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Tendências do pensamento brasileiro

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    Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 12(2): 55-74, novembro de 2000. A R T I G O

    Tendncias do pensamentobrasileiro

    RESUMO: Ao longo da histria do Brasil, intrpretes brasileiros e estrangei-

    ros interrogam continuamente a sociedade nacional, construindo e

    reconstruindoproblemas histricos e tericos. Apesar da diversidade das

    anlises, possvel orden-las segundo orientaes, linhagens ou famlias

    de intelectuais delineando, assim, temas e perspectivas de futuro que se

    revelam recorrentes na histria das interpretaes sobre cultura, sociedade,

    economia e poltica no Brasil. Finalmente, considerado de uma perspectiva

    ampla, o diversificado conjunto de interpretaes pode ser visto como uma

    complexa narrativa ficcional que combina a busca de esclarecimento e a

    criao de significados.

    U ma das singularidades da histria do Brasil que este um pasque se pensa contnua e periodicamente. Ele se pensa de formaparticularmente sistemtica, no contexto de conjunturas crticasou a partir de dilemas e perspectivas que se criam quandoocorrem rupturas histricas. Nessas ocasies, a sociedade nacional comoum todo, ou em alguns dos seus setores sociais mais atingidos pela ruptura,ou mais interessados nela, logo se pem a analisar o curso dosacontecimentos, suas razes prximas e remotas, suas tendncias provveisno futuro. As interpretaes tanto podem priorizar um ou outro setor dasociedade como formular vises de conjunto, integrativas, buscando as linhasmestras da histria nacional. Da a profuso de explicaes, interpretaes

    OCTAVIO IANNI

    PALAVRAS-CHAVE:Brasil,pensamento social,cultura,poltica.

    Professor do Depar-tamento de Sociolo-gia do IFCH -UNICAMP

  • IANNI, Octavio. Tendncias do pensamento brasileiro. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 12(2): 55-74, novembro de 2000.

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    ou teses que se multiplicam, sucedem, complementam e polemizam. Semesquecer que os intrpretes tm sido principalmente brasileiros; mas quetambm so muitos estrangeiros. O fato de que so muitos os estrangeirosque se debruam sobre dilemas e perspectivas da sociedade brasileira, emgeral tambm procurando traar as linhas mestras dessa histria, pode sertomado como mais um elemento intrigante.

    Afinal, por que se interroga contnua e reiteradamente o que oBrasil, em cada poca da sua histria; e o que tem sido o Brasil no longo detoda a sua histria? A rigor, todas as interpretaes, setoriais e abrangentes,desenvolvidas por nacionais e estrangeiros, colocam e recolocam problemasque merecem reflexo. So problemas histricos e tericos da maiorimportncia. Histricos, no sentido de que os indivduos e as coletividades,as classes e os grupos sociais, esto sempre empenhados em compreendercomo se organiza, movimenta e transforma a sociedade, tendo-se em contaprincipalmente os jogos das foras sociais que se manifestam em arranjossucessivos ou em arranjos mais ou menos persistentes. Tericos, no sentidode que esto sempre em causa: a questo nacional; as condies deformao da sociedade nacional; a contrapartida sociedade civil e estado; apossibilidade e a impossibilidade de formao do estado-nao, simbolizadono princpio da soberania; democracia e tirania; reforma e revoluo; almde outros dilemas. bvio que os problemas histricos e tericos esto emcontraponto, determinam-se reciprocamente, ao mesmo tempo que se criamdesafios. Algumas vezes, ou melhor, freqentemente, a histria atropela ateoria; mas tambm verdade que a teoria, como tal, como ideologia oucomo utopia, com freqncia atropela a histria. Essa uma dialtica quese esclarece melhor quando a anlise desvenda o jogo das foras sociais eos arranjos dos blocos de poder, tomando em conta as determinaes internase externas que configuram e movimentam as situaes e pocas da histria.

    A despeito da multiplicidade de aspectos da realidade histricosocialabordados e da diversidade das orientaes tericas evidentes nos escritos, possvel observar a recorrncia de alguns temas. So temas que se reiteramem diferentes autores, s vezes nos mesmos termos, mas com freqnciaenriquecidos com novos dados e elucidaes.

    Dentre os temas recorrentes nos estudos sobre a formao e astransformaes da sociedade brasileira, logo sobressaem os seguintes: astrs idades do Brasil, isto , colnia, monarquia e repblica; centralismo efederalismo; estado forte e sociedade civil dbil; histria incruenta erevolues brancas; conciliao e reforma; luso-tropicalismo e democraciaracial; economia primria exportadora e industrializao substitutiva deimportaes; mercado emergente e neoliberalismo; alm de outros temastambm significativos. So temas que permitem ampla fundamentaoemprica e rigorosas anlises, sendo que vrios convergem entre si. Hautores que lidam com diversos desses temas, buscando integr-los,desenvolvendo interpretaes abrangentes. Da a pluralidade de vises doBrasil; e a pluralidade de Brasis.

    Mas necessrio acrescentar que toda interrogao sobre a

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    formao da sociedade brasileira leva consigo alguma interrogao sobre ofuturo. Os dilemas do presente suscitam incurses no passado e viagenspelo futuro. Em muitos casos, de forma implcita ou mesmo explcita, estem causa a busca das razes do presente, com o intuito de delinear asperspectivas do futuro; o que pode envolver o contraponto cincia e ideologia,algumas vezes compreendendo nostalgia e utopia.

    Um exame crtico da maioria das interpretaes revela que elasse aglutinam em certas orientaes, linhagens ou famlias. Seriam vertentespredominantes, revelando tanto os desafios que se abrem no curso da histriado pas como filiaes dos autores, alinhando-se segundo estilos depensamento j constitudos ou em constituio. Desde logo cabe registrarque as interpretaes, explicaes ou teses em geral inspiram-se em autoreseuropeus e norte-americanos, por suas filiaes tericas expressas oureveladas em estudos, monografias e ensaios.

    Em forma breve e apenas em termos de sugesto para pesquisa edebate, vale a pena delinear algumas orientaes, linhagens ou famlias deintelectuais, isto , de interpretaes sobre as tendncias predominantes nahistria do Brasil.

    O estado como demiurgo da sociedadeO estado como demiurgo da sociedadeO estado como demiurgo da sociedadeO estado como demiurgo da sociedadeO estado como demiurgo da sociedade

    Uma interpretao no s muito evidente, mas ntida e recorrente, a que se concentra na anlise do estado, da organizao do poder estatal,tendo em conta ressaltar a misso do estado como demiurgo da sociedadee da histria. bvio que h variaes entre os intrpretes que se colocamnessa linha de pensamento. Uns so abertamente autoritrios, com inflecesfacistas; outros reconhecem o jogo das foras sociais subalternas. Estesabrem-se a argumentos relativos a direitos polticos, institucionalizaodas relaes trabalho e capital, aos direitos dos assalariados, criao departidos polticos e sindicatos. No limite, no entanto, a sociedade civil pareceum subproduto da atividade demirgica do estado.

    Implcita ou explicitamente, essa tese estabelece que a sociedadecivil dbil, pouco organizada, gelatinosa. claro que os argumentos variam.H argumentos nos quais sobressaem as razes coloniais e escravocratasda sociedade nacional, compreendendo tradies patrimoniais, coronelismos,caciquismos, polticas de campanrio. Outros so abertamente evolucionistas,ou mesmo situados na linha do darwinismo social, apelando para o racismo,o arianismo, uma europeizao imaginria. Em geral tomam escritos europeuscomo se fossem expresses indiscutveis da formao das naes europias,modelos definitivos para as outras sociedades. Idealizam o que, em certoscasos, os europeus tambm idealizam.

    Nessa linha de pensamento encontram-se Alberto Torres, OliveiraVianna, Azevedo Amaral, Francisco Campos, Hlio Jaguaribe, OliveirosFerreira, Bolivar Lamounier e alguns outros. Sempre com variaes emseus argumentos, inclusive no que se refere ao carter mais ou menos

    IANNI, Octavio. Tendncias do pensamento brasileiro. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 12(2): 55-74, novembro de 2000.

  • IANNI, Octavio. Tendncias do pensamento brasileiro. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 12(2): 55-74, novembro de 2000.

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    autoritrio do estado, em suas relaes com a sociedade civil como um todoe com seus diferentes setores sociais: classes e grupos sociais, agrrios eurbanos, civis e militares, partidos polticos e sindicatos, movimentos sociaise correntes de opinio pblica.

    Esta tese antiga e nova, periodicamente renovada. Tem razesem vrias conjunturas histricas. Nasce dos problemas com os quais sedefrontam os governantes, ou blocos de poder, quando se defrontam comuma sociedade civil muito especial: trs raas tristes, escravos e livres, ndios,negros e brancos, imigrantes e nacionais, regies mais ou menos isoladas,economia primria exportadora decisivamente influenciada por relaes dotipo imperialista e remanescentes colonialistas. Diante dessa realidade, omodelo jurdico-poltico de estado-nao adotado o europeu comingredientes norte-americanos, inspirado no liberalismo, constitucionalismo,diviso dos trs poderes, democracia e cidadania; sem maiores compromissoscom a efetivao desses princpios ou ideais. Essa a viso da histria de boaparte das elites deliberantes e governantes, viso essa na qual est implcitaou explcita a idia de que o povo, enquanto coletividade de cidados, precisaser criado e tutelado, de cima para baixo. Inclusive porque a composiondios, negros e brancos, isto , escravos e livres, ou dominantes e subalternos,pode ser explosiva.

    Essa a viso da realidade sociopoltica, econmica e culturalque est presente, aberta ou implicitamente, nos lemas que assinalammomentos cruciais da histria da sociedade brasileira: Independncia ouMorte (1822), Ordem e Progresso (1889), Nacionalismo e Industrializao(1930), Segurana e Desenvolvimento (1964) e Nova Repblica (1985). claro que h fissuras, divergnci