no Antigo Testamento

Podemos retornar agraves consideraccedilotildees de Himmelfarb42 que fala dos apocalipses

com transformaccedilotildees de homens em anjos pertencentes a uma vertente de

um corpo grande e diversificado de literatura Especialmente porque trata os patriarcas

biacuteblicos e que Moiseacutes em certo sentido tambeacutem eacute visto como divino

A literatura proveacutem tanto do Egito como da Palestina e inclui obras que vatildeo desde

Philo e Ezequiel o Tragedista ao Testamento de Moiseacutes e passagens rabiacutenicas As

semelhanccedilas estruturais da literatura os papeacuteis de mediaccedilatildeo satildeo claros e demonstram

diferentes tipos de seres

40 GIESCHEN Charles A Angelomorphic Cristology Antecedents and Early Evidence Leiden E J Brill

199805 41 HANNAH Darrel D Of Cherubin and the Divine Throne Rev 56 in Context New Testament Studies 49

2003528-542 42 HIMMELFARB Martha Ascent to Heaven in Jewish and Christian Apocalypses New York Oxford

University Press 199347 48

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Encontramos nos textos que aferimos em nossa leitura a menccedilatildeo ldquoAngelomoacuterfica-

Antropomoacuterfica43rdquo da ldquoGloacuteria de Javeacuterdquo no livro de Ezequiel Por meio deste termo

podemos compreender a dimensatildeo e fusatildeo entre o humano e o divino no Trono de Deus

Unindo esta perspectiva agrave imagem da entronizaccedilatildeo e exaltaccedilatildeo e vice-regecircncia do

ldquoFilho do Homemrdquo em (Dn 713) junto a outras tradiccedilotildees como a de Enoque temos o

campo imageacutetico que nos permite entender como a figura de Jesus no Apocalipse 5 chega

ao Trono de Deus

Apoacutes esta breve consideraccedilatildeo do desenvovimento das tradiccedilotildees do misticismo

judaico e as origens do que se intitula ldquocristologia-angelomoacuterficardquo chegamos a um

complexo das tradiccedilotildees do misticismo judaico e apocaliacuteptico assim este artigo permite a

elaboraccedilatildeo do cenaacuterio exegeacutetico do cerimonial da entronizaccedilatildeo do sacerdoacutecio universal de

Jesus junto ao Trono de Deus

O texto faz alusatildeo agrave continuidade narrativa do capiacutetulo 4 Trata-se natildeo somente do

Trono de Deus e de uma liturgia mas a composiccedilatildeo dos 24 anciatildeos permanece na hipoacutetese

de uma corte celestial reunida na ldquosala do Trono de Deusrdquo

A funccedilatildeo na narrativa do (capiacutetulo 5) eacute ampliada Enquanto no (capiacutetulo 4) os

anciatildeos apenas se prostram e adoram logo notamos que no cap 5 um dos anciatildeos eacute

destacado por um pronunciamento no qual apresenta o Cordeiro como ldquoleatildeo da tribo de

Judaacute raiz de Davi e como aquele que venceurdquo

O texto segue o padratildeo narrativo que encontramos em (Dn 7 9-14) onde um como

ldquofilho do homemrdquo eacute entronizado e recebe autoridade para exercer o papel de um vice-

regente As imagens em Daniel tambeacutem nos permitem visualizar uma ldquoSala onde Tronos

satildeo colocadosrdquo ou um tipo de cenaacuterio preparado como um local apropriado para um rito

cerimonial de transferecircncia de poder

Portanto as configuraccedilotildees temaacuteticas satildeo proacuteximas embora tenhamos que respeitar

o desfecho de cada cenaacuterio e seu contexto histoacuterico- literaacuterio

Assim tambeacutem percebemos o tema da ldquodignidaderdquo do filho do homem em (Dn 7

9-14) Lembrando que (Apocalipse 411) exalta a Deus e sua diginidade por meio dos

anciatildeos e o capiacutetulo 5 do Apocalipse retoma o tema da ldquodignidaderdquo do Cordeiro Assim

prosseguimos com a divisatildeo proposta e interpretaccedilatildeo do texto

a) v1 ndash Abertura da Cena (e vi) - Visatildeo do Trono e do Livro

43 Natildeo localizei o termo ldquoAngelomoacuterfica-Antropomoacuterficardquo em minhas leituras mas o estabeleci aqui como

meio para interpretar a passagem biacuteblica supracitada

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b) v2 e 3 ndash A Dignidade do Cordeiro

c) v4 e 5 ndash Desespero do Vidente A Proclamaccedilatildeo do Anciatildeo ndash ldquoO Reconhecimento

da Dignidade do Cordeirordquo

d) v6 e 7 ndash O Cordeiro recebe o livro ndash A Vitoacuteria do Cordeiro

e) v8-14 ndash Celebraccedilatildeo ao Cordeiro ldquoSacerdoacutecio e Realeza do Cordeirordquo - por parte

dos seres Viventes e dos Anciatildeos por parte de ldquouma voz de anjosrdquo toda a Criaccedilatildeo

21 - O Misticismo Judaico e Apocaliacuteptico em (Apocalipse 51-14)

a) v1 ndash Abertura da Cena (e vi) - Visatildeo do Trono e do Livro

Natildeo podemos deixar de considerarmos aqui os apontamentos de Holtz44 que

encontra em Apocalipse 5 uma referecircncia a um antigo ritual egiacutepcio de entronizaccedilatildeo com

trecircs estaacutegios o qual alega ter as formas e a estrutura baacutesica para a narrativa

Com base nestes rituais de entronizaccedilatildeo propotildees a divisatildeo baacutesica de trecircs etapas

1) Elevaccedilatildeo

2) Apresentaccedilatildeo

3) Entronizaccedilatildeo

Aune apresenta uma contra argumentaccedilatildeo de Roloff que concorda que haacute uma

entronizaccedilatildeo com ritual de trecircs estaacutegios dos reis orientais refletidos em Apocalipse 5

poreacutem julga que ele natildeo revela as fontes das quais eacute dependente Sua leitura revecirc as

categorias de uma forma surpreendentemente arbitraacuteria (invertendo a segunda e terceira

etapas e redefinindo-as) aparentemente sua intenccedilatildeo foi ldquoencaixarrdquo melhor os trecircs estaacutegios

para ver os eventos narrados em Apocalipse 5 Assim propondo a seguinte divisatildeo

1) Exaltaccedilatildeo a descriccedilatildeo dos eventos de exaltaccedilatildeo do discurso do anciatildeo (v5)

2) Atribuiccedilatildeo de poder dominante ao receber o ldquorololivrordquo (vv6 e 7) e

3) Apresentaccedilatildeo do governante Homenagem ao sacrifiacutecio pago pelo Cordeiro em

favor dos habitantes do mundo celestial (vv8-14)

44 Apud AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978333

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Contudo Aune menciona que esta proposta com diferentes formas na entronizaccedilatildeo

do Cordeiro apresentado por Jeremias Holtz e Roloff eacute extremamente vulneraacutevel a criacuteticas

em vaacuterias frentes

Em primeiro lugar tanto Jeremias e Holtz afirmam que esse padratildeo de trecircs estaacutegios

eacute encontrado em outros textos cristatildeos que refletem a entronizaccedilatildeo de Cristo (Mt 28 18-

20 Fl 2 9-11 I Tm 316 Hb 1 5-14) no entanto natildeo eacute nem uacutetil nem convincente pois

haacute grandes diferenccedilas entre estes textos e os hinos (particularmente Fl 2 5-11 I Tm 3 16)

e Ap 51-14 Ainda sim estudiosos que analisaram os hinos compreendem que natildeo se

encontra nestes o esquema ldquoExaltaccedilatildeo-Apresentaccedilatildeo-Entronizaccedilatildeordquo considerado uacutetil e

esclarecedor

Outras eruditos sugestionam outras possibilidades e propostas sobre a possiacutevel

relaccedilatildeo da estrutura do Apocalipse 5 com contextos e ambientes diversos dentre eles estaacute

a relaccedilatildeo com as duas cerimocircnias de entronizaccedilatildeo no Antigo Testamento configuradas do

Antigo Israel citadas por R de Vaux (I Rs 1 32-48 e II Rs 11 12-20) que se utilizando

das duas sintetiza uma estrutura de 5 partes (1) Investidura da insiacutegnia real (2) a unccedilatildeo

(3) a aclamaccedilatildeo (4) a entronizaccedilatildeo (5) a homenagem Contudo o ritual de unccedilatildeo natildeo eacute

encontrado em Apocalipse 5 o que distacircncia o texto deste paradigma A discussatildeo

permanece no campo das hipoacuteteses em meio haacute uma divesidade de opiniotildees sobre a

estrutura da narrativa e suas origens

Assim fundamentados pela pesquisa permanecemos com a seguinte divisatildeo e

interpretaccedilatildeo concluiacutemos aacute luz da pesquisa de que Joatildeo possui relaccedilotildees em sua literatura

com as tradiccedilotildees de Isaiacuteas e I Enoque que descreve a ldquoSala ndash Palaacuteciordquo onde se encontra o

Trono de Deus Sendo que suas narrativas tambeacutem agregam aspectos dos ldquoseres viventesrdquo

que estatildeo tanto no Trono quando imoacutevel quanto na ocasiatildeo em que se move por meio da

Carruagem

Assim nossa compreensatildeo eacute a de que Joatildeo entende ser a ldquoSalado Tronordquo o

ambiente legiacutetimo onde as cemimocircnias lituacutergicas devem acontecer sendo ambos os textos

tanto Apocalipse capiacutetulo 4 quanto o capiacutetulo 5 cenaacuterios narrativos de cerimocircniais

realizados na ldquoSala do Tronordquo

b) v2 e 3 ndash A Dignidade do Cordeiro

Portanto a ecircnfase da narrativa em (Ap 5) eacute a ldquoDignidade (ἄξιος ndash digno) do

Cordeirordquo que ganha intensidade diante do contraste com a declaraccedilatildeo que apresenta o

ldquoanjordquo na configuraccedilatildeo de ldquoum anjo forterdquo

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1 καὶ εἶδον ἄγγελον ἰσχυρὸν ndash e vi em anjo forte

Do verso 1 ao 5 podemos contemplar um primeiro movimento do texto e da

experiecircncia visionaacuteria

Todo cenaacuterio eacute no Trono e ao redor do livro escrito e selado

1 Καὶ εἶδον ἐπὶ τὴν δεξιὰν τοῦ καθημένου ἐπὶ τοῦ θρόνου βιβλίον γεγραμμένον

ἔσωθεν καὶ ὄπισθεν κατεσφραγισμένον σφραγῖσιν ἑπτά

1 livro tendo sido escrito por dentro e por fora tendo sido selado por selos sete

1 Diante do trono um livro escrito por dentro e por fora selado com sete selos

2 καὶ εἶδον ἄγγελον ἰσχυρὸν κηρύσσοντα ἐν φωνῇ μεγάλῃmiddot τίς ἄξιος ἀνοῖξαι τὸ

βιβλίον καὶ λῦσαι τὰς σφραγῖδας αὐτοῦ

2 E vi anjo forte proclamando em voz grande quem digno eacute de abrir o livro e

soltar os selos dele

Quem eacute digno de abrir o livro e desatar os sete selos

3 καὶ οὐδεὶς ἐδύνατο ἐν τῷ οὐρανῷ οὐδὲ ἐπὶ τῆς γῆς οὐδὲ ὑποκάτω τῆς γῆς ἀνοῖξαι

τὸ βιβλίον οὔτε βλέπειν αὐτό

3 E ningueacutem podia em o ceacuteu nem sobre a terra nem debaixo da terra abrir o livro

nem olhar ele

Wikenhauser45 comenta que era costume na eacutepoca adotar-se um tipo de livro atado

por uma cinta este por sua vez era assegurado por meio de selos Parece estar contido em

conformidade com os aspectos dos documentos gregos os quais tinham por costume ainda

que natildeo obrigatoriamente colocar sete selos um por quem o expedia e os outros seis pelas

testemunhas O rolo aqui citado possui semelhanccedilas com o de (Ez 2 9ss)

ldquoEntatildeo vi e eis que uma matildeo se estendia para mim e eis que nela havia um rolo

de livro E estendeu-o diante de mim e ele estava escrito por dentro e por fora e nele

estavam escritas lamentaccedilotildees e suspiros e aisrdquo

45 WIKENHAUSER Alfred El Apocalipsis de San Juan Comentaacuterio de Rtisbona Al Nuevo Testament

Editorial Herder ndash Barcelona 196988 89

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Temos imprescindivelmente mais uma vez a comprovaccedilatildeo de que o autor participa

ativamente dos aspectos do mundo heleniacutestico a sua volta como tem sua inspiraccedilatildeo nas

tradiccedilotildees da Mercavaacuteh no periacuteodo do Segundo Templo Percebemos a presenccedila de uma

cultura subjacente de siacutembolos judaicos e heleniacutesticos que estatildeo em diaacutelogo

O clima eacute de expectativa ndash ningueacutem eacute digno ldquono ceacuteu na terra e sob a terrardquo o que

promove no texto uma afliccedilatildeo e ao mesmo tempo uma grande expectativa

Segundo Robins46 a menccedilatildeo tripartida ldquoceacuteu terra e sob ou debaixo da terrardquo se

encontra inserida no mundo antigo e carrega a compreensatildeo da presenccedila de Divindades

como parte do universo criado abrangendo o (1) reino celestial (2) no Egito ou mais

genericamente a terra (3) e o submundo A primeira e a terceira regiotildees eram habitadas

por divindades (e mortos) e a segunda era o reino dos vivos Considerava-se que os seres

humanos interagiam com divindades procurando persuadi-los a criar renovar e manter a

universo esses seres tinham que ser trazidos para a Terra

Rudolf Bultmann dentre outros eruditos atestam que este era o modo de pensar o

universo no mundo antigo portanto delimitada dentro de uma estrutura de 3 andares

O que tambeacutem nos permite aproximar a questatildeo das possiacuteveis influecircncias dos ritos

cerimoniais de entronizaccedilatildeo procedentes do Egito e manter as hipoacuteteses em aberto

Se o universo assim era compreendido e os deuses concebidos como habitantes

destas esferas somos remetidos a um tipo de proclamaccedilatildeo durante a cerimocircnia que

anunciava diante dos deuses a supremacia e ou por assim dizer a ldquodignidaderdquo do

Cordeiro

c) v4 e 5 ndash Desespero do Vidente A Proclamaccedilatildeo do Anciatildeo ndash ldquoO Reconhecimento

da Dignidade do Cordeirordquo

Eu chorava muito

4 καὶ ἔκλαιον πολύ ὅτι οὐδεὶς ἄξιος εὑρέθη ἀνοῖξαι τὸ βιβλίον οὔτε βλέπειν αὐτό 5

καὶ εἷς ἐκ τῶν πρεσβυτέρων λέγει μοιmiddot μὴ κλαῖε ἰδοὺ ἐνίκησεν ὁ λέων ὁ ἐκ τῆς φυλῆς Ἰούδα

ἡ ῥίζα Δαυίδ ἀνοῖξαι τὸ βιβλίον καὶ τὰς ἑπτὰ σφραγῖδας αὐτοῦ

46 Apud SCHMIDT Brian B Cult Image and Divine Representation in the ancient Near East edited by

Neal H Walls American Schools of Oriental Research Books Series nordm 10 Boston MA 200502

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4 E eu chorava muito porque ningueacutem digno foi achado de abrir o livro nem de

olhar para ele 5 E um de os anciatildeos diz a mim natildeo chores eis que venceu o leatildeo o de a

tribo de Judaacute a raiz de Davi o que abre o livro e os sete selos dele

A narrativa eacute dramatizada pelo visionaacuterio Joatildeo que chora copiosamente sendo

consolado por um anciatildeo mediante a revelaccedilatildeo que lhe eacute transmitida Cabe aqui notar que o

anciatildeo exerce o papel mediador entre o anjo e Joatildeo De fato este cenaacuterio parece inserir a

todos num ambiente de anseio expectativa e anelo pela revelaccedilatildeo que se daraacute mediante a

experiecircncia miacutestica de ascensatildeo na ldquosala do Tronordquo onde acontece a cerimocircnia de

reconhecimento da ldquodignidade do Cordeirordquo

A expressatildeo ldquoleatildeo da tribo de Judaacute - λέων ὁ ἐκ τῆς φυλῆς Ἰούδαrdquo e ldquoraiz de Davi -

ἡ ῥίζα Δαυίδrdquo trata de um reconhecimento da legitimidade de sua linhagem tanto

sacerdotal quanto de sua realeza permitindo que a narrativa receba os contornos que

justifiquem um cerimonial no qual se estabelece a sua realeza sacerdotal eou seu

ldquoSacerdoacutecio Realrdquo agrave semelhanccedila de Melquisedeque

A partir do verso 6 temos um novo cenaacuterio a visatildeo de um Cordeiro imolado cuja

representaccedilatildeo de sua forccedila e conhecimento eacute descrita pelos sete chifres e sete olhos que

tambeacutem de certa maneira trata da compreensatildeo da divindade da qual eacute portador

porquanto representam ao mesmo tempo os sete espiacuteritos de Deus enviados a toda terra

Uma observaccedilatildeo junto ao texto de (Dn 711) eacute interessante aqui trata-se das

imagens e do contraste que existem entre elas

Em (Dn 711) temos um ldquochifrerdquo que proferia grandes palavras o que manifesta

ser possuidor de autoridade ou forccedila como tambeacutem diz que Daniel contempla um animal

morto e entregue ao fogo

No texto de Joatildeo temos os sete ldquochifresrdquo e um ldquoCordeiro imoladordquo poreacutem as

imagens seguem em direccedilotildees opostas com atribuiccedilotildees contrastantes mas que nos

permitem assimilar que as imagens fazem parte de um campo semacircntico e de um ambiente

de tradiccedilotildees acostumadas a lidarem com tais indiacutecios literaacuterios

Embora haja uma longa distacircncia entre os autores contudo entre as literaturas jaacute

natildeo eacute assim a circulaccedilatildeo e uso das tradiccedilotildees danieacutelicas em Qumran estatildeo bem

representadas uma vez que jaacute compraacutevamos tais evidecircncias

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d) v6 e 7 ndash O Cordeiro recebe o livro ndash A Vitoacuteria do Cordeiro

Assim tratamos o verso 6 como um cerimonial que estabelece a grandeza do

sacrifiacutecio de Jesus como de sua participaccedilatildeo na divindade evidenciando portanto os

atributos de que lhe satildeo conferidos por meio de uma Cristologia-Angelomoacuterfica

6 Καὶ εἶδον ἐν μέσῳ τοῦ θρόνου καὶ τῶν τεσσάρων ζῴων καὶ ἐν μέσῳ τῶν

πρεσβυτέρων ἀρνίον ἑστηκὸς ὡς ἐσφαγμένον ἔχων κέρατα ἑπτὰ καὶ ὀφθαλμοὺς ἑπτὰ οἵ εἰσιν

τὰ [ἑπτὰ] πνεύματα τοῦ θεοῦ ἀπεσταλμένοι εἰς πᾶσαν τὴν γῆν

6 E vi em o meio do trono e dos quatro viventes e em o meio dos anciatildeos um

cordeiro firme de peacute como tendo sido morto tendo chifres sete e olhos sete que satildeo os sete

espiacuteritos de Deus que satildeo enviados por toda a terra

Uma vez estabelecido o lugar do seu sacrifiacutecio e de sua participaccedilatildeo na divindade

aberto estaacute o caminho para receber o livro da matildeo do que estaacute assentado no Trono

7 καὶ ἦλθεν καὶ εἴληφεν ἐκ τῆς δεξιᾶς τοῦ καθημένου ἐπὶ τοῦ θρόνου

7 E ele veio e tem recebido de a direita do que se assenta em o trono

e) v8-14 ndash Celebraccedilatildeo ao Cordeiro ldquoSacerdoacutecio e Realeza do Cordeirordquo - por

parte dos seres Viventes e dos Anciatildeos por parte de ldquouma voz de anjosrdquo por parte

da criaccedilatildeo

A ordem eacute crescente expandindo-se metodicamente para a grande celebraccedilatildeo que se

inicia a partir do verso 8

8 Καὶ ὅτε ἔλαβεν τὸ βιβλίον τὰ τέσσαρα ζῷα καὶ οἱ εἴκοσι τέσσαρες πρεσβύτεροι

ἔπεσαν ἐνώπιον τοῦ ἀρνίου ἔχοντες ἕκαστος κιθάραν καὶ φιάλας χρυσᾶς γεμούσας

θυμιαμάτων αἵ εἰσιν αἱ προσευχαὶ τῶν ἁγίων

8 E quando recebeu o livro os quatro viventes os vinte e quatro anciatildeos prostraram-se diante o cordeiro tendo cada um harpa e taccedilas de ouro cheias de incenso

as quais satildeo as oraccedilotildees dos santos

Pringent47 menciona que o termo hebraico ldquokinnorrdquo eacute inspirado na Septuaginta que

quase sempre o traduz por ldquoκιθάραν ndash harpasrdquo e que o uso de ldquoφιάλας - taccedilasrdquo eacute

empregado unicamente no Apocalipse dentro no Novo Testamento tendo seu uso

47 PRIGENT Pierre O Apocalipse Traduccedilatildeo Luiz Joatildeo Barauacutena Satildeo Paulo ndash Loyola 2002119

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designado no Antigo Testamento junto a libaccedilatildeo de uso cultual e lituacutergico (cf Ex 27 3

38 3 Nm 4 14 I Rs 7 40ss)

Josefo48 menciona a presenccedila de duas taccedilas de ouro cheias de incenso sobre os patildees

da preposiccedilatildeo O Antigo Testamento faz menccedilatildeo constante de taccedilas de ouro e seu uso no

Templo um dos textos paradigmaacuteticos para essa questatildeo eacute o texto no qual Davi apresenta

todos os materiais para construccedilatildeo do Templo em (I Cr 28) com destaque para o (verso

17) ndash ldquoE ouro puro para os garfos e para as bacias e para os jarros e para as taccedilas de

ouro para cada taccedila seu peso como tambeacutem para as taccedilas de prata para cada taccedila seu

pesordquo

Natildeo haacute duacutevidas de que se trata de um ato lituacutergico Inicia-se a grande celebraccedilatildeo

pela qual o Cordeiro eacute em absoluto reconhecido como detentor do direito conquistado por

meacuteritos proacuteprios e assim pode abrir o livro A celebraccedilatildeo tem sua iniciativa pelos ldquoseres

viventes ndash hayotrdquo seguido pelos anciatildeos

O fato de os seres viventes iniciarem a celebraccedilatildeo nos remete a forccedila e ao

significado das tradiccedilotildees miacutesticas do Trono uma vez que jaacute podemos aferir durante a

pesquisa que a divindade que se assenta no Trono eacute sempre caracterizada por aclamaccedilotildees

que procedem das ldquohayotrdquo (como em Ezequiel)

Conveacutem ressaltar que o fato de os ldquoseres viventesrdquo prestarem culto ao Cordeiro as

insere num movimento narrativo pelo qual a ldquodignidade do Cordeirordquo alcanccedila o seu

cliacutemax uma vez que estes ldquoseres viventesrdquo aparecem na tradiccedilatildeo do misticismo judaico

apenas se dirigindo objetivamente com aclamaccedilotildees ao Trono e ao que se assenta sobre ele

Parece ser uma indicaccedilatildeo contundente de que o Cordeiro eacute reconhecido como Deus49

Os anciatildeos aparecem em segundo plano o que mantecircm os ldquoseres viventesrdquo da

tradiccedilatildeo miacutestica da Mercavaacuteh no primeiro plano Isto pode estabelecer algum tipo de

relaccedilatildeo de autoridade entre os ldquoseres viventesrdquo e os ldquoanciatildeosrdquo como tambeacutem uma espeacutecie

de ordem e de hierarquia estabelecida no tocante agrave liturgia uma vez que no capiacutetulo 4

tambeacutem aparecem sob a mesma oacutetica (cf Ap 4 89)

Incenso e oraccedilotildees satildeo elementos encontrados no AT no periacuteodo do Segundo

Templo em Qumran como em outros contextos lituacutergicos num mundo complexo e

diversificados de ritos cerimoniais ainda assim se destaca o uso por parte dos ritos

sacerdotais portanto natildeo eacute incomum neste cenaacuterio de modo que a cerimocircnia conta com

48 Ibid Apud Pringent p 119 - Antiguidades Judaicas 3143 49 Se assim o eacute as indagaccedilotildees sobre questotildees ligadas ao monoteiacutesmo judaico e a divindade de Jesus entram

em tensatildeo e novamente acende a fogueira das discussotildees em torno do assunto

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elementos que fazem parte das ofertas e sacrifiacutecios que apontam para a consolaccedilatildeo dos

santos

9 καὶ ᾄδουσιν ᾠδὴν καινὴν λέγοντεςmiddot ἄξιος εἶ λαβεῖν τὸ βιβλίον καὶ ἀνοῖξαι τὰς

σφραγῖδας αὐτοῦ ὅτι ἐσφάγης καὶ ἠγόρασας τῷ θεῷ ἐν τῷ αἵματί σου ἐκ πάσης φυλῆς καὶ

γλώσσης καὶ λαοῦ καὶ ἔθνους

9 E cantam cacircntico novo dizendo digno eacutes de receber o livro e de abrir os selos

dele porque foste morto e compraste ao Deus noacutes com o sangue teu de toda tribo e liacutengua

e povo e naccedilatildeo

Jaacute o verso 9 faz o papel de pronunciamento da cerimocircnia da realeza sacerdotal do

Cordeiro anunciando por meio do Cacircntico Novo o ldquoCacircntico do Cordeirordquo sua

ldquoDignidaderdquo sua ldquoAutoridade ndash manifestada no ato de abrir o livrordquo e a ldquoforccedila e gloacuteria de

Seu sacrifiacuteciordquo sacrifiacutecio este cuja extensatildeo dos benefiacutecios satildeo para todas tribos liacutenguas

povos e naccedilotildees

Um dos termos gregos empregado neste verso foi traduzido por ldquocompraste -

ἠγόρασαςrdquo poreacutem uma melhor traduccedilatildeo sustenta a compreensatildeo de ldquoalgueacutem que agora

assumiu o comando e estaacute agrave frente para conduzirrdquo isto nos insere melhor no verso

seguinte

10 καὶ ἐποίησας αὐτοὺς τῷ θεῷ ἡμῶν βασιλείαν καὶ ἱερεῖς καὶ βασιλεύσουσιν ἐπὶ

τῆς γῆς

10 E fizeste eles ao Deus nosso reis e sacerdotes e reinaratildeo sobre a terra

Neste somos introduzidos no acircmbito do ldquoCordeiro que conduz a todosrdquo e os torna

ldquoreis e sacerdotes e eles reinaratildeo sobre a terrardquo

Com base nos argumentos de Robins50 encontra-se no Egito um conceito que lanccedila

luz para a sua compreensatildeo e eacute muito semelhante ao que encontramos aqui pois soacute os

seres humanos ritualmente purificados isto eacute ldquoreis e os sacerdotesrdquo teriam tido acesso agraves

partes internas do Templo e entrar em contato com a estaacutetua de culto

50 Apud SCHMIDT Brian B Cult Image and Divine Representation in the ancient Near East edit ed by

Neal H Walls American Schools of Oriental Research Books Series nordm 10 Boston MA 200507

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Tambeacutem era comum do mundo antigo ver os ldquoReisrdquo como filho dos deuses como

no caso dos ldquoFaraoacutesrdquo No Antigo Testamento o sumo sacerdote uma vez por ano tinha

acesso ao santo dos santos assim podia ele soacute interceder pela naccedilatildeo

Partindo deste ponto de vista mais uma vez temos indiciacuteos da cultura Egipiacutecia

presentes no texto dentre outros paralelos que nos remetem a estrutura do mundo antigo e

a cosmovisatildeo que permeia as literaturas

Estes aspectos nos permitem ver um ambiente religioso que outrora entendia o

acesso aos deuses somente acessiacutevel a um grupo privilegiado de pessoas

Portanto o texto de (Ap cap 5) se contrapotildee a esta limitaccedilatildeo de acesso a

privilegiados O Cordeiro abriu um novo caminho pela ldquodiginidade de seu sacrifiacuteciordquo de

sorte que ldquofizeste eles ao Deus nosso reis e sacerdotes e reinaratildeo sobre a terrardquo Deste

modo o Cordeiro eacute cultuado na sala do Trono

Nessa linha de raciociacutenio Apocalipse 5 se torna um cerimonial de reconhecimento

do Sacerdoacutecio de Jesus e natildeo propriamente de uma entronizaccedilatildeo o que concorda com os

argumentos de Van Unnik citados por Aune51 que se contrapotildee ao texto como uma

narrativa onde se pode ver um ldquocerimonial de entronizaccedilatildeordquo indicando outras

probabilidades de interpretaccedilatildeo para a narrativa

Talvez a melhor hipoacutetese seja de unir as duas opiniotildees e fomar uma terceira a

saber Apocalipse 5 pode ser compreendido como um cerimonial do ldquoSacerdoacutecio Realrdquo

realizado na ldquoSala do Trono de Deusrdquo Este tema tambeacutem eacute sugerido pela proposta da

Epiacutestola aos Hebreus defendida na Tese de Doutorado de Cardoso52

Assim temos uma ldquoCerimocircnia do Sacerdoacutecio Real do Cordeiro na Sala do Trono

de Deusrdquo

Este cenaacuterio faz justiccedila ao desenlace textual e ao aacutepice do cerimonial inserido dos

versos 11 a 14

11 Καὶ εἶδον καὶ ἤκουσα φωνὴν ἀγγέλων πολλῶν κύκλῳ τοῦ θρόνου καὶ τῶν ζῴων

καὶ τῶν πρεσβυτέρων καὶ ἦν ὁ ἀριθμὸς αὐτῶν μυριάδες μυριάδων καὶ χιλιάδες χιλιάδων

12 λέγοντες φωνῇ μεγάλῃmiddot ἄξιόν ἐστιν τὸ ἀρνίον τὸ ἐσφαγμένον λαβεῖν τὴν δύναμιν καὶ

πλοῦτον καὶ σοφίαν καὶ ἰσχὺν καὶ τιμὴν καὶ δόξαν καὶ εὐλογίαν 13 καὶ πᾶν κτίσμα ὃ ἐν τῷ

οὐρανῷ καὶ ἐπὶ τῆς γῆς καὶ ὑποκάτω τῆς γῆς καὶ ἐπὶ τῆς θαλάσσης καὶ τὰ ἐν αὐτοῖς πάντα

ἤκουσα λέγονταςmiddot τῷ καθημένῳ ἐπὶ τῷ θρόνῳ καὶ τῷ ἀρνίῳ ἡ εὐλογία καὶ ἡ τιμὴ καὶ ἡ δόξα

51 AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978335 52 CARDOSO Joseacute Roberto Correcirca ldquoCristologia Angelomoacuterfica de Hebreus - Estudo Soacutecio-Retoacuterico e

Histoacuteria das Religiotildees Comparadas em Hebreus 11-14 25-18 71-10rdquo Satildeo Paulo UMESP 2005

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καὶ τὸ κράτος εἰς τοὺς αἰῶνας τῶν αἰώνων 14 καὶ τὰ τέσσαρα ζῷα ἔλεγονmiddot ἀμήν καὶ οἱ

πρεσβύτεροι ἔπεσαν καὶ προσεκύνησαν

11 E vi e ouvi como voz de anjos muitos ao redor o trono e dos viventes e dos

anciatildeos E era o nuacutemero deles miriacuteades de miriacuteades e milhares de milhares 12 Dizendo

em voz grande digno eacute o cordeiro o que foi morto receber o poder e a riqueza e sabedoria

e forccedila e honra e gloacuteria e louvor 13 E toda criatura que em o ceacuteu e sobre a terra e

debaixo da terra e sobre o mar estaacute e as em neles a todas eu ouvi dizendo ao que se

assenta em o trono e ao cordeiro o louvor e a honra e a gloacuteria e o poder para os seacuteculos

dos seacuteculos Ameacutem 14 E os quatro viventes dizendo o ameacutem E os anciatildeos prostraram-se

e adoraram

O cenaacuterio diante do Trono eacute tomado pela voz da multidatildeo constituiacuteda pelos anjos

os viventes e os anciatildeos - μυριάδες μυριάδων καὶ χιλιάδες χιλιάδων - miriacuteades e milhares

de milhares O objeto principal natildeo se perde de vista ldquoA Dignidade do Cordeirordquo Assim

como o ldquofilho do homemrdquo em (Dn 7 13 e 14) o Cordeiro recebe ldquoλαβεῖν τὴν δύναμιν καὶ

πλοῦτον καὶ σοφίαν καὶ ἰσχὺν καὶ τιμὴν καὶ δόξαν καὶ εὐλογίαν - o poder e a riqueza e

sabedoria e forccedila e honra e gloacuteria e louvor

A celebraccedilatildeo se estende por todo o Universo (cf v 13)

Aleacutem disso vemos nestes versos a intertextualidade onde se mesclam (Ap 48)

junto aos textos fundantes de (Is 63) que se encontra relacionado com (Dn 710) esta

uacuteltima passagem tem viacutenculo imprescindiacutevel com (Ap 511) onde se diz nas Escrituras

ldquodez mil vezes dez mil estavam com ele e um milhatildeo de homens o serviam e a Kedushaacute

(Is 63) - clamaram Santo Santo Santo eacute o Senhor dos exeacutercitos a criaccedilatildeo inteira estaacute

cheia de Sua gloacuteria53rdquo

Inserimos que o capiacutetulo 5 em sua expressatildeo final retorna como um elo que liga o

Cacircntico da Criaccedilatildeo do capiacutetulo 4 sob a menccedilatildeo de ldquoκαὶ πᾶν κτίσμα ndash toda criaturardquo

entrando em celebraccedilatildeo e fazendo uma memoacuteria ao capiacutetulo (411) ndash ldquoὅτι σὺ ἔκτισας τὰ

πάντα ndash porque tu criaste todasrdquo e assim o Trono o Cordeiro e a Criaccedilatildeo satildeo mais uma

vez unidos

53 AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978335

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Levando-nos ao cliacutemax e unindo os textos pela ecircnfase final

14 καὶ τὰ τέσσαρα ζῷα ἔλεγονmiddot ἀμήν καὶ οἱ πρεσβύτεροι ἔπεσαν καὶ προσεκύνησαν

14 E os quatro viventes dizendo o ameacutem E os anciatildeos prostraram-se e adoraram

Assim temos dois cacircnticos unidos por elos de uma corrente bem delineada de

cerimocircnias que acontecem na ldquoSala do Trono de Deusrdquo e que nos conduz a admiraccedilatildeo de

uma liturgia Judaico-Cristatilde proveniente de uma pena cuja grandeza de sua experiecircncia

religiosa se reflete no espelho do ldquoMISTICISMO JUDAICO E APOCALIacutePTICO NO

APOCALIPSE DE JOAtildeO CAPIacuteTULOS 4 E 5 ndash ASCENSAtildeO E VIAGEM CELESTIAL

NO CRISTIANISMO PRIMITIVOrdquo

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

Este artigo teve o objetivo de demonstrar como as recentes pesquisas da exegese do

Novo Testamento vem sendo processados agrave luz das tradiccedilotildees do judaiacutesmo antigo e suas

correntes A menccedilatildeo da descoberta dos manuscritos de Qumran e o fortalecimento dos elos

das pesquisas ao longo dos uacuteltimos 100 anos em relaccedilatildeo ao ambiente histoacuterico do Novo

Testamento Assim contribui este artigo para que alunos dos cursos de teologia tenham

acesso as metodologias da exegese que vem sendo aplicadas ao Novo Testamento

principalmente a literatura apocaliacuteptica

A pesquisa delimita que Apocalipse cap 5 podem ser visto como um bom redator e

que alcanccedila o ecircxito em seu objetivo atraveacutes da transmissatildeo de sua experiecircncia visionaacuteria

tendo como moldura as tradiccedilotildees miacutesticas do judaiacutesmo do segundo templo Conveacutem

mencionar que em tempo algum se coloca interrogaccedilotildees na ascensatildeo de Joatildeo ateacute a sala do

trono contudo o que se preconiza eacute que Joatildeo tem uma experiecircncia no acircmbito das tradiccedilotildees

de seu contexto histoacuterico e que a transmissatildeo de sua experiecircncia segue as correntes

apocaliacutepticas de seu entorno

Concordamos com Collins54 ao mencionar que natildeo podemos eliminar a

possibilidade de que o autor (autores) tenha tido uma experiecircncia miacutestica mas podemos

discutir (as obras) como produto literaacuterio considerando sua funccedilatildeo e efeito

54 COLLINS John J A Imaginaccedilatildeo Apocaliacuteptica ndash Uma Introduccedilatildeo Literaacuteria a Apocaliacuteptica Judaica Satildeo

Paulo ndash Paulus 20109394

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Assim os ouvintes tanto nas tradiccedilotildees fundantes e cacircnticos de Qumran quanto no

cacircntico de Apocalipse 5 conforme narrado por Joatildeo satildeo representados por um grupo

emoldurado pelo sentido de ldquocomunidade celestial eou comunidade angelomoacuterficardquo que

se compreendiam em acesso ao culto celestial e que celebravam ao Cordeiro como aquele

que venceu e lhes proporcionou acesso ldquoos tornando reis e sacerdotesrdquo

Rowland e Gruenwald concordam entre si no que diz respeito ao ecletismo que

Joatildeo apresenta em sua literatura Rowland entende que Joatildeo tem uma experiecircncia proacutexima

a que acontece com Enoque mas nota disparidades

Os resultados desta pesquisa apontam para os textos e consideram suas diferenccedilas e

similaridades concordamos que as narrativas manifestam fidelidade agraves tradiccedilotildees do

judaiacutesmo do segundo templo e dos traccedilos encontrados nos manuscritos de cacircnticos de

Qumran por um lado e que tambeacutem apresentam um tipo ruptura com as tradiccedilotildees

sacerdotais mais consevadoras estas ultimas mais ligadas as tradiccedilotildees dos farises o templo

terrestre de Jerusaleacutem os quais buscavam conciliar uma visatildeo universalista dogmaacutetica para

o seu tempo

Ao mesmo tempo herdeiro das tradiccedilotildees miacutesticas do periacuteodo do Segundo Templo

como tambeacutem das tradiccedilotildees de Qumran o capiacutetulo 5 demonstra um estilo literaacuterio que

revela um compositoacuterio mais ecleacutetico produzindo uma nova memoacuteria e experiecircncia

religiosa permeada por tons das tradiccedilotildees do judaiacutesmo da Mercavaacuteh e de uma Cristologia-

Angelomoacuterfica onde o Cordeiro eacute cultuado como ldquosacerdote real e vice-regente celestialrdquo

com direito a uma adoraccedilatildeo universal

Caracteriacutesticas sacerdotais do misticismo judaico do periacuteodo do Segundo Templo

ornamentada pelos (Cacircnticos - Shirot de Qumran) prestam a contribuiccedilatildeo em relaccedilatildeo a

elaboraccedilatildeo do pano de fundo apocaliacuteptico e a produziccedilatildeo das imagens e mensagem da obra

literaacuteria de Joatildeo

A tiacutetulo de esclarecimentos podemos observar que diferente de alguns apocalipses

e relatos da comunidade de Qumran onde a comunidade participa do culto junto com os

anjos o autor do capiacutetulo 4 fica na periferia da liturgia celeste e natildeo participa dela sua

funccedilatildeo estaacute restrita a de um vidente passivo aquele que contempla podendo-se se definir a

narrativa como um ldquoCerimocircnial de Contemplaccedilatildeordquo e o capiacutetulo 5 como um ldquoCerimocircnial

de Celebraccedilatildeordquo

No capiacutetulo 5 Joatildeo participa ativamente com suas emoccedilotildees ldquochora copiosamente e

se regozija sobremaneirardquo Sendo uma liturgia rica de estaacutegios de admiraccedilatildeo e que convida

a comunidade para uma grande celebraccedilatildeo universal

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Assim as palavras que melhor resumem os resultados de nossa pesquisa satildeo as de

DeConick55 Seus argumentos se posicionam sob a afirmaccedilatildeo de que o antigo judaiacutesmo e o

misticismo cristatildeo conjuntamente identificam uma tradiccedilatildeo miacutestica bilateral que flui

atraveacutes do judaiacutesmo e cristianismo durante seus anos formativos Um encontro das

tradiccedilotildees cujo diaacutelogo eacute desenvolvido simultaneamente dentro de contextos histoacutericos que

podem ser comparados A tradiccedilatildeo miacutestica preservada em suas literaturas eacute corretamente

caracterizada como manifestaccedilotildees da religiosidade judaica e cristatilde nos periacuteodos heleniacutestico

e romano

Assim o texto do Apocalipse cap 5 pode ser compreendido e interpretado agrave luz da

exegese e seus pressupostos com base nas tradiccedilotildees do misticismo judaico e apocaliacuteptico

tambeacutem experimentada como uma tradiccedilatildeo contiacutenua pelos membros da comunidade de

Qumran

Como resultado o artigo demonstra que as interpretaccedilotildees fundamentalistas que

menosprezam o estudo teoloacutegico e a pesquisa cientiacutefica das Escrituras perdem a sua forccedila

porquanto temos hoje acesso a documentaccedilatildeo que viabiliza processos exegeacuteticos de maior

abrangecircncia abertos e receptivos demonstram que eacute possiacutevel acessar o mundo dos textos

onde as experiecircncias religiosas se deram e que podemos contemplar renovadamente o

conhecimento das celebraccedilotildees liturgias e compreender a funccedilatildeo das narrativas aplicando-

as aos nosso dias com maior clareza e coerecircncia

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Internacional de Teologia do Antigo Testamento Satildeo Paulo Ediccedilotildees Vida Nova

1998

CHAMBERLAIN WA Gramaacutetica Exegeacutetica Do Grego Neotestamentaacuterio Satildeo

Paulo Casa Editora Presbiteriana 1989

DEMOSS Matthew S Dicionaacuterio Gramatical do Grego do Novo Testamento Satildeo

Paulo Editora Vida 2004

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MACHEN J Gresham Grego do Novo Testamento Para Iniciantes Satildeo Paulo

Editora Hagnos 2004

REGA Lourenccedilo Stelio e Johannes Bergmann Noccedilotildees do Grego Biacuteblico Satildeo

Paulo Ediccedilotildees Vida Nova 2004

Autor ndash Me Marcelo Alves Dantas

Gestor do Curso Superior de Teologia -

FATEJ

Docente FATEJ FADISA

Mestre em Ciecircncias da Religiatildeo -

UMESP

Mestre em Teologia do Novo Test -

FTBSP

Bacharel em Direito - UNIESPFAPAN

Docecircncia do Ensino Superior -

UNOPAR

Bacharel em Teologia - UMESP

E-mail

marcelodantasteologiagmailcom

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A TERCEIRIZACcedilAtildeO DA FEacute NOS TEMPOS DE PANDEMIA E

ISOLAMENTO SOCIAL O SURGIMENTO DO ldquoPERSONAL PROFECTrdquo ndash E AS CRISES DE ESPIRITUALIDADE

RESUMO

O tema da terceirizaccedilatildeo da feacute eacute notoacuterio nas relaccedilotildees humana e religiosas desde que se

compreendeu que estar junto como povo era uma condiccedilatildeo de se viver o desejo de Deus

e automaticamente era tambeacutem necessaacuterio encontrar responsaacuteveis ou direcionadores da

caminhada de feacute e da espiritualidade Acontece que no tempo de pandemia e isolamento

social esta condiccedilatildeo ficou ainda mais complexa Ao que entendendo parece que a

terceirizaccedilatildeo da feacute se tornou recurso inerente das relaccedilotildees espirituais - Ecircxodo 2019 [] E

disseram a Moiseacutes Fala tu conosco e ouviremos e natildeo fale Deus conosco para que natildeo

morramos - Neste episoacutedio podemos ancorar o comportamento aqui discutido Seja pela

autocriacutetica que nos faz nos compreender como inaptos para algo ou alguma funccedilatildeo seja

pela perspectiva da aprendizagem de economizar e ou otimizar tempo e recursos ou como

sustentava o meacutedico e psicanalista Donald Winnicott56 (1896 -1971) - ldquoTodos temos

tendecircncia a amadurecer desde que o ambiente em que somos criados nos favoreccedilardquo

segundo sua teoria a ldquoterceirizaccedilatildeordquo do amadurecimento se daacute jaacute na primeira infacircncia

Tese amplamente verificada na sociedade de hoje como uma nova epidemia a recusa ao

crescimento em todas as esferas Jovens na igreja com mais de 40 anos

Palavras-chave Terceirizaccedilatildeo Feacute religiatildeo espiritualidade

ABSTRACT

The theme of outsourcing the faith has been evident in human and religious relations since

it was understood that being together as a people was a condition for living the desire of

God and automatically it was also necessary to find those responsible or guiding the faith

56 Winnicott tornou-se um meacutedico contratado do Departamento Infantil do Instituto de Psicanaacutelise onde

trabalhou durante 25 anos Foi presidente da Sociedade Britacircnica de Psicanaacutelise por duas gestotildees membro da

UNESCO e do grupo de experts da OMS Atuou como professor no Instituto de Educaccedilatildeo e na London

School of Economics da Universidade de Londres Dissertou e escreveu amplamente como atividade

profissional independente

autor

Me Marcos Camilo Santana

e-mail revmarcossantanagmailcom

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journey of spirituality It turns out that in a time of pandemic and social isolation this

condition became even more complex From what I understand it seems that the

outsourcing of faith has become an inherent resource of spiritual relationships - Exodus

2019 [] And they said to Moses You speak to us and we will listen and do not speak

God with us lest we die - In this episode we can anchor the behavior discussed here

Whether through self-criticism which makes us understand ourselves as unfit for

something or some function either through the perspective of learning to save and or

optimizing time and resources or as the doctor and psychoanalyst Donald Winnicott

(1896-1971) maintained - ldquoWe all have tendency to mature as long as the environment in

which we are raised favors us rdquoaccording to his theory theldquo outsourcing rdquoof maturation

occurs in early childhood Thesis widely verified in todays society as a new epidemic the

refusal of growth in all spheres Young people in the church over 40 years old

Keywords Outsourcing Faith religion spirituality

INTRODUCcedilAtildeO

Este cenaacuterio da crise de amadurecimento somados agrave sociedade de cansaccedilo e de

transparecircncia que eacute discutida por Byung-chul han57 onde todos estatildeo na expectativa e

ainda tem-se a falsa sensaccedilatildeo de liberdade promovida pelos enormes dados disponiacuteveis

pelos algoritmos que entregamos para empresas como Google e Facebook favorecendo

para a explosatildeo dos coachings dos ldquopersonal profectrdquo como que numa soluccedilatildeo para

minhas incapacidades minhas emergecircncias ou simplesmente economia e autogiro de

informaccedilotildees

Algueacutem seraacute responsaacutevel pela minha espiritualidade e seraacute trocado a cada

frustraccedilatildeo que eu passar Em siacutentese terceirizar eacute delegar seja qual for o motivo toda vez

que o recurso eacute ldquoore por mim que natildeo sei orarrdquo ou ldquoverei no youtube para compreensatildeo da

leitura biacuteblicardquo e ou simplesmente ldquonatildeo me envolvordquo Deleguei Terceirizei

Neste cenaacuterio temos alguns incocircmodos principalmente no periacuteodo de isolamento

social ou pandemia Surge um ponto importante para os liacutederes religiosos e espirituais

Como ajudar outros a amadurecer na feacute sem criar dependecircncias do seu modelo de

espiritualidade

57 Um filoacutesofo teoacutelogo e teoacuterico cultural da Alemanha nascido na Coreacuteia do Sul

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Espiritualidade e feacute satildeo aquelas grandes aacutereas da vida que natildeo haacute como ser

delegada A antiga maacutexima de que ldquofilho de peixe peixinho eacuterdquo revela o tamanho da

responsabilidade que temos Estamos falando do nosso relacionamento com Deus De uma

busca Eacute individual Infelizmente a igreja e o povo se distanciaram da proposta de Jesus

Cristo para conhecer o Pai era necessaacuterio conhececirc-lo (Joatildeo14) relacionar-se tatildeo somente

Neste tempo de isolamento a busca pessoal estaacute passando proacutexima do consumo apenas

Assistir cultos online ouvir pregaccedilotildees e canccedilotildees todavia a proposta do cristianismo eacute de

mobilidade e vivencia real E a pandemia revelou a fragilidade de algumas

espiritualidades

Espiritualidade pode ser aprendida no coletivo mas deve ser amplamente

estimulada para desenvolvimento individual Pequenos grupos ceacutelulas e ou qualquer

ajuntamento do povo de Deus devem ser reflexos da vida de culto de cada membro ndash Isaias

601 ndash ldquoDispotildee-te e resplandece porque vem a tua luz e a gloacuteria do Senhor nasce sobre tirdquo

Precisamos sempre lembrar que nossa vocaccedilatildeo e missatildeo satildeo ser sal e luz Natildeo daacute

para ser de outra maneira Entretanto nestes cenaacuterios de isolamento social as pessoas a

sociedade ficaram ainda mais distante do desenvolvimento de espiritualidade

1 OUTROS PROBLEMAS INFLUENCIANDO A ESPIRITUALIDADE NO

TEMPO DE ISOLAMENTO SOCIAL DO ATEIacuteSMO CETICISMO OU UMA

BUSCA MAL DIRECIONADA DA ESPIRITUALIDADE PODERAtildeO

INFLUENCIAR AS RELACcedilOtildeES DE FEacute

Quando pensamos em ateiacutesmo automaticamente nos vecircm agrave mente Andreacute Comte

Sponville e sua teoria de que moral e espiritualidade todos tecircm e precisam ser desenvolvida

independente de crenccedilas e valores

Entretanto o que vemos hoje satildeo pastores e liacutederes acessando e balizando sua

conduta teoloacutegica e reflexiva em pensadores do ateiacutesmo e neo-ateiacutesmos pois as questotildees

da moral e da boa espiritualidade vecircm em primeiro lugar

Assim estamos arriscando pois o evangelho que nos foi inserido para hoje ser por

exemplo pastor da IPIB estava primeiro na compreensatildeo da vontade de Deus para minha

vida passando pela dinacircmica da salvaccedilatildeo tendo que compreender minha participaccedilatildeo no

corpo de Cristo e por uacuteltimo como cidadatildeo Observemos que moralidade era construccedilatildeo

familiar e natildeo funccedilatildeo pastoral

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Ao que parece temos um grupo preocupado apenas na dinacircmica pessoal deixando

assim um ceticismo aparente e consequentemente a espiritualidade pessimamente

direcionada

Quase que daacute para ouvir as perguntas de Sponville Pode-se viver sem religiatildeo

Deus existe Os ateus estatildeo condenados a viver sem espiritualidade

E assim se relativizam as respostas Preciso apenas ser um bom cidadatildeo Quando

lembramos que somos chamados para ser pequenos cristos isto eacute viver

desconfortavelmente e se necessaacuterio arrancar o olho (Mateus 189) ser radical ser a

mensagem da Salvaccedilatildeo

De repente o grande problema seja a ligaccedilatildeo dos conceitos acima Pastores ouvindo

os filoacutesofos ateus mais inteligentes igreja ouvindo toda sorte de produccedilatildeo teoloacutegica e

como resultado caminhos sem rumo e quando levados para a contingencia do isolamento

soacutecio a falecircncia foi grande

2 VIVEMOS - ldquoUMA NOVA FEacute PARA UM NOVO TEMPO58rdquo ONDE

VERIFICAMOS COMO COMPREENDER A FEacute E SUAS APLICACcedilOtildeES

COMO VIVENCIAR A FEacute NA ATUALIDADE

Estamos tateando a feacute que agrada a Deus registrado na palavra eacute a feacute da

mobilidade Deus usa o que estaacute em movimento em accedilatildeo Quando pede para os profetas se

levantarem (Ezequiel) porque natildeo fala com quem se autovitimam ou se casarem ou

seguirem ou mesmo para Abraatildeo natildeo ficar no local da frustraccedilatildeo e avanccedilar estou

apontando para um tempo que haacute a sensaccedilatildeo de grande movimento

Excesso de informaccedilatildeo possibilidade infinitas Entretanto vemos o paradoxo de

pessoas com medo do agir de Deus mais natural que eacute nascer crescer amadurecer casar

ou encontrar sua razatildeo de ser Espera-se o sobrenatural todavia o natural ficou

insuportaacutevel

Se Deus usa quem estaacute em movimento logo fariacuteamos o que Jesus disse ldquoNa

verdade na verdade vos digo que aquele que crecirc em mim tambeacutem faraacute as obras que eu

faccedilo e as faraacute maiores do que estas porque eu vou para meu Pai (Joatildeo 1412) ndash ao que

parece vivemos uma feacute infantilizada

58 Livro de Marcos Camilo de Santana que aborda a questatildeo da feacute no tempo de miacutedias e relaccedilotildees on demand

e digital Editora Recriar Satildeo Paulo 2019

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Daiacute a necessidade de se voltar sempre a origem Estar unido servindo e crescendo

ateacute a estatura de varatildeo perfeito (Efeacutesio 413-15)

3 HOJE Eacute PRECISO RESSIGNIFICAR ALGUNS CONCEITOS SOBRE A FEacute

A Reforma Protestante se mostrou como o maior exemplo de junccedilatildeo de feacute e reflexatildeo social

em seu tempo Ela correspondeu no campo religioso ao Renascimento no campo artiacutestico ao

Humanismo na Filosofia ao mercantilismo para a nascente economia capitalista

Como afirma Max Weber existiram afinidades eletivas entre esses movimentos que

engendraram a crise da sociedade medieval e a gestaccedilatildeo da modernidade Antes da Reforma a feacute

soacute era pensada pelos sujeitos que ocupavam seus fixos lugares na hierarquia social a partir do

conceito de cristandade da mediaccedilatildeo entre o indiviacuteduo e Deus realizada pela Igreja e pelo

paradigma teocecircntrico de pensamento

Eacute agora um ldquolugar-comumrdquo dizer que a eacutepoca moderna fez surgir uma forma nova e

decisiva de individualismo O produto da feacute para a preacute-modernidade e modernidade estaacute baseado e

construiacutedo na identidade protestante a doutrina da justificaccedilatildeo pela feacute que colocava o homem

perante Deus sem a mediaccedilatildeo da instituiccedilatildeo eclesiaacutestica que julgava o meacuterito das obras e mantinha

os fieacuteis em seus lugares tradicionais na sociedade foi e eacute o pilar de todo um periacuteodo

A feacute estaacute refletida em toda a sociedade todavia natildeo se sabe bem seu significado real em

agradar a Deus

Parece que ao delegar se ressignificou mas de forma negativa Penso entatildeo que devemos

voltar agraves palavras do Aposto Paulo [] De sorte que a feacute eacute pelo ouvir e o ouvir pela palavra de

Deus (Romanos 1017) isto eacute do proacuteprio Deus Temos ouvido muitas pregaccedilotildees e reflexotildees Mas

ouvir o proacuteprio Deus tenho minhas incertezas E o isolamento social poderia ter esta marca na

histoacuteria recente da cristandade

Temos ainda as miacutedias e redes sociais que facilitam muito o nosso dia a dia

Encontramos nelas muitos recursos de ensinos e praacuteticas sobre a vida cristatilde neste sentido

precisamos olhar os proacutes e contras destas ferramentas para o periacuteodo de isolamento social

Byung Chu Han no seu texto sobre a sociedade que vive no ldquoenxamerdquo59 da

informaccedilatildeo sustenta que os recursos satildeo de fato quase ilimitados - ldquonosso comportamento

nossa percepccedilatildeo nossa sensaccedilatildeordquo nossas relaccedilotildees estatildeo embebidas do mundo digital

De forma especiacutefica e positiva ganhamos voz o confronto proposto aos bereianos

registrado em Atos eacute hoje imediato Em aulas ou pregaccedilotildees na comunidade local os

irmatildeos e irmatildes consultam na hora a informaccedilatildeo

59 Han Byung Chu No Enxame Perspectivas do digital ndash Petroacutepolis -Vozes 2019

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Ferramentas de comunicaccedilatildeo e contatos facilitam enormemente a atuaccedilatildeo pastoral

Mas concordo com Han quando de forma dura ndash criacutetica dizendo que haacute tambeacutem ndash o

Shitstorm ndash ou tempestade de indignaccedilatildeo

Irmatildeos homens e mulheres que se mobilizam para enfrentar pensamentos

contraditoacuterios na rede mas natildeo conseguem compor uma adoraccedilatildeo Dizem aos montes natildeo

saber orar mas a criticidade eacute viva

Satildeo criacuteticos de poliacutetica e natildeo profetas A Epidemia e isolamento social nos levaram

agrave necessidade de se debruccedilar sobre o profetismo e usar de forma eficaz estas ferramentas

Evangelizar Testemunhar Anunciar efetivamente o Reino e a Graccedila E na contribuiccedilatildeo

temos algumas questotildees sobre o radar A incerteza econocircmica as demandas da vida diaacuteria

e os horaacuterios variados de trabalho afetaram a feacute das pessoas

Ao que observamos sempre afeta natildeo vou colocar se positiva ou negativamente

pois temos olhado ateacute aqui que estamos falando de feacute imatura e feacute consolidada

Independente da categoria que se olhar a Feacute precisa do contraditoacuterio e da

mobilidade Para minha experiecircncia a Feacute estaacute em movimento e vai passar pela becircnccedilatildeo da

rotina Das experimentaccedilotildees no supermercado ao culto Deus que eacute criativo tem tocado e

mobilizado seu povo

Com ele tambeacutem os que precisam de confronto Todavia reforccedilo que algumas

vezes natildeo sobra pedra sobre pedra como se vecirc nos apoacutestolos e nos pais da Igreja e na

leitura que faccedilo da caminhada do povo - Feacute inabalaacutevel se constroacutei com sangue suor e

laacutegrimas

A necessidade de acreditar e adorar algo satildeo inerentes ao ser humano Surge outro

pensamento para resultado do isolamento social e da pandemia - Existem cristatildeos vivendo

uma feacute nominal Eacute possiacutevel detectar esse comportamento

Atribuiacutedo ao Fiodor Dostoieacutevski ou a Blaise Pascal o entendimento que haacute no ser

humano o buraco da alma do tamanho de Deus e por consequecircncia a capacidade de

construir iacutedolos e adorar

Daiacute a conversa ateacute aqui construiacutemos iacutedolos e padrotildees que para alcanccedilaacute-los

automaticamente terceirizamos ateacute como adorar

Haacute quem queira ateacute as palavras corretas os ldquoatos profeacuteticosrdquo os valores que

correspondam agrave benccedilatildeo que preciso Essencialmente temos livre acesso sacerdoacutecio

universal entre outros pontos que sabemos nominalmente mas efetivamente o que isto

simboliza

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Vemos na igreja o consumo indistinguiacutevel de conteuacutedo teoloacutegico religioso

filosoacutefico e na mesma direccedilatildeo temos a caminhada de feacute Sendo quase prolixo a feacute eacute feita

de caminhada em conjunto Orar uns pelos outros e uns com os outros passando pela

adoraccedilatildeo puacuteblica e estar diante dEle

Os da feacute nominais amam a igreja mas desconfiam do pastor Amam a trajetoacuteria de

um passado que ilude pois olham para o presente como se natildeo houvesse mais soluccedilatildeo E

quanto ao futuro dizem a Deus pertence como se soasse ldquoadeus pertencerdquo ndash quero dizer

acabou aquele pertencimento aquelas histoacuterias

Deus eterno estaacute trabalhando ateacute agora Por isso a adoraccedilatildeo ao que sempre estaacute no

meio do povo

4 QUAL A MENSAGEM OU CONSELHO SOBRE O VIVER UM

CRISTIANISMO COERENTE QUE SOBREVIVA A ISOLAMENTOS SOCIAIS

E PANDEMIAS

Precisamos amar a criatividade e o processo construtivo do reino e comunidade

Vejo Cristo caminhando de forma livre abenccediloadora e plural dialogando com todos

quantos cruzarem seu caminho

Natildeo haacute propriamente conselho ou mensagem mas a oraccedilatildeo eacute para que o povo

esteja livre para esse Deus trino que nos enviou seu Espiacuterito Santo para sermos livres

Oro para natildeo precisarmos de intermediadores Natildeo deleguem o grande desejo do

Senhor Diz sua palavra ldquo[] agrada-te do Senhor e espera nEle e ele satisfaraacute o desejo do

coraccedilatildeo (Salmo 37) ndash Que este desejo seja sua presenccedila sua doce voz seus ensinos seu

confronto Natildeo outras coisas quaisquer

Agravequele que estaacute buscando ser o orientador o ldquopersonal profectrdquo o mentor ndash

lembre-se da recomendaccedilatildeo do Cristo [] Pode porventura o cego guiar o cego Natildeo

cairatildeo ambos na cova (Lucas 639)

Que os poderes deste tempo natildeo corrompam nossos costumes Servos Somos

Servos Chamados para Caminhar juntos lavando os peacutes uns dos outros

Se delegarem a vocecirc a autoridade de conduzir ndash e a exemplo de Corneacutelio com

Pedro (Atos 10) ndash fuja e apresente-se como homem que tambeacutem estaacute na caminhada da feacute

Joatildeo Calvino reformador protestante entende que a feacute e a espiritualidade natildeo eacute

uma expectativa ou confianccedila mas uma convicccedilatildeo No seu comentaacuterio do Salmo 42 ele

apresenta a certeza que o salmista tinha do livramento divino natildeo como ldquouma expectativa

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imaginaacuteria produzida por uma mente fantasiosa mas confiado nas promessas de Deus ele

natildeo soacute se anima a nutrir soacutelida esperanccedila mas tambeacutem se assegura de que receberia

infaliacutevel livramentordquo

Tal afirmaccedilatildeo mostra como o reformador se identificava com a perspectiva teiacutesta

cristatilde ao mostrar a feacute como uma convicccedilatildeo sustentada por um objeto definido e real isto eacute

Deus Aleacutem disso Calvino em um de seus sermotildees diz que ldquonossa feacute natildeo tem que estar

fundamentada no que tenhamos pensado por noacutes mesmos mas no que nos foi prometido

por Deusrdquo

Com esta ideia o Pastor de Genebra mostra seu compromisso com a cosmovisatildeo

cristatilde de que a feacute tem como objeto de sustentaccedilatildeo natildeo apenas o ser divino mas a revelaccedilatildeo

que ele faz de sua vontade

Ao comeccedilar a discorrer sobre a feacute Calvino condena o pensamento de que feacute eacute

apenas consentimento ou especulaccedilatildeo

ldquoCom efeito a maioria dos homens ao ouvir falar de feacute nada mais profundo

concebe do que certo assentimento comum agrave histoacuteria do Evangelho De fato

quando nas escolas discutem a respeito da feacute afirmando simplesmente que Deus

lhe eacute objeto mercecirc de efecircmera especulaccedilatildeo Transviam as miacuteseras almas em

vez de as dirigirem ao seu destinordquo60

Nestas palavras ele deixa clara sua distacircncia da percepccedilatildeo de que feacute eacute tatildeo somente

uma concordacircncia com algo que foi dito Calvino agrave semelhanccedila dos demais reformadores

cristatildeos tambeacutem pensava a feacute como convicccedilatildeo em Deus e em sua revelaccedilatildeo Contudo

ainda fazendo parte da cosmovisatildeo teiacutesta cristatilde em seus escritos mostra algumas

divergecircncias de outros cristatildeos quando discorre sobre este assunto

Calvino entende que Deus natildeo eacute somente o objeto da nossa feacute mas igualmente o

autor da mesma

ldquoA feacute convicta natildeo depende do endosso humano mas ao contraacuterio eacute nosso

dever repousar na verdade nua de Deus de modo que nem os homens nem todos

os anjos juntos tenham como despojar-nosrdquo (CALVINO p 49)

Nas Institutas Calvino afirma que ldquonoacutes soacute somos levados a Cristo e seu reino em

genuiacutena e verdadeira feacute em virtude do Espiacuterito do Senhorrdquo Isto significa que aleacutem de

objeto da feacute Deus eacute tambeacutem aquele que nos conduz agrave mesma Eacute impossiacutevel de acordo

com o pensamento de Calvino que algueacutem tenha genuiacutena feacute em Deus sem que tenha sido

conduzido ao mesmo por Deus mediante seu Espiacuterito Calvino valoriza a oraccedilatildeo para ele

60 12 Calvino Joatildeo Instituicioacuten de la religioacuten Cristiana Livro III cap 2 seccedilatildeo 1

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o principal exerciacutecio da feacute eacute a oraccedilatildeo ldquoA oraccedilatildeo eacute fruto da feacute verdadeira eacute a manifestaccedilatildeo

da graccedila na almardquo (STROHL 2004 p 49)

Vemos em Calvino uma feacute disposta Segundo ele a feacute opera grande virtude de se

manter a confianccedila em Deus mesmo quando ele nos envia a morte o oproacutebrio a

enfermidade e a indigecircncia Calvino diz que a praacutetica da oraccedilatildeo eacute uma ordenanccedila eacute a

preparaccedilatildeo a fim de entrarmos em coloacutequio com Deus

Ele defende que a feacute eacute dada por Deus a quem ele deseja Isto eacute ela tem origem natildeo

no homem mas no Criador A feacute na perspectiva calvinista natildeo eacute fruto do esforccedilo humano

natildeo deriva das capacidades inatas do homem em crer piamente em algo tampouco decorre

de alguma habilidade adquirida e desenvolvida ao longo da vida de quem quer que seja

Para Calvino a verdadeira feacute soacute existe quando decorre de Deus que aleacutem de ser seu

autor eacute o seu objeto maior Esta perspectiva da feacute novamente levanta homens e mulheres

para uma resposta ao dom de Deus E para ele eacute impossiacutevel que a verdadeira feacute caminhe

dissociada da Palavra de Deus Retirada a Palavra a feacute fica impossibilitada de resistir a

algo Isto pelo fato de que acima de qualquer outra coisa eacute mediante a feacute que vecircm o

conhecimento da verdade de Deus e a elucidaccedilatildeo da revelaccedilatildeo feita na natureza que

aponta para a existecircncia do Criador mas que sem a Palavra permanece obscurecidamente

compreendida

A feacute ganha perspectiva de engajamento social e em seu texto Humanismo Social

temos evidecircncias de que os ldquoeleitosrdquo pela feacute satildeo atuantes e envolvidos com seu meio

social

Movimentos posteriores eacute a maior prova de como a feacute tomou projeccedilotildees conquistou

e mobilizou vaacuterias geraccedilotildees Portanto caminhamos para a compreensatildeo de que o seacuteculo

XVI era um novo tempo e a feacute vivenciada estava totalmente desfocada de protestante

vemos que a feacute eacute fustigada a prestar conta em seu tempo e o produto desta soacute eacute evidenciado

com o viver intensamente desta feacute Assim nos tempos de isolamento social eacute importante

ver na histoacuteria da cristandade q necessidade de um povo que avanccedila apesar das lutas e

desafios

Para o tempo presente eacute importante que tiremos de Deus a maacutescara da

onipotecircncia Nosso Deus sempre se relacionou e se relaciona Ele natildeo eacute cristatildeo Muito

antes de qualquer crenccedila Ele jaacute existia O que vem posteriormente eacute apenas religiatildeo que

passaram a avocar para si a propriedade do Todo-poderoso como se o Criador fosse

patrimocircnio exclusivo do homem e natildeo o contraacuterio

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Daiacute o fruto desta inversatildeo na relaccedilatildeo de feacute foi de intoleracircncias e conflitos com a feacute

que Deus nos daacute Evidentemente natildeo poderiacuteamos tirar essa ldquomaacutescara de Deusrdquo

imaginando-nos independentes do mundo que vivemos

Pelo contraacuterio demos muita atenccedilatildeo a este mundo agrave pouca credibilidade que ele

reserva agrave Igreja e agrave Feacute quando trata de seus negoacutecios ao crescimento impressionante do

poder da humanidade em inuacutemeros setores e agraves consequecircncias perversas desse poder A feacute

em muito contribuiu para este crescimento mas verificamos tambeacutem como realidade cada

vez mais inegaacutevel que este poder em plena expansatildeo contra a feacute e pela feacute natildeo gera vida

Muitos vivem esquecidos e excluiacutedos enquanto outros em atitude de autodefesa

preventiva refugiam-se nos corporativismos e nos ciacuterculos fechados Hoje todo esse poder

humano cava um vazio enorme insuportaacutevel explorado por seitas de todo tipo que

mediante promessas e exigecircncias aberrantes recrutam seguidores com a maior facilidade

nessa multidatildeo de pessoas amarguradas e desprovidas do essencial da feacute dada por Deus

que sofrem Segundo os evangelhos eacute diante de gente assim que Jesus se sentia ldquotomado

de compaixatildeordquo

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

No cenaacuterio atual da feacute prosseguir na proclamaccedilatildeo da onipotecircncia de Deus seja

associando-a a tudo que eacute extraordinaacuterio ou sem explicaccedilatildeo seja repetindo ingenuamente o

credo tradicional sem explicaccedilatildeo e reflexatildeo sem perceber as interpelaccedilotildees que essa

proclamaccedilatildeo hoje levanta seraacute continuar contribuindo para a rejeiccedilatildeo do Evangelho e da

real dimensatildeo da feacute que estaacute tatildeo deplorada pelas igrejas O Deus de Jesus Cristo instiga os

seus a exaltar seu poder Ou pede que reconheccedilam seu amor A ldquogeraccedilatildeo maacute e aduacuteltera

que reclama um sinalrdquo (Mateus 1239 e 164) ldquogeraccedilatildeo increacutedulardquo (Marcos 919) seriacuteamos

nos hoje confessando a feacute e impondo teimosamente a maacutescara da onipotecircncia ao Deus que

se revela pela face de Cristo crucificado

Apoacutes tantas ilusotildees de um progresso sem fim da humanidade apoacutes tantas

promessas de vida abundante e justa para todos apoacutes a monstruosidade da Shoah e a

sucessatildeo de guerras muitas provocadas pela diferenccedila de compreensatildeo da feacute e em torno da

feacute ou pela feacute obriga-nos a reconhecer a verdade que a velha Biacuteblia obstinadamente nos

passa Deus natildeo desarma o mal nem transforma os seus numa casta protegida e

privilegiada O Deus de Israel e de Jesus decididamente natildeo alardeia poder irresistiacutevel

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Ele se daacute a conhecer ao mundo por um projeto propositadamente alheio agrave

dominaccedilatildeo e sobretudo agrave onipotecircncia porque contesta as relaccedilotildees de forccedila na organizaccedilatildeo

da vida Ele eacute alvo da nossa feacute e isso eacute o que o agrada O reino que ele propotildee eacute diferente

de outros essa eacute a beleza louca da nossa feacute ou deveria ser A palavra ldquoonipotecircnciardquo natildeo

aproxima o amor de Deus libertador da vida parece estar longe do bom pastor que Jesus

apresentou

ldquoEu sou o Bom Pastor que daacute a sua vida pelas ovelhas Eu sou a porta quem entra

por mim seraacute salva entraraacute e sairaacute e encontraraacute pastagemrdquo (Joatildeo 9) Jesus eacute o cuidador da

alma que fundamentalmente nos liberta de tudo o que nos aprisiona adoece e mata Isso

eacute sua salvaccedilatildeo Natildeo haacute aprisionamentos em Jesus e no seu Evangelho de tal modo que os

seus entram e saem livremente de forma espontacircnea natildeo satildeo cerceados Para seguirem

Jesus precisam ouvir e reconhecer sua Voz no coraccedilatildeo porque natildeo haacute condicionamentos

manipulaccedilatildeo regras de contenccedilatildeo Os que estatildeo em Jesus entram e saem

Quem lecirc as escrituras com a feacute simples de nela encontrar Palavra de Vida jamais

seraacute manipulado de qualquer ordem e jamais se sentiraacute coagido pelo medo a permanecer

em qualquer sistema A Religiatildeo aprisiona trabalha com o medo de que se algueacutem deixar

de seguir ou fazer o que mandam seraacute castigado ou que se resolver deixar aquele

ambiente religioso seraacute castigado por seres espirituais que se vingaratildeo da decisatildeo de

romper com tal realidade

A feacute nos mobiliza a agradar a Deus vem dele para que ningueacutem se glorie e toda

vez que estamos em movimento favoraacutevel ou contraacuterio estamos sendo guiado pela feacute E

isso agrada a Deus ldquoConheccedilo as tuas obras que nem eacutes frio nem quente quem dera foras

frio ou quente Assim porque eacutes morno e natildeo eacutes frio nem quente vomitar-te-ei da minha

bocardquo

(Apocalipse 31516) A feacute nos impele nos move nos conduz Simples assim para

o alto e avante

REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS

ALEXANDRIA Clemente de Stromata de notas Gnoacutesticas segundo a Verdadeira

Filo Editorial Ciudad Nueva Madrid 1996

AULEacuteN Gustaf A Feacute Cristatilde Traduccedilatildeo de Dirson Glecircnio Vergara dos Santos Satildeo

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BARTH Wilmar Luiz O homem poacutes-moderno religiatildeo e eacutetica Telecomunicaccedilotildees

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o mundo contemporacircneo Rio de Janeiro Jorge Zahar Editor 1997

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Histoacuteria do Antigo Testamento Editora Vozes Ltda 1ordf ediccedilatildeo Petroacutepolis RJ 1996

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Paulo Satildeo Paulo Paulus 1992

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religioso na teologia de Claude Geffreacute 2ordm ed Satildeo Paulo Paulinas Belo Horizonte

Editora PUC Minas 2010

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Recriar 2019

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Satildeo Leopoldo RS Sinodal 2004

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STROHL Henri Pensamento da Reforma ASTE 2004

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Andreacute Academia Cristatilde 2005

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WENGST Klaus Pax romana pretensatildeo e realidade Satildeo Paulo Paulinas 1991

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Autor ndash Me Marcos Camilo Santana

Escritor Compositor e multi-

instrumentista Tem formaccedilatildeo

interdisciplinar comeccedilando pela

Musicalidade especialmente no baixo

eleacutetrico pela ULM SP fez graduaccedilatildeo em

Musicoterapia depois em Comunicaccedilatildeo

Social - Jornalismo - e Publicidade e

Propaganda aleacutem de licenciatura em

Histoacuteria e Bacharelado em Teologia pela

FATIPI - Faculdade de Teologia de Satildeo

Paulo da Igreja Presbiteriana

Independente do Brasil Especialista em

Gestatildeo Empresarial pela Universidade

Anhembi Morumbi e com MBA em

Marketing pela PUCSP tambeacutem

especialista em gecircnero e diversidade pela

UFABC Eacute mestre e doutorando em

Ciecircncias da Religiatildeo tambeacutem pela

PUCSP

Atuou como publicitaacuterio em grandes

meios de comunicaccedilatildeo e como professor

universitaacuterio em cadeiras de

comunicaccedilatildeo e filosofia da religiatildeo

Ministro ordenado na Igreja

Presbiteriana Independente do Brasil

Casado e pai de duas filhas

E-mail revmarcossantanagmailcom

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O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO

RESUMO

As informaccedilotildees sobre o livro de Atos dos Apoacutestolos no que se refere ao puacuteblico alvo

autor e demais referenciais histoacutericos satildeo imprecisos todavia evidecircncias histoacutericas e

estiliacutesticas apontam o gentio Lucas como o redator tanto do Evangelho de Lucas quanto

de Atos dos Apoacutestolos O Livro descreve o iniacutecio da Era Apostoacutelica onde a profecia do

profeta Joel se cumpre e a accedilatildeo do Espiacuterito Santo eacute expandida a partir do ministeacuterio de

Pedro e posteriormente de Paulo que de perseguidor dos cristatildeos passou a ser difusor do

Evangelho As viagens missionaacuterias comeccediladas por Felipe e Pedro ganham novos

destinos com Paulo que vai a territoacuterios da Aacutesia Menor e Europa convertendo a muitos e

experienciando a rejeiccedilatildeo dos Judeus Entre pregaccedilotildees e motins Paulo vai a Atenas e eacute

ouvido no Areoacutepago

Palavras-chave Atos Apoacutestolo Paulo Areoacutepago Atenas

The information on the book of Acts of the Apostles with regard to the target audience

author and other historical references are inaccurate however historical and stylistic

evidence points to the Gentile Luke as the editor of both the Gospel of Luke and the Acts

of the Apostles The Book describes the beginning of the Apostolic Age where the prophet

Joels prophecy is fulfilled and the action of the Holy Spirit is expanded from the ministry

of Peter and later of Paul who as a persecutor of Christians became the diffuser of the

Gospel The missionary trips started by Felipe and Pedro gain new destinations with Paul

who goes to territories in Asia Minor and Europe converting to many and experiencing the

rejection of the Jews Between sermons and riots Paul goes to Athens and is heard in the

Areopagus

Keywords Acts Apostle Paul Areopagus Athens

autor

Dr Lucas Gabriel Correia Silva

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INTRODUCcedilAtildeO

ldquoFiz o primeiro tratado oacute Teoacutefilo acerca de tudo que Jesus comeccedilou natildeo soacute a

fazer mas a ensinarrdquo assim como no Evangelho de Lucas o livro de Atos dos Apoacutestolos

foi endereccedilado jaacute no seu prefaacutecio a um homem chamado Teoacutefilo (Lucas 13 Atos 11)

cujo nome significa ldquoAquele que ama a Deusrdquo Apesar da expressa citaccedilatildeo ao destinataacuterio

do texto que ora se compunha ainda eacute nebulosa a informaccedilatildeo sobre o puacuteblico alvo ou seja

o contingente maior que a narrativa se propunha a atingir

Sabe-se que o autor era gentio de fala grega A tradiccedilatildeo histoacuterica somada agraves

evidecircncias estiliacutesticas apontam Lucas gentio convertido e companheiro do Apoacutestolo

Paulo como o redator dos textos que foram posteriormente compreendidos em dois

volumes as derradeira parte intitulada Atos dos apoacutestolos cerca de 150 DC Paulo em

suas epiacutestolas se refere a ele como ldquoLucas o meacutedico amadordquo (Colossenses 414) e expotildee

ldquoSoacute Lucas estaacute comigordquo (II Timoacuteteo 411)

1 EM BUSCA DO CENAacuteRIO HISTOacuteRICO

Outros referencias histoacutericos de Atos natildeo destoam do cenaacuterio impreciso que por

sua vez inspira diversas correntes distintas entre os pesquisadores Mesmo a questatildeo da

autoria eacute extremamente relevante para valorar a validade dos conteuacutedos do livro para a

Arqueologia e Historiografia e eacute neste contexto que tenta-se vislumbrar uma narrativa

coerente tanto internamente ndash entre os elementos suscitados pelo proacuteprio texto ndash quanto

externamente ndash em vista das diversas fontes histoacutericas que corroboram as personalidades e

fatos ora descritas

O Livro descreve o iniacutecio da Era Apostoacutelica tambeacutem conhecida por ldquoIgreja

Primitivardquo a fase histoacuterica inicial do cristianismo detalhando e situando os primoacuterdios da

expansatildeo do evangelho e da formaccedilatildeo das comunidades cristatildes Ipso facto os primeiros

nuacutecleos de evangelismo se encontravam em Jerusaleacutem e circunvizinhanccedila e eram vistos

como espeacutecie de apecircndice do Judaiacutesmo que assimilavam Jesus Cristo como ldquoo cordeiro de

Deus Aquele que tira o pecado do mundordquo (Joatildeo 129)

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2 A EXPANSAtildeO DA FEacute CRISTAtilde

No processo de expansatildeo da feacute cristatilde a profecia revelada atraveacutes de Joel ldquoe haacute que

ser que depois derramarei o meu Espiacuterito sobre toda a carne e vossos filhos e vossas

filhas profetizaratildeo os vossos velhos teratildeo sonhos os vossos jovens teratildeo visotildees E tambeacutem

sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espiacuteritordquo (Joel 228-29)

eacute acentuada pelas palavras do Cristo Ressurreto ldquoE estando com eles determinou-lhes que

natildeo se ausentassem de Jerusaleacutem mas que esperassem a promessa do Pai que (disse ele)

de mim ouvistes Porque na verdade Joatildeo batizou com aacutegua mas voacutes sereis batizados

com o Espiacuterito Santo natildeo muito depois destes diasrdquo (Atos 14-5) e ganha uma

significacircncia central para a Era Apostoacutelica nos termos seguintes ldquoMas recebereis a

virtude do Espiacuterito Santo que haacute de vir sobre voacutes e ser-me-eis minhas testemunhas tanto

em Jerusaleacutem como em toda a Judeacuteia e Samaria e ateacute os confins da terrardquo (Atos 18) pois

o roteiro deslindado em Atos eacute justamente o caminho do Evangelho a partir de Jerusaleacutem

ndash capiacutetulo 1 a 7 ndash passando pela Judeacuteia e Samaria ndash capiacutetulo 8 a 12 ndash ateacute os confins da terra

ndash capiacutetulo 13 ao 28

3 DE PEDRO A PAULO (EXPANSAtildeO DA OBRA DE MISSOtildeES)

Desta forma a narrativa de Atos se desloca do ministeacuterio de Pedro para o

ministeacuterio do Apostolo Paulo quando este ainda Saulo encontra-se com o Senhor Jesus

transfigurado em um resplendor de luz que lhe interpotildee ldquoSaulo Saulo por que me

perseguesrdquo (Atos 94) e daacute o ultimato ldquoLevanta e entra na cidade e laacute te seraacute dito o que

convecircm fazerrdquo (Atos 96)

Paulo encontrando a feacute cristatilde passou subitamente de ferrenho perseguidor a

difusor do Evangelho comeccedilando suas pregaccedilotildees nas sinagogas de Damasco Todavia a

inserccedilatildeo de Paulo entre os disciacutepulos natildeo foi raacutepida haja vista a natural desconfianccedila

As viagens missionaacuterias em Atos dos Apoacutestolos comeccedilam por Felipe em sua ida a

Samaria com o fulcro de anunciar as boas novas viajem que eacute estendida quando ouve do

Anjo do Senhor ldquoLevanta-te e vai para a banda do Sul ao caminho que desce de

Jerusaleacutem para Gaza que estaacute desertordquo (Atos 826)

Antes de abordar as incursotildees de Paulo o autor tambeacutem narra as viagens de Pedro

(Atos 932) todavia somente o Apoacutestolo Paulo logrou tais viagens enquanto estrateacutegias

para a difusatildeo do evangelho na Aacutesia Menor e Europa

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A partir do capiacutetulo 13 entatildeo observa-se o pleito de Paulo inicialmente na

companhia de Barnabeacute em explorar os territoacuterios da Aacutesia Menor iniciando pelo porto

mariacutetimo da Antioquia Salecircucia (Atos 134) Apoacutes testemunhar a feacute encontrada em Jesus

Cristo uma vez mais experimenta a rejeiccedilatildeo dos judeus Cruza o mar mediterracircneo e

desembarca em Salamina na ilha de Chipre e de laacute parte para a Ilha de Pafos onde

explora vilas e aldeias da adjacecircncia

Apoacutes as pregaccedilotildees em Pafos Paulo e Barnabeacute navegam pelo Rio Cestro

alcanccedilando Perge na Panfiacutelia e entatildeo tomam rumo para a Antioquia da Psiacutedia Na nova

empreitada a cerca de 160 quilocircmetros da regiatildeo da Panfiacutelia os resultados foram

positivos ldquoe saiacutedos os judeus da sinagoga os gentios rogaram que no saacutebado seguinte lhes

fossem ditas as mesmas palavras E despedida a sinagoga muitos dos judeus e dos

proseacutelitos religiosos seguiram Paulo e Barnabeacute os quais falando-lhes os exortavam a que

permanecessem na graccedila de Deusrdquo (Atos 1342-43) No saacutebado seguinte assim como

pedido anunciaram as boas novas a um grande ajuntamento de pessoas poreacutem uma vez

mais prevalecera a rejeiccedilatildeo dos judeus pelo que foram expulsos da cidade

Continuam a incursatildeo missionaacuteria em Icocircnio cidade entreposto para Eacutefeso Tarso

Antioquia e demais regiotildees do Oriente Como acontecera em Perge a multidatildeo se divide

entre apoiadores e oposicionistas dos Apoacutestolos (Atos 146) Apoacutes um motim para mata-

los Paulo e Barnabeacute fogem para a Licaocircnia mais especificamente a cidade de Listra e

posteriormente Derbe Assim finalizam a primeira viagem missionaacuteria com um saldo de

muitos convertidos e vaacuterias experiecircncias de ldquoquase morterdquo

Voltando para a Antioquia da Siacuteria ldquorelataram quatildeo grandes coisas Deus fizera por

eles e como abrira aos gentios a porta da feacuterdquo (Atos 1327) Rompendo todavia a parceria

missionaacuteria que ateacute entatildeo se firmara entre Paulo e Barnabeacute (Atos 1539) o Apoacutestolo tomou

a companhia de Silas e se direcionaram agrave Asia

Passam entatildeo pela Siacuteria e Ciliacutecia e em Listra junta-se a eles Timoacuteteo (Atos 161)

Tomam o caminho da regiatildeo da Friacutegia e da Galaacutecia poreacutem ldquoforam impedidos pelo Espiacuterito

Santo de anunciar a palavra na Aacutesiardquo (Atos 166) de forma que seguiram para Miacutesia e

intentavam ir para Bitiacutenia Uma vez mais exortados pela accedilatildeo do Espiacuterito Santo mudam o

destino para Trocircade na costa do mar Egeu

Em Trocircade Paulo tem uma visatildeo que o orienta a seguir agrave Macedocircnia Passa por

Samotraacutecia e Neaacutepolis e finalmente chegam a Filipos onde seratildeo novamente encarcerados

por expulsarem um espiacuterito maligno de adivinhaccedilatildeo (Atos 1618) Encarcerados um

terremoto pocircs abaixo a prisatildeo enquanto adoravam e louvavam a Deus (Atos 1625-26)

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Foram libertos pelos magistrados da cidade e se despedindo da congregaccedilatildeo de Filipos

seguiram a peacute para Tessalocircnica

Segunda Viagem Missionaacuteria de Paulo (Sociedades Biacuteblicas Unidas 1995)

De Tessalocircnica seguiram para Bareacuteia e daiacute Paulo foi conduzido por alguns irmatildeos

a Atenas Silas e Timoacuteteo poreacutem permaneceram no destino anterior

Atenas capital da Aacutetica e centro da efervescecircncia cultural da eacutepoca era

reconhecida pela alta idolatria e vaidade de sua populaccedilatildeo aleacutem da imoralidade

publicamente defendida pelas autoridades atenienses Paulo fica extremamente

incomodado com o cenaacuterio que vivencia de forma que ldquoo seu espiacuterito se comovia em si

mesmo vendo a cidade tatildeo entregue agrave idolatriardquo (Atos 1716)

Superada a discussatildeo quanto aos maus costumes atenienses que deveras afligiram

ao Apostolo Paulo cumpre esclarecer quais eram as instituiccedilotildees gregas de Atenas e dentro

desse contexto o que significa o discurso de Paulo diante do Areoacutepago notadamente um

dos sermotildees mais inspiradores da literatura cristatilde

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4 O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO

Sabe-se que as instituiccedilotildees atenienses podem ser divididas em instituiccedilotildees poliacuteticas

(governo da cidade) e juriacutedicas (tribunais) Na esfera poliacutetica destacam-se a Ekklecircsia ndash

Assembleia do Povo ndash Boulecirc ndash Conselho ndash Priacutetanes ndash Cuacutepula do Boulecirc ndash os estrategos e os

magistrados estes uacuteltimos divididos em arcontes e secundaacuterios Na esfera juriacutedica a

justiccedila civil ficava a cargo dos aacuterbitros heliastas e tribunais mariacutetimos os Efetas e o

Areoacutepago eram encarregados pela justiccedila criminal

Exercendo a jurisdiccedilatildeo criminal ateniense o Delfiacutenio o Freaacutetis o Palaacutedio e o

Pritaneu eram cortes especiais que juntas formavam o tribunal dos Efetas composto por

cidadatildeos sorteados entre os maiores de 50 anos Por outro lado numa espeacutecie de

competecircncia criminal residual o Areoacutepago era a mais antiga instituiccedilatildeo do tipo em Atenas

Inicialmente o Areoacutepago era um tribunal aristocraacutetico que aleacutem da jurisdiccedilatildeo

criminal tambeacutem era consultado para assuntos poliacuteticos de diversas ordens Ao longo dos

anos passou por inuacutemeras reformas que esvaziaram seus podres Formado por ex-

arcontes foi o tribunal que tratou de ouvir Paulo porquanto alguns filoacutesofos epicureus e

estoacuteicos o acusavam de ser causa de balbuacuterdia entre a populaccedilatildeo

Paulo no meio do Areoacutepago aproveita-se da oportunidade para apregoar de forma

eloquente o que se sucedera nas praccedilas e sinagogas atenienses nas seguintes palavras

ldquoVarotildees atenienses em tudo vos vejo um tanto supersticiosos porque passando eu e

vendo os vossos santuaacuterios achei tambeacutem um altar em que estava escrito AO DEUS

DESCONHECIDO Esse pois que voacutes honrais natildeo o conhecendo eacute o que vos anunciordquo

(Atos 1722-23)

A estrateacutegia que Paulo utilizou em seu discurso convenceu a muitos inclusive os

Areopagitas que o ouviam (Atos 1734) As suas colocaccedilotildees diante do tribunal foram sem

duacutevidas emblemaacuteticas mas o recrudescimento dos atenienses diante da feacute cristatilde

principalmente pela falta de compreensatildeo a respeito da ressurreiccedilatildeo de Jesus Cristo foram

fatores impeditivos para a conversatildeo de mais pessoas em Atenas

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REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS

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GIORDANI Maacuterio Curtis Histoacuteria da Greacutecia claacutessica antiguidade I Petroacutepolis

Vozes 1984 GLOTZ Gustave A cidade grega Satildeo Paulo DIFEL 1980

WILLIAMS David Atos Satildeo Paulo Vida 1996

Autor ndash Dr Lucas Gabriel Correia Silva

Bacharel em Direito pela Universidade Paulista -

UNIP eacute advogado soacutecio do escritoacuterio Correia amp

Lopes presidente da Comissatildeo OAB vai agrave

Escola da 198ordf subseccedilatildeo da OABSP diretor

administrativo e diaacutecono da Assembleia de Deus

ministeacuterio de Perus regional Itapevi Foi ainda

assessor da Secretaria de Educaccedilatildeo de Itapevi e

professor de filosofia e muacutesica atuaccedilatildeo

educacional que lhe rendeu a outorga do tiacutetulo de

Cidadatildeo Itapeviense Benemeacuterito

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REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NO LIVRO DE LEVIacuteTICO

RESUMO

A Biacuteblia eacute um livro complexo Para que sua mensagem seja a mais proacutexima possiacutevel da intenccedilatildeo

original a interpretaccedilatildeo biacuteblica exige que o leitor considere ferramentas e criteacuterios como a

revelaccedilatildeo progressiva ou as normas de hermenecircutica e exegese Dentre esses criteacuterios um se

mostra fundamental entre os inteacuterpretes mais conservadores a centralidade de Jesus Cristo o

Messias prometido Ele eacute a chave de interpretaccedilatildeo da Biacuteblia de Gecircnesis ateacute Apocalipse Por isso

analisar as ofertas volitivas e compulsoacuterias no livro de Leviacutetico eacute saber que para os peregrinos do

deserto a revelaccedilatildeo era parcial mas para noacutes ela tornou-se final na pessoa real do Messias Os

ldquotiposrdquo ali contidos materializaram-se em Jesus o antiacutetipo A sombra tornou-se realidade e o que

ainda estava obscuro foi totalmente desvelado A revelaccedilatildeo messiacircnica estaacute contida nas ofertas

volitivas e compulsoacuterias aguardando um espiacuterito inquiridor para encontraacute-la

Palavras-chave Ofertas volitivas Ofertas compulsoacuterias Revelaccedilatildeo messiacircnica

ABSTRACT The Bible is a complex book In order for your message to be as close as possible to

the original intention biblical interpretation requires the reader to consider tools and criteria such

as progressive revelation or the rules of hermeneutics and exegesis Among these criteria one is

fundamental among the most conservative interpreters the centrality of Jesus Christ the promised

Messiah He is the key to interpreting the Bible from Genesis to Revelation Therefore to analyze

the volitional and compulsory offerings in the book of Leviticus is to know that for the pilgrims of

the desert the revelation was partial but for us it became final in the real person of the Messiah

The ldquotypesrdquo contained therein materialized in Jesus the antitype The shadow became a reality and

what was still obscure was completely unveiled Messianic revelation is contained in volitional and

compulsory offerings waiting for a spirit inquirer to find it

Keyword Voluntary offers Compulsory offers Messianic revelation

autor

Bach Odilon Soares Moreira

E-mail odilonmoreira13hotmailcom

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INTRODUCcedilAtildeO

A Biacuteblia eacute um livro complexo Para que sua mensagem seja a mais proacutexima

possiacutevel da intenccedilatildeo original a interpretaccedilatildeo biacuteblica exige que o leitor considere

ferramentas e criteacuterios como a revelaccedilatildeo progressiva ou as normas de hermenecircutica e

exegese Dentre esses criteacuterios um se mostra fundamental entre os inteacuterpretes mais

conservadores a centralidade de Jesus Cristo o Messias prometido Ele eacute a chave de

interpretaccedilatildeo da Biacuteblia de Gecircnesis ateacute Apocalipse

A interpretaccedilatildeo dos livros que compotildeem o Antigo Testamento natildeo eacute diferente

pois as leis instituiccedilotildees e festas em quase sua totalidade giravam em torno da figura do

Messias prometido Essa compreensatildeo soacute eacute possiacutevel hoje porque enxergamos Jesus Cristo

ldquode fora para dentrordquo e natildeo o inverso Todos os personagens que participaram da histoacuteria

biacuteblica iam construindo-na individualmente e tambeacutem recebendo a revelaccedilatildeo

simultaneamente A junccedilatildeo das revelaccedilotildees parciais dadas a eles chegou ateacute noacutes completa

Os atores biacuteblicos eram por assim dizer construtores que participavam da

edificaccedilatildeo de um preacutedio mas natildeo o viam na sua completude tal qual noacutes podemos ver

Hoje temos o Velho Testamento e o Novo Testamento para consultarmos eles poreacutem

viveram e morreram sem testemunhar a materializaccedilatildeo do seu trabalho pois o cacircnon

sagrado soacute foi completado definitivamente seacuteculos mais tarde

Analisar as ofertas volitivas e compulsoacuterias no livro de Leviacutetico eacute saber que para

os peregrinos do deserto que caminhavam rumo a terra prometida a revelaccedilatildeo era parcial

mas para noacutes ela tornou-se final na pessoa real do Messias Os ldquotiposrdquo ali contidos

materializaram-se em Jesus o antiacutetipo A sombra tornou-se realidade e o que ainda estava

obscuro foi totalmente desvelado

Dessa forma fazer uma boa exegese dos textos biacuteblicos demanda um certo

esforccedilo principalmente quando a anaacutelise eacute feita a partir dos textos tipoloacutegicos Isso eacute

resultante do fato de que os limites para aplicaccedilatildeo da tipologia apresentam algumas

barreiras pois haacute uma linha muito tecircnue entre o que deve ser considerado tipoloacutegico e o

que natildeo se deve Natildeo aplicar a tipologia ao que se deve nos impede de penetrar no mar de

peacuterolas da revelaccedilatildeo biacuteblica mas erraremos tambeacutem se irmos aleacutem dessa tipologia e esse

erro nos induziraacute a introduzir pensamentos estranhos ao texto

A busca da revelaccedilatildeo do Messias simbolicamente encontrada nos textos deve ser

entatildeo pautada por certos criteacuterios dados pela tipologia Todavia mesmo essa ferramenta da

hermenecircutica apresenta algumas contradiccedilotildees internas posto que natildeo haacute unanimidade

entre os estudiosos sobre o que deve ser considerado tipoloacutegico ou natildeo Dessa forma

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dependendo da posiccedilatildeo que o inteacuterprete assume sobre o que pode ser considerado

tipoloacutegico haveraacute total influecircncia na sua interpretaccedilatildeo

Temos entatildeo algumas questotildees postas diante de noacutes relacionadas agrave revelaccedilatildeo

messiacircnica nas ofertas volitivas e compulsoacuterias descritas no livro de Leviacutetico O que eram

essas ofertas Por que foram dadas Quais eram suas funccedilotildees e por fim como

podemos extrair delas uma tipologia e ver nas suas entrelinhas a figura do Messias

Essas questotildees contudo natildeo devem ser consideradas como barreiras

intransponiacuteveis elas podem ser superadas e assim fazendo chegaremos a uma correta

interpretaccedilatildeo dos textos em que o Messias aparece de forma simboacutelica Superadas ainda

que natildeo totalmente essas questotildees veremos o quatildeo belo o Messias se apresenta atraveacutes da

tipologia objeto da presente pesquisa

Posto isso o presente artigo propotildee-se ainda que resumidamente a apresentar as

trecircs principais correntes teoloacutegicas que buscam o melhor caminho para uma interpretaccedilatildeo

mais fidedigna dos ldquotiposrdquo biacuteblicos A partir da opccedilatildeo por uma das trecircs tambeacutem

analisaremos as ofertas volitivas e compulsoacuterias demonstrando o porquecirc delas se

adequarem na categoria ldquotipordquo e a partir dessa anaacutelise mostrar a figura do Messias

existente nas suas entrelinhas

1 TIPOLOGIA

Devido a algumas controveacutersias que envolvem a tipologia biacuteblica cabe alguns

esclarecimentos para norteamos as interpretaccedilotildees e afirmaccedilotildees que aqui seratildeo feitas no

tocante a alguns ldquotiposrdquo biacuteblicos Essa reflexatildeo reveste-se de grande importacircncia visto

que a depender da posiccedilatildeo que o interprete adota sobre o que deve ser um tipo ou o que

natildeo deve afetaraacute toda a sua hermenecircutica

Mesmo havendo correntes antagocircnicas sobre as questotildees de interpretaccedilatildeo

tipoloacutegica isso natildeo nos impede de utilizar a tipologia como ferramenta auxiliar na

interpretaccedilatildeo dos textos E podemos fazer essa declaraccedilatildeo de forma indubitaacutevel pois a

proacutepria Biacuteblia nosso uacutenico referencial absoluto faz uso desse recurso hermenecircutico

Os seguintes versos neotestamentaacuterios nos oferecem base segura para a utilizaccedilatildeo

da tipologia na interpretaccedilatildeo de textos veterotestamentaacuterios Hb 85 Hb 99 Hb 923-24

Hb 101 Col 217 Os termos ldquosombrardquo ldquoalegoriardquo ldquofigurasrdquo ldquoparaacutebolasrdquo ldquoilustraccedilatildeordquo

ldquocoacutepiasrdquo ldquosiacutembolordquo e ldquomodelordquo que satildeo traduccedilotildees do vocaacutebulo grego upodeigmati

confirmam a nossa proposiccedilatildeo

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11 - Definiccedilatildeo de tipologia

O termo tipologia eacute derivado da palavra grega ldquotiposrdquo encontrada nas seguintes

referecircncias biacuteblicas 1Co 1011 1Ts 17 1Pe 53 Fp 317 2Ts 39 Tt 27 Hb 85 Jo

2025 (2) 2Pe 112 Jd 15 1Ti 412 1Co 106 At 743 44 At 2325 Rm 514 617 Essa

palavra grega eacute vertida para a biacuteblia em portuguecircs da Almeida Revista e Corrigida (ARC)

como ldquofigurardquo e ldquoexemplordquo Strong daacute entre outras a seguinte definiccedilatildeo da palavra grega

ldquotiposrdquo ldquo() uma pessoa ou coisa que prefigura algo ou algueacutem (messiacircnico) futurordquo

(STRONG G5179)

Assim podemos constatar que o termo grego ldquotiposrdquo que deu origem a palavra

tipologia tambeacutem aparece nas Escrituras neotestamentaacuterias Dessa forma de maneira

geral as revelaccedilotildees messiacircnicas do Velho Testamento como ldquotipordquo cujo desvelamento

absoluto dar-se-aacute no Novo Testamento na pessoa de Jesus o Antiacutetipo

12 - A tipologia como ferramenta da hermenecircutica

Vemos que a lei conforme afirma o autor da carta aos hebreus ldquo() traz apenas

uma sombra dos benefiacutecios que hatildeo de vir e natildeo a realidade dos mesmos ()rdquo (BIacuteBLIA

NVI Hebreus 10) Com base nas declaraccedilotildees dos autores do Novo Testamento podemos

construir um edifiacutecio seguro de interpretaccedilatildeo utilizando a tipologia como ferramenta

hermenecircutica auxiliar pois os autores sacros tambeacutem dela fizeram uso A lei mosaica eacute

entatildeo apenas uma sombra que apontava para o objeto real ou seja Jesus Cristo o

Messias

13 - As Escrituras e a tipologia

O Pentateuco testificava do Messias bem como todos os profetas em maior ou

menor grau vaticinaram sobre o seu futuro aparecimento Lei e profetas falaram tatildeo

somente da figura central de toda as Escrituras o Messias Essa afirmaccedilatildeo foi feita pelo

proacuteprio Messias

E ele lhes disse Oacute neacutescios e tardos de coraccedilatildeo para crer tudo o que os profetas

disseram Porventura natildeo convinha que o Cristo padecesse essas coisas e

entrasse na sua gloacuteria E comeccedilando por Moiseacutes e por todos os profetas

explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras (BIacuteBLIA ARA

Lucas 2425-27)

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O filoacutesofo e teoacutelogo dos primoacuterdios da igreja Agostinho de Hipona compreendia

bem essa verdade biacuteblica quando cunhou sua celebre frase ldquoO novo estaacute contido no antigo

o antigo eacute explicado pelo novordquo (HABERSHON 2001 p 11)

Embora o livro de Hebreus seja uma das Escrituras neotestamentarias onde mais

encontramos elucidaccedilotildees dos ldquotiposrdquo veterotestamentaacuterios nas epiacutestolas paulinas tambeacutem

as vemos em abundacircncia Vaacuterias satildeo as citaccedilotildees que o apoacutestolo dos gentios faz ao Antigo

Testamento para fundamentar sua teologia Um exemplo claacutessico de uma alegoria feita por

ele encontra-se em Gl 421-30 no qual que descreve Agar e Sara como sendo

representativas da alianccedila da lei e da alianccedila da graccedila respectivamente

Em suma temos fartas evidecircncias biacuteblicas que nos fornecem alicerce seguro para

a aplicaccedilatildeo da tipologia nos textos sagrados da Velha Alianccedila onde de forma velada

aparecem a figura do Messias Devemos no entanto fornecer algumas informaccedilotildees baacutesicas

sobre algumas correntes divergentes Em linhas gerais tudo gira em torno da questatildeo sobre

o que deve ser considerado tipoloacutegico e o que natildeo se deve

14 - A tipologia e as correntes teoloacutegicas

Quando falamos de tipologia devemos pensar em uma ferramenta utilizada pela

ciecircncia da hermenecircutica para o auxiacutelio na compreensatildeo dos siacutembolos biacuteblicos que

apontavam para o Messias Eacute praticamente consenso entre os estudiosos das Escrituras que

existem simbolismos no Velho Testamento cujo cumprimento se realizou no Novo Poreacutem

temos algumas correntes teoloacutegicas que divergem a respeito da maneira de interpretaacute-los e

aplicaacute-los

O ponto majoritaacuterio da discordacircncia reside no fato de estabelecer o quatildeo explicito

deve ser esse tipo nas Escrituras Nesse sentido pelo menos trecircs posiccedilotildees teoloacutegicas satildeo

apresentadas a fim de fornecer uma maior seguranccedila na correta interpretaccedilatildeo dos ldquotiposrdquo

veterotestamentaacuterios Zuck resume essas trecircs linhas de pensamento

Como vamos saber quais personagens acontecimentos e fatos do Antigo

Testamento Deus pretendeu que servissem de ldquotiposrdquo Deus deve ter criado os

ldquotiposrdquo mas a questatildeo eacute descobrir com que finalidade os criou Chegamos agora

ao maior problema do estudo da tipologia () alguns professores biacuteblicos

enxergam muito mais ldquotiposrdquo que outros Haacute tambeacutem aqueles que sustentam que

os ldquotiposrdquo satildeo apenas os que se encontram expressos no Novo Testamento Outro

grupo ainda adota a posiccedilatildeo intermediaacuteria entre essas duas opiniotildees e afirma que

ldquotiposrdquo podem ser tanto os que estatildeo explicitados como tambeacutem os que estatildeo

impliacutecitos ou seja que satildeo insinuados mas natildeo declarados (ZUCK 1994 p

203)

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Assim a adoccedilatildeo de qualquer dessas trecircs correntes nortearaacute e determinaraacute a

interpretaccedilatildeo do estudioso dos siacutembolos messiacircnicos Vejamos sinteticamente algumas

dessas correntes teoloacutegicas

141 - ldquotiposrdquo natildeo ratificados pelo Novo Testamento

A primeira corrente de estudiosos das tipologias biacuteblicas defende que qualquer

siacutembolo que apareccedila no Velho Testamento desde que tenha certa correspondecircncia com o

Messias natildeo precisa de sua ratificaccedilatildeo explicitada no Novo Testamento Essa corrente

poreacutem eacute criticada por considerar como sendo ldquotiposrdquo muitos elementos de pouca

importacircncia podendo levar a uma alegorizaccedilatildeo extremada

Desse modo qualquer coisa que apresentou futuramente semelhanccedila com algo

pode ser classificada como tipo Exemplo disso vemos na interpretaccedilatildeo de um dos pais

apostoacutelicos cujo nome era Justino Maacutertir que via na personagem biacuteblica Lia uma

representaccedilatildeo dos judeus Raquel representava a igreja e Jacoacute simboliza Cristo que serve a

ambos

Assim por exemplo a vida de Joseacute filho de Israel mesmo natildeo tendo nenhuma

passagem no Novo Testamento que o identifique como sendo um tipo do Messias as

semelhanccedilas das ocorrecircncias - segundo Habershon cerca de 131 - na sua vida tem um

paralelo com a vida de Jesus Essa tese eacute defendida por Ada Habershon na sua obra

ldquoManual de Tipologia Biacuteblica como reconhecer e interpretar siacutembolos ldquotiposrdquo e alegorias

das Escrituras sagradasrdquo

Para essa autora a histoacuteria da peregrinaccedilatildeo dos filhos de Israel durante quarenta

anos no deserto tinha um propoacutesito especial nos ensinar algumas verdades espirituais e

Paulo iraacute fazer referecircncia em 1Co 10 Na sua loacutegica continua a autora se haacute uma

correspondecircncia entre as verdades espirituais ensinadas a eles e a noacutes logo as demais

partes das histoacuterias tambeacutem tem o mesmo propoacutesito Ela diz

() todas as coisas que foram expressamente ordenadas por Deus em conexatildeo

com os sacrifiacutecios no Tabernaacuteculo e no Templo os quais em todos os seus

pormenores foram claramente dados como ldquotiposrdquo sendo que ldquoO Espiacuterito Santo

assim significavardquo mdash algumas liccedilotildees a respeito do Senhor e da sua obra () o

estudo cuidadoso dos ldquotiposrdquo natildeo deixa lugar para duvidarmos que a totalidade

da economia leviacutetica foi divinamente instituiacuteda para prenunciar a obra e pessoa

do proacuteprio Senhor Jesus Cristo (HABERSHON 2003 p 12)

Assim sob essa perspectiva para considerarmos os siacutembolos

veterotestamentaacuterias como sendo ldquotiposrdquo basta encontrarmos correspondecircncia

neotestamentarias natildeo necessitando portanto de uma declaraccedilatildeo explicita do Novo

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Testamento Satildeo adeptos dessa corrente Origenes Justino Maacutertir S Jeronimo Walter L

Wilson e Ada R Habershon

142 - Siacutembolos ratificados pelo Novo Testamento

Em oposiccedilatildeo ao argumento defendido por Habershon estaacute Roy B Zuck cuja obra

ldquoA Interpretaccedilatildeo Biacuteblica Meios de Descobrir a Verdade da Biacutebliardquo apresenta argumentos

contraacuterios no sentido de considerar apenas como ldquotiposrdquo aqueles que aparecem no Novo

Testamento de forma expressa A esses ele denomina de ldquotiposrdquo autecircnticos

Podemos citar para exemplificar essa posiccedilatildeo o cordeiro que era sacrificado no

Velho Testamento para expiaccedilatildeo dos pecados e que corresponde no Novo Testamento a

Jesus como sendo o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 129) Nesse caso

para Zuck o cordeiro eacute um um siacutembolo autecircntico de Cristo por ter sido ele ratificado

como tipo no Novo Testamento No dizer do proacuteprio autor ldquo() para uma figura ser um

tipo ela () precisa ser especificada no Novo Testamento rdquo (ZUCK 1994 p 207)

Segundo o autor pelo menos cinco caracteriacutesticas dos siacutembolos devem ser levadas em

consideraccedilatildeo para que um tipo possa ser identificado e aceito como autentico Satildeo elas

Semelhanccedila o tipo deve ter uma correspondecircncia profunda com o antiacutetipo

Realidade histoacuterica os personagens os fatos e os elementos veterotestamentaacuterios

que satildeo ldquotiposrdquo devem ser reais e tambeacutem surgirem naturalmente do texto

Prefiguraccedilatildeo o tipo autentico deve ser uma sombra que aponta para a realidade o

tipo autecircntico deve conter a prediccedilatildeo isto e a prefiguraccedilatildeo do antiacutetipo

Elevaccedilatildeo o antiacutetipo deve ser maior que o tipo devendo sempre ocorrer uma

expansatildeo elevaccedilatildeo e intensificaccedilatildeo do tipo ateacute culminar no antiacutetipo Assim por

exemplo Cristo (antiacutetipo) eacute superior agrave paacutescoa

Planejamento divino por haver um espaccedilo de seacuteculos entre os ldquotiposrdquo e o antiacutetipo

necessariamente houve um planejamento divino para que a sombra correspondesse

agrave realidade Sendo assim o tipo por ser projeto divino deve ter uma similaridade

com o antiacutetipo

Especificaccedilatildeo no Novo Testamento aleacutem de enquadrar-se nas cinco condiccedilotildees

acima especificadas o tipo autecircntico deve ser especificado no Novo Testamento

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Em apenas uma frase o estudioso Hebert Marsh defendeu assim essa posiccedilatildeo

teoloacutegica No Antigo Testamento devem ser considerados ldquotiposrdquo todos os elementos que

o Novo Testamento assim designar natildeo mais (Zuck apud Marsh 1994 p 204)

Os estudiosos que assim como Zuck defendem os ldquotiposrdquo autecircnticos como sendo

exclusivamente aqueles especificados ou ratificados pelo Novo Testamento satildeo Joseph

Angus Sylvester Burnham Thomas Hartwell Horne Herbert Marsh e Moses Stuart

143 - Corrente intermediaacuteria ldquotiposrdquo expliacutecitos e impliacutecitos

Uma terceira corrente adota uma posiccedilatildeo intermediaria fazendo uma siacutentese

entre as duas posiccedilotildees defendidas por Habershon e Zuck Segundo a perspectiva dessa

corrente teoloacutegica devem ser considerados como sendo ldquotiposrdquo todos aqueles que estatildeo

impliacutecitos no Velho Testamento isto eacute que natildeo sejam necessariamente ratificados no

Novo Testamento e devem ser considerados tambeacutem os que satildeo claramente confirmados

no Novo Testamento Assim tanto um como outro utilizando a expressatildeo de Zuck podes

ser classificados como ldquoldquotiposrdquo autecircnticosrdquo Essa posiccedilatildeo no entanto difere da primeira

por aplicar um rigor maior na anaacutelise do tipo impedindo assim a alegorizaccedilatildeo extremada

dos elementos tipoloacutegicos

Dentre aqueles que adotam essa posiccedilatildeo intermediaacuteria entre as duas correntes

estatildeo os estudiosos Solomon Glassius Johannes Coceio Joseph Frey Patrick Fairbairn

Milton S Terry Berkhof Mickelson Eichrodt e Ramm)

2 ESTABELECIMENTO DA CORRENTE INTERPRETATIVA

Como eacute intenccedilatildeo desse artigo analisar a tipologia existente nas ofertas volitivas e

compulsoacuterias e visto que elas natildeo aparecem nas paacuteginas do Novo Testamento de forma

explicita adotaremos a terceira corrente teoacuteloga ou seja consideraremos essas ofertas

como ldquotiposrdquo mesmo que elas natildeo apareccedilam de forma expliacutecita no Novo Testamento

Como veremos posteriormente a ofertas volitivas e compulsoacuterias apesar de toda a

tipologia nelas impliacutecitas natildeo satildeo citadas no Novo Testamento mas podem perfeitamente

ser consideradas uma representaccedilatildeo vivida de Cristo e do projeto divino de salvaccedilatildeo

A moderaccedilatildeo eacute aconselhaacutevel e tem por finalidade fugir dos extremos Assim

fazendo escaparemos de natildeo atribuir o sentido tipoloacutegico nas ofertas volitivas e

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compulsoacuterias por natildeo encontrar citaccedilotildees explicitas do Novo Testamento sendo que

tambeacutem natildeo as vamos transformar em alegorias por natildeo atribuirmos significados a

qualquer detalhe secundaacuterio Dito de outra forma demonstraremos a semelhanccedila existente

entre as ofertas volitivas e compulsoacuterias com o antiacutetipo que eacute Cristo mesmo natildeo tendo

citaccedilotildees explicitas no Novo Testamento e ao mesmo tempo natildeo atribuiremos tanto valor a

detalhes sem importacircncia

Assim sendo nosso labor consistiraacute em demonstrar nessas ofertas os princiacutepios

espirituais existentes e que inevitavelmente apontavam para a figura do Messias Cabe

salientar todavia que o termo ldquoMessiasrdquo deve ser aqui entendido sob uma perspectiva

cristatilde que o vecirc como o salvador enviado cuja vida morte e ressureiccedilatildeo possibilitaram ao

homem acesso agrave presenccedila de Deus

Isso deve ficar claro porquanto para os judeus sua vinda ainda aconteceraacute e essa

perspectiva judaica afeta toda a interpretaccedilatildeo dos textos biacuteblicos Por isso a tipologia soacute

faz sentido para os cristatildeos por crerem no ldquoMessias que jaacute veiordquo

3 REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NA OFERTAS VOLITIVAS E COMPULSOacuteRIAS

O livro de Leviacutetico menciona basicamente dois ldquotiposrdquo de ofertas volitivas e

compulsoacuterias Chamamos de ofertas volitivas aquelas que o adorador oferecesse ao Senhor

espontaneamente As compulsoacuterias satildeo aquelas que natildeo dependiam da vontade do

indiviacuteduo oferececirc-las e estavam correlacionadas a pecados cometidos de forma geneacuterica

31 - As ofertas volitivas

311 - Os Holocaustos

A oferta de holocausto eacute regulamentada principalmente no capitulo primeiro de

Leviacutetico A expressatildeo () quando algum de voacutes oferecerdes oferta ao Senhor ()

(BIacuteBLIA ARA Leviacutetico 12) determina que essa era uma oferta voluntaacuteria Essas ofertas

eram feitas como agradecimento louvor e dedicaccedilatildeo a Deus

Jaacute a oferta de cerais tem sua regulamentaccedilatildeo no capiacutetulo dois Podemos ainda

estabelecer duas subdivisotildees para as ofertas voluntaacuterias cruentas e natildeo cruentas ou seja

com sangue e sem sangue Enquadram-se no primeiro caso as ofertas de animais e no

segundo as de manjares Analisemos entatildeo essas ofertas e suas tipologias ainda que de

forma sucinta

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312 - Exigecircncias para o Holocausto

Para o oferecimento dos holocaustos certas exigecircncias eram feitas

Em primeiro lugar cada pessoa dependendo do seu poder aquisitivo deveria

ofertar animais das classes dos bovinos ovinos caprinos cerviacutedeos e paacutessaros No caso

deste uacuteltimo grupo pombas e rolinhas eram as mais ofertadas Uma das exigecircncias para o

holocausto desses animais era que eles fossem machos - por ser o reprodutor era mais caro

- e sem defeito (Lv 13) Eles tambeacutem deveriam fazer parte dos animais tidos como puros

(Lv 11) Em Leviacutetico 2221-24 encontramos a descriccedilatildeo de algumas deformaccedilotildees e

doenccedilas natildeo aceitaacuteveis nos animais separados para sacrifiacutecios ao Senhor (Ml 17-14)

O ofertante caso quisesse ter o seu sacrifiacutecio aceito por Deus deveria seguir sem

questionar o ritual determinado Era Deus que ditava as regras para a aceitaccedilatildeo do homem

e de seu sacrifiacutecio natildeo o inverso A loacutegica existente nessas exigecircncias era qualquer que

quiser aproximar-se de Deus deveria fazecirc-lo por regras providenciadas unicamente por

Deus e natildeo por meacuteritos humanos Encontramos essa loacutegica divina na expressatildeo ldquo() para

que o homem seja aceito perante o SENHORrdquo (BIacuteBLIA ARA Leviacutetico 13)

A ideia primaacuteria e mais literal contidas nessas exigecircncias era a de que Deus exige

o melhor e mais puro para ser a Ele sacrificado Secundariamente encontramos a tipologia

nas entrelinhas dessas exigecircncias pois no Novo Testamento vaacuterios textos apresentam

Jesus como o sacrifico perfeito e imaculado entregue a Deus voluntariamente (Jo 129 At

832 1Pe 119-20 Hb 726 Is 539 Jo 846 2Co 521 1Pe 222 1 Jo 35) Conforme eacute

possiacutevel notar haacute uma correlaccedilatildeo muito forte entre as exigecircncias de Deus para os animais

ofertados no Velho Testamento e a oferta definitiva e perfeita de Cristo descrita nas

paacuteginas do Novo Testamento

A segunda exigecircncia eacute apoacutes o cumprimento dos requisitos de qualidade o animal

seria conduzido pelo ofertante ao tabernaacuteculo para ser sacrificado Nesse ritual sacrificial

o ofertante deveria colocar suas matildeos sobre a cabeccedila do animal cujo ato simbolizava a

transferecircncia de pecado do transgressor para o inocente O simbolismo aqui posto eacute na

teologia denominada de ldquosubstituiccedilatildeordquo O inocente carrega sobre si a culpa do

transgressor deixando-o livre de sua diacutevida Ainda que essa ideia seja mais contundente

nas ofertas pelo pecado e pela culpa no holocausto ela tambeacutem aparece

Eacute dito em Isaiacuteas 53 que o Messias levaria sobre si os pecados dos transgressores

Ao morrer em nosso lugar Ele pagou o preccedilo do nosso deacutebito para com Deus tornando-

nos inculpaacuteveis diante Dele (Is 535-6 Is 5311-12 Mt 817 Gl 313 Hb 928 1Pe 224

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1Pe 318 1Jo 22) Da mesma forma que o inocente animal recebia a pena capital com o

intuito de que o pecador recebesse o favor divino semelhantemente Cristo tambeacutem a

recebeu a fim de que a graccedila de Deus pudesse ser alcanccedilada pelo homem

O capiacutetulo primeiro de Leviacutetico estabelece regras sequenciais para o holocausto

atribuindo responsabilidades ao ofertante e ao sacerdote Ao ofertante caberia a escolha do

animal conduccedilatildeo ateacute o altar de sacrifiacutecio imposiccedilatildeo das matildeos sobre ele a morte do animal

atraveacutes da degola a retirada do couro divisatildeo em partes do corpo lavagem dos miuacutedos e

das pernas Jaacute os sacerdotes tinham a funccedilatildeo exclusiva de recolher o sangue do animal a

ser oferecido em holocausto aspergi-lo sobre o altar arrumar a lenha no altar e sobre ele

colocar as partes cortadas do animal que seriam totalmente consumidas pelas chamas

A aplicaccedilatildeo tipoloacutegica desse ritual encontra-se na obrigatoriedade do pecador

sentir o peso da responsabilidade das suas transgressotildees pois ele ouvia o balir angustiante

de um cordeiro e via o seu sangue esvair-se lentamente

O sofrimento do animal e sua consequente morte era uma forma da pedagogia

divina mostrar ao homem que mesmo as ofertas voluntaacuterias recebidas por Deus tinham

custado um alto preccedilo (1Pe 118-19)

Somente os sacerdotes poderiam oferecer os sacrifiacutecios no altar dos holocaustos

Nenhum outro poderia fazer a mediaccedilatildeo entre Deus e os homens Esse ensino estava

subentendido na ordenanccedila de que a ministraccedilatildeo no altar era funccedilatildeo exclusiva do

sacerdote Foi Deus que escolheu a famiacutelia de Aratildeo e nenhum outro poderia fazer a

mediaccedilatildeo Jesus nosso sumo sacerdote por excelecircncia eacute o uacutenico mediador e fora Dele

natildeo haacute outro (At 412 1Tm 25)

O animal depois de morto era totalmente queimado sobre o altar - exceccedilatildeo feita

ao couro - recebendo assim o juiacutezo de Deus impliacutecito na sua morte e nas chamas do fogo

O altar de bronze era como eacute consenso entre os estudiosos siacutembolo da cruz ou seja o

local do julgamento do Messias As lacircminas de bronze que revestiam a segunda camada

desse altar foram feitas dos incensaacuterios daqueles que receberam o juiacutezo de Deus (Nm 16)

Por fim o ultimo criteacuterio consistia sob o sangue do animal que era aspergido

sobre o altar cuja finalidade era expiar e purificar o ofertante Assim diz certo estudioso

das Escrituras

Os povos antigos criam que o sangue das viacutetimas tinha poderes maacutegicos

transmissores de vida e tambeacutem que ao ser derramado sobre o altar de alguma

divindade adquiria parte das virtudes daquela divindade Quando esse sangue

tocava em qualquer coisa esses poderes seriam transferidos para o altar ou para

os indiviacuteduos que tocassem no sangue ou sobre quem o sangue fosse aspergido

Exatamente por isso havia batismos em sangue como tambeacutem havia sacrifiacutecios

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cruentos com o propoacutesito de fazer expiaccedilatildeo e purificaccedilatildeo pelos pecados

Sabemos que os antigos hebreus compartilhavam de alguns desses conceitos

ainda que agora os consideremos supersticiosos (CHAMPLIN p 656)

Vecirc-se pelos dados acima mencionados que o sangue natildeo era considerado pelos

antigos como um simples liquido vermelho correndo pelo corpo humano Ele estava ligado

agrave divindade e portanto podia transmitir vida O proacuteprio Deus orientou a Moiseacutes a ter o

sangue na mais alta estima condenando agrave pena de morte qualquer que o profanasse O

sangue para os filhos de Israel deveria ser constantemente associado agrave vida e com

ldquopoderesrdquo de expiar os pecados dos homens (Lv 1711)

Todas essas questotildees relacionadas aos sacriacuteficios de animais apontam

inexoravelmente para a obra perfeita de Cristo na cruz do Calvaacuterio As sombras dos

sacrifiacutecios expiatoacuterios leviacuteticos apontavam para uma realidade maior e mais perfeita

encontrada no sacrifiacutecio de Cristo Jesus eacute tipologicamente o cordeiro de Deus que expia

o pecado no Velho Testamento mas tambeacutem eacute agora como realidade no Novo

Testamento A unidade desse tema a respeito da expiaccedilatildeo do pecado mediante o sangue eacute

encontrada do primeiro ao uacuteltimo livro da Santa Escritura

313 - As ofertas de manjares

As ofertas de manjares - ou de cereais - deveriam ser oferecidas com um coraccedilatildeo

voluntarioso e agradecido pelas colheitas feitas O padratildeo de qualidade era requerido tanto

para as ofertas de animais (ofertas cruentas) bem como para as ofertas de cereais (ofertas

natildeo cruentas) Essas duas ofertas (cruentas e natildeo cruentas) estatildeo representadas nas ofertas

feitas por Abel e Caim (Gn 43-4)

Para se ter ideia do grau de exigecircncia para a oferenda de cereais a farinha a ser

oferecida e os produtos dela derivados deveriam ser a solet ou ldquoflor de farinhardquo Segundo

se sabe doze ou treze peneiras eram utilizadas no processo de obtenccedilatildeo da mais pura

farinha o que demostra o grau de qualidade exigida na oferta de manjares

A oferta de cereal acompanhava o holocausto voluntaacuterio de gado (Nm 153-4 2

Rs 1613) Poreacutem em outras situaccedilotildees as ofertas de cereais eram ofertadas sozinhas (Lv

614-18 2315 16 Nm 515 2826)

Trecircs eram os ingredientes que compunham a oferta de manjares quando essa

estivesse crua flor de farinha azeite e incenso (Lv 21-3) Se a oferta estivesse assada

deveria conter azeite (Lv 24-5) bem como se estivesse cozida (Lv 27)

O patildeo passou a fazer parte da dieta diaacuteria judaica apoacutes a entrada do povo na Terra

Prometida Na peregrinaccedilatildeo no deserto o manaacute fez parte de sua alimentaccedilatildeo por quarenta

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anos Assim a farinha o patildeo e o manaacute serviram como ldquotiposrdquo de Cristo na medida em que

Ele mesmo se identifica como o ldquopatildeo vivo que desceu do ceacuteurdquo (Jo 648-58)

314 - As ofertas de comunhatildeo ou ofertas pacificas As ofertas de comunhatildeo ou tambeacutem conhecidas como ofertas paciacuteficas oferecem

uma rica tipologia revelando a restauraccedilatildeo da comunhatildeo do homem com Deus perdida

desde o pecado no Eacuteden A voluntariedade tambeacutem caracterizava essa oferta sendo elas

oferecidas em determinadas ocasiotildees nas manifestaccedilotildees divinas (Lv 94-518) apoacutes

cumprimentos de promessas divinas (Dt 271-7) por ocasiatildeo da consagraccedilatildeo de reis (1Sm

1115) em comemoraccedilatildeo pela recuperaccedilatildeo de utensiacutelios sagrados (2 Sm 618) cessaccedilatildeo de

pragas (2 Sm 2425) banquetes relacionados agraves questotildees espirituais (1 Rs 315)

consagraccedilatildeo do templo (1 Rs 863 925)

A oferta paciacutefica ou de comunhatildeo traz a ideia de comunhatildeo existente entre Deus

e os homens Na ocasiatildeo dessa oferenda o peito e a coxa deveriam ser dados para o

sustento dos sacerdotes e levitas Enquanto que na oferta de holocausto quase tudo era

queimado na oferta paciacutefica somente as gorduras eram oferecidas sobre o altar e o

restante das partes do animal era divido entre os sacerdotes e o ofertante Nessas refeiccedilotildees

comunais o ofertante juntamente com os sacerdotes fazia um banquete jubiloso porque

criam que Deus tambeacutem estava presente Nessa oferta de comunhatildeo estava selada a paz

entre Deus e o ofertante

Basta uma anaacutelise das figuras que estavam envolvidas nessa oferta para

verificarmos claramente a tipologia nela impliacutecita A paz era selada pois havia a presenccedila

de Deus do sacerdote (mediador) e do ofertante Isso nos remete a mediaccedilatildeo do sumo

sacerdote celestial que atraveacutes de sua oferta sacrificial derrubou a parede de inimizades

existente entre Deus e os homens proporcionando-nos a paz

4 AS OFERTAS COMPULSOacuteRIAS

As ofertas compulsoacuterias eram ofertadas para expiar o pecado e a culpa do

transgressor e oferececirc-las natildeo dependia da sua vontade Caso natildeo quisesse sofrer as

consequecircncias do juiacutezo divino por suas transgressotildees ofertas pelo pecado deveriam ser

oferecidas pelo transgressor Essas ofertas estatildeo regulamentadas nos capiacutetulos 4 a 7 de

Leviacutetico onde as encontramos divididas basicamente em trecircs grupos oferta por

ignoracircncia oferta pelo pecado e oferta pela culpa

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Certa complexidade haacute em diferenciar de forma simples uma oferta da outra mas

de uma forma sintetizada podemos diferenciaacute-las conforme a proacutepria classificaccedilatildeo

mosaica Os textos biacuteblicos natildeo nos fornecem de forma satisfatoacuteria elementos para que

possamos fazer uma diferenciaccedilatildeo precisa de uma oferta para outra

41 - Ofertas pelos pecados cometidos por ignoracircncia

O termo ignoracircncia (hb segaga) natildeo pode ser confundido com desconhecimento

da lei mosaica Os pecados a serem expiados por esse tipo de oferta eram aqueles que o

transgressor cometia de forma natildeo intencional (Lv 42) A ldquointenccedilatildeordquo aqui deve ser

entendida como ldquode forma natildeo desafiadorardquo isto eacute contrariando as leis divinas de modo a

desprezar a Deus e sua palavra Para esses natildeo havia expiaccedilatildeo

Os pecados cometidos por ignoracircncia estavam classificados no rol daqueles que o

transgressor cometia inadvertidamente ou inconscientemente como por exemplo tocar em

restos mortais sem que disso tivesse conhecimento Tambeacutem se enquadra aqueles

cometidos por conta da natureza caiacuteda do homem e sua consequente inclinaccedilatildeo para o

pecado Independente se o pecado havia sido cometido inconscientemente ou por conta da

inclinaccedilatildeo pecaminosa o homem tornar-se-ia culpado diante do Deus Santo necessitando

assim da expiaccedilatildeo do seu pecado

A expiaccedilatildeo para essa classe de pecados deveria obedecer a alguns criteacuterios

estabelecidos Sacerdotes priacutencipes a comunidade em geral e o indiviacuteduo em particular

deveriam oferecer sacrifiacutecios Para cada um desses grupos um animal especifico deveria

ser ofertado

42 - Oferta pela culpa ou restituiccedilatildeo

Esse tipo de oferta pela culpa (hb asham) era realizada nas ocasiotildees em que a

transgressatildeo fosse cometida em relaccedilatildeo ao proacuteximo Nesse caso deveria haver entatildeo uma

restituiccedilatildeo do ofensor para o ofendido Por envolver questotildees monetaacuterias como forma de

reparaccedilatildeo essa oferta tambeacutem era conhecida como oferta de restituiccedilatildeo

Logicamente por ser o homem a imagem e semelhanccedila de Deus qualquer

transgressatildeo cometida contra aquele ofendia Este Assim antes mesmo de tentar reatar o

seu relacionamento com Deus o pecador deveria estabelecer a comunhatildeo perdida com o

ofendido Se natildeo houvesse expiaccedilatildeo a culpa permaneceria e o juiacutezo divino certamente

recairia sobre o ofensor

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43 - Oferta pelo pecado ou de purificaccedilatildeo

Haacute entre os eruditos certa dificuldade para entender a que tipo de pecado essa

oferta faz referecircncia A ligaccedilatildeo dos dois substantivos (ldquooferta pelo pecadordquo) sugerem eles

parece indicar que os pecadores deveriam lidar com seus pecados mediante a oferta de

sacrifiacutecios Ao pecar necessariamente o transgressor deveria associar a ideia dual de

ldquopecado necessita de ofertardquo

Outra ideia impliacutecita na oferta pelo pecado (hb hattarsquot) eacute a de purificaccedilatildeo O

pecado -atraveacutes do pecador - contaminava o ambiente sagrado tornando-o improacuteprio para

a presenccedila de Deus Por esse motivo o sangue dessa oferta era aspergido sobre os altares

o propiciatoacuterio e dentro do Santo dos Santos A purificaccedilatildeo mediante o sangue era

necessaacuteria para a manifestaccedilatildeo da presenccedila divina Esse ato de purgar deu tambeacutem a essa

oferta o nome de ldquooferta de purificaccedilatildeordquo

Temos dois fatores de suma importacircncia no processo de salvaccedilatildeo expiaccedilatildeo e

purificaccedilatildeo Sem a expiaccedilatildeo o homem permanece separado de Deus e sem a purificaccedilatildeo eacute

impedido de receber sua presenccedila Esse duplo processo soacute poderia ser realizado mediante o

derramamento de sangue inocente e com a indispensaacutevel presenccedila do sacerdote mediador

44 - Aplicaccedilatildeo tipoloacutegica das ofertas

Para todas essas ofertas volitivas e compulsoacuterias a qualidade era imprescindiacutevel

A expiaccedilatildeo pelo sangue era o elemento comum que as unificava Desde um touro oferecido

pelo sacerdote em favor de seus proacuteprios pecados ateacute um pombo ofertado pelos mais

pobres eram recebidos por Deus como sacrifiacutecio substitutivo com o poder de expiar e

purificar ainda que de forma provisoacuteria

O estudo da lei mosaica nos leva a concluir que havia a possibilidade de oferendas

e sacrifiacutecios expiatoacuterios para todos os pecados com exceccedilatildeo daqueles cometidos de forma

que desafiassem a Deus e a sua palavra Esse tipo de pecado era fruto de um coraccedilatildeo

impenitente que desobedecia propositalmente aos mandamentos divinos O Novo

Testamento demonstra de forma inequiacutevoca que o sacrifiacutecio de Cristo tem suficiecircncia para

perdatildeo de todos os pecados no tempo e no espaccedilo A uacutenica exceccedilatildeo feita a essa regra eacute a

blasfecircmia contra o Santo Espiacuterito (Mt 1232 Lc 1210)

Todas essas variedades de ofertas e as mais diversas classes de animais bem

como os rituais diaacuterios tinham a intenccedilatildeo de revelar a necessidade do Messias que com

um uacutenico sacrifiacutecio expiatoacuterio anularia os efeitos do pecado sobre os homens que nele

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cressem Jesus na cruz fez a oferta de si mesmo a Deus uma uacutenica vez e com a eficaacutecia

eterna para perdatildeo de todas as variedades de pecados que a lei classificava mas natildeo dava a

soluccedilatildeo definitiva

O sangue de bovinos caprinos ovinos e aves eram apenas uma paacutelida sombra que

apenas cobria os pecados conscientes ou inconscientes voluntaacuterios ou involuntaacuterios Por

sua ineficaacutecia a expiaccedilatildeo limitava-se a indiviacuteduos ou grupos de indiviacuteduos e seu alcance

era temporal pois tinha eficaacutecia somente em um periacuteodo especifico O sangue de Cristo

entretanto como nos atesta o Novo Testamento atua de forma ilimitada sendo tambeacutem

atemporal (Hb 913-15 104)

A nossa limitaccedilatildeo nos permite apenas olhar o sacrifiacutecio vicaacuterio do Cristo de forma

progressiva na revelaccedilatildeo biacuteblica mas com o Eterno tal natildeo se sucede visto ter Ele os

atributos incomunicaacuteveis da onisciecircncia e presciecircncia (At 223 1Pe 12) Portanto ao

perdoar as transgressotildees com base no sangue de animais na verdade Ele via

antecipadamente o sacrifiacutecio de Cristo sendo realizado

O homem olha a revelaccedilatildeo progressiva da salvaccedilatildeo poreacutem o Deus Eterno a vecirc na

totalidade A cruz na perspectiva divina sempre esteve no Velho Testamento pois ela

considerando uma progressatildeo histoacuterica eacute antes dele O Messias ainda que de forma

velada sempre esteve laacute como nos atestam as seguintes passagens biblicas 2Tmt 11 2T

19 Ap 178 Pv 823-31 Mt 2534 Jo 1724 At 1518 Rm 1625 1Pe 120-23 Ap 138

5 OS SACERDOTES E O SUMO SACERDOTE

51 - A mediaccedilatildeo

As ofertas cuja funccedilatildeo era expiar o pecado conforme jaacute vimos tipificavam o

sacrifiacutecio perfeito e final do Messias Eram apenas sombras indicativas de algo superior

que foi revelado atraveacutes de Jesus e sistematizado nos vinte e nove livros que compotildee o

Novo Testamento (Hb 85 99 23-24 101 Cl 217)

Essas ofertas soacute poderiam ser aceitas por Deus caso houvesse um mediador que as

oferecesse Nesse cenaacuterio entra a figura do sacerdote e do sumo sacerdote que tipificavam

o sacerdoacutecio eterno do Messias Muitos satildeo os detalhes que vinculam o sacerdoacutecio terreno

com a obra mediadora do Messias Visto que nosso espaccedilo eacute limitado pela natureza desse

artigo faremos apenas algumas correspondecircncias entre o sacerdoacutecio humano e o

sacerdoacutecio celestial de Cristo

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52 - A unccedilatildeo e a pureza

O capiacutetulo oito de Leviacutetico descreve a consagraccedilatildeo de Aratildeo como sumo sacerdote

e de seus filhos como sacerdotes O oacuteleo da unccedilatildeo - siacutembolo do Espiacuterito Santo - foi

derramado sobre ele - tipo de Jesus - para exercer sua funccedilatildeo em favor dos fracos e

ignorantes (Hb 51-10) O Velho e o Novo Testamento apresentam Jesus como o ungido de

Deus sobre o qual foi derramado o Espiacuterito Santo para libertar os cativos do pecado

Somente eles poderiam fazer mediaccedilatildeo pelo povo da mesma forma que natildeo haacute

outro mediador entre Deus e os homens a natildeo ser Jesus (At 412 1 Tm 25 Hb 725 86

915 1224) Conforme nos atestam alguns versos biacuteblicos qualquer pessoa que tentasse

usurpar a funccedilatildeo sacerdotal receberia a pena capital (Nm 310 38 1640 185-7) Assim

tipologicamente falando excluindo-se a pessoa de Jesus qualquer outro mediador diante

de Deus estaacute morto

O sacerdote deveria antes de oferecer qualquer sacrifiacutecio banhar-se na bacia de

bronze localizada no aacutetrio do tabernaacuteculo (Lv 86) Esse ritual continha a ideia de

purificaccedilatildeo pois o sacerdote que oferecesse o sacrifiacutecio deveria estar puro diante de Deus

Qualquer oficiante do tabernaacuteculo que natildeo se lavasse ou natildeo fizesse os cerimoniais

prescritos na lei deveria seria morto (Ecircx 3018-21)

Esse simbolismo eacute perfeito quando comparado a situaccedilatildeo do pecador diante do

Deus Santo Qualquer transgressor que Dele se aproximar sem estar puro receberaacute o

salaacuterio do pecado isto eacute a morte eterna

53 - As vestimentas sacerdotais e os rituais de purificaccedilatildeo

Associada com a ideia de santidade havia uma lacircmina de ouro posta no turbante

do sumo sacerdote com a inscriccedilatildeo ldquoSantidade ao Senhorrdquo (Ecircx 2836 Lv 89) Essa lacircmina

representava o elevado grau de santidade que o sumo sacerdote deveria ter por se

apresentar diante de Deus para expiar os pecados do povo Outra peccedila que compunha o

vestuaacuterio da classe sacerdotal era a estola feita de linho fino branco indicativo na Biacuteblia de

pureza e santidade (Ecircx 2839 87)

Toda o ritual de purificaccedilatildeo e as vestimentas apontavam para a santidade do

sacerdote que por sua vez tipificava a santidade do sumo sacerdote celestial que em tudo

foi tentado poreacutem sem pecado (Hb 726 Is 539 Jo 846 2Co 521 1Pe 222 1 Jo 35)

No ritual de purificaccedilatildeo dos contaminados por lepra e liacutequidos corporais descrito

nos capiacutetulos 11 a 15 de Leviacutetico o sacerdote figurava como a personagem principal pois

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sem ele o processo de purificaccedilatildeo natildeo poderia ser finalizado Vemos entatildeo uma dupla

funccedilatildeo sacerdotal o que mediava e o que purificava Na pessoa de Jesus cumpriu-se esse

duplo tipo sacerdotal pois o Novo Testamento atribui a ele a funccedilatildeo de mediador e

purificador

Qualquer judeu por mais simples que fosse entenderia a mensagem espiritual

profunda que havia no ritual de purificaccedilatildeo e nas roupas sacerdotais E qual seria essa

mensagem A resposta simples eacute antes mesmo de se aproximar de um Deus Santo com

sacrifiacutecio havia a necessidade imperiosa de purificar-se Primeiro se purifica Depois a

Ele oferece-se sacrifiacutecios de adoraccedilatildeo Purificaccedilatildeo e sacrifiacutecios estatildeo intimamente

interligados conforme jaacute vimos nas ofertas compulsoacuterias E tudo isso soacute seria possiacutevel com

a figura do mediador

Todo o vestuaacuterio do sumo sacerdote tipificava o Messias e seu oficio sacerdotal

Natildeo sendo possiacutevel nesse artigo analisar as minuacutecias de cada uma das peccedilas falaremos

delas de forma geneacuterica Basicamente o eacutefode e o cinto do sumo sacerdote possuiacuteam

quatro cores que apareciam tambeacutem na primeira cortina que cobria o tabernaacuteculo no veacuteu

que separava o lugar santo do santiacutessimo e na cortina de entrada do aacutetrio do tabernaacuteculo O

azul carmesim puacuterpura e branco tipificavam alguns atributos do Messias O azul sua

origem celestial a puacuterpura apontava para sua realeza o branco fala de sua absoluta

pureza e o vermelho do seu sacrifiacutecio expiatoacuterio Somente o Messias Jesus Cristo

apresentou as quatro caracteriacutesticas aceitaacuteveis a Deus Rei que veio do ceacuteu cujo sangue foi

derramado e sobre Ele natildeo pode ser imputado pecado algum

Sobre o eacutefode ficava o peitoral do juiacutezo contendo doze pedras preciosas e em

cada uma delas estava gravada o nome das doze tribos de Israel Essas pedras conforme

determinaccedilatildeo biacuteblica deveriam estar sobre o coraccedilatildeo do sumo sacerdote quando este

oficiasse no tabernaacuteculo Ele tambeacutem carregava sobre os ombros uma pedra preciosa de

cada lado Na primeira eram gravados os nomes de seis tribos de Israel na outra mais seis

tribos Assim o representante dos homens carregava simbolicamente no coraccedilatildeo e nos

ombros toda a naccedilatildeo dos filhos de Israel diante de Deus estando assim toda ela

representada pelas quatorze pedras Assim o sumo sacerdote intercedia por toda a naccedilatildeo

continuamente

Poucos discordariam que a igreja de Cristo assumiu o papel de Israel ainda que

saibamos que esse fato natildeo invalida as promessas de Deus feitas a esse povo Apaziguada

essa questatildeo podemos entatildeo verificar a tipicidade desse peitoral no tocante a figura do

Messias O sumo sacerdote humano carregava sobre o coraccedilatildeo e ombros a naccedilatildeo de

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Israel ao passo que o Messias carrega sobre o coraccedilatildeo e ombros a igreja composta de

pessoas de todas as naccedilotildees (Jo 315 Mt 913 1Tt 115-16 Ap 59 Ap 1211 Hb 1312

1Pe 119)

Esse peitoral dobrado formava uma bolsa que continha duas pedras conhecidas

como Urim e Tumim com as quais se consultavam a vontade de Deus Sacerdotes

profetas Urim e Tumim eram necessaacuterios enquanto o Messias natildeo havia sido revelado

Poreacutem o Messias jaacute veio como a revelaccedilatildeo final de Deus para o homem (Hb 11-

2) Ele eacute a uacutenica verdade e portanto nosso uacutenico guia espiritual (Jo 146) Tal qual o sumo

sacerdote guiava o povo mediante o Urim e Tumim Ele sem fazer uso de qualquer pedra

nos guia mediante o Espirito Santo e as Escrituras sagradas rumo ao ceacuteu (Jo 1426 1613

1Co 210-13 Ef 47-15 1 Jo 220 1 Jo 227)

Mediante essas duas pedras consultava-se a Deus e por elas vinha a resposta

Hoje eacute por intermeacutedio do Cristo revelado nas Escrituras que obtemos a maioria das

respostas para nossas indagaccedilotildees

54 - O Yom Kippur

Ao falarmos das ofertas volitivas e compulsoacuterias alguns paraacutegrafos devem ser

dedicados ao ritual do Yom Kippur cujo cerimonial representava o perdatildeo anual dos

pecados dos filhos de Israel

O Yom Kippur ou Dia do perdatildeo eacute considerado um dos dias mais sagrados do

calendaacuterio judaico Era nesse dia que o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos para

purificar o tabernaacuteculo e oferecer o sacrifiacutecio anual por toda a naccedilatildeo (Lv 166 16 18-19

24) Era um dia de jejum e nenhum trabalho servil deveria ser realizado Era nesse

grandioso dia que o bode expiatoacuterio Azazel tinha de ser enviado ao deserto para longe do

arraial ou das portas de Jerusaleacutem Ele carregava sobre si os pecados de toda a naccedilatildeo e

acabava simbolicamente morrendo por ela Isso por si soacute jaacute configura uma bela

tipologia o cordeiro de Deus sofreu e morreu fora das portas de Jerusaleacutem carregando

sobre si os pecados da humanidade (Mt 1520-24 Jo 1917-18 At 758 Hb 1312)

Ao entrar no Santiacutessimo o sumo sacerdote enchia-o de fumaccedila de incenso para

que a nuvem perfumada ocultasse de seus olhos o propiciatoacuterio local esse considerado

como sendo ldquoo trono de Deusrdquo Ao entrar nesse recinto sagrado o sumo sacerdote deveria

ter em matildeos o sangue para expiar os pecados de toda a naccedilatildeo Fontes extrabiacuteblicas nos

informam sobre o alto grau de relevacircncia desse dia pois era nele que se promulgava certo

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decreto divino sobre quem iraacute viver e quem iraacute morrer quem estaraacute sereno e quem seraacute

perturbado quem seraacute pobre e quem seraacute rico quem seraacute exaltado e quem seraacute humilhado

(KOLATCH p239)

Para estabelecer a rica tipologia encontrada nos ritos desse tatildeo importante dia

basta-nos consultar alguns versos do livro de hebreus que revelam o ofiacutecio sacerdotal de

Cristo (Hb 91-26 217 31 415 55-6 71 11-27 81)

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

A tipologia por ser essencialmente biacuteblica natildeo pode ser desprezada sendo que os

extremos na sua utilizaccedilatildeo devem ser evitados atraveacutes de esforccedilos para encontrar-se uma

posiccedilatildeo moderada Ao nos apossarmos dessa ideia perceberemos o quatildeo proveitoso seraacute o

nosso conhecimento dos ldquotiposrdquo biacuteblicos para a robustez da nossa teologia

A anaacutelise das ofertas volitivas e compulsoacuterias demostram essa verdade na medida

em que as conhecemos de forma mais profunda A partir disso vemos natildeo mais um

emaranhado de ordenanccedilas cerimoniais destituiacutedas de sentido mas profundas liccedilotildees

espirituais acerca da figura central da Biacuteblia Jesus Cristo

Ainda que geraccedilatildeo apoacutes geraccedilatildeo os filhos de Israel matavam os inocentes animais

atraveacutes de sacrifiacutecios e natildeo tinham a plena consciecircncia da magnitude do seu simbolismo

todavia pela feacute sabiam que seus pecados haviam sido expiados As ofertas o sofrimento e

morte dos animais o sangue derramado e a mediaccedilatildeo dos sacerdotes propiciavam um

cenaacuterio pedagoacutegico riquiacutessimo mediante a qual todos aprendiam acerca do plano divino da

redenccedilatildeo Negar isso eacute negar a proacutepria Escritura

Os escritores do Novo Testamento empreenderam grandes esforccedilos para elaborar

suas doutrinas com base no entendimento que tinham do Velho Testamento pois era esse

que testificava acerca do Messias Ele mesmo nos seus ensinamentos citou por diversas

vezes as Escrituras veterotestamentaacuterias Era o antiacutetipo em carne e osso explicando aos

disciacutepulos toda a tipologia que Nele encontrava a plena realizaccedilatildeo Assim quando os

escritores neotestamentaacuterios analisavam as ofertas volitivas e compulsoacuterias encontravam

nelas revelado o Messias de Israel

As ldquosombrasrdquo tiveram o seu valor ateacute a chegada da realidade isto eacute Cristo Ele eacute

a revelaccedilatildeo final de Deus pois posteriormente ao brado ldquoestaacute consumadordquo o veacuteu foi

rasgado e o acesso pleno a Deus liberado As ofertas volitivas e compulsoacuterias natildeo satildeo mais

necessaacuterias pois aquele para quem elas apontavam as substituiu satisfez a justiccedila divina e

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reconciliou o homem com Deus Cabe-nos empreendermos esforccedilos com a finalidade uacutenica

de conhecer mais detalhadamente as ofertas volitivas e compulsoacuterias E assim ter uma

percepccedilatildeo mais niacutetida de que o mesmo Deus que instituiu os ldquotiposrdquo eacute o mesmo que os

tornou realidade na pessoa do Messias Jesus Cristo

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Satildeo Paulo Vida Nova 1994

Autor ndash Bacharel em Teologia

Prof Odilon Soares Moreira

Bacharel em Teologia pela Faculdade

Beth Shalom e licenciado em Filosofia

pela Universidade Metodista de Satildeo

Paulo

E-mail odilonmoreira13hotmailcom

Page 2: REVISTA CIENTÍFICA AMALIE · 2020. 7. 6. · REVELAÇÃO MESSIÂNICA NO LIVRO DE LEVÍTICO AMALIE REVISTA CIENTÍFICA . ... Idiomas: Aceitos artigos escritos em português, espanhol

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Faculdade de Direito Santo Andreacute

REVISTA

CIENTIacuteFICA

GAMALIEL

Vol1 | Nordm 3 | julhodezembro - Ano 2020

SANTO ANDREacute ndash SAtildeO PAULO BRASIL

Os direitos de publicaccedilatildeo desta revista satildeo da FATEJ FADISA

Os textos publicados na revista satildeo de inteira responsabilidade de seus autores

Permite-se a reproduccedilatildeo desde que citada a fonte

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CORPO EDITORIAL

Direccedilatildeo Cientifica Intelectual Reitora Dra Arleide Braga Poacutes-Doutora em Direito Constitucional pela Universitaacute degli Studi di Messina ndash Itaacutelia

Doutora em Ciecircncias Juriacutedicas e Sociais pela Universidad del Museo Social Argentino ndash UMSA ndash Bs

As | ARG

Doutora em Ciecircncias Sociais pela PUC | SP

Mestre em Direito pela Universidade Metropolitana de Santos | SP ndash UNIMES

Poacutes-Graduada em Direito Previdenciaacuterio e Direito do Trabalho pela Universidade Gama Filho | RJ

Graduada em Letras (Licenciatura) pelo Centro Universitaacuterio de Santo Andreacute | SP

Presidente da Comissatildeo de Direito Previdenciaacuterio da OAB ndash Santo Andreacute | SP ndash Triecircnio 20162018

Diretora Estrateacutegica Dra Karina Costa Braga

Mestre em Direito - PUC | SP

Diretora Institucional da Faculdade de Tecnologia Jardim ndash FATEJ e da Faculdade de Direito Santo

Andreacute ndash FADISA em Santo Andreacute | SP

Diretora e Procuradora Dra Karen Costa Braga

Mestre em Direito - PUC | SP

Procuradora Institucional Coordenadora Administrativa do Departamento de Poacutes-Graduaccedilatildeo da

Faculdade de Tecnologia Jardim e da Faculdade de Direito Santo Andreacute ndash FADISA em Santo Andreacute |

SP

Diretor Acadecircmico Institucional Dr Mauriacutecio Tintori Piqueira

Doutor em Ciecircncias Sociais Mestre em Histoacuteria PUC-SP

Editor

Me Marcelo Alves Dantas

Periodicidade da Publicaccedilatildeo

Semestral

CAPA

Marcos Camilo Santana

Idiomas Aceitos artigos escritos em portuguecircs espanhol e inglecircs

AUTOR CORPORATIVO

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Campus I - R Almirante Protoacutegenes 44 - B Jardim - Santo Andreacute - SP CEP 09090-760

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(11) 95238-4306 | (11) 99891-4846

1 Religiatildeo 2 Teologia Criacutetica 3 Histoacuteria ndash CDD 22067

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SUMAacuteRIO

O LIVRO DE JOacute O CONTRATO COM DEUS E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA 6

1 UM LIVRO ATEMPORAL 7 2 O PROMOTOR ACUSADOR DE JOacute E O ENTRELACcedilAMENTO DAS IDEIAS DE RETRIBUICcedilAtildeO E CONTRATO 8

3 O DESEJO DE JOacute E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA 12 4 O ENCONTRO RESTAURATIVO DE JOacute E IAWEH 14

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 17 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 18

A CONTRIBUICcedilAtildeO DOS MANUSCRITOS DE QUMRAN PARA EXEGESE DO

APOCALIPSE DE JOAtildeO 20 APOCALIPSE 51-14 ndash O CAcircNTICO CERIMONIAL DA CELEBRACcedilAtildeO DO SACERDOacuteCIO UNIVERSAL DE JESUS Agrave LUZ DAS TRADICcedilOtildeES DO MISTICISMO

JUDAICO - UMA EXEGESE CONTEMPORAcircNEA 20 INTRODUCcedilAtildeO 22

1INTRODUCcedilAtildeO AO MISTICISMO JUDAICO - ldquoANAacuteLISE DOS TEXTOS FUNDANTESrdquo 23 11 ndash Isaiacuteas Cap 6 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 23

12 ndash Ezequiel Cap 1 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 25 13 ndash I Enoque Cap 14 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 27

14 - Daniel (79-14) e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 28 2 Apocalipse 51-14 ndash O Cacircntico Cerimonial da Celebraccedilatildeo do Sacerdoacutecio Universal de Jesus agrave Luz das Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico - Uma Exegese Contemporacircnea 30

21 - O Misticismo Judaico e Apocaliacuteptico em (Apocalipse 51-14) 34 CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 44

REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 46

A TERCEIRIZACcedilAtildeO DA FEacute NOS TEMPOS DE PANDEMIA E ISOLAMENTO SOCIAL O SURGIMENTO DO ldquoPERSONAL PROFECTrdquo ndash E AS CRISES DE

ESPIRITUALIDADE 53 INTRODUCcedilAtildeO 54 1OUTROS PROBLEMAS INFLUENCIANDO A ESPIRITUALIDADE NO TEMPO DE

ISOLAMENTO SOCIAL DO ATEIacuteSMO CETICISMO OU UMA BUSCA MAL DIRECIONADA DA ESPIRITUALIDADE PODERAtildeO INFLUENCIAR AS RELACcedilOtildeES

DE FEacute 55 2VIVEMOS - ldquoUMA NOVA FEacute PARA UM NOVO TEMPOrdquo ONDE VERIFICAMOS COMO COMPREENDER A FEacute E SUAS APLICACcedilOtildeES COMO VIVENCIAR A FEacute NA

ATUALIDADE 56 3HOJE Eacute PRECISO RESSIGNIFICAR ALGUNS CONCEITOS SOBRE A FEacute 57

4QUAL A MENSAGEM OU CONSELHO SOBRE O VIVER UM CRISTIANISMO COERENTE QUE SOBREVIVA A ISOLAMENTOS SOCIAIS E PANDEMIAS 59

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 62 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 63

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O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO 67 INTRODUCcedilAtildeO 68

1 EM BUSCA DO CENAacuteRIO HISTOacuteRICO68 2 A EXPANSAtildeO DA FEacute CRISTAtilde69

3 DE PEDRO A PAULO (EXPANSAtildeO DA OBRA DE MISSOtildeES)69 4 O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO72 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 73

REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NO LIVRO DE LEVIacuteTICO 74 INTRODUCcedilAtildeO 75 1 TIPOLOGIA 76

11 - Definiccedilatildeo de tipologia77 12 - A tipologia como ferramenta da hermenecircutica 77

13 - As Escrituras e a tipologia77 14 - A tipologia e as correntes teoloacutegicas78 141- ldquotiposrdquo natildeo ratificados pelo Novo Testamento 79

142 - Siacutembolos ratificados pelo Novo Testamento 80 142 - Corrente intermediaacuteria ldquotiposrdquo expliacutecitos e impliacutecitos 81

2 ESTABELECIMENTO DA CORRENTE INTERPRETATIVA81 3 REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NA OFERTAS VOLITIVAS E COMPULSOacuteRIAS 82

31 - As ofertas volitivas 82 311 - Os Holocaustos 82

312 - Exigecircncias para o Holocausto 83 313 - As ofertas de manjares 85 314 - As ofertas de comunhatildeo ou ofertas pacificas 86

4 AS OFERTAS COMPULSOacuteRIAS86 41 - Ofertas pelos pecados cometidos por ignoracircncia87

42 - Oferta pela culpa ou restituiccedilatildeo 87 43 - Oferta pelo pecado ou de purificaccedilatildeo 88 44 - Aplicaccedilatildeo tipoloacutegica das ofertas 88

5 OS SACERDOTES E O SUMO SACERDOTE89 51 - A mediaccedilatildeo 89

52 - A unccedilatildeo e a pureza 90 53 - As vestimentas sacerdotais e os rituais de purificaccedilatildeo 90 54 - O Yom Kippur92

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 93 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 94

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O LIVRO DE JOacute O CONTRATO COM DEUS E A JUSTICcedilA

RESTAURATIVA1

RESUMO

O presente artigo escrito durante a pandemia da COVID-19 tem o intuito de relembrar a

histoacuteria de Joacute Partindo de uma perspectiva interdisciplinar entre Teologia e Direito

analisam-se as diferentes visotildees de Justiccedila contidas no Livro de Joacute Pretende-se

demonstrar a prevalecircncia da ideia de justiccedila restaurativa em detrimento das concepccedilotildees de

justiccedila retributiva (ligada ao tema do castigo divino) e contratualista (ligada ao tema da

teologia da prosperidade)

Palavras-chave Livro de Joacute Justiccedila retributiva Contrato Justiccedila restaurativa

ABSTRACT

This article written during the pandemic of COVID-19 is intended to recall Jobs story

Starting from an interdisciplinary perspective between theology and law the different

views of justice contained in the Book of Job are analyzed It is intended to demonstrate

the prevalence of the idea of restorative justice instead of the concepts of retributive

justice (linked to the theme of divine punishment) and contractualist (linked to the theme

of prosperity theology)

Key words Book of Job Retributive justice Contract Restorative justice

1 Doutor em Direito Penal pela Universidade de Satildeo Paulo Juiz Federal e Professor de Direito Penal da

FADISA

autor

Excelentissiacutemo Juiz Federal

Dr Paulo Bueno de Azevedo

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1 UM LIVRO ATEMPORAL

O presente artigo eacute escrito durante um periacuteodo turbulento certamente ineacutedito para

muitos de noacutes embora natildeo seja o primeiro evento da espeacutecie em nosso planeta A

pandemia da COVID (Corona virus Disease) -19 tal como outras doenccedilas no passado

(peste negra gripe espanhola etc) ainda estaacute causando milhares de mortes no mundo

todo forccedilando medidas eneacutergicas de isolamento social levando muitos ao desemprego agrave

falecircncia e agrave desesperanccedila

Neste cenaacuterio alguns ousam perguntar onde estaacute Deus Por que Deus esconde sua

face nesse momento Jaacute outros enxergam o sinal do fim dos tempos a puniccedilatildeo divina

decorrente dos pecados humanos E haacute ainda quem reforce a sua descrenccedila se Deus

existisse mesmo nada disso poderia ocorrer Enfim num momento tatildeo difiacutecil a

desesperanccedila a raiva e a incerteza encontram terreno feacutertil para disseminaccedilatildeo As

muacuteltiplas vozes se chocam e a feacute arrefece

Na verdade tais anguacutestias vecircm de certas concepccedilotildees que as pessoas tecircm de Deus

as quais por sinal estatildeo profundamente entrelaccediladas com pensamentos juriacutedicos A ideia

do castigo vem do tirociacutenio que invoca a justiccedila retributiva divina Jaacute o pensar que Deus

natildeo poderia permitir tais cataacutestrofes parece traduzir uma espeacutecie de obrigaccedilatildeo do Senhor

para com a humanidade E se existisse mesmo tal obrigaccedilatildeo quem poderia levar Deus ao

tribunal para que fosse compelido a cumprir esse contrato

O problema parece insoluacutevel pois quer se trate da puniccedilatildeo quer de um contrato

descumprido ningueacutem poderia confrontar o Criador em juiacutezo Ou poderia O desespero eacute

atual no entanto a histoacuteria eacute antiga Haacute milhares de anos foi retratada no Livro de Joacute A

autoria desse livro que compotildee o Antigo Testamento da Biacuteblia eacute desconhecida e existem

muitas duacutevidas sobre possiacuteveis trechos inseridos ou modificados a posteriori Imaginaria o

seu autor (ou sua autora2) que sua obra continuaria atual e sendo objeto de estudos e

reflexotildees mais de dois mil anos depois

Natildeo natildeo eacute por acaso que Jorge Luis Borges (BORGES 2009 p 156) considerava

o Livro de Joacute um dos mais impressionantes da Biacuteblia nem que Freud o tenha situado

como a mais alta das literaturas humanas (apud BORGES 1965) Natildeo eacute coincidecircncia que

o Livro de Joacute seja considerado ldquoo mais saacutebio da Biacuteblia Hebraicardquo (BLOOM 2005 p 15)

e tenha sido recontado tantas vezes como nas versotildees de HG Wells (apud BORGES

1965) e Fabrice Hadjadj bem como objeto de longos estudos a exemplo daqueles de Carl

2 A hipoacutetese de que o texto javista da Biacuteblia Hebraica poderia ter sido escrito por uma mulher hitita eacute

aventada por Harold Bloom (BLOOM 2005 p 27)

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Gustav Jung e de Reneacute Girard A histoacuteria de Joacute tambeacutem ecoa na seacutetima arte como em A

aacutervore da vida de Terrence Malick (apud CARBAJOSA 2017) e tambeacutem na chamada

nona arte como na graphic novel ldquoO contrato com Deusrdquo de Will Eisner (EISNER 2019

p 21-79)

Enfim ateacute por abordar o eterno problema do sofrimento humano trata-se de obra

atemporal cujo reexame no momento atual eacute mais do que propiacutecio inclusive com um

olhar detalhado sobre suas possiacuteveis liccedilotildees especialmente acerca de um valor tatildeo caro

tanto para a Teologia quanto para o Direito qual seja a Justiccedila O grito de Joacute ainda se

prolonga eacute o grito de Jesus na cruz eacute o grito dos pobres e desamparados e eacute o grito de

todos noacutes em nossos momentos de maior fragilidade Eacute dele que vem o nosso clamor por

justiccedila e restauraccedilatildeo

2 O PROMOTOR ACUSADOR DE JOacute E O ENTRELACcedilAMENTO DAS IDEIAS

DE RETRIBUICcedilAtildeO E CONTRATO

A histoacuteria de Joacute pode ser vista por muacuteltiplos olhares desde o seu enigmaacutetico

comeccedilo De fato o proacutelogo conteacutem amplo material para se discutir a teodiceia ou mais

exatamente como se justificar que um Deus infinitamente bom permita o mal E tudo

parece se complicar quando num determinado dia em que os Filhos de Deus se apresentam

a Iaweh entre eles veio tambeacutem Satatilde (Joacute 16)

De acordo com o senso comum Satanaacutes eacute o anjo caiacutedo inimigo da humanidade

Todavia conforme observa Ari Marcelo Solon ldquono Livro de Joacute Satanaacutes deve ser

entendido no sentido hebraico de lsquoacusadorrsquo um servo obediente de Deus e natildeo

necessariamente maurdquo (SOLON 2009 p 2)

Neste diapasatildeo podemos olhar o Livro de Joacute sob uma perspectiva de um drama de

tribunal sendo que o iniacutecio da acusaccedilatildeo eacute feito por Satanaacutes uma espeacutecie de promotor que

atua perante o Juiacutezo de Deus Mas qual seria o teor desta accedilatildeo penal satacircnica Eacute a

falsidade da feacute de Joacute Satatilde potildee em duacutevida a feacute de Joacute dizendo num primeiro momento que

ele apenas se comporta como um servo obediente em razatildeo de seus muitos bens Se

perdesse seus bens de acordo com o acusador Joacute lanccedilaria maldiccedilotildees contra Deus (Joacute 1 9-

11)

E o que faz Iahweh Recebe a acusaccedilatildeo e deixa tudo o que pertence a Joacute em poder

de Satanaacutes (Joacute 1 12) Inicia-se pois a celeuma Um mal seraacute praticado contra Joacute e nem se

poderaacute aqui falar-se ldquoapesar de Deusrdquo Natildeo o texto biacuteblico eacute categoacuterico ao estabelecer que

todo o mal seraacute praticado por autorizaccedilatildeo expressa de Iahweh Como Por quecirc Como

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pode um Deus bom autorizar expressamente que o mal seja praticado contra um homem

justo Seria uma aplicaccedilatildeo do ditado popular ldquoaqui se faz aqui se pagardquo Mas o que Joacute

fez

Natildeo obstante natildeo haja respostas a tais perguntas no Livro importa por ora observar

que a feacute de Joacute natildeo falhou embora trageacutedias o tenham tirado seus bens e tambeacutem os seus

filhos Eis a resposta de Joacute

ldquoNu saiacute do ventre de minha matildee

e nu voltarei para laacute

Iaweh o deu Iaweh o tirou

bendito seja o nome de Iawehrdquo3

Joacute perseverou em sua feacute Eacute evidente que se abalou ateacute pela informaccedilatildeo de que

rapou a cabeccedila e caiu por terra inclinando-se no chatildeo (Joacute 1 20)4 poreacutem sua feacute se

mostrou verdadeira Ou natildeo O promotor Satanaacutes ainda duvida e adita a acusaccedilatildeo se a

carne fosse ferida se a sua vida e sauacutede estivessem em jogo Joacute revelaria a sua verdadeira

face e amaldiccediloaria Deus (Joacute 2 4-5) E Deus uma vez mais autoriza o acusador

proibindo-lhe apenas de tirar a vida de Joacute (Joacute 2 6)

Esta eacute a autorizaccedilatildeo final a Satanaacutes que jaacute sai de cena no segundo capiacutetulo do

Livro de Joacute Contudo ao contraacuterio do que alguns possam pensar o Acusador falhou

novamente em seu intento De fato Joacute manteve sua feacute apesar das chagas em seu corpo

quando responde ao comentaacuterio de sua esposa que deveria amaldiccediloar Iaweh ldquose

recebemos de Deus os bens natildeo deveriacuteamos receber tambeacutem os malesrdquo (Joacute 2 10)

Mas como A histoacuteria natildeo termina aiacute Se o acusador saiu de cena o que fez Joacute

comeccedilar a expressar a sua anguacutestia ou em outras palavras o que fez Joacute comeccedilar a perder

a sua paciecircncia

Eacute certo que na Biacuteblia o acusador fez sua uacuteltima apariccedilatildeo apoacutes lanccedilar a Joacute o

sofrimento em sua pele Contudo na versatildeo irreverente contada pelo filoacutesofo Fabrice

Hadjadj o Acusador depois disso ainda lanccedila matildeo de sua uacuteltima arma contra Joacute ldquoa uacutenica

matilha capaz de devorar seu coraccedilatildeordquo (HADJADJ 2017 p 20) Hadjadj estaacute se

referindo com uma boa dose de razatildeo aos amigos de Joacute

E com efeito na versatildeo biacuteblica Joacute somente comeccedila os seus lamentos apoacutes a

chegada de seus trecircs amigos Elifaz Baldad e Sofar

3 Joacute 1 21 4 De acordo com nota da Biacuteblia de Jerusaleacutem tais gestos significam expressatildeo de dor ou de lu to (Biacuteblia de

Jerusaleacutem 2011 p 804)

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Os diaacutelogos de Joacute com seus amigos constituem beliacutessimos exemplos de disputas

retoacutericas e reforccedilam a perspectiva desse livro biacuteblico como um drama de tribunal Em

grande esforccedilo de siacutentese os amigos que tambeacutem podem ser comparados pela mesma

oacutetica a assistentes da acusaccedilatildeo culpam Joacute por todos os males por ele sofridos De fato se

Joacute sofre eacute porque pecou contra Deus E Deus em sua infinita bondade e justiccedila estaacute

apenas castigando Joacute por seus pecados Em suma Elifaz Baldad e Sofar sustentam a

justiccedila retributiva

Eacute mais do que relevante notar que essa concepccedilatildeo de retribuiccedilatildeo complementa

perfeitamente a acusaccedilatildeo de Satanaacutes segundo a qual Joacute soacute tinha feacute porque tudo corria bem

com ele natildeo passava por dificuldades nem provaccedilotildees E a acusaccedilatildeo de Satanaacutes em

verdade seria totalmente procedente em relaccedilatildeo aos amigos de Joacute pois eles demonstram

acreditar nessa visatildeo contratualista da relaccedilatildeo com Deus Se Joacute natildeo tivesse realmente

pecado Deus nunca faria nada de mal com ele Ou dito de outro modo se a pessoa natildeo

peca Deus tem a obrigaccedilatildeo de natildeo deixar nada de mal ocorrer com ela Porque o mal sem

pecado tornaria Deus injusto e isto seria uma verdadeira blasfecircmia Nas palavras de

Baldad ldquoacaso Deus torce o direito ou Shaddai perverte a justiccedilardquo (Joacute 8 4)

Se natildeo pecarmos nada de mal nos aconteceraacute Desde quando foi elaborado esse

contrato com Deus O contrato foi celebrado por um representante da humanidade em

nome de todos ou cada um de noacutes o celebra individualmente

O renomado quadrinista William Erwin Eisner mais conhecido como Will Eisner

brindou-nos com uma das mais belas histoacuterias da nona arte intitulada ldquoUm contrato com

Deusrdquo (EISNER 2019) Neste conto moderno que ecoa o Livro de Joacute acompanhamos o

judeu Frimme Hersh que desde crianccedila embora oacuterfatildeo soacute praticava boas accedilotildees Numa

conversa com um rabino o menino lhe pergunta sobre a justiccedila de Deus e se Ele saberia se

Frimme se comportaria bem O rabino fala sobre a onisciecircncia de Deus e surge aiacute a ideia

do contrato entatildeo redigido numa pequena pedra (EISNER 2019 p 35-36) Fugindo da

perseguiccedilatildeo aos judeus de seu paiacutes Frimme Hersh vai para os Estados Unidos e ali cresce

tornando-se um respeitado membro da sinagoga Talvez por sua reconhecida bondade e

generosidade com todos uma menina receacutem-nascida foi abandonada na porta de Hersh E

Frimme Hersh a adotou e a criou com todo o seu amor batizando-a com o nome de sua

falecida matildee Rachele Hersh considerou sua filha uma daacutediva de Deus

Contudo passados os anos na flor da idade Rachele adoece e vem a falecer Neste

momento depois de enterrar sua filha numa noite tempestuosa Hersh explode em fuacuteria

ldquoNAtildeO Vocecirc natildeo pode fazer isso comigo noacutes temos um contrato VOCEcirc QUEBROU

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NOSSO CONTRATOrdquo () ldquoSe Deus exige que homens honrem seus acordos entatildeo

Deus tambeacutem natildeo tem essa obrigaccedilatildeordquo (EISNER 2019 pp 41-43)5

Seraacute mesmo que existe esse contrato Um contrato que garante que nada de ruim

aconteceraacute com pessoas boas Aparentemente a resposta era positiva para os amigos de Joacute

Tanto que buscavam imputar a Joacute a culpa pelas desgraccedilas que se abateram sobre ele

Portanto a loacutegica da justiccedila retributiva (castigo para quem peca) e contratual (Deus tem

obrigaccedilatildeo de proteger quem natildeo peca) estatildeo intrinsecamente ligadas E tal pensamento

perdura ateacute hoje como observa Luiz Alexandre Solano Rossi ldquoMais angustiante ainda eacute

reconhecer que mesmo hoje fazemos teologia com a mesma loacutegica dos amigos de Joacute

Trata-se portanto de uma loacutegica que temos muita dificuldade para quebrarrdquo (ROSSI

2017 p 31) Mesmo Carl Gustav Jung ao falar de ldquoquebra de juramentordquo aduzindo que

ldquonatildeo se pode contrapor um Deus arcaico agraves exigecircncias da eacutetica modernardquo parece sucumbir

agrave oacutetica contratualista (JUNG 2018 p 22)

Especificamente Rossi critica a chamada teologia da prosperidade tratando-a

como uma teologia da retribuiccedilatildeo poacutes-moderna (2017 p 65)

ldquoUma das possiacuteveis expressotildees da teologia da retribuiccedilatildeo em ambiente

eclesiaacutestico poacutes-moderno eacute a lsquoteologia da prosperidadersquo Essa teologia declara

que o plano de Deus para o ser humano eacute fazecirc-lo feliz abenccediloado saudaacutevel

proacutespero enfim uma pessoa de sucesso Mas onde estaria a complexidade dessa

afirmaccedilatildeo Sua complexidade reside justamente no fato de que para essa

teologia soacute natildeo eacute proacutespero financeiramente soacute natildeo eacute saudaacutevel e feliz nesta vida

quem carece de feacute natildeo cumpre o que a Biacuteblia diz a respeito das promessas

divinas e estaacute envolvido com o diabo ou seja quem estaacute em pecadordquo

Janaina Conceiccedilatildeo Paschoal (2018 p 183) comentando sobre crimes cometidos

por alguns liacutederes religiosos observa que ldquoos interesses econocircmicos tambeacutem passam mais

claramente a motivar os fieacuteisrdquo Nesse diapasatildeo Rossi observa que muitas teologias estatildeo

tratando os fieacuteis como clientes (2017 p 129)

Como se vecirc portanto embora a histoacuteria de Joacute sempre seja lida com criacuteticas aos

seus amigos podemos ver que a teologia deles retributiva e contratualista permanece

sendo praticada por muitos homens de feacute ateacute os dias de hoje

5 As belas e tristes cenas da fuacuteria de Frimme Hersh satildeo retratadas como um diaacutelogo entremeando -se os gritos

furiosos do enlutado pai com os terriacuteveis relacircmpagos da tempestade que assola a cidade neste momento Este

eacute apenas o comeccedilo da histoacuteria de Frimme Hersch que merece ser lida Natildeo diremos mais sobre ela anotando

apenas que esse diaacutelogo pode ser comparado com o de Joacute e Iaweh que aparece no seio de uma tempestade

(Joacute 38 1) De qualquer forma a dor eacute semelhan te agrave da matildee que perde um filho no filme ldquoA aacutervore da vidardquo

o qual conteacutem referecircncias expressas ao Livro de Joacute

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Mas Joacute natildeo se calou perante seus amigos Discutiu com eles agrave exaustatildeo Ele queria

mais do que provar o seu ponto natildeo desejava simplesmente amaldiccediloar a Deus O que

afinal queria Joacute Joacute ansiava sim algo profundamente encontrar Deus no tribunal

3 O DESEJO DE JOacute E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA

A ideia de levar Deus ao tribunal parece absurda e fadada agrave derrota e Joacute sabe muito

bem disso Afinal ele se pergunta quem citaraacute Deus (Joacute 9 19) e sabe que entre mil

razotildees natildeo haveraacute uma para rebatecirc-lo (Joacute 9 3) Mas Joacute ainda assim insiste Por quecirc

Dentre as inuacutemeras respostas possiacuteveis falaremos sobre aquela que mais nos

parece proacutexima da verdade do livro E para isso faremos uma pequena digressatildeo

aproveitando-nos de um pouco de nossa experiecircncia com os tribunais Muitos pensam e

falam como se tratasse de um dogma que os juiacutezes sempre tecircm o dom de desagradar uma

das partes do processo aquela que perde De acordo com essa visatildeo na praacutetica o processo

eacute um jogo em que as partes soacute tecircm uma finalidade vencer Nem sempre isso eacute verdade eis

que natildeo raramente mesmo os vencedores se desagradam com os magistrados que lhe

deram ganho de causa ao passo que os perdedores podem se conformar e ateacute aderir agrave

pretensatildeo adversa Para muitos isso pode parecer um desatino poreacutem ainda que desafie a

loacutegica e o senso comum trata-se uma conclusatildeo vaacutelida que tem a ver com um conceito

diverso de justiccedila qual seja o de justiccedila restaurativa Talvez essa seja a melhor forma de

justiccedila superando ateacute mesmo a justiccedila distributiva pois essa tambeacutem natildeo perde seu

caraacuteter impositivo A justiccedila restaurativa eacute a mais simples e paradoxalmente a mais

complexa A mais faacutecil e a mais difiacutecil A mais simples de se entender e a mais impossiacutevel

de se acreditar Essa eacute a justiccedila do diaacutelogo em que todos falam e ouvem-se uns aos

outros

Joacute natildeo quer vencer Deus no tribunal Joacute quer simplesmente falar ldquoEntatildeo lhe falaria

e natildeo teria medo pois eu natildeo sou assim a meus olhosrdquo (Joacute 9 35) Joacute tambeacutem quer ouvir

ldquoDirei a Deus Natildeo me condenes explica-me o que tens contra mimrdquo (Joacute 10 2)

Joacute sabe que nenhuma razatildeo poderaacute derrotar o Criador Mesmo assim quer ser

ouvido por Ele e tambeacutem quer escutaacute-lo

O processo judicial pode ser encarado como um jogo poreacutem nem sempre eacute assim

Muitos reacuteus mesmo de processos criminais conformam-se com sua condenaccedilatildeo quando

percebem que foram efetivamente ouvidos e compreendidos no julgamento A pena entatildeo

eacute aceita pois o proacuteprio acusado compreendeu e aceitou a sua proacutepria responsabilidade O

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processo penal com sua estrutura adversarial eacute um ambiente pouco propiacutecio para a justiccedila

restaurativa embora talvez ateacute por obra do acaso algumas vezes ela ocorra nele E talvez

esse acaso possa ser provocado justamente quando o juiz natildeo condena o reacuteu mas sim lhe

explica o que tem contra ele6 Poder-se-ia objetar que isso seria mera questatildeo de

semacircntica todavia seraacute que em tantas situaccedilotildees o problema natildeo estaacute exatamente no que

se diz mas no como se diz

O encontro entre o autor da infraccedilatildeo e a viacutetima eacute uma das possiacuteveis formas pelas

quais se pratica a justiccedila restaurativa Este diaacutelogo para dar certo deve ser preparado

pelos facilitadores restaurativos7 No processo penal autor da infraccedilatildeo e viacutetima raramente

se encontram Ateacute porque o ofendido frequentemente pede para natildeo depor na frente do

reacuteu por fundado temor Eacute certo que amiuacutede o medo eacute justificaacutevel contudo o que se vecirc

no cotidiano forense eacute que ele eacute praticamente presumido automaticamente aprofundando

o trauma do crime de modo que natildeo se vislumbre mais qualquer possibilidade de perdatildeo

ou reconciliaccedilatildeo

Joacute disse que Shaddai8 lhe encheu de terror (Joacute 23 16) todavia deseja

ardorosamente o encontro

ldquoOxalaacute soubesse como encontraacute-lo

como chegar agrave sua morada

Exporia diante dela a minha causa

com minha boca cheia de argumentos

Gostaria de saber com que palavras iria responder-me

e ouvir o que teria para me dizer

Usaria ele de violecircncia ao pleitear comigo

Natildeo bastaria que me desse atenccedilatildeo

Ele reconheceria em seu adversaacuterio um homem reto

e eu triunfaria sobre meu juizrdquo (Joacute 23 3-7)

Joacute pretende expor seus argumentos diante de Deus ouvir o que Ele tem a dizer e

bastaria que Ele reconhecesse a sua retidatildeo para que Joacute se considerasse vitorioso Ora o

desejo de Joacute se coaduna com os preceitos da justiccedila restaurativa De fato como observa

Helena Zani Morgado ldquocomunicaccedilatildeo assertiva e escuta compassiva portanto satildeo verso e

anverso da moeda restaurativardquo (2018 p 158)

6 Eacute inusitado que um reacuteu parabenize o juiz que o condenou As vezes em que isso nos ocorreu podem ser

contadas nos dedos Poreacutem olhando agora para traacutes percebemos um lugar comum nesses casos Os acusados

se sentiram efetivamente ouvidos no processo Embora o julgamento lhes tenha sido adverso natildeo foram mal

compreendidos Sentiram eles que foram efetivamente ouvidos E souberam eles aceitar a su a

responsabilidade Uma rara poreacutem feliz combinaccedilatildeo que resultou de um processo penal 7 Entenda-se bem natildeo para se instigar um discurso artificial de arrependimento e perdatildeo mas sim para que

os envolvidos compreendam o processo especialmente no tocante agrave igualdade entre as partes e falem com

honestidade sobre seus sentimentos em relaccedilatildeo ao conflito Os facilitadores em regra satildeo voluntaacuterios que se

especializam em determinadas teacutecnicas restaurativas visando garantir um efetivo diaacutelogo entre as partes 8 Outro nome de Deus no Livro de Joacute

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Eacute preciso enfatizar que Joacute mais do que a reversatildeo dos seus infortuacutenios deseja o

reconhecimento de Deus exatamente como a viacutetima deseja ser reconhecida como pessoa

por seu ofensor Na justiccedila retributiva dos amigos de Joacute e do processo penal em geral

ofendidos e acusados satildeo instrumentalizados vale dizer satildeo apenas peccedilas de um jogo que

determinaraacute ou natildeo a aplicaccedilatildeo da pena A viacutetima eacute um instrumento para a condenaccedilatildeo

pois o Estado-Juiz natildeo se importa com o seu trauma Jaacute o acusado tambeacutem eacute um

instrumento na medida em que serve de exemplo para a prevenccedilatildeo geral de delitos

reforccedilando a crenccedila na vigecircncia da norma ou como diz expressamente Guumlnther Jakobs ldquoa

finalidade da culpabilidade eacute a estabilizaccedilatildeo da norma deacutebilrdquo (JAKOBS 2003 p 31)

Elifaz Baldad Sofar natildeo soacute instrumentalizam Joacute como o pecador que certamente

estaacute recebendo o merecido castigo como tambeacutem o proacuteprio Deus que passa a ter funccedilotildees

claras de puniccedilatildeo ou recompensa (ou ateacute pagamento na perspectiva contratualista)

independentemente de sua vontade Enfim Deus passa a ser uma ideia que justifica o

sofrimento do pobre (pecador) e o bem-estar do rico (justo) Posteriormente em reforccedilo a

essa concepccedilatildeo ainda surge Eliuacute que censura Joacute simplesmente por falar9 e se coloca em

posiccedilatildeo de superioridade pretendendo instrui- lo10

Eliuacute assim humilha Joacute colocando-o num patamar inferior em que sua liberdade

de expressatildeo e de sentimentos por si soacute jaacute eacute tida como uma ofensa Enfim mais uma

personagem que tenta desviar Joacute de seu encontro restaurativo com Deus tratando-o como

um insensato que multiplica palavras

Joacute natildeo responde a Eliuacute talvez ateacute porque demais humilhado por ele11 Ou entatildeo Joacute

simplesmente natildeo tenha tido tempo de responder a Eliuacute pois eacute nesse momento que surge a

tempestade e finalmente o desejo de Joacute eacute atendido

4 O ENCONTRO RESTAURATIVO DE JOacute E IAWEH

No seio da tempestade estaacute Iaweh que passa a responder a Joacute (Joacute 38 1) O que

seria o cliacutemax do livro de Joacute torna-se o anticliacutemax Se por um acaso se esperava o retorno

do Acusador e sua eventual derrota ou qualquer esclarecimento ou justificativa divina para

o ocorrido o que se tem eacute que o livro terminaraacute sem qualquer explicaccedilatildeo para os atos de

Satanaacutes ou de Deus nem qualquer alusatildeo agrave inocecircncia ou eventual culpabilidade de Joacute

9 ldquoJoacute abre a boca para o vazio e insensatamente multiplica palavrasrdquo (Joacute 35 16) 10 ldquoEspera um pouco que eu te instruireirdquo (Joacute 36 2) 11 Uma liccedilatildeo que serve para os encontros restaurativos com autores de crimes pois a justiccedila restaurativa deve

empoderar as pessoas contribuindo para o desenvolvimento comunitaacuterio e natildeo para censuraacute -los ou colocaacute-

los em posiccedilatildeo de inferioridade o que apenas contribui para o ressentimento

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Iahweh pergunta e desafia ldquoOnde estavas quando lancei os fundamentos da terra

Dize-mo se eacute que sabes tantordquo (Joacute 38 4) A ironia utilizada por Deus em seu desafio a

Joacute por um lado poderia chocar como de fato tem chocado inuacutemeros autores e inteacuterpretes

da Biacuteblia Contudo temos aqui de fato um encontro restaurativo em que Joacute e Iahweh

puderam de fato dizer tudo o que pensavam Com efeito um diaacutelogo restaurativo natildeo pode

ser mal-entendido como uma conversa artificial uma espeacutecie de teatro em que cada um

procura dizer exatamente aquilo que o outro quer ouvir mostrando um (falso)

arrependimento em busca de uma (falsa) reconciliaccedilatildeo ou (falso) perdatildeo Apenas quando

duas pessoas falam a verdade ainda que dolorosa eacute possiacutevel a construccedilatildeo da justiccedila

restaurativa Neste sentido a observaccedilatildeo de Elizabeth M Elliot citando Hal Pepinsky e a

sabedoria do povo navajo para o processo de conceituaccedilatildeo da justiccedila ldquoCompareccedila Preste

atenccedilatildeo Fale a verdade Natildeo fique preso a resultadosrdquo (2018 p 103)

Assim veja-se a formaccedilatildeo da justiccedila restaurativa no livro de Joacute 1) Deus

compareceu diante de Joacute 2) Apesar de Deus natildeo ter surgido antes o livro aponta

claramente que Ele prestou atenccedilatildeo em tudo o que Joacute dizia (Joacute 38 1-4) 3) Tanto Joacute

quanto Deus falam francamente e por fim 4) Natildeo existe um resultado certo que devemos

esperar vale dizer natildeo estamos diante de um contrato em que cada uma das partes tecircm

obrigaccedilotildees previamente estipuladas a serem cumpridas

Um diaacutelogo fluido e natural e natildeo riacutegido e artificial eacute o que propiciaraacute a justiccedila

restaurativa A rigidez e a artificialidade somente poderatildeo produzir uma ilusatildeo de justiccedila

O discurso de Iahweh eacute duro e nisso reside a Sua verdade ou pelo menos

franqueza A restauraccedilatildeo natildeo pode ser alcanccedilada sem que se diga aquilo que se sente

Deus assim quebra expectativas com o que alguns inteacuterpretes chegam ao ponto

de lhe acusar de ausecircncia de compaixatildeo (HABEL 2004 p 37) De fato quando

expectativas comportamentais satildeo quebradas a proacutepria acusaccedilatildeo tambeacutem se mostra

implacaacutevel e sem misericoacuterdia assemelhando-se ao que ocorre no julgamento criminal12

Contudo a restauraccedilatildeo natildeo ocorreraacute tentando-se mudar aquilo que a pessoa eacute para se

atender a determinados preacute-conceitos

12 Embora a moderna dogmaacutetica penal seja unacircnime na rejeiccedilatildeo do ldquodolo pela conduccedilatildeo de vidardquo concepccedilatildeo

de Mezger com repercussotildees no direito penal nazista (cf SOUZA 2019 p 285) estudos da criminologia

criacutetica demonstram que o direito penal amiuacutede as sume caraacuteter altamente seletivo o que explicaria um

encarceramento massivo de negros pobres pessoas com baixa instruccedilatildeo etc Natildeo eacute funccedilatildeo deste trabalho

investigar os fatores que levam a isso mas fica aqui rapidamente consignado que desde a lei penal eacute

possiacutevel constatar irracionalidades no sistema de justiccedila criminal Como jaacute tivemos oportunidade de

mencionar alhures basta ver a pena destinada ao crime de fraude em licitaccedilatildeo (art 90 da Lei 86661993)

ainda que milionaacuteria e a pena do crime de moeda falsa ainda que envolvendo uma uacutenica ceacutedula de cinquenta

reais (art 289 do Coacutedigo Penal) e fazer um breve exerciacutecio de imaginaccedilatildeo tentando traccedilar um perfil de quem

costumeiramente costuma praticar o primeiro e o segundo delito (AZEVEDO 2019 p 210)

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E Joacute compreendeu isso dizendo que havia chegado o seu momento de escutar (Joacute

40 4-5) Ao final Joacute menciona ldquoQuem eacute aquele que vela teus planos com propoacutesitos sem

sentidordquo (Joacute 42 3)

Interpretamos esse trecho da seguinte forma Joacute reconheceu o seu erro e

finalmente entendeu que natildeo existe contrato aliaacutes nunca existiu um contrato Mas

tambeacutem natildeo houve retribuiccedilatildeo E isso ficou subentendido nos discursos de Iahweh nos

quais em momento algum existe alusatildeo a alguma acusaccedilatildeo contra Joacute Joacute estava certo ao

se considerar inocente poreacutem equivocado ao se considerar imune a quaisquer mazelas

como se protegido por uma obrigaccedilatildeo de Deus

Natildeo foi outra a conclusatildeo de Luiz Felipe Pondeacute (2017 p 7)

ldquoO lsquoerrorsquo de Joacute (como o de todos noacutes) foi achar-se justo e portanto merecedor

de uma vida feliz Quando ele finalmente se entrega a Deus e a tudo que existe

agrave sua volta sem se perguntar por que ele sofre Joacute entende seu pecado a

idolatria de sua proacutepria virtuderdquo

Depois do reconhecimento do proacuteprio erro por Joacute abre-se entatildeo o caminho para a

restauraccedilatildeo E espancando quaisquer duacutevidas Deus se dirige aos amigos de Joacute e fala algo

surpreendente ldquoEstou indignado contra ti e teus dois companheiros porque natildeo falastes

corretamente de mim como o fez meu servo Joacuterdquo (Joacute 42 7) Eacute curioso porque ao longo

dos diaacutelogos aparentemente os amigos de Joacute colocavam-se como os advogados de Iahweh

contra as blasfecircmias de Joacute Contudo como visto na verdade isto era apenas a ilusatildeo de

uma suposta justiccedila retributiva que puniria somente os pecadores de modo que quanto

aos natildeo pecadores evidentemente nada de mal ocorreria o que traduzia a ideia de

contrato com Deus A instrumentalizaccedilatildeo de Deus para permitir tais concepccedilotildees

definitivamente natildeo agradou Iahweh que natildeo soacute os desautorizou como ainda por cima

elogiou a fala sincera de Joacute Mesmo errado Joacute acertou mais que seus amigos ao afastar a

retribuiccedilatildeo divina como causa de suas mazelas O comparecimento e o reconhecimento de

Deus representaram o triunfo de Joacute ldquoEu te conhecia soacute de ouvir mas agora meus olhos te

veemrdquo (Joacute 42 5)

Tudo isso contudo natildeo resolveu o misteacuterio Muito tempo depois a duacutevida

novamente surgiu na boca dos disciacutepulos de Jesus e ele novamente a afastou embora

tenha aprofundado o misteacuterio

ldquoAo passar ele viu um homem cego de nascenccedila Seus disciacutepulos lhe

perguntaram lsquoRabi quem pecou ele ou seus pais para que nascesse cego

Jesus respondeu lsquoNem ele nem seus pais pecaram mas eacute para que nele sejam

manifestadas as obras de Deusrdquo

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A melhor soluccedilatildeo para o misteacuterio parece vir de Tolstoacutei que nos lembra que desde

o iniacutecio de nossas vidas a sombra da morte nos espreita A morte eacute inexoraacutevel para todos

noacutes e todos os nossos bens desejos e interesses desapareceratildeo depois dela Por isso

Tolstoacutei natildeo vecirc sentido numa ldquovida vivida soacute para sirdquo A uacutenica vida racional com

verdadeiro significado seria a vida vivida para os outros Apenas essa vida natildeo pode ser

destruiacuteda pela morte (TOLSTOacuteI 2011 p 148) Essa uma liccedilatildeo ainda a ser aprendida

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

Como dito no iniacutecio o presente artigo estaacute sendo escrito durante uma pandemia

num momento de fragilidade de muitas pessoas tempo em que o choque de vozes

favorece o temor e a desesperanccedila Poreacutem aqui recordamos a histoacuteria de Joacute todos os seus

infortuacutenios e sofrimentos e ao final sua restauraccedilatildeo

A propoacutesito do final alguns autores o consideram escrito posteriormente por outro

autor um ldquoepiacutelogo ineptordquo (BLOOM 2005 p 27) ou proacuteprio de ldquoum grande sucesso de

bilheteria hollywoodianordquo (GIRARD 2014 p 163)13 Natildeo cremos nessa hipoacutetese14

poreacutem ainda que verdadeira natildeo eacute muito relevante Na verdade o final com a devida

vecircnia natildeo recebeu a devida interpretaccedilatildeo dos ilustres autores citados

De fato esse fim de Hollywood parece resultar do enfoque na restauraccedilatildeo15 dos

bens e de novos filhos para Joacute como se fosse isso o que realmente importasse Ou seja

novamente uma interpretaccedilatildeo que se apega ao contratualismo como o pagamento de uma

diacutevida em atraso por Deus Natildeo eacute este o melhor entendimento

A restauraccedilatildeo ocorre com o reconhecimento por Deus da retidatildeo de Joacute natildeo

obstante todos os males que se abateram sobre ele a respeito dos quais Iahweh tambeacutem

natildeo fornece qualquer explicaccedilatildeo Isso aliado ao comparecimento de Deus eacute o bastante

para o triunfo e reparaccedilatildeo de Joacute Enfim tudo isso eacute suficiente para a restauraccedilatildeo do seu

conflito com Deus Novos bens e novos filhos bem como provaacuteveis novos revezes

embora natildeo citados satildeo apenas meras consequecircncias da continuidade da vida

13 Natildeo obstante Reneacute Girard mesmo considerando que o epiacutelogo tenha sido adicionado reconhece nele uma

frase marcante na qual Deus falando aos amigos acrescenta que natildeo os castigaraacute ldquopor natildeo terdes falado

corretamente de mim como o fez meu servo Joacute (Joacute 48 8) rdquo (GIRARD 2014 P 163) 14 O fim do livro eacute perfeitamente compatiacutevel com o seu conteuacutedo afastando a ideia de justiccedila retributiva 15 A propoacutesito desta restauraccedilatildeo Norman C Habel sugere que o uso do verbo restaurar pode ser fortuito

poreacutem sugere uma justiccedila restaurativa em vez de uma retributiva (HABEL 2004 p 35)

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A oportunidade do diaacutelogo com Deus foi a verdadeira restauraccedilatildeo de Joacute pois ele

compreendeu dois fatos fundamentais 1ordf) mesmo sendo justo natildeo estava imune ao mal e

ao sofrimento 2ordf) apesar de ter chegado a amaldiccediloar o dia em que nasceu (Joacute 3 1) Joacute

percebeu que sua vida teve um verdadeiro significado como no sentido proposto por

Tolstoacutei Foi uma vida vivida para os outros como demonstra a lembranccedila de Joacute em um

dos diaacutelogos

ldquoA justiccedila eu vivia como tuacutenica

o direito era meu manto e meu turbante

Eu era olhos para o cego

era peacutes para o coxo

Era o pai dos pobres

e examinava a causa de um desconhecidordquo (Joacute 29 14-16)

Nestes tempos de pandemia temos uma escolha reclamar da sorte e maldizer a

Deus ou continuar dando um verdadeiro significado agraves nossas vidas ajudando-nos uns aos

outros da melhor forma que pudermos Sem lamentar um contrato natildeo cumprido e sem nos

desesperarmos pela crenccedila de que estamos sofrendo um castigo divino A vida vivida para

os outros com espaccedilo para o perdatildeo e para a reconciliaccedilatildeo levaraacute agrave restauraccedilatildeo e ao

desenvolvimento de nosso senso de comunidade Esta a liccedilatildeo que extraiacutemos do Livro de

Joacute

REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS

AZEVEDO Paulo Bueno de Ensaio sobre a irracionalidade do sistema criminal agrave

luz da obra religiosa de Lev Tolstoacutei Rio de Janeiro Lumen Juris 2019

BIacuteBLIA DE JERUSALEacuteM Traduccedilatildeo de Luiz Inaacutecio Stadelmann 7ordf impressatildeo

2011

BLOOM Harold Onde encontrar a sabedoria Traduccedilatildeo de Joseacute Roberto OrsquoShea

Revisatildeo de Marta Miranda OrsquoShea Rio de Janeiro Objetiva 2005

BORGES Jorge Luiacutes El libro de Job [Conferecircncia en el Instituto Cultural

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httpsborgestodoelanioblogspotcomsearchq=libro+de+job acesso em 08 de maio

de 2020

BORGES Jorge Luis Sete conversas com Fernando Sorrentino Organizador

Fernando Sorrentino Traduccedilatildeo de Ana Flores Rio de Janeiro Beco do Azougue

2009

CARBAJOSA Ignacio Joacute potildee Deus no banco dos reacuteus Sobre o sofrimento inocente

In httparquivorevistapassoscombrdefaultaspid=344ampid_n=5530amppagina=1

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ELLIOTT Elizabeth M Seguranccedila e cuidado justiccedila restaurativa e sociedades

saudaacuteveis Traduccedilatildeo de Cristina Telles Assumpccedilatildeo com revisatildeo teacutecnica de Tonia

Van Acker Satildeo Paulo Palas Athena 2018

EISNER Will Biblioteca Will Eisner um contrato com Deus Will Eisner [histoacuteria e

arte] Traduccedilatildeo Marquito Maia Satildeo Paulo Devir 2019

GIRARD Reneacute A rota antiga dos homens perversos Traduccedilatildeo de Tiago Joseacute Risi

Leme Satildeo Paulo Paulus 2014

JAKOBS Guumlnther Fundamentos do direito penal Traduccedilatildeo Andreacute Luiacutes Callegari

Satildeo Paulo Revista dos Tribunais 2003

HABEL Norman C The verdict onof Goda at the end of Job In Jobrsquos God

London SCM Press 2004

HADJADJ Fabrice Joacute ou a tortura pelos amigos Traduccedilatildeo de Clara Carvalho Satildeo

Paulo Eacute Realizaccedilotildees 2017

JUNG CJ Resposta a Joacute Traduccedilatildeo do Pe Dom Mateus Ramalho Rocha 10 ediccedilatildeo

Petroacutepolis Vozes 2018

MORGADO Helena Zani Direito penal restaurativo em busca de um modelo

adequado de justiccedila criminal Rio de Janeiro Revan 2018

PASCHOAL Janaina Conceiccedilatildeo Religiatildeo e direito penal interfaces sobre temas

aparentemente distantes Satildeo Paulo LiberArs 2018

PONDEacute Luiz Felipe Joacute e a alegria (prefaacutecio) In HADJADJ Fabrice Joacute ou a

tortura pelos amigos Traduccedilatildeo de Clara Carvalho Satildeo Paulo Eacute Realizaccedilotildees 2017

ROSSI Luiz Alexandre Solano A origem do sofrimento do pobre teologia e

antiteologia no livro de Joacute Satildeo Paulo Paulus 2017

SOLON Ari Marcelo Direito e tradiccedilatildeo o legado grego romano e biacuteblico Rio de

Janeiro Elsevier 2009

SOUZA Luciano Anderson de Direito penal parte geral Satildeo Paulo Revista dos

Tribunais 2019

TOLSTOacuteI Liev Minha religiatildeo Traduccedilatildeo Dinah de Abreu Azevedo Satildeo Paulo A

Girafa 2011

Autor ndash Excelentiacutessimo Juiz Federal Dr Paulo Bueno de Azevedo

Docente FATEJ FADISA

JUIZ FEDERAL e Professor de Direito Penal da

FADISA

DOUTOR em Direito Penal pela Universidade

de Satildeo Paulo

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ldquoA CONTRIBUICcedilAtildeO DOS MANUSCRITOS DE QUMRAN PARA

EXEGESE DO APOCALIPSE DE JOAtildeOrdquo

APOCALIPSE 51-14 ndash O CAcircNTICO CERIMONIAL DA

CELEBRACcedilAtildeO DO SACERDOacuteCIO UNIVERSAL DE JESUS Agrave LUZ DAS TRADICcedilOtildeES DO MISTICISMO JUDAICO - UMA EXEGESE

CONTEMPORAcircNEA

RESUMO

Nos uacuteltimos anos as descobertas dos manuscritos de Qumran intensificaram as propostas

de exegese da literatura apocaliacuteptica dando novas ecircnfases dentre elas estatildeo as hipoacuteteses de

Rowland16 de que os textos do Apocalipse 4 e 5 possuem em sua narrativa uma

semelhanccedila baacutesica com a liturgia descrita nas tradiccedilotildees do misticismo apocaliacuteptico do

judaiacutesmo no I seacuteculo bem como em textos de Qumran principalmente no fragmento

4Q405 Nogueira17 seguindo esta linha de pesquisas cita que Ezequiel capiacutetulo 1 eacute

considerado chave de uma tradiccedilatildeo miacutestica do judaiacutesmo enoquita sendo tambeacutem um

elemento central do Apocalipse de Joatildeo o principal visionaacuterio do cristianismo Sebastiana

Nogueira18 lembra que foi Scholem quem realmente usou este misticismo para produzir a

chave das histoacuterias de ascensatildeo celestial presentes nos apocalipses dos uacuteltimos dois seacuteculos

aC e dos primeiros dois seacuteculos dC de forma que Scholem na verdade foi quem

iniciou a discussatildeo acadecircmica dos miacutesticos judaicos em seu livro Major Trends in Jewish

Myticism - Principais Tendecircncias no Misticismo Judaico em 1941 Destarte esta linha de

pesquisa ecoa nos estudos do misticismo apocaliacuteptico e do ecircxtase visionaacuterio relativo ao

contexto do judaiacutesmo e cristianismo primitivos sendo fundamentada em autores tais

como Christopher Rowland Alan Segal C R A Morray-Jones e John Ashton John

Collins Adella Collins Jonas Machado Paulo A S Nogueira Carol Newsom David E

Aune Philip Alexander Crispin HT Fletcher-Louis Florentino Garciacutea Martiacutenez dentre

outros sendo que estes autores se alinham aos resultados das pesquisas iniciais de

Gershom Scholem sobre o Misticismo Judaico e aos desenvolvimentos mais recentes neste

acircmbito Corroborando com a tradiccedilatildeo destes estudos se encontram as descobertas dos

manuscritos de Qumran como a dos Cacircnticos do Sacrifiacutecio Saacutebatico uma composiccedilatildeo de

treze cacircnticos tambeacutem chamada de liturgia angeacutelica e que tem contribuiacutedo para o

desenvolvimento das pesquisas bem como sustentado os argumentos de Scholem

16 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 20097273 17 NOGUEIRA Paulo Augusto de S (org) Religiatildeo de Visionaacuterios ndash Apocaliacuteptica e Misticismo no

Cristianismo Primitivo Satildeo Paulo Ed Loyola ndash 200543 18 NOGUEIRA Sebastiana M Silva 2 Coriacutentios 12 e o Misticismo Judaico (Os Quatro que Entraram no

Pardes) Oracula 201204

autor

Me Marcelo Alves Dantas

E-mail marcelodantasteologiagmailcom

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Portanto este artigo faz uma breve exposiccedilatildeo das tradiccedilotildees da miacutestica judaica e suas

contribuiccedilotildees para exegese do capiacutetulo 5 do Apocalipse de Joatildeo

Palavras chave Judaiacutesmo Misticismo Apocaliacuteptica Trono Cacircntico

ABSTRACT

In recent years the discoveries of the Qumran manuscripts have intensified the proposals

for the exegesis of apocalyptic literature with new emphases among them are Rowlands

hypotheses that the texts of Revelation 4 and 5 have in their narrative a basic similarity

with the liturgy described in the traditions of Judaisms apocalyptic mysticism in the first

century as well as in Qumran texts mainly in fragment 4Q405 Nogueira following this

line of research and based on other scholars mentions that Ezekiel chapter 1 is considered

key to a mystical tradition of enochite Judaism being also a central element of the

Apocalypse of John the main visionary of Christianity Sebastiana Nogueira recalls that it

was Scholem who really used this mysticism to produce the key to the stories of celestial

ascension present in the apocalypses of the last two centuries BC and the first two

centuries AD So Scholem in fact who started the academic discussion of mystics Jews in

his book Major Trends in Jewish Myticism - Main Trends in Jewish Mysticism in 1941

Thus this line of research echoes in the studies of apocalyptic mysticism and visionary

ecstasy concerning the context of primitive Judaism and Christianity with some of the best

known authors Christopher Rowland Alan Segal CRA Morray-Jones and John Ashton

John Collins Adella Collins Jonas Machado Paulo AS Nogueira Carol Newsom David

E Aune Philip Alexander Crispin HT Fletcher-Louis Florentino Garciacutea Martiacutenez among

others these authors are aligned with the results of Gershom Scholems initial research on

Jewish Mysticism and with the most recent developments in this area Corroborating the

tradition of these studies are the findings of the Qumran manuscripts such as the Song of

Sacrifice Saacutebatico a composition of thirteen songs also called angelic liturgy which has

contributed to the development of research as well as supporting the arguments of

Scholem Therefore this article briefly exposes the traditions of Jewish mysticism and

their contributions to the exegesis of chapter 5 of the Apocalypse of John

Keywords Judaism Mysticism Apocalyptic Throne Song

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INTRODUCcedilAtildeO

Segundo Nogueira19 o cristianismo primitivo nasceu como religiatildeo extaacutetica e que

para se compreender a literatura antiga eacute importante levar-se em consideraccedilatildeo a pergunta

sobre a situaccedilatildeo cultural da eacutepoca e a produccedilatildeo dos textos Diante do reconhecimento de

que visotildees audiccedilotildees e revelaccedilotildees natildeo acontecem sem um quadro cultural de referecircncia

assim o exegeta deve partir da busca de possiacuteveis contribuiccedilotildees para o estudo deste quadro

cultural tendo como finalidade contribuir para a compressatildeo das experiecircncias visionaacuterias e

apocaliacutepticas tanto quanto da experiecircncia religiosa dos primeiros cristatildeos

Assim procurando situar o quadro cultural de referecircncia elencamos no trabalho

comparativo os dados apresentados por Sacchi20 permitindo a distinccedilatildeo de quatro periacuteodos

da Apocaliacuteptica

a) A primeira fase apocaliacuteptica com seu iniacutecio antes de 200 aC

b) A segunda fase apocaliacuteptica desde 200 aC a 100 aC

c) A terceira fase apocaliacuteptica desde 100 aC a 50 dC

d) A quarta fase apocaliacuteptica desde 50 dC a 120 dC

Sob a mesma linha de hipoacuteteses temos a contribuiccedilatildeo de Collins21 que por meio de

um levantamento exaustivo dos textos que puderam ser classificados como Apocalipses e

datados com qualquer plausibilidade no periacuteodo de 250 aC ndash 250 dC procurou ver ateacute

onde podiam ser considerados como membros de um mesmo gecircnero Para ele haacute uma

distinccedilatildeo entre ldquoApocalipses Histoacutericosrdquo e os ldquoApocalipses de Viagensrdquo de sorte que

considera necessaacuterio a elucidaccedilatildeo de que um apocalipse eacute ldquouma estrutura geralrdquo que

incorpora outros gecircneros literaacuterios (carta testamento paraacutebola hino oraccedilatildeo etc)

De sorte que sendo a dimensatildeo das fases da Apocaliacuteptica de grande extensatildeo e com

muitos textos produzidos se impotildee a necessidade de delimitaccedilatildeo da pesquisa e nesse

quesito contribui Machado22 ao citar um importante aspecto que deve ser levado em

consideraccedilatildeo a distinccedilatildeosimilaridade em relaccedilatildeo aos gecircneros literaacuterios que envolvem a

19 NOGUEIRA Paulo Augusto de Souza Experiecircncia Religiosa e Criacutetica Social no Cristianismo Primitivo

Satildeo Paulo ndash Paulinas 200417 20 SACCHI P Jewish Apocalyptic and its History Sheffield Academic Press England 1990110 21 Artigo Intitulado Apocalipses Judaicos - p 1-8 COLLINS John J SEMEIA 14 Apocalypse The

Morphology of a Genre The Society of Biblical Literature 1979 22 Apud SEGAL Alan F Paul The Convert The Apostolate and Apostasy of Saul The Pharisee New

HavenLondon Yale University Press 1990 p 38 ndash Life After Death A History of the Afterlife in the

Religions of the West New York Doubledy 2004410

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apocaliacuteptica e a miacutestica judaica uma vez diferentes e facilmente distinguiacuteveis mas que

relatam experiecircncias religiosas semelhantes

Os apocalipses combinam tambeacutem uma seacuterie de formas menores sendo as mais

importantes 1) Panoramas da histoacuteria em forma de futuro - o interesse dos

apocaliacutepticos volta-se em primeiro lugar para os iminentes acontecimentos

escatoloacutegicos para os horrores do tempo final e a gloacuteria do novo mundo 2)

Descriccedilatildeo do aleacutem - outro interesse consiste em dar ao leitor uma visatildeo do

mundo do aleacutem Para isso se recorre a descriccedilotildees de arrebatamentos visionaacuterios

Em um ecircxtase o visionaacuterio passa por mudanccedila de lugar e perambula por regiotildees

estranhas e misteriosas na terra e no ceacuteu (Ez 83ss) Elas oferecem a

oportunidade de transmitir conhecimentos sobre a topografia do ceacuteu e do inferno

sobre hierarquia dos anjos etc 3) Visotildees da sala do trono - ponto alto dessas

viagens seu alvo mas agraves vezes tambeacutem seu desenlace eacute a visatildeo da sala do trono

de Deus Sua descriccedilatildeo tem por objetivo mostrar sua inacessibilidade de Deus e

documentar simultaneamente a competecircncia do visionaacuterio que remonta

diretamente a Deus o qual recebe nessas audiecircncias uma missatildeo especial e ao

qual se confere um status especial (Atos 9 1011 101011 2619) As visotildees da

sala do trono formam um elo intermediaacuterio entre visatildeo de convocaccedilatildeo dos

profetas (cf Is 6 Ez 1ss) e da posterior miacutestica merkaba (carruagem divina)

judaica23

Reforccedilando as hipoacuteteses da exegese apocaliacuteptica com base nas tradiccedilotildees do

misticismo judaico Vielhauer a semelhanccedila de Collins fala da abrangecircncia e relevacircncia da

literatura apocaliacuteptica identificando que nas visotildees da sala do trono se encontram a

formaccedilatildeo de um elo intermediaacuterio entre a visatildeo de convocaccedilatildeo dos profetas e das tradiccedilotildees

do misticismo da Mercavaacuteh o que tambeacutem eacute atestado por Collins sendo fontes das quais

participam os apocaliacutepticos

1 INTRODUCcedilAtildeO AO MISTICISMO JUDAICO - ldquoANAacuteLISE DOS TEXTOS

FUNDANTESrdquo

11 ndash Isaiacuteas Cap 6 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

Machado24 em sua tese de doutorado elucida que o texto de (Isaiacuteas 61-13) pode ser

visto como pertencente agrave tradiccedilatildeo de participaccedilatildeo profeacutetica na corte celestial de anjos

ainda que a visatildeo esteja restrita ao Templo terrestre todavia estaacute situado na base do

judaiacutesmo poacutes-exiacutelico que vecirc Isaiacuteas como uacutenico ser humano que viu a Deus colocando

assim a passagem no centro da apocaliacuteptica e miacutestica judaica

23 VIELHAUER Philipp Literatura Cristatilde Primitiva - Introduccedilatildeo ao Novo Testamento aos Apoacutecrifos e aos

Pais Apostoacutelicos Ed Academia Cristatilde Satildeo Paulo 2005517 24 MACHADO Jonas Transformaccedilatildeo Miacutestica na Religiatildeo do Apoacutestolo Paulo Recepccedilatildeo do Moiseacutes

Glorificado em 2 Coriacutentios na Perspectiva da Experiecircncia Religiosa Satildeo Bernardo do Campo (Tese de

Doutorado) - UMESP 2007107

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O texto de Isaiacuteas em sua narrativa apresenta uma visatildeo da sala do trono de Deus a

partir do santuaacuterio terrestre local geograacutefico onde Isaiacuteas se encontra Um estudo dos

termos hebraicos utilizados no texto permitem entender claramente a visatildeo que o profeta

viu

Com base no verso 1 a experiecircncia do profeta se concentra numa visatildeo (האראו -

varingereumleh) o termo hebraico aqui utilizado traz o sentido natildeo apenas de ver mas de temer

honrar respeitar diante do impacto e da grandeza da visatildeo

O termo hebraico (שי yoshev ldquosentadordquo) tem o significado de sentar morar habitar ndash ב

viver residir permanecer ficar

Trono alto e elevado

Temos aqui o termo (סא para (al ndash לע) kise) usado para a palavra Trono e ndash א

elevado

margem borda referindo-se a borda do manto (veumlshularingyv ndash השלעבה)

במ) meumlleym) encher completar ndash םעא

Evidenciamos que Isaiacuteas no verso 1 usa o termo (וובהע - haheykharingl) para o

Templo e que este tambeacutem pode ser traduzido por ldquoPalaacutecio ou Assembleiardquo com efeito

seu uso aqui levantou a hipoacutetese da concepccedilatildeo de que Isaiacuteas era um integrante da ldquocorte

celestialrdquo ou ldquoassembleia dos deusesrdquo O fato de o Trono estar no ldquoalto ou elevadordquo junto

ao termo (וובהע - haheykharingl - Palaacutecio) nos permite entender que a visatildeo de Isaiacuteas parece

se referir a uma visatildeo da sala do Trono no Templo ldquoPalaacuteciordquo Celestial Assim temos a

visatildeo do Templo Celestial a partir do Templo Terrestre sendo portanto uma visatildeo do

Templo Celestial isenta de uma ascensatildeo ao mesmo

Essa hipoacutetese eacute corroborada quando tambeacutem notamos que no verso 4 ao se

mencionar que o Templo se encheu de fumaccedila se usa outro termo ou seja (ו ndash הובב

veumlhabayt ldquoe a casardquo) para se referir ao mesmo

Deste modo o texto do profeta Isaiacuteas nas tradiccedilotildees do judaiacutesmo antigo tem sua

leitura no hebraico justaposta as experiecircncias da sala do trono de Deus sendo um

documento preservado e achado plenamente conservado em Qumran a preservaccedilatildeo do

רמraringm

סא אkise

לעal

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documento tem levado muitos pesquisadores a considerar a tradiccedilatildeo do profeta Isaiacuteas como

uma importante hipoacutetese dos elos das tradiccedilotildees do judaiacutesmo enoquita

12 ndash Ezequiel Cap 1 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

Apoacutes uma breve introduccedilatildeo em busca das origens da Apocaliacuteptica e seus possiacuteveis

elos histoacutericos enquanto tradiccedilotildees de judaiacutesmos e suas praacuteticas lituacutergicas literatura e

movimento social demonstrando a existecircncia de contextos e ambiente histoacuterico nos quais

podemos inserir a pesquisa e a produccedilatildeo exegeacutetica a proposta agora eacute a de apresentar

meacutetodos que auxiliem no processo da exegese

Como porta de entrada citamos a tese de doutorado de Machado25 que indica o

texto de (Isaiacuteas 61-13) como podendo pertencente agrave tradiccedilatildeo de participaccedilatildeo profeacutetica na

corte celestial de anjos ainda que a visatildeo esteja restrita ao Templo terrestre todavia estaacute

situado na base do judaiacutesmo poacutes-exiacutelico que vecirc Isaiacuteas como uacutenico ser humano que viu a

Deus colocando assim a passagem no centro da apocaliacuteptica e miacutestica judaica

Portanto a proposta de antematildeo preacute-estabelecida para exegese eacute a de um olhar dos

aspectos literaacuterios com base naquilo que haacute ldquocomumsimilardiferente26rdquo nos textos A isso

somamos levamos as noccedilotildees do meacutetodo exegeacutetico de W Egger27 que abrange forma e

gecircnero respectivamente como ldquoa configuraccedilatildeo individual de um texto particular e por

classe de textogecircnero o que vaacuterios textos possuem em comumrdquo

Assim temos como pressuposto que um texto pertencente a um mesmo gecircnero

quando assinalado pelos seguintes aspectos

a) Revelam uma estrutura linguiacutestico-sintaacutetica semelhante

b) Possuem uma estrutura semacircntica e narrativa anaacuteloga

c) Tem uma intenccedilatildeo parecida em relaccedilatildeo ao efeito que pretendem produzir

d) Mostram uma situaccedilatildeo vital semelhante o entorno social e comunicativo eacute

semelhante

Portanto para conduccedilatildeo de uma exegese estes olhares analiacuteticos satildeo singulares

procurando manter um processo da que evidencie a participaccedilatildeo ou proximidade de

25 MACHADO Jonas Transformaccedilatildeo Miacutestica na Religiatildeo do Apoacutestolo Paulo Recepccedilatildeo do Moiseacutes

Glorificado em 2 Coriacutentios na Perspectiva da Experiecircncia Religiosa Satildeo Bernardo do Campo (Tese de

Doutorado) - UMESP 2007107 26 MARGUERAT Daniel amp BOURQUIN Yvan Para Ler as Narrativas Biacuteblicas Iniciaccedilatildeo agrave Anaacutelise

Narrativa 200913-16 27 EGGER Wilhelm Lecturas Del Nuevo Testamento Verbo Divino Navarra 1990304

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tradiccedilotildees apocaliacutepticas permitindo acessar os aspectos que possam ligar as tradiccedilotildees a

viabilizar a interpretaccedilatildeo do texto

Assim temos a contribuiccedilatildeo de Evans28 que resume o comentaacuterio em concordacircncia

com os autores ateacute aqui mencionados justapondo que os elementos baacutesicos do misticismo

judaico ldquoTrono-Carruagemrdquo encontrados na visatildeo biacuteblica do Trono em Ezequiel corrobora

com os paradigmas formando os elos das tradiccedilotildees apocaliacutepticas sendo a visatildeo do

chamado profeacutetico de Ezequiel junto ao rio Quebar um modelo de judaiacutesmo miacutestico uma

vez que o sacerdote Ezequiel traz a identidade de um sacerdote que natildeo aceita e natildeo

convive amigavelmente com o templo uma vez que o templo estaacute profanado pela idolatria

e poliacutetica religiosas (Ezequiel 11-28)

O texto nos daacute uma extensa e enigmaacutetica imagem do que ficou conhecido como

Mercavaacuteh orraC) ם ר ה י ו-Trono) aparentemente uma espeacutecie de Trono real sobre rodas

(cf Dn 79) com vento tempestuoso e uma nuvem de fogo que se aproxima a partir do

norte (v 4)

Ezequiel comeccedila a visatildeo que se desdobra com uma descriccedilatildeo de quatro imagens

enigmaacuteticas (והבח - as hayot - seres viventes) cada um com quatro faces (homem leatildeo boi

e aacuteguia) quatro asas e quatro rodas (5-21) acima de suas cabeccedilas se encontra uma

plataforma como o cristal (vv 22-25) e por cima da plataforma esta assentado um

pesonagem uma manifestaccedilatildeo antropomoacuterfica de Deus em um Trono de pedra como

safira descrito com ldquoo aspecto da semelhanccedila da gloacuteria do Senhorrdquo (vv 26-28)

Ezequiel aparece como um dos parametros miacutesticos de sonsideravel relevacircncia

para a comunidade de Qumran e seus pergaminhos fornecerem algumas das primeiras

evidecircncias de que o Trono na sua visatildeo foi chamado de Merkavaacuteh Segundo o fragmento

(4Q38529) o que os estudiosos tecircm apelidado ldquoSegundo Ezequielrdquo a visatildeo que

Ezequiel viu foi agrave divina Mercavaacuteh ( ו י ה ר ם ) juntamente com os ldquoquatro seres

viventesrdquo (4 5-6)

Os Manuscritos do Mar Morto tecircm muito a dizer sobre o Trono da divina

carruagem com efeito um dos maiores objetivos da Comunidade de Qumran parece ter

sido a participaccedilatildeo na liturgia celeste angelical e ver o grande Trono-Carruagem de Deus

entrar no Templo celeste

28 EVANS Craig A and FLINT Peter W Eschatology Messianism and the Dead Sea Scrolls Edited by

Wm Β Eerdmans Publishing Co1997102-103 29 Conhecido como 4QPseudo-Ezequiel eacute citado em fontes mais antigas como 4QSecond Ezequiel Pseudo-

Ezequiel Trata-se de um texto hebraico fragmentaacuterio e pseudopigraacutefico encontrado na Caverna 4 em

Qumran e portanto pertence ao conjunto de manuscritos popularmente conhecidos como Manuscritos do

Mar Morto

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Para Evans o texto achado na Caverna 4 de Qumran eacute uma composiccedilatildeo lituacutergica

preacute-cristatilde conhecida como Cacircnticos do Sacrifiacutecio Saacutebatico ou Liturgia Angeacutelica

composta por treze partes separadas uma para cada um dos treze saacutebados Os Cacircnticos

invocam o louvor angelical descrevem o sacerdoacutecio angelical e o Templo celestial e datildeo

conta do culto realizado no saacutebado no santuaacuterio celestial O 13ordm Cacircntico do saacutebado comeccedila

com uma longa descriccedilatildeo da aparecircncia e movimento do divino trono-carruagem

Considerando que a 7ordf e a 11ordf Canccedilotildees do Sabbath referem-se a uma pluralidade da

o 13ordm Cacircntico descreve a divina Merkavaacuteh o trono carruagem de gloacuteria ( ו ה י ה ר ם )

tomando emprestado enfaticamente os termos de Ezequiel 1 e 10 Estes Cacircnticos

receberam a identificaccedilatildeo (4Q400 a 4Q407) devido agrave localizaccedilatildeo da Caverna em Qumran

onde foram encontrados

13 ndash I Enoque Cap 14 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

O texto de I Enoque 148-21 apresenta vaacuterios elementos associados miacutestica da sala

do Trono A descriccedilatildeo da sala celestial do Trono (Hehaloth - Palaacutecio) o tema do rio do

fogo que procede do trono a face e o Trono de Deus em si elementos estes que satildeo

reproduzidos mais tarde em outros textos apocaliacutepticos judaicos e cristatildeos satildeo os

elementos que permancem sempre reproduzidos em outros textos da tradiccedilatildeo

(I Enoque 14 8-21) na traduccedilatildeo proposta por Alejandro Diez Macho30 que

concorda com outras traduccedilotildees que avaliamos como a de Rowland31

Entrei ateacute chegar-me ao muro construiacutedo com pedras de granizo que eacute rodeado

por uma liacutengua de fogo e comecei assustar-me Entrei na liacutengua de fogo e me

aproximei ateacute a casa construiacuteda com pedras de granizo cujo muro e pavimento

satildeo laacutepidas pedras de granizo Seu solo eacute tambeacutem de granizo Seus tetos claros

como estrelas e relacircmpagos onde estatildeo os iacutegneos querubins e seus ceacuteus satildeo

como aacutegua Havia fogo ardente ao redor das paredes e tambeacutem a porta se

abrasava em fogo Entrei nesta casa que ardia como fogo e fria como granizo

onde natildeo havia nenhum prazer ou vida e o medo tomou-me e o terror oprimiu-

me Caiacute com a face no chatildeo e tive uma visatildeo eis que havia outra casa maior

que esta a qual as portas estavam abertas diante de mim construiacutedas de liacutenguas

de fogo ndash era tudo tatildeo esplendido ilustre e grande que natildeo posso contar o

tamanho da gloacuteria e grandeza Seu solo era de fogo por cima tinham

relacircmpagos e orbitas astrais seu teto de fogo abrasador Mirei e vi em um alto

trono com um esplendor aspecto e (tinha ao seu redor) um ciacuterculo com sol

brilhante e voz de querubins Debaixo do trono saiam rios de fogo abrasador de

modo que era impossiacutevel mirar A grande Majestade estava sentada sobre o

30 Fonte DIEZ MACHO Alejandro Apoacutecrifos del Antigo Testamento Vol IV Madri Ed Cristiandad

198751 31 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 200976 77

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trono com uma tuacutenica mais brilhante que o sol e mais resplandecente que o

granizo de modo que nenhum dos anjos poderia entrar na casa

Como jaacute podemos obsevar eacute perfeitamente claro que o texto Enoquita possui seu

campo imaginaacuterio moldado pela estrutura semacircntica e imageacutetica dos textos de Isaiacuteas e

Ezequiel

Boccaccini32 argumenta que esses textos de I Enoque provavelmente foram escritos

por membros do sacerdoacutecio de Jerusaleacutem poreacutem tem procedecircncia por parte de um grupo

antizadoquita Um movimento sacerdotal dissidente ativo em Israel no fim do periacuteodo

persa e iniacutecio do helecircnico no IV seacuteculo aC Para Boccaccini esse movimento enoquita era

um grupo de oposiccedilatildeo entre a elite do Templo e natildeo um simples grupo de separatistas No

entanto o centro do judaiacutesmo enoquita natildeo era a Toragraveh nem o Templo Os dois grupos

(zadoquita e enoquita) interpretavam Ezequiel diferentemente e tinham ideias

completamente contrastantes Ateacute cerca de 200 aC enoquismo e zadoquismo eram duas

distintas e paralelas linhas de pensamentos no judaiacutesmo

14 - Daniel (79-14) e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

O livro do profeta Daniel tambeacutem marca sua presenccedila em Qumran atualmente se

entende que sua composiccedilatildeo aconteceu alguns anos depois de I Enoque e as conclusotildees de

muitos pesquisadores como Collins33 Rowland34 Martiacutenez35 entre outros eacute de que Daniel

possui relaccedilotildees intimas e demonstra ter recebido influecircncia da literatura enoquita

9 Eu continuava olhando uns tronos foram instalados e um Anciatildeo se assentou

vestido de veste branca como a neve cabelos claros como a latilde O seu trono era

como labaredas de fogo com rodas de fogo em brasa 10 Um rio de fogo brotava

da frente dele Milhares e milhares o serviam e milhotildees estavam agraves suas ordens

Comeccedilou a sessatildeo e os livros foram abertos 11 Eu continuava olhando atraiacutedo

pelos insultos que aquele chifre gritava vi que mataram a fera fazendo-a em

pedaccedilos e jogando-a no fogo 12 Quanto agraves outras feras o poder delas foi tirado

mas foi-lhes dado um prolongamento de vida ateacute um tempo determinado 13 Em

imagens noturnas tive esta visatildeo entre as nuvens do ceacuteu vinha algueacutem como um

filho de homem Chegou ateacute perto do Anciatildeo e foi levado agrave sua presenccedila 14 Foi-

lhe dado poder gloacuteria e reino e todos os povos naccedilotildees e liacutenguas o serviram O

32 BOCCACCINI Gabriele Beyond the Essene Hypothesis The Parting of the Ways between Qumran and

Enochic Judaism Grand Rapids W B Eerdmans 199848 76 78 33 COLLINS John J A Imaginaccedilatildeo Apocaliacuteptica ndash Uma Introduccedilatildeo Literaacuteria a Apocaliacuteptica Judaica Satildeo

Paulo ndash Paulus 2010 34 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 2009 35 MARTIacuteNEZ Florentino Gaacutercia Qumran and Apocalyptic Studies on the Aramaic Texts from Qumran

New York EJ Brill 1994

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seu poder eacute um poder eterno que nunca lhe seraacute tirado E o seu reino eacute tal que

jamais seraacute destruiacutedo

Segundo Evans36 um total de oito manuscritos do livro de Daniel foi descoberto em

Qumran nenhum veio agrave luz ateacute agora em outros locais no deserto da Judeacuteia

Dois dos manuscritos de Daniel foram descobertos na Gruta 1 cinco na Gruta 4 e

um (Escrito em papiro) em Gruta 6 Com base na anaacutelise Paleacuteografica noacutes podemos saber

que quatro foram copiados no periacuteodo dos Hasmoneus (lQDanᵇ 4QDanordf 4QDan

4QDan e quatro no periacuteodo de Herodes (lQDanordf 4QDanᵇ 4QDan pap6QDan) Por causa

dos estragos do tempo dos elementos nenhum desses achados preserva uma coacutepia

completa do livro de Daniel No entanto entre eles pocircde-se preservar uma quantidade

substancial destes

Evans considera que os graacuteficos fazem a indicaccedilatildeo da autoridade da tradiccedilatildeo de

Daniel em Qumran e deixa claro o manuseio dos textos por parte da comunidade isto

fundamenta a forccedila da tradiccedilatildeo e do pensamento apocaliacuteptico em Qumran ainda que o

Livro de Daniel natildeo seja considerado um apocalipse em si mesmo mas caracterizado pelo

seu sentido profeacutetico

Assim as pesquisas apontam com precisatildeo que os textos de Isaiacuteas Ezequiel Daniel

e I Enoque perpassaram a comunidade de Qumran e a presenccedila de os seus conteuacutedos

linguiacutesticos e imageacuteticos aparecem nos cacircnticos do Sacrifiacutecio Sabaacutetico sendo que as

liturgias em Qumran fazem declaraccedilotildees das tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do

segundo templo e nestes cacircnticos os sacerdotes se sentiam participantes do culto junto aos

anjos na sala do trono de Deus esta liturgia reflete um afastamento do templo terreno e a

busca do templo celestial gerando a hipoacutetese que inuacutemeros pesquisadores acreditam

validar o tipo de experiecircncia religiosa de um judaiacutesmo dissidente cuja origens estaacute no

periacuteodo do segundo templo Portanto ateacute aqui podemos apreciar um relato histoacuterico das

fontes literaacuterias e seus conteuacutedos imageacuteticos o que permite ver o Apocalipse de Joatildeo como

um texto que traz consigo conteuacutedos narrativos e imagens das tradiccedilotildees do misticismo da

Mercavaacuteh

36 EVANS Craig A and FLINT Peter W Eschatology Messianism and the Dead Sea Scrolls Edited by

Wm Β Eerdmans Publishing Co 199741-43

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2 Apocalipse 51-14 ndash O Cacircntico Cerimonial da Celebraccedilatildeo do Sacerdoacutecio Universal

de Jesus agrave Luz das Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico - Uma Exegese Contemporacircnea

A pesquisa das tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do segundo templo

apoacutes as descoberta dos manuscritos de Qumran em 1947 revolucionaram portanto a

exegese do Novo Testamento acerca disto concordam os argumentos de Rowland37

aferindo que havia uma lacuna importante nos estudos da cristologia do Novo Testamento

e que as pesquisas da exegese avanccedilaram na busca tanto do cenaacuterio e ambiente das

experiecircncias religiosas nos tempos de Jesus bem como das crenccedilas em uma figura

angelical exaltada no judaiacutesmo apocaliacuteptico

Seus apontamentos em primeiro lugar nos permitiram ver certos desenvolvimentos

no pensamento rabiacutenico sob uma nova luz e em segundo lugar do ponto de vista da

Exegese do Novo Testamento se ilustra um aspecto negligenciado sobre o

desenvolvimento doutrinaacuterio judaico e que natildeo tinha recebido suficiente atenccedilatildeo no estudo

da Cristologia do Novo Testamento

A anaacutelise do material sobre o mundo celestial produz consideraccedilotildees que nos

permitem ver as perspectivas distintivas da apocaliacuteptica como tambeacutem o modo pelo qual

o visionaacuterio justo entrava em contato com Deus Desta forma percebemos a infiltraccedilatildeo dos

padrotildees de pensamento da comunidade de Qumran na cristologia do Novo Testamento

A partir das consideraccedilotildees preliminares desta pesquisa e suas indicaccedilotildees a anaacutelise

da cerimocircnia da entronizaccedilatildeo de Jesus se estabelece sob os criteacuterios da oacutetica propiciada nos

termos das tradiccedilotildees do misticismo judaico com suas raiacutezes no periacuteodo do segundo templo

Como visto os textos considerados fundantes junto a cacircnticos e documentos da nos remete

a antiguidade da tradiccedilatildeo miacutescitca de modo que a hipoacutetese sustentanda nesta linha de

peesquisa eacute a de que Joatildeo participou ativamente de uma corrente literaacuteria com antecedentes

expressivos nos documentos de Qumran presente nas tradiccedilotildees do misticismo judaico e

apocaliacuteptico no periacuteodo do Segundo Templo e tambeacutem encontradas em Qumran

Assim de antematildeo podemos considerar em Apocalipse 5 evidencia aspectos das tradiccedilotildees

miacutesticas da sala do trono

Contudo os criteacuterios morfoloacutegicos adotados por Deutsch38 proposcinaram melhor

clareza para discernir as tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do segundo templo

onde os atributos angelomoacuterficos e posteriormente a elaboraccedilatildeo de uma ldquocristologia-

37 ROWLAND Christopher The Open Heaven - A Study of Apocalyptic in Judaism and Early Christianity

First published 198277 e 113 38 DEUTSCH Nathaniel The Guardians of the gates Angeuc Vice Regency In Late Antiquity Brill Leiden -

Boston - Koln 1999 ndash (Introduccedilatildeo)

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angelomoacuterficardquo se estabeleceu e apresentou as imagens de forma sitematizada produzindo

compreensatildeo acerca das funccedilotildees sacerdotais junto ao trono de Deus a saber (1) Funccedilatildeo

Demiuacutergica satildeo atribuiacutedas funccedilotildees na Criaccedilatildeo ao vice-regente angelomoacuterfico neste caso

se levarmos em conta (Ap 314) como parte contextual correspondente ao texto de (411)

Jesus eacute claramente interpretado por Joatildeo nesta linha de raciociacutenio Portanto participa como

agente de Deus na confecccedilatildeo do universo (2) Guardiatildeo do Portal Cabe ao vice-regente

permitir ou natildeo a entrada de seres humanos e ou celestiais agrave presenccedila imediata de Deus o

que pode ser tambeacutem acolhido em nossa leitura de Ap 5 porquanto neste Jesus por assim

dizer funciona como uma porta de acesso tanto a abertura dos selos como pelo seu

sacrificio pascoal abre o caminho para que todos tenham livre acesso ao Trono Deus uma

vez que por meio do seu sangue ldquoos fizeste reis e sacerdotesrdquo (3) O vice-regente

angelomoacuterfico exerce governo sobre os seres humanos e ou seres angeacutelicos todos

reconhecem sua dignidade e se submentem a seu comando o que eacute perfeitamente tambeacutem

concebiacutevel no texto em questatildeo

Embora natildeo possa ser dito que seja um traccedilo tiacutepico de todos os apocalipses em

estudo contudo parece haver evidecircncias de que uma angelologia tenha

produzido uma figura de status consideraacutevel cuja posiccedilatildeo na hierarquia celestial

colocou-o aparte do resto dos anjos () Embora poucos detalhes existam acerca

dessas angelofanias parece que havia um ser angeacutelico que em algum sentido era

considerado comunicando a aparecircncia de Deus mesmo e que agraves vezes aparecia

em forma humana (Gecircnesis 182) () O que a maioria das discussotildees modernas

da cristologia primitiva falha eacute em natildeo incluir a extensatildeo da influecircncia de uma

cristologia angeacutelica sobre a doutrina cristatilde primitiva Natildeo eacute apenas uma questatildeo

aiacute da rejeiccedilatildeo de uma cristologia angeacutelica como um fator no desenvolvimento

cristoloacutegico haacute quase total ausecircncia de tal toacutepico39

Sob esta oacutetica encontramos no proacuteprio Apocalipse uma alusatildeo pela qual podemos

concluir que tanto a imagem como os atributos angelomoacuterficos natildeo estavam restritos a um

uacutenico personagem poreacutem percebemos distinccedilotildees no uso dos termos gregos para descrevecirc-

los No texto de (Ap 115 16) Jesus eacute representado com ldquoκαὶ οἱ πόδες αὐτοῦ ὅμοιοι

χαλκολιβάνῳ ὡς ἐν καμίνῳ - os peacutes dele semelhantes a bronze (polido) como em fornalha

ardente ἡ ὄψις αὐτοῦ ὡς ὁ ἥλιος φαίνει ἐν τῇ δυνάμει αὐτοῦ - e a aparecircncia do rosto dele

como o sol brilha em o poder delerdquo

No entanto em (Ap 101) encontramos a descriccedilatildeo feita para o anjo forte que

descia do ceacuteu ldquoκαὶ τὸ πρόσωπον αὐτοῦ ὡς ὁ ἥλιος καὶ οἱ πόδες αὐτοῦ ὡς στῦλοι πυρός ndash e

o rosto dele como o sol e os peacutes dele como colunas de fogordquo

39 Apud CARDOSO Joseacute Roberto Correcirca Cristologia Angelomoacuterfica de Hebreus Estudo Soacutecio-Retoacuterico e

Histoacuteria das Religiotildees Comparadas em Hebreus 11-14 25-18 71-10 Satildeo Paulo Tese de Doutorado ndash

UMESP 200515

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O que podemos aferir eacute que se trata de niacuteveis de ldquoangelomorfiardquo com intensidades

diversificadas sendo as de Jesus norteadas por aspectos mais intensos de brilho

Gieshen40 apresentou uma excelente contribuiccedilatildeo em sua anaacutelise da Angelologia

judaica para a Cristologia do cristianismo das origens segundo ele o ponto de partida natildeo

deveria ser primariamente as paacuteginas do Novo Testamento e do Judaiacutesmo mas as tradiccedilotildees

angelomoacuterficas presente na miacutestica judaica preacute-cristatildes sendo provenientes da angelologia

judaica As hipoacuteteses assim levaram a compreensatildeo de ldquoAntecedentsrdquo trazendo a luz um

estudo abrangente das figuras hipostaacuteticas do Antigo Testamento e do Judaiacutesmo do

Segundo Templo buscando compreender a angelologia e os seres humanos

angelomoacuterficos presentes na literatura miacutestica do judaiacutesmo do segundo templo

Assim ficou perceptiacutevel a inter-relaccedilatildeo das vaacuterias tradiccedilotildees judaicas a respeito dos

mediadores celestes

Outro estudioso do tema Hannah41difere Gieshen na terminologia Enquanto este

utilizou o termo ldquoCristologia-Angelomoacuterficardquo de modo abrangente Hannah se utiliza de

quatro termos objetivando uma maior especificidade ldquoAngelo-Cristologiardquo para delimitar

as Cristologias influenciadas por ideias angeloloacutegicas ldquoCristologia-Angeacutelicardquo para definir

Cristo como ser angeacutelico ldquoCristologia-Angelomoacuterficardquo para se referir apenas as imagens

visuais de Cristo e ldquoCristologia Angeacutelico-Teofacircnicardquo aplicado agrave identificaccedilatildeo patriacutestica de

Cristo com o Anjo do Senhor no Antigo Testamento

Podemos retornar agraves consideraccedilotildees de Himmelfarb42 que fala dos apocalipses

com transformaccedilotildees de homens em anjos pertencentes a uma vertente de

um corpo grande e diversificado de literatura Especialmente porque trata os patriarcas

biacuteblicos e que Moiseacutes em certo sentido tambeacutem eacute visto como divino

A literatura proveacutem tanto do Egito como da Palestina e inclui obras que vatildeo desde

Philo e Ezequiel o Tragedista ao Testamento de Moiseacutes e passagens rabiacutenicas As

semelhanccedilas estruturais da literatura os papeacuteis de mediaccedilatildeo satildeo claros e demonstram

diferentes tipos de seres

40 GIESCHEN Charles A Angelomorphic Cristology Antecedents and Early Evidence Leiden E J Brill

199805 41 HANNAH Darrel D Of Cherubin and the Divine Throne Rev 56 in Context New Testament Studies 49

2003528-542 42 HIMMELFARB Martha Ascent to Heaven in Jewish and Christian Apocalypses New York Oxford

University Press 199347 48

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Encontramos nos textos que aferimos em nossa leitura a menccedilatildeo ldquoAngelomoacuterfica-

Antropomoacuterfica43rdquo da ldquoGloacuteria de Javeacuterdquo no livro de Ezequiel Por meio deste termo

podemos compreender a dimensatildeo e fusatildeo entre o humano e o divino no Trono de Deus

Unindo esta perspectiva agrave imagem da entronizaccedilatildeo e exaltaccedilatildeo e vice-regecircncia do

ldquoFilho do Homemrdquo em (Dn 713) junto a outras tradiccedilotildees como a de Enoque temos o

campo imageacutetico que nos permite entender como a figura de Jesus no Apocalipse 5 chega

ao Trono de Deus

Apoacutes esta breve consideraccedilatildeo do desenvovimento das tradiccedilotildees do misticismo

judaico e as origens do que se intitula ldquocristologia-angelomoacuterficardquo chegamos a um

complexo das tradiccedilotildees do misticismo judaico e apocaliacuteptico assim este artigo permite a

elaboraccedilatildeo do cenaacuterio exegeacutetico do cerimonial da entronizaccedilatildeo do sacerdoacutecio universal de

Jesus junto ao Trono de Deus

O texto faz alusatildeo agrave continuidade narrativa do capiacutetulo 4 Trata-se natildeo somente do

Trono de Deus e de uma liturgia mas a composiccedilatildeo dos 24 anciatildeos permanece na hipoacutetese

de uma corte celestial reunida na ldquosala do Trono de Deusrdquo

A funccedilatildeo na narrativa do (capiacutetulo 5) eacute ampliada Enquanto no (capiacutetulo 4) os

anciatildeos apenas se prostram e adoram logo notamos que no cap 5 um dos anciatildeos eacute

destacado por um pronunciamento no qual apresenta o Cordeiro como ldquoleatildeo da tribo de

Judaacute raiz de Davi e como aquele que venceurdquo

O texto segue o padratildeo narrativo que encontramos em (Dn 7 9-14) onde um como

ldquofilho do homemrdquo eacute entronizado e recebe autoridade para exercer o papel de um vice-

regente As imagens em Daniel tambeacutem nos permitem visualizar uma ldquoSala onde Tronos

satildeo colocadosrdquo ou um tipo de cenaacuterio preparado como um local apropriado para um rito

cerimonial de transferecircncia de poder

Portanto as configuraccedilotildees temaacuteticas satildeo proacuteximas embora tenhamos que respeitar

o desfecho de cada cenaacuterio e seu contexto histoacuterico- literaacuterio

Assim tambeacutem percebemos o tema da ldquodignidaderdquo do filho do homem em (Dn 7

9-14) Lembrando que (Apocalipse 411) exalta a Deus e sua diginidade por meio dos

anciatildeos e o capiacutetulo 5 do Apocalipse retoma o tema da ldquodignidaderdquo do Cordeiro Assim

prosseguimos com a divisatildeo proposta e interpretaccedilatildeo do texto

a) v1 ndash Abertura da Cena (e vi) - Visatildeo do Trono e do Livro

43 Natildeo localizei o termo ldquoAngelomoacuterfica-Antropomoacuterficardquo em minhas leituras mas o estabeleci aqui como

meio para interpretar a passagem biacuteblica supracitada

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b) v2 e 3 ndash A Dignidade do Cordeiro

c) v4 e 5 ndash Desespero do Vidente A Proclamaccedilatildeo do Anciatildeo ndash ldquoO Reconhecimento

da Dignidade do Cordeirordquo

d) v6 e 7 ndash O Cordeiro recebe o livro ndash A Vitoacuteria do Cordeiro

e) v8-14 ndash Celebraccedilatildeo ao Cordeiro ldquoSacerdoacutecio e Realeza do Cordeirordquo - por parte

dos seres Viventes e dos Anciatildeos por parte de ldquouma voz de anjosrdquo toda a Criaccedilatildeo

21 - O Misticismo Judaico e Apocaliacuteptico em (Apocalipse 51-14)

a) v1 ndash Abertura da Cena (e vi) - Visatildeo do Trono e do Livro

Natildeo podemos deixar de considerarmos aqui os apontamentos de Holtz44 que

encontra em Apocalipse 5 uma referecircncia a um antigo ritual egiacutepcio de entronizaccedilatildeo com

trecircs estaacutegios o qual alega ter as formas e a estrutura baacutesica para a narrativa

Com base nestes rituais de entronizaccedilatildeo propotildees a divisatildeo baacutesica de trecircs etapas

1) Elevaccedilatildeo

2) Apresentaccedilatildeo

3) Entronizaccedilatildeo

Aune apresenta uma contra argumentaccedilatildeo de Roloff que concorda que haacute uma

entronizaccedilatildeo com ritual de trecircs estaacutegios dos reis orientais refletidos em Apocalipse 5

poreacutem julga que ele natildeo revela as fontes das quais eacute dependente Sua leitura revecirc as

categorias de uma forma surpreendentemente arbitraacuteria (invertendo a segunda e terceira

etapas e redefinindo-as) aparentemente sua intenccedilatildeo foi ldquoencaixarrdquo melhor os trecircs estaacutegios

para ver os eventos narrados em Apocalipse 5 Assim propondo a seguinte divisatildeo

1) Exaltaccedilatildeo a descriccedilatildeo dos eventos de exaltaccedilatildeo do discurso do anciatildeo (v5)

2) Atribuiccedilatildeo de poder dominante ao receber o ldquorololivrordquo (vv6 e 7) e

3) Apresentaccedilatildeo do governante Homenagem ao sacrifiacutecio pago pelo Cordeiro em

favor dos habitantes do mundo celestial (vv8-14)

44 Apud AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978333

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Contudo Aune menciona que esta proposta com diferentes formas na entronizaccedilatildeo

do Cordeiro apresentado por Jeremias Holtz e Roloff eacute extremamente vulneraacutevel a criacuteticas

em vaacuterias frentes

Em primeiro lugar tanto Jeremias e Holtz afirmam que esse padratildeo de trecircs estaacutegios

eacute encontrado em outros textos cristatildeos que refletem a entronizaccedilatildeo de Cristo (Mt 28 18-

20 Fl 2 9-11 I Tm 316 Hb 1 5-14) no entanto natildeo eacute nem uacutetil nem convincente pois

haacute grandes diferenccedilas entre estes textos e os hinos (particularmente Fl 2 5-11 I Tm 3 16)

e Ap 51-14 Ainda sim estudiosos que analisaram os hinos compreendem que natildeo se

encontra nestes o esquema ldquoExaltaccedilatildeo-Apresentaccedilatildeo-Entronizaccedilatildeordquo considerado uacutetil e

esclarecedor

Outras eruditos sugestionam outras possibilidades e propostas sobre a possiacutevel

relaccedilatildeo da estrutura do Apocalipse 5 com contextos e ambientes diversos dentre eles estaacute

a relaccedilatildeo com as duas cerimocircnias de entronizaccedilatildeo no Antigo Testamento configuradas do

Antigo Israel citadas por R de Vaux (I Rs 1 32-48 e II Rs 11 12-20) que se utilizando

das duas sintetiza uma estrutura de 5 partes (1) Investidura da insiacutegnia real (2) a unccedilatildeo

(3) a aclamaccedilatildeo (4) a entronizaccedilatildeo (5) a homenagem Contudo o ritual de unccedilatildeo natildeo eacute

encontrado em Apocalipse 5 o que distacircncia o texto deste paradigma A discussatildeo

permanece no campo das hipoacuteteses em meio haacute uma divesidade de opiniotildees sobre a

estrutura da narrativa e suas origens

Assim fundamentados pela pesquisa permanecemos com a seguinte divisatildeo e

interpretaccedilatildeo concluiacutemos aacute luz da pesquisa de que Joatildeo possui relaccedilotildees em sua literatura

com as tradiccedilotildees de Isaiacuteas e I Enoque que descreve a ldquoSala ndash Palaacuteciordquo onde se encontra o

Trono de Deus Sendo que suas narrativas tambeacutem agregam aspectos dos ldquoseres viventesrdquo

que estatildeo tanto no Trono quando imoacutevel quanto na ocasiatildeo em que se move por meio da

Carruagem

Assim nossa compreensatildeo eacute a de que Joatildeo entende ser a ldquoSalado Tronordquo o

ambiente legiacutetimo onde as cemimocircnias lituacutergicas devem acontecer sendo ambos os textos

tanto Apocalipse capiacutetulo 4 quanto o capiacutetulo 5 cenaacuterios narrativos de cerimocircniais

realizados na ldquoSala do Tronordquo

b) v2 e 3 ndash A Dignidade do Cordeiro

Portanto a ecircnfase da narrativa em (Ap 5) eacute a ldquoDignidade (ἄξιος ndash digno) do

Cordeirordquo que ganha intensidade diante do contraste com a declaraccedilatildeo que apresenta o

ldquoanjordquo na configuraccedilatildeo de ldquoum anjo forterdquo

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1 καὶ εἶδον ἄγγελον ἰσχυρὸν ndash e vi em anjo forte

Do verso 1 ao 5 podemos contemplar um primeiro movimento do texto e da

experiecircncia visionaacuteria

Todo cenaacuterio eacute no Trono e ao redor do livro escrito e selado

1 Καὶ εἶδον ἐπὶ τὴν δεξιὰν τοῦ καθημένου ἐπὶ τοῦ θρόνου βιβλίον γεγραμμένον

ἔσωθεν καὶ ὄπισθεν κατεσφραγισμένον σφραγῖσιν ἑπτά

1 livro tendo sido escrito por dentro e por fora tendo sido selado por selos sete

1 Diante do trono um livro escrito por dentro e por fora selado com sete selos

2 καὶ εἶδον ἄγγελον ἰσχυρὸν κηρύσσοντα ἐν φωνῇ μεγάλῃmiddot τίς ἄξιος ἀνοῖξαι τὸ

βιβλίον καὶ λῦσαι τὰς σφραγῖδας αὐτοῦ

2 E vi anjo forte proclamando em voz grande quem digno eacute de abrir o livro e

soltar os selos dele

Quem eacute digno de abrir o livro e desatar os sete selos

3 καὶ οὐδεὶς ἐδύνατο ἐν τῷ οὐρανῷ οὐδὲ ἐπὶ τῆς γῆς οὐδὲ ὑποκάτω τῆς γῆς ἀνοῖξαι

τὸ βιβλίον οὔτε βλέπειν αὐτό

3 E ningueacutem podia em o ceacuteu nem sobre a terra nem debaixo da terra abrir o livro

nem olhar ele

Wikenhauser45 comenta que era costume na eacutepoca adotar-se um tipo de livro atado

por uma cinta este por sua vez era assegurado por meio de selos Parece estar contido em

conformidade com os aspectos dos documentos gregos os quais tinham por costume ainda

que natildeo obrigatoriamente colocar sete selos um por quem o expedia e os outros seis pelas

testemunhas O rolo aqui citado possui semelhanccedilas com o de (Ez 2 9ss)

ldquoEntatildeo vi e eis que uma matildeo se estendia para mim e eis que nela havia um rolo

de livro E estendeu-o diante de mim e ele estava escrito por dentro e por fora e nele

estavam escritas lamentaccedilotildees e suspiros e aisrdquo

45 WIKENHAUSER Alfred El Apocalipsis de San Juan Comentaacuterio de Rtisbona Al Nuevo Testament

Editorial Herder ndash Barcelona 196988 89

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Temos imprescindivelmente mais uma vez a comprovaccedilatildeo de que o autor participa

ativamente dos aspectos do mundo heleniacutestico a sua volta como tem sua inspiraccedilatildeo nas

tradiccedilotildees da Mercavaacuteh no periacuteodo do Segundo Templo Percebemos a presenccedila de uma

cultura subjacente de siacutembolos judaicos e heleniacutesticos que estatildeo em diaacutelogo

O clima eacute de expectativa ndash ningueacutem eacute digno ldquono ceacuteu na terra e sob a terrardquo o que

promove no texto uma afliccedilatildeo e ao mesmo tempo uma grande expectativa

Segundo Robins46 a menccedilatildeo tripartida ldquoceacuteu terra e sob ou debaixo da terrardquo se

encontra inserida no mundo antigo e carrega a compreensatildeo da presenccedila de Divindades

como parte do universo criado abrangendo o (1) reino celestial (2) no Egito ou mais

genericamente a terra (3) e o submundo A primeira e a terceira regiotildees eram habitadas

por divindades (e mortos) e a segunda era o reino dos vivos Considerava-se que os seres

humanos interagiam com divindades procurando persuadi-los a criar renovar e manter a

universo esses seres tinham que ser trazidos para a Terra

Rudolf Bultmann dentre outros eruditos atestam que este era o modo de pensar o

universo no mundo antigo portanto delimitada dentro de uma estrutura de 3 andares

O que tambeacutem nos permite aproximar a questatildeo das possiacuteveis influecircncias dos ritos

cerimoniais de entronizaccedilatildeo procedentes do Egito e manter as hipoacuteteses em aberto

Se o universo assim era compreendido e os deuses concebidos como habitantes

destas esferas somos remetidos a um tipo de proclamaccedilatildeo durante a cerimocircnia que

anunciava diante dos deuses a supremacia e ou por assim dizer a ldquodignidaderdquo do

Cordeiro

c) v4 e 5 ndash Desespero do Vidente A Proclamaccedilatildeo do Anciatildeo ndash ldquoO Reconhecimento

da Dignidade do Cordeirordquo

Eu chorava muito

4 καὶ ἔκλαιον πολύ ὅτι οὐδεὶς ἄξιος εὑρέθη ἀνοῖξαι τὸ βιβλίον οὔτε βλέπειν αὐτό 5

καὶ εἷς ἐκ τῶν πρεσβυτέρων λέγει μοιmiddot μὴ κλαῖε ἰδοὺ ἐνίκησεν ὁ λέων ὁ ἐκ τῆς φυλῆς Ἰούδα

ἡ ῥίζα Δαυίδ ἀνοῖξαι τὸ βιβλίον καὶ τὰς ἑπτὰ σφραγῖδας αὐτοῦ

46 Apud SCHMIDT Brian B Cult Image and Divine Representation in the ancient Near East edited by

Neal H Walls American Schools of Oriental Research Books Series nordm 10 Boston MA 200502

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4 E eu chorava muito porque ningueacutem digno foi achado de abrir o livro nem de

olhar para ele 5 E um de os anciatildeos diz a mim natildeo chores eis que venceu o leatildeo o de a

tribo de Judaacute a raiz de Davi o que abre o livro e os sete selos dele

A narrativa eacute dramatizada pelo visionaacuterio Joatildeo que chora copiosamente sendo

consolado por um anciatildeo mediante a revelaccedilatildeo que lhe eacute transmitida Cabe aqui notar que o

anciatildeo exerce o papel mediador entre o anjo e Joatildeo De fato este cenaacuterio parece inserir a

todos num ambiente de anseio expectativa e anelo pela revelaccedilatildeo que se daraacute mediante a

experiecircncia miacutestica de ascensatildeo na ldquosala do Tronordquo onde acontece a cerimocircnia de

reconhecimento da ldquodignidade do Cordeirordquo

A expressatildeo ldquoleatildeo da tribo de Judaacute - λέων ὁ ἐκ τῆς φυλῆς Ἰούδαrdquo e ldquoraiz de Davi -

ἡ ῥίζα Δαυίδrdquo trata de um reconhecimento da legitimidade de sua linhagem tanto

sacerdotal quanto de sua realeza permitindo que a narrativa receba os contornos que

justifiquem um cerimonial no qual se estabelece a sua realeza sacerdotal eou seu

ldquoSacerdoacutecio Realrdquo agrave semelhanccedila de Melquisedeque

A partir do verso 6 temos um novo cenaacuterio a visatildeo de um Cordeiro imolado cuja

representaccedilatildeo de sua forccedila e conhecimento eacute descrita pelos sete chifres e sete olhos que

tambeacutem de certa maneira trata da compreensatildeo da divindade da qual eacute portador

porquanto representam ao mesmo tempo os sete espiacuteritos de Deus enviados a toda terra

Uma observaccedilatildeo junto ao texto de (Dn 711) eacute interessante aqui trata-se das

imagens e do contraste que existem entre elas

Em (Dn 711) temos um ldquochifrerdquo que proferia grandes palavras o que manifesta

ser possuidor de autoridade ou forccedila como tambeacutem diz que Daniel contempla um animal

morto e entregue ao fogo

No texto de Joatildeo temos os sete ldquochifresrdquo e um ldquoCordeiro imoladordquo poreacutem as

imagens seguem em direccedilotildees opostas com atribuiccedilotildees contrastantes mas que nos

permitem assimilar que as imagens fazem parte de um campo semacircntico e de um ambiente

de tradiccedilotildees acostumadas a lidarem com tais indiacutecios literaacuterios

Embora haja uma longa distacircncia entre os autores contudo entre as literaturas jaacute

natildeo eacute assim a circulaccedilatildeo e uso das tradiccedilotildees danieacutelicas em Qumran estatildeo bem

representadas uma vez que jaacute compraacutevamos tais evidecircncias

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d) v6 e 7 ndash O Cordeiro recebe o livro ndash A Vitoacuteria do Cordeiro

Assim tratamos o verso 6 como um cerimonial que estabelece a grandeza do

sacrifiacutecio de Jesus como de sua participaccedilatildeo na divindade evidenciando portanto os

atributos de que lhe satildeo conferidos por meio de uma Cristologia-Angelomoacuterfica

6 Καὶ εἶδον ἐν μέσῳ τοῦ θρόνου καὶ τῶν τεσσάρων ζῴων καὶ ἐν μέσῳ τῶν

πρεσβυτέρων ἀρνίον ἑστηκὸς ὡς ἐσφαγμένον ἔχων κέρατα ἑπτὰ καὶ ὀφθαλμοὺς ἑπτὰ οἵ εἰσιν

τὰ [ἑπτὰ] πνεύματα τοῦ θεοῦ ἀπεσταλμένοι εἰς πᾶσαν τὴν γῆν

6 E vi em o meio do trono e dos quatro viventes e em o meio dos anciatildeos um

cordeiro firme de peacute como tendo sido morto tendo chifres sete e olhos sete que satildeo os sete

espiacuteritos de Deus que satildeo enviados por toda a terra

Uma vez estabelecido o lugar do seu sacrifiacutecio e de sua participaccedilatildeo na divindade

aberto estaacute o caminho para receber o livro da matildeo do que estaacute assentado no Trono

7 καὶ ἦλθεν καὶ εἴληφεν ἐκ τῆς δεξιᾶς τοῦ καθημένου ἐπὶ τοῦ θρόνου

7 E ele veio e tem recebido de a direita do que se assenta em o trono

e) v8-14 ndash Celebraccedilatildeo ao Cordeiro ldquoSacerdoacutecio e Realeza do Cordeirordquo - por

parte dos seres Viventes e dos Anciatildeos por parte de ldquouma voz de anjosrdquo por parte

da criaccedilatildeo

A ordem eacute crescente expandindo-se metodicamente para a grande celebraccedilatildeo que se

inicia a partir do verso 8

8 Καὶ ὅτε ἔλαβεν τὸ βιβλίον τὰ τέσσαρα ζῷα καὶ οἱ εἴκοσι τέσσαρες πρεσβύτεροι

ἔπεσαν ἐνώπιον τοῦ ἀρνίου ἔχοντες ἕκαστος κιθάραν καὶ φιάλας χρυσᾶς γεμούσας

θυμιαμάτων αἵ εἰσιν αἱ προσευχαὶ τῶν ἁγίων

8 E quando recebeu o livro os quatro viventes os vinte e quatro anciatildeos prostraram-se diante o cordeiro tendo cada um harpa e taccedilas de ouro cheias de incenso

as quais satildeo as oraccedilotildees dos santos

Pringent47 menciona que o termo hebraico ldquokinnorrdquo eacute inspirado na Septuaginta que

quase sempre o traduz por ldquoκιθάραν ndash harpasrdquo e que o uso de ldquoφιάλας - taccedilasrdquo eacute

empregado unicamente no Apocalipse dentro no Novo Testamento tendo seu uso

47 PRIGENT Pierre O Apocalipse Traduccedilatildeo Luiz Joatildeo Barauacutena Satildeo Paulo ndash Loyola 2002119

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designado no Antigo Testamento junto a libaccedilatildeo de uso cultual e lituacutergico (cf Ex 27 3

38 3 Nm 4 14 I Rs 7 40ss)

Josefo48 menciona a presenccedila de duas taccedilas de ouro cheias de incenso sobre os patildees

da preposiccedilatildeo O Antigo Testamento faz menccedilatildeo constante de taccedilas de ouro e seu uso no

Templo um dos textos paradigmaacuteticos para essa questatildeo eacute o texto no qual Davi apresenta

todos os materiais para construccedilatildeo do Templo em (I Cr 28) com destaque para o (verso

17) ndash ldquoE ouro puro para os garfos e para as bacias e para os jarros e para as taccedilas de

ouro para cada taccedila seu peso como tambeacutem para as taccedilas de prata para cada taccedila seu

pesordquo

Natildeo haacute duacutevidas de que se trata de um ato lituacutergico Inicia-se a grande celebraccedilatildeo

pela qual o Cordeiro eacute em absoluto reconhecido como detentor do direito conquistado por

meacuteritos proacuteprios e assim pode abrir o livro A celebraccedilatildeo tem sua iniciativa pelos ldquoseres

viventes ndash hayotrdquo seguido pelos anciatildeos

O fato de os seres viventes iniciarem a celebraccedilatildeo nos remete a forccedila e ao

significado das tradiccedilotildees miacutesticas do Trono uma vez que jaacute podemos aferir durante a

pesquisa que a divindade que se assenta no Trono eacute sempre caracterizada por aclamaccedilotildees

que procedem das ldquohayotrdquo (como em Ezequiel)

Conveacutem ressaltar que o fato de os ldquoseres viventesrdquo prestarem culto ao Cordeiro as

insere num movimento narrativo pelo qual a ldquodignidade do Cordeirordquo alcanccedila o seu

cliacutemax uma vez que estes ldquoseres viventesrdquo aparecem na tradiccedilatildeo do misticismo judaico

apenas se dirigindo objetivamente com aclamaccedilotildees ao Trono e ao que se assenta sobre ele

Parece ser uma indicaccedilatildeo contundente de que o Cordeiro eacute reconhecido como Deus49

Os anciatildeos aparecem em segundo plano o que mantecircm os ldquoseres viventesrdquo da

tradiccedilatildeo miacutestica da Mercavaacuteh no primeiro plano Isto pode estabelecer algum tipo de

relaccedilatildeo de autoridade entre os ldquoseres viventesrdquo e os ldquoanciatildeosrdquo como tambeacutem uma espeacutecie

de ordem e de hierarquia estabelecida no tocante agrave liturgia uma vez que no capiacutetulo 4

tambeacutem aparecem sob a mesma oacutetica (cf Ap 4 89)

Incenso e oraccedilotildees satildeo elementos encontrados no AT no periacuteodo do Segundo

Templo em Qumran como em outros contextos lituacutergicos num mundo complexo e

diversificados de ritos cerimoniais ainda assim se destaca o uso por parte dos ritos

sacerdotais portanto natildeo eacute incomum neste cenaacuterio de modo que a cerimocircnia conta com

48 Ibid Apud Pringent p 119 - Antiguidades Judaicas 3143 49 Se assim o eacute as indagaccedilotildees sobre questotildees ligadas ao monoteiacutesmo judaico e a divindade de Jesus entram

em tensatildeo e novamente acende a fogueira das discussotildees em torno do assunto

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elementos que fazem parte das ofertas e sacrifiacutecios que apontam para a consolaccedilatildeo dos

santos

9 καὶ ᾄδουσιν ᾠδὴν καινὴν λέγοντεςmiddot ἄξιος εἶ λαβεῖν τὸ βιβλίον καὶ ἀνοῖξαι τὰς

σφραγῖδας αὐτοῦ ὅτι ἐσφάγης καὶ ἠγόρασας τῷ θεῷ ἐν τῷ αἵματί σου ἐκ πάσης φυλῆς καὶ

γλώσσης καὶ λαοῦ καὶ ἔθνους

9 E cantam cacircntico novo dizendo digno eacutes de receber o livro e de abrir os selos

dele porque foste morto e compraste ao Deus noacutes com o sangue teu de toda tribo e liacutengua

e povo e naccedilatildeo

Jaacute o verso 9 faz o papel de pronunciamento da cerimocircnia da realeza sacerdotal do

Cordeiro anunciando por meio do Cacircntico Novo o ldquoCacircntico do Cordeirordquo sua

ldquoDignidaderdquo sua ldquoAutoridade ndash manifestada no ato de abrir o livrordquo e a ldquoforccedila e gloacuteria de

Seu sacrifiacuteciordquo sacrifiacutecio este cuja extensatildeo dos benefiacutecios satildeo para todas tribos liacutenguas

povos e naccedilotildees

Um dos termos gregos empregado neste verso foi traduzido por ldquocompraste -

ἠγόρασαςrdquo poreacutem uma melhor traduccedilatildeo sustenta a compreensatildeo de ldquoalgueacutem que agora

assumiu o comando e estaacute agrave frente para conduzirrdquo isto nos insere melhor no verso

seguinte

10 καὶ ἐποίησας αὐτοὺς τῷ θεῷ ἡμῶν βασιλείαν καὶ ἱερεῖς καὶ βασιλεύσουσιν ἐπὶ

τῆς γῆς

10 E fizeste eles ao Deus nosso reis e sacerdotes e reinaratildeo sobre a terra

Neste somos introduzidos no acircmbito do ldquoCordeiro que conduz a todosrdquo e os torna

ldquoreis e sacerdotes e eles reinaratildeo sobre a terrardquo

Com base nos argumentos de Robins50 encontra-se no Egito um conceito que lanccedila

luz para a sua compreensatildeo e eacute muito semelhante ao que encontramos aqui pois soacute os

seres humanos ritualmente purificados isto eacute ldquoreis e os sacerdotesrdquo teriam tido acesso agraves

partes internas do Templo e entrar em contato com a estaacutetua de culto

50 Apud SCHMIDT Brian B Cult Image and Divine Representation in the ancient Near East edit ed by

Neal H Walls American Schools of Oriental Research Books Series nordm 10 Boston MA 200507

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Tambeacutem era comum do mundo antigo ver os ldquoReisrdquo como filho dos deuses como

no caso dos ldquoFaraoacutesrdquo No Antigo Testamento o sumo sacerdote uma vez por ano tinha

acesso ao santo dos santos assim podia ele soacute interceder pela naccedilatildeo

Partindo deste ponto de vista mais uma vez temos indiciacuteos da cultura Egipiacutecia

presentes no texto dentre outros paralelos que nos remetem a estrutura do mundo antigo e

a cosmovisatildeo que permeia as literaturas

Estes aspectos nos permitem ver um ambiente religioso que outrora entendia o

acesso aos deuses somente acessiacutevel a um grupo privilegiado de pessoas

Portanto o texto de (Ap cap 5) se contrapotildee a esta limitaccedilatildeo de acesso a

privilegiados O Cordeiro abriu um novo caminho pela ldquodiginidade de seu sacrifiacuteciordquo de

sorte que ldquofizeste eles ao Deus nosso reis e sacerdotes e reinaratildeo sobre a terrardquo Deste

modo o Cordeiro eacute cultuado na sala do Trono

Nessa linha de raciociacutenio Apocalipse 5 se torna um cerimonial de reconhecimento

do Sacerdoacutecio de Jesus e natildeo propriamente de uma entronizaccedilatildeo o que concorda com os

argumentos de Van Unnik citados por Aune51 que se contrapotildee ao texto como uma

narrativa onde se pode ver um ldquocerimonial de entronizaccedilatildeordquo indicando outras

probabilidades de interpretaccedilatildeo para a narrativa

Talvez a melhor hipoacutetese seja de unir as duas opiniotildees e fomar uma terceira a

saber Apocalipse 5 pode ser compreendido como um cerimonial do ldquoSacerdoacutecio Realrdquo

realizado na ldquoSala do Trono de Deusrdquo Este tema tambeacutem eacute sugerido pela proposta da

Epiacutestola aos Hebreus defendida na Tese de Doutorado de Cardoso52

Assim temos uma ldquoCerimocircnia do Sacerdoacutecio Real do Cordeiro na Sala do Trono

de Deusrdquo

Este cenaacuterio faz justiccedila ao desenlace textual e ao aacutepice do cerimonial inserido dos

versos 11 a 14

11 Καὶ εἶδον καὶ ἤκουσα φωνὴν ἀγγέλων πολλῶν κύκλῳ τοῦ θρόνου καὶ τῶν ζῴων

καὶ τῶν πρεσβυτέρων καὶ ἦν ὁ ἀριθμὸς αὐτῶν μυριάδες μυριάδων καὶ χιλιάδες χιλιάδων

12 λέγοντες φωνῇ μεγάλῃmiddot ἄξιόν ἐστιν τὸ ἀρνίον τὸ ἐσφαγμένον λαβεῖν τὴν δύναμιν καὶ

πλοῦτον καὶ σοφίαν καὶ ἰσχὺν καὶ τιμὴν καὶ δόξαν καὶ εὐλογίαν 13 καὶ πᾶν κτίσμα ὃ ἐν τῷ

οὐρανῷ καὶ ἐπὶ τῆς γῆς καὶ ὑποκάτω τῆς γῆς καὶ ἐπὶ τῆς θαλάσσης καὶ τὰ ἐν αὐτοῖς πάντα

ἤκουσα λέγονταςmiddot τῷ καθημένῳ ἐπὶ τῷ θρόνῳ καὶ τῷ ἀρνίῳ ἡ εὐλογία καὶ ἡ τιμὴ καὶ ἡ δόξα

51 AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978335 52 CARDOSO Joseacute Roberto Correcirca ldquoCristologia Angelomoacuterfica de Hebreus - Estudo Soacutecio-Retoacuterico e

Histoacuteria das Religiotildees Comparadas em Hebreus 11-14 25-18 71-10rdquo Satildeo Paulo UMESP 2005

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καὶ τὸ κράτος εἰς τοὺς αἰῶνας τῶν αἰώνων 14 καὶ τὰ τέσσαρα ζῷα ἔλεγονmiddot ἀμήν καὶ οἱ

πρεσβύτεροι ἔπεσαν καὶ προσεκύνησαν

11 E vi e ouvi como voz de anjos muitos ao redor o trono e dos viventes e dos

anciatildeos E era o nuacutemero deles miriacuteades de miriacuteades e milhares de milhares 12 Dizendo

em voz grande digno eacute o cordeiro o que foi morto receber o poder e a riqueza e sabedoria

e forccedila e honra e gloacuteria e louvor 13 E toda criatura que em o ceacuteu e sobre a terra e

debaixo da terra e sobre o mar estaacute e as em neles a todas eu ouvi dizendo ao que se

assenta em o trono e ao cordeiro o louvor e a honra e a gloacuteria e o poder para os seacuteculos

dos seacuteculos Ameacutem 14 E os quatro viventes dizendo o ameacutem E os anciatildeos prostraram-se

e adoraram

O cenaacuterio diante do Trono eacute tomado pela voz da multidatildeo constituiacuteda pelos anjos

os viventes e os anciatildeos - μυριάδες μυριάδων καὶ χιλιάδες χιλιάδων - miriacuteades e milhares

de milhares O objeto principal natildeo se perde de vista ldquoA Dignidade do Cordeirordquo Assim

como o ldquofilho do homemrdquo em (Dn 7 13 e 14) o Cordeiro recebe ldquoλαβεῖν τὴν δύναμιν καὶ

πλοῦτον καὶ σοφίαν καὶ ἰσχὺν καὶ τιμὴν καὶ δόξαν καὶ εὐλογίαν - o poder e a riqueza e

sabedoria e forccedila e honra e gloacuteria e louvor

A celebraccedilatildeo se estende por todo o Universo (cf v 13)

Aleacutem disso vemos nestes versos a intertextualidade onde se mesclam (Ap 48)

junto aos textos fundantes de (Is 63) que se encontra relacionado com (Dn 710) esta

uacuteltima passagem tem viacutenculo imprescindiacutevel com (Ap 511) onde se diz nas Escrituras

ldquodez mil vezes dez mil estavam com ele e um milhatildeo de homens o serviam e a Kedushaacute

(Is 63) - clamaram Santo Santo Santo eacute o Senhor dos exeacutercitos a criaccedilatildeo inteira estaacute

cheia de Sua gloacuteria53rdquo

Inserimos que o capiacutetulo 5 em sua expressatildeo final retorna como um elo que liga o

Cacircntico da Criaccedilatildeo do capiacutetulo 4 sob a menccedilatildeo de ldquoκαὶ πᾶν κτίσμα ndash toda criaturardquo

entrando em celebraccedilatildeo e fazendo uma memoacuteria ao capiacutetulo (411) ndash ldquoὅτι σὺ ἔκτισας τὰ

πάντα ndash porque tu criaste todasrdquo e assim o Trono o Cordeiro e a Criaccedilatildeo satildeo mais uma

vez unidos

53 AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978335

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Levando-nos ao cliacutemax e unindo os textos pela ecircnfase final

14 καὶ τὰ τέσσαρα ζῷα ἔλεγονmiddot ἀμήν καὶ οἱ πρεσβύτεροι ἔπεσαν καὶ προσεκύνησαν

14 E os quatro viventes dizendo o ameacutem E os anciatildeos prostraram-se e adoraram

Assim temos dois cacircnticos unidos por elos de uma corrente bem delineada de

cerimocircnias que acontecem na ldquoSala do Trono de Deusrdquo e que nos conduz a admiraccedilatildeo de

uma liturgia Judaico-Cristatilde proveniente de uma pena cuja grandeza de sua experiecircncia

religiosa se reflete no espelho do ldquoMISTICISMO JUDAICO E APOCALIacutePTICO NO

APOCALIPSE DE JOAtildeO CAPIacuteTULOS 4 E 5 ndash ASCENSAtildeO E VIAGEM CELESTIAL

NO CRISTIANISMO PRIMITIVOrdquo

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

Este artigo teve o objetivo de demonstrar como as recentes pesquisas da exegese do

Novo Testamento vem sendo processados agrave luz das tradiccedilotildees do judaiacutesmo antigo e suas

correntes A menccedilatildeo da descoberta dos manuscritos de Qumran e o fortalecimento dos elos

das pesquisas ao longo dos uacuteltimos 100 anos em relaccedilatildeo ao ambiente histoacuterico do Novo

Testamento Assim contribui este artigo para que alunos dos cursos de teologia tenham

acesso as metodologias da exegese que vem sendo aplicadas ao Novo Testamento

principalmente a literatura apocaliacuteptica

A pesquisa delimita que Apocalipse cap 5 podem ser visto como um bom redator e

que alcanccedila o ecircxito em seu objetivo atraveacutes da transmissatildeo de sua experiecircncia visionaacuteria

tendo como moldura as tradiccedilotildees miacutesticas do judaiacutesmo do segundo templo Conveacutem

mencionar que em tempo algum se coloca interrogaccedilotildees na ascensatildeo de Joatildeo ateacute a sala do

trono contudo o que se preconiza eacute que Joatildeo tem uma experiecircncia no acircmbito das tradiccedilotildees

de seu contexto histoacuterico e que a transmissatildeo de sua experiecircncia segue as correntes

apocaliacutepticas de seu entorno

Concordamos com Collins54 ao mencionar que natildeo podemos eliminar a

possibilidade de que o autor (autores) tenha tido uma experiecircncia miacutestica mas podemos

discutir (as obras) como produto literaacuterio considerando sua funccedilatildeo e efeito

54 COLLINS John J A Imaginaccedilatildeo Apocaliacuteptica ndash Uma Introduccedilatildeo Literaacuteria a Apocaliacuteptica Judaica Satildeo

Paulo ndash Paulus 20109394

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Assim os ouvintes tanto nas tradiccedilotildees fundantes e cacircnticos de Qumran quanto no

cacircntico de Apocalipse 5 conforme narrado por Joatildeo satildeo representados por um grupo

emoldurado pelo sentido de ldquocomunidade celestial eou comunidade angelomoacuterficardquo que

se compreendiam em acesso ao culto celestial e que celebravam ao Cordeiro como aquele

que venceu e lhes proporcionou acesso ldquoos tornando reis e sacerdotesrdquo

Rowland e Gruenwald concordam entre si no que diz respeito ao ecletismo que

Joatildeo apresenta em sua literatura Rowland entende que Joatildeo tem uma experiecircncia proacutexima

a que acontece com Enoque mas nota disparidades

Os resultados desta pesquisa apontam para os textos e consideram suas diferenccedilas e

similaridades concordamos que as narrativas manifestam fidelidade agraves tradiccedilotildees do

judaiacutesmo do segundo templo e dos traccedilos encontrados nos manuscritos de cacircnticos de

Qumran por um lado e que tambeacutem apresentam um tipo ruptura com as tradiccedilotildees

sacerdotais mais consevadoras estas ultimas mais ligadas as tradiccedilotildees dos farises o templo

terrestre de Jerusaleacutem os quais buscavam conciliar uma visatildeo universalista dogmaacutetica para

o seu tempo

Ao mesmo tempo herdeiro das tradiccedilotildees miacutesticas do periacuteodo do Segundo Templo

como tambeacutem das tradiccedilotildees de Qumran o capiacutetulo 5 demonstra um estilo literaacuterio que

revela um compositoacuterio mais ecleacutetico produzindo uma nova memoacuteria e experiecircncia

religiosa permeada por tons das tradiccedilotildees do judaiacutesmo da Mercavaacuteh e de uma Cristologia-

Angelomoacuterfica onde o Cordeiro eacute cultuado como ldquosacerdote real e vice-regente celestialrdquo

com direito a uma adoraccedilatildeo universal

Caracteriacutesticas sacerdotais do misticismo judaico do periacuteodo do Segundo Templo

ornamentada pelos (Cacircnticos - Shirot de Qumran) prestam a contribuiccedilatildeo em relaccedilatildeo a

elaboraccedilatildeo do pano de fundo apocaliacuteptico e a produziccedilatildeo das imagens e mensagem da obra

literaacuteria de Joatildeo

A tiacutetulo de esclarecimentos podemos observar que diferente de alguns apocalipses

e relatos da comunidade de Qumran onde a comunidade participa do culto junto com os

anjos o autor do capiacutetulo 4 fica na periferia da liturgia celeste e natildeo participa dela sua

funccedilatildeo estaacute restrita a de um vidente passivo aquele que contempla podendo-se se definir a

narrativa como um ldquoCerimocircnial de Contemplaccedilatildeordquo e o capiacutetulo 5 como um ldquoCerimocircnial

de Celebraccedilatildeordquo

No capiacutetulo 5 Joatildeo participa ativamente com suas emoccedilotildees ldquochora copiosamente e

se regozija sobremaneirardquo Sendo uma liturgia rica de estaacutegios de admiraccedilatildeo e que convida

a comunidade para uma grande celebraccedilatildeo universal

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Assim as palavras que melhor resumem os resultados de nossa pesquisa satildeo as de

DeConick55 Seus argumentos se posicionam sob a afirmaccedilatildeo de que o antigo judaiacutesmo e o

misticismo cristatildeo conjuntamente identificam uma tradiccedilatildeo miacutestica bilateral que flui

atraveacutes do judaiacutesmo e cristianismo durante seus anos formativos Um encontro das

tradiccedilotildees cujo diaacutelogo eacute desenvolvido simultaneamente dentro de contextos histoacutericos que

podem ser comparados A tradiccedilatildeo miacutestica preservada em suas literaturas eacute corretamente

caracterizada como manifestaccedilotildees da religiosidade judaica e cristatilde nos periacuteodos heleniacutestico

e romano

Assim o texto do Apocalipse cap 5 pode ser compreendido e interpretado agrave luz da

exegese e seus pressupostos com base nas tradiccedilotildees do misticismo judaico e apocaliacuteptico

tambeacutem experimentada como uma tradiccedilatildeo contiacutenua pelos membros da comunidade de

Qumran

Como resultado o artigo demonstra que as interpretaccedilotildees fundamentalistas que

menosprezam o estudo teoloacutegico e a pesquisa cientiacutefica das Escrituras perdem a sua forccedila

porquanto temos hoje acesso a documentaccedilatildeo que viabiliza processos exegeacuteticos de maior

abrangecircncia abertos e receptivos demonstram que eacute possiacutevel acessar o mundo dos textos

onde as experiecircncias religiosas se deram e que podemos contemplar renovadamente o

conhecimento das celebraccedilotildees liturgias e compreender a funccedilatildeo das narrativas aplicando-

as aos nosso dias com maior clareza e coerecircncia

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Paulo Ediccedilotildees Vida Nova 2004

Autor ndash Me Marcelo Alves Dantas

Gestor do Curso Superior de Teologia -

FATEJ

Docente FATEJ FADISA

Mestre em Ciecircncias da Religiatildeo -

UMESP

Mestre em Teologia do Novo Test -

FTBSP

Bacharel em Direito - UNIESPFAPAN

Docecircncia do Ensino Superior -

UNOPAR

Bacharel em Teologia - UMESP

E-mail

marcelodantasteologiagmailcom

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A TERCEIRIZACcedilAtildeO DA FEacute NOS TEMPOS DE PANDEMIA E

ISOLAMENTO SOCIAL O SURGIMENTO DO ldquoPERSONAL PROFECTrdquo ndash E AS CRISES DE ESPIRITUALIDADE

RESUMO

O tema da terceirizaccedilatildeo da feacute eacute notoacuterio nas relaccedilotildees humana e religiosas desde que se

compreendeu que estar junto como povo era uma condiccedilatildeo de se viver o desejo de Deus

e automaticamente era tambeacutem necessaacuterio encontrar responsaacuteveis ou direcionadores da

caminhada de feacute e da espiritualidade Acontece que no tempo de pandemia e isolamento

social esta condiccedilatildeo ficou ainda mais complexa Ao que entendendo parece que a

terceirizaccedilatildeo da feacute se tornou recurso inerente das relaccedilotildees espirituais - Ecircxodo 2019 [] E

disseram a Moiseacutes Fala tu conosco e ouviremos e natildeo fale Deus conosco para que natildeo

morramos - Neste episoacutedio podemos ancorar o comportamento aqui discutido Seja pela

autocriacutetica que nos faz nos compreender como inaptos para algo ou alguma funccedilatildeo seja

pela perspectiva da aprendizagem de economizar e ou otimizar tempo e recursos ou como

sustentava o meacutedico e psicanalista Donald Winnicott56 (1896 -1971) - ldquoTodos temos

tendecircncia a amadurecer desde que o ambiente em que somos criados nos favoreccedilardquo

segundo sua teoria a ldquoterceirizaccedilatildeordquo do amadurecimento se daacute jaacute na primeira infacircncia

Tese amplamente verificada na sociedade de hoje como uma nova epidemia a recusa ao

crescimento em todas as esferas Jovens na igreja com mais de 40 anos

Palavras-chave Terceirizaccedilatildeo Feacute religiatildeo espiritualidade

ABSTRACT

The theme of outsourcing the faith has been evident in human and religious relations since

it was understood that being together as a people was a condition for living the desire of

God and automatically it was also necessary to find those responsible or guiding the faith

56 Winnicott tornou-se um meacutedico contratado do Departamento Infantil do Instituto de Psicanaacutelise onde

trabalhou durante 25 anos Foi presidente da Sociedade Britacircnica de Psicanaacutelise por duas gestotildees membro da

UNESCO e do grupo de experts da OMS Atuou como professor no Instituto de Educaccedilatildeo e na London

School of Economics da Universidade de Londres Dissertou e escreveu amplamente como atividade

profissional independente

autor

Me Marcos Camilo Santana

e-mail revmarcossantanagmailcom

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journey of spirituality It turns out that in a time of pandemic and social isolation this

condition became even more complex From what I understand it seems that the

outsourcing of faith has become an inherent resource of spiritual relationships - Exodus

2019 [] And they said to Moses You speak to us and we will listen and do not speak

God with us lest we die - In this episode we can anchor the behavior discussed here

Whether through self-criticism which makes us understand ourselves as unfit for

something or some function either through the perspective of learning to save and or

optimizing time and resources or as the doctor and psychoanalyst Donald Winnicott

(1896-1971) maintained - ldquoWe all have tendency to mature as long as the environment in

which we are raised favors us rdquoaccording to his theory theldquo outsourcing rdquoof maturation

occurs in early childhood Thesis widely verified in todays society as a new epidemic the

refusal of growth in all spheres Young people in the church over 40 years old

Keywords Outsourcing Faith religion spirituality

INTRODUCcedilAtildeO

Este cenaacuterio da crise de amadurecimento somados agrave sociedade de cansaccedilo e de

transparecircncia que eacute discutida por Byung-chul han57 onde todos estatildeo na expectativa e

ainda tem-se a falsa sensaccedilatildeo de liberdade promovida pelos enormes dados disponiacuteveis

pelos algoritmos que entregamos para empresas como Google e Facebook favorecendo

para a explosatildeo dos coachings dos ldquopersonal profectrdquo como que numa soluccedilatildeo para

minhas incapacidades minhas emergecircncias ou simplesmente economia e autogiro de

informaccedilotildees

Algueacutem seraacute responsaacutevel pela minha espiritualidade e seraacute trocado a cada

frustraccedilatildeo que eu passar Em siacutentese terceirizar eacute delegar seja qual for o motivo toda vez

que o recurso eacute ldquoore por mim que natildeo sei orarrdquo ou ldquoverei no youtube para compreensatildeo da

leitura biacuteblicardquo e ou simplesmente ldquonatildeo me envolvordquo Deleguei Terceirizei

Neste cenaacuterio temos alguns incocircmodos principalmente no periacuteodo de isolamento

social ou pandemia Surge um ponto importante para os liacutederes religiosos e espirituais

Como ajudar outros a amadurecer na feacute sem criar dependecircncias do seu modelo de

espiritualidade

57 Um filoacutesofo teoacutelogo e teoacuterico cultural da Alemanha nascido na Coreacuteia do Sul

55

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Espiritualidade e feacute satildeo aquelas grandes aacutereas da vida que natildeo haacute como ser

delegada A antiga maacutexima de que ldquofilho de peixe peixinho eacuterdquo revela o tamanho da

responsabilidade que temos Estamos falando do nosso relacionamento com Deus De uma

busca Eacute individual Infelizmente a igreja e o povo se distanciaram da proposta de Jesus

Cristo para conhecer o Pai era necessaacuterio conhececirc-lo (Joatildeo14) relacionar-se tatildeo somente

Neste tempo de isolamento a busca pessoal estaacute passando proacutexima do consumo apenas

Assistir cultos online ouvir pregaccedilotildees e canccedilotildees todavia a proposta do cristianismo eacute de

mobilidade e vivencia real E a pandemia revelou a fragilidade de algumas

espiritualidades

Espiritualidade pode ser aprendida no coletivo mas deve ser amplamente

estimulada para desenvolvimento individual Pequenos grupos ceacutelulas e ou qualquer

ajuntamento do povo de Deus devem ser reflexos da vida de culto de cada membro ndash Isaias

601 ndash ldquoDispotildee-te e resplandece porque vem a tua luz e a gloacuteria do Senhor nasce sobre tirdquo

Precisamos sempre lembrar que nossa vocaccedilatildeo e missatildeo satildeo ser sal e luz Natildeo daacute

para ser de outra maneira Entretanto nestes cenaacuterios de isolamento social as pessoas a

sociedade ficaram ainda mais distante do desenvolvimento de espiritualidade

1 OUTROS PROBLEMAS INFLUENCIANDO A ESPIRITUALIDADE NO

TEMPO DE ISOLAMENTO SOCIAL DO ATEIacuteSMO CETICISMO OU UMA

BUSCA MAL DIRECIONADA DA ESPIRITUALIDADE PODERAtildeO

INFLUENCIAR AS RELACcedilOtildeES DE FEacute

Quando pensamos em ateiacutesmo automaticamente nos vecircm agrave mente Andreacute Comte

Sponville e sua teoria de que moral e espiritualidade todos tecircm e precisam ser desenvolvida

independente de crenccedilas e valores

Entretanto o que vemos hoje satildeo pastores e liacutederes acessando e balizando sua

conduta teoloacutegica e reflexiva em pensadores do ateiacutesmo e neo-ateiacutesmos pois as questotildees

da moral e da boa espiritualidade vecircm em primeiro lugar

Assim estamos arriscando pois o evangelho que nos foi inserido para hoje ser por

exemplo pastor da IPIB estava primeiro na compreensatildeo da vontade de Deus para minha

vida passando pela dinacircmica da salvaccedilatildeo tendo que compreender minha participaccedilatildeo no

corpo de Cristo e por uacuteltimo como cidadatildeo Observemos que moralidade era construccedilatildeo

familiar e natildeo funccedilatildeo pastoral

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Ao que parece temos um grupo preocupado apenas na dinacircmica pessoal deixando

assim um ceticismo aparente e consequentemente a espiritualidade pessimamente

direcionada

Quase que daacute para ouvir as perguntas de Sponville Pode-se viver sem religiatildeo

Deus existe Os ateus estatildeo condenados a viver sem espiritualidade

E assim se relativizam as respostas Preciso apenas ser um bom cidadatildeo Quando

lembramos que somos chamados para ser pequenos cristos isto eacute viver

desconfortavelmente e se necessaacuterio arrancar o olho (Mateus 189) ser radical ser a

mensagem da Salvaccedilatildeo

De repente o grande problema seja a ligaccedilatildeo dos conceitos acima Pastores ouvindo

os filoacutesofos ateus mais inteligentes igreja ouvindo toda sorte de produccedilatildeo teoloacutegica e

como resultado caminhos sem rumo e quando levados para a contingencia do isolamento

soacutecio a falecircncia foi grande

2 VIVEMOS - ldquoUMA NOVA FEacute PARA UM NOVO TEMPO58rdquo ONDE

VERIFICAMOS COMO COMPREENDER A FEacute E SUAS APLICACcedilOtildeES

COMO VIVENCIAR A FEacute NA ATUALIDADE

Estamos tateando a feacute que agrada a Deus registrado na palavra eacute a feacute da

mobilidade Deus usa o que estaacute em movimento em accedilatildeo Quando pede para os profetas se

levantarem (Ezequiel) porque natildeo fala com quem se autovitimam ou se casarem ou

seguirem ou mesmo para Abraatildeo natildeo ficar no local da frustraccedilatildeo e avanccedilar estou

apontando para um tempo que haacute a sensaccedilatildeo de grande movimento

Excesso de informaccedilatildeo possibilidade infinitas Entretanto vemos o paradoxo de

pessoas com medo do agir de Deus mais natural que eacute nascer crescer amadurecer casar

ou encontrar sua razatildeo de ser Espera-se o sobrenatural todavia o natural ficou

insuportaacutevel

Se Deus usa quem estaacute em movimento logo fariacuteamos o que Jesus disse ldquoNa

verdade na verdade vos digo que aquele que crecirc em mim tambeacutem faraacute as obras que eu

faccedilo e as faraacute maiores do que estas porque eu vou para meu Pai (Joatildeo 1412) ndash ao que

parece vivemos uma feacute infantilizada

58 Livro de Marcos Camilo de Santana que aborda a questatildeo da feacute no tempo de miacutedias e relaccedilotildees on demand

e digital Editora Recriar Satildeo Paulo 2019

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Daiacute a necessidade de se voltar sempre a origem Estar unido servindo e crescendo

ateacute a estatura de varatildeo perfeito (Efeacutesio 413-15)

3 HOJE Eacute PRECISO RESSIGNIFICAR ALGUNS CONCEITOS SOBRE A FEacute

A Reforma Protestante se mostrou como o maior exemplo de junccedilatildeo de feacute e reflexatildeo social

em seu tempo Ela correspondeu no campo religioso ao Renascimento no campo artiacutestico ao

Humanismo na Filosofia ao mercantilismo para a nascente economia capitalista

Como afirma Max Weber existiram afinidades eletivas entre esses movimentos que

engendraram a crise da sociedade medieval e a gestaccedilatildeo da modernidade Antes da Reforma a feacute

soacute era pensada pelos sujeitos que ocupavam seus fixos lugares na hierarquia social a partir do

conceito de cristandade da mediaccedilatildeo entre o indiviacuteduo e Deus realizada pela Igreja e pelo

paradigma teocecircntrico de pensamento

Eacute agora um ldquolugar-comumrdquo dizer que a eacutepoca moderna fez surgir uma forma nova e

decisiva de individualismo O produto da feacute para a preacute-modernidade e modernidade estaacute baseado e

construiacutedo na identidade protestante a doutrina da justificaccedilatildeo pela feacute que colocava o homem

perante Deus sem a mediaccedilatildeo da instituiccedilatildeo eclesiaacutestica que julgava o meacuterito das obras e mantinha

os fieacuteis em seus lugares tradicionais na sociedade foi e eacute o pilar de todo um periacuteodo

A feacute estaacute refletida em toda a sociedade todavia natildeo se sabe bem seu significado real em

agradar a Deus

Parece que ao delegar se ressignificou mas de forma negativa Penso entatildeo que devemos

voltar agraves palavras do Aposto Paulo [] De sorte que a feacute eacute pelo ouvir e o ouvir pela palavra de

Deus (Romanos 1017) isto eacute do proacuteprio Deus Temos ouvido muitas pregaccedilotildees e reflexotildees Mas

ouvir o proacuteprio Deus tenho minhas incertezas E o isolamento social poderia ter esta marca na

histoacuteria recente da cristandade

Temos ainda as miacutedias e redes sociais que facilitam muito o nosso dia a dia

Encontramos nelas muitos recursos de ensinos e praacuteticas sobre a vida cristatilde neste sentido

precisamos olhar os proacutes e contras destas ferramentas para o periacuteodo de isolamento social

Byung Chu Han no seu texto sobre a sociedade que vive no ldquoenxamerdquo59 da

informaccedilatildeo sustenta que os recursos satildeo de fato quase ilimitados - ldquonosso comportamento

nossa percepccedilatildeo nossa sensaccedilatildeordquo nossas relaccedilotildees estatildeo embebidas do mundo digital

De forma especiacutefica e positiva ganhamos voz o confronto proposto aos bereianos

registrado em Atos eacute hoje imediato Em aulas ou pregaccedilotildees na comunidade local os

irmatildeos e irmatildes consultam na hora a informaccedilatildeo

59 Han Byung Chu No Enxame Perspectivas do digital ndash Petroacutepolis -Vozes 2019

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Ferramentas de comunicaccedilatildeo e contatos facilitam enormemente a atuaccedilatildeo pastoral

Mas concordo com Han quando de forma dura ndash criacutetica dizendo que haacute tambeacutem ndash o

Shitstorm ndash ou tempestade de indignaccedilatildeo

Irmatildeos homens e mulheres que se mobilizam para enfrentar pensamentos

contraditoacuterios na rede mas natildeo conseguem compor uma adoraccedilatildeo Dizem aos montes natildeo

saber orar mas a criticidade eacute viva

Satildeo criacuteticos de poliacutetica e natildeo profetas A Epidemia e isolamento social nos levaram

agrave necessidade de se debruccedilar sobre o profetismo e usar de forma eficaz estas ferramentas

Evangelizar Testemunhar Anunciar efetivamente o Reino e a Graccedila E na contribuiccedilatildeo

temos algumas questotildees sobre o radar A incerteza econocircmica as demandas da vida diaacuteria

e os horaacuterios variados de trabalho afetaram a feacute das pessoas

Ao que observamos sempre afeta natildeo vou colocar se positiva ou negativamente

pois temos olhado ateacute aqui que estamos falando de feacute imatura e feacute consolidada

Independente da categoria que se olhar a Feacute precisa do contraditoacuterio e da

mobilidade Para minha experiecircncia a Feacute estaacute em movimento e vai passar pela becircnccedilatildeo da

rotina Das experimentaccedilotildees no supermercado ao culto Deus que eacute criativo tem tocado e

mobilizado seu povo

Com ele tambeacutem os que precisam de confronto Todavia reforccedilo que algumas

vezes natildeo sobra pedra sobre pedra como se vecirc nos apoacutestolos e nos pais da Igreja e na

leitura que faccedilo da caminhada do povo - Feacute inabalaacutevel se constroacutei com sangue suor e

laacutegrimas

A necessidade de acreditar e adorar algo satildeo inerentes ao ser humano Surge outro

pensamento para resultado do isolamento social e da pandemia - Existem cristatildeos vivendo

uma feacute nominal Eacute possiacutevel detectar esse comportamento

Atribuiacutedo ao Fiodor Dostoieacutevski ou a Blaise Pascal o entendimento que haacute no ser

humano o buraco da alma do tamanho de Deus e por consequecircncia a capacidade de

construir iacutedolos e adorar

Daiacute a conversa ateacute aqui construiacutemos iacutedolos e padrotildees que para alcanccedilaacute-los

automaticamente terceirizamos ateacute como adorar

Haacute quem queira ateacute as palavras corretas os ldquoatos profeacuteticosrdquo os valores que

correspondam agrave benccedilatildeo que preciso Essencialmente temos livre acesso sacerdoacutecio

universal entre outros pontos que sabemos nominalmente mas efetivamente o que isto

simboliza

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Vemos na igreja o consumo indistinguiacutevel de conteuacutedo teoloacutegico religioso

filosoacutefico e na mesma direccedilatildeo temos a caminhada de feacute Sendo quase prolixo a feacute eacute feita

de caminhada em conjunto Orar uns pelos outros e uns com os outros passando pela

adoraccedilatildeo puacuteblica e estar diante dEle

Os da feacute nominais amam a igreja mas desconfiam do pastor Amam a trajetoacuteria de

um passado que ilude pois olham para o presente como se natildeo houvesse mais soluccedilatildeo E

quanto ao futuro dizem a Deus pertence como se soasse ldquoadeus pertencerdquo ndash quero dizer

acabou aquele pertencimento aquelas histoacuterias

Deus eterno estaacute trabalhando ateacute agora Por isso a adoraccedilatildeo ao que sempre estaacute no

meio do povo

4 QUAL A MENSAGEM OU CONSELHO SOBRE O VIVER UM

CRISTIANISMO COERENTE QUE SOBREVIVA A ISOLAMENTOS SOCIAIS

E PANDEMIAS

Precisamos amar a criatividade e o processo construtivo do reino e comunidade

Vejo Cristo caminhando de forma livre abenccediloadora e plural dialogando com todos

quantos cruzarem seu caminho

Natildeo haacute propriamente conselho ou mensagem mas a oraccedilatildeo eacute para que o povo

esteja livre para esse Deus trino que nos enviou seu Espiacuterito Santo para sermos livres

Oro para natildeo precisarmos de intermediadores Natildeo deleguem o grande desejo do

Senhor Diz sua palavra ldquo[] agrada-te do Senhor e espera nEle e ele satisfaraacute o desejo do

coraccedilatildeo (Salmo 37) ndash Que este desejo seja sua presenccedila sua doce voz seus ensinos seu

confronto Natildeo outras coisas quaisquer

Agravequele que estaacute buscando ser o orientador o ldquopersonal profectrdquo o mentor ndash

lembre-se da recomendaccedilatildeo do Cristo [] Pode porventura o cego guiar o cego Natildeo

cairatildeo ambos na cova (Lucas 639)

Que os poderes deste tempo natildeo corrompam nossos costumes Servos Somos

Servos Chamados para Caminhar juntos lavando os peacutes uns dos outros

Se delegarem a vocecirc a autoridade de conduzir ndash e a exemplo de Corneacutelio com

Pedro (Atos 10) ndash fuja e apresente-se como homem que tambeacutem estaacute na caminhada da feacute

Joatildeo Calvino reformador protestante entende que a feacute e a espiritualidade natildeo eacute

uma expectativa ou confianccedila mas uma convicccedilatildeo No seu comentaacuterio do Salmo 42 ele

apresenta a certeza que o salmista tinha do livramento divino natildeo como ldquouma expectativa

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imaginaacuteria produzida por uma mente fantasiosa mas confiado nas promessas de Deus ele

natildeo soacute se anima a nutrir soacutelida esperanccedila mas tambeacutem se assegura de que receberia

infaliacutevel livramentordquo

Tal afirmaccedilatildeo mostra como o reformador se identificava com a perspectiva teiacutesta

cristatilde ao mostrar a feacute como uma convicccedilatildeo sustentada por um objeto definido e real isto eacute

Deus Aleacutem disso Calvino em um de seus sermotildees diz que ldquonossa feacute natildeo tem que estar

fundamentada no que tenhamos pensado por noacutes mesmos mas no que nos foi prometido

por Deusrdquo

Com esta ideia o Pastor de Genebra mostra seu compromisso com a cosmovisatildeo

cristatilde de que a feacute tem como objeto de sustentaccedilatildeo natildeo apenas o ser divino mas a revelaccedilatildeo

que ele faz de sua vontade

Ao comeccedilar a discorrer sobre a feacute Calvino condena o pensamento de que feacute eacute

apenas consentimento ou especulaccedilatildeo

ldquoCom efeito a maioria dos homens ao ouvir falar de feacute nada mais profundo

concebe do que certo assentimento comum agrave histoacuteria do Evangelho De fato

quando nas escolas discutem a respeito da feacute afirmando simplesmente que Deus

lhe eacute objeto mercecirc de efecircmera especulaccedilatildeo Transviam as miacuteseras almas em

vez de as dirigirem ao seu destinordquo60

Nestas palavras ele deixa clara sua distacircncia da percepccedilatildeo de que feacute eacute tatildeo somente

uma concordacircncia com algo que foi dito Calvino agrave semelhanccedila dos demais reformadores

cristatildeos tambeacutem pensava a feacute como convicccedilatildeo em Deus e em sua revelaccedilatildeo Contudo

ainda fazendo parte da cosmovisatildeo teiacutesta cristatilde em seus escritos mostra algumas

divergecircncias de outros cristatildeos quando discorre sobre este assunto

Calvino entende que Deus natildeo eacute somente o objeto da nossa feacute mas igualmente o

autor da mesma

ldquoA feacute convicta natildeo depende do endosso humano mas ao contraacuterio eacute nosso

dever repousar na verdade nua de Deus de modo que nem os homens nem todos

os anjos juntos tenham como despojar-nosrdquo (CALVINO p 49)

Nas Institutas Calvino afirma que ldquonoacutes soacute somos levados a Cristo e seu reino em

genuiacutena e verdadeira feacute em virtude do Espiacuterito do Senhorrdquo Isto significa que aleacutem de

objeto da feacute Deus eacute tambeacutem aquele que nos conduz agrave mesma Eacute impossiacutevel de acordo

com o pensamento de Calvino que algueacutem tenha genuiacutena feacute em Deus sem que tenha sido

conduzido ao mesmo por Deus mediante seu Espiacuterito Calvino valoriza a oraccedilatildeo para ele

60 12 Calvino Joatildeo Instituicioacuten de la religioacuten Cristiana Livro III cap 2 seccedilatildeo 1

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o principal exerciacutecio da feacute eacute a oraccedilatildeo ldquoA oraccedilatildeo eacute fruto da feacute verdadeira eacute a manifestaccedilatildeo

da graccedila na almardquo (STROHL 2004 p 49)

Vemos em Calvino uma feacute disposta Segundo ele a feacute opera grande virtude de se

manter a confianccedila em Deus mesmo quando ele nos envia a morte o oproacutebrio a

enfermidade e a indigecircncia Calvino diz que a praacutetica da oraccedilatildeo eacute uma ordenanccedila eacute a

preparaccedilatildeo a fim de entrarmos em coloacutequio com Deus

Ele defende que a feacute eacute dada por Deus a quem ele deseja Isto eacute ela tem origem natildeo

no homem mas no Criador A feacute na perspectiva calvinista natildeo eacute fruto do esforccedilo humano

natildeo deriva das capacidades inatas do homem em crer piamente em algo tampouco decorre

de alguma habilidade adquirida e desenvolvida ao longo da vida de quem quer que seja

Para Calvino a verdadeira feacute soacute existe quando decorre de Deus que aleacutem de ser seu

autor eacute o seu objeto maior Esta perspectiva da feacute novamente levanta homens e mulheres

para uma resposta ao dom de Deus E para ele eacute impossiacutevel que a verdadeira feacute caminhe

dissociada da Palavra de Deus Retirada a Palavra a feacute fica impossibilitada de resistir a

algo Isto pelo fato de que acima de qualquer outra coisa eacute mediante a feacute que vecircm o

conhecimento da verdade de Deus e a elucidaccedilatildeo da revelaccedilatildeo feita na natureza que

aponta para a existecircncia do Criador mas que sem a Palavra permanece obscurecidamente

compreendida

A feacute ganha perspectiva de engajamento social e em seu texto Humanismo Social

temos evidecircncias de que os ldquoeleitosrdquo pela feacute satildeo atuantes e envolvidos com seu meio

social

Movimentos posteriores eacute a maior prova de como a feacute tomou projeccedilotildees conquistou

e mobilizou vaacuterias geraccedilotildees Portanto caminhamos para a compreensatildeo de que o seacuteculo

XVI era um novo tempo e a feacute vivenciada estava totalmente desfocada de protestante

vemos que a feacute eacute fustigada a prestar conta em seu tempo e o produto desta soacute eacute evidenciado

com o viver intensamente desta feacute Assim nos tempos de isolamento social eacute importante

ver na histoacuteria da cristandade q necessidade de um povo que avanccedila apesar das lutas e

desafios

Para o tempo presente eacute importante que tiremos de Deus a maacutescara da

onipotecircncia Nosso Deus sempre se relacionou e se relaciona Ele natildeo eacute cristatildeo Muito

antes de qualquer crenccedila Ele jaacute existia O que vem posteriormente eacute apenas religiatildeo que

passaram a avocar para si a propriedade do Todo-poderoso como se o Criador fosse

patrimocircnio exclusivo do homem e natildeo o contraacuterio

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Daiacute o fruto desta inversatildeo na relaccedilatildeo de feacute foi de intoleracircncias e conflitos com a feacute

que Deus nos daacute Evidentemente natildeo poderiacuteamos tirar essa ldquomaacutescara de Deusrdquo

imaginando-nos independentes do mundo que vivemos

Pelo contraacuterio demos muita atenccedilatildeo a este mundo agrave pouca credibilidade que ele

reserva agrave Igreja e agrave Feacute quando trata de seus negoacutecios ao crescimento impressionante do

poder da humanidade em inuacutemeros setores e agraves consequecircncias perversas desse poder A feacute

em muito contribuiu para este crescimento mas verificamos tambeacutem como realidade cada

vez mais inegaacutevel que este poder em plena expansatildeo contra a feacute e pela feacute natildeo gera vida

Muitos vivem esquecidos e excluiacutedos enquanto outros em atitude de autodefesa

preventiva refugiam-se nos corporativismos e nos ciacuterculos fechados Hoje todo esse poder

humano cava um vazio enorme insuportaacutevel explorado por seitas de todo tipo que

mediante promessas e exigecircncias aberrantes recrutam seguidores com a maior facilidade

nessa multidatildeo de pessoas amarguradas e desprovidas do essencial da feacute dada por Deus

que sofrem Segundo os evangelhos eacute diante de gente assim que Jesus se sentia ldquotomado

de compaixatildeordquo

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

No cenaacuterio atual da feacute prosseguir na proclamaccedilatildeo da onipotecircncia de Deus seja

associando-a a tudo que eacute extraordinaacuterio ou sem explicaccedilatildeo seja repetindo ingenuamente o

credo tradicional sem explicaccedilatildeo e reflexatildeo sem perceber as interpelaccedilotildees que essa

proclamaccedilatildeo hoje levanta seraacute continuar contribuindo para a rejeiccedilatildeo do Evangelho e da

real dimensatildeo da feacute que estaacute tatildeo deplorada pelas igrejas O Deus de Jesus Cristo instiga os

seus a exaltar seu poder Ou pede que reconheccedilam seu amor A ldquogeraccedilatildeo maacute e aduacuteltera

que reclama um sinalrdquo (Mateus 1239 e 164) ldquogeraccedilatildeo increacutedulardquo (Marcos 919) seriacuteamos

nos hoje confessando a feacute e impondo teimosamente a maacutescara da onipotecircncia ao Deus que

se revela pela face de Cristo crucificado

Apoacutes tantas ilusotildees de um progresso sem fim da humanidade apoacutes tantas

promessas de vida abundante e justa para todos apoacutes a monstruosidade da Shoah e a

sucessatildeo de guerras muitas provocadas pela diferenccedila de compreensatildeo da feacute e em torno da

feacute ou pela feacute obriga-nos a reconhecer a verdade que a velha Biacuteblia obstinadamente nos

passa Deus natildeo desarma o mal nem transforma os seus numa casta protegida e

privilegiada O Deus de Israel e de Jesus decididamente natildeo alardeia poder irresistiacutevel

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Ele se daacute a conhecer ao mundo por um projeto propositadamente alheio agrave

dominaccedilatildeo e sobretudo agrave onipotecircncia porque contesta as relaccedilotildees de forccedila na organizaccedilatildeo

da vida Ele eacute alvo da nossa feacute e isso eacute o que o agrada O reino que ele propotildee eacute diferente

de outros essa eacute a beleza louca da nossa feacute ou deveria ser A palavra ldquoonipotecircnciardquo natildeo

aproxima o amor de Deus libertador da vida parece estar longe do bom pastor que Jesus

apresentou

ldquoEu sou o Bom Pastor que daacute a sua vida pelas ovelhas Eu sou a porta quem entra

por mim seraacute salva entraraacute e sairaacute e encontraraacute pastagemrdquo (Joatildeo 9) Jesus eacute o cuidador da

alma que fundamentalmente nos liberta de tudo o que nos aprisiona adoece e mata Isso

eacute sua salvaccedilatildeo Natildeo haacute aprisionamentos em Jesus e no seu Evangelho de tal modo que os

seus entram e saem livremente de forma espontacircnea natildeo satildeo cerceados Para seguirem

Jesus precisam ouvir e reconhecer sua Voz no coraccedilatildeo porque natildeo haacute condicionamentos

manipulaccedilatildeo regras de contenccedilatildeo Os que estatildeo em Jesus entram e saem

Quem lecirc as escrituras com a feacute simples de nela encontrar Palavra de Vida jamais

seraacute manipulado de qualquer ordem e jamais se sentiraacute coagido pelo medo a permanecer

em qualquer sistema A Religiatildeo aprisiona trabalha com o medo de que se algueacutem deixar

de seguir ou fazer o que mandam seraacute castigado ou que se resolver deixar aquele

ambiente religioso seraacute castigado por seres espirituais que se vingaratildeo da decisatildeo de

romper com tal realidade

A feacute nos mobiliza a agradar a Deus vem dele para que ningueacutem se glorie e toda

vez que estamos em movimento favoraacutevel ou contraacuterio estamos sendo guiado pela feacute E

isso agrada a Deus ldquoConheccedilo as tuas obras que nem eacutes frio nem quente quem dera foras

frio ou quente Assim porque eacutes morno e natildeo eacutes frio nem quente vomitar-te-ei da minha

bocardquo

(Apocalipse 31516) A feacute nos impele nos move nos conduz Simples assim para

o alto e avante

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MEEKS Wayne A Os primeiros cristatildeos urbanos o mundo social do apoacutestolo

Paulo Satildeo Paulo Paulus 1992

MOLTMANN Juumlrgen Teologia da Esperanccedila Ediccedilotildees Loyola 2005

OTTO Rudolf O Sagrado Imprensa Metodista e Programa Ecumecircnico de

PoacutesGraduaccedilatildeo em Ciecircncias da Religiatildeo 1985

PANASIEWICZ Roberlei Pluralismo religioso contemporacircneo Diaacutelogo inter-

religioso na teologia de Claude Geffreacute 2ordm ed Satildeo Paulo Paulinas Belo Horizonte

Editora PUC Minas 2010

QUINTANEIRO T OLIVEIRA M L de OLIVEIRA B MGM Um toque de

claacutessicos Marx Durkheim Weber 2 ed Revista e Ampliada Belo Horizonte Minas

Gerais Editora UFMG 2003

RAD Gerhard von Teologia do Antigo Testamento ASTE Satildeo Paulo1973

SANTANA Marcos Camilo Uma Nova Feacute para um Novo Tempo Satildeo Paulo SP

Recriar 2019

SCHAFF Philip The creeds of Christendom with a history and critical notes

Published 1877

SCHIMIDT Werner H A feacute do Antigo Testamento traduccedilatildeo de Vilma Schneider ndash

Satildeo Leopoldo RS Sinodal 2004

SCHWANTES Milton O direto dos pobres Satildeo Leopoldo RS 2013

SESBOUE Bernard Histoacuteria dos dogmas Ediccedilotildees Loyola 2006 Satildeo Paulo

STROHL Henri Pensamento da Reforma ASTE 2004

TEIXEIRA Faustino Teologia eacute pluralismo religioso Satildeo Bernardo do Campo Satildeo

Paulo Editora Nhanduti 2012

TILLICH Paul A Era Protestante Ciecircncias da Religiatildeo Satildeo Paulo 1992

___________ Dynamics of Faith Trad Walter O Schlupp Satildeo Leopoldo RS

Editora Sinodal 1985

VIELHAUER Philipp Histoacuteria da literatura cristatilde primitiva introduccedilatildeo ao Novo

Testamento aos apoacutecrifos e aos pais apostoacutelicos Traduccedilatildeo de Ilson Kayser Santo

Andreacute Academia Cristatilde 2005

WALKER Wiliston Histoacuteria da Igreja Cristatilde Tradutor Paulo D Siepierski ndash 3ordf

Ediccedilatildeo Satildeo Paulo ASTE 2006

WEBER Max Economia e sociedade Traduccedilatildeo de Regis Barbosa e Karen E

Barbosa 3 ed Brasiacutelia UNB 2000

WELLHAUSEN Julius Prolegocircmenos agrave Histoacuteria de Israel World Publishing

Company 1960

WENGST Klaus Pax romana pretensatildeo e realidade Satildeo Paulo Paulinas 1991

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Autor ndash Me Marcos Camilo Santana

Escritor Compositor e multi-

instrumentista Tem formaccedilatildeo

interdisciplinar comeccedilando pela

Musicalidade especialmente no baixo

eleacutetrico pela ULM SP fez graduaccedilatildeo em

Musicoterapia depois em Comunicaccedilatildeo

Social - Jornalismo - e Publicidade e

Propaganda aleacutem de licenciatura em

Histoacuteria e Bacharelado em Teologia pela

FATIPI - Faculdade de Teologia de Satildeo

Paulo da Igreja Presbiteriana

Independente do Brasil Especialista em

Gestatildeo Empresarial pela Universidade

Anhembi Morumbi e com MBA em

Marketing pela PUCSP tambeacutem

especialista em gecircnero e diversidade pela

UFABC Eacute mestre e doutorando em

Ciecircncias da Religiatildeo tambeacutem pela

PUCSP

Atuou como publicitaacuterio em grandes

meios de comunicaccedilatildeo e como professor

universitaacuterio em cadeiras de

comunicaccedilatildeo e filosofia da religiatildeo

Ministro ordenado na Igreja

Presbiteriana Independente do Brasil

Casado e pai de duas filhas

E-mail revmarcossantanagmailcom

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O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO

RESUMO

As informaccedilotildees sobre o livro de Atos dos Apoacutestolos no que se refere ao puacuteblico alvo

autor e demais referenciais histoacutericos satildeo imprecisos todavia evidecircncias histoacutericas e

estiliacutesticas apontam o gentio Lucas como o redator tanto do Evangelho de Lucas quanto

de Atos dos Apoacutestolos O Livro descreve o iniacutecio da Era Apostoacutelica onde a profecia do

profeta Joel se cumpre e a accedilatildeo do Espiacuterito Santo eacute expandida a partir do ministeacuterio de

Pedro e posteriormente de Paulo que de perseguidor dos cristatildeos passou a ser difusor do

Evangelho As viagens missionaacuterias comeccediladas por Felipe e Pedro ganham novos

destinos com Paulo que vai a territoacuterios da Aacutesia Menor e Europa convertendo a muitos e

experienciando a rejeiccedilatildeo dos Judeus Entre pregaccedilotildees e motins Paulo vai a Atenas e eacute

ouvido no Areoacutepago

Palavras-chave Atos Apoacutestolo Paulo Areoacutepago Atenas

The information on the book of Acts of the Apostles with regard to the target audience

author and other historical references are inaccurate however historical and stylistic

evidence points to the Gentile Luke as the editor of both the Gospel of Luke and the Acts

of the Apostles The Book describes the beginning of the Apostolic Age where the prophet

Joels prophecy is fulfilled and the action of the Holy Spirit is expanded from the ministry

of Peter and later of Paul who as a persecutor of Christians became the diffuser of the

Gospel The missionary trips started by Felipe and Pedro gain new destinations with Paul

who goes to territories in Asia Minor and Europe converting to many and experiencing the

rejection of the Jews Between sermons and riots Paul goes to Athens and is heard in the

Areopagus

Keywords Acts Apostle Paul Areopagus Athens

autor

Dr Lucas Gabriel Correia Silva

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INTRODUCcedilAtildeO

ldquoFiz o primeiro tratado oacute Teoacutefilo acerca de tudo que Jesus comeccedilou natildeo soacute a

fazer mas a ensinarrdquo assim como no Evangelho de Lucas o livro de Atos dos Apoacutestolos

foi endereccedilado jaacute no seu prefaacutecio a um homem chamado Teoacutefilo (Lucas 13 Atos 11)

cujo nome significa ldquoAquele que ama a Deusrdquo Apesar da expressa citaccedilatildeo ao destinataacuterio

do texto que ora se compunha ainda eacute nebulosa a informaccedilatildeo sobre o puacuteblico alvo ou seja

o contingente maior que a narrativa se propunha a atingir

Sabe-se que o autor era gentio de fala grega A tradiccedilatildeo histoacuterica somada agraves

evidecircncias estiliacutesticas apontam Lucas gentio convertido e companheiro do Apoacutestolo

Paulo como o redator dos textos que foram posteriormente compreendidos em dois

volumes as derradeira parte intitulada Atos dos apoacutestolos cerca de 150 DC Paulo em

suas epiacutestolas se refere a ele como ldquoLucas o meacutedico amadordquo (Colossenses 414) e expotildee

ldquoSoacute Lucas estaacute comigordquo (II Timoacuteteo 411)

1 EM BUSCA DO CENAacuteRIO HISTOacuteRICO

Outros referencias histoacutericos de Atos natildeo destoam do cenaacuterio impreciso que por

sua vez inspira diversas correntes distintas entre os pesquisadores Mesmo a questatildeo da

autoria eacute extremamente relevante para valorar a validade dos conteuacutedos do livro para a

Arqueologia e Historiografia e eacute neste contexto que tenta-se vislumbrar uma narrativa

coerente tanto internamente ndash entre os elementos suscitados pelo proacuteprio texto ndash quanto

externamente ndash em vista das diversas fontes histoacutericas que corroboram as personalidades e

fatos ora descritas

O Livro descreve o iniacutecio da Era Apostoacutelica tambeacutem conhecida por ldquoIgreja

Primitivardquo a fase histoacuterica inicial do cristianismo detalhando e situando os primoacuterdios da

expansatildeo do evangelho e da formaccedilatildeo das comunidades cristatildes Ipso facto os primeiros

nuacutecleos de evangelismo se encontravam em Jerusaleacutem e circunvizinhanccedila e eram vistos

como espeacutecie de apecircndice do Judaiacutesmo que assimilavam Jesus Cristo como ldquoo cordeiro de

Deus Aquele que tira o pecado do mundordquo (Joatildeo 129)

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2 A EXPANSAtildeO DA FEacute CRISTAtilde

No processo de expansatildeo da feacute cristatilde a profecia revelada atraveacutes de Joel ldquoe haacute que

ser que depois derramarei o meu Espiacuterito sobre toda a carne e vossos filhos e vossas

filhas profetizaratildeo os vossos velhos teratildeo sonhos os vossos jovens teratildeo visotildees E tambeacutem

sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espiacuteritordquo (Joel 228-29)

eacute acentuada pelas palavras do Cristo Ressurreto ldquoE estando com eles determinou-lhes que

natildeo se ausentassem de Jerusaleacutem mas que esperassem a promessa do Pai que (disse ele)

de mim ouvistes Porque na verdade Joatildeo batizou com aacutegua mas voacutes sereis batizados

com o Espiacuterito Santo natildeo muito depois destes diasrdquo (Atos 14-5) e ganha uma

significacircncia central para a Era Apostoacutelica nos termos seguintes ldquoMas recebereis a

virtude do Espiacuterito Santo que haacute de vir sobre voacutes e ser-me-eis minhas testemunhas tanto

em Jerusaleacutem como em toda a Judeacuteia e Samaria e ateacute os confins da terrardquo (Atos 18) pois

o roteiro deslindado em Atos eacute justamente o caminho do Evangelho a partir de Jerusaleacutem

ndash capiacutetulo 1 a 7 ndash passando pela Judeacuteia e Samaria ndash capiacutetulo 8 a 12 ndash ateacute os confins da terra

ndash capiacutetulo 13 ao 28

3 DE PEDRO A PAULO (EXPANSAtildeO DA OBRA DE MISSOtildeES)

Desta forma a narrativa de Atos se desloca do ministeacuterio de Pedro para o

ministeacuterio do Apostolo Paulo quando este ainda Saulo encontra-se com o Senhor Jesus

transfigurado em um resplendor de luz que lhe interpotildee ldquoSaulo Saulo por que me

perseguesrdquo (Atos 94) e daacute o ultimato ldquoLevanta e entra na cidade e laacute te seraacute dito o que

convecircm fazerrdquo (Atos 96)

Paulo encontrando a feacute cristatilde passou subitamente de ferrenho perseguidor a

difusor do Evangelho comeccedilando suas pregaccedilotildees nas sinagogas de Damasco Todavia a

inserccedilatildeo de Paulo entre os disciacutepulos natildeo foi raacutepida haja vista a natural desconfianccedila

As viagens missionaacuterias em Atos dos Apoacutestolos comeccedilam por Felipe em sua ida a

Samaria com o fulcro de anunciar as boas novas viajem que eacute estendida quando ouve do

Anjo do Senhor ldquoLevanta-te e vai para a banda do Sul ao caminho que desce de

Jerusaleacutem para Gaza que estaacute desertordquo (Atos 826)

Antes de abordar as incursotildees de Paulo o autor tambeacutem narra as viagens de Pedro

(Atos 932) todavia somente o Apoacutestolo Paulo logrou tais viagens enquanto estrateacutegias

para a difusatildeo do evangelho na Aacutesia Menor e Europa

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A partir do capiacutetulo 13 entatildeo observa-se o pleito de Paulo inicialmente na

companhia de Barnabeacute em explorar os territoacuterios da Aacutesia Menor iniciando pelo porto

mariacutetimo da Antioquia Salecircucia (Atos 134) Apoacutes testemunhar a feacute encontrada em Jesus

Cristo uma vez mais experimenta a rejeiccedilatildeo dos judeus Cruza o mar mediterracircneo e

desembarca em Salamina na ilha de Chipre e de laacute parte para a Ilha de Pafos onde

explora vilas e aldeias da adjacecircncia

Apoacutes as pregaccedilotildees em Pafos Paulo e Barnabeacute navegam pelo Rio Cestro

alcanccedilando Perge na Panfiacutelia e entatildeo tomam rumo para a Antioquia da Psiacutedia Na nova

empreitada a cerca de 160 quilocircmetros da regiatildeo da Panfiacutelia os resultados foram

positivos ldquoe saiacutedos os judeus da sinagoga os gentios rogaram que no saacutebado seguinte lhes

fossem ditas as mesmas palavras E despedida a sinagoga muitos dos judeus e dos

proseacutelitos religiosos seguiram Paulo e Barnabeacute os quais falando-lhes os exortavam a que

permanecessem na graccedila de Deusrdquo (Atos 1342-43) No saacutebado seguinte assim como

pedido anunciaram as boas novas a um grande ajuntamento de pessoas poreacutem uma vez

mais prevalecera a rejeiccedilatildeo dos judeus pelo que foram expulsos da cidade

Continuam a incursatildeo missionaacuteria em Icocircnio cidade entreposto para Eacutefeso Tarso

Antioquia e demais regiotildees do Oriente Como acontecera em Perge a multidatildeo se divide

entre apoiadores e oposicionistas dos Apoacutestolos (Atos 146) Apoacutes um motim para mata-

los Paulo e Barnabeacute fogem para a Licaocircnia mais especificamente a cidade de Listra e

posteriormente Derbe Assim finalizam a primeira viagem missionaacuteria com um saldo de

muitos convertidos e vaacuterias experiecircncias de ldquoquase morterdquo

Voltando para a Antioquia da Siacuteria ldquorelataram quatildeo grandes coisas Deus fizera por

eles e como abrira aos gentios a porta da feacuterdquo (Atos 1327) Rompendo todavia a parceria

missionaacuteria que ateacute entatildeo se firmara entre Paulo e Barnabeacute (Atos 1539) o Apoacutestolo tomou

a companhia de Silas e se direcionaram agrave Asia

Passam entatildeo pela Siacuteria e Ciliacutecia e em Listra junta-se a eles Timoacuteteo (Atos 161)

Tomam o caminho da regiatildeo da Friacutegia e da Galaacutecia poreacutem ldquoforam impedidos pelo Espiacuterito

Santo de anunciar a palavra na Aacutesiardquo (Atos 166) de forma que seguiram para Miacutesia e

intentavam ir para Bitiacutenia Uma vez mais exortados pela accedilatildeo do Espiacuterito Santo mudam o

destino para Trocircade na costa do mar Egeu

Em Trocircade Paulo tem uma visatildeo que o orienta a seguir agrave Macedocircnia Passa por

Samotraacutecia e Neaacutepolis e finalmente chegam a Filipos onde seratildeo novamente encarcerados

por expulsarem um espiacuterito maligno de adivinhaccedilatildeo (Atos 1618) Encarcerados um

terremoto pocircs abaixo a prisatildeo enquanto adoravam e louvavam a Deus (Atos 1625-26)

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Foram libertos pelos magistrados da cidade e se despedindo da congregaccedilatildeo de Filipos

seguiram a peacute para Tessalocircnica

Segunda Viagem Missionaacuteria de Paulo (Sociedades Biacuteblicas Unidas 1995)

De Tessalocircnica seguiram para Bareacuteia e daiacute Paulo foi conduzido por alguns irmatildeos

a Atenas Silas e Timoacuteteo poreacutem permaneceram no destino anterior

Atenas capital da Aacutetica e centro da efervescecircncia cultural da eacutepoca era

reconhecida pela alta idolatria e vaidade de sua populaccedilatildeo aleacutem da imoralidade

publicamente defendida pelas autoridades atenienses Paulo fica extremamente

incomodado com o cenaacuterio que vivencia de forma que ldquoo seu espiacuterito se comovia em si

mesmo vendo a cidade tatildeo entregue agrave idolatriardquo (Atos 1716)

Superada a discussatildeo quanto aos maus costumes atenienses que deveras afligiram

ao Apostolo Paulo cumpre esclarecer quais eram as instituiccedilotildees gregas de Atenas e dentro

desse contexto o que significa o discurso de Paulo diante do Areoacutepago notadamente um

dos sermotildees mais inspiradores da literatura cristatilde

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4 O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO

Sabe-se que as instituiccedilotildees atenienses podem ser divididas em instituiccedilotildees poliacuteticas

(governo da cidade) e juriacutedicas (tribunais) Na esfera poliacutetica destacam-se a Ekklecircsia ndash

Assembleia do Povo ndash Boulecirc ndash Conselho ndash Priacutetanes ndash Cuacutepula do Boulecirc ndash os estrategos e os

magistrados estes uacuteltimos divididos em arcontes e secundaacuterios Na esfera juriacutedica a

justiccedila civil ficava a cargo dos aacuterbitros heliastas e tribunais mariacutetimos os Efetas e o

Areoacutepago eram encarregados pela justiccedila criminal

Exercendo a jurisdiccedilatildeo criminal ateniense o Delfiacutenio o Freaacutetis o Palaacutedio e o

Pritaneu eram cortes especiais que juntas formavam o tribunal dos Efetas composto por

cidadatildeos sorteados entre os maiores de 50 anos Por outro lado numa espeacutecie de

competecircncia criminal residual o Areoacutepago era a mais antiga instituiccedilatildeo do tipo em Atenas

Inicialmente o Areoacutepago era um tribunal aristocraacutetico que aleacutem da jurisdiccedilatildeo

criminal tambeacutem era consultado para assuntos poliacuteticos de diversas ordens Ao longo dos

anos passou por inuacutemeras reformas que esvaziaram seus podres Formado por ex-

arcontes foi o tribunal que tratou de ouvir Paulo porquanto alguns filoacutesofos epicureus e

estoacuteicos o acusavam de ser causa de balbuacuterdia entre a populaccedilatildeo

Paulo no meio do Areoacutepago aproveita-se da oportunidade para apregoar de forma

eloquente o que se sucedera nas praccedilas e sinagogas atenienses nas seguintes palavras

ldquoVarotildees atenienses em tudo vos vejo um tanto supersticiosos porque passando eu e

vendo os vossos santuaacuterios achei tambeacutem um altar em que estava escrito AO DEUS

DESCONHECIDO Esse pois que voacutes honrais natildeo o conhecendo eacute o que vos anunciordquo

(Atos 1722-23)

A estrateacutegia que Paulo utilizou em seu discurso convenceu a muitos inclusive os

Areopagitas que o ouviam (Atos 1734) As suas colocaccedilotildees diante do tribunal foram sem

duacutevidas emblemaacuteticas mas o recrudescimento dos atenienses diante da feacute cristatilde

principalmente pela falta de compreensatildeo a respeito da ressurreiccedilatildeo de Jesus Cristo foram

fatores impeditivos para a conversatildeo de mais pessoas em Atenas

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REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS

FABRIS Rinaldo Os Atos dos Apoacutestolos Satildeo Paulo Loyola 1991

GIORDANI Maacuterio Curtis Histoacuteria da Greacutecia claacutessica antiguidade I Petroacutepolis

Vozes 1984 GLOTZ Gustave A cidade grega Satildeo Paulo DIFEL 1980

WILLIAMS David Atos Satildeo Paulo Vida 1996

Autor ndash Dr Lucas Gabriel Correia Silva

Bacharel em Direito pela Universidade Paulista -

UNIP eacute advogado soacutecio do escritoacuterio Correia amp

Lopes presidente da Comissatildeo OAB vai agrave

Escola da 198ordf subseccedilatildeo da OABSP diretor

administrativo e diaacutecono da Assembleia de Deus

ministeacuterio de Perus regional Itapevi Foi ainda

assessor da Secretaria de Educaccedilatildeo de Itapevi e

professor de filosofia e muacutesica atuaccedilatildeo

educacional que lhe rendeu a outorga do tiacutetulo de

Cidadatildeo Itapeviense Benemeacuterito

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REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NO LIVRO DE LEVIacuteTICO

RESUMO

A Biacuteblia eacute um livro complexo Para que sua mensagem seja a mais proacutexima possiacutevel da intenccedilatildeo

original a interpretaccedilatildeo biacuteblica exige que o leitor considere ferramentas e criteacuterios como a

revelaccedilatildeo progressiva ou as normas de hermenecircutica e exegese Dentre esses criteacuterios um se

mostra fundamental entre os inteacuterpretes mais conservadores a centralidade de Jesus Cristo o

Messias prometido Ele eacute a chave de interpretaccedilatildeo da Biacuteblia de Gecircnesis ateacute Apocalipse Por isso

analisar as ofertas volitivas e compulsoacuterias no livro de Leviacutetico eacute saber que para os peregrinos do

deserto a revelaccedilatildeo era parcial mas para noacutes ela tornou-se final na pessoa real do Messias Os

ldquotiposrdquo ali contidos materializaram-se em Jesus o antiacutetipo A sombra tornou-se realidade e o que

ainda estava obscuro foi totalmente desvelado A revelaccedilatildeo messiacircnica estaacute contida nas ofertas

volitivas e compulsoacuterias aguardando um espiacuterito inquiridor para encontraacute-la

Palavras-chave Ofertas volitivas Ofertas compulsoacuterias Revelaccedilatildeo messiacircnica

ABSTRACT The Bible is a complex book In order for your message to be as close as possible to

the original intention biblical interpretation requires the reader to consider tools and criteria such

as progressive revelation or the rules of hermeneutics and exegesis Among these criteria one is

fundamental among the most conservative interpreters the centrality of Jesus Christ the promised

Messiah He is the key to interpreting the Bible from Genesis to Revelation Therefore to analyze

the volitional and compulsory offerings in the book of Leviticus is to know that for the pilgrims of

the desert the revelation was partial but for us it became final in the real person of the Messiah

The ldquotypesrdquo contained therein materialized in Jesus the antitype The shadow became a reality and

what was still obscure was completely unveiled Messianic revelation is contained in volitional and

compulsory offerings waiting for a spirit inquirer to find it

Keyword Voluntary offers Compulsory offers Messianic revelation

autor

Bach Odilon Soares Moreira

E-mail odilonmoreira13hotmailcom

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INTRODUCcedilAtildeO

A Biacuteblia eacute um livro complexo Para que sua mensagem seja a mais proacutexima

possiacutevel da intenccedilatildeo original a interpretaccedilatildeo biacuteblica exige que o leitor considere

ferramentas e criteacuterios como a revelaccedilatildeo progressiva ou as normas de hermenecircutica e

exegese Dentre esses criteacuterios um se mostra fundamental entre os inteacuterpretes mais

conservadores a centralidade de Jesus Cristo o Messias prometido Ele eacute a chave de

interpretaccedilatildeo da Biacuteblia de Gecircnesis ateacute Apocalipse

A interpretaccedilatildeo dos livros que compotildeem o Antigo Testamento natildeo eacute diferente

pois as leis instituiccedilotildees e festas em quase sua totalidade giravam em torno da figura do

Messias prometido Essa compreensatildeo soacute eacute possiacutevel hoje porque enxergamos Jesus Cristo

ldquode fora para dentrordquo e natildeo o inverso Todos os personagens que participaram da histoacuteria

biacuteblica iam construindo-na individualmente e tambeacutem recebendo a revelaccedilatildeo

simultaneamente A junccedilatildeo das revelaccedilotildees parciais dadas a eles chegou ateacute noacutes completa

Os atores biacuteblicos eram por assim dizer construtores que participavam da

edificaccedilatildeo de um preacutedio mas natildeo o viam na sua completude tal qual noacutes podemos ver

Hoje temos o Velho Testamento e o Novo Testamento para consultarmos eles poreacutem

viveram e morreram sem testemunhar a materializaccedilatildeo do seu trabalho pois o cacircnon

sagrado soacute foi completado definitivamente seacuteculos mais tarde

Analisar as ofertas volitivas e compulsoacuterias no livro de Leviacutetico eacute saber que para

os peregrinos do deserto que caminhavam rumo a terra prometida a revelaccedilatildeo era parcial

mas para noacutes ela tornou-se final na pessoa real do Messias Os ldquotiposrdquo ali contidos

materializaram-se em Jesus o antiacutetipo A sombra tornou-se realidade e o que ainda estava

obscuro foi totalmente desvelado

Dessa forma fazer uma boa exegese dos textos biacuteblicos demanda um certo

esforccedilo principalmente quando a anaacutelise eacute feita a partir dos textos tipoloacutegicos Isso eacute

resultante do fato de que os limites para aplicaccedilatildeo da tipologia apresentam algumas

barreiras pois haacute uma linha muito tecircnue entre o que deve ser considerado tipoloacutegico e o

que natildeo se deve Natildeo aplicar a tipologia ao que se deve nos impede de penetrar no mar de

peacuterolas da revelaccedilatildeo biacuteblica mas erraremos tambeacutem se irmos aleacutem dessa tipologia e esse

erro nos induziraacute a introduzir pensamentos estranhos ao texto

A busca da revelaccedilatildeo do Messias simbolicamente encontrada nos textos deve ser

entatildeo pautada por certos criteacuterios dados pela tipologia Todavia mesmo essa ferramenta da

hermenecircutica apresenta algumas contradiccedilotildees internas posto que natildeo haacute unanimidade

entre os estudiosos sobre o que deve ser considerado tipoloacutegico ou natildeo Dessa forma

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dependendo da posiccedilatildeo que o inteacuterprete assume sobre o que pode ser considerado

tipoloacutegico haveraacute total influecircncia na sua interpretaccedilatildeo

Temos entatildeo algumas questotildees postas diante de noacutes relacionadas agrave revelaccedilatildeo

messiacircnica nas ofertas volitivas e compulsoacuterias descritas no livro de Leviacutetico O que eram

essas ofertas Por que foram dadas Quais eram suas funccedilotildees e por fim como

podemos extrair delas uma tipologia e ver nas suas entrelinhas a figura do Messias

Essas questotildees contudo natildeo devem ser consideradas como barreiras

intransponiacuteveis elas podem ser superadas e assim fazendo chegaremos a uma correta

interpretaccedilatildeo dos textos em que o Messias aparece de forma simboacutelica Superadas ainda

que natildeo totalmente essas questotildees veremos o quatildeo belo o Messias se apresenta atraveacutes da

tipologia objeto da presente pesquisa

Posto isso o presente artigo propotildee-se ainda que resumidamente a apresentar as

trecircs principais correntes teoloacutegicas que buscam o melhor caminho para uma interpretaccedilatildeo

mais fidedigna dos ldquotiposrdquo biacuteblicos A partir da opccedilatildeo por uma das trecircs tambeacutem

analisaremos as ofertas volitivas e compulsoacuterias demonstrando o porquecirc delas se

adequarem na categoria ldquotipordquo e a partir dessa anaacutelise mostrar a figura do Messias

existente nas suas entrelinhas

1 TIPOLOGIA

Devido a algumas controveacutersias que envolvem a tipologia biacuteblica cabe alguns

esclarecimentos para norteamos as interpretaccedilotildees e afirmaccedilotildees que aqui seratildeo feitas no

tocante a alguns ldquotiposrdquo biacuteblicos Essa reflexatildeo reveste-se de grande importacircncia visto

que a depender da posiccedilatildeo que o interprete adota sobre o que deve ser um tipo ou o que

natildeo deve afetaraacute toda a sua hermenecircutica

Mesmo havendo correntes antagocircnicas sobre as questotildees de interpretaccedilatildeo

tipoloacutegica isso natildeo nos impede de utilizar a tipologia como ferramenta auxiliar na

interpretaccedilatildeo dos textos E podemos fazer essa declaraccedilatildeo de forma indubitaacutevel pois a

proacutepria Biacuteblia nosso uacutenico referencial absoluto faz uso desse recurso hermenecircutico

Os seguintes versos neotestamentaacuterios nos oferecem base segura para a utilizaccedilatildeo

da tipologia na interpretaccedilatildeo de textos veterotestamentaacuterios Hb 85 Hb 99 Hb 923-24

Hb 101 Col 217 Os termos ldquosombrardquo ldquoalegoriardquo ldquofigurasrdquo ldquoparaacutebolasrdquo ldquoilustraccedilatildeordquo

ldquocoacutepiasrdquo ldquosiacutembolordquo e ldquomodelordquo que satildeo traduccedilotildees do vocaacutebulo grego upodeigmati

confirmam a nossa proposiccedilatildeo

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11 - Definiccedilatildeo de tipologia

O termo tipologia eacute derivado da palavra grega ldquotiposrdquo encontrada nas seguintes

referecircncias biacuteblicas 1Co 1011 1Ts 17 1Pe 53 Fp 317 2Ts 39 Tt 27 Hb 85 Jo

2025 (2) 2Pe 112 Jd 15 1Ti 412 1Co 106 At 743 44 At 2325 Rm 514 617 Essa

palavra grega eacute vertida para a biacuteblia em portuguecircs da Almeida Revista e Corrigida (ARC)

como ldquofigurardquo e ldquoexemplordquo Strong daacute entre outras a seguinte definiccedilatildeo da palavra grega

ldquotiposrdquo ldquo() uma pessoa ou coisa que prefigura algo ou algueacutem (messiacircnico) futurordquo

(STRONG G5179)

Assim podemos constatar que o termo grego ldquotiposrdquo que deu origem a palavra

tipologia tambeacutem aparece nas Escrituras neotestamentaacuterias Dessa forma de maneira

geral as revelaccedilotildees messiacircnicas do Velho Testamento como ldquotipordquo cujo desvelamento

absoluto dar-se-aacute no Novo Testamento na pessoa de Jesus o Antiacutetipo

12 - A tipologia como ferramenta da hermenecircutica

Vemos que a lei conforme afirma o autor da carta aos hebreus ldquo() traz apenas

uma sombra dos benefiacutecios que hatildeo de vir e natildeo a realidade dos mesmos ()rdquo (BIacuteBLIA

NVI Hebreus 10) Com base nas declaraccedilotildees dos autores do Novo Testamento podemos

construir um edifiacutecio seguro de interpretaccedilatildeo utilizando a tipologia como ferramenta

hermenecircutica auxiliar pois os autores sacros tambeacutem dela fizeram uso A lei mosaica eacute

entatildeo apenas uma sombra que apontava para o objeto real ou seja Jesus Cristo o

Messias

13 - As Escrituras e a tipologia

O Pentateuco testificava do Messias bem como todos os profetas em maior ou

menor grau vaticinaram sobre o seu futuro aparecimento Lei e profetas falaram tatildeo

somente da figura central de toda as Escrituras o Messias Essa afirmaccedilatildeo foi feita pelo

proacuteprio Messias

E ele lhes disse Oacute neacutescios e tardos de coraccedilatildeo para crer tudo o que os profetas

disseram Porventura natildeo convinha que o Cristo padecesse essas coisas e

entrasse na sua gloacuteria E comeccedilando por Moiseacutes e por todos os profetas

explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras (BIacuteBLIA ARA

Lucas 2425-27)

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O filoacutesofo e teoacutelogo dos primoacuterdios da igreja Agostinho de Hipona compreendia

bem essa verdade biacuteblica quando cunhou sua celebre frase ldquoO novo estaacute contido no antigo

o antigo eacute explicado pelo novordquo (HABERSHON 2001 p 11)

Embora o livro de Hebreus seja uma das Escrituras neotestamentarias onde mais

encontramos elucidaccedilotildees dos ldquotiposrdquo veterotestamentaacuterios nas epiacutestolas paulinas tambeacutem

as vemos em abundacircncia Vaacuterias satildeo as citaccedilotildees que o apoacutestolo dos gentios faz ao Antigo

Testamento para fundamentar sua teologia Um exemplo claacutessico de uma alegoria feita por

ele encontra-se em Gl 421-30 no qual que descreve Agar e Sara como sendo

representativas da alianccedila da lei e da alianccedila da graccedila respectivamente

Em suma temos fartas evidecircncias biacuteblicas que nos fornecem alicerce seguro para

a aplicaccedilatildeo da tipologia nos textos sagrados da Velha Alianccedila onde de forma velada

aparecem a figura do Messias Devemos no entanto fornecer algumas informaccedilotildees baacutesicas

sobre algumas correntes divergentes Em linhas gerais tudo gira em torno da questatildeo sobre

o que deve ser considerado tipoloacutegico e o que natildeo se deve

14 - A tipologia e as correntes teoloacutegicas

Quando falamos de tipologia devemos pensar em uma ferramenta utilizada pela

ciecircncia da hermenecircutica para o auxiacutelio na compreensatildeo dos siacutembolos biacuteblicos que

apontavam para o Messias Eacute praticamente consenso entre os estudiosos das Escrituras que

existem simbolismos no Velho Testamento cujo cumprimento se realizou no Novo Poreacutem

temos algumas correntes teoloacutegicas que divergem a respeito da maneira de interpretaacute-los e

aplicaacute-los

O ponto majoritaacuterio da discordacircncia reside no fato de estabelecer o quatildeo explicito

deve ser esse tipo nas Escrituras Nesse sentido pelo menos trecircs posiccedilotildees teoloacutegicas satildeo

apresentadas a fim de fornecer uma maior seguranccedila na correta interpretaccedilatildeo dos ldquotiposrdquo

veterotestamentaacuterios Zuck resume essas trecircs linhas de pensamento

Como vamos saber quais personagens acontecimentos e fatos do Antigo

Testamento Deus pretendeu que servissem de ldquotiposrdquo Deus deve ter criado os

ldquotiposrdquo mas a questatildeo eacute descobrir com que finalidade os criou Chegamos agora

ao maior problema do estudo da tipologia () alguns professores biacuteblicos

enxergam muito mais ldquotiposrdquo que outros Haacute tambeacutem aqueles que sustentam que

os ldquotiposrdquo satildeo apenas os que se encontram expressos no Novo Testamento Outro

grupo ainda adota a posiccedilatildeo intermediaacuteria entre essas duas opiniotildees e afirma que

ldquotiposrdquo podem ser tanto os que estatildeo explicitados como tambeacutem os que estatildeo

impliacutecitos ou seja que satildeo insinuados mas natildeo declarados (ZUCK 1994 p

203)

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Assim a adoccedilatildeo de qualquer dessas trecircs correntes nortearaacute e determinaraacute a

interpretaccedilatildeo do estudioso dos siacutembolos messiacircnicos Vejamos sinteticamente algumas

dessas correntes teoloacutegicas

141 - ldquotiposrdquo natildeo ratificados pelo Novo Testamento

A primeira corrente de estudiosos das tipologias biacuteblicas defende que qualquer

siacutembolo que apareccedila no Velho Testamento desde que tenha certa correspondecircncia com o

Messias natildeo precisa de sua ratificaccedilatildeo explicitada no Novo Testamento Essa corrente

poreacutem eacute criticada por considerar como sendo ldquotiposrdquo muitos elementos de pouca

importacircncia podendo levar a uma alegorizaccedilatildeo extremada

Desse modo qualquer coisa que apresentou futuramente semelhanccedila com algo

pode ser classificada como tipo Exemplo disso vemos na interpretaccedilatildeo de um dos pais

apostoacutelicos cujo nome era Justino Maacutertir que via na personagem biacuteblica Lia uma

representaccedilatildeo dos judeus Raquel representava a igreja e Jacoacute simboliza Cristo que serve a

ambos

Assim por exemplo a vida de Joseacute filho de Israel mesmo natildeo tendo nenhuma

passagem no Novo Testamento que o identifique como sendo um tipo do Messias as

semelhanccedilas das ocorrecircncias - segundo Habershon cerca de 131 - na sua vida tem um

paralelo com a vida de Jesus Essa tese eacute defendida por Ada Habershon na sua obra

ldquoManual de Tipologia Biacuteblica como reconhecer e interpretar siacutembolos ldquotiposrdquo e alegorias

das Escrituras sagradasrdquo

Para essa autora a histoacuteria da peregrinaccedilatildeo dos filhos de Israel durante quarenta

anos no deserto tinha um propoacutesito especial nos ensinar algumas verdades espirituais e

Paulo iraacute fazer referecircncia em 1Co 10 Na sua loacutegica continua a autora se haacute uma

correspondecircncia entre as verdades espirituais ensinadas a eles e a noacutes logo as demais

partes das histoacuterias tambeacutem tem o mesmo propoacutesito Ela diz

() todas as coisas que foram expressamente ordenadas por Deus em conexatildeo

com os sacrifiacutecios no Tabernaacuteculo e no Templo os quais em todos os seus

pormenores foram claramente dados como ldquotiposrdquo sendo que ldquoO Espiacuterito Santo

assim significavardquo mdash algumas liccedilotildees a respeito do Senhor e da sua obra () o

estudo cuidadoso dos ldquotiposrdquo natildeo deixa lugar para duvidarmos que a totalidade

da economia leviacutetica foi divinamente instituiacuteda para prenunciar a obra e pessoa

do proacuteprio Senhor Jesus Cristo (HABERSHON 2003 p 12)

Assim sob essa perspectiva para considerarmos os siacutembolos

veterotestamentaacuterias como sendo ldquotiposrdquo basta encontrarmos correspondecircncia

neotestamentarias natildeo necessitando portanto de uma declaraccedilatildeo explicita do Novo

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Testamento Satildeo adeptos dessa corrente Origenes Justino Maacutertir S Jeronimo Walter L

Wilson e Ada R Habershon

142 - Siacutembolos ratificados pelo Novo Testamento

Em oposiccedilatildeo ao argumento defendido por Habershon estaacute Roy B Zuck cuja obra

ldquoA Interpretaccedilatildeo Biacuteblica Meios de Descobrir a Verdade da Biacutebliardquo apresenta argumentos

contraacuterios no sentido de considerar apenas como ldquotiposrdquo aqueles que aparecem no Novo

Testamento de forma expressa A esses ele denomina de ldquotiposrdquo autecircnticos

Podemos citar para exemplificar essa posiccedilatildeo o cordeiro que era sacrificado no

Velho Testamento para expiaccedilatildeo dos pecados e que corresponde no Novo Testamento a

Jesus como sendo o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 129) Nesse caso

para Zuck o cordeiro eacute um um siacutembolo autecircntico de Cristo por ter sido ele ratificado

como tipo no Novo Testamento No dizer do proacuteprio autor ldquo() para uma figura ser um

tipo ela () precisa ser especificada no Novo Testamento rdquo (ZUCK 1994 p 207)

Segundo o autor pelo menos cinco caracteriacutesticas dos siacutembolos devem ser levadas em

consideraccedilatildeo para que um tipo possa ser identificado e aceito como autentico Satildeo elas

Semelhanccedila o tipo deve ter uma correspondecircncia profunda com o antiacutetipo

Realidade histoacuterica os personagens os fatos e os elementos veterotestamentaacuterios

que satildeo ldquotiposrdquo devem ser reais e tambeacutem surgirem naturalmente do texto

Prefiguraccedilatildeo o tipo autentico deve ser uma sombra que aponta para a realidade o

tipo autecircntico deve conter a prediccedilatildeo isto e a prefiguraccedilatildeo do antiacutetipo

Elevaccedilatildeo o antiacutetipo deve ser maior que o tipo devendo sempre ocorrer uma

expansatildeo elevaccedilatildeo e intensificaccedilatildeo do tipo ateacute culminar no antiacutetipo Assim por

exemplo Cristo (antiacutetipo) eacute superior agrave paacutescoa

Planejamento divino por haver um espaccedilo de seacuteculos entre os ldquotiposrdquo e o antiacutetipo

necessariamente houve um planejamento divino para que a sombra correspondesse

agrave realidade Sendo assim o tipo por ser projeto divino deve ter uma similaridade

com o antiacutetipo

Especificaccedilatildeo no Novo Testamento aleacutem de enquadrar-se nas cinco condiccedilotildees

acima especificadas o tipo autecircntico deve ser especificado no Novo Testamento

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Em apenas uma frase o estudioso Hebert Marsh defendeu assim essa posiccedilatildeo

teoloacutegica No Antigo Testamento devem ser considerados ldquotiposrdquo todos os elementos que

o Novo Testamento assim designar natildeo mais (Zuck apud Marsh 1994 p 204)

Os estudiosos que assim como Zuck defendem os ldquotiposrdquo autecircnticos como sendo

exclusivamente aqueles especificados ou ratificados pelo Novo Testamento satildeo Joseph

Angus Sylvester Burnham Thomas Hartwell Horne Herbert Marsh e Moses Stuart

143 - Corrente intermediaacuteria ldquotiposrdquo expliacutecitos e impliacutecitos

Uma terceira corrente adota uma posiccedilatildeo intermediaria fazendo uma siacutentese

entre as duas posiccedilotildees defendidas por Habershon e Zuck Segundo a perspectiva dessa

corrente teoloacutegica devem ser considerados como sendo ldquotiposrdquo todos aqueles que estatildeo

impliacutecitos no Velho Testamento isto eacute que natildeo sejam necessariamente ratificados no

Novo Testamento e devem ser considerados tambeacutem os que satildeo claramente confirmados

no Novo Testamento Assim tanto um como outro utilizando a expressatildeo de Zuck podes

ser classificados como ldquoldquotiposrdquo autecircnticosrdquo Essa posiccedilatildeo no entanto difere da primeira

por aplicar um rigor maior na anaacutelise do tipo impedindo assim a alegorizaccedilatildeo extremada

dos elementos tipoloacutegicos

Dentre aqueles que adotam essa posiccedilatildeo intermediaacuteria entre as duas correntes

estatildeo os estudiosos Solomon Glassius Johannes Coceio Joseph Frey Patrick Fairbairn

Milton S Terry Berkhof Mickelson Eichrodt e Ramm)

2 ESTABELECIMENTO DA CORRENTE INTERPRETATIVA

Como eacute intenccedilatildeo desse artigo analisar a tipologia existente nas ofertas volitivas e

compulsoacuterias e visto que elas natildeo aparecem nas paacuteginas do Novo Testamento de forma

explicita adotaremos a terceira corrente teoacuteloga ou seja consideraremos essas ofertas

como ldquotiposrdquo mesmo que elas natildeo apareccedilam de forma expliacutecita no Novo Testamento

Como veremos posteriormente a ofertas volitivas e compulsoacuterias apesar de toda a

tipologia nelas impliacutecitas natildeo satildeo citadas no Novo Testamento mas podem perfeitamente

ser consideradas uma representaccedilatildeo vivida de Cristo e do projeto divino de salvaccedilatildeo

A moderaccedilatildeo eacute aconselhaacutevel e tem por finalidade fugir dos extremos Assim

fazendo escaparemos de natildeo atribuir o sentido tipoloacutegico nas ofertas volitivas e

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compulsoacuterias por natildeo encontrar citaccedilotildees explicitas do Novo Testamento sendo que

tambeacutem natildeo as vamos transformar em alegorias por natildeo atribuirmos significados a

qualquer detalhe secundaacuterio Dito de outra forma demonstraremos a semelhanccedila existente

entre as ofertas volitivas e compulsoacuterias com o antiacutetipo que eacute Cristo mesmo natildeo tendo

citaccedilotildees explicitas no Novo Testamento e ao mesmo tempo natildeo atribuiremos tanto valor a

detalhes sem importacircncia

Assim sendo nosso labor consistiraacute em demonstrar nessas ofertas os princiacutepios

espirituais existentes e que inevitavelmente apontavam para a figura do Messias Cabe

salientar todavia que o termo ldquoMessiasrdquo deve ser aqui entendido sob uma perspectiva

cristatilde que o vecirc como o salvador enviado cuja vida morte e ressureiccedilatildeo possibilitaram ao

homem acesso agrave presenccedila de Deus

Isso deve ficar claro porquanto para os judeus sua vinda ainda aconteceraacute e essa

perspectiva judaica afeta toda a interpretaccedilatildeo dos textos biacuteblicos Por isso a tipologia soacute

faz sentido para os cristatildeos por crerem no ldquoMessias que jaacute veiordquo

3 REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NA OFERTAS VOLITIVAS E COMPULSOacuteRIAS

O livro de Leviacutetico menciona basicamente dois ldquotiposrdquo de ofertas volitivas e

compulsoacuterias Chamamos de ofertas volitivas aquelas que o adorador oferecesse ao Senhor

espontaneamente As compulsoacuterias satildeo aquelas que natildeo dependiam da vontade do

indiviacuteduo oferececirc-las e estavam correlacionadas a pecados cometidos de forma geneacuterica

31 - As ofertas volitivas

311 - Os Holocaustos

A oferta de holocausto eacute regulamentada principalmente no capitulo primeiro de

Leviacutetico A expressatildeo () quando algum de voacutes oferecerdes oferta ao Senhor ()

(BIacuteBLIA ARA Leviacutetico 12) determina que essa era uma oferta voluntaacuteria Essas ofertas

eram feitas como agradecimento louvor e dedicaccedilatildeo a Deus

Jaacute a oferta de cerais tem sua regulamentaccedilatildeo no capiacutetulo dois Podemos ainda

estabelecer duas subdivisotildees para as ofertas voluntaacuterias cruentas e natildeo cruentas ou seja

com sangue e sem sangue Enquadram-se no primeiro caso as ofertas de animais e no

segundo as de manjares Analisemos entatildeo essas ofertas e suas tipologias ainda que de

forma sucinta

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312 - Exigecircncias para o Holocausto

Para o oferecimento dos holocaustos certas exigecircncias eram feitas

Em primeiro lugar cada pessoa dependendo do seu poder aquisitivo deveria

ofertar animais das classes dos bovinos ovinos caprinos cerviacutedeos e paacutessaros No caso

deste uacuteltimo grupo pombas e rolinhas eram as mais ofertadas Uma das exigecircncias para o

holocausto desses animais era que eles fossem machos - por ser o reprodutor era mais caro

- e sem defeito (Lv 13) Eles tambeacutem deveriam fazer parte dos animais tidos como puros

(Lv 11) Em Leviacutetico 2221-24 encontramos a descriccedilatildeo de algumas deformaccedilotildees e

doenccedilas natildeo aceitaacuteveis nos animais separados para sacrifiacutecios ao Senhor (Ml 17-14)

O ofertante caso quisesse ter o seu sacrifiacutecio aceito por Deus deveria seguir sem

questionar o ritual determinado Era Deus que ditava as regras para a aceitaccedilatildeo do homem

e de seu sacrifiacutecio natildeo o inverso A loacutegica existente nessas exigecircncias era qualquer que

quiser aproximar-se de Deus deveria fazecirc-lo por regras providenciadas unicamente por

Deus e natildeo por meacuteritos humanos Encontramos essa loacutegica divina na expressatildeo ldquo() para

que o homem seja aceito perante o SENHORrdquo (BIacuteBLIA ARA Leviacutetico 13)

A ideia primaacuteria e mais literal contidas nessas exigecircncias era a de que Deus exige

o melhor e mais puro para ser a Ele sacrificado Secundariamente encontramos a tipologia

nas entrelinhas dessas exigecircncias pois no Novo Testamento vaacuterios textos apresentam

Jesus como o sacrifico perfeito e imaculado entregue a Deus voluntariamente (Jo 129 At

832 1Pe 119-20 Hb 726 Is 539 Jo 846 2Co 521 1Pe 222 1 Jo 35) Conforme eacute

possiacutevel notar haacute uma correlaccedilatildeo muito forte entre as exigecircncias de Deus para os animais

ofertados no Velho Testamento e a oferta definitiva e perfeita de Cristo descrita nas

paacuteginas do Novo Testamento

A segunda exigecircncia eacute apoacutes o cumprimento dos requisitos de qualidade o animal

seria conduzido pelo ofertante ao tabernaacuteculo para ser sacrificado Nesse ritual sacrificial

o ofertante deveria colocar suas matildeos sobre a cabeccedila do animal cujo ato simbolizava a

transferecircncia de pecado do transgressor para o inocente O simbolismo aqui posto eacute na

teologia denominada de ldquosubstituiccedilatildeordquo O inocente carrega sobre si a culpa do

transgressor deixando-o livre de sua diacutevida Ainda que essa ideia seja mais contundente

nas ofertas pelo pecado e pela culpa no holocausto ela tambeacutem aparece

Eacute dito em Isaiacuteas 53 que o Messias levaria sobre si os pecados dos transgressores

Ao morrer em nosso lugar Ele pagou o preccedilo do nosso deacutebito para com Deus tornando-

nos inculpaacuteveis diante Dele (Is 535-6 Is 5311-12 Mt 817 Gl 313 Hb 928 1Pe 224

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1Pe 318 1Jo 22) Da mesma forma que o inocente animal recebia a pena capital com o

intuito de que o pecador recebesse o favor divino semelhantemente Cristo tambeacutem a

recebeu a fim de que a graccedila de Deus pudesse ser alcanccedilada pelo homem

O capiacutetulo primeiro de Leviacutetico estabelece regras sequenciais para o holocausto

atribuindo responsabilidades ao ofertante e ao sacerdote Ao ofertante caberia a escolha do

animal conduccedilatildeo ateacute o altar de sacrifiacutecio imposiccedilatildeo das matildeos sobre ele a morte do animal

atraveacutes da degola a retirada do couro divisatildeo em partes do corpo lavagem dos miuacutedos e

das pernas Jaacute os sacerdotes tinham a funccedilatildeo exclusiva de recolher o sangue do animal a

ser oferecido em holocausto aspergi-lo sobre o altar arrumar a lenha no altar e sobre ele

colocar as partes cortadas do animal que seriam totalmente consumidas pelas chamas

A aplicaccedilatildeo tipoloacutegica desse ritual encontra-se na obrigatoriedade do pecador

sentir o peso da responsabilidade das suas transgressotildees pois ele ouvia o balir angustiante

de um cordeiro e via o seu sangue esvair-se lentamente

O sofrimento do animal e sua consequente morte era uma forma da pedagogia

divina mostrar ao homem que mesmo as ofertas voluntaacuterias recebidas por Deus tinham

custado um alto preccedilo (1Pe 118-19)

Somente os sacerdotes poderiam oferecer os sacrifiacutecios no altar dos holocaustos

Nenhum outro poderia fazer a mediaccedilatildeo entre Deus e os homens Esse ensino estava

subentendido na ordenanccedila de que a ministraccedilatildeo no altar era funccedilatildeo exclusiva do

sacerdote Foi Deus que escolheu a famiacutelia de Aratildeo e nenhum outro poderia fazer a

mediaccedilatildeo Jesus nosso sumo sacerdote por excelecircncia eacute o uacutenico mediador e fora Dele

natildeo haacute outro (At 412 1Tm 25)

O animal depois de morto era totalmente queimado sobre o altar - exceccedilatildeo feita

ao couro - recebendo assim o juiacutezo de Deus impliacutecito na sua morte e nas chamas do fogo

O altar de bronze era como eacute consenso entre os estudiosos siacutembolo da cruz ou seja o

local do julgamento do Messias As lacircminas de bronze que revestiam a segunda camada

desse altar foram feitas dos incensaacuterios daqueles que receberam o juiacutezo de Deus (Nm 16)

Por fim o ultimo criteacuterio consistia sob o sangue do animal que era aspergido

sobre o altar cuja finalidade era expiar e purificar o ofertante Assim diz certo estudioso

das Escrituras

Os povos antigos criam que o sangue das viacutetimas tinha poderes maacutegicos

transmissores de vida e tambeacutem que ao ser derramado sobre o altar de alguma

divindade adquiria parte das virtudes daquela divindade Quando esse sangue

tocava em qualquer coisa esses poderes seriam transferidos para o altar ou para

os indiviacuteduos que tocassem no sangue ou sobre quem o sangue fosse aspergido

Exatamente por isso havia batismos em sangue como tambeacutem havia sacrifiacutecios

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cruentos com o propoacutesito de fazer expiaccedilatildeo e purificaccedilatildeo pelos pecados

Sabemos que os antigos hebreus compartilhavam de alguns desses conceitos

ainda que agora os consideremos supersticiosos (CHAMPLIN p 656)

Vecirc-se pelos dados acima mencionados que o sangue natildeo era considerado pelos

antigos como um simples liquido vermelho correndo pelo corpo humano Ele estava ligado

agrave divindade e portanto podia transmitir vida O proacuteprio Deus orientou a Moiseacutes a ter o

sangue na mais alta estima condenando agrave pena de morte qualquer que o profanasse O

sangue para os filhos de Israel deveria ser constantemente associado agrave vida e com

ldquopoderesrdquo de expiar os pecados dos homens (Lv 1711)

Todas essas questotildees relacionadas aos sacriacuteficios de animais apontam

inexoravelmente para a obra perfeita de Cristo na cruz do Calvaacuterio As sombras dos

sacrifiacutecios expiatoacuterios leviacuteticos apontavam para uma realidade maior e mais perfeita

encontrada no sacrifiacutecio de Cristo Jesus eacute tipologicamente o cordeiro de Deus que expia

o pecado no Velho Testamento mas tambeacutem eacute agora como realidade no Novo

Testamento A unidade desse tema a respeito da expiaccedilatildeo do pecado mediante o sangue eacute

encontrada do primeiro ao uacuteltimo livro da Santa Escritura

313 - As ofertas de manjares

As ofertas de manjares - ou de cereais - deveriam ser oferecidas com um coraccedilatildeo

voluntarioso e agradecido pelas colheitas feitas O padratildeo de qualidade era requerido tanto

para as ofertas de animais (ofertas cruentas) bem como para as ofertas de cereais (ofertas

natildeo cruentas) Essas duas ofertas (cruentas e natildeo cruentas) estatildeo representadas nas ofertas

feitas por Abel e Caim (Gn 43-4)

Para se ter ideia do grau de exigecircncia para a oferenda de cereais a farinha a ser

oferecida e os produtos dela derivados deveriam ser a solet ou ldquoflor de farinhardquo Segundo

se sabe doze ou treze peneiras eram utilizadas no processo de obtenccedilatildeo da mais pura

farinha o que demostra o grau de qualidade exigida na oferta de manjares

A oferta de cereal acompanhava o holocausto voluntaacuterio de gado (Nm 153-4 2

Rs 1613) Poreacutem em outras situaccedilotildees as ofertas de cereais eram ofertadas sozinhas (Lv

614-18 2315 16 Nm 515 2826)

Trecircs eram os ingredientes que compunham a oferta de manjares quando essa

estivesse crua flor de farinha azeite e incenso (Lv 21-3) Se a oferta estivesse assada

deveria conter azeite (Lv 24-5) bem como se estivesse cozida (Lv 27)

O patildeo passou a fazer parte da dieta diaacuteria judaica apoacutes a entrada do povo na Terra

Prometida Na peregrinaccedilatildeo no deserto o manaacute fez parte de sua alimentaccedilatildeo por quarenta

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anos Assim a farinha o patildeo e o manaacute serviram como ldquotiposrdquo de Cristo na medida em que

Ele mesmo se identifica como o ldquopatildeo vivo que desceu do ceacuteurdquo (Jo 648-58)

314 - As ofertas de comunhatildeo ou ofertas pacificas As ofertas de comunhatildeo ou tambeacutem conhecidas como ofertas paciacuteficas oferecem

uma rica tipologia revelando a restauraccedilatildeo da comunhatildeo do homem com Deus perdida

desde o pecado no Eacuteden A voluntariedade tambeacutem caracterizava essa oferta sendo elas

oferecidas em determinadas ocasiotildees nas manifestaccedilotildees divinas (Lv 94-518) apoacutes

cumprimentos de promessas divinas (Dt 271-7) por ocasiatildeo da consagraccedilatildeo de reis (1Sm

1115) em comemoraccedilatildeo pela recuperaccedilatildeo de utensiacutelios sagrados (2 Sm 618) cessaccedilatildeo de

pragas (2 Sm 2425) banquetes relacionados agraves questotildees espirituais (1 Rs 315)

consagraccedilatildeo do templo (1 Rs 863 925)

A oferta paciacutefica ou de comunhatildeo traz a ideia de comunhatildeo existente entre Deus

e os homens Na ocasiatildeo dessa oferenda o peito e a coxa deveriam ser dados para o

sustento dos sacerdotes e levitas Enquanto que na oferta de holocausto quase tudo era

queimado na oferta paciacutefica somente as gorduras eram oferecidas sobre o altar e o

restante das partes do animal era divido entre os sacerdotes e o ofertante Nessas refeiccedilotildees

comunais o ofertante juntamente com os sacerdotes fazia um banquete jubiloso porque

criam que Deus tambeacutem estava presente Nessa oferta de comunhatildeo estava selada a paz

entre Deus e o ofertante

Basta uma anaacutelise das figuras que estavam envolvidas nessa oferta para

verificarmos claramente a tipologia nela impliacutecita A paz era selada pois havia a presenccedila

de Deus do sacerdote (mediador) e do ofertante Isso nos remete a mediaccedilatildeo do sumo

sacerdote celestial que atraveacutes de sua oferta sacrificial derrubou a parede de inimizades

existente entre Deus e os homens proporcionando-nos a paz

4 AS OFERTAS COMPULSOacuteRIAS

As ofertas compulsoacuterias eram ofertadas para expiar o pecado e a culpa do

transgressor e oferececirc-las natildeo dependia da sua vontade Caso natildeo quisesse sofrer as

consequecircncias do juiacutezo divino por suas transgressotildees ofertas pelo pecado deveriam ser

oferecidas pelo transgressor Essas ofertas estatildeo regulamentadas nos capiacutetulos 4 a 7 de

Leviacutetico onde as encontramos divididas basicamente em trecircs grupos oferta por

ignoracircncia oferta pelo pecado e oferta pela culpa

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Certa complexidade haacute em diferenciar de forma simples uma oferta da outra mas

de uma forma sintetizada podemos diferenciaacute-las conforme a proacutepria classificaccedilatildeo

mosaica Os textos biacuteblicos natildeo nos fornecem de forma satisfatoacuteria elementos para que

possamos fazer uma diferenciaccedilatildeo precisa de uma oferta para outra

41 - Ofertas pelos pecados cometidos por ignoracircncia

O termo ignoracircncia (hb segaga) natildeo pode ser confundido com desconhecimento

da lei mosaica Os pecados a serem expiados por esse tipo de oferta eram aqueles que o

transgressor cometia de forma natildeo intencional (Lv 42) A ldquointenccedilatildeordquo aqui deve ser

entendida como ldquode forma natildeo desafiadorardquo isto eacute contrariando as leis divinas de modo a

desprezar a Deus e sua palavra Para esses natildeo havia expiaccedilatildeo

Os pecados cometidos por ignoracircncia estavam classificados no rol daqueles que o

transgressor cometia inadvertidamente ou inconscientemente como por exemplo tocar em

restos mortais sem que disso tivesse conhecimento Tambeacutem se enquadra aqueles

cometidos por conta da natureza caiacuteda do homem e sua consequente inclinaccedilatildeo para o

pecado Independente se o pecado havia sido cometido inconscientemente ou por conta da

inclinaccedilatildeo pecaminosa o homem tornar-se-ia culpado diante do Deus Santo necessitando

assim da expiaccedilatildeo do seu pecado

A expiaccedilatildeo para essa classe de pecados deveria obedecer a alguns criteacuterios

estabelecidos Sacerdotes priacutencipes a comunidade em geral e o indiviacuteduo em particular

deveriam oferecer sacrifiacutecios Para cada um desses grupos um animal especifico deveria

ser ofertado

42 - Oferta pela culpa ou restituiccedilatildeo

Esse tipo de oferta pela culpa (hb asham) era realizada nas ocasiotildees em que a

transgressatildeo fosse cometida em relaccedilatildeo ao proacuteximo Nesse caso deveria haver entatildeo uma

restituiccedilatildeo do ofensor para o ofendido Por envolver questotildees monetaacuterias como forma de

reparaccedilatildeo essa oferta tambeacutem era conhecida como oferta de restituiccedilatildeo

Logicamente por ser o homem a imagem e semelhanccedila de Deus qualquer

transgressatildeo cometida contra aquele ofendia Este Assim antes mesmo de tentar reatar o

seu relacionamento com Deus o pecador deveria estabelecer a comunhatildeo perdida com o

ofendido Se natildeo houvesse expiaccedilatildeo a culpa permaneceria e o juiacutezo divino certamente

recairia sobre o ofensor

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43 - Oferta pelo pecado ou de purificaccedilatildeo

Haacute entre os eruditos certa dificuldade para entender a que tipo de pecado essa

oferta faz referecircncia A ligaccedilatildeo dos dois substantivos (ldquooferta pelo pecadordquo) sugerem eles

parece indicar que os pecadores deveriam lidar com seus pecados mediante a oferta de

sacrifiacutecios Ao pecar necessariamente o transgressor deveria associar a ideia dual de

ldquopecado necessita de ofertardquo

Outra ideia impliacutecita na oferta pelo pecado (hb hattarsquot) eacute a de purificaccedilatildeo O

pecado -atraveacutes do pecador - contaminava o ambiente sagrado tornando-o improacuteprio para

a presenccedila de Deus Por esse motivo o sangue dessa oferta era aspergido sobre os altares

o propiciatoacuterio e dentro do Santo dos Santos A purificaccedilatildeo mediante o sangue era

necessaacuteria para a manifestaccedilatildeo da presenccedila divina Esse ato de purgar deu tambeacutem a essa

oferta o nome de ldquooferta de purificaccedilatildeordquo

Temos dois fatores de suma importacircncia no processo de salvaccedilatildeo expiaccedilatildeo e

purificaccedilatildeo Sem a expiaccedilatildeo o homem permanece separado de Deus e sem a purificaccedilatildeo eacute

impedido de receber sua presenccedila Esse duplo processo soacute poderia ser realizado mediante o

derramamento de sangue inocente e com a indispensaacutevel presenccedila do sacerdote mediador

44 - Aplicaccedilatildeo tipoloacutegica das ofertas

Para todas essas ofertas volitivas e compulsoacuterias a qualidade era imprescindiacutevel

A expiaccedilatildeo pelo sangue era o elemento comum que as unificava Desde um touro oferecido

pelo sacerdote em favor de seus proacuteprios pecados ateacute um pombo ofertado pelos mais

pobres eram recebidos por Deus como sacrifiacutecio substitutivo com o poder de expiar e

purificar ainda que de forma provisoacuteria

O estudo da lei mosaica nos leva a concluir que havia a possibilidade de oferendas

e sacrifiacutecios expiatoacuterios para todos os pecados com exceccedilatildeo daqueles cometidos de forma

que desafiassem a Deus e a sua palavra Esse tipo de pecado era fruto de um coraccedilatildeo

impenitente que desobedecia propositalmente aos mandamentos divinos O Novo

Testamento demonstra de forma inequiacutevoca que o sacrifiacutecio de Cristo tem suficiecircncia para

perdatildeo de todos os pecados no tempo e no espaccedilo A uacutenica exceccedilatildeo feita a essa regra eacute a

blasfecircmia contra o Santo Espiacuterito (Mt 1232 Lc 1210)

Todas essas variedades de ofertas e as mais diversas classes de animais bem

como os rituais diaacuterios tinham a intenccedilatildeo de revelar a necessidade do Messias que com

um uacutenico sacrifiacutecio expiatoacuterio anularia os efeitos do pecado sobre os homens que nele

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cressem Jesus na cruz fez a oferta de si mesmo a Deus uma uacutenica vez e com a eficaacutecia

eterna para perdatildeo de todas as variedades de pecados que a lei classificava mas natildeo dava a

soluccedilatildeo definitiva

O sangue de bovinos caprinos ovinos e aves eram apenas uma paacutelida sombra que

apenas cobria os pecados conscientes ou inconscientes voluntaacuterios ou involuntaacuterios Por

sua ineficaacutecia a expiaccedilatildeo limitava-se a indiviacuteduos ou grupos de indiviacuteduos e seu alcance

era temporal pois tinha eficaacutecia somente em um periacuteodo especifico O sangue de Cristo

entretanto como nos atesta o Novo Testamento atua de forma ilimitada sendo tambeacutem

atemporal (Hb 913-15 104)

A nossa limitaccedilatildeo nos permite apenas olhar o sacrifiacutecio vicaacuterio do Cristo de forma

progressiva na revelaccedilatildeo biacuteblica mas com o Eterno tal natildeo se sucede visto ter Ele os

atributos incomunicaacuteveis da onisciecircncia e presciecircncia (At 223 1Pe 12) Portanto ao

perdoar as transgressotildees com base no sangue de animais na verdade Ele via

antecipadamente o sacrifiacutecio de Cristo sendo realizado

O homem olha a revelaccedilatildeo progressiva da salvaccedilatildeo poreacutem o Deus Eterno a vecirc na

totalidade A cruz na perspectiva divina sempre esteve no Velho Testamento pois ela

considerando uma progressatildeo histoacuterica eacute antes dele O Messias ainda que de forma

velada sempre esteve laacute como nos atestam as seguintes passagens biblicas 2Tmt 11 2T

19 Ap 178 Pv 823-31 Mt 2534 Jo 1724 At 1518 Rm 1625 1Pe 120-23 Ap 138

5 OS SACERDOTES E O SUMO SACERDOTE

51 - A mediaccedilatildeo

As ofertas cuja funccedilatildeo era expiar o pecado conforme jaacute vimos tipificavam o

sacrifiacutecio perfeito e final do Messias Eram apenas sombras indicativas de algo superior

que foi revelado atraveacutes de Jesus e sistematizado nos vinte e nove livros que compotildee o

Novo Testamento (Hb 85 99 23-24 101 Cl 217)

Essas ofertas soacute poderiam ser aceitas por Deus caso houvesse um mediador que as

oferecesse Nesse cenaacuterio entra a figura do sacerdote e do sumo sacerdote que tipificavam

o sacerdoacutecio eterno do Messias Muitos satildeo os detalhes que vinculam o sacerdoacutecio terreno

com a obra mediadora do Messias Visto que nosso espaccedilo eacute limitado pela natureza desse

artigo faremos apenas algumas correspondecircncias entre o sacerdoacutecio humano e o

sacerdoacutecio celestial de Cristo

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52 - A unccedilatildeo e a pureza

O capiacutetulo oito de Leviacutetico descreve a consagraccedilatildeo de Aratildeo como sumo sacerdote

e de seus filhos como sacerdotes O oacuteleo da unccedilatildeo - siacutembolo do Espiacuterito Santo - foi

derramado sobre ele - tipo de Jesus - para exercer sua funccedilatildeo em favor dos fracos e

ignorantes (Hb 51-10) O Velho e o Novo Testamento apresentam Jesus como o ungido de

Deus sobre o qual foi derramado o Espiacuterito Santo para libertar os cativos do pecado

Somente eles poderiam fazer mediaccedilatildeo pelo povo da mesma forma que natildeo haacute

outro mediador entre Deus e os homens a natildeo ser Jesus (At 412 1 Tm 25 Hb 725 86

915 1224) Conforme nos atestam alguns versos biacuteblicos qualquer pessoa que tentasse

usurpar a funccedilatildeo sacerdotal receberia a pena capital (Nm 310 38 1640 185-7) Assim

tipologicamente falando excluindo-se a pessoa de Jesus qualquer outro mediador diante

de Deus estaacute morto

O sacerdote deveria antes de oferecer qualquer sacrifiacutecio banhar-se na bacia de

bronze localizada no aacutetrio do tabernaacuteculo (Lv 86) Esse ritual continha a ideia de

purificaccedilatildeo pois o sacerdote que oferecesse o sacrifiacutecio deveria estar puro diante de Deus

Qualquer oficiante do tabernaacuteculo que natildeo se lavasse ou natildeo fizesse os cerimoniais

prescritos na lei deveria seria morto (Ecircx 3018-21)

Esse simbolismo eacute perfeito quando comparado a situaccedilatildeo do pecador diante do

Deus Santo Qualquer transgressor que Dele se aproximar sem estar puro receberaacute o

salaacuterio do pecado isto eacute a morte eterna

53 - As vestimentas sacerdotais e os rituais de purificaccedilatildeo

Associada com a ideia de santidade havia uma lacircmina de ouro posta no turbante

do sumo sacerdote com a inscriccedilatildeo ldquoSantidade ao Senhorrdquo (Ecircx 2836 Lv 89) Essa lacircmina

representava o elevado grau de santidade que o sumo sacerdote deveria ter por se

apresentar diante de Deus para expiar os pecados do povo Outra peccedila que compunha o

vestuaacuterio da classe sacerdotal era a estola feita de linho fino branco indicativo na Biacuteblia de

pureza e santidade (Ecircx 2839 87)

Toda o ritual de purificaccedilatildeo e as vestimentas apontavam para a santidade do

sacerdote que por sua vez tipificava a santidade do sumo sacerdote celestial que em tudo

foi tentado poreacutem sem pecado (Hb 726 Is 539 Jo 846 2Co 521 1Pe 222 1 Jo 35)

No ritual de purificaccedilatildeo dos contaminados por lepra e liacutequidos corporais descrito

nos capiacutetulos 11 a 15 de Leviacutetico o sacerdote figurava como a personagem principal pois

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sem ele o processo de purificaccedilatildeo natildeo poderia ser finalizado Vemos entatildeo uma dupla

funccedilatildeo sacerdotal o que mediava e o que purificava Na pessoa de Jesus cumpriu-se esse

duplo tipo sacerdotal pois o Novo Testamento atribui a ele a funccedilatildeo de mediador e

purificador

Qualquer judeu por mais simples que fosse entenderia a mensagem espiritual

profunda que havia no ritual de purificaccedilatildeo e nas roupas sacerdotais E qual seria essa

mensagem A resposta simples eacute antes mesmo de se aproximar de um Deus Santo com

sacrifiacutecio havia a necessidade imperiosa de purificar-se Primeiro se purifica Depois a

Ele oferece-se sacrifiacutecios de adoraccedilatildeo Purificaccedilatildeo e sacrifiacutecios estatildeo intimamente

interligados conforme jaacute vimos nas ofertas compulsoacuterias E tudo isso soacute seria possiacutevel com

a figura do mediador

Todo o vestuaacuterio do sumo sacerdote tipificava o Messias e seu oficio sacerdotal

Natildeo sendo possiacutevel nesse artigo analisar as minuacutecias de cada uma das peccedilas falaremos

delas de forma geneacuterica Basicamente o eacutefode e o cinto do sumo sacerdote possuiacuteam

quatro cores que apareciam tambeacutem na primeira cortina que cobria o tabernaacuteculo no veacuteu

que separava o lugar santo do santiacutessimo e na cortina de entrada do aacutetrio do tabernaacuteculo O

azul carmesim puacuterpura e branco tipificavam alguns atributos do Messias O azul sua

origem celestial a puacuterpura apontava para sua realeza o branco fala de sua absoluta

pureza e o vermelho do seu sacrifiacutecio expiatoacuterio Somente o Messias Jesus Cristo

apresentou as quatro caracteriacutesticas aceitaacuteveis a Deus Rei que veio do ceacuteu cujo sangue foi

derramado e sobre Ele natildeo pode ser imputado pecado algum

Sobre o eacutefode ficava o peitoral do juiacutezo contendo doze pedras preciosas e em

cada uma delas estava gravada o nome das doze tribos de Israel Essas pedras conforme

determinaccedilatildeo biacuteblica deveriam estar sobre o coraccedilatildeo do sumo sacerdote quando este

oficiasse no tabernaacuteculo Ele tambeacutem carregava sobre os ombros uma pedra preciosa de

cada lado Na primeira eram gravados os nomes de seis tribos de Israel na outra mais seis

tribos Assim o representante dos homens carregava simbolicamente no coraccedilatildeo e nos

ombros toda a naccedilatildeo dos filhos de Israel diante de Deus estando assim toda ela

representada pelas quatorze pedras Assim o sumo sacerdote intercedia por toda a naccedilatildeo

continuamente

Poucos discordariam que a igreja de Cristo assumiu o papel de Israel ainda que

saibamos que esse fato natildeo invalida as promessas de Deus feitas a esse povo Apaziguada

essa questatildeo podemos entatildeo verificar a tipicidade desse peitoral no tocante a figura do

Messias O sumo sacerdote humano carregava sobre o coraccedilatildeo e ombros a naccedilatildeo de

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Israel ao passo que o Messias carrega sobre o coraccedilatildeo e ombros a igreja composta de

pessoas de todas as naccedilotildees (Jo 315 Mt 913 1Tt 115-16 Ap 59 Ap 1211 Hb 1312

1Pe 119)

Esse peitoral dobrado formava uma bolsa que continha duas pedras conhecidas

como Urim e Tumim com as quais se consultavam a vontade de Deus Sacerdotes

profetas Urim e Tumim eram necessaacuterios enquanto o Messias natildeo havia sido revelado

Poreacutem o Messias jaacute veio como a revelaccedilatildeo final de Deus para o homem (Hb 11-

2) Ele eacute a uacutenica verdade e portanto nosso uacutenico guia espiritual (Jo 146) Tal qual o sumo

sacerdote guiava o povo mediante o Urim e Tumim Ele sem fazer uso de qualquer pedra

nos guia mediante o Espirito Santo e as Escrituras sagradas rumo ao ceacuteu (Jo 1426 1613

1Co 210-13 Ef 47-15 1 Jo 220 1 Jo 227)

Mediante essas duas pedras consultava-se a Deus e por elas vinha a resposta

Hoje eacute por intermeacutedio do Cristo revelado nas Escrituras que obtemos a maioria das

respostas para nossas indagaccedilotildees

54 - O Yom Kippur

Ao falarmos das ofertas volitivas e compulsoacuterias alguns paraacutegrafos devem ser

dedicados ao ritual do Yom Kippur cujo cerimonial representava o perdatildeo anual dos

pecados dos filhos de Israel

O Yom Kippur ou Dia do perdatildeo eacute considerado um dos dias mais sagrados do

calendaacuterio judaico Era nesse dia que o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos para

purificar o tabernaacuteculo e oferecer o sacrifiacutecio anual por toda a naccedilatildeo (Lv 166 16 18-19

24) Era um dia de jejum e nenhum trabalho servil deveria ser realizado Era nesse

grandioso dia que o bode expiatoacuterio Azazel tinha de ser enviado ao deserto para longe do

arraial ou das portas de Jerusaleacutem Ele carregava sobre si os pecados de toda a naccedilatildeo e

acabava simbolicamente morrendo por ela Isso por si soacute jaacute configura uma bela

tipologia o cordeiro de Deus sofreu e morreu fora das portas de Jerusaleacutem carregando

sobre si os pecados da humanidade (Mt 1520-24 Jo 1917-18 At 758 Hb 1312)

Ao entrar no Santiacutessimo o sumo sacerdote enchia-o de fumaccedila de incenso para

que a nuvem perfumada ocultasse de seus olhos o propiciatoacuterio local esse considerado

como sendo ldquoo trono de Deusrdquo Ao entrar nesse recinto sagrado o sumo sacerdote deveria

ter em matildeos o sangue para expiar os pecados de toda a naccedilatildeo Fontes extrabiacuteblicas nos

informam sobre o alto grau de relevacircncia desse dia pois era nele que se promulgava certo

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decreto divino sobre quem iraacute viver e quem iraacute morrer quem estaraacute sereno e quem seraacute

perturbado quem seraacute pobre e quem seraacute rico quem seraacute exaltado e quem seraacute humilhado

(KOLATCH p239)

Para estabelecer a rica tipologia encontrada nos ritos desse tatildeo importante dia

basta-nos consultar alguns versos do livro de hebreus que revelam o ofiacutecio sacerdotal de

Cristo (Hb 91-26 217 31 415 55-6 71 11-27 81)

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

A tipologia por ser essencialmente biacuteblica natildeo pode ser desprezada sendo que os

extremos na sua utilizaccedilatildeo devem ser evitados atraveacutes de esforccedilos para encontrar-se uma

posiccedilatildeo moderada Ao nos apossarmos dessa ideia perceberemos o quatildeo proveitoso seraacute o

nosso conhecimento dos ldquotiposrdquo biacuteblicos para a robustez da nossa teologia

A anaacutelise das ofertas volitivas e compulsoacuterias demostram essa verdade na medida

em que as conhecemos de forma mais profunda A partir disso vemos natildeo mais um

emaranhado de ordenanccedilas cerimoniais destituiacutedas de sentido mas profundas liccedilotildees

espirituais acerca da figura central da Biacuteblia Jesus Cristo

Ainda que geraccedilatildeo apoacutes geraccedilatildeo os filhos de Israel matavam os inocentes animais

atraveacutes de sacrifiacutecios e natildeo tinham a plena consciecircncia da magnitude do seu simbolismo

todavia pela feacute sabiam que seus pecados haviam sido expiados As ofertas o sofrimento e

morte dos animais o sangue derramado e a mediaccedilatildeo dos sacerdotes propiciavam um

cenaacuterio pedagoacutegico riquiacutessimo mediante a qual todos aprendiam acerca do plano divino da

redenccedilatildeo Negar isso eacute negar a proacutepria Escritura

Os escritores do Novo Testamento empreenderam grandes esforccedilos para elaborar

suas doutrinas com base no entendimento que tinham do Velho Testamento pois era esse

que testificava acerca do Messias Ele mesmo nos seus ensinamentos citou por diversas

vezes as Escrituras veterotestamentaacuterias Era o antiacutetipo em carne e osso explicando aos

disciacutepulos toda a tipologia que Nele encontrava a plena realizaccedilatildeo Assim quando os

escritores neotestamentaacuterios analisavam as ofertas volitivas e compulsoacuterias encontravam

nelas revelado o Messias de Israel

As ldquosombrasrdquo tiveram o seu valor ateacute a chegada da realidade isto eacute Cristo Ele eacute

a revelaccedilatildeo final de Deus pois posteriormente ao brado ldquoestaacute consumadordquo o veacuteu foi

rasgado e o acesso pleno a Deus liberado As ofertas volitivas e compulsoacuterias natildeo satildeo mais

necessaacuterias pois aquele para quem elas apontavam as substituiu satisfez a justiccedila divina e

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reconciliou o homem com Deus Cabe-nos empreendermos esforccedilos com a finalidade uacutenica

de conhecer mais detalhadamente as ofertas volitivas e compulsoacuterias E assim ter uma

percepccedilatildeo mais niacutetida de que o mesmo Deus que instituiu os ldquotiposrdquo eacute o mesmo que os

tornou realidade na pessoa do Messias Jesus Cristo

REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS

ASHERI Michael O Judaiacutesmo Vivo as tradiccedilotildees e as leis dos judeus praticantes

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1982

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Cultura Cristatilde 1983

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SCHULTZ Samuel J A Histoacuteria de Israel no Antigo Testamento 1ordf ed Satildeo

Paulo Vida Nova 1977

JEREMIAS Joachim Jerusaleacutem no tempo de Jesus Satildeo Paulo Paulus 1983

JOSEFO Flaacutevio Histoacuteria dos Hebreus 8ordf ed Rio de Janeiro CPAD 2004

KOLATCH Alfred J Livro Judaico dos porquecircs Satildeo Paulo Sefer 2007

KOLUTCH Alfred J 2ordm Livro Judaico dos Porquecircs 2ordf ed Satildeo Paulo Secircfer 2003

MOREIRA Odilon S Comentaacuterio de Leviacutetico Versiacuteculo por Versiacuteculo 2ordf ed Satildeo

Paulo Querigma 2020

ZUCK Roy B A interpretaccedilatildeo biacuteblica meios de descobrir a Verdade da Biacuteblia

Satildeo Paulo Vida Nova 1994

Autor ndash Bacharel em Teologia

Prof Odilon Soares Moreira

Bacharel em Teologia pela Faculdade

Beth Shalom e licenciado em Filosofia

pela Universidade Metodista de Satildeo

Paulo

E-mail odilonmoreira13hotmailcom

Page 3: REVISTA CIENTÍFICA AMALIE · 2020. 7. 6. · REVELAÇÃO MESSIÂNICA NO LIVRO DE LEVÍTICO AMALIE REVISTA CIENTÍFICA . ... Idiomas: Aceitos artigos escritos em português, espanhol

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CORPO EDITORIAL

Direccedilatildeo Cientifica Intelectual Reitora Dra Arleide Braga Poacutes-Doutora em Direito Constitucional pela Universitaacute degli Studi di Messina ndash Itaacutelia

Doutora em Ciecircncias Juriacutedicas e Sociais pela Universidad del Museo Social Argentino ndash UMSA ndash Bs

As | ARG

Doutora em Ciecircncias Sociais pela PUC | SP

Mestre em Direito pela Universidade Metropolitana de Santos | SP ndash UNIMES

Poacutes-Graduada em Direito Previdenciaacuterio e Direito do Trabalho pela Universidade Gama Filho | RJ

Graduada em Letras (Licenciatura) pelo Centro Universitaacuterio de Santo Andreacute | SP

Presidente da Comissatildeo de Direito Previdenciaacuterio da OAB ndash Santo Andreacute | SP ndash Triecircnio 20162018

Diretora Estrateacutegica Dra Karina Costa Braga

Mestre em Direito - PUC | SP

Diretora Institucional da Faculdade de Tecnologia Jardim ndash FATEJ e da Faculdade de Direito Santo

Andreacute ndash FADISA em Santo Andreacute | SP

Diretora e Procuradora Dra Karen Costa Braga

Mestre em Direito - PUC | SP

Procuradora Institucional Coordenadora Administrativa do Departamento de Poacutes-Graduaccedilatildeo da

Faculdade de Tecnologia Jardim e da Faculdade de Direito Santo Andreacute ndash FADISA em Santo Andreacute |

SP

Diretor Acadecircmico Institucional Dr Mauriacutecio Tintori Piqueira

Doutor em Ciecircncias Sociais Mestre em Histoacuteria PUC-SP

Editor

Me Marcelo Alves Dantas

Periodicidade da Publicaccedilatildeo

Semestral

CAPA

Marcos Camilo Santana

Idiomas Aceitos artigos escritos em portuguecircs espanhol e inglecircs

AUTOR CORPORATIVO

Faculdade de Tecnologia Jardim - FATEJ

Faculdade de Direito Santo Andreacute - FADISA

Campus I - R Almirante Protoacutegenes 44 - B Jardim - Santo Andreacute - SP CEP 09090-760

(11) 4436-6489 | (11) 4992-3822

(11) 95238-4306 | (11) 99891-4846

1 Religiatildeo 2 Teologia Criacutetica 3 Histoacuteria ndash CDD 22067

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SUMAacuteRIO

O LIVRO DE JOacute O CONTRATO COM DEUS E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA 6

1 UM LIVRO ATEMPORAL 7 2 O PROMOTOR ACUSADOR DE JOacute E O ENTRELACcedilAMENTO DAS IDEIAS DE RETRIBUICcedilAtildeO E CONTRATO 8

3 O DESEJO DE JOacute E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA 12 4 O ENCONTRO RESTAURATIVO DE JOacute E IAWEH 14

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 17 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 18

A CONTRIBUICcedilAtildeO DOS MANUSCRITOS DE QUMRAN PARA EXEGESE DO

APOCALIPSE DE JOAtildeO 20 APOCALIPSE 51-14 ndash O CAcircNTICO CERIMONIAL DA CELEBRACcedilAtildeO DO SACERDOacuteCIO UNIVERSAL DE JESUS Agrave LUZ DAS TRADICcedilOtildeES DO MISTICISMO

JUDAICO - UMA EXEGESE CONTEMPORAcircNEA 20 INTRODUCcedilAtildeO 22

1INTRODUCcedilAtildeO AO MISTICISMO JUDAICO - ldquoANAacuteLISE DOS TEXTOS FUNDANTESrdquo 23 11 ndash Isaiacuteas Cap 6 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 23

12 ndash Ezequiel Cap 1 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 25 13 ndash I Enoque Cap 14 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 27

14 - Daniel (79-14) e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 28 2 Apocalipse 51-14 ndash O Cacircntico Cerimonial da Celebraccedilatildeo do Sacerdoacutecio Universal de Jesus agrave Luz das Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico - Uma Exegese Contemporacircnea 30

21 - O Misticismo Judaico e Apocaliacuteptico em (Apocalipse 51-14) 34 CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 44

REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 46

A TERCEIRIZACcedilAtildeO DA FEacute NOS TEMPOS DE PANDEMIA E ISOLAMENTO SOCIAL O SURGIMENTO DO ldquoPERSONAL PROFECTrdquo ndash E AS CRISES DE

ESPIRITUALIDADE 53 INTRODUCcedilAtildeO 54 1OUTROS PROBLEMAS INFLUENCIANDO A ESPIRITUALIDADE NO TEMPO DE

ISOLAMENTO SOCIAL DO ATEIacuteSMO CETICISMO OU UMA BUSCA MAL DIRECIONADA DA ESPIRITUALIDADE PODERAtildeO INFLUENCIAR AS RELACcedilOtildeES

DE FEacute 55 2VIVEMOS - ldquoUMA NOVA FEacute PARA UM NOVO TEMPOrdquo ONDE VERIFICAMOS COMO COMPREENDER A FEacute E SUAS APLICACcedilOtildeES COMO VIVENCIAR A FEacute NA

ATUALIDADE 56 3HOJE Eacute PRECISO RESSIGNIFICAR ALGUNS CONCEITOS SOBRE A FEacute 57

4QUAL A MENSAGEM OU CONSELHO SOBRE O VIVER UM CRISTIANISMO COERENTE QUE SOBREVIVA A ISOLAMENTOS SOCIAIS E PANDEMIAS 59

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 62 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 63

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O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO 67 INTRODUCcedilAtildeO 68

1 EM BUSCA DO CENAacuteRIO HISTOacuteRICO68 2 A EXPANSAtildeO DA FEacute CRISTAtilde69

3 DE PEDRO A PAULO (EXPANSAtildeO DA OBRA DE MISSOtildeES)69 4 O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO72 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 73

REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NO LIVRO DE LEVIacuteTICO 74 INTRODUCcedilAtildeO 75 1 TIPOLOGIA 76

11 - Definiccedilatildeo de tipologia77 12 - A tipologia como ferramenta da hermenecircutica 77

13 - As Escrituras e a tipologia77 14 - A tipologia e as correntes teoloacutegicas78 141- ldquotiposrdquo natildeo ratificados pelo Novo Testamento 79

142 - Siacutembolos ratificados pelo Novo Testamento 80 142 - Corrente intermediaacuteria ldquotiposrdquo expliacutecitos e impliacutecitos 81

2 ESTABELECIMENTO DA CORRENTE INTERPRETATIVA81 3 REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NA OFERTAS VOLITIVAS E COMPULSOacuteRIAS 82

31 - As ofertas volitivas 82 311 - Os Holocaustos 82

312 - Exigecircncias para o Holocausto 83 313 - As ofertas de manjares 85 314 - As ofertas de comunhatildeo ou ofertas pacificas 86

4 AS OFERTAS COMPULSOacuteRIAS86 41 - Ofertas pelos pecados cometidos por ignoracircncia87

42 - Oferta pela culpa ou restituiccedilatildeo 87 43 - Oferta pelo pecado ou de purificaccedilatildeo 88 44 - Aplicaccedilatildeo tipoloacutegica das ofertas 88

5 OS SACERDOTES E O SUMO SACERDOTE89 51 - A mediaccedilatildeo 89

52 - A unccedilatildeo e a pureza 90 53 - As vestimentas sacerdotais e os rituais de purificaccedilatildeo 90 54 - O Yom Kippur92

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 93 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 94

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O LIVRO DE JOacute O CONTRATO COM DEUS E A JUSTICcedilA

RESTAURATIVA1

RESUMO

O presente artigo escrito durante a pandemia da COVID-19 tem o intuito de relembrar a

histoacuteria de Joacute Partindo de uma perspectiva interdisciplinar entre Teologia e Direito

analisam-se as diferentes visotildees de Justiccedila contidas no Livro de Joacute Pretende-se

demonstrar a prevalecircncia da ideia de justiccedila restaurativa em detrimento das concepccedilotildees de

justiccedila retributiva (ligada ao tema do castigo divino) e contratualista (ligada ao tema da

teologia da prosperidade)

Palavras-chave Livro de Joacute Justiccedila retributiva Contrato Justiccedila restaurativa

ABSTRACT

This article written during the pandemic of COVID-19 is intended to recall Jobs story

Starting from an interdisciplinary perspective between theology and law the different

views of justice contained in the Book of Job are analyzed It is intended to demonstrate

the prevalence of the idea of restorative justice instead of the concepts of retributive

justice (linked to the theme of divine punishment) and contractualist (linked to the theme

of prosperity theology)

Key words Book of Job Retributive justice Contract Restorative justice

1 Doutor em Direito Penal pela Universidade de Satildeo Paulo Juiz Federal e Professor de Direito Penal da

FADISA

autor

Excelentissiacutemo Juiz Federal

Dr Paulo Bueno de Azevedo

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1 UM LIVRO ATEMPORAL

O presente artigo eacute escrito durante um periacuteodo turbulento certamente ineacutedito para

muitos de noacutes embora natildeo seja o primeiro evento da espeacutecie em nosso planeta A

pandemia da COVID (Corona virus Disease) -19 tal como outras doenccedilas no passado

(peste negra gripe espanhola etc) ainda estaacute causando milhares de mortes no mundo

todo forccedilando medidas eneacutergicas de isolamento social levando muitos ao desemprego agrave

falecircncia e agrave desesperanccedila

Neste cenaacuterio alguns ousam perguntar onde estaacute Deus Por que Deus esconde sua

face nesse momento Jaacute outros enxergam o sinal do fim dos tempos a puniccedilatildeo divina

decorrente dos pecados humanos E haacute ainda quem reforce a sua descrenccedila se Deus

existisse mesmo nada disso poderia ocorrer Enfim num momento tatildeo difiacutecil a

desesperanccedila a raiva e a incerteza encontram terreno feacutertil para disseminaccedilatildeo As

muacuteltiplas vozes se chocam e a feacute arrefece

Na verdade tais anguacutestias vecircm de certas concepccedilotildees que as pessoas tecircm de Deus

as quais por sinal estatildeo profundamente entrelaccediladas com pensamentos juriacutedicos A ideia

do castigo vem do tirociacutenio que invoca a justiccedila retributiva divina Jaacute o pensar que Deus

natildeo poderia permitir tais cataacutestrofes parece traduzir uma espeacutecie de obrigaccedilatildeo do Senhor

para com a humanidade E se existisse mesmo tal obrigaccedilatildeo quem poderia levar Deus ao

tribunal para que fosse compelido a cumprir esse contrato

O problema parece insoluacutevel pois quer se trate da puniccedilatildeo quer de um contrato

descumprido ningueacutem poderia confrontar o Criador em juiacutezo Ou poderia O desespero eacute

atual no entanto a histoacuteria eacute antiga Haacute milhares de anos foi retratada no Livro de Joacute A

autoria desse livro que compotildee o Antigo Testamento da Biacuteblia eacute desconhecida e existem

muitas duacutevidas sobre possiacuteveis trechos inseridos ou modificados a posteriori Imaginaria o

seu autor (ou sua autora2) que sua obra continuaria atual e sendo objeto de estudos e

reflexotildees mais de dois mil anos depois

Natildeo natildeo eacute por acaso que Jorge Luis Borges (BORGES 2009 p 156) considerava

o Livro de Joacute um dos mais impressionantes da Biacuteblia nem que Freud o tenha situado

como a mais alta das literaturas humanas (apud BORGES 1965) Natildeo eacute coincidecircncia que

o Livro de Joacute seja considerado ldquoo mais saacutebio da Biacuteblia Hebraicardquo (BLOOM 2005 p 15)

e tenha sido recontado tantas vezes como nas versotildees de HG Wells (apud BORGES

1965) e Fabrice Hadjadj bem como objeto de longos estudos a exemplo daqueles de Carl

2 A hipoacutetese de que o texto javista da Biacuteblia Hebraica poderia ter sido escrito por uma mulher hitita eacute

aventada por Harold Bloom (BLOOM 2005 p 27)

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Gustav Jung e de Reneacute Girard A histoacuteria de Joacute tambeacutem ecoa na seacutetima arte como em A

aacutervore da vida de Terrence Malick (apud CARBAJOSA 2017) e tambeacutem na chamada

nona arte como na graphic novel ldquoO contrato com Deusrdquo de Will Eisner (EISNER 2019

p 21-79)

Enfim ateacute por abordar o eterno problema do sofrimento humano trata-se de obra

atemporal cujo reexame no momento atual eacute mais do que propiacutecio inclusive com um

olhar detalhado sobre suas possiacuteveis liccedilotildees especialmente acerca de um valor tatildeo caro

tanto para a Teologia quanto para o Direito qual seja a Justiccedila O grito de Joacute ainda se

prolonga eacute o grito de Jesus na cruz eacute o grito dos pobres e desamparados e eacute o grito de

todos noacutes em nossos momentos de maior fragilidade Eacute dele que vem o nosso clamor por

justiccedila e restauraccedilatildeo

2 O PROMOTOR ACUSADOR DE JOacute E O ENTRELACcedilAMENTO DAS IDEIAS

DE RETRIBUICcedilAtildeO E CONTRATO

A histoacuteria de Joacute pode ser vista por muacuteltiplos olhares desde o seu enigmaacutetico

comeccedilo De fato o proacutelogo conteacutem amplo material para se discutir a teodiceia ou mais

exatamente como se justificar que um Deus infinitamente bom permita o mal E tudo

parece se complicar quando num determinado dia em que os Filhos de Deus se apresentam

a Iaweh entre eles veio tambeacutem Satatilde (Joacute 16)

De acordo com o senso comum Satanaacutes eacute o anjo caiacutedo inimigo da humanidade

Todavia conforme observa Ari Marcelo Solon ldquono Livro de Joacute Satanaacutes deve ser

entendido no sentido hebraico de lsquoacusadorrsquo um servo obediente de Deus e natildeo

necessariamente maurdquo (SOLON 2009 p 2)

Neste diapasatildeo podemos olhar o Livro de Joacute sob uma perspectiva de um drama de

tribunal sendo que o iniacutecio da acusaccedilatildeo eacute feito por Satanaacutes uma espeacutecie de promotor que

atua perante o Juiacutezo de Deus Mas qual seria o teor desta accedilatildeo penal satacircnica Eacute a

falsidade da feacute de Joacute Satatilde potildee em duacutevida a feacute de Joacute dizendo num primeiro momento que

ele apenas se comporta como um servo obediente em razatildeo de seus muitos bens Se

perdesse seus bens de acordo com o acusador Joacute lanccedilaria maldiccedilotildees contra Deus (Joacute 1 9-

11)

E o que faz Iahweh Recebe a acusaccedilatildeo e deixa tudo o que pertence a Joacute em poder

de Satanaacutes (Joacute 1 12) Inicia-se pois a celeuma Um mal seraacute praticado contra Joacute e nem se

poderaacute aqui falar-se ldquoapesar de Deusrdquo Natildeo o texto biacuteblico eacute categoacuterico ao estabelecer que

todo o mal seraacute praticado por autorizaccedilatildeo expressa de Iahweh Como Por quecirc Como

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pode um Deus bom autorizar expressamente que o mal seja praticado contra um homem

justo Seria uma aplicaccedilatildeo do ditado popular ldquoaqui se faz aqui se pagardquo Mas o que Joacute

fez

Natildeo obstante natildeo haja respostas a tais perguntas no Livro importa por ora observar

que a feacute de Joacute natildeo falhou embora trageacutedias o tenham tirado seus bens e tambeacutem os seus

filhos Eis a resposta de Joacute

ldquoNu saiacute do ventre de minha matildee

e nu voltarei para laacute

Iaweh o deu Iaweh o tirou

bendito seja o nome de Iawehrdquo3

Joacute perseverou em sua feacute Eacute evidente que se abalou ateacute pela informaccedilatildeo de que

rapou a cabeccedila e caiu por terra inclinando-se no chatildeo (Joacute 1 20)4 poreacutem sua feacute se

mostrou verdadeira Ou natildeo O promotor Satanaacutes ainda duvida e adita a acusaccedilatildeo se a

carne fosse ferida se a sua vida e sauacutede estivessem em jogo Joacute revelaria a sua verdadeira

face e amaldiccediloaria Deus (Joacute 2 4-5) E Deus uma vez mais autoriza o acusador

proibindo-lhe apenas de tirar a vida de Joacute (Joacute 2 6)

Esta eacute a autorizaccedilatildeo final a Satanaacutes que jaacute sai de cena no segundo capiacutetulo do

Livro de Joacute Contudo ao contraacuterio do que alguns possam pensar o Acusador falhou

novamente em seu intento De fato Joacute manteve sua feacute apesar das chagas em seu corpo

quando responde ao comentaacuterio de sua esposa que deveria amaldiccediloar Iaweh ldquose

recebemos de Deus os bens natildeo deveriacuteamos receber tambeacutem os malesrdquo (Joacute 2 10)

Mas como A histoacuteria natildeo termina aiacute Se o acusador saiu de cena o que fez Joacute

comeccedilar a expressar a sua anguacutestia ou em outras palavras o que fez Joacute comeccedilar a perder

a sua paciecircncia

Eacute certo que na Biacuteblia o acusador fez sua uacuteltima apariccedilatildeo apoacutes lanccedilar a Joacute o

sofrimento em sua pele Contudo na versatildeo irreverente contada pelo filoacutesofo Fabrice

Hadjadj o Acusador depois disso ainda lanccedila matildeo de sua uacuteltima arma contra Joacute ldquoa uacutenica

matilha capaz de devorar seu coraccedilatildeordquo (HADJADJ 2017 p 20) Hadjadj estaacute se

referindo com uma boa dose de razatildeo aos amigos de Joacute

E com efeito na versatildeo biacuteblica Joacute somente comeccedila os seus lamentos apoacutes a

chegada de seus trecircs amigos Elifaz Baldad e Sofar

3 Joacute 1 21 4 De acordo com nota da Biacuteblia de Jerusaleacutem tais gestos significam expressatildeo de dor ou de lu to (Biacuteblia de

Jerusaleacutem 2011 p 804)

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Os diaacutelogos de Joacute com seus amigos constituem beliacutessimos exemplos de disputas

retoacutericas e reforccedilam a perspectiva desse livro biacuteblico como um drama de tribunal Em

grande esforccedilo de siacutentese os amigos que tambeacutem podem ser comparados pela mesma

oacutetica a assistentes da acusaccedilatildeo culpam Joacute por todos os males por ele sofridos De fato se

Joacute sofre eacute porque pecou contra Deus E Deus em sua infinita bondade e justiccedila estaacute

apenas castigando Joacute por seus pecados Em suma Elifaz Baldad e Sofar sustentam a

justiccedila retributiva

Eacute mais do que relevante notar que essa concepccedilatildeo de retribuiccedilatildeo complementa

perfeitamente a acusaccedilatildeo de Satanaacutes segundo a qual Joacute soacute tinha feacute porque tudo corria bem

com ele natildeo passava por dificuldades nem provaccedilotildees E a acusaccedilatildeo de Satanaacutes em

verdade seria totalmente procedente em relaccedilatildeo aos amigos de Joacute pois eles demonstram

acreditar nessa visatildeo contratualista da relaccedilatildeo com Deus Se Joacute natildeo tivesse realmente

pecado Deus nunca faria nada de mal com ele Ou dito de outro modo se a pessoa natildeo

peca Deus tem a obrigaccedilatildeo de natildeo deixar nada de mal ocorrer com ela Porque o mal sem

pecado tornaria Deus injusto e isto seria uma verdadeira blasfecircmia Nas palavras de

Baldad ldquoacaso Deus torce o direito ou Shaddai perverte a justiccedilardquo (Joacute 8 4)

Se natildeo pecarmos nada de mal nos aconteceraacute Desde quando foi elaborado esse

contrato com Deus O contrato foi celebrado por um representante da humanidade em

nome de todos ou cada um de noacutes o celebra individualmente

O renomado quadrinista William Erwin Eisner mais conhecido como Will Eisner

brindou-nos com uma das mais belas histoacuterias da nona arte intitulada ldquoUm contrato com

Deusrdquo (EISNER 2019) Neste conto moderno que ecoa o Livro de Joacute acompanhamos o

judeu Frimme Hersh que desde crianccedila embora oacuterfatildeo soacute praticava boas accedilotildees Numa

conversa com um rabino o menino lhe pergunta sobre a justiccedila de Deus e se Ele saberia se

Frimme se comportaria bem O rabino fala sobre a onisciecircncia de Deus e surge aiacute a ideia

do contrato entatildeo redigido numa pequena pedra (EISNER 2019 p 35-36) Fugindo da

perseguiccedilatildeo aos judeus de seu paiacutes Frimme Hersh vai para os Estados Unidos e ali cresce

tornando-se um respeitado membro da sinagoga Talvez por sua reconhecida bondade e

generosidade com todos uma menina receacutem-nascida foi abandonada na porta de Hersh E

Frimme Hersh a adotou e a criou com todo o seu amor batizando-a com o nome de sua

falecida matildee Rachele Hersh considerou sua filha uma daacutediva de Deus

Contudo passados os anos na flor da idade Rachele adoece e vem a falecer Neste

momento depois de enterrar sua filha numa noite tempestuosa Hersh explode em fuacuteria

ldquoNAtildeO Vocecirc natildeo pode fazer isso comigo noacutes temos um contrato VOCEcirc QUEBROU

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NOSSO CONTRATOrdquo () ldquoSe Deus exige que homens honrem seus acordos entatildeo

Deus tambeacutem natildeo tem essa obrigaccedilatildeordquo (EISNER 2019 pp 41-43)5

Seraacute mesmo que existe esse contrato Um contrato que garante que nada de ruim

aconteceraacute com pessoas boas Aparentemente a resposta era positiva para os amigos de Joacute

Tanto que buscavam imputar a Joacute a culpa pelas desgraccedilas que se abateram sobre ele

Portanto a loacutegica da justiccedila retributiva (castigo para quem peca) e contratual (Deus tem

obrigaccedilatildeo de proteger quem natildeo peca) estatildeo intrinsecamente ligadas E tal pensamento

perdura ateacute hoje como observa Luiz Alexandre Solano Rossi ldquoMais angustiante ainda eacute

reconhecer que mesmo hoje fazemos teologia com a mesma loacutegica dos amigos de Joacute

Trata-se portanto de uma loacutegica que temos muita dificuldade para quebrarrdquo (ROSSI

2017 p 31) Mesmo Carl Gustav Jung ao falar de ldquoquebra de juramentordquo aduzindo que

ldquonatildeo se pode contrapor um Deus arcaico agraves exigecircncias da eacutetica modernardquo parece sucumbir

agrave oacutetica contratualista (JUNG 2018 p 22)

Especificamente Rossi critica a chamada teologia da prosperidade tratando-a

como uma teologia da retribuiccedilatildeo poacutes-moderna (2017 p 65)

ldquoUma das possiacuteveis expressotildees da teologia da retribuiccedilatildeo em ambiente

eclesiaacutestico poacutes-moderno eacute a lsquoteologia da prosperidadersquo Essa teologia declara

que o plano de Deus para o ser humano eacute fazecirc-lo feliz abenccediloado saudaacutevel

proacutespero enfim uma pessoa de sucesso Mas onde estaria a complexidade dessa

afirmaccedilatildeo Sua complexidade reside justamente no fato de que para essa

teologia soacute natildeo eacute proacutespero financeiramente soacute natildeo eacute saudaacutevel e feliz nesta vida

quem carece de feacute natildeo cumpre o que a Biacuteblia diz a respeito das promessas

divinas e estaacute envolvido com o diabo ou seja quem estaacute em pecadordquo

Janaina Conceiccedilatildeo Paschoal (2018 p 183) comentando sobre crimes cometidos

por alguns liacutederes religiosos observa que ldquoos interesses econocircmicos tambeacutem passam mais

claramente a motivar os fieacuteisrdquo Nesse diapasatildeo Rossi observa que muitas teologias estatildeo

tratando os fieacuteis como clientes (2017 p 129)

Como se vecirc portanto embora a histoacuteria de Joacute sempre seja lida com criacuteticas aos

seus amigos podemos ver que a teologia deles retributiva e contratualista permanece

sendo praticada por muitos homens de feacute ateacute os dias de hoje

5 As belas e tristes cenas da fuacuteria de Frimme Hersh satildeo retratadas como um diaacutelogo entremeando -se os gritos

furiosos do enlutado pai com os terriacuteveis relacircmpagos da tempestade que assola a cidade neste momento Este

eacute apenas o comeccedilo da histoacuteria de Frimme Hersch que merece ser lida Natildeo diremos mais sobre ela anotando

apenas que esse diaacutelogo pode ser comparado com o de Joacute e Iaweh que aparece no seio de uma tempestade

(Joacute 38 1) De qualquer forma a dor eacute semelhan te agrave da matildee que perde um filho no filme ldquoA aacutervore da vidardquo

o qual conteacutem referecircncias expressas ao Livro de Joacute

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Mas Joacute natildeo se calou perante seus amigos Discutiu com eles agrave exaustatildeo Ele queria

mais do que provar o seu ponto natildeo desejava simplesmente amaldiccediloar a Deus O que

afinal queria Joacute Joacute ansiava sim algo profundamente encontrar Deus no tribunal

3 O DESEJO DE JOacute E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA

A ideia de levar Deus ao tribunal parece absurda e fadada agrave derrota e Joacute sabe muito

bem disso Afinal ele se pergunta quem citaraacute Deus (Joacute 9 19) e sabe que entre mil

razotildees natildeo haveraacute uma para rebatecirc-lo (Joacute 9 3) Mas Joacute ainda assim insiste Por quecirc

Dentre as inuacutemeras respostas possiacuteveis falaremos sobre aquela que mais nos

parece proacutexima da verdade do livro E para isso faremos uma pequena digressatildeo

aproveitando-nos de um pouco de nossa experiecircncia com os tribunais Muitos pensam e

falam como se tratasse de um dogma que os juiacutezes sempre tecircm o dom de desagradar uma

das partes do processo aquela que perde De acordo com essa visatildeo na praacutetica o processo

eacute um jogo em que as partes soacute tecircm uma finalidade vencer Nem sempre isso eacute verdade eis

que natildeo raramente mesmo os vencedores se desagradam com os magistrados que lhe

deram ganho de causa ao passo que os perdedores podem se conformar e ateacute aderir agrave

pretensatildeo adversa Para muitos isso pode parecer um desatino poreacutem ainda que desafie a

loacutegica e o senso comum trata-se uma conclusatildeo vaacutelida que tem a ver com um conceito

diverso de justiccedila qual seja o de justiccedila restaurativa Talvez essa seja a melhor forma de

justiccedila superando ateacute mesmo a justiccedila distributiva pois essa tambeacutem natildeo perde seu

caraacuteter impositivo A justiccedila restaurativa eacute a mais simples e paradoxalmente a mais

complexa A mais faacutecil e a mais difiacutecil A mais simples de se entender e a mais impossiacutevel

de se acreditar Essa eacute a justiccedila do diaacutelogo em que todos falam e ouvem-se uns aos

outros

Joacute natildeo quer vencer Deus no tribunal Joacute quer simplesmente falar ldquoEntatildeo lhe falaria

e natildeo teria medo pois eu natildeo sou assim a meus olhosrdquo (Joacute 9 35) Joacute tambeacutem quer ouvir

ldquoDirei a Deus Natildeo me condenes explica-me o que tens contra mimrdquo (Joacute 10 2)

Joacute sabe que nenhuma razatildeo poderaacute derrotar o Criador Mesmo assim quer ser

ouvido por Ele e tambeacutem quer escutaacute-lo

O processo judicial pode ser encarado como um jogo poreacutem nem sempre eacute assim

Muitos reacuteus mesmo de processos criminais conformam-se com sua condenaccedilatildeo quando

percebem que foram efetivamente ouvidos e compreendidos no julgamento A pena entatildeo

eacute aceita pois o proacuteprio acusado compreendeu e aceitou a sua proacutepria responsabilidade O

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processo penal com sua estrutura adversarial eacute um ambiente pouco propiacutecio para a justiccedila

restaurativa embora talvez ateacute por obra do acaso algumas vezes ela ocorra nele E talvez

esse acaso possa ser provocado justamente quando o juiz natildeo condena o reacuteu mas sim lhe

explica o que tem contra ele6 Poder-se-ia objetar que isso seria mera questatildeo de

semacircntica todavia seraacute que em tantas situaccedilotildees o problema natildeo estaacute exatamente no que

se diz mas no como se diz

O encontro entre o autor da infraccedilatildeo e a viacutetima eacute uma das possiacuteveis formas pelas

quais se pratica a justiccedila restaurativa Este diaacutelogo para dar certo deve ser preparado

pelos facilitadores restaurativos7 No processo penal autor da infraccedilatildeo e viacutetima raramente

se encontram Ateacute porque o ofendido frequentemente pede para natildeo depor na frente do

reacuteu por fundado temor Eacute certo que amiuacutede o medo eacute justificaacutevel contudo o que se vecirc

no cotidiano forense eacute que ele eacute praticamente presumido automaticamente aprofundando

o trauma do crime de modo que natildeo se vislumbre mais qualquer possibilidade de perdatildeo

ou reconciliaccedilatildeo

Joacute disse que Shaddai8 lhe encheu de terror (Joacute 23 16) todavia deseja

ardorosamente o encontro

ldquoOxalaacute soubesse como encontraacute-lo

como chegar agrave sua morada

Exporia diante dela a minha causa

com minha boca cheia de argumentos

Gostaria de saber com que palavras iria responder-me

e ouvir o que teria para me dizer

Usaria ele de violecircncia ao pleitear comigo

Natildeo bastaria que me desse atenccedilatildeo

Ele reconheceria em seu adversaacuterio um homem reto

e eu triunfaria sobre meu juizrdquo (Joacute 23 3-7)

Joacute pretende expor seus argumentos diante de Deus ouvir o que Ele tem a dizer e

bastaria que Ele reconhecesse a sua retidatildeo para que Joacute se considerasse vitorioso Ora o

desejo de Joacute se coaduna com os preceitos da justiccedila restaurativa De fato como observa

Helena Zani Morgado ldquocomunicaccedilatildeo assertiva e escuta compassiva portanto satildeo verso e

anverso da moeda restaurativardquo (2018 p 158)

6 Eacute inusitado que um reacuteu parabenize o juiz que o condenou As vezes em que isso nos ocorreu podem ser

contadas nos dedos Poreacutem olhando agora para traacutes percebemos um lugar comum nesses casos Os acusados

se sentiram efetivamente ouvidos no processo Embora o julgamento lhes tenha sido adverso natildeo foram mal

compreendidos Sentiram eles que foram efetivamente ouvidos E souberam eles aceitar a su a

responsabilidade Uma rara poreacutem feliz combinaccedilatildeo que resultou de um processo penal 7 Entenda-se bem natildeo para se instigar um discurso artificial de arrependimento e perdatildeo mas sim para que

os envolvidos compreendam o processo especialmente no tocante agrave igualdade entre as partes e falem com

honestidade sobre seus sentimentos em relaccedilatildeo ao conflito Os facilitadores em regra satildeo voluntaacuterios que se

especializam em determinadas teacutecnicas restaurativas visando garantir um efetivo diaacutelogo entre as partes 8 Outro nome de Deus no Livro de Joacute

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Eacute preciso enfatizar que Joacute mais do que a reversatildeo dos seus infortuacutenios deseja o

reconhecimento de Deus exatamente como a viacutetima deseja ser reconhecida como pessoa

por seu ofensor Na justiccedila retributiva dos amigos de Joacute e do processo penal em geral

ofendidos e acusados satildeo instrumentalizados vale dizer satildeo apenas peccedilas de um jogo que

determinaraacute ou natildeo a aplicaccedilatildeo da pena A viacutetima eacute um instrumento para a condenaccedilatildeo

pois o Estado-Juiz natildeo se importa com o seu trauma Jaacute o acusado tambeacutem eacute um

instrumento na medida em que serve de exemplo para a prevenccedilatildeo geral de delitos

reforccedilando a crenccedila na vigecircncia da norma ou como diz expressamente Guumlnther Jakobs ldquoa

finalidade da culpabilidade eacute a estabilizaccedilatildeo da norma deacutebilrdquo (JAKOBS 2003 p 31)

Elifaz Baldad Sofar natildeo soacute instrumentalizam Joacute como o pecador que certamente

estaacute recebendo o merecido castigo como tambeacutem o proacuteprio Deus que passa a ter funccedilotildees

claras de puniccedilatildeo ou recompensa (ou ateacute pagamento na perspectiva contratualista)

independentemente de sua vontade Enfim Deus passa a ser uma ideia que justifica o

sofrimento do pobre (pecador) e o bem-estar do rico (justo) Posteriormente em reforccedilo a

essa concepccedilatildeo ainda surge Eliuacute que censura Joacute simplesmente por falar9 e se coloca em

posiccedilatildeo de superioridade pretendendo instrui- lo10

Eliuacute assim humilha Joacute colocando-o num patamar inferior em que sua liberdade

de expressatildeo e de sentimentos por si soacute jaacute eacute tida como uma ofensa Enfim mais uma

personagem que tenta desviar Joacute de seu encontro restaurativo com Deus tratando-o como

um insensato que multiplica palavras

Joacute natildeo responde a Eliuacute talvez ateacute porque demais humilhado por ele11 Ou entatildeo Joacute

simplesmente natildeo tenha tido tempo de responder a Eliuacute pois eacute nesse momento que surge a

tempestade e finalmente o desejo de Joacute eacute atendido

4 O ENCONTRO RESTAURATIVO DE JOacute E IAWEH

No seio da tempestade estaacute Iaweh que passa a responder a Joacute (Joacute 38 1) O que

seria o cliacutemax do livro de Joacute torna-se o anticliacutemax Se por um acaso se esperava o retorno

do Acusador e sua eventual derrota ou qualquer esclarecimento ou justificativa divina para

o ocorrido o que se tem eacute que o livro terminaraacute sem qualquer explicaccedilatildeo para os atos de

Satanaacutes ou de Deus nem qualquer alusatildeo agrave inocecircncia ou eventual culpabilidade de Joacute

9 ldquoJoacute abre a boca para o vazio e insensatamente multiplica palavrasrdquo (Joacute 35 16) 10 ldquoEspera um pouco que eu te instruireirdquo (Joacute 36 2) 11 Uma liccedilatildeo que serve para os encontros restaurativos com autores de crimes pois a justiccedila restaurativa deve

empoderar as pessoas contribuindo para o desenvolvimento comunitaacuterio e natildeo para censuraacute -los ou colocaacute-

los em posiccedilatildeo de inferioridade o que apenas contribui para o ressentimento

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Iahweh pergunta e desafia ldquoOnde estavas quando lancei os fundamentos da terra

Dize-mo se eacute que sabes tantordquo (Joacute 38 4) A ironia utilizada por Deus em seu desafio a

Joacute por um lado poderia chocar como de fato tem chocado inuacutemeros autores e inteacuterpretes

da Biacuteblia Contudo temos aqui de fato um encontro restaurativo em que Joacute e Iahweh

puderam de fato dizer tudo o que pensavam Com efeito um diaacutelogo restaurativo natildeo pode

ser mal-entendido como uma conversa artificial uma espeacutecie de teatro em que cada um

procura dizer exatamente aquilo que o outro quer ouvir mostrando um (falso)

arrependimento em busca de uma (falsa) reconciliaccedilatildeo ou (falso) perdatildeo Apenas quando

duas pessoas falam a verdade ainda que dolorosa eacute possiacutevel a construccedilatildeo da justiccedila

restaurativa Neste sentido a observaccedilatildeo de Elizabeth M Elliot citando Hal Pepinsky e a

sabedoria do povo navajo para o processo de conceituaccedilatildeo da justiccedila ldquoCompareccedila Preste

atenccedilatildeo Fale a verdade Natildeo fique preso a resultadosrdquo (2018 p 103)

Assim veja-se a formaccedilatildeo da justiccedila restaurativa no livro de Joacute 1) Deus

compareceu diante de Joacute 2) Apesar de Deus natildeo ter surgido antes o livro aponta

claramente que Ele prestou atenccedilatildeo em tudo o que Joacute dizia (Joacute 38 1-4) 3) Tanto Joacute

quanto Deus falam francamente e por fim 4) Natildeo existe um resultado certo que devemos

esperar vale dizer natildeo estamos diante de um contrato em que cada uma das partes tecircm

obrigaccedilotildees previamente estipuladas a serem cumpridas

Um diaacutelogo fluido e natural e natildeo riacutegido e artificial eacute o que propiciaraacute a justiccedila

restaurativa A rigidez e a artificialidade somente poderatildeo produzir uma ilusatildeo de justiccedila

O discurso de Iahweh eacute duro e nisso reside a Sua verdade ou pelo menos

franqueza A restauraccedilatildeo natildeo pode ser alcanccedilada sem que se diga aquilo que se sente

Deus assim quebra expectativas com o que alguns inteacuterpretes chegam ao ponto

de lhe acusar de ausecircncia de compaixatildeo (HABEL 2004 p 37) De fato quando

expectativas comportamentais satildeo quebradas a proacutepria acusaccedilatildeo tambeacutem se mostra

implacaacutevel e sem misericoacuterdia assemelhando-se ao que ocorre no julgamento criminal12

Contudo a restauraccedilatildeo natildeo ocorreraacute tentando-se mudar aquilo que a pessoa eacute para se

atender a determinados preacute-conceitos

12 Embora a moderna dogmaacutetica penal seja unacircnime na rejeiccedilatildeo do ldquodolo pela conduccedilatildeo de vidardquo concepccedilatildeo

de Mezger com repercussotildees no direito penal nazista (cf SOUZA 2019 p 285) estudos da criminologia

criacutetica demonstram que o direito penal amiuacutede as sume caraacuteter altamente seletivo o que explicaria um

encarceramento massivo de negros pobres pessoas com baixa instruccedilatildeo etc Natildeo eacute funccedilatildeo deste trabalho

investigar os fatores que levam a isso mas fica aqui rapidamente consignado que desde a lei penal eacute

possiacutevel constatar irracionalidades no sistema de justiccedila criminal Como jaacute tivemos oportunidade de

mencionar alhures basta ver a pena destinada ao crime de fraude em licitaccedilatildeo (art 90 da Lei 86661993)

ainda que milionaacuteria e a pena do crime de moeda falsa ainda que envolvendo uma uacutenica ceacutedula de cinquenta

reais (art 289 do Coacutedigo Penal) e fazer um breve exerciacutecio de imaginaccedilatildeo tentando traccedilar um perfil de quem

costumeiramente costuma praticar o primeiro e o segundo delito (AZEVEDO 2019 p 210)

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E Joacute compreendeu isso dizendo que havia chegado o seu momento de escutar (Joacute

40 4-5) Ao final Joacute menciona ldquoQuem eacute aquele que vela teus planos com propoacutesitos sem

sentidordquo (Joacute 42 3)

Interpretamos esse trecho da seguinte forma Joacute reconheceu o seu erro e

finalmente entendeu que natildeo existe contrato aliaacutes nunca existiu um contrato Mas

tambeacutem natildeo houve retribuiccedilatildeo E isso ficou subentendido nos discursos de Iahweh nos

quais em momento algum existe alusatildeo a alguma acusaccedilatildeo contra Joacute Joacute estava certo ao

se considerar inocente poreacutem equivocado ao se considerar imune a quaisquer mazelas

como se protegido por uma obrigaccedilatildeo de Deus

Natildeo foi outra a conclusatildeo de Luiz Felipe Pondeacute (2017 p 7)

ldquoO lsquoerrorsquo de Joacute (como o de todos noacutes) foi achar-se justo e portanto merecedor

de uma vida feliz Quando ele finalmente se entrega a Deus e a tudo que existe

agrave sua volta sem se perguntar por que ele sofre Joacute entende seu pecado a

idolatria de sua proacutepria virtuderdquo

Depois do reconhecimento do proacuteprio erro por Joacute abre-se entatildeo o caminho para a

restauraccedilatildeo E espancando quaisquer duacutevidas Deus se dirige aos amigos de Joacute e fala algo

surpreendente ldquoEstou indignado contra ti e teus dois companheiros porque natildeo falastes

corretamente de mim como o fez meu servo Joacuterdquo (Joacute 42 7) Eacute curioso porque ao longo

dos diaacutelogos aparentemente os amigos de Joacute colocavam-se como os advogados de Iahweh

contra as blasfecircmias de Joacute Contudo como visto na verdade isto era apenas a ilusatildeo de

uma suposta justiccedila retributiva que puniria somente os pecadores de modo que quanto

aos natildeo pecadores evidentemente nada de mal ocorreria o que traduzia a ideia de

contrato com Deus A instrumentalizaccedilatildeo de Deus para permitir tais concepccedilotildees

definitivamente natildeo agradou Iahweh que natildeo soacute os desautorizou como ainda por cima

elogiou a fala sincera de Joacute Mesmo errado Joacute acertou mais que seus amigos ao afastar a

retribuiccedilatildeo divina como causa de suas mazelas O comparecimento e o reconhecimento de

Deus representaram o triunfo de Joacute ldquoEu te conhecia soacute de ouvir mas agora meus olhos te

veemrdquo (Joacute 42 5)

Tudo isso contudo natildeo resolveu o misteacuterio Muito tempo depois a duacutevida

novamente surgiu na boca dos disciacutepulos de Jesus e ele novamente a afastou embora

tenha aprofundado o misteacuterio

ldquoAo passar ele viu um homem cego de nascenccedila Seus disciacutepulos lhe

perguntaram lsquoRabi quem pecou ele ou seus pais para que nascesse cego

Jesus respondeu lsquoNem ele nem seus pais pecaram mas eacute para que nele sejam

manifestadas as obras de Deusrdquo

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A melhor soluccedilatildeo para o misteacuterio parece vir de Tolstoacutei que nos lembra que desde

o iniacutecio de nossas vidas a sombra da morte nos espreita A morte eacute inexoraacutevel para todos

noacutes e todos os nossos bens desejos e interesses desapareceratildeo depois dela Por isso

Tolstoacutei natildeo vecirc sentido numa ldquovida vivida soacute para sirdquo A uacutenica vida racional com

verdadeiro significado seria a vida vivida para os outros Apenas essa vida natildeo pode ser

destruiacuteda pela morte (TOLSTOacuteI 2011 p 148) Essa uma liccedilatildeo ainda a ser aprendida

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

Como dito no iniacutecio o presente artigo estaacute sendo escrito durante uma pandemia

num momento de fragilidade de muitas pessoas tempo em que o choque de vozes

favorece o temor e a desesperanccedila Poreacutem aqui recordamos a histoacuteria de Joacute todos os seus

infortuacutenios e sofrimentos e ao final sua restauraccedilatildeo

A propoacutesito do final alguns autores o consideram escrito posteriormente por outro

autor um ldquoepiacutelogo ineptordquo (BLOOM 2005 p 27) ou proacuteprio de ldquoum grande sucesso de

bilheteria hollywoodianordquo (GIRARD 2014 p 163)13 Natildeo cremos nessa hipoacutetese14

poreacutem ainda que verdadeira natildeo eacute muito relevante Na verdade o final com a devida

vecircnia natildeo recebeu a devida interpretaccedilatildeo dos ilustres autores citados

De fato esse fim de Hollywood parece resultar do enfoque na restauraccedilatildeo15 dos

bens e de novos filhos para Joacute como se fosse isso o que realmente importasse Ou seja

novamente uma interpretaccedilatildeo que se apega ao contratualismo como o pagamento de uma

diacutevida em atraso por Deus Natildeo eacute este o melhor entendimento

A restauraccedilatildeo ocorre com o reconhecimento por Deus da retidatildeo de Joacute natildeo

obstante todos os males que se abateram sobre ele a respeito dos quais Iahweh tambeacutem

natildeo fornece qualquer explicaccedilatildeo Isso aliado ao comparecimento de Deus eacute o bastante

para o triunfo e reparaccedilatildeo de Joacute Enfim tudo isso eacute suficiente para a restauraccedilatildeo do seu

conflito com Deus Novos bens e novos filhos bem como provaacuteveis novos revezes

embora natildeo citados satildeo apenas meras consequecircncias da continuidade da vida

13 Natildeo obstante Reneacute Girard mesmo considerando que o epiacutelogo tenha sido adicionado reconhece nele uma

frase marcante na qual Deus falando aos amigos acrescenta que natildeo os castigaraacute ldquopor natildeo terdes falado

corretamente de mim como o fez meu servo Joacute (Joacute 48 8) rdquo (GIRARD 2014 P 163) 14 O fim do livro eacute perfeitamente compatiacutevel com o seu conteuacutedo afastando a ideia de justiccedila retributiva 15 A propoacutesito desta restauraccedilatildeo Norman C Habel sugere que o uso do verbo restaurar pode ser fortuito

poreacutem sugere uma justiccedila restaurativa em vez de uma retributiva (HABEL 2004 p 35)

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A oportunidade do diaacutelogo com Deus foi a verdadeira restauraccedilatildeo de Joacute pois ele

compreendeu dois fatos fundamentais 1ordf) mesmo sendo justo natildeo estava imune ao mal e

ao sofrimento 2ordf) apesar de ter chegado a amaldiccediloar o dia em que nasceu (Joacute 3 1) Joacute

percebeu que sua vida teve um verdadeiro significado como no sentido proposto por

Tolstoacutei Foi uma vida vivida para os outros como demonstra a lembranccedila de Joacute em um

dos diaacutelogos

ldquoA justiccedila eu vivia como tuacutenica

o direito era meu manto e meu turbante

Eu era olhos para o cego

era peacutes para o coxo

Era o pai dos pobres

e examinava a causa de um desconhecidordquo (Joacute 29 14-16)

Nestes tempos de pandemia temos uma escolha reclamar da sorte e maldizer a

Deus ou continuar dando um verdadeiro significado agraves nossas vidas ajudando-nos uns aos

outros da melhor forma que pudermos Sem lamentar um contrato natildeo cumprido e sem nos

desesperarmos pela crenccedila de que estamos sofrendo um castigo divino A vida vivida para

os outros com espaccedilo para o perdatildeo e para a reconciliaccedilatildeo levaraacute agrave restauraccedilatildeo e ao

desenvolvimento de nosso senso de comunidade Esta a liccedilatildeo que extraiacutemos do Livro de

Joacute

REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS

AZEVEDO Paulo Bueno de Ensaio sobre a irracionalidade do sistema criminal agrave

luz da obra religiosa de Lev Tolstoacutei Rio de Janeiro Lumen Juris 2019

BIacuteBLIA DE JERUSALEacuteM Traduccedilatildeo de Luiz Inaacutecio Stadelmann 7ordf impressatildeo

2011

BLOOM Harold Onde encontrar a sabedoria Traduccedilatildeo de Joseacute Roberto OrsquoShea

Revisatildeo de Marta Miranda OrsquoShea Rio de Janeiro Objetiva 2005

BORGES Jorge Luiacutes El libro de Job [Conferecircncia en el Instituto Cultural

Argentino-Israeliacute de Buenos Aires 1965] In

httpsborgestodoelanioblogspotcomsearchq=libro+de+job acesso em 08 de maio

de 2020

BORGES Jorge Luis Sete conversas com Fernando Sorrentino Organizador

Fernando Sorrentino Traduccedilatildeo de Ana Flores Rio de Janeiro Beco do Azougue

2009

CARBAJOSA Ignacio Joacute potildee Deus no banco dos reacuteus Sobre o sofrimento inocente

In httparquivorevistapassoscombrdefaultaspid=344ampid_n=5530amppagina=1

acesso em 14052020

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ELLIOTT Elizabeth M Seguranccedila e cuidado justiccedila restaurativa e sociedades

saudaacuteveis Traduccedilatildeo de Cristina Telles Assumpccedilatildeo com revisatildeo teacutecnica de Tonia

Van Acker Satildeo Paulo Palas Athena 2018

EISNER Will Biblioteca Will Eisner um contrato com Deus Will Eisner [histoacuteria e

arte] Traduccedilatildeo Marquito Maia Satildeo Paulo Devir 2019

GIRARD Reneacute A rota antiga dos homens perversos Traduccedilatildeo de Tiago Joseacute Risi

Leme Satildeo Paulo Paulus 2014

JAKOBS Guumlnther Fundamentos do direito penal Traduccedilatildeo Andreacute Luiacutes Callegari

Satildeo Paulo Revista dos Tribunais 2003

HABEL Norman C The verdict onof Goda at the end of Job In Jobrsquos God

London SCM Press 2004

HADJADJ Fabrice Joacute ou a tortura pelos amigos Traduccedilatildeo de Clara Carvalho Satildeo

Paulo Eacute Realizaccedilotildees 2017

JUNG CJ Resposta a Joacute Traduccedilatildeo do Pe Dom Mateus Ramalho Rocha 10 ediccedilatildeo

Petroacutepolis Vozes 2018

MORGADO Helena Zani Direito penal restaurativo em busca de um modelo

adequado de justiccedila criminal Rio de Janeiro Revan 2018

PASCHOAL Janaina Conceiccedilatildeo Religiatildeo e direito penal interfaces sobre temas

aparentemente distantes Satildeo Paulo LiberArs 2018

PONDEacute Luiz Felipe Joacute e a alegria (prefaacutecio) In HADJADJ Fabrice Joacute ou a

tortura pelos amigos Traduccedilatildeo de Clara Carvalho Satildeo Paulo Eacute Realizaccedilotildees 2017

ROSSI Luiz Alexandre Solano A origem do sofrimento do pobre teologia e

antiteologia no livro de Joacute Satildeo Paulo Paulus 2017

SOLON Ari Marcelo Direito e tradiccedilatildeo o legado grego romano e biacuteblico Rio de

Janeiro Elsevier 2009

SOUZA Luciano Anderson de Direito penal parte geral Satildeo Paulo Revista dos

Tribunais 2019

TOLSTOacuteI Liev Minha religiatildeo Traduccedilatildeo Dinah de Abreu Azevedo Satildeo Paulo A

Girafa 2011

Autor ndash Excelentiacutessimo Juiz Federal Dr Paulo Bueno de Azevedo

Docente FATEJ FADISA

JUIZ FEDERAL e Professor de Direito Penal da

FADISA

DOUTOR em Direito Penal pela Universidade

de Satildeo Paulo

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ldquoA CONTRIBUICcedilAtildeO DOS MANUSCRITOS DE QUMRAN PARA

EXEGESE DO APOCALIPSE DE JOAtildeOrdquo

APOCALIPSE 51-14 ndash O CAcircNTICO CERIMONIAL DA

CELEBRACcedilAtildeO DO SACERDOacuteCIO UNIVERSAL DE JESUS Agrave LUZ DAS TRADICcedilOtildeES DO MISTICISMO JUDAICO - UMA EXEGESE

CONTEMPORAcircNEA

RESUMO

Nos uacuteltimos anos as descobertas dos manuscritos de Qumran intensificaram as propostas

de exegese da literatura apocaliacuteptica dando novas ecircnfases dentre elas estatildeo as hipoacuteteses de

Rowland16 de que os textos do Apocalipse 4 e 5 possuem em sua narrativa uma

semelhanccedila baacutesica com a liturgia descrita nas tradiccedilotildees do misticismo apocaliacuteptico do

judaiacutesmo no I seacuteculo bem como em textos de Qumran principalmente no fragmento

4Q405 Nogueira17 seguindo esta linha de pesquisas cita que Ezequiel capiacutetulo 1 eacute

considerado chave de uma tradiccedilatildeo miacutestica do judaiacutesmo enoquita sendo tambeacutem um

elemento central do Apocalipse de Joatildeo o principal visionaacuterio do cristianismo Sebastiana

Nogueira18 lembra que foi Scholem quem realmente usou este misticismo para produzir a

chave das histoacuterias de ascensatildeo celestial presentes nos apocalipses dos uacuteltimos dois seacuteculos

aC e dos primeiros dois seacuteculos dC de forma que Scholem na verdade foi quem

iniciou a discussatildeo acadecircmica dos miacutesticos judaicos em seu livro Major Trends in Jewish

Myticism - Principais Tendecircncias no Misticismo Judaico em 1941 Destarte esta linha de

pesquisa ecoa nos estudos do misticismo apocaliacuteptico e do ecircxtase visionaacuterio relativo ao

contexto do judaiacutesmo e cristianismo primitivos sendo fundamentada em autores tais

como Christopher Rowland Alan Segal C R A Morray-Jones e John Ashton John

Collins Adella Collins Jonas Machado Paulo A S Nogueira Carol Newsom David E

Aune Philip Alexander Crispin HT Fletcher-Louis Florentino Garciacutea Martiacutenez dentre

outros sendo que estes autores se alinham aos resultados das pesquisas iniciais de

Gershom Scholem sobre o Misticismo Judaico e aos desenvolvimentos mais recentes neste

acircmbito Corroborando com a tradiccedilatildeo destes estudos se encontram as descobertas dos

manuscritos de Qumran como a dos Cacircnticos do Sacrifiacutecio Saacutebatico uma composiccedilatildeo de

treze cacircnticos tambeacutem chamada de liturgia angeacutelica e que tem contribuiacutedo para o

desenvolvimento das pesquisas bem como sustentado os argumentos de Scholem

16 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 20097273 17 NOGUEIRA Paulo Augusto de S (org) Religiatildeo de Visionaacuterios ndash Apocaliacuteptica e Misticismo no

Cristianismo Primitivo Satildeo Paulo Ed Loyola ndash 200543 18 NOGUEIRA Sebastiana M Silva 2 Coriacutentios 12 e o Misticismo Judaico (Os Quatro que Entraram no

Pardes) Oracula 201204

autor

Me Marcelo Alves Dantas

E-mail marcelodantasteologiagmailcom

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Portanto este artigo faz uma breve exposiccedilatildeo das tradiccedilotildees da miacutestica judaica e suas

contribuiccedilotildees para exegese do capiacutetulo 5 do Apocalipse de Joatildeo

Palavras chave Judaiacutesmo Misticismo Apocaliacuteptica Trono Cacircntico

ABSTRACT

In recent years the discoveries of the Qumran manuscripts have intensified the proposals

for the exegesis of apocalyptic literature with new emphases among them are Rowlands

hypotheses that the texts of Revelation 4 and 5 have in their narrative a basic similarity

with the liturgy described in the traditions of Judaisms apocalyptic mysticism in the first

century as well as in Qumran texts mainly in fragment 4Q405 Nogueira following this

line of research and based on other scholars mentions that Ezekiel chapter 1 is considered

key to a mystical tradition of enochite Judaism being also a central element of the

Apocalypse of John the main visionary of Christianity Sebastiana Nogueira recalls that it

was Scholem who really used this mysticism to produce the key to the stories of celestial

ascension present in the apocalypses of the last two centuries BC and the first two

centuries AD So Scholem in fact who started the academic discussion of mystics Jews in

his book Major Trends in Jewish Myticism - Main Trends in Jewish Mysticism in 1941

Thus this line of research echoes in the studies of apocalyptic mysticism and visionary

ecstasy concerning the context of primitive Judaism and Christianity with some of the best

known authors Christopher Rowland Alan Segal CRA Morray-Jones and John Ashton

John Collins Adella Collins Jonas Machado Paulo AS Nogueira Carol Newsom David

E Aune Philip Alexander Crispin HT Fletcher-Louis Florentino Garciacutea Martiacutenez among

others these authors are aligned with the results of Gershom Scholems initial research on

Jewish Mysticism and with the most recent developments in this area Corroborating the

tradition of these studies are the findings of the Qumran manuscripts such as the Song of

Sacrifice Saacutebatico a composition of thirteen songs also called angelic liturgy which has

contributed to the development of research as well as supporting the arguments of

Scholem Therefore this article briefly exposes the traditions of Jewish mysticism and

their contributions to the exegesis of chapter 5 of the Apocalypse of John

Keywords Judaism Mysticism Apocalyptic Throne Song

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INTRODUCcedilAtildeO

Segundo Nogueira19 o cristianismo primitivo nasceu como religiatildeo extaacutetica e que

para se compreender a literatura antiga eacute importante levar-se em consideraccedilatildeo a pergunta

sobre a situaccedilatildeo cultural da eacutepoca e a produccedilatildeo dos textos Diante do reconhecimento de

que visotildees audiccedilotildees e revelaccedilotildees natildeo acontecem sem um quadro cultural de referecircncia

assim o exegeta deve partir da busca de possiacuteveis contribuiccedilotildees para o estudo deste quadro

cultural tendo como finalidade contribuir para a compressatildeo das experiecircncias visionaacuterias e

apocaliacutepticas tanto quanto da experiecircncia religiosa dos primeiros cristatildeos

Assim procurando situar o quadro cultural de referecircncia elencamos no trabalho

comparativo os dados apresentados por Sacchi20 permitindo a distinccedilatildeo de quatro periacuteodos

da Apocaliacuteptica

a) A primeira fase apocaliacuteptica com seu iniacutecio antes de 200 aC

b) A segunda fase apocaliacuteptica desde 200 aC a 100 aC

c) A terceira fase apocaliacuteptica desde 100 aC a 50 dC

d) A quarta fase apocaliacuteptica desde 50 dC a 120 dC

Sob a mesma linha de hipoacuteteses temos a contribuiccedilatildeo de Collins21 que por meio de

um levantamento exaustivo dos textos que puderam ser classificados como Apocalipses e

datados com qualquer plausibilidade no periacuteodo de 250 aC ndash 250 dC procurou ver ateacute

onde podiam ser considerados como membros de um mesmo gecircnero Para ele haacute uma

distinccedilatildeo entre ldquoApocalipses Histoacutericosrdquo e os ldquoApocalipses de Viagensrdquo de sorte que

considera necessaacuterio a elucidaccedilatildeo de que um apocalipse eacute ldquouma estrutura geralrdquo que

incorpora outros gecircneros literaacuterios (carta testamento paraacutebola hino oraccedilatildeo etc)

De sorte que sendo a dimensatildeo das fases da Apocaliacuteptica de grande extensatildeo e com

muitos textos produzidos se impotildee a necessidade de delimitaccedilatildeo da pesquisa e nesse

quesito contribui Machado22 ao citar um importante aspecto que deve ser levado em

consideraccedilatildeo a distinccedilatildeosimilaridade em relaccedilatildeo aos gecircneros literaacuterios que envolvem a

19 NOGUEIRA Paulo Augusto de Souza Experiecircncia Religiosa e Criacutetica Social no Cristianismo Primitivo

Satildeo Paulo ndash Paulinas 200417 20 SACCHI P Jewish Apocalyptic and its History Sheffield Academic Press England 1990110 21 Artigo Intitulado Apocalipses Judaicos - p 1-8 COLLINS John J SEMEIA 14 Apocalypse The

Morphology of a Genre The Society of Biblical Literature 1979 22 Apud SEGAL Alan F Paul The Convert The Apostolate and Apostasy of Saul The Pharisee New

HavenLondon Yale University Press 1990 p 38 ndash Life After Death A History of the Afterlife in the

Religions of the West New York Doubledy 2004410

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apocaliacuteptica e a miacutestica judaica uma vez diferentes e facilmente distinguiacuteveis mas que

relatam experiecircncias religiosas semelhantes

Os apocalipses combinam tambeacutem uma seacuterie de formas menores sendo as mais

importantes 1) Panoramas da histoacuteria em forma de futuro - o interesse dos

apocaliacutepticos volta-se em primeiro lugar para os iminentes acontecimentos

escatoloacutegicos para os horrores do tempo final e a gloacuteria do novo mundo 2)

Descriccedilatildeo do aleacutem - outro interesse consiste em dar ao leitor uma visatildeo do

mundo do aleacutem Para isso se recorre a descriccedilotildees de arrebatamentos visionaacuterios

Em um ecircxtase o visionaacuterio passa por mudanccedila de lugar e perambula por regiotildees

estranhas e misteriosas na terra e no ceacuteu (Ez 83ss) Elas oferecem a

oportunidade de transmitir conhecimentos sobre a topografia do ceacuteu e do inferno

sobre hierarquia dos anjos etc 3) Visotildees da sala do trono - ponto alto dessas

viagens seu alvo mas agraves vezes tambeacutem seu desenlace eacute a visatildeo da sala do trono

de Deus Sua descriccedilatildeo tem por objetivo mostrar sua inacessibilidade de Deus e

documentar simultaneamente a competecircncia do visionaacuterio que remonta

diretamente a Deus o qual recebe nessas audiecircncias uma missatildeo especial e ao

qual se confere um status especial (Atos 9 1011 101011 2619) As visotildees da

sala do trono formam um elo intermediaacuterio entre visatildeo de convocaccedilatildeo dos

profetas (cf Is 6 Ez 1ss) e da posterior miacutestica merkaba (carruagem divina)

judaica23

Reforccedilando as hipoacuteteses da exegese apocaliacuteptica com base nas tradiccedilotildees do

misticismo judaico Vielhauer a semelhanccedila de Collins fala da abrangecircncia e relevacircncia da

literatura apocaliacuteptica identificando que nas visotildees da sala do trono se encontram a

formaccedilatildeo de um elo intermediaacuterio entre a visatildeo de convocaccedilatildeo dos profetas e das tradiccedilotildees

do misticismo da Mercavaacuteh o que tambeacutem eacute atestado por Collins sendo fontes das quais

participam os apocaliacutepticos

1 INTRODUCcedilAtildeO AO MISTICISMO JUDAICO - ldquoANAacuteLISE DOS TEXTOS

FUNDANTESrdquo

11 ndash Isaiacuteas Cap 6 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

Machado24 em sua tese de doutorado elucida que o texto de (Isaiacuteas 61-13) pode ser

visto como pertencente agrave tradiccedilatildeo de participaccedilatildeo profeacutetica na corte celestial de anjos

ainda que a visatildeo esteja restrita ao Templo terrestre todavia estaacute situado na base do

judaiacutesmo poacutes-exiacutelico que vecirc Isaiacuteas como uacutenico ser humano que viu a Deus colocando

assim a passagem no centro da apocaliacuteptica e miacutestica judaica

23 VIELHAUER Philipp Literatura Cristatilde Primitiva - Introduccedilatildeo ao Novo Testamento aos Apoacutecrifos e aos

Pais Apostoacutelicos Ed Academia Cristatilde Satildeo Paulo 2005517 24 MACHADO Jonas Transformaccedilatildeo Miacutestica na Religiatildeo do Apoacutestolo Paulo Recepccedilatildeo do Moiseacutes

Glorificado em 2 Coriacutentios na Perspectiva da Experiecircncia Religiosa Satildeo Bernardo do Campo (Tese de

Doutorado) - UMESP 2007107

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O texto de Isaiacuteas em sua narrativa apresenta uma visatildeo da sala do trono de Deus a

partir do santuaacuterio terrestre local geograacutefico onde Isaiacuteas se encontra Um estudo dos

termos hebraicos utilizados no texto permitem entender claramente a visatildeo que o profeta

viu

Com base no verso 1 a experiecircncia do profeta se concentra numa visatildeo (האראו -

varingereumleh) o termo hebraico aqui utilizado traz o sentido natildeo apenas de ver mas de temer

honrar respeitar diante do impacto e da grandeza da visatildeo

O termo hebraico (שי yoshev ldquosentadordquo) tem o significado de sentar morar habitar ndash ב

viver residir permanecer ficar

Trono alto e elevado

Temos aqui o termo (סא para (al ndash לע) kise) usado para a palavra Trono e ndash א

elevado

margem borda referindo-se a borda do manto (veumlshularingyv ndash השלעבה)

במ) meumlleym) encher completar ndash םעא

Evidenciamos que Isaiacuteas no verso 1 usa o termo (וובהע - haheykharingl) para o

Templo e que este tambeacutem pode ser traduzido por ldquoPalaacutecio ou Assembleiardquo com efeito

seu uso aqui levantou a hipoacutetese da concepccedilatildeo de que Isaiacuteas era um integrante da ldquocorte

celestialrdquo ou ldquoassembleia dos deusesrdquo O fato de o Trono estar no ldquoalto ou elevadordquo junto

ao termo (וובהע - haheykharingl - Palaacutecio) nos permite entender que a visatildeo de Isaiacuteas parece

se referir a uma visatildeo da sala do Trono no Templo ldquoPalaacuteciordquo Celestial Assim temos a

visatildeo do Templo Celestial a partir do Templo Terrestre sendo portanto uma visatildeo do

Templo Celestial isenta de uma ascensatildeo ao mesmo

Essa hipoacutetese eacute corroborada quando tambeacutem notamos que no verso 4 ao se

mencionar que o Templo se encheu de fumaccedila se usa outro termo ou seja (ו ndash הובב

veumlhabayt ldquoe a casardquo) para se referir ao mesmo

Deste modo o texto do profeta Isaiacuteas nas tradiccedilotildees do judaiacutesmo antigo tem sua

leitura no hebraico justaposta as experiecircncias da sala do trono de Deus sendo um

documento preservado e achado plenamente conservado em Qumran a preservaccedilatildeo do

רמraringm

סא אkise

לעal

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documento tem levado muitos pesquisadores a considerar a tradiccedilatildeo do profeta Isaiacuteas como

uma importante hipoacutetese dos elos das tradiccedilotildees do judaiacutesmo enoquita

12 ndash Ezequiel Cap 1 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

Apoacutes uma breve introduccedilatildeo em busca das origens da Apocaliacuteptica e seus possiacuteveis

elos histoacutericos enquanto tradiccedilotildees de judaiacutesmos e suas praacuteticas lituacutergicas literatura e

movimento social demonstrando a existecircncia de contextos e ambiente histoacuterico nos quais

podemos inserir a pesquisa e a produccedilatildeo exegeacutetica a proposta agora eacute a de apresentar

meacutetodos que auxiliem no processo da exegese

Como porta de entrada citamos a tese de doutorado de Machado25 que indica o

texto de (Isaiacuteas 61-13) como podendo pertencente agrave tradiccedilatildeo de participaccedilatildeo profeacutetica na

corte celestial de anjos ainda que a visatildeo esteja restrita ao Templo terrestre todavia estaacute

situado na base do judaiacutesmo poacutes-exiacutelico que vecirc Isaiacuteas como uacutenico ser humano que viu a

Deus colocando assim a passagem no centro da apocaliacuteptica e miacutestica judaica

Portanto a proposta de antematildeo preacute-estabelecida para exegese eacute a de um olhar dos

aspectos literaacuterios com base naquilo que haacute ldquocomumsimilardiferente26rdquo nos textos A isso

somamos levamos as noccedilotildees do meacutetodo exegeacutetico de W Egger27 que abrange forma e

gecircnero respectivamente como ldquoa configuraccedilatildeo individual de um texto particular e por

classe de textogecircnero o que vaacuterios textos possuem em comumrdquo

Assim temos como pressuposto que um texto pertencente a um mesmo gecircnero

quando assinalado pelos seguintes aspectos

a) Revelam uma estrutura linguiacutestico-sintaacutetica semelhante

b) Possuem uma estrutura semacircntica e narrativa anaacuteloga

c) Tem uma intenccedilatildeo parecida em relaccedilatildeo ao efeito que pretendem produzir

d) Mostram uma situaccedilatildeo vital semelhante o entorno social e comunicativo eacute

semelhante

Portanto para conduccedilatildeo de uma exegese estes olhares analiacuteticos satildeo singulares

procurando manter um processo da que evidencie a participaccedilatildeo ou proximidade de

25 MACHADO Jonas Transformaccedilatildeo Miacutestica na Religiatildeo do Apoacutestolo Paulo Recepccedilatildeo do Moiseacutes

Glorificado em 2 Coriacutentios na Perspectiva da Experiecircncia Religiosa Satildeo Bernardo do Campo (Tese de

Doutorado) - UMESP 2007107 26 MARGUERAT Daniel amp BOURQUIN Yvan Para Ler as Narrativas Biacuteblicas Iniciaccedilatildeo agrave Anaacutelise

Narrativa 200913-16 27 EGGER Wilhelm Lecturas Del Nuevo Testamento Verbo Divino Navarra 1990304

26

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tradiccedilotildees apocaliacutepticas permitindo acessar os aspectos que possam ligar as tradiccedilotildees a

viabilizar a interpretaccedilatildeo do texto

Assim temos a contribuiccedilatildeo de Evans28 que resume o comentaacuterio em concordacircncia

com os autores ateacute aqui mencionados justapondo que os elementos baacutesicos do misticismo

judaico ldquoTrono-Carruagemrdquo encontrados na visatildeo biacuteblica do Trono em Ezequiel corrobora

com os paradigmas formando os elos das tradiccedilotildees apocaliacutepticas sendo a visatildeo do

chamado profeacutetico de Ezequiel junto ao rio Quebar um modelo de judaiacutesmo miacutestico uma

vez que o sacerdote Ezequiel traz a identidade de um sacerdote que natildeo aceita e natildeo

convive amigavelmente com o templo uma vez que o templo estaacute profanado pela idolatria

e poliacutetica religiosas (Ezequiel 11-28)

O texto nos daacute uma extensa e enigmaacutetica imagem do que ficou conhecido como

Mercavaacuteh orraC) ם ר ה י ו-Trono) aparentemente uma espeacutecie de Trono real sobre rodas

(cf Dn 79) com vento tempestuoso e uma nuvem de fogo que se aproxima a partir do

norte (v 4)

Ezequiel comeccedila a visatildeo que se desdobra com uma descriccedilatildeo de quatro imagens

enigmaacuteticas (והבח - as hayot - seres viventes) cada um com quatro faces (homem leatildeo boi

e aacuteguia) quatro asas e quatro rodas (5-21) acima de suas cabeccedilas se encontra uma

plataforma como o cristal (vv 22-25) e por cima da plataforma esta assentado um

pesonagem uma manifestaccedilatildeo antropomoacuterfica de Deus em um Trono de pedra como

safira descrito com ldquoo aspecto da semelhanccedila da gloacuteria do Senhorrdquo (vv 26-28)

Ezequiel aparece como um dos parametros miacutesticos de sonsideravel relevacircncia

para a comunidade de Qumran e seus pergaminhos fornecerem algumas das primeiras

evidecircncias de que o Trono na sua visatildeo foi chamado de Merkavaacuteh Segundo o fragmento

(4Q38529) o que os estudiosos tecircm apelidado ldquoSegundo Ezequielrdquo a visatildeo que

Ezequiel viu foi agrave divina Mercavaacuteh ( ו י ה ר ם ) juntamente com os ldquoquatro seres

viventesrdquo (4 5-6)

Os Manuscritos do Mar Morto tecircm muito a dizer sobre o Trono da divina

carruagem com efeito um dos maiores objetivos da Comunidade de Qumran parece ter

sido a participaccedilatildeo na liturgia celeste angelical e ver o grande Trono-Carruagem de Deus

entrar no Templo celeste

28 EVANS Craig A and FLINT Peter W Eschatology Messianism and the Dead Sea Scrolls Edited by

Wm Β Eerdmans Publishing Co1997102-103 29 Conhecido como 4QPseudo-Ezequiel eacute citado em fontes mais antigas como 4QSecond Ezequiel Pseudo-

Ezequiel Trata-se de um texto hebraico fragmentaacuterio e pseudopigraacutefico encontrado na Caverna 4 em

Qumran e portanto pertence ao conjunto de manuscritos popularmente conhecidos como Manuscritos do

Mar Morto

27

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Para Evans o texto achado na Caverna 4 de Qumran eacute uma composiccedilatildeo lituacutergica

preacute-cristatilde conhecida como Cacircnticos do Sacrifiacutecio Saacutebatico ou Liturgia Angeacutelica

composta por treze partes separadas uma para cada um dos treze saacutebados Os Cacircnticos

invocam o louvor angelical descrevem o sacerdoacutecio angelical e o Templo celestial e datildeo

conta do culto realizado no saacutebado no santuaacuterio celestial O 13ordm Cacircntico do saacutebado comeccedila

com uma longa descriccedilatildeo da aparecircncia e movimento do divino trono-carruagem

Considerando que a 7ordf e a 11ordf Canccedilotildees do Sabbath referem-se a uma pluralidade da

o 13ordm Cacircntico descreve a divina Merkavaacuteh o trono carruagem de gloacuteria ( ו ה י ה ר ם )

tomando emprestado enfaticamente os termos de Ezequiel 1 e 10 Estes Cacircnticos

receberam a identificaccedilatildeo (4Q400 a 4Q407) devido agrave localizaccedilatildeo da Caverna em Qumran

onde foram encontrados

13 ndash I Enoque Cap 14 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

O texto de I Enoque 148-21 apresenta vaacuterios elementos associados miacutestica da sala

do Trono A descriccedilatildeo da sala celestial do Trono (Hehaloth - Palaacutecio) o tema do rio do

fogo que procede do trono a face e o Trono de Deus em si elementos estes que satildeo

reproduzidos mais tarde em outros textos apocaliacutepticos judaicos e cristatildeos satildeo os

elementos que permancem sempre reproduzidos em outros textos da tradiccedilatildeo

(I Enoque 14 8-21) na traduccedilatildeo proposta por Alejandro Diez Macho30 que

concorda com outras traduccedilotildees que avaliamos como a de Rowland31

Entrei ateacute chegar-me ao muro construiacutedo com pedras de granizo que eacute rodeado

por uma liacutengua de fogo e comecei assustar-me Entrei na liacutengua de fogo e me

aproximei ateacute a casa construiacuteda com pedras de granizo cujo muro e pavimento

satildeo laacutepidas pedras de granizo Seu solo eacute tambeacutem de granizo Seus tetos claros

como estrelas e relacircmpagos onde estatildeo os iacutegneos querubins e seus ceacuteus satildeo

como aacutegua Havia fogo ardente ao redor das paredes e tambeacutem a porta se

abrasava em fogo Entrei nesta casa que ardia como fogo e fria como granizo

onde natildeo havia nenhum prazer ou vida e o medo tomou-me e o terror oprimiu-

me Caiacute com a face no chatildeo e tive uma visatildeo eis que havia outra casa maior

que esta a qual as portas estavam abertas diante de mim construiacutedas de liacutenguas

de fogo ndash era tudo tatildeo esplendido ilustre e grande que natildeo posso contar o

tamanho da gloacuteria e grandeza Seu solo era de fogo por cima tinham

relacircmpagos e orbitas astrais seu teto de fogo abrasador Mirei e vi em um alto

trono com um esplendor aspecto e (tinha ao seu redor) um ciacuterculo com sol

brilhante e voz de querubins Debaixo do trono saiam rios de fogo abrasador de

modo que era impossiacutevel mirar A grande Majestade estava sentada sobre o

30 Fonte DIEZ MACHO Alejandro Apoacutecrifos del Antigo Testamento Vol IV Madri Ed Cristiandad

198751 31 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 200976 77

28

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trono com uma tuacutenica mais brilhante que o sol e mais resplandecente que o

granizo de modo que nenhum dos anjos poderia entrar na casa

Como jaacute podemos obsevar eacute perfeitamente claro que o texto Enoquita possui seu

campo imaginaacuterio moldado pela estrutura semacircntica e imageacutetica dos textos de Isaiacuteas e

Ezequiel

Boccaccini32 argumenta que esses textos de I Enoque provavelmente foram escritos

por membros do sacerdoacutecio de Jerusaleacutem poreacutem tem procedecircncia por parte de um grupo

antizadoquita Um movimento sacerdotal dissidente ativo em Israel no fim do periacuteodo

persa e iniacutecio do helecircnico no IV seacuteculo aC Para Boccaccini esse movimento enoquita era

um grupo de oposiccedilatildeo entre a elite do Templo e natildeo um simples grupo de separatistas No

entanto o centro do judaiacutesmo enoquita natildeo era a Toragraveh nem o Templo Os dois grupos

(zadoquita e enoquita) interpretavam Ezequiel diferentemente e tinham ideias

completamente contrastantes Ateacute cerca de 200 aC enoquismo e zadoquismo eram duas

distintas e paralelas linhas de pensamentos no judaiacutesmo

14 - Daniel (79-14) e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

O livro do profeta Daniel tambeacutem marca sua presenccedila em Qumran atualmente se

entende que sua composiccedilatildeo aconteceu alguns anos depois de I Enoque e as conclusotildees de

muitos pesquisadores como Collins33 Rowland34 Martiacutenez35 entre outros eacute de que Daniel

possui relaccedilotildees intimas e demonstra ter recebido influecircncia da literatura enoquita

9 Eu continuava olhando uns tronos foram instalados e um Anciatildeo se assentou

vestido de veste branca como a neve cabelos claros como a latilde O seu trono era

como labaredas de fogo com rodas de fogo em brasa 10 Um rio de fogo brotava

da frente dele Milhares e milhares o serviam e milhotildees estavam agraves suas ordens

Comeccedilou a sessatildeo e os livros foram abertos 11 Eu continuava olhando atraiacutedo

pelos insultos que aquele chifre gritava vi que mataram a fera fazendo-a em

pedaccedilos e jogando-a no fogo 12 Quanto agraves outras feras o poder delas foi tirado

mas foi-lhes dado um prolongamento de vida ateacute um tempo determinado 13 Em

imagens noturnas tive esta visatildeo entre as nuvens do ceacuteu vinha algueacutem como um

filho de homem Chegou ateacute perto do Anciatildeo e foi levado agrave sua presenccedila 14 Foi-

lhe dado poder gloacuteria e reino e todos os povos naccedilotildees e liacutenguas o serviram O

32 BOCCACCINI Gabriele Beyond the Essene Hypothesis The Parting of the Ways between Qumran and

Enochic Judaism Grand Rapids W B Eerdmans 199848 76 78 33 COLLINS John J A Imaginaccedilatildeo Apocaliacuteptica ndash Uma Introduccedilatildeo Literaacuteria a Apocaliacuteptica Judaica Satildeo

Paulo ndash Paulus 2010 34 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 2009 35 MARTIacuteNEZ Florentino Gaacutercia Qumran and Apocalyptic Studies on the Aramaic Texts from Qumran

New York EJ Brill 1994

29

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seu poder eacute um poder eterno que nunca lhe seraacute tirado E o seu reino eacute tal que

jamais seraacute destruiacutedo

Segundo Evans36 um total de oito manuscritos do livro de Daniel foi descoberto em

Qumran nenhum veio agrave luz ateacute agora em outros locais no deserto da Judeacuteia

Dois dos manuscritos de Daniel foram descobertos na Gruta 1 cinco na Gruta 4 e

um (Escrito em papiro) em Gruta 6 Com base na anaacutelise Paleacuteografica noacutes podemos saber

que quatro foram copiados no periacuteodo dos Hasmoneus (lQDanᵇ 4QDanordf 4QDan

4QDan e quatro no periacuteodo de Herodes (lQDanordf 4QDanᵇ 4QDan pap6QDan) Por causa

dos estragos do tempo dos elementos nenhum desses achados preserva uma coacutepia

completa do livro de Daniel No entanto entre eles pocircde-se preservar uma quantidade

substancial destes

Evans considera que os graacuteficos fazem a indicaccedilatildeo da autoridade da tradiccedilatildeo de

Daniel em Qumran e deixa claro o manuseio dos textos por parte da comunidade isto

fundamenta a forccedila da tradiccedilatildeo e do pensamento apocaliacuteptico em Qumran ainda que o

Livro de Daniel natildeo seja considerado um apocalipse em si mesmo mas caracterizado pelo

seu sentido profeacutetico

Assim as pesquisas apontam com precisatildeo que os textos de Isaiacuteas Ezequiel Daniel

e I Enoque perpassaram a comunidade de Qumran e a presenccedila de os seus conteuacutedos

linguiacutesticos e imageacuteticos aparecem nos cacircnticos do Sacrifiacutecio Sabaacutetico sendo que as

liturgias em Qumran fazem declaraccedilotildees das tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do

segundo templo e nestes cacircnticos os sacerdotes se sentiam participantes do culto junto aos

anjos na sala do trono de Deus esta liturgia reflete um afastamento do templo terreno e a

busca do templo celestial gerando a hipoacutetese que inuacutemeros pesquisadores acreditam

validar o tipo de experiecircncia religiosa de um judaiacutesmo dissidente cuja origens estaacute no

periacuteodo do segundo templo Portanto ateacute aqui podemos apreciar um relato histoacuterico das

fontes literaacuterias e seus conteuacutedos imageacuteticos o que permite ver o Apocalipse de Joatildeo como

um texto que traz consigo conteuacutedos narrativos e imagens das tradiccedilotildees do misticismo da

Mercavaacuteh

36 EVANS Craig A and FLINT Peter W Eschatology Messianism and the Dead Sea Scrolls Edited by

Wm Β Eerdmans Publishing Co 199741-43

30

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2 Apocalipse 51-14 ndash O Cacircntico Cerimonial da Celebraccedilatildeo do Sacerdoacutecio Universal

de Jesus agrave Luz das Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico - Uma Exegese Contemporacircnea

A pesquisa das tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do segundo templo

apoacutes as descoberta dos manuscritos de Qumran em 1947 revolucionaram portanto a

exegese do Novo Testamento acerca disto concordam os argumentos de Rowland37

aferindo que havia uma lacuna importante nos estudos da cristologia do Novo Testamento

e que as pesquisas da exegese avanccedilaram na busca tanto do cenaacuterio e ambiente das

experiecircncias religiosas nos tempos de Jesus bem como das crenccedilas em uma figura

angelical exaltada no judaiacutesmo apocaliacuteptico

Seus apontamentos em primeiro lugar nos permitiram ver certos desenvolvimentos

no pensamento rabiacutenico sob uma nova luz e em segundo lugar do ponto de vista da

Exegese do Novo Testamento se ilustra um aspecto negligenciado sobre o

desenvolvimento doutrinaacuterio judaico e que natildeo tinha recebido suficiente atenccedilatildeo no estudo

da Cristologia do Novo Testamento

A anaacutelise do material sobre o mundo celestial produz consideraccedilotildees que nos

permitem ver as perspectivas distintivas da apocaliacuteptica como tambeacutem o modo pelo qual

o visionaacuterio justo entrava em contato com Deus Desta forma percebemos a infiltraccedilatildeo dos

padrotildees de pensamento da comunidade de Qumran na cristologia do Novo Testamento

A partir das consideraccedilotildees preliminares desta pesquisa e suas indicaccedilotildees a anaacutelise

da cerimocircnia da entronizaccedilatildeo de Jesus se estabelece sob os criteacuterios da oacutetica propiciada nos

termos das tradiccedilotildees do misticismo judaico com suas raiacutezes no periacuteodo do segundo templo

Como visto os textos considerados fundantes junto a cacircnticos e documentos da nos remete

a antiguidade da tradiccedilatildeo miacutescitca de modo que a hipoacutetese sustentanda nesta linha de

peesquisa eacute a de que Joatildeo participou ativamente de uma corrente literaacuteria com antecedentes

expressivos nos documentos de Qumran presente nas tradiccedilotildees do misticismo judaico e

apocaliacuteptico no periacuteodo do Segundo Templo e tambeacutem encontradas em Qumran

Assim de antematildeo podemos considerar em Apocalipse 5 evidencia aspectos das tradiccedilotildees

miacutesticas da sala do trono

Contudo os criteacuterios morfoloacutegicos adotados por Deutsch38 proposcinaram melhor

clareza para discernir as tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do segundo templo

onde os atributos angelomoacuterficos e posteriormente a elaboraccedilatildeo de uma ldquocristologia-

37 ROWLAND Christopher The Open Heaven - A Study of Apocalyptic in Judaism and Early Christianity

First published 198277 e 113 38 DEUTSCH Nathaniel The Guardians of the gates Angeuc Vice Regency In Late Antiquity Brill Leiden -

Boston - Koln 1999 ndash (Introduccedilatildeo)

31

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angelomoacuterficardquo se estabeleceu e apresentou as imagens de forma sitematizada produzindo

compreensatildeo acerca das funccedilotildees sacerdotais junto ao trono de Deus a saber (1) Funccedilatildeo

Demiuacutergica satildeo atribuiacutedas funccedilotildees na Criaccedilatildeo ao vice-regente angelomoacuterfico neste caso

se levarmos em conta (Ap 314) como parte contextual correspondente ao texto de (411)

Jesus eacute claramente interpretado por Joatildeo nesta linha de raciociacutenio Portanto participa como

agente de Deus na confecccedilatildeo do universo (2) Guardiatildeo do Portal Cabe ao vice-regente

permitir ou natildeo a entrada de seres humanos e ou celestiais agrave presenccedila imediata de Deus o

que pode ser tambeacutem acolhido em nossa leitura de Ap 5 porquanto neste Jesus por assim

dizer funciona como uma porta de acesso tanto a abertura dos selos como pelo seu

sacrificio pascoal abre o caminho para que todos tenham livre acesso ao Trono Deus uma

vez que por meio do seu sangue ldquoos fizeste reis e sacerdotesrdquo (3) O vice-regente

angelomoacuterfico exerce governo sobre os seres humanos e ou seres angeacutelicos todos

reconhecem sua dignidade e se submentem a seu comando o que eacute perfeitamente tambeacutem

concebiacutevel no texto em questatildeo

Embora natildeo possa ser dito que seja um traccedilo tiacutepico de todos os apocalipses em

estudo contudo parece haver evidecircncias de que uma angelologia tenha

produzido uma figura de status consideraacutevel cuja posiccedilatildeo na hierarquia celestial

colocou-o aparte do resto dos anjos () Embora poucos detalhes existam acerca

dessas angelofanias parece que havia um ser angeacutelico que em algum sentido era

considerado comunicando a aparecircncia de Deus mesmo e que agraves vezes aparecia

em forma humana (Gecircnesis 182) () O que a maioria das discussotildees modernas

da cristologia primitiva falha eacute em natildeo incluir a extensatildeo da influecircncia de uma

cristologia angeacutelica sobre a doutrina cristatilde primitiva Natildeo eacute apenas uma questatildeo

aiacute da rejeiccedilatildeo de uma cristologia angeacutelica como um fator no desenvolvimento

cristoloacutegico haacute quase total ausecircncia de tal toacutepico39

Sob esta oacutetica encontramos no proacuteprio Apocalipse uma alusatildeo pela qual podemos

concluir que tanto a imagem como os atributos angelomoacuterficos natildeo estavam restritos a um

uacutenico personagem poreacutem percebemos distinccedilotildees no uso dos termos gregos para descrevecirc-

los No texto de (Ap 115 16) Jesus eacute representado com ldquoκαὶ οἱ πόδες αὐτοῦ ὅμοιοι

χαλκολιβάνῳ ὡς ἐν καμίνῳ - os peacutes dele semelhantes a bronze (polido) como em fornalha

ardente ἡ ὄψις αὐτοῦ ὡς ὁ ἥλιος φαίνει ἐν τῇ δυνάμει αὐτοῦ - e a aparecircncia do rosto dele

como o sol brilha em o poder delerdquo

No entanto em (Ap 101) encontramos a descriccedilatildeo feita para o anjo forte que

descia do ceacuteu ldquoκαὶ τὸ πρόσωπον αὐτοῦ ὡς ὁ ἥλιος καὶ οἱ πόδες αὐτοῦ ὡς στῦλοι πυρός ndash e

o rosto dele como o sol e os peacutes dele como colunas de fogordquo

39 Apud CARDOSO Joseacute Roberto Correcirca Cristologia Angelomoacuterfica de Hebreus Estudo Soacutecio-Retoacuterico e

Histoacuteria das Religiotildees Comparadas em Hebreus 11-14 25-18 71-10 Satildeo Paulo Tese de Doutorado ndash

UMESP 200515

32

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O que podemos aferir eacute que se trata de niacuteveis de ldquoangelomorfiardquo com intensidades

diversificadas sendo as de Jesus norteadas por aspectos mais intensos de brilho

Gieshen40 apresentou uma excelente contribuiccedilatildeo em sua anaacutelise da Angelologia

judaica para a Cristologia do cristianismo das origens segundo ele o ponto de partida natildeo

deveria ser primariamente as paacuteginas do Novo Testamento e do Judaiacutesmo mas as tradiccedilotildees

angelomoacuterficas presente na miacutestica judaica preacute-cristatildes sendo provenientes da angelologia

judaica As hipoacuteteses assim levaram a compreensatildeo de ldquoAntecedentsrdquo trazendo a luz um

estudo abrangente das figuras hipostaacuteticas do Antigo Testamento e do Judaiacutesmo do

Segundo Templo buscando compreender a angelologia e os seres humanos

angelomoacuterficos presentes na literatura miacutestica do judaiacutesmo do segundo templo

Assim ficou perceptiacutevel a inter-relaccedilatildeo das vaacuterias tradiccedilotildees judaicas a respeito dos

mediadores celestes

Outro estudioso do tema Hannah41difere Gieshen na terminologia Enquanto este

utilizou o termo ldquoCristologia-Angelomoacuterficardquo de modo abrangente Hannah se utiliza de

quatro termos objetivando uma maior especificidade ldquoAngelo-Cristologiardquo para delimitar

as Cristologias influenciadas por ideias angeloloacutegicas ldquoCristologia-Angeacutelicardquo para definir

Cristo como ser angeacutelico ldquoCristologia-Angelomoacuterficardquo para se referir apenas as imagens

visuais de Cristo e ldquoCristologia Angeacutelico-Teofacircnicardquo aplicado agrave identificaccedilatildeo patriacutestica de

Cristo com o Anjo do Senhor no Antigo Testamento

Podemos retornar agraves consideraccedilotildees de Himmelfarb42 que fala dos apocalipses

com transformaccedilotildees de homens em anjos pertencentes a uma vertente de

um corpo grande e diversificado de literatura Especialmente porque trata os patriarcas

biacuteblicos e que Moiseacutes em certo sentido tambeacutem eacute visto como divino

A literatura proveacutem tanto do Egito como da Palestina e inclui obras que vatildeo desde

Philo e Ezequiel o Tragedista ao Testamento de Moiseacutes e passagens rabiacutenicas As

semelhanccedilas estruturais da literatura os papeacuteis de mediaccedilatildeo satildeo claros e demonstram

diferentes tipos de seres

40 GIESCHEN Charles A Angelomorphic Cristology Antecedents and Early Evidence Leiden E J Brill

199805 41 HANNAH Darrel D Of Cherubin and the Divine Throne Rev 56 in Context New Testament Studies 49

2003528-542 42 HIMMELFARB Martha Ascent to Heaven in Jewish and Christian Apocalypses New York Oxford

University Press 199347 48

33

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Encontramos nos textos que aferimos em nossa leitura a menccedilatildeo ldquoAngelomoacuterfica-

Antropomoacuterfica43rdquo da ldquoGloacuteria de Javeacuterdquo no livro de Ezequiel Por meio deste termo

podemos compreender a dimensatildeo e fusatildeo entre o humano e o divino no Trono de Deus

Unindo esta perspectiva agrave imagem da entronizaccedilatildeo e exaltaccedilatildeo e vice-regecircncia do

ldquoFilho do Homemrdquo em (Dn 713) junto a outras tradiccedilotildees como a de Enoque temos o

campo imageacutetico que nos permite entender como a figura de Jesus no Apocalipse 5 chega

ao Trono de Deus

Apoacutes esta breve consideraccedilatildeo do desenvovimento das tradiccedilotildees do misticismo

judaico e as origens do que se intitula ldquocristologia-angelomoacuterficardquo chegamos a um

complexo das tradiccedilotildees do misticismo judaico e apocaliacuteptico assim este artigo permite a

elaboraccedilatildeo do cenaacuterio exegeacutetico do cerimonial da entronizaccedilatildeo do sacerdoacutecio universal de

Jesus junto ao Trono de Deus

O texto faz alusatildeo agrave continuidade narrativa do capiacutetulo 4 Trata-se natildeo somente do

Trono de Deus e de uma liturgia mas a composiccedilatildeo dos 24 anciatildeos permanece na hipoacutetese

de uma corte celestial reunida na ldquosala do Trono de Deusrdquo

A funccedilatildeo na narrativa do (capiacutetulo 5) eacute ampliada Enquanto no (capiacutetulo 4) os

anciatildeos apenas se prostram e adoram logo notamos que no cap 5 um dos anciatildeos eacute

destacado por um pronunciamento no qual apresenta o Cordeiro como ldquoleatildeo da tribo de

Judaacute raiz de Davi e como aquele que venceurdquo

O texto segue o padratildeo narrativo que encontramos em (Dn 7 9-14) onde um como

ldquofilho do homemrdquo eacute entronizado e recebe autoridade para exercer o papel de um vice-

regente As imagens em Daniel tambeacutem nos permitem visualizar uma ldquoSala onde Tronos

satildeo colocadosrdquo ou um tipo de cenaacuterio preparado como um local apropriado para um rito

cerimonial de transferecircncia de poder

Portanto as configuraccedilotildees temaacuteticas satildeo proacuteximas embora tenhamos que respeitar

o desfecho de cada cenaacuterio e seu contexto histoacuterico- literaacuterio

Assim tambeacutem percebemos o tema da ldquodignidaderdquo do filho do homem em (Dn 7

9-14) Lembrando que (Apocalipse 411) exalta a Deus e sua diginidade por meio dos

anciatildeos e o capiacutetulo 5 do Apocalipse retoma o tema da ldquodignidaderdquo do Cordeiro Assim

prosseguimos com a divisatildeo proposta e interpretaccedilatildeo do texto

a) v1 ndash Abertura da Cena (e vi) - Visatildeo do Trono e do Livro

43 Natildeo localizei o termo ldquoAngelomoacuterfica-Antropomoacuterficardquo em minhas leituras mas o estabeleci aqui como

meio para interpretar a passagem biacuteblica supracitada

34

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b) v2 e 3 ndash A Dignidade do Cordeiro

c) v4 e 5 ndash Desespero do Vidente A Proclamaccedilatildeo do Anciatildeo ndash ldquoO Reconhecimento

da Dignidade do Cordeirordquo

d) v6 e 7 ndash O Cordeiro recebe o livro ndash A Vitoacuteria do Cordeiro

e) v8-14 ndash Celebraccedilatildeo ao Cordeiro ldquoSacerdoacutecio e Realeza do Cordeirordquo - por parte

dos seres Viventes e dos Anciatildeos por parte de ldquouma voz de anjosrdquo toda a Criaccedilatildeo

21 - O Misticismo Judaico e Apocaliacuteptico em (Apocalipse 51-14)

a) v1 ndash Abertura da Cena (e vi) - Visatildeo do Trono e do Livro

Natildeo podemos deixar de considerarmos aqui os apontamentos de Holtz44 que

encontra em Apocalipse 5 uma referecircncia a um antigo ritual egiacutepcio de entronizaccedilatildeo com

trecircs estaacutegios o qual alega ter as formas e a estrutura baacutesica para a narrativa

Com base nestes rituais de entronizaccedilatildeo propotildees a divisatildeo baacutesica de trecircs etapas

1) Elevaccedilatildeo

2) Apresentaccedilatildeo

3) Entronizaccedilatildeo

Aune apresenta uma contra argumentaccedilatildeo de Roloff que concorda que haacute uma

entronizaccedilatildeo com ritual de trecircs estaacutegios dos reis orientais refletidos em Apocalipse 5

poreacutem julga que ele natildeo revela as fontes das quais eacute dependente Sua leitura revecirc as

categorias de uma forma surpreendentemente arbitraacuteria (invertendo a segunda e terceira

etapas e redefinindo-as) aparentemente sua intenccedilatildeo foi ldquoencaixarrdquo melhor os trecircs estaacutegios

para ver os eventos narrados em Apocalipse 5 Assim propondo a seguinte divisatildeo

1) Exaltaccedilatildeo a descriccedilatildeo dos eventos de exaltaccedilatildeo do discurso do anciatildeo (v5)

2) Atribuiccedilatildeo de poder dominante ao receber o ldquorololivrordquo (vv6 e 7) e

3) Apresentaccedilatildeo do governante Homenagem ao sacrifiacutecio pago pelo Cordeiro em

favor dos habitantes do mundo celestial (vv8-14)

44 Apud AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978333

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Contudo Aune menciona que esta proposta com diferentes formas na entronizaccedilatildeo

do Cordeiro apresentado por Jeremias Holtz e Roloff eacute extremamente vulneraacutevel a criacuteticas

em vaacuterias frentes

Em primeiro lugar tanto Jeremias e Holtz afirmam que esse padratildeo de trecircs estaacutegios

eacute encontrado em outros textos cristatildeos que refletem a entronizaccedilatildeo de Cristo (Mt 28 18-

20 Fl 2 9-11 I Tm 316 Hb 1 5-14) no entanto natildeo eacute nem uacutetil nem convincente pois

haacute grandes diferenccedilas entre estes textos e os hinos (particularmente Fl 2 5-11 I Tm 3 16)

e Ap 51-14 Ainda sim estudiosos que analisaram os hinos compreendem que natildeo se

encontra nestes o esquema ldquoExaltaccedilatildeo-Apresentaccedilatildeo-Entronizaccedilatildeordquo considerado uacutetil e

esclarecedor

Outras eruditos sugestionam outras possibilidades e propostas sobre a possiacutevel

relaccedilatildeo da estrutura do Apocalipse 5 com contextos e ambientes diversos dentre eles estaacute

a relaccedilatildeo com as duas cerimocircnias de entronizaccedilatildeo no Antigo Testamento configuradas do

Antigo Israel citadas por R de Vaux (I Rs 1 32-48 e II Rs 11 12-20) que se utilizando

das duas sintetiza uma estrutura de 5 partes (1) Investidura da insiacutegnia real (2) a unccedilatildeo

(3) a aclamaccedilatildeo (4) a entronizaccedilatildeo (5) a homenagem Contudo o ritual de unccedilatildeo natildeo eacute

encontrado em Apocalipse 5 o que distacircncia o texto deste paradigma A discussatildeo

permanece no campo das hipoacuteteses em meio haacute uma divesidade de opiniotildees sobre a

estrutura da narrativa e suas origens

Assim fundamentados pela pesquisa permanecemos com a seguinte divisatildeo e

interpretaccedilatildeo concluiacutemos aacute luz da pesquisa de que Joatildeo possui relaccedilotildees em sua literatura

com as tradiccedilotildees de Isaiacuteas e I Enoque que descreve a ldquoSala ndash Palaacuteciordquo onde se encontra o

Trono de Deus Sendo que suas narrativas tambeacutem agregam aspectos dos ldquoseres viventesrdquo

que estatildeo tanto no Trono quando imoacutevel quanto na ocasiatildeo em que se move por meio da

Carruagem

Assim nossa compreensatildeo eacute a de que Joatildeo entende ser a ldquoSalado Tronordquo o

ambiente legiacutetimo onde as cemimocircnias lituacutergicas devem acontecer sendo ambos os textos

tanto Apocalipse capiacutetulo 4 quanto o capiacutetulo 5 cenaacuterios narrativos de cerimocircniais

realizados na ldquoSala do Tronordquo

b) v2 e 3 ndash A Dignidade do Cordeiro

Portanto a ecircnfase da narrativa em (Ap 5) eacute a ldquoDignidade (ἄξιος ndash digno) do

Cordeirordquo que ganha intensidade diante do contraste com a declaraccedilatildeo que apresenta o

ldquoanjordquo na configuraccedilatildeo de ldquoum anjo forterdquo

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1 καὶ εἶδον ἄγγελον ἰσχυρὸν ndash e vi em anjo forte

Do verso 1 ao 5 podemos contemplar um primeiro movimento do texto e da

experiecircncia visionaacuteria

Todo cenaacuterio eacute no Trono e ao redor do livro escrito e selado

1 Καὶ εἶδον ἐπὶ τὴν δεξιὰν τοῦ καθημένου ἐπὶ τοῦ θρόνου βιβλίον γεγραμμένον

ἔσωθεν καὶ ὄπισθεν κατεσφραγισμένον σφραγῖσιν ἑπτά

1 livro tendo sido escrito por dentro e por fora tendo sido selado por selos sete

1 Diante do trono um livro escrito por dentro e por fora selado com sete selos

2 καὶ εἶδον ἄγγελον ἰσχυρὸν κηρύσσοντα ἐν φωνῇ μεγάλῃmiddot τίς ἄξιος ἀνοῖξαι τὸ

βιβλίον καὶ λῦσαι τὰς σφραγῖδας αὐτοῦ

2 E vi anjo forte proclamando em voz grande quem digno eacute de abrir o livro e

soltar os selos dele

Quem eacute digno de abrir o livro e desatar os sete selos

3 καὶ οὐδεὶς ἐδύνατο ἐν τῷ οὐρανῷ οὐδὲ ἐπὶ τῆς γῆς οὐδὲ ὑποκάτω τῆς γῆς ἀνοῖξαι

τὸ βιβλίον οὔτε βλέπειν αὐτό

3 E ningueacutem podia em o ceacuteu nem sobre a terra nem debaixo da terra abrir o livro

nem olhar ele

Wikenhauser45 comenta que era costume na eacutepoca adotar-se um tipo de livro atado

por uma cinta este por sua vez era assegurado por meio de selos Parece estar contido em

conformidade com os aspectos dos documentos gregos os quais tinham por costume ainda

que natildeo obrigatoriamente colocar sete selos um por quem o expedia e os outros seis pelas

testemunhas O rolo aqui citado possui semelhanccedilas com o de (Ez 2 9ss)

ldquoEntatildeo vi e eis que uma matildeo se estendia para mim e eis que nela havia um rolo

de livro E estendeu-o diante de mim e ele estava escrito por dentro e por fora e nele

estavam escritas lamentaccedilotildees e suspiros e aisrdquo

45 WIKENHAUSER Alfred El Apocalipsis de San Juan Comentaacuterio de Rtisbona Al Nuevo Testament

Editorial Herder ndash Barcelona 196988 89

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Temos imprescindivelmente mais uma vez a comprovaccedilatildeo de que o autor participa

ativamente dos aspectos do mundo heleniacutestico a sua volta como tem sua inspiraccedilatildeo nas

tradiccedilotildees da Mercavaacuteh no periacuteodo do Segundo Templo Percebemos a presenccedila de uma

cultura subjacente de siacutembolos judaicos e heleniacutesticos que estatildeo em diaacutelogo

O clima eacute de expectativa ndash ningueacutem eacute digno ldquono ceacuteu na terra e sob a terrardquo o que

promove no texto uma afliccedilatildeo e ao mesmo tempo uma grande expectativa

Segundo Robins46 a menccedilatildeo tripartida ldquoceacuteu terra e sob ou debaixo da terrardquo se

encontra inserida no mundo antigo e carrega a compreensatildeo da presenccedila de Divindades

como parte do universo criado abrangendo o (1) reino celestial (2) no Egito ou mais

genericamente a terra (3) e o submundo A primeira e a terceira regiotildees eram habitadas

por divindades (e mortos) e a segunda era o reino dos vivos Considerava-se que os seres

humanos interagiam com divindades procurando persuadi-los a criar renovar e manter a

universo esses seres tinham que ser trazidos para a Terra

Rudolf Bultmann dentre outros eruditos atestam que este era o modo de pensar o

universo no mundo antigo portanto delimitada dentro de uma estrutura de 3 andares

O que tambeacutem nos permite aproximar a questatildeo das possiacuteveis influecircncias dos ritos

cerimoniais de entronizaccedilatildeo procedentes do Egito e manter as hipoacuteteses em aberto

Se o universo assim era compreendido e os deuses concebidos como habitantes

destas esferas somos remetidos a um tipo de proclamaccedilatildeo durante a cerimocircnia que

anunciava diante dos deuses a supremacia e ou por assim dizer a ldquodignidaderdquo do

Cordeiro

c) v4 e 5 ndash Desespero do Vidente A Proclamaccedilatildeo do Anciatildeo ndash ldquoO Reconhecimento

da Dignidade do Cordeirordquo

Eu chorava muito

4 καὶ ἔκλαιον πολύ ὅτι οὐδεὶς ἄξιος εὑρέθη ἀνοῖξαι τὸ βιβλίον οὔτε βλέπειν αὐτό 5

καὶ εἷς ἐκ τῶν πρεσβυτέρων λέγει μοιmiddot μὴ κλαῖε ἰδοὺ ἐνίκησεν ὁ λέων ὁ ἐκ τῆς φυλῆς Ἰούδα

ἡ ῥίζα Δαυίδ ἀνοῖξαι τὸ βιβλίον καὶ τὰς ἑπτὰ σφραγῖδας αὐτοῦ

46 Apud SCHMIDT Brian B Cult Image and Divine Representation in the ancient Near East edited by

Neal H Walls American Schools of Oriental Research Books Series nordm 10 Boston MA 200502

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4 E eu chorava muito porque ningueacutem digno foi achado de abrir o livro nem de

olhar para ele 5 E um de os anciatildeos diz a mim natildeo chores eis que venceu o leatildeo o de a

tribo de Judaacute a raiz de Davi o que abre o livro e os sete selos dele

A narrativa eacute dramatizada pelo visionaacuterio Joatildeo que chora copiosamente sendo

consolado por um anciatildeo mediante a revelaccedilatildeo que lhe eacute transmitida Cabe aqui notar que o

anciatildeo exerce o papel mediador entre o anjo e Joatildeo De fato este cenaacuterio parece inserir a

todos num ambiente de anseio expectativa e anelo pela revelaccedilatildeo que se daraacute mediante a

experiecircncia miacutestica de ascensatildeo na ldquosala do Tronordquo onde acontece a cerimocircnia de

reconhecimento da ldquodignidade do Cordeirordquo

A expressatildeo ldquoleatildeo da tribo de Judaacute - λέων ὁ ἐκ τῆς φυλῆς Ἰούδαrdquo e ldquoraiz de Davi -

ἡ ῥίζα Δαυίδrdquo trata de um reconhecimento da legitimidade de sua linhagem tanto

sacerdotal quanto de sua realeza permitindo que a narrativa receba os contornos que

justifiquem um cerimonial no qual se estabelece a sua realeza sacerdotal eou seu

ldquoSacerdoacutecio Realrdquo agrave semelhanccedila de Melquisedeque

A partir do verso 6 temos um novo cenaacuterio a visatildeo de um Cordeiro imolado cuja

representaccedilatildeo de sua forccedila e conhecimento eacute descrita pelos sete chifres e sete olhos que

tambeacutem de certa maneira trata da compreensatildeo da divindade da qual eacute portador

porquanto representam ao mesmo tempo os sete espiacuteritos de Deus enviados a toda terra

Uma observaccedilatildeo junto ao texto de (Dn 711) eacute interessante aqui trata-se das

imagens e do contraste que existem entre elas

Em (Dn 711) temos um ldquochifrerdquo que proferia grandes palavras o que manifesta

ser possuidor de autoridade ou forccedila como tambeacutem diz que Daniel contempla um animal

morto e entregue ao fogo

No texto de Joatildeo temos os sete ldquochifresrdquo e um ldquoCordeiro imoladordquo poreacutem as

imagens seguem em direccedilotildees opostas com atribuiccedilotildees contrastantes mas que nos

permitem assimilar que as imagens fazem parte de um campo semacircntico e de um ambiente

de tradiccedilotildees acostumadas a lidarem com tais indiacutecios literaacuterios

Embora haja uma longa distacircncia entre os autores contudo entre as literaturas jaacute

natildeo eacute assim a circulaccedilatildeo e uso das tradiccedilotildees danieacutelicas em Qumran estatildeo bem

representadas uma vez que jaacute compraacutevamos tais evidecircncias

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d) v6 e 7 ndash O Cordeiro recebe o livro ndash A Vitoacuteria do Cordeiro

Assim tratamos o verso 6 como um cerimonial que estabelece a grandeza do

sacrifiacutecio de Jesus como de sua participaccedilatildeo na divindade evidenciando portanto os

atributos de que lhe satildeo conferidos por meio de uma Cristologia-Angelomoacuterfica

6 Καὶ εἶδον ἐν μέσῳ τοῦ θρόνου καὶ τῶν τεσσάρων ζῴων καὶ ἐν μέσῳ τῶν

πρεσβυτέρων ἀρνίον ἑστηκὸς ὡς ἐσφαγμένον ἔχων κέρατα ἑπτὰ καὶ ὀφθαλμοὺς ἑπτὰ οἵ εἰσιν

τὰ [ἑπτὰ] πνεύματα τοῦ θεοῦ ἀπεσταλμένοι εἰς πᾶσαν τὴν γῆν

6 E vi em o meio do trono e dos quatro viventes e em o meio dos anciatildeos um

cordeiro firme de peacute como tendo sido morto tendo chifres sete e olhos sete que satildeo os sete

espiacuteritos de Deus que satildeo enviados por toda a terra

Uma vez estabelecido o lugar do seu sacrifiacutecio e de sua participaccedilatildeo na divindade

aberto estaacute o caminho para receber o livro da matildeo do que estaacute assentado no Trono

7 καὶ ἦλθεν καὶ εἴληφεν ἐκ τῆς δεξιᾶς τοῦ καθημένου ἐπὶ τοῦ θρόνου

7 E ele veio e tem recebido de a direita do que se assenta em o trono

e) v8-14 ndash Celebraccedilatildeo ao Cordeiro ldquoSacerdoacutecio e Realeza do Cordeirordquo - por

parte dos seres Viventes e dos Anciatildeos por parte de ldquouma voz de anjosrdquo por parte

da criaccedilatildeo

A ordem eacute crescente expandindo-se metodicamente para a grande celebraccedilatildeo que se

inicia a partir do verso 8

8 Καὶ ὅτε ἔλαβεν τὸ βιβλίον τὰ τέσσαρα ζῷα καὶ οἱ εἴκοσι τέσσαρες πρεσβύτεροι

ἔπεσαν ἐνώπιον τοῦ ἀρνίου ἔχοντες ἕκαστος κιθάραν καὶ φιάλας χρυσᾶς γεμούσας

θυμιαμάτων αἵ εἰσιν αἱ προσευχαὶ τῶν ἁγίων

8 E quando recebeu o livro os quatro viventes os vinte e quatro anciatildeos prostraram-se diante o cordeiro tendo cada um harpa e taccedilas de ouro cheias de incenso

as quais satildeo as oraccedilotildees dos santos

Pringent47 menciona que o termo hebraico ldquokinnorrdquo eacute inspirado na Septuaginta que

quase sempre o traduz por ldquoκιθάραν ndash harpasrdquo e que o uso de ldquoφιάλας - taccedilasrdquo eacute

empregado unicamente no Apocalipse dentro no Novo Testamento tendo seu uso

47 PRIGENT Pierre O Apocalipse Traduccedilatildeo Luiz Joatildeo Barauacutena Satildeo Paulo ndash Loyola 2002119

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designado no Antigo Testamento junto a libaccedilatildeo de uso cultual e lituacutergico (cf Ex 27 3

38 3 Nm 4 14 I Rs 7 40ss)

Josefo48 menciona a presenccedila de duas taccedilas de ouro cheias de incenso sobre os patildees

da preposiccedilatildeo O Antigo Testamento faz menccedilatildeo constante de taccedilas de ouro e seu uso no

Templo um dos textos paradigmaacuteticos para essa questatildeo eacute o texto no qual Davi apresenta

todos os materiais para construccedilatildeo do Templo em (I Cr 28) com destaque para o (verso

17) ndash ldquoE ouro puro para os garfos e para as bacias e para os jarros e para as taccedilas de

ouro para cada taccedila seu peso como tambeacutem para as taccedilas de prata para cada taccedila seu

pesordquo

Natildeo haacute duacutevidas de que se trata de um ato lituacutergico Inicia-se a grande celebraccedilatildeo

pela qual o Cordeiro eacute em absoluto reconhecido como detentor do direito conquistado por

meacuteritos proacuteprios e assim pode abrir o livro A celebraccedilatildeo tem sua iniciativa pelos ldquoseres

viventes ndash hayotrdquo seguido pelos anciatildeos

O fato de os seres viventes iniciarem a celebraccedilatildeo nos remete a forccedila e ao

significado das tradiccedilotildees miacutesticas do Trono uma vez que jaacute podemos aferir durante a

pesquisa que a divindade que se assenta no Trono eacute sempre caracterizada por aclamaccedilotildees

que procedem das ldquohayotrdquo (como em Ezequiel)

Conveacutem ressaltar que o fato de os ldquoseres viventesrdquo prestarem culto ao Cordeiro as

insere num movimento narrativo pelo qual a ldquodignidade do Cordeirordquo alcanccedila o seu

cliacutemax uma vez que estes ldquoseres viventesrdquo aparecem na tradiccedilatildeo do misticismo judaico

apenas se dirigindo objetivamente com aclamaccedilotildees ao Trono e ao que se assenta sobre ele

Parece ser uma indicaccedilatildeo contundente de que o Cordeiro eacute reconhecido como Deus49

Os anciatildeos aparecem em segundo plano o que mantecircm os ldquoseres viventesrdquo da

tradiccedilatildeo miacutestica da Mercavaacuteh no primeiro plano Isto pode estabelecer algum tipo de

relaccedilatildeo de autoridade entre os ldquoseres viventesrdquo e os ldquoanciatildeosrdquo como tambeacutem uma espeacutecie

de ordem e de hierarquia estabelecida no tocante agrave liturgia uma vez que no capiacutetulo 4

tambeacutem aparecem sob a mesma oacutetica (cf Ap 4 89)

Incenso e oraccedilotildees satildeo elementos encontrados no AT no periacuteodo do Segundo

Templo em Qumran como em outros contextos lituacutergicos num mundo complexo e

diversificados de ritos cerimoniais ainda assim se destaca o uso por parte dos ritos

sacerdotais portanto natildeo eacute incomum neste cenaacuterio de modo que a cerimocircnia conta com

48 Ibid Apud Pringent p 119 - Antiguidades Judaicas 3143 49 Se assim o eacute as indagaccedilotildees sobre questotildees ligadas ao monoteiacutesmo judaico e a divindade de Jesus entram

em tensatildeo e novamente acende a fogueira das discussotildees em torno do assunto

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elementos que fazem parte das ofertas e sacrifiacutecios que apontam para a consolaccedilatildeo dos

santos

9 καὶ ᾄδουσιν ᾠδὴν καινὴν λέγοντεςmiddot ἄξιος εἶ λαβεῖν τὸ βιβλίον καὶ ἀνοῖξαι τὰς

σφραγῖδας αὐτοῦ ὅτι ἐσφάγης καὶ ἠγόρασας τῷ θεῷ ἐν τῷ αἵματί σου ἐκ πάσης φυλῆς καὶ

γλώσσης καὶ λαοῦ καὶ ἔθνους

9 E cantam cacircntico novo dizendo digno eacutes de receber o livro e de abrir os selos

dele porque foste morto e compraste ao Deus noacutes com o sangue teu de toda tribo e liacutengua

e povo e naccedilatildeo

Jaacute o verso 9 faz o papel de pronunciamento da cerimocircnia da realeza sacerdotal do

Cordeiro anunciando por meio do Cacircntico Novo o ldquoCacircntico do Cordeirordquo sua

ldquoDignidaderdquo sua ldquoAutoridade ndash manifestada no ato de abrir o livrordquo e a ldquoforccedila e gloacuteria de

Seu sacrifiacuteciordquo sacrifiacutecio este cuja extensatildeo dos benefiacutecios satildeo para todas tribos liacutenguas

povos e naccedilotildees

Um dos termos gregos empregado neste verso foi traduzido por ldquocompraste -

ἠγόρασαςrdquo poreacutem uma melhor traduccedilatildeo sustenta a compreensatildeo de ldquoalgueacutem que agora

assumiu o comando e estaacute agrave frente para conduzirrdquo isto nos insere melhor no verso

seguinte

10 καὶ ἐποίησας αὐτοὺς τῷ θεῷ ἡμῶν βασιλείαν καὶ ἱερεῖς καὶ βασιλεύσουσιν ἐπὶ

τῆς γῆς

10 E fizeste eles ao Deus nosso reis e sacerdotes e reinaratildeo sobre a terra

Neste somos introduzidos no acircmbito do ldquoCordeiro que conduz a todosrdquo e os torna

ldquoreis e sacerdotes e eles reinaratildeo sobre a terrardquo

Com base nos argumentos de Robins50 encontra-se no Egito um conceito que lanccedila

luz para a sua compreensatildeo e eacute muito semelhante ao que encontramos aqui pois soacute os

seres humanos ritualmente purificados isto eacute ldquoreis e os sacerdotesrdquo teriam tido acesso agraves

partes internas do Templo e entrar em contato com a estaacutetua de culto

50 Apud SCHMIDT Brian B Cult Image and Divine Representation in the ancient Near East edit ed by

Neal H Walls American Schools of Oriental Research Books Series nordm 10 Boston MA 200507

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Tambeacutem era comum do mundo antigo ver os ldquoReisrdquo como filho dos deuses como

no caso dos ldquoFaraoacutesrdquo No Antigo Testamento o sumo sacerdote uma vez por ano tinha

acesso ao santo dos santos assim podia ele soacute interceder pela naccedilatildeo

Partindo deste ponto de vista mais uma vez temos indiciacuteos da cultura Egipiacutecia

presentes no texto dentre outros paralelos que nos remetem a estrutura do mundo antigo e

a cosmovisatildeo que permeia as literaturas

Estes aspectos nos permitem ver um ambiente religioso que outrora entendia o

acesso aos deuses somente acessiacutevel a um grupo privilegiado de pessoas

Portanto o texto de (Ap cap 5) se contrapotildee a esta limitaccedilatildeo de acesso a

privilegiados O Cordeiro abriu um novo caminho pela ldquodiginidade de seu sacrifiacuteciordquo de

sorte que ldquofizeste eles ao Deus nosso reis e sacerdotes e reinaratildeo sobre a terrardquo Deste

modo o Cordeiro eacute cultuado na sala do Trono

Nessa linha de raciociacutenio Apocalipse 5 se torna um cerimonial de reconhecimento

do Sacerdoacutecio de Jesus e natildeo propriamente de uma entronizaccedilatildeo o que concorda com os

argumentos de Van Unnik citados por Aune51 que se contrapotildee ao texto como uma

narrativa onde se pode ver um ldquocerimonial de entronizaccedilatildeordquo indicando outras

probabilidades de interpretaccedilatildeo para a narrativa

Talvez a melhor hipoacutetese seja de unir as duas opiniotildees e fomar uma terceira a

saber Apocalipse 5 pode ser compreendido como um cerimonial do ldquoSacerdoacutecio Realrdquo

realizado na ldquoSala do Trono de Deusrdquo Este tema tambeacutem eacute sugerido pela proposta da

Epiacutestola aos Hebreus defendida na Tese de Doutorado de Cardoso52

Assim temos uma ldquoCerimocircnia do Sacerdoacutecio Real do Cordeiro na Sala do Trono

de Deusrdquo

Este cenaacuterio faz justiccedila ao desenlace textual e ao aacutepice do cerimonial inserido dos

versos 11 a 14

11 Καὶ εἶδον καὶ ἤκουσα φωνὴν ἀγγέλων πολλῶν κύκλῳ τοῦ θρόνου καὶ τῶν ζῴων

καὶ τῶν πρεσβυτέρων καὶ ἦν ὁ ἀριθμὸς αὐτῶν μυριάδες μυριάδων καὶ χιλιάδες χιλιάδων

12 λέγοντες φωνῇ μεγάλῃmiddot ἄξιόν ἐστιν τὸ ἀρνίον τὸ ἐσφαγμένον λαβεῖν τὴν δύναμιν καὶ

πλοῦτον καὶ σοφίαν καὶ ἰσχὺν καὶ τιμὴν καὶ δόξαν καὶ εὐλογίαν 13 καὶ πᾶν κτίσμα ὃ ἐν τῷ

οὐρανῷ καὶ ἐπὶ τῆς γῆς καὶ ὑποκάτω τῆς γῆς καὶ ἐπὶ τῆς θαλάσσης καὶ τὰ ἐν αὐτοῖς πάντα

ἤκουσα λέγονταςmiddot τῷ καθημένῳ ἐπὶ τῷ θρόνῳ καὶ τῷ ἀρνίῳ ἡ εὐλογία καὶ ἡ τιμὴ καὶ ἡ δόξα

51 AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978335 52 CARDOSO Joseacute Roberto Correcirca ldquoCristologia Angelomoacuterfica de Hebreus - Estudo Soacutecio-Retoacuterico e

Histoacuteria das Religiotildees Comparadas em Hebreus 11-14 25-18 71-10rdquo Satildeo Paulo UMESP 2005

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καὶ τὸ κράτος εἰς τοὺς αἰῶνας τῶν αἰώνων 14 καὶ τὰ τέσσαρα ζῷα ἔλεγονmiddot ἀμήν καὶ οἱ

πρεσβύτεροι ἔπεσαν καὶ προσεκύνησαν

11 E vi e ouvi como voz de anjos muitos ao redor o trono e dos viventes e dos

anciatildeos E era o nuacutemero deles miriacuteades de miriacuteades e milhares de milhares 12 Dizendo

em voz grande digno eacute o cordeiro o que foi morto receber o poder e a riqueza e sabedoria

e forccedila e honra e gloacuteria e louvor 13 E toda criatura que em o ceacuteu e sobre a terra e

debaixo da terra e sobre o mar estaacute e as em neles a todas eu ouvi dizendo ao que se

assenta em o trono e ao cordeiro o louvor e a honra e a gloacuteria e o poder para os seacuteculos

dos seacuteculos Ameacutem 14 E os quatro viventes dizendo o ameacutem E os anciatildeos prostraram-se

e adoraram

O cenaacuterio diante do Trono eacute tomado pela voz da multidatildeo constituiacuteda pelos anjos

os viventes e os anciatildeos - μυριάδες μυριάδων καὶ χιλιάδες χιλιάδων - miriacuteades e milhares

de milhares O objeto principal natildeo se perde de vista ldquoA Dignidade do Cordeirordquo Assim

como o ldquofilho do homemrdquo em (Dn 7 13 e 14) o Cordeiro recebe ldquoλαβεῖν τὴν δύναμιν καὶ

πλοῦτον καὶ σοφίαν καὶ ἰσχὺν καὶ τιμὴν καὶ δόξαν καὶ εὐλογίαν - o poder e a riqueza e

sabedoria e forccedila e honra e gloacuteria e louvor

A celebraccedilatildeo se estende por todo o Universo (cf v 13)

Aleacutem disso vemos nestes versos a intertextualidade onde se mesclam (Ap 48)

junto aos textos fundantes de (Is 63) que se encontra relacionado com (Dn 710) esta

uacuteltima passagem tem viacutenculo imprescindiacutevel com (Ap 511) onde se diz nas Escrituras

ldquodez mil vezes dez mil estavam com ele e um milhatildeo de homens o serviam e a Kedushaacute

(Is 63) - clamaram Santo Santo Santo eacute o Senhor dos exeacutercitos a criaccedilatildeo inteira estaacute

cheia de Sua gloacuteria53rdquo

Inserimos que o capiacutetulo 5 em sua expressatildeo final retorna como um elo que liga o

Cacircntico da Criaccedilatildeo do capiacutetulo 4 sob a menccedilatildeo de ldquoκαὶ πᾶν κτίσμα ndash toda criaturardquo

entrando em celebraccedilatildeo e fazendo uma memoacuteria ao capiacutetulo (411) ndash ldquoὅτι σὺ ἔκτισας τὰ

πάντα ndash porque tu criaste todasrdquo e assim o Trono o Cordeiro e a Criaccedilatildeo satildeo mais uma

vez unidos

53 AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978335

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Levando-nos ao cliacutemax e unindo os textos pela ecircnfase final

14 καὶ τὰ τέσσαρα ζῷα ἔλεγονmiddot ἀμήν καὶ οἱ πρεσβύτεροι ἔπεσαν καὶ προσεκύνησαν

14 E os quatro viventes dizendo o ameacutem E os anciatildeos prostraram-se e adoraram

Assim temos dois cacircnticos unidos por elos de uma corrente bem delineada de

cerimocircnias que acontecem na ldquoSala do Trono de Deusrdquo e que nos conduz a admiraccedilatildeo de

uma liturgia Judaico-Cristatilde proveniente de uma pena cuja grandeza de sua experiecircncia

religiosa se reflete no espelho do ldquoMISTICISMO JUDAICO E APOCALIacutePTICO NO

APOCALIPSE DE JOAtildeO CAPIacuteTULOS 4 E 5 ndash ASCENSAtildeO E VIAGEM CELESTIAL

NO CRISTIANISMO PRIMITIVOrdquo

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

Este artigo teve o objetivo de demonstrar como as recentes pesquisas da exegese do

Novo Testamento vem sendo processados agrave luz das tradiccedilotildees do judaiacutesmo antigo e suas

correntes A menccedilatildeo da descoberta dos manuscritos de Qumran e o fortalecimento dos elos

das pesquisas ao longo dos uacuteltimos 100 anos em relaccedilatildeo ao ambiente histoacuterico do Novo

Testamento Assim contribui este artigo para que alunos dos cursos de teologia tenham

acesso as metodologias da exegese que vem sendo aplicadas ao Novo Testamento

principalmente a literatura apocaliacuteptica

A pesquisa delimita que Apocalipse cap 5 podem ser visto como um bom redator e

que alcanccedila o ecircxito em seu objetivo atraveacutes da transmissatildeo de sua experiecircncia visionaacuteria

tendo como moldura as tradiccedilotildees miacutesticas do judaiacutesmo do segundo templo Conveacutem

mencionar que em tempo algum se coloca interrogaccedilotildees na ascensatildeo de Joatildeo ateacute a sala do

trono contudo o que se preconiza eacute que Joatildeo tem uma experiecircncia no acircmbito das tradiccedilotildees

de seu contexto histoacuterico e que a transmissatildeo de sua experiecircncia segue as correntes

apocaliacutepticas de seu entorno

Concordamos com Collins54 ao mencionar que natildeo podemos eliminar a

possibilidade de que o autor (autores) tenha tido uma experiecircncia miacutestica mas podemos

discutir (as obras) como produto literaacuterio considerando sua funccedilatildeo e efeito

54 COLLINS John J A Imaginaccedilatildeo Apocaliacuteptica ndash Uma Introduccedilatildeo Literaacuteria a Apocaliacuteptica Judaica Satildeo

Paulo ndash Paulus 20109394

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Assim os ouvintes tanto nas tradiccedilotildees fundantes e cacircnticos de Qumran quanto no

cacircntico de Apocalipse 5 conforme narrado por Joatildeo satildeo representados por um grupo

emoldurado pelo sentido de ldquocomunidade celestial eou comunidade angelomoacuterficardquo que

se compreendiam em acesso ao culto celestial e que celebravam ao Cordeiro como aquele

que venceu e lhes proporcionou acesso ldquoos tornando reis e sacerdotesrdquo

Rowland e Gruenwald concordam entre si no que diz respeito ao ecletismo que

Joatildeo apresenta em sua literatura Rowland entende que Joatildeo tem uma experiecircncia proacutexima

a que acontece com Enoque mas nota disparidades

Os resultados desta pesquisa apontam para os textos e consideram suas diferenccedilas e

similaridades concordamos que as narrativas manifestam fidelidade agraves tradiccedilotildees do

judaiacutesmo do segundo templo e dos traccedilos encontrados nos manuscritos de cacircnticos de

Qumran por um lado e que tambeacutem apresentam um tipo ruptura com as tradiccedilotildees

sacerdotais mais consevadoras estas ultimas mais ligadas as tradiccedilotildees dos farises o templo

terrestre de Jerusaleacutem os quais buscavam conciliar uma visatildeo universalista dogmaacutetica para

o seu tempo

Ao mesmo tempo herdeiro das tradiccedilotildees miacutesticas do periacuteodo do Segundo Templo

como tambeacutem das tradiccedilotildees de Qumran o capiacutetulo 5 demonstra um estilo literaacuterio que

revela um compositoacuterio mais ecleacutetico produzindo uma nova memoacuteria e experiecircncia

religiosa permeada por tons das tradiccedilotildees do judaiacutesmo da Mercavaacuteh e de uma Cristologia-

Angelomoacuterfica onde o Cordeiro eacute cultuado como ldquosacerdote real e vice-regente celestialrdquo

com direito a uma adoraccedilatildeo universal

Caracteriacutesticas sacerdotais do misticismo judaico do periacuteodo do Segundo Templo

ornamentada pelos (Cacircnticos - Shirot de Qumran) prestam a contribuiccedilatildeo em relaccedilatildeo a

elaboraccedilatildeo do pano de fundo apocaliacuteptico e a produziccedilatildeo das imagens e mensagem da obra

literaacuteria de Joatildeo

A tiacutetulo de esclarecimentos podemos observar que diferente de alguns apocalipses

e relatos da comunidade de Qumran onde a comunidade participa do culto junto com os

anjos o autor do capiacutetulo 4 fica na periferia da liturgia celeste e natildeo participa dela sua

funccedilatildeo estaacute restrita a de um vidente passivo aquele que contempla podendo-se se definir a

narrativa como um ldquoCerimocircnial de Contemplaccedilatildeordquo e o capiacutetulo 5 como um ldquoCerimocircnial

de Celebraccedilatildeordquo

No capiacutetulo 5 Joatildeo participa ativamente com suas emoccedilotildees ldquochora copiosamente e

se regozija sobremaneirardquo Sendo uma liturgia rica de estaacutegios de admiraccedilatildeo e que convida

a comunidade para uma grande celebraccedilatildeo universal

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Assim as palavras que melhor resumem os resultados de nossa pesquisa satildeo as de

DeConick55 Seus argumentos se posicionam sob a afirmaccedilatildeo de que o antigo judaiacutesmo e o

misticismo cristatildeo conjuntamente identificam uma tradiccedilatildeo miacutestica bilateral que flui

atraveacutes do judaiacutesmo e cristianismo durante seus anos formativos Um encontro das

tradiccedilotildees cujo diaacutelogo eacute desenvolvido simultaneamente dentro de contextos histoacutericos que

podem ser comparados A tradiccedilatildeo miacutestica preservada em suas literaturas eacute corretamente

caracterizada como manifestaccedilotildees da religiosidade judaica e cristatilde nos periacuteodos heleniacutestico

e romano

Assim o texto do Apocalipse cap 5 pode ser compreendido e interpretado agrave luz da

exegese e seus pressupostos com base nas tradiccedilotildees do misticismo judaico e apocaliacuteptico

tambeacutem experimentada como uma tradiccedilatildeo contiacutenua pelos membros da comunidade de

Qumran

Como resultado o artigo demonstra que as interpretaccedilotildees fundamentalistas que

menosprezam o estudo teoloacutegico e a pesquisa cientiacutefica das Escrituras perdem a sua forccedila

porquanto temos hoje acesso a documentaccedilatildeo que viabiliza processos exegeacuteticos de maior

abrangecircncia abertos e receptivos demonstram que eacute possiacutevel acessar o mundo dos textos

onde as experiecircncias religiosas se deram e que podemos contemplar renovadamente o

conhecimento das celebraccedilotildees liturgias e compreender a funccedilatildeo das narrativas aplicando-

as aos nosso dias com maior clareza e coerecircncia

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Editora Hagnos 2004

REGA Lourenccedilo Stelio e Johannes Bergmann Noccedilotildees do Grego Biacuteblico Satildeo

Paulo Ediccedilotildees Vida Nova 2004

Autor ndash Me Marcelo Alves Dantas

Gestor do Curso Superior de Teologia -

FATEJ

Docente FATEJ FADISA

Mestre em Ciecircncias da Religiatildeo -

UMESP

Mestre em Teologia do Novo Test -

FTBSP

Bacharel em Direito - UNIESPFAPAN

Docecircncia do Ensino Superior -

UNOPAR

Bacharel em Teologia - UMESP

E-mail

marcelodantasteologiagmailcom

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A TERCEIRIZACcedilAtildeO DA FEacute NOS TEMPOS DE PANDEMIA E

ISOLAMENTO SOCIAL O SURGIMENTO DO ldquoPERSONAL PROFECTrdquo ndash E AS CRISES DE ESPIRITUALIDADE

RESUMO

O tema da terceirizaccedilatildeo da feacute eacute notoacuterio nas relaccedilotildees humana e religiosas desde que se

compreendeu que estar junto como povo era uma condiccedilatildeo de se viver o desejo de Deus

e automaticamente era tambeacutem necessaacuterio encontrar responsaacuteveis ou direcionadores da

caminhada de feacute e da espiritualidade Acontece que no tempo de pandemia e isolamento

social esta condiccedilatildeo ficou ainda mais complexa Ao que entendendo parece que a

terceirizaccedilatildeo da feacute se tornou recurso inerente das relaccedilotildees espirituais - Ecircxodo 2019 [] E

disseram a Moiseacutes Fala tu conosco e ouviremos e natildeo fale Deus conosco para que natildeo

morramos - Neste episoacutedio podemos ancorar o comportamento aqui discutido Seja pela

autocriacutetica que nos faz nos compreender como inaptos para algo ou alguma funccedilatildeo seja

pela perspectiva da aprendizagem de economizar e ou otimizar tempo e recursos ou como

sustentava o meacutedico e psicanalista Donald Winnicott56 (1896 -1971) - ldquoTodos temos

tendecircncia a amadurecer desde que o ambiente em que somos criados nos favoreccedilardquo

segundo sua teoria a ldquoterceirizaccedilatildeordquo do amadurecimento se daacute jaacute na primeira infacircncia

Tese amplamente verificada na sociedade de hoje como uma nova epidemia a recusa ao

crescimento em todas as esferas Jovens na igreja com mais de 40 anos

Palavras-chave Terceirizaccedilatildeo Feacute religiatildeo espiritualidade

ABSTRACT

The theme of outsourcing the faith has been evident in human and religious relations since

it was understood that being together as a people was a condition for living the desire of

God and automatically it was also necessary to find those responsible or guiding the faith

56 Winnicott tornou-se um meacutedico contratado do Departamento Infantil do Instituto de Psicanaacutelise onde

trabalhou durante 25 anos Foi presidente da Sociedade Britacircnica de Psicanaacutelise por duas gestotildees membro da

UNESCO e do grupo de experts da OMS Atuou como professor no Instituto de Educaccedilatildeo e na London

School of Economics da Universidade de Londres Dissertou e escreveu amplamente como atividade

profissional independente

autor

Me Marcos Camilo Santana

e-mail revmarcossantanagmailcom

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journey of spirituality It turns out that in a time of pandemic and social isolation this

condition became even more complex From what I understand it seems that the

outsourcing of faith has become an inherent resource of spiritual relationships - Exodus

2019 [] And they said to Moses You speak to us and we will listen and do not speak

God with us lest we die - In this episode we can anchor the behavior discussed here

Whether through self-criticism which makes us understand ourselves as unfit for

something or some function either through the perspective of learning to save and or

optimizing time and resources or as the doctor and psychoanalyst Donald Winnicott

(1896-1971) maintained - ldquoWe all have tendency to mature as long as the environment in

which we are raised favors us rdquoaccording to his theory theldquo outsourcing rdquoof maturation

occurs in early childhood Thesis widely verified in todays society as a new epidemic the

refusal of growth in all spheres Young people in the church over 40 years old

Keywords Outsourcing Faith religion spirituality

INTRODUCcedilAtildeO

Este cenaacuterio da crise de amadurecimento somados agrave sociedade de cansaccedilo e de

transparecircncia que eacute discutida por Byung-chul han57 onde todos estatildeo na expectativa e

ainda tem-se a falsa sensaccedilatildeo de liberdade promovida pelos enormes dados disponiacuteveis

pelos algoritmos que entregamos para empresas como Google e Facebook favorecendo

para a explosatildeo dos coachings dos ldquopersonal profectrdquo como que numa soluccedilatildeo para

minhas incapacidades minhas emergecircncias ou simplesmente economia e autogiro de

informaccedilotildees

Algueacutem seraacute responsaacutevel pela minha espiritualidade e seraacute trocado a cada

frustraccedilatildeo que eu passar Em siacutentese terceirizar eacute delegar seja qual for o motivo toda vez

que o recurso eacute ldquoore por mim que natildeo sei orarrdquo ou ldquoverei no youtube para compreensatildeo da

leitura biacuteblicardquo e ou simplesmente ldquonatildeo me envolvordquo Deleguei Terceirizei

Neste cenaacuterio temos alguns incocircmodos principalmente no periacuteodo de isolamento

social ou pandemia Surge um ponto importante para os liacutederes religiosos e espirituais

Como ajudar outros a amadurecer na feacute sem criar dependecircncias do seu modelo de

espiritualidade

57 Um filoacutesofo teoacutelogo e teoacuterico cultural da Alemanha nascido na Coreacuteia do Sul

55

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Espiritualidade e feacute satildeo aquelas grandes aacutereas da vida que natildeo haacute como ser

delegada A antiga maacutexima de que ldquofilho de peixe peixinho eacuterdquo revela o tamanho da

responsabilidade que temos Estamos falando do nosso relacionamento com Deus De uma

busca Eacute individual Infelizmente a igreja e o povo se distanciaram da proposta de Jesus

Cristo para conhecer o Pai era necessaacuterio conhececirc-lo (Joatildeo14) relacionar-se tatildeo somente

Neste tempo de isolamento a busca pessoal estaacute passando proacutexima do consumo apenas

Assistir cultos online ouvir pregaccedilotildees e canccedilotildees todavia a proposta do cristianismo eacute de

mobilidade e vivencia real E a pandemia revelou a fragilidade de algumas

espiritualidades

Espiritualidade pode ser aprendida no coletivo mas deve ser amplamente

estimulada para desenvolvimento individual Pequenos grupos ceacutelulas e ou qualquer

ajuntamento do povo de Deus devem ser reflexos da vida de culto de cada membro ndash Isaias

601 ndash ldquoDispotildee-te e resplandece porque vem a tua luz e a gloacuteria do Senhor nasce sobre tirdquo

Precisamos sempre lembrar que nossa vocaccedilatildeo e missatildeo satildeo ser sal e luz Natildeo daacute

para ser de outra maneira Entretanto nestes cenaacuterios de isolamento social as pessoas a

sociedade ficaram ainda mais distante do desenvolvimento de espiritualidade

1 OUTROS PROBLEMAS INFLUENCIANDO A ESPIRITUALIDADE NO

TEMPO DE ISOLAMENTO SOCIAL DO ATEIacuteSMO CETICISMO OU UMA

BUSCA MAL DIRECIONADA DA ESPIRITUALIDADE PODERAtildeO

INFLUENCIAR AS RELACcedilOtildeES DE FEacute

Quando pensamos em ateiacutesmo automaticamente nos vecircm agrave mente Andreacute Comte

Sponville e sua teoria de que moral e espiritualidade todos tecircm e precisam ser desenvolvida

independente de crenccedilas e valores

Entretanto o que vemos hoje satildeo pastores e liacutederes acessando e balizando sua

conduta teoloacutegica e reflexiva em pensadores do ateiacutesmo e neo-ateiacutesmos pois as questotildees

da moral e da boa espiritualidade vecircm em primeiro lugar

Assim estamos arriscando pois o evangelho que nos foi inserido para hoje ser por

exemplo pastor da IPIB estava primeiro na compreensatildeo da vontade de Deus para minha

vida passando pela dinacircmica da salvaccedilatildeo tendo que compreender minha participaccedilatildeo no

corpo de Cristo e por uacuteltimo como cidadatildeo Observemos que moralidade era construccedilatildeo

familiar e natildeo funccedilatildeo pastoral

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Ao que parece temos um grupo preocupado apenas na dinacircmica pessoal deixando

assim um ceticismo aparente e consequentemente a espiritualidade pessimamente

direcionada

Quase que daacute para ouvir as perguntas de Sponville Pode-se viver sem religiatildeo

Deus existe Os ateus estatildeo condenados a viver sem espiritualidade

E assim se relativizam as respostas Preciso apenas ser um bom cidadatildeo Quando

lembramos que somos chamados para ser pequenos cristos isto eacute viver

desconfortavelmente e se necessaacuterio arrancar o olho (Mateus 189) ser radical ser a

mensagem da Salvaccedilatildeo

De repente o grande problema seja a ligaccedilatildeo dos conceitos acima Pastores ouvindo

os filoacutesofos ateus mais inteligentes igreja ouvindo toda sorte de produccedilatildeo teoloacutegica e

como resultado caminhos sem rumo e quando levados para a contingencia do isolamento

soacutecio a falecircncia foi grande

2 VIVEMOS - ldquoUMA NOVA FEacute PARA UM NOVO TEMPO58rdquo ONDE

VERIFICAMOS COMO COMPREENDER A FEacute E SUAS APLICACcedilOtildeES

COMO VIVENCIAR A FEacute NA ATUALIDADE

Estamos tateando a feacute que agrada a Deus registrado na palavra eacute a feacute da

mobilidade Deus usa o que estaacute em movimento em accedilatildeo Quando pede para os profetas se

levantarem (Ezequiel) porque natildeo fala com quem se autovitimam ou se casarem ou

seguirem ou mesmo para Abraatildeo natildeo ficar no local da frustraccedilatildeo e avanccedilar estou

apontando para um tempo que haacute a sensaccedilatildeo de grande movimento

Excesso de informaccedilatildeo possibilidade infinitas Entretanto vemos o paradoxo de

pessoas com medo do agir de Deus mais natural que eacute nascer crescer amadurecer casar

ou encontrar sua razatildeo de ser Espera-se o sobrenatural todavia o natural ficou

insuportaacutevel

Se Deus usa quem estaacute em movimento logo fariacuteamos o que Jesus disse ldquoNa

verdade na verdade vos digo que aquele que crecirc em mim tambeacutem faraacute as obras que eu

faccedilo e as faraacute maiores do que estas porque eu vou para meu Pai (Joatildeo 1412) ndash ao que

parece vivemos uma feacute infantilizada

58 Livro de Marcos Camilo de Santana que aborda a questatildeo da feacute no tempo de miacutedias e relaccedilotildees on demand

e digital Editora Recriar Satildeo Paulo 2019

57

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Daiacute a necessidade de se voltar sempre a origem Estar unido servindo e crescendo

ateacute a estatura de varatildeo perfeito (Efeacutesio 413-15)

3 HOJE Eacute PRECISO RESSIGNIFICAR ALGUNS CONCEITOS SOBRE A FEacute

A Reforma Protestante se mostrou como o maior exemplo de junccedilatildeo de feacute e reflexatildeo social

em seu tempo Ela correspondeu no campo religioso ao Renascimento no campo artiacutestico ao

Humanismo na Filosofia ao mercantilismo para a nascente economia capitalista

Como afirma Max Weber existiram afinidades eletivas entre esses movimentos que

engendraram a crise da sociedade medieval e a gestaccedilatildeo da modernidade Antes da Reforma a feacute

soacute era pensada pelos sujeitos que ocupavam seus fixos lugares na hierarquia social a partir do

conceito de cristandade da mediaccedilatildeo entre o indiviacuteduo e Deus realizada pela Igreja e pelo

paradigma teocecircntrico de pensamento

Eacute agora um ldquolugar-comumrdquo dizer que a eacutepoca moderna fez surgir uma forma nova e

decisiva de individualismo O produto da feacute para a preacute-modernidade e modernidade estaacute baseado e

construiacutedo na identidade protestante a doutrina da justificaccedilatildeo pela feacute que colocava o homem

perante Deus sem a mediaccedilatildeo da instituiccedilatildeo eclesiaacutestica que julgava o meacuterito das obras e mantinha

os fieacuteis em seus lugares tradicionais na sociedade foi e eacute o pilar de todo um periacuteodo

A feacute estaacute refletida em toda a sociedade todavia natildeo se sabe bem seu significado real em

agradar a Deus

Parece que ao delegar se ressignificou mas de forma negativa Penso entatildeo que devemos

voltar agraves palavras do Aposto Paulo [] De sorte que a feacute eacute pelo ouvir e o ouvir pela palavra de

Deus (Romanos 1017) isto eacute do proacuteprio Deus Temos ouvido muitas pregaccedilotildees e reflexotildees Mas

ouvir o proacuteprio Deus tenho minhas incertezas E o isolamento social poderia ter esta marca na

histoacuteria recente da cristandade

Temos ainda as miacutedias e redes sociais que facilitam muito o nosso dia a dia

Encontramos nelas muitos recursos de ensinos e praacuteticas sobre a vida cristatilde neste sentido

precisamos olhar os proacutes e contras destas ferramentas para o periacuteodo de isolamento social

Byung Chu Han no seu texto sobre a sociedade que vive no ldquoenxamerdquo59 da

informaccedilatildeo sustenta que os recursos satildeo de fato quase ilimitados - ldquonosso comportamento

nossa percepccedilatildeo nossa sensaccedilatildeordquo nossas relaccedilotildees estatildeo embebidas do mundo digital

De forma especiacutefica e positiva ganhamos voz o confronto proposto aos bereianos

registrado em Atos eacute hoje imediato Em aulas ou pregaccedilotildees na comunidade local os

irmatildeos e irmatildes consultam na hora a informaccedilatildeo

59 Han Byung Chu No Enxame Perspectivas do digital ndash Petroacutepolis -Vozes 2019

58

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Ferramentas de comunicaccedilatildeo e contatos facilitam enormemente a atuaccedilatildeo pastoral

Mas concordo com Han quando de forma dura ndash criacutetica dizendo que haacute tambeacutem ndash o

Shitstorm ndash ou tempestade de indignaccedilatildeo

Irmatildeos homens e mulheres que se mobilizam para enfrentar pensamentos

contraditoacuterios na rede mas natildeo conseguem compor uma adoraccedilatildeo Dizem aos montes natildeo

saber orar mas a criticidade eacute viva

Satildeo criacuteticos de poliacutetica e natildeo profetas A Epidemia e isolamento social nos levaram

agrave necessidade de se debruccedilar sobre o profetismo e usar de forma eficaz estas ferramentas

Evangelizar Testemunhar Anunciar efetivamente o Reino e a Graccedila E na contribuiccedilatildeo

temos algumas questotildees sobre o radar A incerteza econocircmica as demandas da vida diaacuteria

e os horaacuterios variados de trabalho afetaram a feacute das pessoas

Ao que observamos sempre afeta natildeo vou colocar se positiva ou negativamente

pois temos olhado ateacute aqui que estamos falando de feacute imatura e feacute consolidada

Independente da categoria que se olhar a Feacute precisa do contraditoacuterio e da

mobilidade Para minha experiecircncia a Feacute estaacute em movimento e vai passar pela becircnccedilatildeo da

rotina Das experimentaccedilotildees no supermercado ao culto Deus que eacute criativo tem tocado e

mobilizado seu povo

Com ele tambeacutem os que precisam de confronto Todavia reforccedilo que algumas

vezes natildeo sobra pedra sobre pedra como se vecirc nos apoacutestolos e nos pais da Igreja e na

leitura que faccedilo da caminhada do povo - Feacute inabalaacutevel se constroacutei com sangue suor e

laacutegrimas

A necessidade de acreditar e adorar algo satildeo inerentes ao ser humano Surge outro

pensamento para resultado do isolamento social e da pandemia - Existem cristatildeos vivendo

uma feacute nominal Eacute possiacutevel detectar esse comportamento

Atribuiacutedo ao Fiodor Dostoieacutevski ou a Blaise Pascal o entendimento que haacute no ser

humano o buraco da alma do tamanho de Deus e por consequecircncia a capacidade de

construir iacutedolos e adorar

Daiacute a conversa ateacute aqui construiacutemos iacutedolos e padrotildees que para alcanccedilaacute-los

automaticamente terceirizamos ateacute como adorar

Haacute quem queira ateacute as palavras corretas os ldquoatos profeacuteticosrdquo os valores que

correspondam agrave benccedilatildeo que preciso Essencialmente temos livre acesso sacerdoacutecio

universal entre outros pontos que sabemos nominalmente mas efetivamente o que isto

simboliza

59

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Vemos na igreja o consumo indistinguiacutevel de conteuacutedo teoloacutegico religioso

filosoacutefico e na mesma direccedilatildeo temos a caminhada de feacute Sendo quase prolixo a feacute eacute feita

de caminhada em conjunto Orar uns pelos outros e uns com os outros passando pela

adoraccedilatildeo puacuteblica e estar diante dEle

Os da feacute nominais amam a igreja mas desconfiam do pastor Amam a trajetoacuteria de

um passado que ilude pois olham para o presente como se natildeo houvesse mais soluccedilatildeo E

quanto ao futuro dizem a Deus pertence como se soasse ldquoadeus pertencerdquo ndash quero dizer

acabou aquele pertencimento aquelas histoacuterias

Deus eterno estaacute trabalhando ateacute agora Por isso a adoraccedilatildeo ao que sempre estaacute no

meio do povo

4 QUAL A MENSAGEM OU CONSELHO SOBRE O VIVER UM

CRISTIANISMO COERENTE QUE SOBREVIVA A ISOLAMENTOS SOCIAIS

E PANDEMIAS

Precisamos amar a criatividade e o processo construtivo do reino e comunidade

Vejo Cristo caminhando de forma livre abenccediloadora e plural dialogando com todos

quantos cruzarem seu caminho

Natildeo haacute propriamente conselho ou mensagem mas a oraccedilatildeo eacute para que o povo

esteja livre para esse Deus trino que nos enviou seu Espiacuterito Santo para sermos livres

Oro para natildeo precisarmos de intermediadores Natildeo deleguem o grande desejo do

Senhor Diz sua palavra ldquo[] agrada-te do Senhor e espera nEle e ele satisfaraacute o desejo do

coraccedilatildeo (Salmo 37) ndash Que este desejo seja sua presenccedila sua doce voz seus ensinos seu

confronto Natildeo outras coisas quaisquer

Agravequele que estaacute buscando ser o orientador o ldquopersonal profectrdquo o mentor ndash

lembre-se da recomendaccedilatildeo do Cristo [] Pode porventura o cego guiar o cego Natildeo

cairatildeo ambos na cova (Lucas 639)

Que os poderes deste tempo natildeo corrompam nossos costumes Servos Somos

Servos Chamados para Caminhar juntos lavando os peacutes uns dos outros

Se delegarem a vocecirc a autoridade de conduzir ndash e a exemplo de Corneacutelio com

Pedro (Atos 10) ndash fuja e apresente-se como homem que tambeacutem estaacute na caminhada da feacute

Joatildeo Calvino reformador protestante entende que a feacute e a espiritualidade natildeo eacute

uma expectativa ou confianccedila mas uma convicccedilatildeo No seu comentaacuterio do Salmo 42 ele

apresenta a certeza que o salmista tinha do livramento divino natildeo como ldquouma expectativa

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imaginaacuteria produzida por uma mente fantasiosa mas confiado nas promessas de Deus ele

natildeo soacute se anima a nutrir soacutelida esperanccedila mas tambeacutem se assegura de que receberia

infaliacutevel livramentordquo

Tal afirmaccedilatildeo mostra como o reformador se identificava com a perspectiva teiacutesta

cristatilde ao mostrar a feacute como uma convicccedilatildeo sustentada por um objeto definido e real isto eacute

Deus Aleacutem disso Calvino em um de seus sermotildees diz que ldquonossa feacute natildeo tem que estar

fundamentada no que tenhamos pensado por noacutes mesmos mas no que nos foi prometido

por Deusrdquo

Com esta ideia o Pastor de Genebra mostra seu compromisso com a cosmovisatildeo

cristatilde de que a feacute tem como objeto de sustentaccedilatildeo natildeo apenas o ser divino mas a revelaccedilatildeo

que ele faz de sua vontade

Ao comeccedilar a discorrer sobre a feacute Calvino condena o pensamento de que feacute eacute

apenas consentimento ou especulaccedilatildeo

ldquoCom efeito a maioria dos homens ao ouvir falar de feacute nada mais profundo

concebe do que certo assentimento comum agrave histoacuteria do Evangelho De fato

quando nas escolas discutem a respeito da feacute afirmando simplesmente que Deus

lhe eacute objeto mercecirc de efecircmera especulaccedilatildeo Transviam as miacuteseras almas em

vez de as dirigirem ao seu destinordquo60

Nestas palavras ele deixa clara sua distacircncia da percepccedilatildeo de que feacute eacute tatildeo somente

uma concordacircncia com algo que foi dito Calvino agrave semelhanccedila dos demais reformadores

cristatildeos tambeacutem pensava a feacute como convicccedilatildeo em Deus e em sua revelaccedilatildeo Contudo

ainda fazendo parte da cosmovisatildeo teiacutesta cristatilde em seus escritos mostra algumas

divergecircncias de outros cristatildeos quando discorre sobre este assunto

Calvino entende que Deus natildeo eacute somente o objeto da nossa feacute mas igualmente o

autor da mesma

ldquoA feacute convicta natildeo depende do endosso humano mas ao contraacuterio eacute nosso

dever repousar na verdade nua de Deus de modo que nem os homens nem todos

os anjos juntos tenham como despojar-nosrdquo (CALVINO p 49)

Nas Institutas Calvino afirma que ldquonoacutes soacute somos levados a Cristo e seu reino em

genuiacutena e verdadeira feacute em virtude do Espiacuterito do Senhorrdquo Isto significa que aleacutem de

objeto da feacute Deus eacute tambeacutem aquele que nos conduz agrave mesma Eacute impossiacutevel de acordo

com o pensamento de Calvino que algueacutem tenha genuiacutena feacute em Deus sem que tenha sido

conduzido ao mesmo por Deus mediante seu Espiacuterito Calvino valoriza a oraccedilatildeo para ele

60 12 Calvino Joatildeo Instituicioacuten de la religioacuten Cristiana Livro III cap 2 seccedilatildeo 1

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o principal exerciacutecio da feacute eacute a oraccedilatildeo ldquoA oraccedilatildeo eacute fruto da feacute verdadeira eacute a manifestaccedilatildeo

da graccedila na almardquo (STROHL 2004 p 49)

Vemos em Calvino uma feacute disposta Segundo ele a feacute opera grande virtude de se

manter a confianccedila em Deus mesmo quando ele nos envia a morte o oproacutebrio a

enfermidade e a indigecircncia Calvino diz que a praacutetica da oraccedilatildeo eacute uma ordenanccedila eacute a

preparaccedilatildeo a fim de entrarmos em coloacutequio com Deus

Ele defende que a feacute eacute dada por Deus a quem ele deseja Isto eacute ela tem origem natildeo

no homem mas no Criador A feacute na perspectiva calvinista natildeo eacute fruto do esforccedilo humano

natildeo deriva das capacidades inatas do homem em crer piamente em algo tampouco decorre

de alguma habilidade adquirida e desenvolvida ao longo da vida de quem quer que seja

Para Calvino a verdadeira feacute soacute existe quando decorre de Deus que aleacutem de ser seu

autor eacute o seu objeto maior Esta perspectiva da feacute novamente levanta homens e mulheres

para uma resposta ao dom de Deus E para ele eacute impossiacutevel que a verdadeira feacute caminhe

dissociada da Palavra de Deus Retirada a Palavra a feacute fica impossibilitada de resistir a

algo Isto pelo fato de que acima de qualquer outra coisa eacute mediante a feacute que vecircm o

conhecimento da verdade de Deus e a elucidaccedilatildeo da revelaccedilatildeo feita na natureza que

aponta para a existecircncia do Criador mas que sem a Palavra permanece obscurecidamente

compreendida

A feacute ganha perspectiva de engajamento social e em seu texto Humanismo Social

temos evidecircncias de que os ldquoeleitosrdquo pela feacute satildeo atuantes e envolvidos com seu meio

social

Movimentos posteriores eacute a maior prova de como a feacute tomou projeccedilotildees conquistou

e mobilizou vaacuterias geraccedilotildees Portanto caminhamos para a compreensatildeo de que o seacuteculo

XVI era um novo tempo e a feacute vivenciada estava totalmente desfocada de protestante

vemos que a feacute eacute fustigada a prestar conta em seu tempo e o produto desta soacute eacute evidenciado

com o viver intensamente desta feacute Assim nos tempos de isolamento social eacute importante

ver na histoacuteria da cristandade q necessidade de um povo que avanccedila apesar das lutas e

desafios

Para o tempo presente eacute importante que tiremos de Deus a maacutescara da

onipotecircncia Nosso Deus sempre se relacionou e se relaciona Ele natildeo eacute cristatildeo Muito

antes de qualquer crenccedila Ele jaacute existia O que vem posteriormente eacute apenas religiatildeo que

passaram a avocar para si a propriedade do Todo-poderoso como se o Criador fosse

patrimocircnio exclusivo do homem e natildeo o contraacuterio

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Daiacute o fruto desta inversatildeo na relaccedilatildeo de feacute foi de intoleracircncias e conflitos com a feacute

que Deus nos daacute Evidentemente natildeo poderiacuteamos tirar essa ldquomaacutescara de Deusrdquo

imaginando-nos independentes do mundo que vivemos

Pelo contraacuterio demos muita atenccedilatildeo a este mundo agrave pouca credibilidade que ele

reserva agrave Igreja e agrave Feacute quando trata de seus negoacutecios ao crescimento impressionante do

poder da humanidade em inuacutemeros setores e agraves consequecircncias perversas desse poder A feacute

em muito contribuiu para este crescimento mas verificamos tambeacutem como realidade cada

vez mais inegaacutevel que este poder em plena expansatildeo contra a feacute e pela feacute natildeo gera vida

Muitos vivem esquecidos e excluiacutedos enquanto outros em atitude de autodefesa

preventiva refugiam-se nos corporativismos e nos ciacuterculos fechados Hoje todo esse poder

humano cava um vazio enorme insuportaacutevel explorado por seitas de todo tipo que

mediante promessas e exigecircncias aberrantes recrutam seguidores com a maior facilidade

nessa multidatildeo de pessoas amarguradas e desprovidas do essencial da feacute dada por Deus

que sofrem Segundo os evangelhos eacute diante de gente assim que Jesus se sentia ldquotomado

de compaixatildeordquo

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

No cenaacuterio atual da feacute prosseguir na proclamaccedilatildeo da onipotecircncia de Deus seja

associando-a a tudo que eacute extraordinaacuterio ou sem explicaccedilatildeo seja repetindo ingenuamente o

credo tradicional sem explicaccedilatildeo e reflexatildeo sem perceber as interpelaccedilotildees que essa

proclamaccedilatildeo hoje levanta seraacute continuar contribuindo para a rejeiccedilatildeo do Evangelho e da

real dimensatildeo da feacute que estaacute tatildeo deplorada pelas igrejas O Deus de Jesus Cristo instiga os

seus a exaltar seu poder Ou pede que reconheccedilam seu amor A ldquogeraccedilatildeo maacute e aduacuteltera

que reclama um sinalrdquo (Mateus 1239 e 164) ldquogeraccedilatildeo increacutedulardquo (Marcos 919) seriacuteamos

nos hoje confessando a feacute e impondo teimosamente a maacutescara da onipotecircncia ao Deus que

se revela pela face de Cristo crucificado

Apoacutes tantas ilusotildees de um progresso sem fim da humanidade apoacutes tantas

promessas de vida abundante e justa para todos apoacutes a monstruosidade da Shoah e a

sucessatildeo de guerras muitas provocadas pela diferenccedila de compreensatildeo da feacute e em torno da

feacute ou pela feacute obriga-nos a reconhecer a verdade que a velha Biacuteblia obstinadamente nos

passa Deus natildeo desarma o mal nem transforma os seus numa casta protegida e

privilegiada O Deus de Israel e de Jesus decididamente natildeo alardeia poder irresistiacutevel

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Ele se daacute a conhecer ao mundo por um projeto propositadamente alheio agrave

dominaccedilatildeo e sobretudo agrave onipotecircncia porque contesta as relaccedilotildees de forccedila na organizaccedilatildeo

da vida Ele eacute alvo da nossa feacute e isso eacute o que o agrada O reino que ele propotildee eacute diferente

de outros essa eacute a beleza louca da nossa feacute ou deveria ser A palavra ldquoonipotecircnciardquo natildeo

aproxima o amor de Deus libertador da vida parece estar longe do bom pastor que Jesus

apresentou

ldquoEu sou o Bom Pastor que daacute a sua vida pelas ovelhas Eu sou a porta quem entra

por mim seraacute salva entraraacute e sairaacute e encontraraacute pastagemrdquo (Joatildeo 9) Jesus eacute o cuidador da

alma que fundamentalmente nos liberta de tudo o que nos aprisiona adoece e mata Isso

eacute sua salvaccedilatildeo Natildeo haacute aprisionamentos em Jesus e no seu Evangelho de tal modo que os

seus entram e saem livremente de forma espontacircnea natildeo satildeo cerceados Para seguirem

Jesus precisam ouvir e reconhecer sua Voz no coraccedilatildeo porque natildeo haacute condicionamentos

manipulaccedilatildeo regras de contenccedilatildeo Os que estatildeo em Jesus entram e saem

Quem lecirc as escrituras com a feacute simples de nela encontrar Palavra de Vida jamais

seraacute manipulado de qualquer ordem e jamais se sentiraacute coagido pelo medo a permanecer

em qualquer sistema A Religiatildeo aprisiona trabalha com o medo de que se algueacutem deixar

de seguir ou fazer o que mandam seraacute castigado ou que se resolver deixar aquele

ambiente religioso seraacute castigado por seres espirituais que se vingaratildeo da decisatildeo de

romper com tal realidade

A feacute nos mobiliza a agradar a Deus vem dele para que ningueacutem se glorie e toda

vez que estamos em movimento favoraacutevel ou contraacuterio estamos sendo guiado pela feacute E

isso agrada a Deus ldquoConheccedilo as tuas obras que nem eacutes frio nem quente quem dera foras

frio ou quente Assim porque eacutes morno e natildeo eacutes frio nem quente vomitar-te-ei da minha

bocardquo

(Apocalipse 31516) A feacute nos impele nos move nos conduz Simples assim para

o alto e avante

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Autor ndash Me Marcos Camilo Santana

Escritor Compositor e multi-

instrumentista Tem formaccedilatildeo

interdisciplinar comeccedilando pela

Musicalidade especialmente no baixo

eleacutetrico pela ULM SP fez graduaccedilatildeo em

Musicoterapia depois em Comunicaccedilatildeo

Social - Jornalismo - e Publicidade e

Propaganda aleacutem de licenciatura em

Histoacuteria e Bacharelado em Teologia pela

FATIPI - Faculdade de Teologia de Satildeo

Paulo da Igreja Presbiteriana

Independente do Brasil Especialista em

Gestatildeo Empresarial pela Universidade

Anhembi Morumbi e com MBA em

Marketing pela PUCSP tambeacutem

especialista em gecircnero e diversidade pela

UFABC Eacute mestre e doutorando em

Ciecircncias da Religiatildeo tambeacutem pela

PUCSP

Atuou como publicitaacuterio em grandes

meios de comunicaccedilatildeo e como professor

universitaacuterio em cadeiras de

comunicaccedilatildeo e filosofia da religiatildeo

Ministro ordenado na Igreja

Presbiteriana Independente do Brasil

Casado e pai de duas filhas

E-mail revmarcossantanagmailcom

67

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O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO

RESUMO

As informaccedilotildees sobre o livro de Atos dos Apoacutestolos no que se refere ao puacuteblico alvo

autor e demais referenciais histoacutericos satildeo imprecisos todavia evidecircncias histoacutericas e

estiliacutesticas apontam o gentio Lucas como o redator tanto do Evangelho de Lucas quanto

de Atos dos Apoacutestolos O Livro descreve o iniacutecio da Era Apostoacutelica onde a profecia do

profeta Joel se cumpre e a accedilatildeo do Espiacuterito Santo eacute expandida a partir do ministeacuterio de

Pedro e posteriormente de Paulo que de perseguidor dos cristatildeos passou a ser difusor do

Evangelho As viagens missionaacuterias comeccediladas por Felipe e Pedro ganham novos

destinos com Paulo que vai a territoacuterios da Aacutesia Menor e Europa convertendo a muitos e

experienciando a rejeiccedilatildeo dos Judeus Entre pregaccedilotildees e motins Paulo vai a Atenas e eacute

ouvido no Areoacutepago

Palavras-chave Atos Apoacutestolo Paulo Areoacutepago Atenas

The information on the book of Acts of the Apostles with regard to the target audience

author and other historical references are inaccurate however historical and stylistic

evidence points to the Gentile Luke as the editor of both the Gospel of Luke and the Acts

of the Apostles The Book describes the beginning of the Apostolic Age where the prophet

Joels prophecy is fulfilled and the action of the Holy Spirit is expanded from the ministry

of Peter and later of Paul who as a persecutor of Christians became the diffuser of the

Gospel The missionary trips started by Felipe and Pedro gain new destinations with Paul

who goes to territories in Asia Minor and Europe converting to many and experiencing the

rejection of the Jews Between sermons and riots Paul goes to Athens and is heard in the

Areopagus

Keywords Acts Apostle Paul Areopagus Athens

autor

Dr Lucas Gabriel Correia Silva

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INTRODUCcedilAtildeO

ldquoFiz o primeiro tratado oacute Teoacutefilo acerca de tudo que Jesus comeccedilou natildeo soacute a

fazer mas a ensinarrdquo assim como no Evangelho de Lucas o livro de Atos dos Apoacutestolos

foi endereccedilado jaacute no seu prefaacutecio a um homem chamado Teoacutefilo (Lucas 13 Atos 11)

cujo nome significa ldquoAquele que ama a Deusrdquo Apesar da expressa citaccedilatildeo ao destinataacuterio

do texto que ora se compunha ainda eacute nebulosa a informaccedilatildeo sobre o puacuteblico alvo ou seja

o contingente maior que a narrativa se propunha a atingir

Sabe-se que o autor era gentio de fala grega A tradiccedilatildeo histoacuterica somada agraves

evidecircncias estiliacutesticas apontam Lucas gentio convertido e companheiro do Apoacutestolo

Paulo como o redator dos textos que foram posteriormente compreendidos em dois

volumes as derradeira parte intitulada Atos dos apoacutestolos cerca de 150 DC Paulo em

suas epiacutestolas se refere a ele como ldquoLucas o meacutedico amadordquo (Colossenses 414) e expotildee

ldquoSoacute Lucas estaacute comigordquo (II Timoacuteteo 411)

1 EM BUSCA DO CENAacuteRIO HISTOacuteRICO

Outros referencias histoacutericos de Atos natildeo destoam do cenaacuterio impreciso que por

sua vez inspira diversas correntes distintas entre os pesquisadores Mesmo a questatildeo da

autoria eacute extremamente relevante para valorar a validade dos conteuacutedos do livro para a

Arqueologia e Historiografia e eacute neste contexto que tenta-se vislumbrar uma narrativa

coerente tanto internamente ndash entre os elementos suscitados pelo proacuteprio texto ndash quanto

externamente ndash em vista das diversas fontes histoacutericas que corroboram as personalidades e

fatos ora descritas

O Livro descreve o iniacutecio da Era Apostoacutelica tambeacutem conhecida por ldquoIgreja

Primitivardquo a fase histoacuterica inicial do cristianismo detalhando e situando os primoacuterdios da

expansatildeo do evangelho e da formaccedilatildeo das comunidades cristatildes Ipso facto os primeiros

nuacutecleos de evangelismo se encontravam em Jerusaleacutem e circunvizinhanccedila e eram vistos

como espeacutecie de apecircndice do Judaiacutesmo que assimilavam Jesus Cristo como ldquoo cordeiro de

Deus Aquele que tira o pecado do mundordquo (Joatildeo 129)

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2 A EXPANSAtildeO DA FEacute CRISTAtilde

No processo de expansatildeo da feacute cristatilde a profecia revelada atraveacutes de Joel ldquoe haacute que

ser que depois derramarei o meu Espiacuterito sobre toda a carne e vossos filhos e vossas

filhas profetizaratildeo os vossos velhos teratildeo sonhos os vossos jovens teratildeo visotildees E tambeacutem

sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espiacuteritordquo (Joel 228-29)

eacute acentuada pelas palavras do Cristo Ressurreto ldquoE estando com eles determinou-lhes que

natildeo se ausentassem de Jerusaleacutem mas que esperassem a promessa do Pai que (disse ele)

de mim ouvistes Porque na verdade Joatildeo batizou com aacutegua mas voacutes sereis batizados

com o Espiacuterito Santo natildeo muito depois destes diasrdquo (Atos 14-5) e ganha uma

significacircncia central para a Era Apostoacutelica nos termos seguintes ldquoMas recebereis a

virtude do Espiacuterito Santo que haacute de vir sobre voacutes e ser-me-eis minhas testemunhas tanto

em Jerusaleacutem como em toda a Judeacuteia e Samaria e ateacute os confins da terrardquo (Atos 18) pois

o roteiro deslindado em Atos eacute justamente o caminho do Evangelho a partir de Jerusaleacutem

ndash capiacutetulo 1 a 7 ndash passando pela Judeacuteia e Samaria ndash capiacutetulo 8 a 12 ndash ateacute os confins da terra

ndash capiacutetulo 13 ao 28

3 DE PEDRO A PAULO (EXPANSAtildeO DA OBRA DE MISSOtildeES)

Desta forma a narrativa de Atos se desloca do ministeacuterio de Pedro para o

ministeacuterio do Apostolo Paulo quando este ainda Saulo encontra-se com o Senhor Jesus

transfigurado em um resplendor de luz que lhe interpotildee ldquoSaulo Saulo por que me

perseguesrdquo (Atos 94) e daacute o ultimato ldquoLevanta e entra na cidade e laacute te seraacute dito o que

convecircm fazerrdquo (Atos 96)

Paulo encontrando a feacute cristatilde passou subitamente de ferrenho perseguidor a

difusor do Evangelho comeccedilando suas pregaccedilotildees nas sinagogas de Damasco Todavia a

inserccedilatildeo de Paulo entre os disciacutepulos natildeo foi raacutepida haja vista a natural desconfianccedila

As viagens missionaacuterias em Atos dos Apoacutestolos comeccedilam por Felipe em sua ida a

Samaria com o fulcro de anunciar as boas novas viajem que eacute estendida quando ouve do

Anjo do Senhor ldquoLevanta-te e vai para a banda do Sul ao caminho que desce de

Jerusaleacutem para Gaza que estaacute desertordquo (Atos 826)

Antes de abordar as incursotildees de Paulo o autor tambeacutem narra as viagens de Pedro

(Atos 932) todavia somente o Apoacutestolo Paulo logrou tais viagens enquanto estrateacutegias

para a difusatildeo do evangelho na Aacutesia Menor e Europa

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A partir do capiacutetulo 13 entatildeo observa-se o pleito de Paulo inicialmente na

companhia de Barnabeacute em explorar os territoacuterios da Aacutesia Menor iniciando pelo porto

mariacutetimo da Antioquia Salecircucia (Atos 134) Apoacutes testemunhar a feacute encontrada em Jesus

Cristo uma vez mais experimenta a rejeiccedilatildeo dos judeus Cruza o mar mediterracircneo e

desembarca em Salamina na ilha de Chipre e de laacute parte para a Ilha de Pafos onde

explora vilas e aldeias da adjacecircncia

Apoacutes as pregaccedilotildees em Pafos Paulo e Barnabeacute navegam pelo Rio Cestro

alcanccedilando Perge na Panfiacutelia e entatildeo tomam rumo para a Antioquia da Psiacutedia Na nova

empreitada a cerca de 160 quilocircmetros da regiatildeo da Panfiacutelia os resultados foram

positivos ldquoe saiacutedos os judeus da sinagoga os gentios rogaram que no saacutebado seguinte lhes

fossem ditas as mesmas palavras E despedida a sinagoga muitos dos judeus e dos

proseacutelitos religiosos seguiram Paulo e Barnabeacute os quais falando-lhes os exortavam a que

permanecessem na graccedila de Deusrdquo (Atos 1342-43) No saacutebado seguinte assim como

pedido anunciaram as boas novas a um grande ajuntamento de pessoas poreacutem uma vez

mais prevalecera a rejeiccedilatildeo dos judeus pelo que foram expulsos da cidade

Continuam a incursatildeo missionaacuteria em Icocircnio cidade entreposto para Eacutefeso Tarso

Antioquia e demais regiotildees do Oriente Como acontecera em Perge a multidatildeo se divide

entre apoiadores e oposicionistas dos Apoacutestolos (Atos 146) Apoacutes um motim para mata-

los Paulo e Barnabeacute fogem para a Licaocircnia mais especificamente a cidade de Listra e

posteriormente Derbe Assim finalizam a primeira viagem missionaacuteria com um saldo de

muitos convertidos e vaacuterias experiecircncias de ldquoquase morterdquo

Voltando para a Antioquia da Siacuteria ldquorelataram quatildeo grandes coisas Deus fizera por

eles e como abrira aos gentios a porta da feacuterdquo (Atos 1327) Rompendo todavia a parceria

missionaacuteria que ateacute entatildeo se firmara entre Paulo e Barnabeacute (Atos 1539) o Apoacutestolo tomou

a companhia de Silas e se direcionaram agrave Asia

Passam entatildeo pela Siacuteria e Ciliacutecia e em Listra junta-se a eles Timoacuteteo (Atos 161)

Tomam o caminho da regiatildeo da Friacutegia e da Galaacutecia poreacutem ldquoforam impedidos pelo Espiacuterito

Santo de anunciar a palavra na Aacutesiardquo (Atos 166) de forma que seguiram para Miacutesia e

intentavam ir para Bitiacutenia Uma vez mais exortados pela accedilatildeo do Espiacuterito Santo mudam o

destino para Trocircade na costa do mar Egeu

Em Trocircade Paulo tem uma visatildeo que o orienta a seguir agrave Macedocircnia Passa por

Samotraacutecia e Neaacutepolis e finalmente chegam a Filipos onde seratildeo novamente encarcerados

por expulsarem um espiacuterito maligno de adivinhaccedilatildeo (Atos 1618) Encarcerados um

terremoto pocircs abaixo a prisatildeo enquanto adoravam e louvavam a Deus (Atos 1625-26)

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Foram libertos pelos magistrados da cidade e se despedindo da congregaccedilatildeo de Filipos

seguiram a peacute para Tessalocircnica

Segunda Viagem Missionaacuteria de Paulo (Sociedades Biacuteblicas Unidas 1995)

De Tessalocircnica seguiram para Bareacuteia e daiacute Paulo foi conduzido por alguns irmatildeos

a Atenas Silas e Timoacuteteo poreacutem permaneceram no destino anterior

Atenas capital da Aacutetica e centro da efervescecircncia cultural da eacutepoca era

reconhecida pela alta idolatria e vaidade de sua populaccedilatildeo aleacutem da imoralidade

publicamente defendida pelas autoridades atenienses Paulo fica extremamente

incomodado com o cenaacuterio que vivencia de forma que ldquoo seu espiacuterito se comovia em si

mesmo vendo a cidade tatildeo entregue agrave idolatriardquo (Atos 1716)

Superada a discussatildeo quanto aos maus costumes atenienses que deveras afligiram

ao Apostolo Paulo cumpre esclarecer quais eram as instituiccedilotildees gregas de Atenas e dentro

desse contexto o que significa o discurso de Paulo diante do Areoacutepago notadamente um

dos sermotildees mais inspiradores da literatura cristatilde

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4 O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO

Sabe-se que as instituiccedilotildees atenienses podem ser divididas em instituiccedilotildees poliacuteticas

(governo da cidade) e juriacutedicas (tribunais) Na esfera poliacutetica destacam-se a Ekklecircsia ndash

Assembleia do Povo ndash Boulecirc ndash Conselho ndash Priacutetanes ndash Cuacutepula do Boulecirc ndash os estrategos e os

magistrados estes uacuteltimos divididos em arcontes e secundaacuterios Na esfera juriacutedica a

justiccedila civil ficava a cargo dos aacuterbitros heliastas e tribunais mariacutetimos os Efetas e o

Areoacutepago eram encarregados pela justiccedila criminal

Exercendo a jurisdiccedilatildeo criminal ateniense o Delfiacutenio o Freaacutetis o Palaacutedio e o

Pritaneu eram cortes especiais que juntas formavam o tribunal dos Efetas composto por

cidadatildeos sorteados entre os maiores de 50 anos Por outro lado numa espeacutecie de

competecircncia criminal residual o Areoacutepago era a mais antiga instituiccedilatildeo do tipo em Atenas

Inicialmente o Areoacutepago era um tribunal aristocraacutetico que aleacutem da jurisdiccedilatildeo

criminal tambeacutem era consultado para assuntos poliacuteticos de diversas ordens Ao longo dos

anos passou por inuacutemeras reformas que esvaziaram seus podres Formado por ex-

arcontes foi o tribunal que tratou de ouvir Paulo porquanto alguns filoacutesofos epicureus e

estoacuteicos o acusavam de ser causa de balbuacuterdia entre a populaccedilatildeo

Paulo no meio do Areoacutepago aproveita-se da oportunidade para apregoar de forma

eloquente o que se sucedera nas praccedilas e sinagogas atenienses nas seguintes palavras

ldquoVarotildees atenienses em tudo vos vejo um tanto supersticiosos porque passando eu e

vendo os vossos santuaacuterios achei tambeacutem um altar em que estava escrito AO DEUS

DESCONHECIDO Esse pois que voacutes honrais natildeo o conhecendo eacute o que vos anunciordquo

(Atos 1722-23)

A estrateacutegia que Paulo utilizou em seu discurso convenceu a muitos inclusive os

Areopagitas que o ouviam (Atos 1734) As suas colocaccedilotildees diante do tribunal foram sem

duacutevidas emblemaacuteticas mas o recrudescimento dos atenienses diante da feacute cristatilde

principalmente pela falta de compreensatildeo a respeito da ressurreiccedilatildeo de Jesus Cristo foram

fatores impeditivos para a conversatildeo de mais pessoas em Atenas

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REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS

FABRIS Rinaldo Os Atos dos Apoacutestolos Satildeo Paulo Loyola 1991

GIORDANI Maacuterio Curtis Histoacuteria da Greacutecia claacutessica antiguidade I Petroacutepolis

Vozes 1984 GLOTZ Gustave A cidade grega Satildeo Paulo DIFEL 1980

WILLIAMS David Atos Satildeo Paulo Vida 1996

Autor ndash Dr Lucas Gabriel Correia Silva

Bacharel em Direito pela Universidade Paulista -

UNIP eacute advogado soacutecio do escritoacuterio Correia amp

Lopes presidente da Comissatildeo OAB vai agrave

Escola da 198ordf subseccedilatildeo da OABSP diretor

administrativo e diaacutecono da Assembleia de Deus

ministeacuterio de Perus regional Itapevi Foi ainda

assessor da Secretaria de Educaccedilatildeo de Itapevi e

professor de filosofia e muacutesica atuaccedilatildeo

educacional que lhe rendeu a outorga do tiacutetulo de

Cidadatildeo Itapeviense Benemeacuterito

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REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NO LIVRO DE LEVIacuteTICO

RESUMO

A Biacuteblia eacute um livro complexo Para que sua mensagem seja a mais proacutexima possiacutevel da intenccedilatildeo

original a interpretaccedilatildeo biacuteblica exige que o leitor considere ferramentas e criteacuterios como a

revelaccedilatildeo progressiva ou as normas de hermenecircutica e exegese Dentre esses criteacuterios um se

mostra fundamental entre os inteacuterpretes mais conservadores a centralidade de Jesus Cristo o

Messias prometido Ele eacute a chave de interpretaccedilatildeo da Biacuteblia de Gecircnesis ateacute Apocalipse Por isso

analisar as ofertas volitivas e compulsoacuterias no livro de Leviacutetico eacute saber que para os peregrinos do

deserto a revelaccedilatildeo era parcial mas para noacutes ela tornou-se final na pessoa real do Messias Os

ldquotiposrdquo ali contidos materializaram-se em Jesus o antiacutetipo A sombra tornou-se realidade e o que

ainda estava obscuro foi totalmente desvelado A revelaccedilatildeo messiacircnica estaacute contida nas ofertas

volitivas e compulsoacuterias aguardando um espiacuterito inquiridor para encontraacute-la

Palavras-chave Ofertas volitivas Ofertas compulsoacuterias Revelaccedilatildeo messiacircnica

ABSTRACT The Bible is a complex book In order for your message to be as close as possible to

the original intention biblical interpretation requires the reader to consider tools and criteria such

as progressive revelation or the rules of hermeneutics and exegesis Among these criteria one is

fundamental among the most conservative interpreters the centrality of Jesus Christ the promised

Messiah He is the key to interpreting the Bible from Genesis to Revelation Therefore to analyze

the volitional and compulsory offerings in the book of Leviticus is to know that for the pilgrims of

the desert the revelation was partial but for us it became final in the real person of the Messiah

The ldquotypesrdquo contained therein materialized in Jesus the antitype The shadow became a reality and

what was still obscure was completely unveiled Messianic revelation is contained in volitional and

compulsory offerings waiting for a spirit inquirer to find it

Keyword Voluntary offers Compulsory offers Messianic revelation

autor

Bach Odilon Soares Moreira

E-mail odilonmoreira13hotmailcom

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INTRODUCcedilAtildeO

A Biacuteblia eacute um livro complexo Para que sua mensagem seja a mais proacutexima

possiacutevel da intenccedilatildeo original a interpretaccedilatildeo biacuteblica exige que o leitor considere

ferramentas e criteacuterios como a revelaccedilatildeo progressiva ou as normas de hermenecircutica e

exegese Dentre esses criteacuterios um se mostra fundamental entre os inteacuterpretes mais

conservadores a centralidade de Jesus Cristo o Messias prometido Ele eacute a chave de

interpretaccedilatildeo da Biacuteblia de Gecircnesis ateacute Apocalipse

A interpretaccedilatildeo dos livros que compotildeem o Antigo Testamento natildeo eacute diferente

pois as leis instituiccedilotildees e festas em quase sua totalidade giravam em torno da figura do

Messias prometido Essa compreensatildeo soacute eacute possiacutevel hoje porque enxergamos Jesus Cristo

ldquode fora para dentrordquo e natildeo o inverso Todos os personagens que participaram da histoacuteria

biacuteblica iam construindo-na individualmente e tambeacutem recebendo a revelaccedilatildeo

simultaneamente A junccedilatildeo das revelaccedilotildees parciais dadas a eles chegou ateacute noacutes completa

Os atores biacuteblicos eram por assim dizer construtores que participavam da

edificaccedilatildeo de um preacutedio mas natildeo o viam na sua completude tal qual noacutes podemos ver

Hoje temos o Velho Testamento e o Novo Testamento para consultarmos eles poreacutem

viveram e morreram sem testemunhar a materializaccedilatildeo do seu trabalho pois o cacircnon

sagrado soacute foi completado definitivamente seacuteculos mais tarde

Analisar as ofertas volitivas e compulsoacuterias no livro de Leviacutetico eacute saber que para

os peregrinos do deserto que caminhavam rumo a terra prometida a revelaccedilatildeo era parcial

mas para noacutes ela tornou-se final na pessoa real do Messias Os ldquotiposrdquo ali contidos

materializaram-se em Jesus o antiacutetipo A sombra tornou-se realidade e o que ainda estava

obscuro foi totalmente desvelado

Dessa forma fazer uma boa exegese dos textos biacuteblicos demanda um certo

esforccedilo principalmente quando a anaacutelise eacute feita a partir dos textos tipoloacutegicos Isso eacute

resultante do fato de que os limites para aplicaccedilatildeo da tipologia apresentam algumas

barreiras pois haacute uma linha muito tecircnue entre o que deve ser considerado tipoloacutegico e o

que natildeo se deve Natildeo aplicar a tipologia ao que se deve nos impede de penetrar no mar de

peacuterolas da revelaccedilatildeo biacuteblica mas erraremos tambeacutem se irmos aleacutem dessa tipologia e esse

erro nos induziraacute a introduzir pensamentos estranhos ao texto

A busca da revelaccedilatildeo do Messias simbolicamente encontrada nos textos deve ser

entatildeo pautada por certos criteacuterios dados pela tipologia Todavia mesmo essa ferramenta da

hermenecircutica apresenta algumas contradiccedilotildees internas posto que natildeo haacute unanimidade

entre os estudiosos sobre o que deve ser considerado tipoloacutegico ou natildeo Dessa forma

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dependendo da posiccedilatildeo que o inteacuterprete assume sobre o que pode ser considerado

tipoloacutegico haveraacute total influecircncia na sua interpretaccedilatildeo

Temos entatildeo algumas questotildees postas diante de noacutes relacionadas agrave revelaccedilatildeo

messiacircnica nas ofertas volitivas e compulsoacuterias descritas no livro de Leviacutetico O que eram

essas ofertas Por que foram dadas Quais eram suas funccedilotildees e por fim como

podemos extrair delas uma tipologia e ver nas suas entrelinhas a figura do Messias

Essas questotildees contudo natildeo devem ser consideradas como barreiras

intransponiacuteveis elas podem ser superadas e assim fazendo chegaremos a uma correta

interpretaccedilatildeo dos textos em que o Messias aparece de forma simboacutelica Superadas ainda

que natildeo totalmente essas questotildees veremos o quatildeo belo o Messias se apresenta atraveacutes da

tipologia objeto da presente pesquisa

Posto isso o presente artigo propotildee-se ainda que resumidamente a apresentar as

trecircs principais correntes teoloacutegicas que buscam o melhor caminho para uma interpretaccedilatildeo

mais fidedigna dos ldquotiposrdquo biacuteblicos A partir da opccedilatildeo por uma das trecircs tambeacutem

analisaremos as ofertas volitivas e compulsoacuterias demonstrando o porquecirc delas se

adequarem na categoria ldquotipordquo e a partir dessa anaacutelise mostrar a figura do Messias

existente nas suas entrelinhas

1 TIPOLOGIA

Devido a algumas controveacutersias que envolvem a tipologia biacuteblica cabe alguns

esclarecimentos para norteamos as interpretaccedilotildees e afirmaccedilotildees que aqui seratildeo feitas no

tocante a alguns ldquotiposrdquo biacuteblicos Essa reflexatildeo reveste-se de grande importacircncia visto

que a depender da posiccedilatildeo que o interprete adota sobre o que deve ser um tipo ou o que

natildeo deve afetaraacute toda a sua hermenecircutica

Mesmo havendo correntes antagocircnicas sobre as questotildees de interpretaccedilatildeo

tipoloacutegica isso natildeo nos impede de utilizar a tipologia como ferramenta auxiliar na

interpretaccedilatildeo dos textos E podemos fazer essa declaraccedilatildeo de forma indubitaacutevel pois a

proacutepria Biacuteblia nosso uacutenico referencial absoluto faz uso desse recurso hermenecircutico

Os seguintes versos neotestamentaacuterios nos oferecem base segura para a utilizaccedilatildeo

da tipologia na interpretaccedilatildeo de textos veterotestamentaacuterios Hb 85 Hb 99 Hb 923-24

Hb 101 Col 217 Os termos ldquosombrardquo ldquoalegoriardquo ldquofigurasrdquo ldquoparaacutebolasrdquo ldquoilustraccedilatildeordquo

ldquocoacutepiasrdquo ldquosiacutembolordquo e ldquomodelordquo que satildeo traduccedilotildees do vocaacutebulo grego upodeigmati

confirmam a nossa proposiccedilatildeo

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11 - Definiccedilatildeo de tipologia

O termo tipologia eacute derivado da palavra grega ldquotiposrdquo encontrada nas seguintes

referecircncias biacuteblicas 1Co 1011 1Ts 17 1Pe 53 Fp 317 2Ts 39 Tt 27 Hb 85 Jo

2025 (2) 2Pe 112 Jd 15 1Ti 412 1Co 106 At 743 44 At 2325 Rm 514 617 Essa

palavra grega eacute vertida para a biacuteblia em portuguecircs da Almeida Revista e Corrigida (ARC)

como ldquofigurardquo e ldquoexemplordquo Strong daacute entre outras a seguinte definiccedilatildeo da palavra grega

ldquotiposrdquo ldquo() uma pessoa ou coisa que prefigura algo ou algueacutem (messiacircnico) futurordquo

(STRONG G5179)

Assim podemos constatar que o termo grego ldquotiposrdquo que deu origem a palavra

tipologia tambeacutem aparece nas Escrituras neotestamentaacuterias Dessa forma de maneira

geral as revelaccedilotildees messiacircnicas do Velho Testamento como ldquotipordquo cujo desvelamento

absoluto dar-se-aacute no Novo Testamento na pessoa de Jesus o Antiacutetipo

12 - A tipologia como ferramenta da hermenecircutica

Vemos que a lei conforme afirma o autor da carta aos hebreus ldquo() traz apenas

uma sombra dos benefiacutecios que hatildeo de vir e natildeo a realidade dos mesmos ()rdquo (BIacuteBLIA

NVI Hebreus 10) Com base nas declaraccedilotildees dos autores do Novo Testamento podemos

construir um edifiacutecio seguro de interpretaccedilatildeo utilizando a tipologia como ferramenta

hermenecircutica auxiliar pois os autores sacros tambeacutem dela fizeram uso A lei mosaica eacute

entatildeo apenas uma sombra que apontava para o objeto real ou seja Jesus Cristo o

Messias

13 - As Escrituras e a tipologia

O Pentateuco testificava do Messias bem como todos os profetas em maior ou

menor grau vaticinaram sobre o seu futuro aparecimento Lei e profetas falaram tatildeo

somente da figura central de toda as Escrituras o Messias Essa afirmaccedilatildeo foi feita pelo

proacuteprio Messias

E ele lhes disse Oacute neacutescios e tardos de coraccedilatildeo para crer tudo o que os profetas

disseram Porventura natildeo convinha que o Cristo padecesse essas coisas e

entrasse na sua gloacuteria E comeccedilando por Moiseacutes e por todos os profetas

explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras (BIacuteBLIA ARA

Lucas 2425-27)

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O filoacutesofo e teoacutelogo dos primoacuterdios da igreja Agostinho de Hipona compreendia

bem essa verdade biacuteblica quando cunhou sua celebre frase ldquoO novo estaacute contido no antigo

o antigo eacute explicado pelo novordquo (HABERSHON 2001 p 11)

Embora o livro de Hebreus seja uma das Escrituras neotestamentarias onde mais

encontramos elucidaccedilotildees dos ldquotiposrdquo veterotestamentaacuterios nas epiacutestolas paulinas tambeacutem

as vemos em abundacircncia Vaacuterias satildeo as citaccedilotildees que o apoacutestolo dos gentios faz ao Antigo

Testamento para fundamentar sua teologia Um exemplo claacutessico de uma alegoria feita por

ele encontra-se em Gl 421-30 no qual que descreve Agar e Sara como sendo

representativas da alianccedila da lei e da alianccedila da graccedila respectivamente

Em suma temos fartas evidecircncias biacuteblicas que nos fornecem alicerce seguro para

a aplicaccedilatildeo da tipologia nos textos sagrados da Velha Alianccedila onde de forma velada

aparecem a figura do Messias Devemos no entanto fornecer algumas informaccedilotildees baacutesicas

sobre algumas correntes divergentes Em linhas gerais tudo gira em torno da questatildeo sobre

o que deve ser considerado tipoloacutegico e o que natildeo se deve

14 - A tipologia e as correntes teoloacutegicas

Quando falamos de tipologia devemos pensar em uma ferramenta utilizada pela

ciecircncia da hermenecircutica para o auxiacutelio na compreensatildeo dos siacutembolos biacuteblicos que

apontavam para o Messias Eacute praticamente consenso entre os estudiosos das Escrituras que

existem simbolismos no Velho Testamento cujo cumprimento se realizou no Novo Poreacutem

temos algumas correntes teoloacutegicas que divergem a respeito da maneira de interpretaacute-los e

aplicaacute-los

O ponto majoritaacuterio da discordacircncia reside no fato de estabelecer o quatildeo explicito

deve ser esse tipo nas Escrituras Nesse sentido pelo menos trecircs posiccedilotildees teoloacutegicas satildeo

apresentadas a fim de fornecer uma maior seguranccedila na correta interpretaccedilatildeo dos ldquotiposrdquo

veterotestamentaacuterios Zuck resume essas trecircs linhas de pensamento

Como vamos saber quais personagens acontecimentos e fatos do Antigo

Testamento Deus pretendeu que servissem de ldquotiposrdquo Deus deve ter criado os

ldquotiposrdquo mas a questatildeo eacute descobrir com que finalidade os criou Chegamos agora

ao maior problema do estudo da tipologia () alguns professores biacuteblicos

enxergam muito mais ldquotiposrdquo que outros Haacute tambeacutem aqueles que sustentam que

os ldquotiposrdquo satildeo apenas os que se encontram expressos no Novo Testamento Outro

grupo ainda adota a posiccedilatildeo intermediaacuteria entre essas duas opiniotildees e afirma que

ldquotiposrdquo podem ser tanto os que estatildeo explicitados como tambeacutem os que estatildeo

impliacutecitos ou seja que satildeo insinuados mas natildeo declarados (ZUCK 1994 p

203)

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Assim a adoccedilatildeo de qualquer dessas trecircs correntes nortearaacute e determinaraacute a

interpretaccedilatildeo do estudioso dos siacutembolos messiacircnicos Vejamos sinteticamente algumas

dessas correntes teoloacutegicas

141 - ldquotiposrdquo natildeo ratificados pelo Novo Testamento

A primeira corrente de estudiosos das tipologias biacuteblicas defende que qualquer

siacutembolo que apareccedila no Velho Testamento desde que tenha certa correspondecircncia com o

Messias natildeo precisa de sua ratificaccedilatildeo explicitada no Novo Testamento Essa corrente

poreacutem eacute criticada por considerar como sendo ldquotiposrdquo muitos elementos de pouca

importacircncia podendo levar a uma alegorizaccedilatildeo extremada

Desse modo qualquer coisa que apresentou futuramente semelhanccedila com algo

pode ser classificada como tipo Exemplo disso vemos na interpretaccedilatildeo de um dos pais

apostoacutelicos cujo nome era Justino Maacutertir que via na personagem biacuteblica Lia uma

representaccedilatildeo dos judeus Raquel representava a igreja e Jacoacute simboliza Cristo que serve a

ambos

Assim por exemplo a vida de Joseacute filho de Israel mesmo natildeo tendo nenhuma

passagem no Novo Testamento que o identifique como sendo um tipo do Messias as

semelhanccedilas das ocorrecircncias - segundo Habershon cerca de 131 - na sua vida tem um

paralelo com a vida de Jesus Essa tese eacute defendida por Ada Habershon na sua obra

ldquoManual de Tipologia Biacuteblica como reconhecer e interpretar siacutembolos ldquotiposrdquo e alegorias

das Escrituras sagradasrdquo

Para essa autora a histoacuteria da peregrinaccedilatildeo dos filhos de Israel durante quarenta

anos no deserto tinha um propoacutesito especial nos ensinar algumas verdades espirituais e

Paulo iraacute fazer referecircncia em 1Co 10 Na sua loacutegica continua a autora se haacute uma

correspondecircncia entre as verdades espirituais ensinadas a eles e a noacutes logo as demais

partes das histoacuterias tambeacutem tem o mesmo propoacutesito Ela diz

() todas as coisas que foram expressamente ordenadas por Deus em conexatildeo

com os sacrifiacutecios no Tabernaacuteculo e no Templo os quais em todos os seus

pormenores foram claramente dados como ldquotiposrdquo sendo que ldquoO Espiacuterito Santo

assim significavardquo mdash algumas liccedilotildees a respeito do Senhor e da sua obra () o

estudo cuidadoso dos ldquotiposrdquo natildeo deixa lugar para duvidarmos que a totalidade

da economia leviacutetica foi divinamente instituiacuteda para prenunciar a obra e pessoa

do proacuteprio Senhor Jesus Cristo (HABERSHON 2003 p 12)

Assim sob essa perspectiva para considerarmos os siacutembolos

veterotestamentaacuterias como sendo ldquotiposrdquo basta encontrarmos correspondecircncia

neotestamentarias natildeo necessitando portanto de uma declaraccedilatildeo explicita do Novo

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Testamento Satildeo adeptos dessa corrente Origenes Justino Maacutertir S Jeronimo Walter L

Wilson e Ada R Habershon

142 - Siacutembolos ratificados pelo Novo Testamento

Em oposiccedilatildeo ao argumento defendido por Habershon estaacute Roy B Zuck cuja obra

ldquoA Interpretaccedilatildeo Biacuteblica Meios de Descobrir a Verdade da Biacutebliardquo apresenta argumentos

contraacuterios no sentido de considerar apenas como ldquotiposrdquo aqueles que aparecem no Novo

Testamento de forma expressa A esses ele denomina de ldquotiposrdquo autecircnticos

Podemos citar para exemplificar essa posiccedilatildeo o cordeiro que era sacrificado no

Velho Testamento para expiaccedilatildeo dos pecados e que corresponde no Novo Testamento a

Jesus como sendo o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 129) Nesse caso

para Zuck o cordeiro eacute um um siacutembolo autecircntico de Cristo por ter sido ele ratificado

como tipo no Novo Testamento No dizer do proacuteprio autor ldquo() para uma figura ser um

tipo ela () precisa ser especificada no Novo Testamento rdquo (ZUCK 1994 p 207)

Segundo o autor pelo menos cinco caracteriacutesticas dos siacutembolos devem ser levadas em

consideraccedilatildeo para que um tipo possa ser identificado e aceito como autentico Satildeo elas

Semelhanccedila o tipo deve ter uma correspondecircncia profunda com o antiacutetipo

Realidade histoacuterica os personagens os fatos e os elementos veterotestamentaacuterios

que satildeo ldquotiposrdquo devem ser reais e tambeacutem surgirem naturalmente do texto

Prefiguraccedilatildeo o tipo autentico deve ser uma sombra que aponta para a realidade o

tipo autecircntico deve conter a prediccedilatildeo isto e a prefiguraccedilatildeo do antiacutetipo

Elevaccedilatildeo o antiacutetipo deve ser maior que o tipo devendo sempre ocorrer uma

expansatildeo elevaccedilatildeo e intensificaccedilatildeo do tipo ateacute culminar no antiacutetipo Assim por

exemplo Cristo (antiacutetipo) eacute superior agrave paacutescoa

Planejamento divino por haver um espaccedilo de seacuteculos entre os ldquotiposrdquo e o antiacutetipo

necessariamente houve um planejamento divino para que a sombra correspondesse

agrave realidade Sendo assim o tipo por ser projeto divino deve ter uma similaridade

com o antiacutetipo

Especificaccedilatildeo no Novo Testamento aleacutem de enquadrar-se nas cinco condiccedilotildees

acima especificadas o tipo autecircntico deve ser especificado no Novo Testamento

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Em apenas uma frase o estudioso Hebert Marsh defendeu assim essa posiccedilatildeo

teoloacutegica No Antigo Testamento devem ser considerados ldquotiposrdquo todos os elementos que

o Novo Testamento assim designar natildeo mais (Zuck apud Marsh 1994 p 204)

Os estudiosos que assim como Zuck defendem os ldquotiposrdquo autecircnticos como sendo

exclusivamente aqueles especificados ou ratificados pelo Novo Testamento satildeo Joseph

Angus Sylvester Burnham Thomas Hartwell Horne Herbert Marsh e Moses Stuart

143 - Corrente intermediaacuteria ldquotiposrdquo expliacutecitos e impliacutecitos

Uma terceira corrente adota uma posiccedilatildeo intermediaria fazendo uma siacutentese

entre as duas posiccedilotildees defendidas por Habershon e Zuck Segundo a perspectiva dessa

corrente teoloacutegica devem ser considerados como sendo ldquotiposrdquo todos aqueles que estatildeo

impliacutecitos no Velho Testamento isto eacute que natildeo sejam necessariamente ratificados no

Novo Testamento e devem ser considerados tambeacutem os que satildeo claramente confirmados

no Novo Testamento Assim tanto um como outro utilizando a expressatildeo de Zuck podes

ser classificados como ldquoldquotiposrdquo autecircnticosrdquo Essa posiccedilatildeo no entanto difere da primeira

por aplicar um rigor maior na anaacutelise do tipo impedindo assim a alegorizaccedilatildeo extremada

dos elementos tipoloacutegicos

Dentre aqueles que adotam essa posiccedilatildeo intermediaacuteria entre as duas correntes

estatildeo os estudiosos Solomon Glassius Johannes Coceio Joseph Frey Patrick Fairbairn

Milton S Terry Berkhof Mickelson Eichrodt e Ramm)

2 ESTABELECIMENTO DA CORRENTE INTERPRETATIVA

Como eacute intenccedilatildeo desse artigo analisar a tipologia existente nas ofertas volitivas e

compulsoacuterias e visto que elas natildeo aparecem nas paacuteginas do Novo Testamento de forma

explicita adotaremos a terceira corrente teoacuteloga ou seja consideraremos essas ofertas

como ldquotiposrdquo mesmo que elas natildeo apareccedilam de forma expliacutecita no Novo Testamento

Como veremos posteriormente a ofertas volitivas e compulsoacuterias apesar de toda a

tipologia nelas impliacutecitas natildeo satildeo citadas no Novo Testamento mas podem perfeitamente

ser consideradas uma representaccedilatildeo vivida de Cristo e do projeto divino de salvaccedilatildeo

A moderaccedilatildeo eacute aconselhaacutevel e tem por finalidade fugir dos extremos Assim

fazendo escaparemos de natildeo atribuir o sentido tipoloacutegico nas ofertas volitivas e

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compulsoacuterias por natildeo encontrar citaccedilotildees explicitas do Novo Testamento sendo que

tambeacutem natildeo as vamos transformar em alegorias por natildeo atribuirmos significados a

qualquer detalhe secundaacuterio Dito de outra forma demonstraremos a semelhanccedila existente

entre as ofertas volitivas e compulsoacuterias com o antiacutetipo que eacute Cristo mesmo natildeo tendo

citaccedilotildees explicitas no Novo Testamento e ao mesmo tempo natildeo atribuiremos tanto valor a

detalhes sem importacircncia

Assim sendo nosso labor consistiraacute em demonstrar nessas ofertas os princiacutepios

espirituais existentes e que inevitavelmente apontavam para a figura do Messias Cabe

salientar todavia que o termo ldquoMessiasrdquo deve ser aqui entendido sob uma perspectiva

cristatilde que o vecirc como o salvador enviado cuja vida morte e ressureiccedilatildeo possibilitaram ao

homem acesso agrave presenccedila de Deus

Isso deve ficar claro porquanto para os judeus sua vinda ainda aconteceraacute e essa

perspectiva judaica afeta toda a interpretaccedilatildeo dos textos biacuteblicos Por isso a tipologia soacute

faz sentido para os cristatildeos por crerem no ldquoMessias que jaacute veiordquo

3 REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NA OFERTAS VOLITIVAS E COMPULSOacuteRIAS

O livro de Leviacutetico menciona basicamente dois ldquotiposrdquo de ofertas volitivas e

compulsoacuterias Chamamos de ofertas volitivas aquelas que o adorador oferecesse ao Senhor

espontaneamente As compulsoacuterias satildeo aquelas que natildeo dependiam da vontade do

indiviacuteduo oferececirc-las e estavam correlacionadas a pecados cometidos de forma geneacuterica

31 - As ofertas volitivas

311 - Os Holocaustos

A oferta de holocausto eacute regulamentada principalmente no capitulo primeiro de

Leviacutetico A expressatildeo () quando algum de voacutes oferecerdes oferta ao Senhor ()

(BIacuteBLIA ARA Leviacutetico 12) determina que essa era uma oferta voluntaacuteria Essas ofertas

eram feitas como agradecimento louvor e dedicaccedilatildeo a Deus

Jaacute a oferta de cerais tem sua regulamentaccedilatildeo no capiacutetulo dois Podemos ainda

estabelecer duas subdivisotildees para as ofertas voluntaacuterias cruentas e natildeo cruentas ou seja

com sangue e sem sangue Enquadram-se no primeiro caso as ofertas de animais e no

segundo as de manjares Analisemos entatildeo essas ofertas e suas tipologias ainda que de

forma sucinta

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312 - Exigecircncias para o Holocausto

Para o oferecimento dos holocaustos certas exigecircncias eram feitas

Em primeiro lugar cada pessoa dependendo do seu poder aquisitivo deveria

ofertar animais das classes dos bovinos ovinos caprinos cerviacutedeos e paacutessaros No caso

deste uacuteltimo grupo pombas e rolinhas eram as mais ofertadas Uma das exigecircncias para o

holocausto desses animais era que eles fossem machos - por ser o reprodutor era mais caro

- e sem defeito (Lv 13) Eles tambeacutem deveriam fazer parte dos animais tidos como puros

(Lv 11) Em Leviacutetico 2221-24 encontramos a descriccedilatildeo de algumas deformaccedilotildees e

doenccedilas natildeo aceitaacuteveis nos animais separados para sacrifiacutecios ao Senhor (Ml 17-14)

O ofertante caso quisesse ter o seu sacrifiacutecio aceito por Deus deveria seguir sem

questionar o ritual determinado Era Deus que ditava as regras para a aceitaccedilatildeo do homem

e de seu sacrifiacutecio natildeo o inverso A loacutegica existente nessas exigecircncias era qualquer que

quiser aproximar-se de Deus deveria fazecirc-lo por regras providenciadas unicamente por

Deus e natildeo por meacuteritos humanos Encontramos essa loacutegica divina na expressatildeo ldquo() para

que o homem seja aceito perante o SENHORrdquo (BIacuteBLIA ARA Leviacutetico 13)

A ideia primaacuteria e mais literal contidas nessas exigecircncias era a de que Deus exige

o melhor e mais puro para ser a Ele sacrificado Secundariamente encontramos a tipologia

nas entrelinhas dessas exigecircncias pois no Novo Testamento vaacuterios textos apresentam

Jesus como o sacrifico perfeito e imaculado entregue a Deus voluntariamente (Jo 129 At

832 1Pe 119-20 Hb 726 Is 539 Jo 846 2Co 521 1Pe 222 1 Jo 35) Conforme eacute

possiacutevel notar haacute uma correlaccedilatildeo muito forte entre as exigecircncias de Deus para os animais

ofertados no Velho Testamento e a oferta definitiva e perfeita de Cristo descrita nas

paacuteginas do Novo Testamento

A segunda exigecircncia eacute apoacutes o cumprimento dos requisitos de qualidade o animal

seria conduzido pelo ofertante ao tabernaacuteculo para ser sacrificado Nesse ritual sacrificial

o ofertante deveria colocar suas matildeos sobre a cabeccedila do animal cujo ato simbolizava a

transferecircncia de pecado do transgressor para o inocente O simbolismo aqui posto eacute na

teologia denominada de ldquosubstituiccedilatildeordquo O inocente carrega sobre si a culpa do

transgressor deixando-o livre de sua diacutevida Ainda que essa ideia seja mais contundente

nas ofertas pelo pecado e pela culpa no holocausto ela tambeacutem aparece

Eacute dito em Isaiacuteas 53 que o Messias levaria sobre si os pecados dos transgressores

Ao morrer em nosso lugar Ele pagou o preccedilo do nosso deacutebito para com Deus tornando-

nos inculpaacuteveis diante Dele (Is 535-6 Is 5311-12 Mt 817 Gl 313 Hb 928 1Pe 224

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1Pe 318 1Jo 22) Da mesma forma que o inocente animal recebia a pena capital com o

intuito de que o pecador recebesse o favor divino semelhantemente Cristo tambeacutem a

recebeu a fim de que a graccedila de Deus pudesse ser alcanccedilada pelo homem

O capiacutetulo primeiro de Leviacutetico estabelece regras sequenciais para o holocausto

atribuindo responsabilidades ao ofertante e ao sacerdote Ao ofertante caberia a escolha do

animal conduccedilatildeo ateacute o altar de sacrifiacutecio imposiccedilatildeo das matildeos sobre ele a morte do animal

atraveacutes da degola a retirada do couro divisatildeo em partes do corpo lavagem dos miuacutedos e

das pernas Jaacute os sacerdotes tinham a funccedilatildeo exclusiva de recolher o sangue do animal a

ser oferecido em holocausto aspergi-lo sobre o altar arrumar a lenha no altar e sobre ele

colocar as partes cortadas do animal que seriam totalmente consumidas pelas chamas

A aplicaccedilatildeo tipoloacutegica desse ritual encontra-se na obrigatoriedade do pecador

sentir o peso da responsabilidade das suas transgressotildees pois ele ouvia o balir angustiante

de um cordeiro e via o seu sangue esvair-se lentamente

O sofrimento do animal e sua consequente morte era uma forma da pedagogia

divina mostrar ao homem que mesmo as ofertas voluntaacuterias recebidas por Deus tinham

custado um alto preccedilo (1Pe 118-19)

Somente os sacerdotes poderiam oferecer os sacrifiacutecios no altar dos holocaustos

Nenhum outro poderia fazer a mediaccedilatildeo entre Deus e os homens Esse ensino estava

subentendido na ordenanccedila de que a ministraccedilatildeo no altar era funccedilatildeo exclusiva do

sacerdote Foi Deus que escolheu a famiacutelia de Aratildeo e nenhum outro poderia fazer a

mediaccedilatildeo Jesus nosso sumo sacerdote por excelecircncia eacute o uacutenico mediador e fora Dele

natildeo haacute outro (At 412 1Tm 25)

O animal depois de morto era totalmente queimado sobre o altar - exceccedilatildeo feita

ao couro - recebendo assim o juiacutezo de Deus impliacutecito na sua morte e nas chamas do fogo

O altar de bronze era como eacute consenso entre os estudiosos siacutembolo da cruz ou seja o

local do julgamento do Messias As lacircminas de bronze que revestiam a segunda camada

desse altar foram feitas dos incensaacuterios daqueles que receberam o juiacutezo de Deus (Nm 16)

Por fim o ultimo criteacuterio consistia sob o sangue do animal que era aspergido

sobre o altar cuja finalidade era expiar e purificar o ofertante Assim diz certo estudioso

das Escrituras

Os povos antigos criam que o sangue das viacutetimas tinha poderes maacutegicos

transmissores de vida e tambeacutem que ao ser derramado sobre o altar de alguma

divindade adquiria parte das virtudes daquela divindade Quando esse sangue

tocava em qualquer coisa esses poderes seriam transferidos para o altar ou para

os indiviacuteduos que tocassem no sangue ou sobre quem o sangue fosse aspergido

Exatamente por isso havia batismos em sangue como tambeacutem havia sacrifiacutecios

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cruentos com o propoacutesito de fazer expiaccedilatildeo e purificaccedilatildeo pelos pecados

Sabemos que os antigos hebreus compartilhavam de alguns desses conceitos

ainda que agora os consideremos supersticiosos (CHAMPLIN p 656)

Vecirc-se pelos dados acima mencionados que o sangue natildeo era considerado pelos

antigos como um simples liquido vermelho correndo pelo corpo humano Ele estava ligado

agrave divindade e portanto podia transmitir vida O proacuteprio Deus orientou a Moiseacutes a ter o

sangue na mais alta estima condenando agrave pena de morte qualquer que o profanasse O

sangue para os filhos de Israel deveria ser constantemente associado agrave vida e com

ldquopoderesrdquo de expiar os pecados dos homens (Lv 1711)

Todas essas questotildees relacionadas aos sacriacuteficios de animais apontam

inexoravelmente para a obra perfeita de Cristo na cruz do Calvaacuterio As sombras dos

sacrifiacutecios expiatoacuterios leviacuteticos apontavam para uma realidade maior e mais perfeita

encontrada no sacrifiacutecio de Cristo Jesus eacute tipologicamente o cordeiro de Deus que expia

o pecado no Velho Testamento mas tambeacutem eacute agora como realidade no Novo

Testamento A unidade desse tema a respeito da expiaccedilatildeo do pecado mediante o sangue eacute

encontrada do primeiro ao uacuteltimo livro da Santa Escritura

313 - As ofertas de manjares

As ofertas de manjares - ou de cereais - deveriam ser oferecidas com um coraccedilatildeo

voluntarioso e agradecido pelas colheitas feitas O padratildeo de qualidade era requerido tanto

para as ofertas de animais (ofertas cruentas) bem como para as ofertas de cereais (ofertas

natildeo cruentas) Essas duas ofertas (cruentas e natildeo cruentas) estatildeo representadas nas ofertas

feitas por Abel e Caim (Gn 43-4)

Para se ter ideia do grau de exigecircncia para a oferenda de cereais a farinha a ser

oferecida e os produtos dela derivados deveriam ser a solet ou ldquoflor de farinhardquo Segundo

se sabe doze ou treze peneiras eram utilizadas no processo de obtenccedilatildeo da mais pura

farinha o que demostra o grau de qualidade exigida na oferta de manjares

A oferta de cereal acompanhava o holocausto voluntaacuterio de gado (Nm 153-4 2

Rs 1613) Poreacutem em outras situaccedilotildees as ofertas de cereais eram ofertadas sozinhas (Lv

614-18 2315 16 Nm 515 2826)

Trecircs eram os ingredientes que compunham a oferta de manjares quando essa

estivesse crua flor de farinha azeite e incenso (Lv 21-3) Se a oferta estivesse assada

deveria conter azeite (Lv 24-5) bem como se estivesse cozida (Lv 27)

O patildeo passou a fazer parte da dieta diaacuteria judaica apoacutes a entrada do povo na Terra

Prometida Na peregrinaccedilatildeo no deserto o manaacute fez parte de sua alimentaccedilatildeo por quarenta

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anos Assim a farinha o patildeo e o manaacute serviram como ldquotiposrdquo de Cristo na medida em que

Ele mesmo se identifica como o ldquopatildeo vivo que desceu do ceacuteurdquo (Jo 648-58)

314 - As ofertas de comunhatildeo ou ofertas pacificas As ofertas de comunhatildeo ou tambeacutem conhecidas como ofertas paciacuteficas oferecem

uma rica tipologia revelando a restauraccedilatildeo da comunhatildeo do homem com Deus perdida

desde o pecado no Eacuteden A voluntariedade tambeacutem caracterizava essa oferta sendo elas

oferecidas em determinadas ocasiotildees nas manifestaccedilotildees divinas (Lv 94-518) apoacutes

cumprimentos de promessas divinas (Dt 271-7) por ocasiatildeo da consagraccedilatildeo de reis (1Sm

1115) em comemoraccedilatildeo pela recuperaccedilatildeo de utensiacutelios sagrados (2 Sm 618) cessaccedilatildeo de

pragas (2 Sm 2425) banquetes relacionados agraves questotildees espirituais (1 Rs 315)

consagraccedilatildeo do templo (1 Rs 863 925)

A oferta paciacutefica ou de comunhatildeo traz a ideia de comunhatildeo existente entre Deus

e os homens Na ocasiatildeo dessa oferenda o peito e a coxa deveriam ser dados para o

sustento dos sacerdotes e levitas Enquanto que na oferta de holocausto quase tudo era

queimado na oferta paciacutefica somente as gorduras eram oferecidas sobre o altar e o

restante das partes do animal era divido entre os sacerdotes e o ofertante Nessas refeiccedilotildees

comunais o ofertante juntamente com os sacerdotes fazia um banquete jubiloso porque

criam que Deus tambeacutem estava presente Nessa oferta de comunhatildeo estava selada a paz

entre Deus e o ofertante

Basta uma anaacutelise das figuras que estavam envolvidas nessa oferta para

verificarmos claramente a tipologia nela impliacutecita A paz era selada pois havia a presenccedila

de Deus do sacerdote (mediador) e do ofertante Isso nos remete a mediaccedilatildeo do sumo

sacerdote celestial que atraveacutes de sua oferta sacrificial derrubou a parede de inimizades

existente entre Deus e os homens proporcionando-nos a paz

4 AS OFERTAS COMPULSOacuteRIAS

As ofertas compulsoacuterias eram ofertadas para expiar o pecado e a culpa do

transgressor e oferececirc-las natildeo dependia da sua vontade Caso natildeo quisesse sofrer as

consequecircncias do juiacutezo divino por suas transgressotildees ofertas pelo pecado deveriam ser

oferecidas pelo transgressor Essas ofertas estatildeo regulamentadas nos capiacutetulos 4 a 7 de

Leviacutetico onde as encontramos divididas basicamente em trecircs grupos oferta por

ignoracircncia oferta pelo pecado e oferta pela culpa

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Certa complexidade haacute em diferenciar de forma simples uma oferta da outra mas

de uma forma sintetizada podemos diferenciaacute-las conforme a proacutepria classificaccedilatildeo

mosaica Os textos biacuteblicos natildeo nos fornecem de forma satisfatoacuteria elementos para que

possamos fazer uma diferenciaccedilatildeo precisa de uma oferta para outra

41 - Ofertas pelos pecados cometidos por ignoracircncia

O termo ignoracircncia (hb segaga) natildeo pode ser confundido com desconhecimento

da lei mosaica Os pecados a serem expiados por esse tipo de oferta eram aqueles que o

transgressor cometia de forma natildeo intencional (Lv 42) A ldquointenccedilatildeordquo aqui deve ser

entendida como ldquode forma natildeo desafiadorardquo isto eacute contrariando as leis divinas de modo a

desprezar a Deus e sua palavra Para esses natildeo havia expiaccedilatildeo

Os pecados cometidos por ignoracircncia estavam classificados no rol daqueles que o

transgressor cometia inadvertidamente ou inconscientemente como por exemplo tocar em

restos mortais sem que disso tivesse conhecimento Tambeacutem se enquadra aqueles

cometidos por conta da natureza caiacuteda do homem e sua consequente inclinaccedilatildeo para o

pecado Independente se o pecado havia sido cometido inconscientemente ou por conta da

inclinaccedilatildeo pecaminosa o homem tornar-se-ia culpado diante do Deus Santo necessitando

assim da expiaccedilatildeo do seu pecado

A expiaccedilatildeo para essa classe de pecados deveria obedecer a alguns criteacuterios

estabelecidos Sacerdotes priacutencipes a comunidade em geral e o indiviacuteduo em particular

deveriam oferecer sacrifiacutecios Para cada um desses grupos um animal especifico deveria

ser ofertado

42 - Oferta pela culpa ou restituiccedilatildeo

Esse tipo de oferta pela culpa (hb asham) era realizada nas ocasiotildees em que a

transgressatildeo fosse cometida em relaccedilatildeo ao proacuteximo Nesse caso deveria haver entatildeo uma

restituiccedilatildeo do ofensor para o ofendido Por envolver questotildees monetaacuterias como forma de

reparaccedilatildeo essa oferta tambeacutem era conhecida como oferta de restituiccedilatildeo

Logicamente por ser o homem a imagem e semelhanccedila de Deus qualquer

transgressatildeo cometida contra aquele ofendia Este Assim antes mesmo de tentar reatar o

seu relacionamento com Deus o pecador deveria estabelecer a comunhatildeo perdida com o

ofendido Se natildeo houvesse expiaccedilatildeo a culpa permaneceria e o juiacutezo divino certamente

recairia sobre o ofensor

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43 - Oferta pelo pecado ou de purificaccedilatildeo

Haacute entre os eruditos certa dificuldade para entender a que tipo de pecado essa

oferta faz referecircncia A ligaccedilatildeo dos dois substantivos (ldquooferta pelo pecadordquo) sugerem eles

parece indicar que os pecadores deveriam lidar com seus pecados mediante a oferta de

sacrifiacutecios Ao pecar necessariamente o transgressor deveria associar a ideia dual de

ldquopecado necessita de ofertardquo

Outra ideia impliacutecita na oferta pelo pecado (hb hattarsquot) eacute a de purificaccedilatildeo O

pecado -atraveacutes do pecador - contaminava o ambiente sagrado tornando-o improacuteprio para

a presenccedila de Deus Por esse motivo o sangue dessa oferta era aspergido sobre os altares

o propiciatoacuterio e dentro do Santo dos Santos A purificaccedilatildeo mediante o sangue era

necessaacuteria para a manifestaccedilatildeo da presenccedila divina Esse ato de purgar deu tambeacutem a essa

oferta o nome de ldquooferta de purificaccedilatildeordquo

Temos dois fatores de suma importacircncia no processo de salvaccedilatildeo expiaccedilatildeo e

purificaccedilatildeo Sem a expiaccedilatildeo o homem permanece separado de Deus e sem a purificaccedilatildeo eacute

impedido de receber sua presenccedila Esse duplo processo soacute poderia ser realizado mediante o

derramamento de sangue inocente e com a indispensaacutevel presenccedila do sacerdote mediador

44 - Aplicaccedilatildeo tipoloacutegica das ofertas

Para todas essas ofertas volitivas e compulsoacuterias a qualidade era imprescindiacutevel

A expiaccedilatildeo pelo sangue era o elemento comum que as unificava Desde um touro oferecido

pelo sacerdote em favor de seus proacuteprios pecados ateacute um pombo ofertado pelos mais

pobres eram recebidos por Deus como sacrifiacutecio substitutivo com o poder de expiar e

purificar ainda que de forma provisoacuteria

O estudo da lei mosaica nos leva a concluir que havia a possibilidade de oferendas

e sacrifiacutecios expiatoacuterios para todos os pecados com exceccedilatildeo daqueles cometidos de forma

que desafiassem a Deus e a sua palavra Esse tipo de pecado era fruto de um coraccedilatildeo

impenitente que desobedecia propositalmente aos mandamentos divinos O Novo

Testamento demonstra de forma inequiacutevoca que o sacrifiacutecio de Cristo tem suficiecircncia para

perdatildeo de todos os pecados no tempo e no espaccedilo A uacutenica exceccedilatildeo feita a essa regra eacute a

blasfecircmia contra o Santo Espiacuterito (Mt 1232 Lc 1210)

Todas essas variedades de ofertas e as mais diversas classes de animais bem

como os rituais diaacuterios tinham a intenccedilatildeo de revelar a necessidade do Messias que com

um uacutenico sacrifiacutecio expiatoacuterio anularia os efeitos do pecado sobre os homens que nele

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cressem Jesus na cruz fez a oferta de si mesmo a Deus uma uacutenica vez e com a eficaacutecia

eterna para perdatildeo de todas as variedades de pecados que a lei classificava mas natildeo dava a

soluccedilatildeo definitiva

O sangue de bovinos caprinos ovinos e aves eram apenas uma paacutelida sombra que

apenas cobria os pecados conscientes ou inconscientes voluntaacuterios ou involuntaacuterios Por

sua ineficaacutecia a expiaccedilatildeo limitava-se a indiviacuteduos ou grupos de indiviacuteduos e seu alcance

era temporal pois tinha eficaacutecia somente em um periacuteodo especifico O sangue de Cristo

entretanto como nos atesta o Novo Testamento atua de forma ilimitada sendo tambeacutem

atemporal (Hb 913-15 104)

A nossa limitaccedilatildeo nos permite apenas olhar o sacrifiacutecio vicaacuterio do Cristo de forma

progressiva na revelaccedilatildeo biacuteblica mas com o Eterno tal natildeo se sucede visto ter Ele os

atributos incomunicaacuteveis da onisciecircncia e presciecircncia (At 223 1Pe 12) Portanto ao

perdoar as transgressotildees com base no sangue de animais na verdade Ele via

antecipadamente o sacrifiacutecio de Cristo sendo realizado

O homem olha a revelaccedilatildeo progressiva da salvaccedilatildeo poreacutem o Deus Eterno a vecirc na

totalidade A cruz na perspectiva divina sempre esteve no Velho Testamento pois ela

considerando uma progressatildeo histoacuterica eacute antes dele O Messias ainda que de forma

velada sempre esteve laacute como nos atestam as seguintes passagens biblicas 2Tmt 11 2T

19 Ap 178 Pv 823-31 Mt 2534 Jo 1724 At 1518 Rm 1625 1Pe 120-23 Ap 138

5 OS SACERDOTES E O SUMO SACERDOTE

51 - A mediaccedilatildeo

As ofertas cuja funccedilatildeo era expiar o pecado conforme jaacute vimos tipificavam o

sacrifiacutecio perfeito e final do Messias Eram apenas sombras indicativas de algo superior

que foi revelado atraveacutes de Jesus e sistematizado nos vinte e nove livros que compotildee o

Novo Testamento (Hb 85 99 23-24 101 Cl 217)

Essas ofertas soacute poderiam ser aceitas por Deus caso houvesse um mediador que as

oferecesse Nesse cenaacuterio entra a figura do sacerdote e do sumo sacerdote que tipificavam

o sacerdoacutecio eterno do Messias Muitos satildeo os detalhes que vinculam o sacerdoacutecio terreno

com a obra mediadora do Messias Visto que nosso espaccedilo eacute limitado pela natureza desse

artigo faremos apenas algumas correspondecircncias entre o sacerdoacutecio humano e o

sacerdoacutecio celestial de Cristo

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52 - A unccedilatildeo e a pureza

O capiacutetulo oito de Leviacutetico descreve a consagraccedilatildeo de Aratildeo como sumo sacerdote

e de seus filhos como sacerdotes O oacuteleo da unccedilatildeo - siacutembolo do Espiacuterito Santo - foi

derramado sobre ele - tipo de Jesus - para exercer sua funccedilatildeo em favor dos fracos e

ignorantes (Hb 51-10) O Velho e o Novo Testamento apresentam Jesus como o ungido de

Deus sobre o qual foi derramado o Espiacuterito Santo para libertar os cativos do pecado

Somente eles poderiam fazer mediaccedilatildeo pelo povo da mesma forma que natildeo haacute

outro mediador entre Deus e os homens a natildeo ser Jesus (At 412 1 Tm 25 Hb 725 86

915 1224) Conforme nos atestam alguns versos biacuteblicos qualquer pessoa que tentasse

usurpar a funccedilatildeo sacerdotal receberia a pena capital (Nm 310 38 1640 185-7) Assim

tipologicamente falando excluindo-se a pessoa de Jesus qualquer outro mediador diante

de Deus estaacute morto

O sacerdote deveria antes de oferecer qualquer sacrifiacutecio banhar-se na bacia de

bronze localizada no aacutetrio do tabernaacuteculo (Lv 86) Esse ritual continha a ideia de

purificaccedilatildeo pois o sacerdote que oferecesse o sacrifiacutecio deveria estar puro diante de Deus

Qualquer oficiante do tabernaacuteculo que natildeo se lavasse ou natildeo fizesse os cerimoniais

prescritos na lei deveria seria morto (Ecircx 3018-21)

Esse simbolismo eacute perfeito quando comparado a situaccedilatildeo do pecador diante do

Deus Santo Qualquer transgressor que Dele se aproximar sem estar puro receberaacute o

salaacuterio do pecado isto eacute a morte eterna

53 - As vestimentas sacerdotais e os rituais de purificaccedilatildeo

Associada com a ideia de santidade havia uma lacircmina de ouro posta no turbante

do sumo sacerdote com a inscriccedilatildeo ldquoSantidade ao Senhorrdquo (Ecircx 2836 Lv 89) Essa lacircmina

representava o elevado grau de santidade que o sumo sacerdote deveria ter por se

apresentar diante de Deus para expiar os pecados do povo Outra peccedila que compunha o

vestuaacuterio da classe sacerdotal era a estola feita de linho fino branco indicativo na Biacuteblia de

pureza e santidade (Ecircx 2839 87)

Toda o ritual de purificaccedilatildeo e as vestimentas apontavam para a santidade do

sacerdote que por sua vez tipificava a santidade do sumo sacerdote celestial que em tudo

foi tentado poreacutem sem pecado (Hb 726 Is 539 Jo 846 2Co 521 1Pe 222 1 Jo 35)

No ritual de purificaccedilatildeo dos contaminados por lepra e liacutequidos corporais descrito

nos capiacutetulos 11 a 15 de Leviacutetico o sacerdote figurava como a personagem principal pois

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sem ele o processo de purificaccedilatildeo natildeo poderia ser finalizado Vemos entatildeo uma dupla

funccedilatildeo sacerdotal o que mediava e o que purificava Na pessoa de Jesus cumpriu-se esse

duplo tipo sacerdotal pois o Novo Testamento atribui a ele a funccedilatildeo de mediador e

purificador

Qualquer judeu por mais simples que fosse entenderia a mensagem espiritual

profunda que havia no ritual de purificaccedilatildeo e nas roupas sacerdotais E qual seria essa

mensagem A resposta simples eacute antes mesmo de se aproximar de um Deus Santo com

sacrifiacutecio havia a necessidade imperiosa de purificar-se Primeiro se purifica Depois a

Ele oferece-se sacrifiacutecios de adoraccedilatildeo Purificaccedilatildeo e sacrifiacutecios estatildeo intimamente

interligados conforme jaacute vimos nas ofertas compulsoacuterias E tudo isso soacute seria possiacutevel com

a figura do mediador

Todo o vestuaacuterio do sumo sacerdote tipificava o Messias e seu oficio sacerdotal

Natildeo sendo possiacutevel nesse artigo analisar as minuacutecias de cada uma das peccedilas falaremos

delas de forma geneacuterica Basicamente o eacutefode e o cinto do sumo sacerdote possuiacuteam

quatro cores que apareciam tambeacutem na primeira cortina que cobria o tabernaacuteculo no veacuteu

que separava o lugar santo do santiacutessimo e na cortina de entrada do aacutetrio do tabernaacuteculo O

azul carmesim puacuterpura e branco tipificavam alguns atributos do Messias O azul sua

origem celestial a puacuterpura apontava para sua realeza o branco fala de sua absoluta

pureza e o vermelho do seu sacrifiacutecio expiatoacuterio Somente o Messias Jesus Cristo

apresentou as quatro caracteriacutesticas aceitaacuteveis a Deus Rei que veio do ceacuteu cujo sangue foi

derramado e sobre Ele natildeo pode ser imputado pecado algum

Sobre o eacutefode ficava o peitoral do juiacutezo contendo doze pedras preciosas e em

cada uma delas estava gravada o nome das doze tribos de Israel Essas pedras conforme

determinaccedilatildeo biacuteblica deveriam estar sobre o coraccedilatildeo do sumo sacerdote quando este

oficiasse no tabernaacuteculo Ele tambeacutem carregava sobre os ombros uma pedra preciosa de

cada lado Na primeira eram gravados os nomes de seis tribos de Israel na outra mais seis

tribos Assim o representante dos homens carregava simbolicamente no coraccedilatildeo e nos

ombros toda a naccedilatildeo dos filhos de Israel diante de Deus estando assim toda ela

representada pelas quatorze pedras Assim o sumo sacerdote intercedia por toda a naccedilatildeo

continuamente

Poucos discordariam que a igreja de Cristo assumiu o papel de Israel ainda que

saibamos que esse fato natildeo invalida as promessas de Deus feitas a esse povo Apaziguada

essa questatildeo podemos entatildeo verificar a tipicidade desse peitoral no tocante a figura do

Messias O sumo sacerdote humano carregava sobre o coraccedilatildeo e ombros a naccedilatildeo de

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Israel ao passo que o Messias carrega sobre o coraccedilatildeo e ombros a igreja composta de

pessoas de todas as naccedilotildees (Jo 315 Mt 913 1Tt 115-16 Ap 59 Ap 1211 Hb 1312

1Pe 119)

Esse peitoral dobrado formava uma bolsa que continha duas pedras conhecidas

como Urim e Tumim com as quais se consultavam a vontade de Deus Sacerdotes

profetas Urim e Tumim eram necessaacuterios enquanto o Messias natildeo havia sido revelado

Poreacutem o Messias jaacute veio como a revelaccedilatildeo final de Deus para o homem (Hb 11-

2) Ele eacute a uacutenica verdade e portanto nosso uacutenico guia espiritual (Jo 146) Tal qual o sumo

sacerdote guiava o povo mediante o Urim e Tumim Ele sem fazer uso de qualquer pedra

nos guia mediante o Espirito Santo e as Escrituras sagradas rumo ao ceacuteu (Jo 1426 1613

1Co 210-13 Ef 47-15 1 Jo 220 1 Jo 227)

Mediante essas duas pedras consultava-se a Deus e por elas vinha a resposta

Hoje eacute por intermeacutedio do Cristo revelado nas Escrituras que obtemos a maioria das

respostas para nossas indagaccedilotildees

54 - O Yom Kippur

Ao falarmos das ofertas volitivas e compulsoacuterias alguns paraacutegrafos devem ser

dedicados ao ritual do Yom Kippur cujo cerimonial representava o perdatildeo anual dos

pecados dos filhos de Israel

O Yom Kippur ou Dia do perdatildeo eacute considerado um dos dias mais sagrados do

calendaacuterio judaico Era nesse dia que o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos para

purificar o tabernaacuteculo e oferecer o sacrifiacutecio anual por toda a naccedilatildeo (Lv 166 16 18-19

24) Era um dia de jejum e nenhum trabalho servil deveria ser realizado Era nesse

grandioso dia que o bode expiatoacuterio Azazel tinha de ser enviado ao deserto para longe do

arraial ou das portas de Jerusaleacutem Ele carregava sobre si os pecados de toda a naccedilatildeo e

acabava simbolicamente morrendo por ela Isso por si soacute jaacute configura uma bela

tipologia o cordeiro de Deus sofreu e morreu fora das portas de Jerusaleacutem carregando

sobre si os pecados da humanidade (Mt 1520-24 Jo 1917-18 At 758 Hb 1312)

Ao entrar no Santiacutessimo o sumo sacerdote enchia-o de fumaccedila de incenso para

que a nuvem perfumada ocultasse de seus olhos o propiciatoacuterio local esse considerado

como sendo ldquoo trono de Deusrdquo Ao entrar nesse recinto sagrado o sumo sacerdote deveria

ter em matildeos o sangue para expiar os pecados de toda a naccedilatildeo Fontes extrabiacuteblicas nos

informam sobre o alto grau de relevacircncia desse dia pois era nele que se promulgava certo

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decreto divino sobre quem iraacute viver e quem iraacute morrer quem estaraacute sereno e quem seraacute

perturbado quem seraacute pobre e quem seraacute rico quem seraacute exaltado e quem seraacute humilhado

(KOLATCH p239)

Para estabelecer a rica tipologia encontrada nos ritos desse tatildeo importante dia

basta-nos consultar alguns versos do livro de hebreus que revelam o ofiacutecio sacerdotal de

Cristo (Hb 91-26 217 31 415 55-6 71 11-27 81)

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

A tipologia por ser essencialmente biacuteblica natildeo pode ser desprezada sendo que os

extremos na sua utilizaccedilatildeo devem ser evitados atraveacutes de esforccedilos para encontrar-se uma

posiccedilatildeo moderada Ao nos apossarmos dessa ideia perceberemos o quatildeo proveitoso seraacute o

nosso conhecimento dos ldquotiposrdquo biacuteblicos para a robustez da nossa teologia

A anaacutelise das ofertas volitivas e compulsoacuterias demostram essa verdade na medida

em que as conhecemos de forma mais profunda A partir disso vemos natildeo mais um

emaranhado de ordenanccedilas cerimoniais destituiacutedas de sentido mas profundas liccedilotildees

espirituais acerca da figura central da Biacuteblia Jesus Cristo

Ainda que geraccedilatildeo apoacutes geraccedilatildeo os filhos de Israel matavam os inocentes animais

atraveacutes de sacrifiacutecios e natildeo tinham a plena consciecircncia da magnitude do seu simbolismo

todavia pela feacute sabiam que seus pecados haviam sido expiados As ofertas o sofrimento e

morte dos animais o sangue derramado e a mediaccedilatildeo dos sacerdotes propiciavam um

cenaacuterio pedagoacutegico riquiacutessimo mediante a qual todos aprendiam acerca do plano divino da

redenccedilatildeo Negar isso eacute negar a proacutepria Escritura

Os escritores do Novo Testamento empreenderam grandes esforccedilos para elaborar

suas doutrinas com base no entendimento que tinham do Velho Testamento pois era esse

que testificava acerca do Messias Ele mesmo nos seus ensinamentos citou por diversas

vezes as Escrituras veterotestamentaacuterias Era o antiacutetipo em carne e osso explicando aos

disciacutepulos toda a tipologia que Nele encontrava a plena realizaccedilatildeo Assim quando os

escritores neotestamentaacuterios analisavam as ofertas volitivas e compulsoacuterias encontravam

nelas revelado o Messias de Israel

As ldquosombrasrdquo tiveram o seu valor ateacute a chegada da realidade isto eacute Cristo Ele eacute

a revelaccedilatildeo final de Deus pois posteriormente ao brado ldquoestaacute consumadordquo o veacuteu foi

rasgado e o acesso pleno a Deus liberado As ofertas volitivas e compulsoacuterias natildeo satildeo mais

necessaacuterias pois aquele para quem elas apontavam as substituiu satisfez a justiccedila divina e

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reconciliou o homem com Deus Cabe-nos empreendermos esforccedilos com a finalidade uacutenica

de conhecer mais detalhadamente as ofertas volitivas e compulsoacuterias E assim ter uma

percepccedilatildeo mais niacutetida de que o mesmo Deus que instituiu os ldquotiposrdquo eacute o mesmo que os

tornou realidade na pessoa do Messias Jesus Cristo

REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS

ASHERI Michael O Judaiacutesmo Vivo as tradiccedilotildees e as leis dos judeus praticantes

1ordf ed Satildeo Paulo Imago 1983

BOUZON Emanuel O coacutedigo de Hamurabi 10ordf ed Rio de Janeiro Vozes 2003

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COENEN LOTHAR Dicionaacuterio Internacional de Teologia do Novo Testamento

2ordf ed Satildeo Paulo Vida Nova 2000

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editora Hagnos 2002

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Gerais Betacircnia 1991

DAVIDSON F O Novo Comentaacuterio da Biacuteblia 1ordf ed Satildeo Paulo Vida Nova 1963

DOUGLAS JD O Novo Dicionaacuterio da Biacuteblia 3ordf ed Satildeo Paulo Vida Nova 2006

EDERSHEIM Alfredo Festas de Israel Satildeo Paulo Uniatildeo Cultural

ELWELL Walter A Enciclopeacutedia Histoacuterico-teoloacutegica da Igreja Cristatilde 1ordf ed

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GOWER Ralph Usos e Costumes dos tempos biacuteblicos 1ordf ed Rio de janeiro

CPAD 2002

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siacutembolos ldquotiposrdquo e alegorias das Escrituras Sagradas Satildeo Paulo Vida 2003

HAMILTON Victor P O Manual do Pentateuco 1ordf ed Rio de Janeiro CPAD

1982

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Testamento 1ordf ed Satildeo Paulo Vida Nova 1988

HARRISON Roland K Leviacutetico Introduccedilatildeo e Comentaacuterio 1ordf ed Satildeo Paulo

Cultura Cristatilde 1983

HOFF Paul O Pentateuco 1ordf ed Satildeo Paulo Vida 1994

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SCHULTZ Samuel J A Histoacuteria de Israel no Antigo Testamento 1ordf ed Satildeo

Paulo Vida Nova 1977

JEREMIAS Joachim Jerusaleacutem no tempo de Jesus Satildeo Paulo Paulus 1983

JOSEFO Flaacutevio Histoacuteria dos Hebreus 8ordf ed Rio de Janeiro CPAD 2004

KOLATCH Alfred J Livro Judaico dos porquecircs Satildeo Paulo Sefer 2007

KOLUTCH Alfred J 2ordm Livro Judaico dos Porquecircs 2ordf ed Satildeo Paulo Secircfer 2003

MOREIRA Odilon S Comentaacuterio de Leviacutetico Versiacuteculo por Versiacuteculo 2ordf ed Satildeo

Paulo Querigma 2020

ZUCK Roy B A interpretaccedilatildeo biacuteblica meios de descobrir a Verdade da Biacuteblia

Satildeo Paulo Vida Nova 1994

Autor ndash Bacharel em Teologia

Prof Odilon Soares Moreira

Bacharel em Teologia pela Faculdade

Beth Shalom e licenciado em Filosofia

pela Universidade Metodista de Satildeo

Paulo

E-mail odilonmoreira13hotmailcom

Page 4: REVISTA CIENTÍFICA AMALIE · 2020. 7. 6. · REVELAÇÃO MESSIÂNICA NO LIVRO DE LEVÍTICO AMALIE REVISTA CIENTÍFICA . ... Idiomas: Aceitos artigos escritos em português, espanhol

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SUMAacuteRIO

O LIVRO DE JOacute O CONTRATO COM DEUS E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA 6

1 UM LIVRO ATEMPORAL 7 2 O PROMOTOR ACUSADOR DE JOacute E O ENTRELACcedilAMENTO DAS IDEIAS DE RETRIBUICcedilAtildeO E CONTRATO 8

3 O DESEJO DE JOacute E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA 12 4 O ENCONTRO RESTAURATIVO DE JOacute E IAWEH 14

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 17 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 18

A CONTRIBUICcedilAtildeO DOS MANUSCRITOS DE QUMRAN PARA EXEGESE DO

APOCALIPSE DE JOAtildeO 20 APOCALIPSE 51-14 ndash O CAcircNTICO CERIMONIAL DA CELEBRACcedilAtildeO DO SACERDOacuteCIO UNIVERSAL DE JESUS Agrave LUZ DAS TRADICcedilOtildeES DO MISTICISMO

JUDAICO - UMA EXEGESE CONTEMPORAcircNEA 20 INTRODUCcedilAtildeO 22

1INTRODUCcedilAtildeO AO MISTICISMO JUDAICO - ldquoANAacuteLISE DOS TEXTOS FUNDANTESrdquo 23 11 ndash Isaiacuteas Cap 6 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 23

12 ndash Ezequiel Cap 1 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 25 13 ndash I Enoque Cap 14 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 27

14 - Daniel (79-14) e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico 28 2 Apocalipse 51-14 ndash O Cacircntico Cerimonial da Celebraccedilatildeo do Sacerdoacutecio Universal de Jesus agrave Luz das Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico - Uma Exegese Contemporacircnea 30

21 - O Misticismo Judaico e Apocaliacuteptico em (Apocalipse 51-14) 34 CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 44

REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 46

A TERCEIRIZACcedilAtildeO DA FEacute NOS TEMPOS DE PANDEMIA E ISOLAMENTO SOCIAL O SURGIMENTO DO ldquoPERSONAL PROFECTrdquo ndash E AS CRISES DE

ESPIRITUALIDADE 53 INTRODUCcedilAtildeO 54 1OUTROS PROBLEMAS INFLUENCIANDO A ESPIRITUALIDADE NO TEMPO DE

ISOLAMENTO SOCIAL DO ATEIacuteSMO CETICISMO OU UMA BUSCA MAL DIRECIONADA DA ESPIRITUALIDADE PODERAtildeO INFLUENCIAR AS RELACcedilOtildeES

DE FEacute 55 2VIVEMOS - ldquoUMA NOVA FEacute PARA UM NOVO TEMPOrdquo ONDE VERIFICAMOS COMO COMPREENDER A FEacute E SUAS APLICACcedilOtildeES COMO VIVENCIAR A FEacute NA

ATUALIDADE 56 3HOJE Eacute PRECISO RESSIGNIFICAR ALGUNS CONCEITOS SOBRE A FEacute 57

4QUAL A MENSAGEM OU CONSELHO SOBRE O VIVER UM CRISTIANISMO COERENTE QUE SOBREVIVA A ISOLAMENTOS SOCIAIS E PANDEMIAS 59

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 62 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 63

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O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO 67 INTRODUCcedilAtildeO 68

1 EM BUSCA DO CENAacuteRIO HISTOacuteRICO68 2 A EXPANSAtildeO DA FEacute CRISTAtilde69

3 DE PEDRO A PAULO (EXPANSAtildeO DA OBRA DE MISSOtildeES)69 4 O APOacuteSTOLO PAULO NO AREOacutePAGO72 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 73

REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NO LIVRO DE LEVIacuteTICO 74 INTRODUCcedilAtildeO 75 1 TIPOLOGIA 76

11 - Definiccedilatildeo de tipologia77 12 - A tipologia como ferramenta da hermenecircutica 77

13 - As Escrituras e a tipologia77 14 - A tipologia e as correntes teoloacutegicas78 141- ldquotiposrdquo natildeo ratificados pelo Novo Testamento 79

142 - Siacutembolos ratificados pelo Novo Testamento 80 142 - Corrente intermediaacuteria ldquotiposrdquo expliacutecitos e impliacutecitos 81

2 ESTABELECIMENTO DA CORRENTE INTERPRETATIVA81 3 REVELACcedilAtildeO MESSIAcircNICA NA OFERTAS VOLITIVAS E COMPULSOacuteRIAS 82

31 - As ofertas volitivas 82 311 - Os Holocaustos 82

312 - Exigecircncias para o Holocausto 83 313 - As ofertas de manjares 85 314 - As ofertas de comunhatildeo ou ofertas pacificas 86

4 AS OFERTAS COMPULSOacuteRIAS86 41 - Ofertas pelos pecados cometidos por ignoracircncia87

42 - Oferta pela culpa ou restituiccedilatildeo 87 43 - Oferta pelo pecado ou de purificaccedilatildeo 88 44 - Aplicaccedilatildeo tipoloacutegica das ofertas 88

5 OS SACERDOTES E O SUMO SACERDOTE89 51 - A mediaccedilatildeo 89

52 - A unccedilatildeo e a pureza 90 53 - As vestimentas sacerdotais e os rituais de purificaccedilatildeo 90 54 - O Yom Kippur92

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS 93 REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS 94

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O LIVRO DE JOacute O CONTRATO COM DEUS E A JUSTICcedilA

RESTAURATIVA1

RESUMO

O presente artigo escrito durante a pandemia da COVID-19 tem o intuito de relembrar a

histoacuteria de Joacute Partindo de uma perspectiva interdisciplinar entre Teologia e Direito

analisam-se as diferentes visotildees de Justiccedila contidas no Livro de Joacute Pretende-se

demonstrar a prevalecircncia da ideia de justiccedila restaurativa em detrimento das concepccedilotildees de

justiccedila retributiva (ligada ao tema do castigo divino) e contratualista (ligada ao tema da

teologia da prosperidade)

Palavras-chave Livro de Joacute Justiccedila retributiva Contrato Justiccedila restaurativa

ABSTRACT

This article written during the pandemic of COVID-19 is intended to recall Jobs story

Starting from an interdisciplinary perspective between theology and law the different

views of justice contained in the Book of Job are analyzed It is intended to demonstrate

the prevalence of the idea of restorative justice instead of the concepts of retributive

justice (linked to the theme of divine punishment) and contractualist (linked to the theme

of prosperity theology)

Key words Book of Job Retributive justice Contract Restorative justice

1 Doutor em Direito Penal pela Universidade de Satildeo Paulo Juiz Federal e Professor de Direito Penal da

FADISA

autor

Excelentissiacutemo Juiz Federal

Dr Paulo Bueno de Azevedo

7

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1 UM LIVRO ATEMPORAL

O presente artigo eacute escrito durante um periacuteodo turbulento certamente ineacutedito para

muitos de noacutes embora natildeo seja o primeiro evento da espeacutecie em nosso planeta A

pandemia da COVID (Corona virus Disease) -19 tal como outras doenccedilas no passado

(peste negra gripe espanhola etc) ainda estaacute causando milhares de mortes no mundo

todo forccedilando medidas eneacutergicas de isolamento social levando muitos ao desemprego agrave

falecircncia e agrave desesperanccedila

Neste cenaacuterio alguns ousam perguntar onde estaacute Deus Por que Deus esconde sua

face nesse momento Jaacute outros enxergam o sinal do fim dos tempos a puniccedilatildeo divina

decorrente dos pecados humanos E haacute ainda quem reforce a sua descrenccedila se Deus

existisse mesmo nada disso poderia ocorrer Enfim num momento tatildeo difiacutecil a

desesperanccedila a raiva e a incerteza encontram terreno feacutertil para disseminaccedilatildeo As

muacuteltiplas vozes se chocam e a feacute arrefece

Na verdade tais anguacutestias vecircm de certas concepccedilotildees que as pessoas tecircm de Deus

as quais por sinal estatildeo profundamente entrelaccediladas com pensamentos juriacutedicos A ideia

do castigo vem do tirociacutenio que invoca a justiccedila retributiva divina Jaacute o pensar que Deus

natildeo poderia permitir tais cataacutestrofes parece traduzir uma espeacutecie de obrigaccedilatildeo do Senhor

para com a humanidade E se existisse mesmo tal obrigaccedilatildeo quem poderia levar Deus ao

tribunal para que fosse compelido a cumprir esse contrato

O problema parece insoluacutevel pois quer se trate da puniccedilatildeo quer de um contrato

descumprido ningueacutem poderia confrontar o Criador em juiacutezo Ou poderia O desespero eacute

atual no entanto a histoacuteria eacute antiga Haacute milhares de anos foi retratada no Livro de Joacute A

autoria desse livro que compotildee o Antigo Testamento da Biacuteblia eacute desconhecida e existem

muitas duacutevidas sobre possiacuteveis trechos inseridos ou modificados a posteriori Imaginaria o

seu autor (ou sua autora2) que sua obra continuaria atual e sendo objeto de estudos e

reflexotildees mais de dois mil anos depois

Natildeo natildeo eacute por acaso que Jorge Luis Borges (BORGES 2009 p 156) considerava

o Livro de Joacute um dos mais impressionantes da Biacuteblia nem que Freud o tenha situado

como a mais alta das literaturas humanas (apud BORGES 1965) Natildeo eacute coincidecircncia que

o Livro de Joacute seja considerado ldquoo mais saacutebio da Biacuteblia Hebraicardquo (BLOOM 2005 p 15)

e tenha sido recontado tantas vezes como nas versotildees de HG Wells (apud BORGES

1965) e Fabrice Hadjadj bem como objeto de longos estudos a exemplo daqueles de Carl

2 A hipoacutetese de que o texto javista da Biacuteblia Hebraica poderia ter sido escrito por uma mulher hitita eacute

aventada por Harold Bloom (BLOOM 2005 p 27)

8

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Gustav Jung e de Reneacute Girard A histoacuteria de Joacute tambeacutem ecoa na seacutetima arte como em A

aacutervore da vida de Terrence Malick (apud CARBAJOSA 2017) e tambeacutem na chamada

nona arte como na graphic novel ldquoO contrato com Deusrdquo de Will Eisner (EISNER 2019

p 21-79)

Enfim ateacute por abordar o eterno problema do sofrimento humano trata-se de obra

atemporal cujo reexame no momento atual eacute mais do que propiacutecio inclusive com um

olhar detalhado sobre suas possiacuteveis liccedilotildees especialmente acerca de um valor tatildeo caro

tanto para a Teologia quanto para o Direito qual seja a Justiccedila O grito de Joacute ainda se

prolonga eacute o grito de Jesus na cruz eacute o grito dos pobres e desamparados e eacute o grito de

todos noacutes em nossos momentos de maior fragilidade Eacute dele que vem o nosso clamor por

justiccedila e restauraccedilatildeo

2 O PROMOTOR ACUSADOR DE JOacute E O ENTRELACcedilAMENTO DAS IDEIAS

DE RETRIBUICcedilAtildeO E CONTRATO

A histoacuteria de Joacute pode ser vista por muacuteltiplos olhares desde o seu enigmaacutetico

comeccedilo De fato o proacutelogo conteacutem amplo material para se discutir a teodiceia ou mais

exatamente como se justificar que um Deus infinitamente bom permita o mal E tudo

parece se complicar quando num determinado dia em que os Filhos de Deus se apresentam

a Iaweh entre eles veio tambeacutem Satatilde (Joacute 16)

De acordo com o senso comum Satanaacutes eacute o anjo caiacutedo inimigo da humanidade

Todavia conforme observa Ari Marcelo Solon ldquono Livro de Joacute Satanaacutes deve ser

entendido no sentido hebraico de lsquoacusadorrsquo um servo obediente de Deus e natildeo

necessariamente maurdquo (SOLON 2009 p 2)

Neste diapasatildeo podemos olhar o Livro de Joacute sob uma perspectiva de um drama de

tribunal sendo que o iniacutecio da acusaccedilatildeo eacute feito por Satanaacutes uma espeacutecie de promotor que

atua perante o Juiacutezo de Deus Mas qual seria o teor desta accedilatildeo penal satacircnica Eacute a

falsidade da feacute de Joacute Satatilde potildee em duacutevida a feacute de Joacute dizendo num primeiro momento que

ele apenas se comporta como um servo obediente em razatildeo de seus muitos bens Se

perdesse seus bens de acordo com o acusador Joacute lanccedilaria maldiccedilotildees contra Deus (Joacute 1 9-

11)

E o que faz Iahweh Recebe a acusaccedilatildeo e deixa tudo o que pertence a Joacute em poder

de Satanaacutes (Joacute 1 12) Inicia-se pois a celeuma Um mal seraacute praticado contra Joacute e nem se

poderaacute aqui falar-se ldquoapesar de Deusrdquo Natildeo o texto biacuteblico eacute categoacuterico ao estabelecer que

todo o mal seraacute praticado por autorizaccedilatildeo expressa de Iahweh Como Por quecirc Como

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pode um Deus bom autorizar expressamente que o mal seja praticado contra um homem

justo Seria uma aplicaccedilatildeo do ditado popular ldquoaqui se faz aqui se pagardquo Mas o que Joacute

fez

Natildeo obstante natildeo haja respostas a tais perguntas no Livro importa por ora observar

que a feacute de Joacute natildeo falhou embora trageacutedias o tenham tirado seus bens e tambeacutem os seus

filhos Eis a resposta de Joacute

ldquoNu saiacute do ventre de minha matildee

e nu voltarei para laacute

Iaweh o deu Iaweh o tirou

bendito seja o nome de Iawehrdquo3

Joacute perseverou em sua feacute Eacute evidente que se abalou ateacute pela informaccedilatildeo de que

rapou a cabeccedila e caiu por terra inclinando-se no chatildeo (Joacute 1 20)4 poreacutem sua feacute se

mostrou verdadeira Ou natildeo O promotor Satanaacutes ainda duvida e adita a acusaccedilatildeo se a

carne fosse ferida se a sua vida e sauacutede estivessem em jogo Joacute revelaria a sua verdadeira

face e amaldiccediloaria Deus (Joacute 2 4-5) E Deus uma vez mais autoriza o acusador

proibindo-lhe apenas de tirar a vida de Joacute (Joacute 2 6)

Esta eacute a autorizaccedilatildeo final a Satanaacutes que jaacute sai de cena no segundo capiacutetulo do

Livro de Joacute Contudo ao contraacuterio do que alguns possam pensar o Acusador falhou

novamente em seu intento De fato Joacute manteve sua feacute apesar das chagas em seu corpo

quando responde ao comentaacuterio de sua esposa que deveria amaldiccediloar Iaweh ldquose

recebemos de Deus os bens natildeo deveriacuteamos receber tambeacutem os malesrdquo (Joacute 2 10)

Mas como A histoacuteria natildeo termina aiacute Se o acusador saiu de cena o que fez Joacute

comeccedilar a expressar a sua anguacutestia ou em outras palavras o que fez Joacute comeccedilar a perder

a sua paciecircncia

Eacute certo que na Biacuteblia o acusador fez sua uacuteltima apariccedilatildeo apoacutes lanccedilar a Joacute o

sofrimento em sua pele Contudo na versatildeo irreverente contada pelo filoacutesofo Fabrice

Hadjadj o Acusador depois disso ainda lanccedila matildeo de sua uacuteltima arma contra Joacute ldquoa uacutenica

matilha capaz de devorar seu coraccedilatildeordquo (HADJADJ 2017 p 20) Hadjadj estaacute se

referindo com uma boa dose de razatildeo aos amigos de Joacute

E com efeito na versatildeo biacuteblica Joacute somente comeccedila os seus lamentos apoacutes a

chegada de seus trecircs amigos Elifaz Baldad e Sofar

3 Joacute 1 21 4 De acordo com nota da Biacuteblia de Jerusaleacutem tais gestos significam expressatildeo de dor ou de lu to (Biacuteblia de

Jerusaleacutem 2011 p 804)

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Os diaacutelogos de Joacute com seus amigos constituem beliacutessimos exemplos de disputas

retoacutericas e reforccedilam a perspectiva desse livro biacuteblico como um drama de tribunal Em

grande esforccedilo de siacutentese os amigos que tambeacutem podem ser comparados pela mesma

oacutetica a assistentes da acusaccedilatildeo culpam Joacute por todos os males por ele sofridos De fato se

Joacute sofre eacute porque pecou contra Deus E Deus em sua infinita bondade e justiccedila estaacute

apenas castigando Joacute por seus pecados Em suma Elifaz Baldad e Sofar sustentam a

justiccedila retributiva

Eacute mais do que relevante notar que essa concepccedilatildeo de retribuiccedilatildeo complementa

perfeitamente a acusaccedilatildeo de Satanaacutes segundo a qual Joacute soacute tinha feacute porque tudo corria bem

com ele natildeo passava por dificuldades nem provaccedilotildees E a acusaccedilatildeo de Satanaacutes em

verdade seria totalmente procedente em relaccedilatildeo aos amigos de Joacute pois eles demonstram

acreditar nessa visatildeo contratualista da relaccedilatildeo com Deus Se Joacute natildeo tivesse realmente

pecado Deus nunca faria nada de mal com ele Ou dito de outro modo se a pessoa natildeo

peca Deus tem a obrigaccedilatildeo de natildeo deixar nada de mal ocorrer com ela Porque o mal sem

pecado tornaria Deus injusto e isto seria uma verdadeira blasfecircmia Nas palavras de

Baldad ldquoacaso Deus torce o direito ou Shaddai perverte a justiccedilardquo (Joacute 8 4)

Se natildeo pecarmos nada de mal nos aconteceraacute Desde quando foi elaborado esse

contrato com Deus O contrato foi celebrado por um representante da humanidade em

nome de todos ou cada um de noacutes o celebra individualmente

O renomado quadrinista William Erwin Eisner mais conhecido como Will Eisner

brindou-nos com uma das mais belas histoacuterias da nona arte intitulada ldquoUm contrato com

Deusrdquo (EISNER 2019) Neste conto moderno que ecoa o Livro de Joacute acompanhamos o

judeu Frimme Hersh que desde crianccedila embora oacuterfatildeo soacute praticava boas accedilotildees Numa

conversa com um rabino o menino lhe pergunta sobre a justiccedila de Deus e se Ele saberia se

Frimme se comportaria bem O rabino fala sobre a onisciecircncia de Deus e surge aiacute a ideia

do contrato entatildeo redigido numa pequena pedra (EISNER 2019 p 35-36) Fugindo da

perseguiccedilatildeo aos judeus de seu paiacutes Frimme Hersh vai para os Estados Unidos e ali cresce

tornando-se um respeitado membro da sinagoga Talvez por sua reconhecida bondade e

generosidade com todos uma menina receacutem-nascida foi abandonada na porta de Hersh E

Frimme Hersh a adotou e a criou com todo o seu amor batizando-a com o nome de sua

falecida matildee Rachele Hersh considerou sua filha uma daacutediva de Deus

Contudo passados os anos na flor da idade Rachele adoece e vem a falecer Neste

momento depois de enterrar sua filha numa noite tempestuosa Hersh explode em fuacuteria

ldquoNAtildeO Vocecirc natildeo pode fazer isso comigo noacutes temos um contrato VOCEcirc QUEBROU

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NOSSO CONTRATOrdquo () ldquoSe Deus exige que homens honrem seus acordos entatildeo

Deus tambeacutem natildeo tem essa obrigaccedilatildeordquo (EISNER 2019 pp 41-43)5

Seraacute mesmo que existe esse contrato Um contrato que garante que nada de ruim

aconteceraacute com pessoas boas Aparentemente a resposta era positiva para os amigos de Joacute

Tanto que buscavam imputar a Joacute a culpa pelas desgraccedilas que se abateram sobre ele

Portanto a loacutegica da justiccedila retributiva (castigo para quem peca) e contratual (Deus tem

obrigaccedilatildeo de proteger quem natildeo peca) estatildeo intrinsecamente ligadas E tal pensamento

perdura ateacute hoje como observa Luiz Alexandre Solano Rossi ldquoMais angustiante ainda eacute

reconhecer que mesmo hoje fazemos teologia com a mesma loacutegica dos amigos de Joacute

Trata-se portanto de uma loacutegica que temos muita dificuldade para quebrarrdquo (ROSSI

2017 p 31) Mesmo Carl Gustav Jung ao falar de ldquoquebra de juramentordquo aduzindo que

ldquonatildeo se pode contrapor um Deus arcaico agraves exigecircncias da eacutetica modernardquo parece sucumbir

agrave oacutetica contratualista (JUNG 2018 p 22)

Especificamente Rossi critica a chamada teologia da prosperidade tratando-a

como uma teologia da retribuiccedilatildeo poacutes-moderna (2017 p 65)

ldquoUma das possiacuteveis expressotildees da teologia da retribuiccedilatildeo em ambiente

eclesiaacutestico poacutes-moderno eacute a lsquoteologia da prosperidadersquo Essa teologia declara

que o plano de Deus para o ser humano eacute fazecirc-lo feliz abenccediloado saudaacutevel

proacutespero enfim uma pessoa de sucesso Mas onde estaria a complexidade dessa

afirmaccedilatildeo Sua complexidade reside justamente no fato de que para essa

teologia soacute natildeo eacute proacutespero financeiramente soacute natildeo eacute saudaacutevel e feliz nesta vida

quem carece de feacute natildeo cumpre o que a Biacuteblia diz a respeito das promessas

divinas e estaacute envolvido com o diabo ou seja quem estaacute em pecadordquo

Janaina Conceiccedilatildeo Paschoal (2018 p 183) comentando sobre crimes cometidos

por alguns liacutederes religiosos observa que ldquoos interesses econocircmicos tambeacutem passam mais

claramente a motivar os fieacuteisrdquo Nesse diapasatildeo Rossi observa que muitas teologias estatildeo

tratando os fieacuteis como clientes (2017 p 129)

Como se vecirc portanto embora a histoacuteria de Joacute sempre seja lida com criacuteticas aos

seus amigos podemos ver que a teologia deles retributiva e contratualista permanece

sendo praticada por muitos homens de feacute ateacute os dias de hoje

5 As belas e tristes cenas da fuacuteria de Frimme Hersh satildeo retratadas como um diaacutelogo entremeando -se os gritos

furiosos do enlutado pai com os terriacuteveis relacircmpagos da tempestade que assola a cidade neste momento Este

eacute apenas o comeccedilo da histoacuteria de Frimme Hersch que merece ser lida Natildeo diremos mais sobre ela anotando

apenas que esse diaacutelogo pode ser comparado com o de Joacute e Iaweh que aparece no seio de uma tempestade

(Joacute 38 1) De qualquer forma a dor eacute semelhan te agrave da matildee que perde um filho no filme ldquoA aacutervore da vidardquo

o qual conteacutem referecircncias expressas ao Livro de Joacute

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Mas Joacute natildeo se calou perante seus amigos Discutiu com eles agrave exaustatildeo Ele queria

mais do que provar o seu ponto natildeo desejava simplesmente amaldiccediloar a Deus O que

afinal queria Joacute Joacute ansiava sim algo profundamente encontrar Deus no tribunal

3 O DESEJO DE JOacute E A JUSTICcedilA RESTAURATIVA

A ideia de levar Deus ao tribunal parece absurda e fadada agrave derrota e Joacute sabe muito

bem disso Afinal ele se pergunta quem citaraacute Deus (Joacute 9 19) e sabe que entre mil

razotildees natildeo haveraacute uma para rebatecirc-lo (Joacute 9 3) Mas Joacute ainda assim insiste Por quecirc

Dentre as inuacutemeras respostas possiacuteveis falaremos sobre aquela que mais nos

parece proacutexima da verdade do livro E para isso faremos uma pequena digressatildeo

aproveitando-nos de um pouco de nossa experiecircncia com os tribunais Muitos pensam e

falam como se tratasse de um dogma que os juiacutezes sempre tecircm o dom de desagradar uma

das partes do processo aquela que perde De acordo com essa visatildeo na praacutetica o processo

eacute um jogo em que as partes soacute tecircm uma finalidade vencer Nem sempre isso eacute verdade eis

que natildeo raramente mesmo os vencedores se desagradam com os magistrados que lhe

deram ganho de causa ao passo que os perdedores podem se conformar e ateacute aderir agrave

pretensatildeo adversa Para muitos isso pode parecer um desatino poreacutem ainda que desafie a

loacutegica e o senso comum trata-se uma conclusatildeo vaacutelida que tem a ver com um conceito

diverso de justiccedila qual seja o de justiccedila restaurativa Talvez essa seja a melhor forma de

justiccedila superando ateacute mesmo a justiccedila distributiva pois essa tambeacutem natildeo perde seu

caraacuteter impositivo A justiccedila restaurativa eacute a mais simples e paradoxalmente a mais

complexa A mais faacutecil e a mais difiacutecil A mais simples de se entender e a mais impossiacutevel

de se acreditar Essa eacute a justiccedila do diaacutelogo em que todos falam e ouvem-se uns aos

outros

Joacute natildeo quer vencer Deus no tribunal Joacute quer simplesmente falar ldquoEntatildeo lhe falaria

e natildeo teria medo pois eu natildeo sou assim a meus olhosrdquo (Joacute 9 35) Joacute tambeacutem quer ouvir

ldquoDirei a Deus Natildeo me condenes explica-me o que tens contra mimrdquo (Joacute 10 2)

Joacute sabe que nenhuma razatildeo poderaacute derrotar o Criador Mesmo assim quer ser

ouvido por Ele e tambeacutem quer escutaacute-lo

O processo judicial pode ser encarado como um jogo poreacutem nem sempre eacute assim

Muitos reacuteus mesmo de processos criminais conformam-se com sua condenaccedilatildeo quando

percebem que foram efetivamente ouvidos e compreendidos no julgamento A pena entatildeo

eacute aceita pois o proacuteprio acusado compreendeu e aceitou a sua proacutepria responsabilidade O

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processo penal com sua estrutura adversarial eacute um ambiente pouco propiacutecio para a justiccedila

restaurativa embora talvez ateacute por obra do acaso algumas vezes ela ocorra nele E talvez

esse acaso possa ser provocado justamente quando o juiz natildeo condena o reacuteu mas sim lhe

explica o que tem contra ele6 Poder-se-ia objetar que isso seria mera questatildeo de

semacircntica todavia seraacute que em tantas situaccedilotildees o problema natildeo estaacute exatamente no que

se diz mas no como se diz

O encontro entre o autor da infraccedilatildeo e a viacutetima eacute uma das possiacuteveis formas pelas

quais se pratica a justiccedila restaurativa Este diaacutelogo para dar certo deve ser preparado

pelos facilitadores restaurativos7 No processo penal autor da infraccedilatildeo e viacutetima raramente

se encontram Ateacute porque o ofendido frequentemente pede para natildeo depor na frente do

reacuteu por fundado temor Eacute certo que amiuacutede o medo eacute justificaacutevel contudo o que se vecirc

no cotidiano forense eacute que ele eacute praticamente presumido automaticamente aprofundando

o trauma do crime de modo que natildeo se vislumbre mais qualquer possibilidade de perdatildeo

ou reconciliaccedilatildeo

Joacute disse que Shaddai8 lhe encheu de terror (Joacute 23 16) todavia deseja

ardorosamente o encontro

ldquoOxalaacute soubesse como encontraacute-lo

como chegar agrave sua morada

Exporia diante dela a minha causa

com minha boca cheia de argumentos

Gostaria de saber com que palavras iria responder-me

e ouvir o que teria para me dizer

Usaria ele de violecircncia ao pleitear comigo

Natildeo bastaria que me desse atenccedilatildeo

Ele reconheceria em seu adversaacuterio um homem reto

e eu triunfaria sobre meu juizrdquo (Joacute 23 3-7)

Joacute pretende expor seus argumentos diante de Deus ouvir o que Ele tem a dizer e

bastaria que Ele reconhecesse a sua retidatildeo para que Joacute se considerasse vitorioso Ora o

desejo de Joacute se coaduna com os preceitos da justiccedila restaurativa De fato como observa

Helena Zani Morgado ldquocomunicaccedilatildeo assertiva e escuta compassiva portanto satildeo verso e

anverso da moeda restaurativardquo (2018 p 158)

6 Eacute inusitado que um reacuteu parabenize o juiz que o condenou As vezes em que isso nos ocorreu podem ser

contadas nos dedos Poreacutem olhando agora para traacutes percebemos um lugar comum nesses casos Os acusados

se sentiram efetivamente ouvidos no processo Embora o julgamento lhes tenha sido adverso natildeo foram mal

compreendidos Sentiram eles que foram efetivamente ouvidos E souberam eles aceitar a su a

responsabilidade Uma rara poreacutem feliz combinaccedilatildeo que resultou de um processo penal 7 Entenda-se bem natildeo para se instigar um discurso artificial de arrependimento e perdatildeo mas sim para que

os envolvidos compreendam o processo especialmente no tocante agrave igualdade entre as partes e falem com

honestidade sobre seus sentimentos em relaccedilatildeo ao conflito Os facilitadores em regra satildeo voluntaacuterios que se

especializam em determinadas teacutecnicas restaurativas visando garantir um efetivo diaacutelogo entre as partes 8 Outro nome de Deus no Livro de Joacute

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Eacute preciso enfatizar que Joacute mais do que a reversatildeo dos seus infortuacutenios deseja o

reconhecimento de Deus exatamente como a viacutetima deseja ser reconhecida como pessoa

por seu ofensor Na justiccedila retributiva dos amigos de Joacute e do processo penal em geral

ofendidos e acusados satildeo instrumentalizados vale dizer satildeo apenas peccedilas de um jogo que

determinaraacute ou natildeo a aplicaccedilatildeo da pena A viacutetima eacute um instrumento para a condenaccedilatildeo

pois o Estado-Juiz natildeo se importa com o seu trauma Jaacute o acusado tambeacutem eacute um

instrumento na medida em que serve de exemplo para a prevenccedilatildeo geral de delitos

reforccedilando a crenccedila na vigecircncia da norma ou como diz expressamente Guumlnther Jakobs ldquoa

finalidade da culpabilidade eacute a estabilizaccedilatildeo da norma deacutebilrdquo (JAKOBS 2003 p 31)

Elifaz Baldad Sofar natildeo soacute instrumentalizam Joacute como o pecador que certamente

estaacute recebendo o merecido castigo como tambeacutem o proacuteprio Deus que passa a ter funccedilotildees

claras de puniccedilatildeo ou recompensa (ou ateacute pagamento na perspectiva contratualista)

independentemente de sua vontade Enfim Deus passa a ser uma ideia que justifica o

sofrimento do pobre (pecador) e o bem-estar do rico (justo) Posteriormente em reforccedilo a

essa concepccedilatildeo ainda surge Eliuacute que censura Joacute simplesmente por falar9 e se coloca em

posiccedilatildeo de superioridade pretendendo instrui- lo10

Eliuacute assim humilha Joacute colocando-o num patamar inferior em que sua liberdade

de expressatildeo e de sentimentos por si soacute jaacute eacute tida como uma ofensa Enfim mais uma

personagem que tenta desviar Joacute de seu encontro restaurativo com Deus tratando-o como

um insensato que multiplica palavras

Joacute natildeo responde a Eliuacute talvez ateacute porque demais humilhado por ele11 Ou entatildeo Joacute

simplesmente natildeo tenha tido tempo de responder a Eliuacute pois eacute nesse momento que surge a

tempestade e finalmente o desejo de Joacute eacute atendido

4 O ENCONTRO RESTAURATIVO DE JOacute E IAWEH

No seio da tempestade estaacute Iaweh que passa a responder a Joacute (Joacute 38 1) O que

seria o cliacutemax do livro de Joacute torna-se o anticliacutemax Se por um acaso se esperava o retorno

do Acusador e sua eventual derrota ou qualquer esclarecimento ou justificativa divina para

o ocorrido o que se tem eacute que o livro terminaraacute sem qualquer explicaccedilatildeo para os atos de

Satanaacutes ou de Deus nem qualquer alusatildeo agrave inocecircncia ou eventual culpabilidade de Joacute

9 ldquoJoacute abre a boca para o vazio e insensatamente multiplica palavrasrdquo (Joacute 35 16) 10 ldquoEspera um pouco que eu te instruireirdquo (Joacute 36 2) 11 Uma liccedilatildeo que serve para os encontros restaurativos com autores de crimes pois a justiccedila restaurativa deve

empoderar as pessoas contribuindo para o desenvolvimento comunitaacuterio e natildeo para censuraacute -los ou colocaacute-

los em posiccedilatildeo de inferioridade o que apenas contribui para o ressentimento

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Iahweh pergunta e desafia ldquoOnde estavas quando lancei os fundamentos da terra

Dize-mo se eacute que sabes tantordquo (Joacute 38 4) A ironia utilizada por Deus em seu desafio a

Joacute por um lado poderia chocar como de fato tem chocado inuacutemeros autores e inteacuterpretes

da Biacuteblia Contudo temos aqui de fato um encontro restaurativo em que Joacute e Iahweh

puderam de fato dizer tudo o que pensavam Com efeito um diaacutelogo restaurativo natildeo pode

ser mal-entendido como uma conversa artificial uma espeacutecie de teatro em que cada um

procura dizer exatamente aquilo que o outro quer ouvir mostrando um (falso)

arrependimento em busca de uma (falsa) reconciliaccedilatildeo ou (falso) perdatildeo Apenas quando

duas pessoas falam a verdade ainda que dolorosa eacute possiacutevel a construccedilatildeo da justiccedila

restaurativa Neste sentido a observaccedilatildeo de Elizabeth M Elliot citando Hal Pepinsky e a

sabedoria do povo navajo para o processo de conceituaccedilatildeo da justiccedila ldquoCompareccedila Preste

atenccedilatildeo Fale a verdade Natildeo fique preso a resultadosrdquo (2018 p 103)

Assim veja-se a formaccedilatildeo da justiccedila restaurativa no livro de Joacute 1) Deus

compareceu diante de Joacute 2) Apesar de Deus natildeo ter surgido antes o livro aponta

claramente que Ele prestou atenccedilatildeo em tudo o que Joacute dizia (Joacute 38 1-4) 3) Tanto Joacute

quanto Deus falam francamente e por fim 4) Natildeo existe um resultado certo que devemos

esperar vale dizer natildeo estamos diante de um contrato em que cada uma das partes tecircm

obrigaccedilotildees previamente estipuladas a serem cumpridas

Um diaacutelogo fluido e natural e natildeo riacutegido e artificial eacute o que propiciaraacute a justiccedila

restaurativa A rigidez e a artificialidade somente poderatildeo produzir uma ilusatildeo de justiccedila

O discurso de Iahweh eacute duro e nisso reside a Sua verdade ou pelo menos

franqueza A restauraccedilatildeo natildeo pode ser alcanccedilada sem que se diga aquilo que se sente

Deus assim quebra expectativas com o que alguns inteacuterpretes chegam ao ponto

de lhe acusar de ausecircncia de compaixatildeo (HABEL 2004 p 37) De fato quando

expectativas comportamentais satildeo quebradas a proacutepria acusaccedilatildeo tambeacutem se mostra

implacaacutevel e sem misericoacuterdia assemelhando-se ao que ocorre no julgamento criminal12

Contudo a restauraccedilatildeo natildeo ocorreraacute tentando-se mudar aquilo que a pessoa eacute para se

atender a determinados preacute-conceitos

12 Embora a moderna dogmaacutetica penal seja unacircnime na rejeiccedilatildeo do ldquodolo pela conduccedilatildeo de vidardquo concepccedilatildeo

de Mezger com repercussotildees no direito penal nazista (cf SOUZA 2019 p 285) estudos da criminologia

criacutetica demonstram que o direito penal amiuacutede as sume caraacuteter altamente seletivo o que explicaria um

encarceramento massivo de negros pobres pessoas com baixa instruccedilatildeo etc Natildeo eacute funccedilatildeo deste trabalho

investigar os fatores que levam a isso mas fica aqui rapidamente consignado que desde a lei penal eacute

possiacutevel constatar irracionalidades no sistema de justiccedila criminal Como jaacute tivemos oportunidade de

mencionar alhures basta ver a pena destinada ao crime de fraude em licitaccedilatildeo (art 90 da Lei 86661993)

ainda que milionaacuteria e a pena do crime de moeda falsa ainda que envolvendo uma uacutenica ceacutedula de cinquenta

reais (art 289 do Coacutedigo Penal) e fazer um breve exerciacutecio de imaginaccedilatildeo tentando traccedilar um perfil de quem

costumeiramente costuma praticar o primeiro e o segundo delito (AZEVEDO 2019 p 210)

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E Joacute compreendeu isso dizendo que havia chegado o seu momento de escutar (Joacute

40 4-5) Ao final Joacute menciona ldquoQuem eacute aquele que vela teus planos com propoacutesitos sem

sentidordquo (Joacute 42 3)

Interpretamos esse trecho da seguinte forma Joacute reconheceu o seu erro e

finalmente entendeu que natildeo existe contrato aliaacutes nunca existiu um contrato Mas

tambeacutem natildeo houve retribuiccedilatildeo E isso ficou subentendido nos discursos de Iahweh nos

quais em momento algum existe alusatildeo a alguma acusaccedilatildeo contra Joacute Joacute estava certo ao

se considerar inocente poreacutem equivocado ao se considerar imune a quaisquer mazelas

como se protegido por uma obrigaccedilatildeo de Deus

Natildeo foi outra a conclusatildeo de Luiz Felipe Pondeacute (2017 p 7)

ldquoO lsquoerrorsquo de Joacute (como o de todos noacutes) foi achar-se justo e portanto merecedor

de uma vida feliz Quando ele finalmente se entrega a Deus e a tudo que existe

agrave sua volta sem se perguntar por que ele sofre Joacute entende seu pecado a

idolatria de sua proacutepria virtuderdquo

Depois do reconhecimento do proacuteprio erro por Joacute abre-se entatildeo o caminho para a

restauraccedilatildeo E espancando quaisquer duacutevidas Deus se dirige aos amigos de Joacute e fala algo

surpreendente ldquoEstou indignado contra ti e teus dois companheiros porque natildeo falastes

corretamente de mim como o fez meu servo Joacuterdquo (Joacute 42 7) Eacute curioso porque ao longo

dos diaacutelogos aparentemente os amigos de Joacute colocavam-se como os advogados de Iahweh

contra as blasfecircmias de Joacute Contudo como visto na verdade isto era apenas a ilusatildeo de

uma suposta justiccedila retributiva que puniria somente os pecadores de modo que quanto

aos natildeo pecadores evidentemente nada de mal ocorreria o que traduzia a ideia de

contrato com Deus A instrumentalizaccedilatildeo de Deus para permitir tais concepccedilotildees

definitivamente natildeo agradou Iahweh que natildeo soacute os desautorizou como ainda por cima

elogiou a fala sincera de Joacute Mesmo errado Joacute acertou mais que seus amigos ao afastar a

retribuiccedilatildeo divina como causa de suas mazelas O comparecimento e o reconhecimento de

Deus representaram o triunfo de Joacute ldquoEu te conhecia soacute de ouvir mas agora meus olhos te

veemrdquo (Joacute 42 5)

Tudo isso contudo natildeo resolveu o misteacuterio Muito tempo depois a duacutevida

novamente surgiu na boca dos disciacutepulos de Jesus e ele novamente a afastou embora

tenha aprofundado o misteacuterio

ldquoAo passar ele viu um homem cego de nascenccedila Seus disciacutepulos lhe

perguntaram lsquoRabi quem pecou ele ou seus pais para que nascesse cego

Jesus respondeu lsquoNem ele nem seus pais pecaram mas eacute para que nele sejam

manifestadas as obras de Deusrdquo

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A melhor soluccedilatildeo para o misteacuterio parece vir de Tolstoacutei que nos lembra que desde

o iniacutecio de nossas vidas a sombra da morte nos espreita A morte eacute inexoraacutevel para todos

noacutes e todos os nossos bens desejos e interesses desapareceratildeo depois dela Por isso

Tolstoacutei natildeo vecirc sentido numa ldquovida vivida soacute para sirdquo A uacutenica vida racional com

verdadeiro significado seria a vida vivida para os outros Apenas essa vida natildeo pode ser

destruiacuteda pela morte (TOLSTOacuteI 2011 p 148) Essa uma liccedilatildeo ainda a ser aprendida

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

Como dito no iniacutecio o presente artigo estaacute sendo escrito durante uma pandemia

num momento de fragilidade de muitas pessoas tempo em que o choque de vozes

favorece o temor e a desesperanccedila Poreacutem aqui recordamos a histoacuteria de Joacute todos os seus

infortuacutenios e sofrimentos e ao final sua restauraccedilatildeo

A propoacutesito do final alguns autores o consideram escrito posteriormente por outro

autor um ldquoepiacutelogo ineptordquo (BLOOM 2005 p 27) ou proacuteprio de ldquoum grande sucesso de

bilheteria hollywoodianordquo (GIRARD 2014 p 163)13 Natildeo cremos nessa hipoacutetese14

poreacutem ainda que verdadeira natildeo eacute muito relevante Na verdade o final com a devida

vecircnia natildeo recebeu a devida interpretaccedilatildeo dos ilustres autores citados

De fato esse fim de Hollywood parece resultar do enfoque na restauraccedilatildeo15 dos

bens e de novos filhos para Joacute como se fosse isso o que realmente importasse Ou seja

novamente uma interpretaccedilatildeo que se apega ao contratualismo como o pagamento de uma

diacutevida em atraso por Deus Natildeo eacute este o melhor entendimento

A restauraccedilatildeo ocorre com o reconhecimento por Deus da retidatildeo de Joacute natildeo

obstante todos os males que se abateram sobre ele a respeito dos quais Iahweh tambeacutem

natildeo fornece qualquer explicaccedilatildeo Isso aliado ao comparecimento de Deus eacute o bastante

para o triunfo e reparaccedilatildeo de Joacute Enfim tudo isso eacute suficiente para a restauraccedilatildeo do seu

conflito com Deus Novos bens e novos filhos bem como provaacuteveis novos revezes

embora natildeo citados satildeo apenas meras consequecircncias da continuidade da vida

13 Natildeo obstante Reneacute Girard mesmo considerando que o epiacutelogo tenha sido adicionado reconhece nele uma

frase marcante na qual Deus falando aos amigos acrescenta que natildeo os castigaraacute ldquopor natildeo terdes falado

corretamente de mim como o fez meu servo Joacute (Joacute 48 8) rdquo (GIRARD 2014 P 163) 14 O fim do livro eacute perfeitamente compatiacutevel com o seu conteuacutedo afastando a ideia de justiccedila retributiva 15 A propoacutesito desta restauraccedilatildeo Norman C Habel sugere que o uso do verbo restaurar pode ser fortuito

poreacutem sugere uma justiccedila restaurativa em vez de uma retributiva (HABEL 2004 p 35)

18

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A oportunidade do diaacutelogo com Deus foi a verdadeira restauraccedilatildeo de Joacute pois ele

compreendeu dois fatos fundamentais 1ordf) mesmo sendo justo natildeo estava imune ao mal e

ao sofrimento 2ordf) apesar de ter chegado a amaldiccediloar o dia em que nasceu (Joacute 3 1) Joacute

percebeu que sua vida teve um verdadeiro significado como no sentido proposto por

Tolstoacutei Foi uma vida vivida para os outros como demonstra a lembranccedila de Joacute em um

dos diaacutelogos

ldquoA justiccedila eu vivia como tuacutenica

o direito era meu manto e meu turbante

Eu era olhos para o cego

era peacutes para o coxo

Era o pai dos pobres

e examinava a causa de um desconhecidordquo (Joacute 29 14-16)

Nestes tempos de pandemia temos uma escolha reclamar da sorte e maldizer a

Deus ou continuar dando um verdadeiro significado agraves nossas vidas ajudando-nos uns aos

outros da melhor forma que pudermos Sem lamentar um contrato natildeo cumprido e sem nos

desesperarmos pela crenccedila de que estamos sofrendo um castigo divino A vida vivida para

os outros com espaccedilo para o perdatildeo e para a reconciliaccedilatildeo levaraacute agrave restauraccedilatildeo e ao

desenvolvimento de nosso senso de comunidade Esta a liccedilatildeo que extraiacutemos do Livro de

Joacute

REFEREcircNCIAS BIBLIOGRAacuteFICAS

AZEVEDO Paulo Bueno de Ensaio sobre a irracionalidade do sistema criminal agrave

luz da obra religiosa de Lev Tolstoacutei Rio de Janeiro Lumen Juris 2019

BIacuteBLIA DE JERUSALEacuteM Traduccedilatildeo de Luiz Inaacutecio Stadelmann 7ordf impressatildeo

2011

BLOOM Harold Onde encontrar a sabedoria Traduccedilatildeo de Joseacute Roberto OrsquoShea

Revisatildeo de Marta Miranda OrsquoShea Rio de Janeiro Objetiva 2005

BORGES Jorge Luiacutes El libro de Job [Conferecircncia en el Instituto Cultural

Argentino-Israeliacute de Buenos Aires 1965] In

httpsborgestodoelanioblogspotcomsearchq=libro+de+job acesso em 08 de maio

de 2020

BORGES Jorge Luis Sete conversas com Fernando Sorrentino Organizador

Fernando Sorrentino Traduccedilatildeo de Ana Flores Rio de Janeiro Beco do Azougue

2009

CARBAJOSA Ignacio Joacute potildee Deus no banco dos reacuteus Sobre o sofrimento inocente

In httparquivorevistapassoscombrdefaultaspid=344ampid_n=5530amppagina=1

acesso em 14052020

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ELLIOTT Elizabeth M Seguranccedila e cuidado justiccedila restaurativa e sociedades

saudaacuteveis Traduccedilatildeo de Cristina Telles Assumpccedilatildeo com revisatildeo teacutecnica de Tonia

Van Acker Satildeo Paulo Palas Athena 2018

EISNER Will Biblioteca Will Eisner um contrato com Deus Will Eisner [histoacuteria e

arte] Traduccedilatildeo Marquito Maia Satildeo Paulo Devir 2019

GIRARD Reneacute A rota antiga dos homens perversos Traduccedilatildeo de Tiago Joseacute Risi

Leme Satildeo Paulo Paulus 2014

JAKOBS Guumlnther Fundamentos do direito penal Traduccedilatildeo Andreacute Luiacutes Callegari

Satildeo Paulo Revista dos Tribunais 2003

HABEL Norman C The verdict onof Goda at the end of Job In Jobrsquos God

London SCM Press 2004

HADJADJ Fabrice Joacute ou a tortura pelos amigos Traduccedilatildeo de Clara Carvalho Satildeo

Paulo Eacute Realizaccedilotildees 2017

JUNG CJ Resposta a Joacute Traduccedilatildeo do Pe Dom Mateus Ramalho Rocha 10 ediccedilatildeo

Petroacutepolis Vozes 2018

MORGADO Helena Zani Direito penal restaurativo em busca de um modelo

adequado de justiccedila criminal Rio de Janeiro Revan 2018

PASCHOAL Janaina Conceiccedilatildeo Religiatildeo e direito penal interfaces sobre temas

aparentemente distantes Satildeo Paulo LiberArs 2018

PONDEacute Luiz Felipe Joacute e a alegria (prefaacutecio) In HADJADJ Fabrice Joacute ou a

tortura pelos amigos Traduccedilatildeo de Clara Carvalho Satildeo Paulo Eacute Realizaccedilotildees 2017

ROSSI Luiz Alexandre Solano A origem do sofrimento do pobre teologia e

antiteologia no livro de Joacute Satildeo Paulo Paulus 2017

SOLON Ari Marcelo Direito e tradiccedilatildeo o legado grego romano e biacuteblico Rio de

Janeiro Elsevier 2009

SOUZA Luciano Anderson de Direito penal parte geral Satildeo Paulo Revista dos

Tribunais 2019

TOLSTOacuteI Liev Minha religiatildeo Traduccedilatildeo Dinah de Abreu Azevedo Satildeo Paulo A

Girafa 2011

Autor ndash Excelentiacutessimo Juiz Federal Dr Paulo Bueno de Azevedo

Docente FATEJ FADISA

JUIZ FEDERAL e Professor de Direito Penal da

FADISA

DOUTOR em Direito Penal pela Universidade

de Satildeo Paulo

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ldquoA CONTRIBUICcedilAtildeO DOS MANUSCRITOS DE QUMRAN PARA

EXEGESE DO APOCALIPSE DE JOAtildeOrdquo

APOCALIPSE 51-14 ndash O CAcircNTICO CERIMONIAL DA

CELEBRACcedilAtildeO DO SACERDOacuteCIO UNIVERSAL DE JESUS Agrave LUZ DAS TRADICcedilOtildeES DO MISTICISMO JUDAICO - UMA EXEGESE

CONTEMPORAcircNEA

RESUMO

Nos uacuteltimos anos as descobertas dos manuscritos de Qumran intensificaram as propostas

de exegese da literatura apocaliacuteptica dando novas ecircnfases dentre elas estatildeo as hipoacuteteses de

Rowland16 de que os textos do Apocalipse 4 e 5 possuem em sua narrativa uma

semelhanccedila baacutesica com a liturgia descrita nas tradiccedilotildees do misticismo apocaliacuteptico do

judaiacutesmo no I seacuteculo bem como em textos de Qumran principalmente no fragmento

4Q405 Nogueira17 seguindo esta linha de pesquisas cita que Ezequiel capiacutetulo 1 eacute

considerado chave de uma tradiccedilatildeo miacutestica do judaiacutesmo enoquita sendo tambeacutem um

elemento central do Apocalipse de Joatildeo o principal visionaacuterio do cristianismo Sebastiana

Nogueira18 lembra que foi Scholem quem realmente usou este misticismo para produzir a

chave das histoacuterias de ascensatildeo celestial presentes nos apocalipses dos uacuteltimos dois seacuteculos

aC e dos primeiros dois seacuteculos dC de forma que Scholem na verdade foi quem

iniciou a discussatildeo acadecircmica dos miacutesticos judaicos em seu livro Major Trends in Jewish

Myticism - Principais Tendecircncias no Misticismo Judaico em 1941 Destarte esta linha de

pesquisa ecoa nos estudos do misticismo apocaliacuteptico e do ecircxtase visionaacuterio relativo ao

contexto do judaiacutesmo e cristianismo primitivos sendo fundamentada em autores tais

como Christopher Rowland Alan Segal C R A Morray-Jones e John Ashton John

Collins Adella Collins Jonas Machado Paulo A S Nogueira Carol Newsom David E

Aune Philip Alexander Crispin HT Fletcher-Louis Florentino Garciacutea Martiacutenez dentre

outros sendo que estes autores se alinham aos resultados das pesquisas iniciais de

Gershom Scholem sobre o Misticismo Judaico e aos desenvolvimentos mais recentes neste

acircmbito Corroborando com a tradiccedilatildeo destes estudos se encontram as descobertas dos

manuscritos de Qumran como a dos Cacircnticos do Sacrifiacutecio Saacutebatico uma composiccedilatildeo de

treze cacircnticos tambeacutem chamada de liturgia angeacutelica e que tem contribuiacutedo para o

desenvolvimento das pesquisas bem como sustentado os argumentos de Scholem

16 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 20097273 17 NOGUEIRA Paulo Augusto de S (org) Religiatildeo de Visionaacuterios ndash Apocaliacuteptica e Misticismo no

Cristianismo Primitivo Satildeo Paulo Ed Loyola ndash 200543 18 NOGUEIRA Sebastiana M Silva 2 Coriacutentios 12 e o Misticismo Judaico (Os Quatro que Entraram no

Pardes) Oracula 201204

autor

Me Marcelo Alves Dantas

E-mail marcelodantasteologiagmailcom

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Portanto este artigo faz uma breve exposiccedilatildeo das tradiccedilotildees da miacutestica judaica e suas

contribuiccedilotildees para exegese do capiacutetulo 5 do Apocalipse de Joatildeo

Palavras chave Judaiacutesmo Misticismo Apocaliacuteptica Trono Cacircntico

ABSTRACT

In recent years the discoveries of the Qumran manuscripts have intensified the proposals

for the exegesis of apocalyptic literature with new emphases among them are Rowlands

hypotheses that the texts of Revelation 4 and 5 have in their narrative a basic similarity

with the liturgy described in the traditions of Judaisms apocalyptic mysticism in the first

century as well as in Qumran texts mainly in fragment 4Q405 Nogueira following this

line of research and based on other scholars mentions that Ezekiel chapter 1 is considered

key to a mystical tradition of enochite Judaism being also a central element of the

Apocalypse of John the main visionary of Christianity Sebastiana Nogueira recalls that it

was Scholem who really used this mysticism to produce the key to the stories of celestial

ascension present in the apocalypses of the last two centuries BC and the first two

centuries AD So Scholem in fact who started the academic discussion of mystics Jews in

his book Major Trends in Jewish Myticism - Main Trends in Jewish Mysticism in 1941

Thus this line of research echoes in the studies of apocalyptic mysticism and visionary

ecstasy concerning the context of primitive Judaism and Christianity with some of the best

known authors Christopher Rowland Alan Segal CRA Morray-Jones and John Ashton

John Collins Adella Collins Jonas Machado Paulo AS Nogueira Carol Newsom David

E Aune Philip Alexander Crispin HT Fletcher-Louis Florentino Garciacutea Martiacutenez among

others these authors are aligned with the results of Gershom Scholems initial research on

Jewish Mysticism and with the most recent developments in this area Corroborating the

tradition of these studies are the findings of the Qumran manuscripts such as the Song of

Sacrifice Saacutebatico a composition of thirteen songs also called angelic liturgy which has

contributed to the development of research as well as supporting the arguments of

Scholem Therefore this article briefly exposes the traditions of Jewish mysticism and

their contributions to the exegesis of chapter 5 of the Apocalypse of John

Keywords Judaism Mysticism Apocalyptic Throne Song

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INTRODUCcedilAtildeO

Segundo Nogueira19 o cristianismo primitivo nasceu como religiatildeo extaacutetica e que

para se compreender a literatura antiga eacute importante levar-se em consideraccedilatildeo a pergunta

sobre a situaccedilatildeo cultural da eacutepoca e a produccedilatildeo dos textos Diante do reconhecimento de

que visotildees audiccedilotildees e revelaccedilotildees natildeo acontecem sem um quadro cultural de referecircncia

assim o exegeta deve partir da busca de possiacuteveis contribuiccedilotildees para o estudo deste quadro

cultural tendo como finalidade contribuir para a compressatildeo das experiecircncias visionaacuterias e

apocaliacutepticas tanto quanto da experiecircncia religiosa dos primeiros cristatildeos

Assim procurando situar o quadro cultural de referecircncia elencamos no trabalho

comparativo os dados apresentados por Sacchi20 permitindo a distinccedilatildeo de quatro periacuteodos

da Apocaliacuteptica

a) A primeira fase apocaliacuteptica com seu iniacutecio antes de 200 aC

b) A segunda fase apocaliacuteptica desde 200 aC a 100 aC

c) A terceira fase apocaliacuteptica desde 100 aC a 50 dC

d) A quarta fase apocaliacuteptica desde 50 dC a 120 dC

Sob a mesma linha de hipoacuteteses temos a contribuiccedilatildeo de Collins21 que por meio de

um levantamento exaustivo dos textos que puderam ser classificados como Apocalipses e

datados com qualquer plausibilidade no periacuteodo de 250 aC ndash 250 dC procurou ver ateacute

onde podiam ser considerados como membros de um mesmo gecircnero Para ele haacute uma

distinccedilatildeo entre ldquoApocalipses Histoacutericosrdquo e os ldquoApocalipses de Viagensrdquo de sorte que

considera necessaacuterio a elucidaccedilatildeo de que um apocalipse eacute ldquouma estrutura geralrdquo que

incorpora outros gecircneros literaacuterios (carta testamento paraacutebola hino oraccedilatildeo etc)

De sorte que sendo a dimensatildeo das fases da Apocaliacuteptica de grande extensatildeo e com

muitos textos produzidos se impotildee a necessidade de delimitaccedilatildeo da pesquisa e nesse

quesito contribui Machado22 ao citar um importante aspecto que deve ser levado em

consideraccedilatildeo a distinccedilatildeosimilaridade em relaccedilatildeo aos gecircneros literaacuterios que envolvem a

19 NOGUEIRA Paulo Augusto de Souza Experiecircncia Religiosa e Criacutetica Social no Cristianismo Primitivo

Satildeo Paulo ndash Paulinas 200417 20 SACCHI P Jewish Apocalyptic and its History Sheffield Academic Press England 1990110 21 Artigo Intitulado Apocalipses Judaicos - p 1-8 COLLINS John J SEMEIA 14 Apocalypse The

Morphology of a Genre The Society of Biblical Literature 1979 22 Apud SEGAL Alan F Paul The Convert The Apostolate and Apostasy of Saul The Pharisee New

HavenLondon Yale University Press 1990 p 38 ndash Life After Death A History of the Afterlife in the

Religions of the West New York Doubledy 2004410

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apocaliacuteptica e a miacutestica judaica uma vez diferentes e facilmente distinguiacuteveis mas que

relatam experiecircncias religiosas semelhantes

Os apocalipses combinam tambeacutem uma seacuterie de formas menores sendo as mais

importantes 1) Panoramas da histoacuteria em forma de futuro - o interesse dos

apocaliacutepticos volta-se em primeiro lugar para os iminentes acontecimentos

escatoloacutegicos para os horrores do tempo final e a gloacuteria do novo mundo 2)

Descriccedilatildeo do aleacutem - outro interesse consiste em dar ao leitor uma visatildeo do

mundo do aleacutem Para isso se recorre a descriccedilotildees de arrebatamentos visionaacuterios

Em um ecircxtase o visionaacuterio passa por mudanccedila de lugar e perambula por regiotildees

estranhas e misteriosas na terra e no ceacuteu (Ez 83ss) Elas oferecem a

oportunidade de transmitir conhecimentos sobre a topografia do ceacuteu e do inferno

sobre hierarquia dos anjos etc 3) Visotildees da sala do trono - ponto alto dessas

viagens seu alvo mas agraves vezes tambeacutem seu desenlace eacute a visatildeo da sala do trono

de Deus Sua descriccedilatildeo tem por objetivo mostrar sua inacessibilidade de Deus e

documentar simultaneamente a competecircncia do visionaacuterio que remonta

diretamente a Deus o qual recebe nessas audiecircncias uma missatildeo especial e ao

qual se confere um status especial (Atos 9 1011 101011 2619) As visotildees da

sala do trono formam um elo intermediaacuterio entre visatildeo de convocaccedilatildeo dos

profetas (cf Is 6 Ez 1ss) e da posterior miacutestica merkaba (carruagem divina)

judaica23

Reforccedilando as hipoacuteteses da exegese apocaliacuteptica com base nas tradiccedilotildees do

misticismo judaico Vielhauer a semelhanccedila de Collins fala da abrangecircncia e relevacircncia da

literatura apocaliacuteptica identificando que nas visotildees da sala do trono se encontram a

formaccedilatildeo de um elo intermediaacuterio entre a visatildeo de convocaccedilatildeo dos profetas e das tradiccedilotildees

do misticismo da Mercavaacuteh o que tambeacutem eacute atestado por Collins sendo fontes das quais

participam os apocaliacutepticos

1 INTRODUCcedilAtildeO AO MISTICISMO JUDAICO - ldquoANAacuteLISE DOS TEXTOS

FUNDANTESrdquo

11 ndash Isaiacuteas Cap 6 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

Machado24 em sua tese de doutorado elucida que o texto de (Isaiacuteas 61-13) pode ser

visto como pertencente agrave tradiccedilatildeo de participaccedilatildeo profeacutetica na corte celestial de anjos

ainda que a visatildeo esteja restrita ao Templo terrestre todavia estaacute situado na base do

judaiacutesmo poacutes-exiacutelico que vecirc Isaiacuteas como uacutenico ser humano que viu a Deus colocando

assim a passagem no centro da apocaliacuteptica e miacutestica judaica

23 VIELHAUER Philipp Literatura Cristatilde Primitiva - Introduccedilatildeo ao Novo Testamento aos Apoacutecrifos e aos

Pais Apostoacutelicos Ed Academia Cristatilde Satildeo Paulo 2005517 24 MACHADO Jonas Transformaccedilatildeo Miacutestica na Religiatildeo do Apoacutestolo Paulo Recepccedilatildeo do Moiseacutes

Glorificado em 2 Coriacutentios na Perspectiva da Experiecircncia Religiosa Satildeo Bernardo do Campo (Tese de

Doutorado) - UMESP 2007107

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O texto de Isaiacuteas em sua narrativa apresenta uma visatildeo da sala do trono de Deus a

partir do santuaacuterio terrestre local geograacutefico onde Isaiacuteas se encontra Um estudo dos

termos hebraicos utilizados no texto permitem entender claramente a visatildeo que o profeta

viu

Com base no verso 1 a experiecircncia do profeta se concentra numa visatildeo (האראו -

varingereumleh) o termo hebraico aqui utilizado traz o sentido natildeo apenas de ver mas de temer

honrar respeitar diante do impacto e da grandeza da visatildeo

O termo hebraico (שי yoshev ldquosentadordquo) tem o significado de sentar morar habitar ndash ב

viver residir permanecer ficar

Trono alto e elevado

Temos aqui o termo (סא para (al ndash לע) kise) usado para a palavra Trono e ndash א

elevado

margem borda referindo-se a borda do manto (veumlshularingyv ndash השלעבה)

במ) meumlleym) encher completar ndash םעא

Evidenciamos que Isaiacuteas no verso 1 usa o termo (וובהע - haheykharingl) para o

Templo e que este tambeacutem pode ser traduzido por ldquoPalaacutecio ou Assembleiardquo com efeito

seu uso aqui levantou a hipoacutetese da concepccedilatildeo de que Isaiacuteas era um integrante da ldquocorte

celestialrdquo ou ldquoassembleia dos deusesrdquo O fato de o Trono estar no ldquoalto ou elevadordquo junto

ao termo (וובהע - haheykharingl - Palaacutecio) nos permite entender que a visatildeo de Isaiacuteas parece

se referir a uma visatildeo da sala do Trono no Templo ldquoPalaacuteciordquo Celestial Assim temos a

visatildeo do Templo Celestial a partir do Templo Terrestre sendo portanto uma visatildeo do

Templo Celestial isenta de uma ascensatildeo ao mesmo

Essa hipoacutetese eacute corroborada quando tambeacutem notamos que no verso 4 ao se

mencionar que o Templo se encheu de fumaccedila se usa outro termo ou seja (ו ndash הובב

veumlhabayt ldquoe a casardquo) para se referir ao mesmo

Deste modo o texto do profeta Isaiacuteas nas tradiccedilotildees do judaiacutesmo antigo tem sua

leitura no hebraico justaposta as experiecircncias da sala do trono de Deus sendo um

documento preservado e achado plenamente conservado em Qumran a preservaccedilatildeo do

רמraringm

סא אkise

לעal

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documento tem levado muitos pesquisadores a considerar a tradiccedilatildeo do profeta Isaiacuteas como

uma importante hipoacutetese dos elos das tradiccedilotildees do judaiacutesmo enoquita

12 ndash Ezequiel Cap 1 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

Apoacutes uma breve introduccedilatildeo em busca das origens da Apocaliacuteptica e seus possiacuteveis

elos histoacutericos enquanto tradiccedilotildees de judaiacutesmos e suas praacuteticas lituacutergicas literatura e

movimento social demonstrando a existecircncia de contextos e ambiente histoacuterico nos quais

podemos inserir a pesquisa e a produccedilatildeo exegeacutetica a proposta agora eacute a de apresentar

meacutetodos que auxiliem no processo da exegese

Como porta de entrada citamos a tese de doutorado de Machado25 que indica o

texto de (Isaiacuteas 61-13) como podendo pertencente agrave tradiccedilatildeo de participaccedilatildeo profeacutetica na

corte celestial de anjos ainda que a visatildeo esteja restrita ao Templo terrestre todavia estaacute

situado na base do judaiacutesmo poacutes-exiacutelico que vecirc Isaiacuteas como uacutenico ser humano que viu a

Deus colocando assim a passagem no centro da apocaliacuteptica e miacutestica judaica

Portanto a proposta de antematildeo preacute-estabelecida para exegese eacute a de um olhar dos

aspectos literaacuterios com base naquilo que haacute ldquocomumsimilardiferente26rdquo nos textos A isso

somamos levamos as noccedilotildees do meacutetodo exegeacutetico de W Egger27 que abrange forma e

gecircnero respectivamente como ldquoa configuraccedilatildeo individual de um texto particular e por

classe de textogecircnero o que vaacuterios textos possuem em comumrdquo

Assim temos como pressuposto que um texto pertencente a um mesmo gecircnero

quando assinalado pelos seguintes aspectos

a) Revelam uma estrutura linguiacutestico-sintaacutetica semelhante

b) Possuem uma estrutura semacircntica e narrativa anaacuteloga

c) Tem uma intenccedilatildeo parecida em relaccedilatildeo ao efeito que pretendem produzir

d) Mostram uma situaccedilatildeo vital semelhante o entorno social e comunicativo eacute

semelhante

Portanto para conduccedilatildeo de uma exegese estes olhares analiacuteticos satildeo singulares

procurando manter um processo da que evidencie a participaccedilatildeo ou proximidade de

25 MACHADO Jonas Transformaccedilatildeo Miacutestica na Religiatildeo do Apoacutestolo Paulo Recepccedilatildeo do Moiseacutes

Glorificado em 2 Coriacutentios na Perspectiva da Experiecircncia Religiosa Satildeo Bernardo do Campo (Tese de

Doutorado) - UMESP 2007107 26 MARGUERAT Daniel amp BOURQUIN Yvan Para Ler as Narrativas Biacuteblicas Iniciaccedilatildeo agrave Anaacutelise

Narrativa 200913-16 27 EGGER Wilhelm Lecturas Del Nuevo Testamento Verbo Divino Navarra 1990304

26

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tradiccedilotildees apocaliacutepticas permitindo acessar os aspectos que possam ligar as tradiccedilotildees a

viabilizar a interpretaccedilatildeo do texto

Assim temos a contribuiccedilatildeo de Evans28 que resume o comentaacuterio em concordacircncia

com os autores ateacute aqui mencionados justapondo que os elementos baacutesicos do misticismo

judaico ldquoTrono-Carruagemrdquo encontrados na visatildeo biacuteblica do Trono em Ezequiel corrobora

com os paradigmas formando os elos das tradiccedilotildees apocaliacutepticas sendo a visatildeo do

chamado profeacutetico de Ezequiel junto ao rio Quebar um modelo de judaiacutesmo miacutestico uma

vez que o sacerdote Ezequiel traz a identidade de um sacerdote que natildeo aceita e natildeo

convive amigavelmente com o templo uma vez que o templo estaacute profanado pela idolatria

e poliacutetica religiosas (Ezequiel 11-28)

O texto nos daacute uma extensa e enigmaacutetica imagem do que ficou conhecido como

Mercavaacuteh orraC) ם ר ה י ו-Trono) aparentemente uma espeacutecie de Trono real sobre rodas

(cf Dn 79) com vento tempestuoso e uma nuvem de fogo que se aproxima a partir do

norte (v 4)

Ezequiel comeccedila a visatildeo que se desdobra com uma descriccedilatildeo de quatro imagens

enigmaacuteticas (והבח - as hayot - seres viventes) cada um com quatro faces (homem leatildeo boi

e aacuteguia) quatro asas e quatro rodas (5-21) acima de suas cabeccedilas se encontra uma

plataforma como o cristal (vv 22-25) e por cima da plataforma esta assentado um

pesonagem uma manifestaccedilatildeo antropomoacuterfica de Deus em um Trono de pedra como

safira descrito com ldquoo aspecto da semelhanccedila da gloacuteria do Senhorrdquo (vv 26-28)

Ezequiel aparece como um dos parametros miacutesticos de sonsideravel relevacircncia

para a comunidade de Qumran e seus pergaminhos fornecerem algumas das primeiras

evidecircncias de que o Trono na sua visatildeo foi chamado de Merkavaacuteh Segundo o fragmento

(4Q38529) o que os estudiosos tecircm apelidado ldquoSegundo Ezequielrdquo a visatildeo que

Ezequiel viu foi agrave divina Mercavaacuteh ( ו י ה ר ם ) juntamente com os ldquoquatro seres

viventesrdquo (4 5-6)

Os Manuscritos do Mar Morto tecircm muito a dizer sobre o Trono da divina

carruagem com efeito um dos maiores objetivos da Comunidade de Qumran parece ter

sido a participaccedilatildeo na liturgia celeste angelical e ver o grande Trono-Carruagem de Deus

entrar no Templo celeste

28 EVANS Craig A and FLINT Peter W Eschatology Messianism and the Dead Sea Scrolls Edited by

Wm Β Eerdmans Publishing Co1997102-103 29 Conhecido como 4QPseudo-Ezequiel eacute citado em fontes mais antigas como 4QSecond Ezequiel Pseudo-

Ezequiel Trata-se de um texto hebraico fragmentaacuterio e pseudopigraacutefico encontrado na Caverna 4 em

Qumran e portanto pertence ao conjunto de manuscritos popularmente conhecidos como Manuscritos do

Mar Morto

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Para Evans o texto achado na Caverna 4 de Qumran eacute uma composiccedilatildeo lituacutergica

preacute-cristatilde conhecida como Cacircnticos do Sacrifiacutecio Saacutebatico ou Liturgia Angeacutelica

composta por treze partes separadas uma para cada um dos treze saacutebados Os Cacircnticos

invocam o louvor angelical descrevem o sacerdoacutecio angelical e o Templo celestial e datildeo

conta do culto realizado no saacutebado no santuaacuterio celestial O 13ordm Cacircntico do saacutebado comeccedila

com uma longa descriccedilatildeo da aparecircncia e movimento do divino trono-carruagem

Considerando que a 7ordf e a 11ordf Canccedilotildees do Sabbath referem-se a uma pluralidade da

o 13ordm Cacircntico descreve a divina Merkavaacuteh o trono carruagem de gloacuteria ( ו ה י ה ר ם )

tomando emprestado enfaticamente os termos de Ezequiel 1 e 10 Estes Cacircnticos

receberam a identificaccedilatildeo (4Q400 a 4Q407) devido agrave localizaccedilatildeo da Caverna em Qumran

onde foram encontrados

13 ndash I Enoque Cap 14 e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

O texto de I Enoque 148-21 apresenta vaacuterios elementos associados miacutestica da sala

do Trono A descriccedilatildeo da sala celestial do Trono (Hehaloth - Palaacutecio) o tema do rio do

fogo que procede do trono a face e o Trono de Deus em si elementos estes que satildeo

reproduzidos mais tarde em outros textos apocaliacutepticos judaicos e cristatildeos satildeo os

elementos que permancem sempre reproduzidos em outros textos da tradiccedilatildeo

(I Enoque 14 8-21) na traduccedilatildeo proposta por Alejandro Diez Macho30 que

concorda com outras traduccedilotildees que avaliamos como a de Rowland31

Entrei ateacute chegar-me ao muro construiacutedo com pedras de granizo que eacute rodeado

por uma liacutengua de fogo e comecei assustar-me Entrei na liacutengua de fogo e me

aproximei ateacute a casa construiacuteda com pedras de granizo cujo muro e pavimento

satildeo laacutepidas pedras de granizo Seu solo eacute tambeacutem de granizo Seus tetos claros

como estrelas e relacircmpagos onde estatildeo os iacutegneos querubins e seus ceacuteus satildeo

como aacutegua Havia fogo ardente ao redor das paredes e tambeacutem a porta se

abrasava em fogo Entrei nesta casa que ardia como fogo e fria como granizo

onde natildeo havia nenhum prazer ou vida e o medo tomou-me e o terror oprimiu-

me Caiacute com a face no chatildeo e tive uma visatildeo eis que havia outra casa maior

que esta a qual as portas estavam abertas diante de mim construiacutedas de liacutenguas

de fogo ndash era tudo tatildeo esplendido ilustre e grande que natildeo posso contar o

tamanho da gloacuteria e grandeza Seu solo era de fogo por cima tinham

relacircmpagos e orbitas astrais seu teto de fogo abrasador Mirei e vi em um alto

trono com um esplendor aspecto e (tinha ao seu redor) um ciacuterculo com sol

brilhante e voz de querubins Debaixo do trono saiam rios de fogo abrasador de

modo que era impossiacutevel mirar A grande Majestade estava sentada sobre o

30 Fonte DIEZ MACHO Alejandro Apoacutecrifos del Antigo Testamento Vol IV Madri Ed Cristiandad

198751 31 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 200976 77

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trono com uma tuacutenica mais brilhante que o sol e mais resplandecente que o

granizo de modo que nenhum dos anjos poderia entrar na casa

Como jaacute podemos obsevar eacute perfeitamente claro que o texto Enoquita possui seu

campo imaginaacuterio moldado pela estrutura semacircntica e imageacutetica dos textos de Isaiacuteas e

Ezequiel

Boccaccini32 argumenta que esses textos de I Enoque provavelmente foram escritos

por membros do sacerdoacutecio de Jerusaleacutem poreacutem tem procedecircncia por parte de um grupo

antizadoquita Um movimento sacerdotal dissidente ativo em Israel no fim do periacuteodo

persa e iniacutecio do helecircnico no IV seacuteculo aC Para Boccaccini esse movimento enoquita era

um grupo de oposiccedilatildeo entre a elite do Templo e natildeo um simples grupo de separatistas No

entanto o centro do judaiacutesmo enoquita natildeo era a Toragraveh nem o Templo Os dois grupos

(zadoquita e enoquita) interpretavam Ezequiel diferentemente e tinham ideias

completamente contrastantes Ateacute cerca de 200 aC enoquismo e zadoquismo eram duas

distintas e paralelas linhas de pensamentos no judaiacutesmo

14 - Daniel (79-14) e as Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico

O livro do profeta Daniel tambeacutem marca sua presenccedila em Qumran atualmente se

entende que sua composiccedilatildeo aconteceu alguns anos depois de I Enoque e as conclusotildees de

muitos pesquisadores como Collins33 Rowland34 Martiacutenez35 entre outros eacute de que Daniel

possui relaccedilotildees intimas e demonstra ter recebido influecircncia da literatura enoquita

9 Eu continuava olhando uns tronos foram instalados e um Anciatildeo se assentou

vestido de veste branca como a neve cabelos claros como a latilde O seu trono era

como labaredas de fogo com rodas de fogo em brasa 10 Um rio de fogo brotava

da frente dele Milhares e milhares o serviam e milhotildees estavam agraves suas ordens

Comeccedilou a sessatildeo e os livros foram abertos 11 Eu continuava olhando atraiacutedo

pelos insultos que aquele chifre gritava vi que mataram a fera fazendo-a em

pedaccedilos e jogando-a no fogo 12 Quanto agraves outras feras o poder delas foi tirado

mas foi-lhes dado um prolongamento de vida ateacute um tempo determinado 13 Em

imagens noturnas tive esta visatildeo entre as nuvens do ceacuteu vinha algueacutem como um

filho de homem Chegou ateacute perto do Anciatildeo e foi levado agrave sua presenccedila 14 Foi-

lhe dado poder gloacuteria e reino e todos os povos naccedilotildees e liacutenguas o serviram O

32 BOCCACCINI Gabriele Beyond the Essene Hypothesis The Parting of the Ways between Qumran and

Enochic Judaism Grand Rapids W B Eerdmans 199848 76 78 33 COLLINS John J A Imaginaccedilatildeo Apocaliacuteptica ndash Uma Introduccedilatildeo Literaacuteria a Apocaliacuteptica Judaica Satildeo

Paulo ndash Paulus 2010 34 ROWLAND C MORRAY JONES Christopher R A The Mystery of God Early Jewish Mysticism and

the New Testament (Compendia Rerum Iudaicarum ad Novum Testamentum Volume 12) Leiden Brill

Academic 2009 35 MARTIacuteNEZ Florentino Gaacutercia Qumran and Apocalyptic Studies on the Aramaic Texts from Qumran

New York EJ Brill 1994

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seu poder eacute um poder eterno que nunca lhe seraacute tirado E o seu reino eacute tal que

jamais seraacute destruiacutedo

Segundo Evans36 um total de oito manuscritos do livro de Daniel foi descoberto em

Qumran nenhum veio agrave luz ateacute agora em outros locais no deserto da Judeacuteia

Dois dos manuscritos de Daniel foram descobertos na Gruta 1 cinco na Gruta 4 e

um (Escrito em papiro) em Gruta 6 Com base na anaacutelise Paleacuteografica noacutes podemos saber

que quatro foram copiados no periacuteodo dos Hasmoneus (lQDanᵇ 4QDanordf 4QDan

4QDan e quatro no periacuteodo de Herodes (lQDanordf 4QDanᵇ 4QDan pap6QDan) Por causa

dos estragos do tempo dos elementos nenhum desses achados preserva uma coacutepia

completa do livro de Daniel No entanto entre eles pocircde-se preservar uma quantidade

substancial destes

Evans considera que os graacuteficos fazem a indicaccedilatildeo da autoridade da tradiccedilatildeo de

Daniel em Qumran e deixa claro o manuseio dos textos por parte da comunidade isto

fundamenta a forccedila da tradiccedilatildeo e do pensamento apocaliacuteptico em Qumran ainda que o

Livro de Daniel natildeo seja considerado um apocalipse em si mesmo mas caracterizado pelo

seu sentido profeacutetico

Assim as pesquisas apontam com precisatildeo que os textos de Isaiacuteas Ezequiel Daniel

e I Enoque perpassaram a comunidade de Qumran e a presenccedila de os seus conteuacutedos

linguiacutesticos e imageacuteticos aparecem nos cacircnticos do Sacrifiacutecio Sabaacutetico sendo que as

liturgias em Qumran fazem declaraccedilotildees das tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do

segundo templo e nestes cacircnticos os sacerdotes se sentiam participantes do culto junto aos

anjos na sala do trono de Deus esta liturgia reflete um afastamento do templo terreno e a

busca do templo celestial gerando a hipoacutetese que inuacutemeros pesquisadores acreditam

validar o tipo de experiecircncia religiosa de um judaiacutesmo dissidente cuja origens estaacute no

periacuteodo do segundo templo Portanto ateacute aqui podemos apreciar um relato histoacuterico das

fontes literaacuterias e seus conteuacutedos imageacuteticos o que permite ver o Apocalipse de Joatildeo como

um texto que traz consigo conteuacutedos narrativos e imagens das tradiccedilotildees do misticismo da

Mercavaacuteh

36 EVANS Craig A and FLINT Peter W Eschatology Messianism and the Dead Sea Scrolls Edited by

Wm Β Eerdmans Publishing Co 199741-43

30

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2 Apocalipse 51-14 ndash O Cacircntico Cerimonial da Celebraccedilatildeo do Sacerdoacutecio Universal

de Jesus agrave Luz das Tradiccedilotildees do Misticismo Judaico - Uma Exegese Contemporacircnea

A pesquisa das tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do segundo templo

apoacutes as descoberta dos manuscritos de Qumran em 1947 revolucionaram portanto a

exegese do Novo Testamento acerca disto concordam os argumentos de Rowland37

aferindo que havia uma lacuna importante nos estudos da cristologia do Novo Testamento

e que as pesquisas da exegese avanccedilaram na busca tanto do cenaacuterio e ambiente das

experiecircncias religiosas nos tempos de Jesus bem como das crenccedilas em uma figura

angelical exaltada no judaiacutesmo apocaliacuteptico

Seus apontamentos em primeiro lugar nos permitiram ver certos desenvolvimentos

no pensamento rabiacutenico sob uma nova luz e em segundo lugar do ponto de vista da

Exegese do Novo Testamento se ilustra um aspecto negligenciado sobre o

desenvolvimento doutrinaacuterio judaico e que natildeo tinha recebido suficiente atenccedilatildeo no estudo

da Cristologia do Novo Testamento

A anaacutelise do material sobre o mundo celestial produz consideraccedilotildees que nos

permitem ver as perspectivas distintivas da apocaliacuteptica como tambeacutem o modo pelo qual

o visionaacuterio justo entrava em contato com Deus Desta forma percebemos a infiltraccedilatildeo dos

padrotildees de pensamento da comunidade de Qumran na cristologia do Novo Testamento

A partir das consideraccedilotildees preliminares desta pesquisa e suas indicaccedilotildees a anaacutelise

da cerimocircnia da entronizaccedilatildeo de Jesus se estabelece sob os criteacuterios da oacutetica propiciada nos

termos das tradiccedilotildees do misticismo judaico com suas raiacutezes no periacuteodo do segundo templo

Como visto os textos considerados fundantes junto a cacircnticos e documentos da nos remete

a antiguidade da tradiccedilatildeo miacutescitca de modo que a hipoacutetese sustentanda nesta linha de

peesquisa eacute a de que Joatildeo participou ativamente de uma corrente literaacuteria com antecedentes

expressivos nos documentos de Qumran presente nas tradiccedilotildees do misticismo judaico e

apocaliacuteptico no periacuteodo do Segundo Templo e tambeacutem encontradas em Qumran

Assim de antematildeo podemos considerar em Apocalipse 5 evidencia aspectos das tradiccedilotildees

miacutesticas da sala do trono

Contudo os criteacuterios morfoloacutegicos adotados por Deutsch38 proposcinaram melhor

clareza para discernir as tradiccedilotildees do misticismo judaico do periacuteodo do segundo templo

onde os atributos angelomoacuterficos e posteriormente a elaboraccedilatildeo de uma ldquocristologia-

37 ROWLAND Christopher The Open Heaven - A Study of Apocalyptic in Judaism and Early Christianity

First published 198277 e 113 38 DEUTSCH Nathaniel The Guardians of the gates Angeuc Vice Regency In Late Antiquity Brill Leiden -

Boston - Koln 1999 ndash (Introduccedilatildeo)

31

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angelomoacuterficardquo se estabeleceu e apresentou as imagens de forma sitematizada produzindo

compreensatildeo acerca das funccedilotildees sacerdotais junto ao trono de Deus a saber (1) Funccedilatildeo

Demiuacutergica satildeo atribuiacutedas funccedilotildees na Criaccedilatildeo ao vice-regente angelomoacuterfico neste caso

se levarmos em conta (Ap 314) como parte contextual correspondente ao texto de (411)

Jesus eacute claramente interpretado por Joatildeo nesta linha de raciociacutenio Portanto participa como

agente de Deus na confecccedilatildeo do universo (2) Guardiatildeo do Portal Cabe ao vice-regente

permitir ou natildeo a entrada de seres humanos e ou celestiais agrave presenccedila imediata de Deus o

que pode ser tambeacutem acolhido em nossa leitura de Ap 5 porquanto neste Jesus por assim

dizer funciona como uma porta de acesso tanto a abertura dos selos como pelo seu

sacrificio pascoal abre o caminho para que todos tenham livre acesso ao Trono Deus uma

vez que por meio do seu sangue ldquoos fizeste reis e sacerdotesrdquo (3) O vice-regente

angelomoacuterfico exerce governo sobre os seres humanos e ou seres angeacutelicos todos

reconhecem sua dignidade e se submentem a seu comando o que eacute perfeitamente tambeacutem

concebiacutevel no texto em questatildeo

Embora natildeo possa ser dito que seja um traccedilo tiacutepico de todos os apocalipses em

estudo contudo parece haver evidecircncias de que uma angelologia tenha

produzido uma figura de status consideraacutevel cuja posiccedilatildeo na hierarquia celestial

colocou-o aparte do resto dos anjos () Embora poucos detalhes existam acerca

dessas angelofanias parece que havia um ser angeacutelico que em algum sentido era

considerado comunicando a aparecircncia de Deus mesmo e que agraves vezes aparecia

em forma humana (Gecircnesis 182) () O que a maioria das discussotildees modernas

da cristologia primitiva falha eacute em natildeo incluir a extensatildeo da influecircncia de uma

cristologia angeacutelica sobre a doutrina cristatilde primitiva Natildeo eacute apenas uma questatildeo

aiacute da rejeiccedilatildeo de uma cristologia angeacutelica como um fator no desenvolvimento

cristoloacutegico haacute quase total ausecircncia de tal toacutepico39

Sob esta oacutetica encontramos no proacuteprio Apocalipse uma alusatildeo pela qual podemos

concluir que tanto a imagem como os atributos angelomoacuterficos natildeo estavam restritos a um

uacutenico personagem poreacutem percebemos distinccedilotildees no uso dos termos gregos para descrevecirc-

los No texto de (Ap 115 16) Jesus eacute representado com ldquoκαὶ οἱ πόδες αὐτοῦ ὅμοιοι

χαλκολιβάνῳ ὡς ἐν καμίνῳ - os peacutes dele semelhantes a bronze (polido) como em fornalha

ardente ἡ ὄψις αὐτοῦ ὡς ὁ ἥλιος φαίνει ἐν τῇ δυνάμει αὐτοῦ - e a aparecircncia do rosto dele

como o sol brilha em o poder delerdquo

No entanto em (Ap 101) encontramos a descriccedilatildeo feita para o anjo forte que

descia do ceacuteu ldquoκαὶ τὸ πρόσωπον αὐτοῦ ὡς ὁ ἥλιος καὶ οἱ πόδες αὐτοῦ ὡς στῦλοι πυρός ndash e

o rosto dele como o sol e os peacutes dele como colunas de fogordquo

39 Apud CARDOSO Joseacute Roberto Correcirca Cristologia Angelomoacuterfica de Hebreus Estudo Soacutecio-Retoacuterico e

Histoacuteria das Religiotildees Comparadas em Hebreus 11-14 25-18 71-10 Satildeo Paulo Tese de Doutorado ndash

UMESP 200515

32

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O que podemos aferir eacute que se trata de niacuteveis de ldquoangelomorfiardquo com intensidades

diversificadas sendo as de Jesus norteadas por aspectos mais intensos de brilho

Gieshen40 apresentou uma excelente contribuiccedilatildeo em sua anaacutelise da Angelologia

judaica para a Cristologia do cristianismo das origens segundo ele o ponto de partida natildeo

deveria ser primariamente as paacuteginas do Novo Testamento e do Judaiacutesmo mas as tradiccedilotildees

angelomoacuterficas presente na miacutestica judaica preacute-cristatildes sendo provenientes da angelologia

judaica As hipoacuteteses assim levaram a compreensatildeo de ldquoAntecedentsrdquo trazendo a luz um

estudo abrangente das figuras hipostaacuteticas do Antigo Testamento e do Judaiacutesmo do

Segundo Templo buscando compreender a angelologia e os seres humanos

angelomoacuterficos presentes na literatura miacutestica do judaiacutesmo do segundo templo

Assim ficou perceptiacutevel a inter-relaccedilatildeo das vaacuterias tradiccedilotildees judaicas a respeito dos

mediadores celestes

Outro estudioso do tema Hannah41difere Gieshen na terminologia Enquanto este

utilizou o termo ldquoCristologia-Angelomoacuterficardquo de modo abrangente Hannah se utiliza de

quatro termos objetivando uma maior especificidade ldquoAngelo-Cristologiardquo para delimitar

as Cristologias influenciadas por ideias angeloloacutegicas ldquoCristologia-Angeacutelicardquo para definir

Cristo como ser angeacutelico ldquoCristologia-Angelomoacuterficardquo para se referir apenas as imagens

visuais de Cristo e ldquoCristologia Angeacutelico-Teofacircnicardquo aplicado agrave identificaccedilatildeo patriacutestica de

Cristo com o Anjo do Senhor no Antigo Testamento

Podemos retornar agraves consideraccedilotildees de Himmelfarb42 que fala dos apocalipses

com transformaccedilotildees de homens em anjos pertencentes a uma vertente de

um corpo grande e diversificado de literatura Especialmente porque trata os patriarcas

biacuteblicos e que Moiseacutes em certo sentido tambeacutem eacute visto como divino

A literatura proveacutem tanto do Egito como da Palestina e inclui obras que vatildeo desde

Philo e Ezequiel o Tragedista ao Testamento de Moiseacutes e passagens rabiacutenicas As

semelhanccedilas estruturais da literatura os papeacuteis de mediaccedilatildeo satildeo claros e demonstram

diferentes tipos de seres

40 GIESCHEN Charles A Angelomorphic Cristology Antecedents and Early Evidence Leiden E J Brill

199805 41 HANNAH Darrel D Of Cherubin and the Divine Throne Rev 56 in Context New Testament Studies 49

2003528-542 42 HIMMELFARB Martha Ascent to Heaven in Jewish and Christian Apocalypses New York Oxford

University Press 199347 48

33

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Encontramos nos textos que aferimos em nossa leitura a menccedilatildeo ldquoAngelomoacuterfica-

Antropomoacuterfica43rdquo da ldquoGloacuteria de Javeacuterdquo no livro de Ezequiel Por meio deste termo

podemos compreender a dimensatildeo e fusatildeo entre o humano e o divino no Trono de Deus

Unindo esta perspectiva agrave imagem da entronizaccedilatildeo e exaltaccedilatildeo e vice-regecircncia do

ldquoFilho do Homemrdquo em (Dn 713) junto a outras tradiccedilotildees como a de Enoque temos o

campo imageacutetico que nos permite entender como a figura de Jesus no Apocalipse 5 chega

ao Trono de Deus

Apoacutes esta breve consideraccedilatildeo do desenvovimento das tradiccedilotildees do misticismo

judaico e as origens do que se intitula ldquocristologia-angelomoacuterficardquo chegamos a um

complexo das tradiccedilotildees do misticismo judaico e apocaliacuteptico assim este artigo permite a

elaboraccedilatildeo do cenaacuterio exegeacutetico do cerimonial da entronizaccedilatildeo do sacerdoacutecio universal de

Jesus junto ao Trono de Deus

O texto faz alusatildeo agrave continuidade narrativa do capiacutetulo 4 Trata-se natildeo somente do

Trono de Deus e de uma liturgia mas a composiccedilatildeo dos 24 anciatildeos permanece na hipoacutetese

de uma corte celestial reunida na ldquosala do Trono de Deusrdquo

A funccedilatildeo na narrativa do (capiacutetulo 5) eacute ampliada Enquanto no (capiacutetulo 4) os

anciatildeos apenas se prostram e adoram logo notamos que no cap 5 um dos anciatildeos eacute

destacado por um pronunciamento no qual apresenta o Cordeiro como ldquoleatildeo da tribo de

Judaacute raiz de Davi e como aquele que venceurdquo

O texto segue o padratildeo narrativo que encontramos em (Dn 7 9-14) onde um como

ldquofilho do homemrdquo eacute entronizado e recebe autoridade para exercer o papel de um vice-

regente As imagens em Daniel tambeacutem nos permitem visualizar uma ldquoSala onde Tronos

satildeo colocadosrdquo ou um tipo de cenaacuterio preparado como um local apropriado para um rito

cerimonial de transferecircncia de poder

Portanto as configuraccedilotildees temaacuteticas satildeo proacuteximas embora tenhamos que respeitar

o desfecho de cada cenaacuterio e seu contexto histoacuterico- literaacuterio

Assim tambeacutem percebemos o tema da ldquodignidaderdquo do filho do homem em (Dn 7

9-14) Lembrando que (Apocalipse 411) exalta a Deus e sua diginidade por meio dos

anciatildeos e o capiacutetulo 5 do Apocalipse retoma o tema da ldquodignidaderdquo do Cordeiro Assim

prosseguimos com a divisatildeo proposta e interpretaccedilatildeo do texto

a) v1 ndash Abertura da Cena (e vi) - Visatildeo do Trono e do Livro

43 Natildeo localizei o termo ldquoAngelomoacuterfica-Antropomoacuterficardquo em minhas leituras mas o estabeleci aqui como

meio para interpretar a passagem biacuteblica supracitada

34

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b) v2 e 3 ndash A Dignidade do Cordeiro

c) v4 e 5 ndash Desespero do Vidente A Proclamaccedilatildeo do Anciatildeo ndash ldquoO Reconhecimento

da Dignidade do Cordeirordquo

d) v6 e 7 ndash O Cordeiro recebe o livro ndash A Vitoacuteria do Cordeiro

e) v8-14 ndash Celebraccedilatildeo ao Cordeiro ldquoSacerdoacutecio e Realeza do Cordeirordquo - por parte

dos seres Viventes e dos Anciatildeos por parte de ldquouma voz de anjosrdquo toda a Criaccedilatildeo

21 - O Misticismo Judaico e Apocaliacuteptico em (Apocalipse 51-14)

a) v1 ndash Abertura da Cena (e vi) - Visatildeo do Trono e do Livro

Natildeo podemos deixar de considerarmos aqui os apontamentos de Holtz44 que

encontra em Apocalipse 5 uma referecircncia a um antigo ritual egiacutepcio de entronizaccedilatildeo com

trecircs estaacutegios o qual alega ter as formas e a estrutura baacutesica para a narrativa

Com base nestes rituais de entronizaccedilatildeo propotildees a divisatildeo baacutesica de trecircs etapas

1) Elevaccedilatildeo

2) Apresentaccedilatildeo

3) Entronizaccedilatildeo

Aune apresenta uma contra argumentaccedilatildeo de Roloff que concorda que haacute uma

entronizaccedilatildeo com ritual de trecircs estaacutegios dos reis orientais refletidos em Apocalipse 5

poreacutem julga que ele natildeo revela as fontes das quais eacute dependente Sua leitura revecirc as

categorias de uma forma surpreendentemente arbitraacuteria (invertendo a segunda e terceira

etapas e redefinindo-as) aparentemente sua intenccedilatildeo foi ldquoencaixarrdquo melhor os trecircs estaacutegios

para ver os eventos narrados em Apocalipse 5 Assim propondo a seguinte divisatildeo

1) Exaltaccedilatildeo a descriccedilatildeo dos eventos de exaltaccedilatildeo do discurso do anciatildeo (v5)

2) Atribuiccedilatildeo de poder dominante ao receber o ldquorololivrordquo (vv6 e 7) e

3) Apresentaccedilatildeo do governante Homenagem ao sacrifiacutecio pago pelo Cordeiro em

favor dos habitantes do mundo celestial (vv8-14)

44 Apud AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978333

35

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Contudo Aune menciona que esta proposta com diferentes formas na entronizaccedilatildeo

do Cordeiro apresentado por Jeremias Holtz e Roloff eacute extremamente vulneraacutevel a criacuteticas

em vaacuterias frentes

Em primeiro lugar tanto Jeremias e Holtz afirmam que esse padratildeo de trecircs estaacutegios

eacute encontrado em outros textos cristatildeos que refletem a entronizaccedilatildeo de Cristo (Mt 28 18-

20 Fl 2 9-11 I Tm 316 Hb 1 5-14) no entanto natildeo eacute nem uacutetil nem convincente pois

haacute grandes diferenccedilas entre estes textos e os hinos (particularmente Fl 2 5-11 I Tm 3 16)

e Ap 51-14 Ainda sim estudiosos que analisaram os hinos compreendem que natildeo se

encontra nestes o esquema ldquoExaltaccedilatildeo-Apresentaccedilatildeo-Entronizaccedilatildeordquo considerado uacutetil e

esclarecedor

Outras eruditos sugestionam outras possibilidades e propostas sobre a possiacutevel

relaccedilatildeo da estrutura do Apocalipse 5 com contextos e ambientes diversos dentre eles estaacute

a relaccedilatildeo com as duas cerimocircnias de entronizaccedilatildeo no Antigo Testamento configuradas do

Antigo Israel citadas por R de Vaux (I Rs 1 32-48 e II Rs 11 12-20) que se utilizando

das duas sintetiza uma estrutura de 5 partes (1) Investidura da insiacutegnia real (2) a unccedilatildeo

(3) a aclamaccedilatildeo (4) a entronizaccedilatildeo (5) a homenagem Contudo o ritual de unccedilatildeo natildeo eacute

encontrado em Apocalipse 5 o que distacircncia o texto deste paradigma A discussatildeo

permanece no campo das hipoacuteteses em meio haacute uma divesidade de opiniotildees sobre a

estrutura da narrativa e suas origens

Assim fundamentados pela pesquisa permanecemos com a seguinte divisatildeo e

interpretaccedilatildeo concluiacutemos aacute luz da pesquisa de que Joatildeo possui relaccedilotildees em sua literatura

com as tradiccedilotildees de Isaiacuteas e I Enoque que descreve a ldquoSala ndash Palaacuteciordquo onde se encontra o

Trono de Deus Sendo que suas narrativas tambeacutem agregam aspectos dos ldquoseres viventesrdquo

que estatildeo tanto no Trono quando imoacutevel quanto na ocasiatildeo em que se move por meio da

Carruagem

Assim nossa compreensatildeo eacute a de que Joatildeo entende ser a ldquoSalado Tronordquo o

ambiente legiacutetimo onde as cemimocircnias lituacutergicas devem acontecer sendo ambos os textos

tanto Apocalipse capiacutetulo 4 quanto o capiacutetulo 5 cenaacuterios narrativos de cerimocircniais

realizados na ldquoSala do Tronordquo

b) v2 e 3 ndash A Dignidade do Cordeiro

Portanto a ecircnfase da narrativa em (Ap 5) eacute a ldquoDignidade (ἄξιος ndash digno) do

Cordeirordquo que ganha intensidade diante do contraste com a declaraccedilatildeo que apresenta o

ldquoanjordquo na configuraccedilatildeo de ldquoum anjo forterdquo

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1 καὶ εἶδον ἄγγελον ἰσχυρὸν ndash e vi em anjo forte

Do verso 1 ao 5 podemos contemplar um primeiro movimento do texto e da

experiecircncia visionaacuteria

Todo cenaacuterio eacute no Trono e ao redor do livro escrito e selado

1 Καὶ εἶδον ἐπὶ τὴν δεξιὰν τοῦ καθημένου ἐπὶ τοῦ θρόνου βιβλίον γεγραμμένον

ἔσωθεν καὶ ὄπισθεν κατεσφραγισμένον σφραγῖσιν ἑπτά

1 livro tendo sido escrito por dentro e por fora tendo sido selado por selos sete

1 Diante do trono um livro escrito por dentro e por fora selado com sete selos

2 καὶ εἶδον ἄγγελον ἰσχυρὸν κηρύσσοντα ἐν φωνῇ μεγάλῃmiddot τίς ἄξιος ἀνοῖξαι τὸ

βιβλίον καὶ λῦσαι τὰς σφραγῖδας αὐτοῦ

2 E vi anjo forte proclamando em voz grande quem digno eacute de abrir o livro e

soltar os selos dele

Quem eacute digno de abrir o livro e desatar os sete selos

3 καὶ οὐδεὶς ἐδύνατο ἐν τῷ οὐρανῷ οὐδὲ ἐπὶ τῆς γῆς οὐδὲ ὑποκάτω τῆς γῆς ἀνοῖξαι

τὸ βιβλίον οὔτε βλέπειν αὐτό

3 E ningueacutem podia em o ceacuteu nem sobre a terra nem debaixo da terra abrir o livro

nem olhar ele

Wikenhauser45 comenta que era costume na eacutepoca adotar-se um tipo de livro atado

por uma cinta este por sua vez era assegurado por meio de selos Parece estar contido em

conformidade com os aspectos dos documentos gregos os quais tinham por costume ainda

que natildeo obrigatoriamente colocar sete selos um por quem o expedia e os outros seis pelas

testemunhas O rolo aqui citado possui semelhanccedilas com o de (Ez 2 9ss)

ldquoEntatildeo vi e eis que uma matildeo se estendia para mim e eis que nela havia um rolo

de livro E estendeu-o diante de mim e ele estava escrito por dentro e por fora e nele

estavam escritas lamentaccedilotildees e suspiros e aisrdquo

45 WIKENHAUSER Alfred El Apocalipsis de San Juan Comentaacuterio de Rtisbona Al Nuevo Testament

Editorial Herder ndash Barcelona 196988 89

37

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Temos imprescindivelmente mais uma vez a comprovaccedilatildeo de que o autor participa

ativamente dos aspectos do mundo heleniacutestico a sua volta como tem sua inspiraccedilatildeo nas

tradiccedilotildees da Mercavaacuteh no periacuteodo do Segundo Templo Percebemos a presenccedila de uma

cultura subjacente de siacutembolos judaicos e heleniacutesticos que estatildeo em diaacutelogo

O clima eacute de expectativa ndash ningueacutem eacute digno ldquono ceacuteu na terra e sob a terrardquo o que

promove no texto uma afliccedilatildeo e ao mesmo tempo uma grande expectativa

Segundo Robins46 a menccedilatildeo tripartida ldquoceacuteu terra e sob ou debaixo da terrardquo se

encontra inserida no mundo antigo e carrega a compreensatildeo da presenccedila de Divindades

como parte do universo criado abrangendo o (1) reino celestial (2) no Egito ou mais

genericamente a terra (3) e o submundo A primeira e a terceira regiotildees eram habitadas

por divindades (e mortos) e a segunda era o reino dos vivos Considerava-se que os seres

humanos interagiam com divindades procurando persuadi-los a criar renovar e manter a

universo esses seres tinham que ser trazidos para a Terra

Rudolf Bultmann dentre outros eruditos atestam que este era o modo de pensar o

universo no mundo antigo portanto delimitada dentro de uma estrutura de 3 andares

O que tambeacutem nos permite aproximar a questatildeo das possiacuteveis influecircncias dos ritos

cerimoniais de entronizaccedilatildeo procedentes do Egito e manter as hipoacuteteses em aberto

Se o universo assim era compreendido e os deuses concebidos como habitantes

destas esferas somos remetidos a um tipo de proclamaccedilatildeo durante a cerimocircnia que

anunciava diante dos deuses a supremacia e ou por assim dizer a ldquodignidaderdquo do

Cordeiro

c) v4 e 5 ndash Desespero do Vidente A Proclamaccedilatildeo do Anciatildeo ndash ldquoO Reconhecimento

da Dignidade do Cordeirordquo

Eu chorava muito

4 καὶ ἔκλαιον πολύ ὅτι οὐδεὶς ἄξιος εὑρέθη ἀνοῖξαι τὸ βιβλίον οὔτε βλέπειν αὐτό 5

καὶ εἷς ἐκ τῶν πρεσβυτέρων λέγει μοιmiddot μὴ κλαῖε ἰδοὺ ἐνίκησεν ὁ λέων ὁ ἐκ τῆς φυλῆς Ἰούδα

ἡ ῥίζα Δαυίδ ἀνοῖξαι τὸ βιβλίον καὶ τὰς ἑπτὰ σφραγῖδας αὐτοῦ

46 Apud SCHMIDT Brian B Cult Image and Divine Representation in the ancient Near East edited by

Neal H Walls American Schools of Oriental Research Books Series nordm 10 Boston MA 200502

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4 E eu chorava muito porque ningueacutem digno foi achado de abrir o livro nem de

olhar para ele 5 E um de os anciatildeos diz a mim natildeo chores eis que venceu o leatildeo o de a

tribo de Judaacute a raiz de Davi o que abre o livro e os sete selos dele

A narrativa eacute dramatizada pelo visionaacuterio Joatildeo que chora copiosamente sendo

consolado por um anciatildeo mediante a revelaccedilatildeo que lhe eacute transmitida Cabe aqui notar que o

anciatildeo exerce o papel mediador entre o anjo e Joatildeo De fato este cenaacuterio parece inserir a

todos num ambiente de anseio expectativa e anelo pela revelaccedilatildeo que se daraacute mediante a

experiecircncia miacutestica de ascensatildeo na ldquosala do Tronordquo onde acontece a cerimocircnia de

reconhecimento da ldquodignidade do Cordeirordquo

A expressatildeo ldquoleatildeo da tribo de Judaacute - λέων ὁ ἐκ τῆς φυλῆς Ἰούδαrdquo e ldquoraiz de Davi -

ἡ ῥίζα Δαυίδrdquo trata de um reconhecimento da legitimidade de sua linhagem tanto

sacerdotal quanto de sua realeza permitindo que a narrativa receba os contornos que

justifiquem um cerimonial no qual se estabelece a sua realeza sacerdotal eou seu

ldquoSacerdoacutecio Realrdquo agrave semelhanccedila de Melquisedeque

A partir do verso 6 temos um novo cenaacuterio a visatildeo de um Cordeiro imolado cuja

representaccedilatildeo de sua forccedila e conhecimento eacute descrita pelos sete chifres e sete olhos que

tambeacutem de certa maneira trata da compreensatildeo da divindade da qual eacute portador

porquanto representam ao mesmo tempo os sete espiacuteritos de Deus enviados a toda terra

Uma observaccedilatildeo junto ao texto de (Dn 711) eacute interessante aqui trata-se das

imagens e do contraste que existem entre elas

Em (Dn 711) temos um ldquochifrerdquo que proferia grandes palavras o que manifesta

ser possuidor de autoridade ou forccedila como tambeacutem diz que Daniel contempla um animal

morto e entregue ao fogo

No texto de Joatildeo temos os sete ldquochifresrdquo e um ldquoCordeiro imoladordquo poreacutem as

imagens seguem em direccedilotildees opostas com atribuiccedilotildees contrastantes mas que nos

permitem assimilar que as imagens fazem parte de um campo semacircntico e de um ambiente

de tradiccedilotildees acostumadas a lidarem com tais indiacutecios literaacuterios

Embora haja uma longa distacircncia entre os autores contudo entre as literaturas jaacute

natildeo eacute assim a circulaccedilatildeo e uso das tradiccedilotildees danieacutelicas em Qumran estatildeo bem

representadas uma vez que jaacute compraacutevamos tais evidecircncias

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d) v6 e 7 ndash O Cordeiro recebe o livro ndash A Vitoacuteria do Cordeiro

Assim tratamos o verso 6 como um cerimonial que estabelece a grandeza do

sacrifiacutecio de Jesus como de sua participaccedilatildeo na divindade evidenciando portanto os

atributos de que lhe satildeo conferidos por meio de uma Cristologia-Angelomoacuterfica

6 Καὶ εἶδον ἐν μέσῳ τοῦ θρόνου καὶ τῶν τεσσάρων ζῴων καὶ ἐν μέσῳ τῶν

πρεσβυτέρων ἀρνίον ἑστηκὸς ὡς ἐσφαγμένον ἔχων κέρατα ἑπτὰ καὶ ὀφθαλμοὺς ἑπτὰ οἵ εἰσιν

τὰ [ἑπτὰ] πνεύματα τοῦ θεοῦ ἀπεσταλμένοι εἰς πᾶσαν τὴν γῆν

6 E vi em o meio do trono e dos quatro viventes e em o meio dos anciatildeos um

cordeiro firme de peacute como tendo sido morto tendo chifres sete e olhos sete que satildeo os sete

espiacuteritos de Deus que satildeo enviados por toda a terra

Uma vez estabelecido o lugar do seu sacrifiacutecio e de sua participaccedilatildeo na divindade

aberto estaacute o caminho para receber o livro da matildeo do que estaacute assentado no Trono

7 καὶ ἦλθεν καὶ εἴληφεν ἐκ τῆς δεξιᾶς τοῦ καθημένου ἐπὶ τοῦ θρόνου

7 E ele veio e tem recebido de a direita do que se assenta em o trono

e) v8-14 ndash Celebraccedilatildeo ao Cordeiro ldquoSacerdoacutecio e Realeza do Cordeirordquo - por

parte dos seres Viventes e dos Anciatildeos por parte de ldquouma voz de anjosrdquo por parte

da criaccedilatildeo

A ordem eacute crescente expandindo-se metodicamente para a grande celebraccedilatildeo que se

inicia a partir do verso 8

8 Καὶ ὅτε ἔλαβεν τὸ βιβλίον τὰ τέσσαρα ζῷα καὶ οἱ εἴκοσι τέσσαρες πρεσβύτεροι

ἔπεσαν ἐνώπιον τοῦ ἀρνίου ἔχοντες ἕκαστος κιθάραν καὶ φιάλας χρυσᾶς γεμούσας

θυμιαμάτων αἵ εἰσιν αἱ προσευχαὶ τῶν ἁγίων

8 E quando recebeu o livro os quatro viventes os vinte e quatro anciatildeos prostraram-se diante o cordeiro tendo cada um harpa e taccedilas de ouro cheias de incenso

as quais satildeo as oraccedilotildees dos santos

Pringent47 menciona que o termo hebraico ldquokinnorrdquo eacute inspirado na Septuaginta que

quase sempre o traduz por ldquoκιθάραν ndash harpasrdquo e que o uso de ldquoφιάλας - taccedilasrdquo eacute

empregado unicamente no Apocalipse dentro no Novo Testamento tendo seu uso

47 PRIGENT Pierre O Apocalipse Traduccedilatildeo Luiz Joatildeo Barauacutena Satildeo Paulo ndash Loyola 2002119

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designado no Antigo Testamento junto a libaccedilatildeo de uso cultual e lituacutergico (cf Ex 27 3

38 3 Nm 4 14 I Rs 7 40ss)

Josefo48 menciona a presenccedila de duas taccedilas de ouro cheias de incenso sobre os patildees

da preposiccedilatildeo O Antigo Testamento faz menccedilatildeo constante de taccedilas de ouro e seu uso no

Templo um dos textos paradigmaacuteticos para essa questatildeo eacute o texto no qual Davi apresenta

todos os materiais para construccedilatildeo do Templo em (I Cr 28) com destaque para o (verso

17) ndash ldquoE ouro puro para os garfos e para as bacias e para os jarros e para as taccedilas de

ouro para cada taccedila seu peso como tambeacutem para as taccedilas de prata para cada taccedila seu

pesordquo

Natildeo haacute duacutevidas de que se trata de um ato lituacutergico Inicia-se a grande celebraccedilatildeo

pela qual o Cordeiro eacute em absoluto reconhecido como detentor do direito conquistado por

meacuteritos proacuteprios e assim pode abrir o livro A celebraccedilatildeo tem sua iniciativa pelos ldquoseres

viventes ndash hayotrdquo seguido pelos anciatildeos

O fato de os seres viventes iniciarem a celebraccedilatildeo nos remete a forccedila e ao

significado das tradiccedilotildees miacutesticas do Trono uma vez que jaacute podemos aferir durante a

pesquisa que a divindade que se assenta no Trono eacute sempre caracterizada por aclamaccedilotildees

que procedem das ldquohayotrdquo (como em Ezequiel)

Conveacutem ressaltar que o fato de os ldquoseres viventesrdquo prestarem culto ao Cordeiro as

insere num movimento narrativo pelo qual a ldquodignidade do Cordeirordquo alcanccedila o seu

cliacutemax uma vez que estes ldquoseres viventesrdquo aparecem na tradiccedilatildeo do misticismo judaico

apenas se dirigindo objetivamente com aclamaccedilotildees ao Trono e ao que se assenta sobre ele

Parece ser uma indicaccedilatildeo contundente de que o Cordeiro eacute reconhecido como Deus49

Os anciatildeos aparecem em segundo plano o que mantecircm os ldquoseres viventesrdquo da

tradiccedilatildeo miacutestica da Mercavaacuteh no primeiro plano Isto pode estabelecer algum tipo de

relaccedilatildeo de autoridade entre os ldquoseres viventesrdquo e os ldquoanciatildeosrdquo como tambeacutem uma espeacutecie

de ordem e de hierarquia estabelecida no tocante agrave liturgia uma vez que no capiacutetulo 4

tambeacutem aparecem sob a mesma oacutetica (cf Ap 4 89)

Incenso e oraccedilotildees satildeo elementos encontrados no AT no periacuteodo do Segundo

Templo em Qumran como em outros contextos lituacutergicos num mundo complexo e

diversificados de ritos cerimoniais ainda assim se destaca o uso por parte dos ritos

sacerdotais portanto natildeo eacute incomum neste cenaacuterio de modo que a cerimocircnia conta com

48 Ibid Apud Pringent p 119 - Antiguidades Judaicas 3143 49 Se assim o eacute as indagaccedilotildees sobre questotildees ligadas ao monoteiacutesmo judaico e a divindade de Jesus entram

em tensatildeo e novamente acende a fogueira das discussotildees em torno do assunto

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elementos que fazem parte das ofertas e sacrifiacutecios que apontam para a consolaccedilatildeo dos

santos

9 καὶ ᾄδουσιν ᾠδὴν καινὴν λέγοντεςmiddot ἄξιος εἶ λαβεῖν τὸ βιβλίον καὶ ἀνοῖξαι τὰς

σφραγῖδας αὐτοῦ ὅτι ἐσφάγης καὶ ἠγόρασας τῷ θεῷ ἐν τῷ αἵματί σου ἐκ πάσης φυλῆς καὶ

γλώσσης καὶ λαοῦ καὶ ἔθνους

9 E cantam cacircntico novo dizendo digno eacutes de receber o livro e de abrir os selos

dele porque foste morto e compraste ao Deus noacutes com o sangue teu de toda tribo e liacutengua

e povo e naccedilatildeo

Jaacute o verso 9 faz o papel de pronunciamento da cerimocircnia da realeza sacerdotal do

Cordeiro anunciando por meio do Cacircntico Novo o ldquoCacircntico do Cordeirordquo sua

ldquoDignidaderdquo sua ldquoAutoridade ndash manifestada no ato de abrir o livrordquo e a ldquoforccedila e gloacuteria de

Seu sacrifiacuteciordquo sacrifiacutecio este cuja extensatildeo dos benefiacutecios satildeo para todas tribos liacutenguas

povos e naccedilotildees

Um dos termos gregos empregado neste verso foi traduzido por ldquocompraste -

ἠγόρασαςrdquo poreacutem uma melhor traduccedilatildeo sustenta a compreensatildeo de ldquoalgueacutem que agora

assumiu o comando e estaacute agrave frente para conduzirrdquo isto nos insere melhor no verso

seguinte

10 καὶ ἐποίησας αὐτοὺς τῷ θεῷ ἡμῶν βασιλείαν καὶ ἱερεῖς καὶ βασιλεύσουσιν ἐπὶ

τῆς γῆς

10 E fizeste eles ao Deus nosso reis e sacerdotes e reinaratildeo sobre a terra

Neste somos introduzidos no acircmbito do ldquoCordeiro que conduz a todosrdquo e os torna

ldquoreis e sacerdotes e eles reinaratildeo sobre a terrardquo

Com base nos argumentos de Robins50 encontra-se no Egito um conceito que lanccedila

luz para a sua compreensatildeo e eacute muito semelhante ao que encontramos aqui pois soacute os

seres humanos ritualmente purificados isto eacute ldquoreis e os sacerdotesrdquo teriam tido acesso agraves

partes internas do Templo e entrar em contato com a estaacutetua de culto

50 Apud SCHMIDT Brian B Cult Image and Divine Representation in the ancient Near East edit ed by

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Tambeacutem era comum do mundo antigo ver os ldquoReisrdquo como filho dos deuses como

no caso dos ldquoFaraoacutesrdquo No Antigo Testamento o sumo sacerdote uma vez por ano tinha

acesso ao santo dos santos assim podia ele soacute interceder pela naccedilatildeo

Partindo deste ponto de vista mais uma vez temos indiciacuteos da cultura Egipiacutecia

presentes no texto dentre outros paralelos que nos remetem a estrutura do mundo antigo e

a cosmovisatildeo que permeia as literaturas

Estes aspectos nos permitem ver um ambiente religioso que outrora entendia o

acesso aos deuses somente acessiacutevel a um grupo privilegiado de pessoas

Portanto o texto de (Ap cap 5) se contrapotildee a esta limitaccedilatildeo de acesso a

privilegiados O Cordeiro abriu um novo caminho pela ldquodiginidade de seu sacrifiacuteciordquo de

sorte que ldquofizeste eles ao Deus nosso reis e sacerdotes e reinaratildeo sobre a terrardquo Deste

modo o Cordeiro eacute cultuado na sala do Trono

Nessa linha de raciociacutenio Apocalipse 5 se torna um cerimonial de reconhecimento

do Sacerdoacutecio de Jesus e natildeo propriamente de uma entronizaccedilatildeo o que concorda com os

argumentos de Van Unnik citados por Aune51 que se contrapotildee ao texto como uma

narrativa onde se pode ver um ldquocerimonial de entronizaccedilatildeordquo indicando outras

probabilidades de interpretaccedilatildeo para a narrativa

Talvez a melhor hipoacutetese seja de unir as duas opiniotildees e fomar uma terceira a

saber Apocalipse 5 pode ser compreendido como um cerimonial do ldquoSacerdoacutecio Realrdquo

realizado na ldquoSala do Trono de Deusrdquo Este tema tambeacutem eacute sugerido pela proposta da

Epiacutestola aos Hebreus defendida na Tese de Doutorado de Cardoso52

Assim temos uma ldquoCerimocircnia do Sacerdoacutecio Real do Cordeiro na Sala do Trono

de Deusrdquo

Este cenaacuterio faz justiccedila ao desenlace textual e ao aacutepice do cerimonial inserido dos

versos 11 a 14

11 Καὶ εἶδον καὶ ἤκουσα φωνὴν ἀγγέλων πολλῶν κύκλῳ τοῦ θρόνου καὶ τῶν ζῴων

καὶ τῶν πρεσβυτέρων καὶ ἦν ὁ ἀριθμὸς αὐτῶν μυριάδες μυριάδων καὶ χιλιάδες χιλιάδων

12 λέγοντες φωνῇ μεγάλῃmiddot ἄξιόν ἐστιν τὸ ἀρνίον τὸ ἐσφαγμένον λαβεῖν τὴν δύναμιν καὶ

πλοῦτον καὶ σοφίαν καὶ ἰσχὺν καὶ τιμὴν καὶ δόξαν καὶ εὐλογίαν 13 καὶ πᾶν κτίσμα ὃ ἐν τῷ

οὐρανῷ καὶ ἐπὶ τῆς γῆς καὶ ὑποκάτω τῆς γῆς καὶ ἐπὶ τῆς θαλάσσης καὶ τὰ ἐν αὐτοῖς πάντα

ἤκουσα λέγονταςmiddot τῷ καθημένῳ ἐπὶ τῷ θρόνῳ καὶ τῷ ἀρνίῳ ἡ εὐλογία καὶ ἡ τιμὴ καὶ ἡ δόξα

51 AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978335 52 CARDOSO Joseacute Roberto Correcirca ldquoCristologia Angelomoacuterfica de Hebreus - Estudo Soacutecio-Retoacuterico e

Histoacuteria das Religiotildees Comparadas em Hebreus 11-14 25-18 71-10rdquo Satildeo Paulo UMESP 2005

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καὶ τὸ κράτος εἰς τοὺς αἰῶνας τῶν αἰώνων 14 καὶ τὰ τέσσαρα ζῷα ἔλεγονmiddot ἀμήν καὶ οἱ

πρεσβύτεροι ἔπεσαν καὶ προσεκύνησαν

11 E vi e ouvi como voz de anjos muitos ao redor o trono e dos viventes e dos

anciatildeos E era o nuacutemero deles miriacuteades de miriacuteades e milhares de milhares 12 Dizendo

em voz grande digno eacute o cordeiro o que foi morto receber o poder e a riqueza e sabedoria

e forccedila e honra e gloacuteria e louvor 13 E toda criatura que em o ceacuteu e sobre a terra e

debaixo da terra e sobre o mar estaacute e as em neles a todas eu ouvi dizendo ao que se

assenta em o trono e ao cordeiro o louvor e a honra e a gloacuteria e o poder para os seacuteculos

dos seacuteculos Ameacutem 14 E os quatro viventes dizendo o ameacutem E os anciatildeos prostraram-se

e adoraram

O cenaacuterio diante do Trono eacute tomado pela voz da multidatildeo constituiacuteda pelos anjos

os viventes e os anciatildeos - μυριάδες μυριάδων καὶ χιλιάδες χιλιάδων - miriacuteades e milhares

de milhares O objeto principal natildeo se perde de vista ldquoA Dignidade do Cordeirordquo Assim

como o ldquofilho do homemrdquo em (Dn 7 13 e 14) o Cordeiro recebe ldquoλαβεῖν τὴν δύναμιν καὶ

πλοῦτον καὶ σοφίαν καὶ ἰσχὺν καὶ τιμὴν καὶ δόξαν καὶ εὐλογίαν - o poder e a riqueza e

sabedoria e forccedila e honra e gloacuteria e louvor

A celebraccedilatildeo se estende por todo o Universo (cf v 13)

Aleacutem disso vemos nestes versos a intertextualidade onde se mesclam (Ap 48)

junto aos textos fundantes de (Is 63) que se encontra relacionado com (Dn 710) esta

uacuteltima passagem tem viacutenculo imprescindiacutevel com (Ap 511) onde se diz nas Escrituras

ldquodez mil vezes dez mil estavam com ele e um milhatildeo de homens o serviam e a Kedushaacute

(Is 63) - clamaram Santo Santo Santo eacute o Senhor dos exeacutercitos a criaccedilatildeo inteira estaacute

cheia de Sua gloacuteria53rdquo

Inserimos que o capiacutetulo 5 em sua expressatildeo final retorna como um elo que liga o

Cacircntico da Criaccedilatildeo do capiacutetulo 4 sob a menccedilatildeo de ldquoκαὶ πᾶν κτίσμα ndash toda criaturardquo

entrando em celebraccedilatildeo e fazendo uma memoacuteria ao capiacutetulo (411) ndash ldquoὅτι σὺ ἔκτισας τὰ

πάντα ndash porque tu criaste todasrdquo e assim o Trono o Cordeiro e a Criaccedilatildeo satildeo mais uma

vez unidos

53 AUNE David E Word Biblical Comentary vl 52 ndash Revelation 1-5 Ed Thomas Nelson 1978335

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Levando-nos ao cliacutemax e unindo os textos pela ecircnfase final

14 καὶ τὰ τέσσαρα ζῷα ἔλεγονmiddot ἀμήν καὶ οἱ πρεσβύτεροι ἔπεσαν καὶ προσεκύνησαν

14 E os quatro viventes dizendo o ameacutem E os anciatildeos prostraram-se e adoraram

Assim temos dois cacircnticos unidos por elos de uma corrente bem delineada de

cerimocircnias que acontecem na ldquoSala do Trono de Deusrdquo e que nos conduz a admiraccedilatildeo de

uma liturgia Judaico-Cristatilde proveniente de uma pena cuja grandeza de sua experiecircncia

religiosa se reflete no espelho do ldquoMISTICISMO JUDAICO E APOCALIacutePTICO NO

APOCALIPSE DE JOAtildeO CAPIacuteTULOS 4 E 5 ndash ASCENSAtildeO E VIAGEM CELESTIAL

NO CRISTIANISMO PRIMITIVOrdquo

CONSIDERACcedilOtildeES FINAIS

Este artigo teve o objetivo de demonstrar como as recentes pesquisas da exegese do

Novo Testamento vem sendo processados agrave luz das tradiccedilotildees do judaiacutesmo antigo e suas

correntes A menccedilatildeo da descoberta dos manuscritos de Qumran e o fortalecimento dos elos

das pesquisas ao longo dos uacuteltimos 100 anos em relaccedilatildeo ao ambiente histoacuterico do Novo

Testamento Assim contribui este artigo para que alunos dos cursos de teologia tenham

acesso as metodologias da exegese que vem sendo aplicadas ao Novo Testamento

principalmente a literatura apocaliacuteptica

A pesquisa delimita que Apocalipse cap 5 podem ser visto como um bom redator e

que alcanccedila o ecircxito em seu objetivo atraveacutes da transmissatildeo de sua experiecircncia visionaacuteria

tendo como moldura as tradiccedilotildees miacutesticas do judaiacutesmo do segundo templo Conveacutem

mencionar que em tempo algum se coloca interrogaccedilotildees na ascensatildeo de Joatildeo ateacute a sala do

trono contudo o que se preconiza eacute que Joatildeo tem uma experiecircncia no acircmbito das tradiccedilotildees

de seu contexto histoacuterico e que a transmissatildeo de sua experiecircncia segue as correntes

apocaliacutepticas de seu entorno

Concordamos com Collins54 ao mencionar que natildeo podemos eliminar a

possibilidade de que o autor (autores) tenha tido uma experiecircncia miacutestica mas podemos

discutir (as obras) como produto literaacuterio considerando sua funccedilatildeo e efeito

54 COLLINS John J A Imaginaccedilatildeo Apocaliacuteptica ndash Uma Introduccedilatildeo Literaacuteria a Apocaliacuteptica Judaica Satildeo

Paulo ndash Paulus 20109394

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Assim os ouvintes tanto nas tradiccedilotildees fundantes e cacircnticos de Qumran quanto no

cacircntico de Apocalipse 5 conforme narrado por Joatildeo satildeo representados por um