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TEOLOGIA SISTEMÁTICA A. B. LANGSTON 0

95286073 Esboco de Teologia Sistematica a B Langston

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  • TEOLOGIA SISTEMTICA A. B. LANGSTON 0

  • TEOLOGIA SISTEMTICA A. B. LANGSTON 1

    A. B. LANGSTON

    ESBOO DE TEOLOGIA

    SISTEMTICA Digitalizado por Fransuarlem

    DEDICATRIA primeira gerao de pregadores batistas brasileiros, dedico esta obra.

    APRESENTAO Uma das preocupaes da nova JUERP a de ir atendendo paulatinamente as necessidades de reedio de obras que marcaram poca e firmaram posies em toda nossa estrutura denominacional. So livros que podem estar defasados no tempo da primeira edio, mas continuam sendo verdadeiros guias para a formao de nosso povo que estuda a Palavra de Deus, aps sucessivas reedies.

    A parceria da JIJERP com diversos co-editores, tem exatamente por objetivo diversificar a possibilidade dessas reedies, proporcionando ao nosso pblico leitor o acesso a este tipo de literatura sempre to necessrio. Este: Esboo de Teologia Sistemtica, do saudoso missionrio A. B. Langston um deles. Com a desativao de nossa operao comercial-grfica, ficamos impedidos de providenciar sua reimpresso de imediato, e esto, os reclamos surgiram de todo o pas em prol de encontrar-se uma forma para reeditar-se to importante material.

    Isto agora est acontecendo graas a nossa vinculao com a Fora Editorial, que junta-se conosco para imprimir e distribuir esse texto to importante para nossa bibliografia de estudo bblico. Numa de suas ltimas edies, o Conselho Editorial da JUERP assim se expressou a respeito desse livro:

    A primeira gerao de pastores e pregadores batistas contraiu uma grande dvida para com A. B. Langston. Chegado ao Brasil em 1909, uma das suas preocupaes fui a formao de lderes para a obra de evangelizao. Esta formao procurava ele ministrar no apenas atravs de cursos e aulas formais, mas tambm atravs da preparao de textos que, uma vez servindo de base para prelees, pudessem ser utilizadas como guias de estudos. Neste sentido, A. B. Langston foi uma das mentes mais frteis. Sua formao doutrinria firme e slida impressionou a mente dos seus muitos alunos. No h dvida de que a consistncia doutrinria dos batistas brasileiros em muito se deve ao trabalho de A. B. Langston.

    Consideraes como as que acima foram exaradas, explicam a razo de tanta solicitao para uma nova edio da obra fundamental de Langston. Esboo de Teologia Sistemtica no pretende ser mais do que seu prprio ttulo indica: um esboo para orientar os pensamentos no estudo da disciplina. No houve, da parte do autor a pretenso de elaborar uma Teologia Sistemtica. O livro foi resultado dos seus apontamentos de aulas, o que explica o carter resumido de alguns tpicos. Mas, sem dvida, o estudioso encontrar neste esboo a substncia necessria e indispensvel para alcanar uma compreenso abrangente c, at certo ponto, profunda, do assunto enfocado em cada captulo.

    Se bem que preparado inicialmente com a finalidade de suprir a deficincia de literatura teolgica no vernculo para estudantes de Teologia, este esboo poder ser utilizado com grande proveito para todos aqueles que desejam aprofundar-se em seu conhecimento doutrinrio.

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    Esboo de Teologia Sistemtica, est dividido em oito grandes divises. Comeando pela Doutrina de Deus, que, de mudo bem compreensvel, recebe maior proporo, o autor segue apresentando a Doutrina do Homem, do Pecado, da Pessoa de Cristo, da Salvao, do Esprito Santo e a Doutrina das ltimas Coisas.

    Para facilitar o estudo, fornecido, antes de cada captulo, um esboo contendo as principais divises do captulo. Este procedimento, facilita a obteno de uma viso mais abrangente de cada captulo discutido no livro. Tambm pode ser utilizado como uma sugesto de guia de estudos ou realizao de outras pesquisas. O arranjo do livro didtico, preparado para obter-se o maior rendimento, quer em classe, quer no estudo individual.

    Entregando mais esta fonte de consulta aos estudantes de Teologia, pastores e lderes em geral, a Junta de Educao Religiosa e Publicaes procura ir ao encontro das necessidades relacionadas a expanso do Reino de Deus em solo brasileiro. Que o seu estudo e meditao sejam um fator a mais na consolidao da obra e levem a um aprofundamento dos conhecimentos bblicos. Que a reflexo sria sobre os grandes temas da f crist seja uma constante em nossas vidas a fim de que cresamos na graa e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

    O que acima est registrado, o que levou novamente a JUERP, juntamente com um de seus co-editores, a investir mais uma vez na edio e distribuio de um livro inestimvel para o crescimento doutrinrio de nosso povo. Que ele subsista como instrumento de ensino nesses tempos que marcam o final de um sculo e o incio de um novo milnio.

    Os Editores

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    SUMRIO

    Apresentao....................................................................................... 01

    1. Estudos Preliminares........................................................................04

    2. A Doutrina de Deus......................................................................... 18

    2.1. A Idia Crist de Deus.............................................................. 18

    2.2. Os Atributos de Deus................................................................ 27

    2.3. Provas da Existncia de Deus................................................... 38

    2.4. A Relao de Deus com o Universo.......................................... 52

    2.5. A Doutrina da Trindade............................................................ 65

    3. A Doutrina do Homem...................................................................... 76

    4. A Doutrina do Pecado........................................................................ 88

    5. A Doutrina da Pessoa de Cristo....................................................... 103

    6. A Doutrina da Salvao.................................................................... 121

    7. A Doutrina do Esprito Santo........................................................... 153

    8. A Doutrina das ltimas Coisas......................................................... 174

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    ESTUDOS PRELIMINARES

    1. Religio

    1.1. Definio

    1.2. A Verdadeira Religio

    2. Relao entre Teologia e Religio

    3. Revelao

    4. O Objetivo da Teologia Sistemtica 5. A Possibilidade de Termos uma Teologia

    5.1. Deus existe e tem relaes com o mundo

    5.2. O homem feito imagem de Deus

    5.3. Deus tem-se revelado

    6. Importncia do Estudo

    7. Fontes da Teologia Sistemtica

    8. A Revelao Crist Fonte de Teologia Sistemtica

    8.1. A maneira por que se efetuou a revelao

    8.2. A maneira de conservar a revelao

    8.2.1 Como se conservou a revelao

    8.2.2 A revelao conservada na Bblia

    9. Fontes da Teologia Fora da Revelao Crist

    9.1. O homem, uma das fontes de Teologia Sistemtica

    9.2. O universo, outra fonte de Teologia Sistemtica

    10. Nosso Mtodo de Estudo

    11. Divises da Matria

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    ESTUDOS PRELIMINARES

    H certos estudos que no pertencem propriamente Teologia Sistemtica; mas, por se relacionarem mui de perto com ela, necessrio faz-los a fim de melhor se apreciar o curso teolgico. Convm, por isso, que adquiramos algumas noes dos referidos assuntos relacionados com a Teologia Sistemtica, para que tiremos o devido proveito do estudo que ora iniciamos.

    Nosso intuito, nesta parte introdutria, somente tratar das coisas essenciais boa compreenso e bom preparo do trabalho que se vai seguir. Depois de conhecidos estes pontos, poderemos, mais desembaraadamente, entrar no estudo propriamente dito de Teologia Sistemtica.

    1. RELIGIO

    A teologia est relacionada com a religio, assim como a botnica com a vida das plantas. Sem a vida das plantas no poderia haver botnica. Sem os astros, seria impossvel a astronomia. De igual maneira, impossvel a existncia da teologia sem a religio: aquela uma conseqente desta. E, portanto, necessrio que tenhamos uma idia clara da religio, pois dela depende a teologia. Sem o entendimento claro de uma, no se pode compreender bem a outra. Consideremos ento a religio.

    1.1. Definio. A religio a vida do homem nas suas relaes sobre humanas, isto , a vida do homem em relao ao Poder que o criou, Autoridade Suprema acima dele, e ao Ser invisvel com Quem o homem capaz de ter comunho.

    Religio vida em Deus; porque este Ser invisvel, esta Autoridade Suprema, este Poder com Quem o homem se relaciona, so um em Deus, e conhec-lo, na genuna expresso do termo, ter vida eterna.

    A religio sempre a vida do homem como um ser dependente de um poder, responsvel para com uma autoridade e adaptvel a uma comunho ntima com uma realidade invisvel. Esta definio exclui a idia que prevalece, de que a religio um corpo de doutrinas. Quem assim define a religio confunde-a com a teologia, confuso que, se no justifica, no tem razo de ser: religio vida; teologia doutrina. E, como j dissemos, a religio precede a teologia. Funda-se a religio na prpria constituio do homem. O ser humano essencialmente religioso. O salmista revelou bem claramente esta verdade quando escreveu: Assim como o cervo brama pelas correntes das guas, assim brama a minha alma por Ti, Deus (Salmos 42:1).

    A prova mais evidente de que o homem este ser por natureza religioso est em no haver, jamais, algum encontrado uma tribo, a mais selvagem embora, que fosse totalmente destituda de qualquer culto ou idia religiosa. A religio. to natural no homem como a fome, a sede, a saudade, etc. A histria universal no nos fala de um s povo sem religio. Nem ainda os mais atrasados fazem exceo a esta regra; pelo contrrio, os povos mais ignorantes, mais falhos em cultura, so, em geral, os mais religiosos. Este fato assaz notvel serve para demonstrar e provar que, quando o indivduo chega a sondar a alma, sempre encontra nela a necessidade de religio, de uma relao com o Ser Supremo DEUS. Sem dvida nenhuma, o corao humano como um altar onde arde perene o fogo sagrado da religio.

    O fato de ser a religio natural ao homem tem-na tornado, como j vimos, universal. Causa-nos comoo a lembrana do grande esforo que faziam os homens da antiguidade para se encontrarem com o Deus vivo e verdadeiro. As oraes mais tocantes e pungentes, em toda a literatura sagrada, so as que se fizeram ao Deus desconhecido. E ainda mais, h hoje em dia muitas almas famintas e sequiosas da verdade, porque uma relao ntima com o Deus verdadeiro to essencial ao bem-estar do homem como a gua o aos peixes e a luz aos olhos.

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    Jesus tornou bem saliente esta verdade quando disse: Eu sou o po da vida; aquele que vem a mim nunca ter fome, e quem cr em mim nunca ter sede (Joo 6:35). Na universalidade da religio tem o pregador ampla base para os seus trabalhos e para as suas pregaes.

    Devemos tambm considerar que a religio funciona na parte invisvel e espiritual do homem, e no na visvel e material. Em outras palavras, a religio funciona no corao; Jesus enfatizou este ponto quando disse: Deus Esprito, e importa que os que o adoram o adorem em esprito e em verdade, ou, com o esprito e em verdade (Joo 4:24).

    A religio no homem manifesta-se nos poderes de o mesmo pensar, sentir e querer. E, essencialmente, uma funo do corao, reforado este pela vontade e iluminado pelo raciocnio. Religio vida, e a vida tem a sua sede no corao, e no nas mos ou nos ps.

    Pelas consideraes j estabelecidas, chegamos concluso de que a idia fundamental da religio a de uma vida em Deus, de uma vida em comunho ntima e contnua com o Criador, uma vida debaixo da direo e domnio do Esprito Santo, O apstolo Paulo esclareceu assaz esta verdade, dizendo: Porque nEle vivemos, e nos movemos, e existimos (Atos 17:28).

    Visto que a religio tem a sua sede na parte invisvel e espiritual do homem, logo abrange todos os poderes humanos. Isto , a religio deve influenciar beneficamente todas as atividades do homem, dirigi-lo em tudo o que ele e em tudo o que faz. A religio verdadeira envolve a operao unida e coesa de todas as faculdades do homem. A religio consiste mais em ser do que em fazer. Quem cristo, sempre faz obras crists; porm, quem faz obras crists nem sempre cristo.

    Pode algum contradizer-nos, alegando que enfatizamos demasiadamente a parte espiritual do homem, em menosprezo do corpo e de seus atos, em se tratando de religio. Porm, no assim, O corpo servo do esprito, e se o esprito for bom e reto, o corpo poder cumprir satisfatoriamente as suas funes religiosas; mas se, ao contrrio, o esprito no for bom e reto, os atos praticados em nome da religio no tm nenhum valor. Ainda que distribusse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e no tivesse amor, nada me aproveitaria (1 Corntios 13:3).

    Tudo o que o corpo faz no essencialmente religioso, pois a religio do esprito e no do corpo. Dissertando a este respeito disse o apstolo Paulo: Ainda que eu tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistrios e toda a cincia, e ainda que eu tivesse toda a f, de maneira tal que transportasse os montes, e no tivesse amor, nada me aproveitaria (1 Corntios 13:2).

    Qual , neste caso, o valor que se deve dar aos atos praticados pelo corpo? Nas passagens que acabamos de citar, temos- a resposta: Quando haja harmonia perfeita entre o esprito reto e os atos exteriorizados pelo seu corpo, ento os atos tm valor religioso, mas valor relativo, no intrnseco.

    OS atos religiosos so como a nota promissria, que s tem valor quando assinada e rubricada por pessoa idnea. Alm disso, podem comparar-se os atos religiosos ao papel moeda, cujo valor depende de haver, no tesouro, o seu equivalente em ouro. isto o que o apstolo Paulo ensinou nos trs primeiros versculos do captulo 13 de sua primeira Carta aos Corntios. No havendo amor depositado no corao, nenhum dos nossos atos, at o de entregar o corpo para ser queimado, tem o mnimo valor religioso.

    Segue-se, da, que, como j se disse, os atos do corpo tm apenas valor relativo, e no intrnseco. Todos os seus merecimentos lhe so emprestados do corao. Os atos servem para exprimir a condio do esprito, pelo que o seu valor apenas declarativo, no intrnseco. O essencial em religio o estado da alma ou do corao, e todas as nossas aes, como j o dissemos, so os meios pelos quais se revelam as condies do homem interior.

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    Nunca ser demais acentuar esta verdade, devido sua importncia capital para os que desejam cumprir os seus deveres diante de Deus.

    Mui grave o erro em que muitos laboram, de confundir a religio com as suas manifestaes, como aconteceu com os fariseus. E ento lhes direi abertamente: Nunca vos conheci: apartai-vos de mim, vs que obrais a iniqidade (Mateus 7:23). E verdade que a religio envolve culto, sacrifcio prprio, orao, e, no raro, se manifesta em obras de beneficncia; estas coisas, porm, no formam a essncia da religio, pois so apenas manifestaes do esprito religioso. A glria da religio no se acha naquilo que podemos fazer e fazemos, seno na realidade de um Deus bondoso e misericordioso e numa comunho ntima entre Ele e o homem. Reiterando o que j dissemos, a religio vida em Deus, que se manifesta em obras vrias, para beneficio da humanidade e para honra e glria do Criador.

    A religio verdadeira na proporo em que possui e realiza a idia da personalidade de Deus e das Suas relaes com o homem. Os povos em todos os tempos se compenetraram da importncia deste princpio, e da o grande esforo que fizeram por descobrirem a verdadeira idia da personalidade de Deus e das suas relaes com o mundo.

    Todas as grandes religies do mundo, assim as de hoje como as da antiguidade, no so contos do vigrio, antes representam o esforo extraordinrio do homem para apossar-se da verdade. No h nenhuma religio que se apoderasse dum povo fundada simplesmente no embuste, originada dum simples impostor. Pode enganar-se todo um povo por algum tempo, uma parte do povo por todo o tempo, mas no se pode enganar todo um povo por todo o tempo, disse Lincoin.

    H sempre algo de verdade em todas as religies, Tm todas elas alguma noo a respeito de Deus e das suas relaes com o mundo, se bem que no tenham alcanado a verdadeira idia da personalidade de Deus e das suas relaes com a criao. Neste sentido, todas as religies so imperfeitas e tm enganado os seus adeptos, ministrando-lhes a verdade de mistura com o erro.

    1.2. A verdadeira religio. O cristianismo arroga-se o ttulo de verdadeira religio, porque ele prega a verdade acerca de Deus, e cultiva e promove as devidas relaes deste para com o homem. Nosso intuito atravs deste curso de teologia sistemtica mostrar que o cristianismo satisfaz s exigncias de uma religio verdadeira; e, visto que no pode haver mais do que uma religio verdadeira, segue-se que a nica verdadeira o cristianismo.

    A religio , pois, vida em Deus, vida que se manifesta em todos os nossos atos e em todas as nossas relaes.

    2. RELAO ENTRE TEOLOGIA E RELIGIO A Teologia estuda aquilo de que a religio a realidade. A religio, como j observamos, a vida em Deus, vida em que tomam parte ativa o intelecto, a vontade e as afeies. A vida religiosa envolve o homem em todo o seu ser, e os fatos apurados das suas experincias com Deus, no transcurso da vida, constituem a sua teologia. O homem um ser que reflete, que pensa sobre as suas experincias. A teologia , portanto, coisa necessria e natural.

    O homem no pode deixar de ter uma teologia, salvo se ele deixar de meditar nas experincias mais sublimes e mais preciosas desta vida. Achamos, por exemplo, no livro de Gnesis, a narrativa de uma das augustas experincias de Abrao com Deus, experincia essa em que Abrao aprendeu uma preciosa verdade, ignorada, talvez, at ento. Ele aprendeu que Deus um Deus provedor. O Senhor prover, dizem as Escrituras no verso 14 do captulo 22 de Gnesis. Ora, o que Abrao aprendeu naquela ocasio tornou-se pelo menos urna parte de sua teologia (Gnesis 22:12- 14).

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    Os Salmos esto repletos do registro de experincias idnticas de Abrao e tambm das reflexes do Salmista a respeito delas. Esta uma das razes do valor do Livro dos Salmos. E na experincia que o homem aprende melhor e mais facilmente. A nossa teologia compe-se, ento, em parte, das nossas reflexes em torno das nossas experincias com Deus. O Senhor o meu pastor, nada me faltar. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a guas mui quietas. Refrigera a minha alma: guia-me pelas veredas (Ia justia, por amor do Seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, no temeria mal algum, porque Tu ests comigo; a Tua vara e o Teu cajado me consolam. Que belas experincias! E que bela teologia!

    Alm das nossas experincias, a nossa teologia consta tambm das revelaes de Deus. Deus muito mais do que podemos experimentar. Se se limitasse, portanto, a nossa teologia exclusivamente quilo que podemos experimentar de Deus, sem dvida seria ela muito deficiente. Baseando-a, porm, nas nossas experincias da revelao divina, ser-nos- possvel chegar a um conhecimento muito mais elevado deste assunto.

    A teologia , ento, um estudo acerca de Deus, baseado na experincia do homem com Deus e na revelao divina.

    Trata-se, na teologia, no s da Pessoa de Deus, mas tambm das suas relaes com o universo. V-se logo que estudo vastssimo, abrangendo, de certa maneira, tudo quanto existe, porque todas as coisas se relacionam com Deus.

    3. REVELAO Entendemos que revelao a manifestao que Deus faz de Si mesmo e a compreenso, parcial embora, da mesma manifestao por parte dos homens. Este modo de definir a revelao acentua que o que se revela o prprio Deus, e no apenas alguma coisa a respeito de Deus. Na revelao, Deus faz-se conhecido dos homens na sua personalidade e nas suas relaes. Revelar informar, e isto justamente o que Deus h feito. Fez conhecidos os seus caminhos a Moiss, e os seus feitos aos filhos de Israel (Salmos 103:7). Deus informou ao homem acerca de Sua Pessoa e das $uas relaes com a criao. No nos esqueamos de que o centro de toda a revelao a pessoa de Deus. Jesus frisou bem esta verdade quando disse que veio revelar o Pai: Quem me v a mim, v o Pai.

    A revelao no tem por fim simplesmente informar o homem acerca de Deus, mas tambm descobrir Deus ao homem. Deus quer que o homem o conhea; da a razo de ele se revelar. Os cus declaram a glria de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mos. Um dia faz declarao a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. No h linguagem nem fala onde se no ouam as suas vozes. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras at o fim do mundo (Salmos 19:1-4).

    No nosso intuito aqui discutir o progresso da revelao. Podemos afirmar, todavia, sem medo de laborar em erro, que ela culminou em Cristo Jesus; portanto, aquele que conhece a Cristo, conhece o Pai. Antes de passarmos desta fase do assunto, convm que deixemos dito que estas revelaes se encontram no Velho Testamento, em Cristo Jesus, no Novo Testamento e no cristianismo. Um estudo acurado destas fontes de revelao dar-nos- a nossa teologia.

    4. O OBJETIVO DA TEOLOGIA SISTEMTICA Pretendemos, no estudo de teologia sistemtica, selecionar fatos que nos faam conhecer melhor a pessoa de Deus, as Suas relaes com o universo, e organiz-los num sistema racional. No se encontra na Bblia uma teologia sistemtica j feita e ordenada, mas encontram-se os fatos com os quais podemos organiz-la, dar-lhe forma, sistematiz-la.

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    O fim, portanto, da teologia sistemtica no criar fatos, mas descobri-los e organiz-los num sistema. Queremos, estudando a teologia, apreender os pensamentos de Deus, aprender das experincias espirituais dos melhores homens que sempre existiram. Neste e tudo somos como arquitetos ocupados na construo dum grande edifcio. Mas, ao invs de trabalharmos com pedra, cal e tijolos, utilizamo-nos de tudo quanto Deus tem revelado, e de tudo quanto o homem tem experimentado das coisas divinas e celestiais. Que belo edifcio no nos dado construir! Devemos exortar-nos a ns prprios com as palavras de Paulo a Timteo: Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que no tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade (II Timteo 2:15).

    5. A POSSIBILIDADE DE TERMOS UMA TEOLOGIA

    A possibilidade de termos uma teologia baseia-se em trs grandes verdades, a saber:

    5.1. Deus existe e tem relaes com o mundo. No princpio criou Deus os cus e a terra (Gnesis 1:1).

    5.2. O homem feito imagem de Deus e capaz de receber e compreender aquilo que Deus revela. E disse Deus: Faamos o homem nossa imagem, conforme nossa semelhana: domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos cus, e sobre o gado e sobre toda a terra, e sobre todo o rptil que se move sobre a terra. E criou o homem sua imagem: imagem de Deus o criou: macho e fmea os criou (Gnesis 1:26 e 27).

    5.3. Deus tem-se revelado. Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e em muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a ns falou-nos nestes ltimos dias pelo Filho (Hebreus 1:1).

    Se Deus existe e tem-se revelado, e, se o homem capaz de receber a Sua revelao, forosamente havemos de concluir que, ao menos, possvel existir a teologia sistemtica. No estamos, pois, tentando o impossvel, dizendo alguma coisa acerca de Deus e das suas relaes para com o mundo. Devemos animar-nos neste estudo com as palavras de Jesus: E a vida eterna esta: que te conheam, a ti s, por nico Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste (Joo 17:3).

    6. IMPORTNCIA DO ESTUDO Seria difcil exagerar a importncia do estudo de teologia sistemtica, porque, quem queira saber, com exatido, alguma coisa do mundo, do universo, do homem, da histria, de Cristo, da salvao, em suma, informar-se de tudo o que seja de primordial interesse ao homem, tem, por fora, de aprender de Deus. ele o grande Mestre que todas as coisas conhece. E h tanto erro a respeito de tudo isto, que se torna necessrio um conhecimento slido e seguro de todos estes assuntos de grande interesse para a humanidade.

    Fora das revelaes de Deus no se encontra tal conhecimento. Esta a razo por que baseamos o nosso estudo naquilo que Deus tem revelado ao homem. Devemos, neste trabalho, orar muito para que a nossa viso seja clara, puro o nosso zelo, elevado o nosso ideal e reto o nosso esprito, como o esprito dAquele a Quem almejamos conhecer. Devemos prosseguir neste estudo com o mesmo esprito que Deus recomendou a Moiss quando lhe apareceu na sara ardente. Moiss disse: Agora me virarei para l, e verei esta grande viso, porque a sara se no queima. E, vendo o Senhor que se virava para l a ver, bradou a ele do meio da sara, e disse: Moiss, Moiss. E ele disse: Eis-me aqui. E disse: No te chegues para c: tira os teus sapatos de teus ps; porque o lugar em que ests terra santa (Exodo 3:3-6).

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    7. FONTES DA TEOLOGIA SISTEMTICA De onde vem o material da teologia sistemtica? Quais as suas fontes? De toda parte vem o material, so inmeras as fontes. Devemos aprender de tudo o que nos possa ensinar alguma verdade acerca de Deus e das suas relaes com o mundo. A teologia crist s conhece um Deus: o Criador de tudo quanto existe. Todas as coisas, por isso, tm relao com ele e podem ensinar-me muitas verdades a seu respeito. O material da teologia pode vir, pois, de toda a criao.

    A teologia cincia to vasta que, de certo modo, abrange tudo:

    as montanhas, os rios, os campos, as estrelas, o oceano, o cu, o inferno, o homem, as Escrituras, a histria, Jesus, tudo, enfim, nos fala de Deus. Os cus declaram a glria de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mos. Um dia faz declarao a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. No h linguagem nem fala onde se no ouam as suas vozes. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras at o fim do mundo (Salmos 19:1-4). Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e em muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a ns falou-nos nestes ltimos dias pelo Filho (Hebreus 1:1).

    Em nossa teologia crist, a fonte principal, naturalmente, a revelao de Cristo. A revelao de Deus no somente ilumina o campo da teologia, mas tambm derrama a sua luz benfica sobre todos os assuntos em que a teologia se interessa. E, sendo Jesus a inspirao da religio crist, , por isso mesmo, o centro de toda a revelao. Tudo o que h de mais precioso, de mais valioso acerca de Deus, provm de Jesus. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse (Colossenses 1:19).

    Em trs grandes classes podem dividir-se as fontes da nossa teologia, a saber: (1) de Cristo (2) do universo, (3) da histria.

    E pela revelao crist que podemos compreender o que est revelado no universo fsico. No devemos, naturalmente, buscar compreenso do espiritual na base da nossa compreenso do material, visto que o espiritual primeiro, a causa do material. A ordem que procuramos seguir neste estudo ser, pois, do espiritual para o material; de Deus para a criao; da causa para o efeito; doutra maneira no acertaremos o nosso alvo.

    Explicar o universo do ponto de vista de Deus relativamente fcil; mas explicar a Deus do ponto de vista do universo absolutamente impossvel. Eis a razo por que adotamos em nosso mtodo a ordem que parte da revelao crist, reforando-a depois com o que se acha revelado no universo. A melhor de todas as revelaes de Deus Jesus Cristo. Principiemos, pois, pela mais preciosa revelao de Deus, as nossas consideraes em torno das fontes de teologia sistemtica.

    8. A REVELAO CRIST FONTE DA TEOLOGIA SISTEMTICA Entendemos que revelao crist a manifestao de Deus na pessoa e no trabalho de Jesus Cristo, e, bem assim, a preparao para a sua vinda. Mas as revelaes mais ricas, e mais espirituais, e mais efetivas, e mais verdadeiras, so as que se realizaram em Cristo Jesus, no que ele era, no que disse e no que fez.

    Para o grande acontecimento da vinda de Jesus, Deus preparou, de maneira muito especial, a nao israelita, da qual ele, Jesus, haveria de nascer; isto, porm, no significa que Deus no trabalhasse tambm entre as demais naes. No tal. Deus, ento, assim como hoje, guiava todos os povos. E de um sangue fez toda a gerao dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos j de antes ordenados, e os limites da sua habitao; para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que no est longe de cada um de ns (Atos 17:26,27). E depois disse o Senhor a Moiss:

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    Entra a Fara, porque tenho agravado o seu corao e o corao de seus servos, para fazer estes meus sinais no meio dele, e para que contes aos ouvidos de teus filhos, e dos filhos de teus filhos, as coisas que obrei no Egito, e os meus sinais que tenho feito entre eles: para que saibas que eu sou o Senhor (xodo 10:1,2).

    A histria do universo, assim como a da raa humana, uma; a nao, porm, de onde surgiria Jesus foi dirigida de um modo todo especial, sendo o intuito desta direo preparar o caminho para a vinda do Salvador do mundo. No Velho Testamento temos a histria desta grande preparao.

    Aps haver Jesus cumprido a sua misso, os seus discpulos, esclarecidos pelo Esprito Santo, revelaram claramente o plano da salvao ao qual Jesus viera dar cumprimento, e tambm os efeitos da sua vinda sobre a raa humana. Esta revelao encontra-se no Novo Testamento, que pode ser considerado como o produto do contato de Jesus com os seus discpulos.

    8.1. A maneira por que se efetou a revelao. Podemos dizer que a revelao foi feita na vida. Esta a revelao completa e perfeita. No foi ela feita primeiramente nas Escrituras, ou em palavras, mas em vida que se traduziu em atos. Um dos livros mais interessantes da Bblia indubitavelmente o dos Atos dos Apstolos. Nele vemos Deus revelando-se na vida de seus servos. A revelao consta mais do que Deus fez do que daquilo que disse. Assim diz o Senhor , certamente, uma das maneiras por que Deus se revela; porm, o Assim fez o Senhor foi e sempre o meio eficaz por excelncia. E o Senhor disse-lhe: Que isto na tua mo? E ele disse: Uma vara. E ele disse: Lana-a na terra. Ele a lanou na terra, e tornou-se uma cobra. E Moiss fugia dela. Ento disse o Senhor a Moiss: Estende a tua mo, e pega-lhe pela cauda, e estendeu a sua mo e pegou-lhe pela cauda, e tornou-se em vara tia sua mo; para que creiam que te apareceu o Senhor, Deus de seus pais, o Deus de Abrao, o Deus de Isaque e o Deus de Jac. E disse-lhe mais o Senhor: Mete agora a tua mo no teu seio. E, tirando-a, eis que a sua mo estava leprosa, branca como a neve. E disse: Torna a meter a tua mo no teu seio. E tornou a meter sua mo no seu seio; depois tirou-a do seu seio, e eis que se tornara como a outra carne. E acontecer que, se eles no crerem, nem ouvirem a voz do primeiro sinal, crero a voz do derradeiro sinal (xodo 4:2-8). Nesta passagem, como se v, Deus revelou-se por meio de atos. Ainda outra passagem muito clara neste sentido Joo 2:14-16, que deve ser lida.

    Quando Deus se manifestou a Abrao, no o fez por meio de escrituras ou palavras, seno por atos. Abrao aprendeu daquilo que Deus fez. De igual maneira, quando aprouve a Deus manifestar-se a Moiss, ainda que lhe falasse muitas vezes, podemos afirmar que a revelao se nos depara muito mais abundante nos feitos maravilhosos operados por ele diante dos israelitas. Muitas vezes, quando Moiss ensinava ou exortava o povo, fazia meno de tudo o que Deus havia feito aos seus pais, nos dias passados, e aos israelitas de ento. Os Salmos e as profecias, e, finalmente, todo o Velho Testamento, constam mais do que Deus fez do que daquilo que Deus disse. Relativamente, Deus falou pouco, mas trabalhou muito. E vs j tendes visto tudo quanto o Senhor vosso Deus fez a todas estas naes por causa de vs: porque o Senhor vosso Deus o que pelejou por vs. Vedes aqui que vos fiz cair em sorte s vossas tribos estas naes que ficam desde o Jordo, com todas as naes que tenho destrudo, at o grande mar para o pr-do-sol. E o Senhor vosso Deus as empuxar de diante de vs, e as expelir de diante de vs: e vs possuireis a sua terra, como o Senhor vosso Deus vos tem dito. Esforai-vos, pois, muito para guardardes e para fazerdes tudo quanto est escrito para guardardes e para fazerdes tudo quanto est escrito no livro da lei de Moiss: para que dele no vos aparteis, nem para a direita nem para a esquerda (Josu 23:3-6).

    A revelao de Deus no se fez, portanto, primeiramente nas Escrituras e depois na vida, mas, pelo contrrio. Deus se manifestou primeiro na vida e depois nas Escrituras. Por exemplo, a revelao que se acha narrada no livro de xodo operou-se, antes de tudo, na vida daquele povo. A libertao de Israel do jugo egpcio constitui uma fonte riqussima de ensinamentos, pelos quais o povo compreendeu o plano de

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    Deus; e assim por todo o Velho Testamento. Se tirarmos do Velho Testamento tudo o que Deus fez e revelou pela vida dos seus servos, v-lo-emos reduzido a um volume ininteligvel.

    Quando Deus se revelou em Cristo Jesus, seguiu o mesmo mtodo. J de tal forma nos habituamos a pensar que a revelao de Deus s se pode achar nas Escrituras, que chegamos at a julgar que no havia revelao antes de serem elas escritas. Porm no assim. A revelao fez-se, principalmente, na vida dos seus servos, os profetas; na de Jesus Cristo, seu Filho; e na dos apstolos. As Escrituras so, por conseguinte, o resultado dessa revelao. Deus revelou-se primeiramente na vida dos seus servos; estes, depois, transmitiram, por meio das Escrituras, essas revelaes posteridade. As Escrituras, embora sejam o resultado da revelao de Deus a seus servos, so tambm revelaes de Deus a ns. A Bblia, podemos dizer, as atas das reunies de Deus com os homens. Porque j manifesto que vs sois a carta de Cristo, ministrada por ns, escrita, no com tinta, mas com o Esprito de Deus vivo, no em tbuas de pedra, mas nas tbuas de carne do corao (II Corntios 3:3). A encarnao o grande princpio da revelao de Deus.

    Este mtodo de encarnar a verdade no foi escolhido arbitrariamente, porm era o nico mtodo pelo qual Deus poderia revelar-se ao homem em toda a sua plenitude. As palavras podem exprimir tudo o que pensamos, mas no tudo o que sentimos. E o grande problema de Deus no era tanto revelar ao homem os Seus pensamentos, como manifestar o que estava em Seu corao. Deus no queria to-somente revelar os seus pensamentos, seno tambm manifestar sua prpria Pessoa ao homem. Para conseguir isto, o nico mtodo possvel era o de encarnar a verdade numa pessoa divina, o que se realizou em Jesus Cristo, que no s ensinou, mas tambm viveu a verdade toda a respeito de Deus.

    Deparam-se-nos, a propsito, as seguintes perguntas: Ter-se-ia, porventura, completado a revelao de Deus com a vinda de Jesus? ou devemos esperar mais revelaes da parte de Deus? Ter-se-ia encerrado toda a revelao em Jesus? Sim e no, respondemos. A revelao em Cristo foi completa, porque, nele e por meio dele Deus disse tudo quando tinha que dizer. Portanto, tambm, desde o dia em que ouvimos, no cessamos de orar por vs, e de pedir que sejais cheios do conhecimento de sua vontade, em toda a sabedoria e inteligncia espiritual (Colossenses 1:9). Disse-lhes Jesus:

    Estou h tanto tempo convosco, e no me tendes conhecido, Filipe? Quem me v a mim v o Pai: e como dizes tu: Mostra-nos o Pai? (Joo 14:9). Tudo o que Deus pensa e sente a respeito do homem est em Jesus Cristo. Ele a palavra final. Por meio dele abriu Deus, e esgotou, todo o tesouro das suas revelaes, e, por isso, nada mais devemos esperar alm daquilo que nos trouxe Jesus.

    Noutro sentido, porm, pode dizer-se que a revelao de Deus no est completa, considerando que o homem no compreendeu ainda a Jesus em toda a integridade de sua personalidade, e no penetrou ainda todo o tesouro de verdades que ele ensinou e praticou. Do ponto de vista do homem h muita coisa que aprender de Deus. Jesus mesmo disse que ia para o Pai e que o outro Consolador havia de vir completar a revelao de Deus. Esta uma parte da grande obra do Esprito Santo.

    De tudo o que fica dito, conclumos que a revelao est completa em Cristo, e que nele se encerra tudo que Deus tinha que manifestar ao mundo. E verdade que no nos temos apropriado desta revelao em toda a sua plenitude, mas temos a promessa de, instrudos pelo Esprito Santo, compreender inteiramente a suprema revelao de Deus em Cristo Jesus. O grande meio de revelao a vida. Sabemos, porm, que Deus no se limitou somente a este meio, mas tambm se revelou por outros modos, como podemos ver lendo Hebreus 1:1.

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    8.2. A maneira de conservar a revelao. Sabemos j que o veculo principal da revelao a vida, especialmente a vida de Jesus Cristo. Queremos agora considerar o assunto de como Deus conservou esta verdade pura, revelada na vida de seus servos e na do seu Filho unignito.

    8.2.1. Como se conservou a revelao. Na vida foi feita a revelao crist e na vida tem ela sido preservada. A melhor maneira de preservar a verdade encarn-la. A verdade viva a nica verdade garantida. Jamais a corrupo teve algum poder contra a vida. A corrupo s aparece junto com a morte. O maior erro dos fariseus foi o de procurar conservar a pouca verdade que tinham na forma de ritos e formalidades, ao invs de a encarnarem nas prprias vidas. Mas a verdade de tal natureza que no vive em ritos e cerimnias, e a verdade que no vive desaparece. Foi isso justamente o que ocorreu com os fariseus; eles perderam quase todo o seu pequeno patrimnio de verdade, e, em muitos casos, no tinham mesmo nenhuma noo dela. Deus sempre procurou, desde o princpio, plantar, encarnar a verdade no corao de seus filhos. A encarnao de Jesus a culminao deste processo. Haja vista o grande nmero de biografias do Velho Testamento. Deus sempre exigiu dos seus escolhidos que vivessem e praticassem a verdade. O apstolo Paulo frisou bem este ponto, dizendo: Vs sois a nossa carta, escrita em nossos coraes, conhecida e lida por todos os homens (II Corntios 3:2). E o Verbo se fez carne, e habitou entre ns, e vimos a sua glria, como a glria do Unignito do Pai, cheio de graa e de verdade (Joo 1:14).

    Sabemos que os primitivos cristos no possuam o Novo Testamento; tinham, porm, a revelao de Deus feita por Jesus Cristo e preservada na sua vida. E realmente as doutrinas bsicas do cristianismo no nos foram dadas tanto para objeto da nossa crena como para objeto da nossa experincia. Isto indica que devemos esforar-nos por experimentar as doutrinas, visto que cada qual encerra uma preciosa experincia. Aquele que cr na doutrina e no a experimenta no compreende a sua verdadeira significao. Testemunhas da verdade eram os primitivos cristos. Testemunha quer dizer, aquele que tem experincia. A pessoa pode pregar o que ouviu ou recebeu de outrem, mas testemunhar s pode aquele que haja assistido pessoalmente, s aquele que experimentou. O cristianismo verdadeiro insiste em que as suas verdades sejam encarnadas. A prova de que a verdade s se conserva na vida vemos no fato de haver ela desaparecido das vidas fracas. Vejamos os tempos que precederam reforma de Lutero; aquela grande verdade relativamente a viverem os justos pela f havia desaparecido quase completamente, mas uma vez encarnada de novo na vida de Lutero exerceu uma tremenda fora para abalar, como de fato abalou, o mundo inteiro.

    O Velho Testamento serviu para preparar o mundo para a vinda de Jesus; o Novo serve para registrar o resultado de ter ele vindo e vivido a verdade. Em certo sentido, foi ele quem nos deu a Bblia, que agora nos leva a seus ps. Se Deus no houvesse conservado a verdade encarnada na vida de seus servos os profetas, os apstolos e os crentes em geral no teramos hoje da verdade a poro preciosa que possumos.

    8.2.2. A revelao conservada na Bblia. A revelao crist h sido conservada na Bblia Sagrada. Bblia palavra grega que significa coleo de livros. E, sem dvida nenhuma, temos na Bblia a mesma revelao que Deus fez e conservou na vida dos seus servos. E aquela mesma verdade revelada e conservada na vida, a que temos nas Escrituras.

    A Bblia divide-se em duas partes: O Velho Testamento, que consta dos livros da lei, dos histricos, profticos, poticos; so, enfim, a soma de toda a literatura sagrada do povo hebraico; o Novo Testamento, que consta dos quatro Evangelhos, que tratam da biografia de Jesus, dos Atos dos Apstolos e das cartas dos apstolos s igrejas. E a literatura primitiva do cristianismo.

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    Encontramos no Velho Testamento a revelao gradual e progressiva de Deus ao povo escolhido, revelao que prepara caminho para a vinda de Jesus Cristo, seu Filho, e, no Novo Testamento, o cumprimento desta revelao com o nascimento, vida e morte de Jesus, e, ainda mais, o resultado da revelao na vida dos crentes. No h negar que a Bblia o livro por excelncia. Ela :

    A carta Magna de toda a verdadeira liberdade;

    a verdadeira precursora da civilizao;

    a moderadora das instituies e dos governos;

    a formadora das leis;

    o segredo do progresso nacional;

    o guia da histria;

    o ornamento e fonte essencial da literatura;

    a amiga da cincia;

    a inspiradora dos filsofos;

    o compndio da tica; a luz da inteligncia;

    a resposta aos desejos mais ntimos do corao humano; a alma de toda a vida cordial e religiosa;

    a luz que resplandece nas trevas;

    a inimiga da opresso;

    a adversria da superstio;

    a desarraigadora do pecado;

    a reveladora de tudo o que elevado e digno;

    o consolo na aflio;

    a fortaleza na debilidade;

    a senda na perplexidade;

    o refgio na tentao.

    A revelao a base das Escrituras. Deus serviu-se dos israelitas para manifestar-se ao mundo; e, ao completar a plenitude dos tempos, enviou o seu Filho unignito, a fim de consumar a revelao j comeada. A revelao de Deus progressiva e o fim da teologia bblica acompanh-la e estud-la sob este ponto de vista. No devemos, porm, supor que na Bblia temos tudo quanto Deus queria revelar, porque isto no verdade. Seria impossvel conter um s livro tudo o que Deus quisesse revelar. Joo esclarece este ponto quando diz: H, porm, ainda muitas outras coisas que Jesus fez, as quais, se cada

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    uma de per si fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo lodo poderia conter os livros que se escrevessem (Joo 21:25). Temos, porm, no que se acha escrito na Bblia, o suficiente para servir-nos de guia e autoridade em todas as questes que acaso surjam em nossa vida. E este um dos mais importantes princpios sustentados pelos batistas.

    O vocbulo Bblia, j o dissemos, significa coleo de livros. E interessante saber como se formou esta coleo. Os diferentes livros que a compem foram escritos em pocas diversas, assaz distanciadas umas das outras, e, alm de tudo, no tiveram os seus autores na mente o plano de enfeix-los num todo uniforme, num s volume que se denominasse Bblia. Por exemplo: escrevendo Paulo a Filemom, no teve a idia de que sua carta viria, mais tarde, tomar lugar na coleo dos livros inspirados de que se compe a Bblia. Da mesma maneira no tiveram os demais escritores esse intuito quando compuseram os seus livros ou epstolas. Pelo que, podemos afirmar, sem receio de errar, que a Bblia, tal qual a temos hoje, obra da providncia de Deus. Tambm podemos dizer que, de certa maneira, cada livro conquistou o seu prprio lugar na Bblia. Eles no esto l devido a uma qualquer arbitrariedade, seno devido ao valor intrnseco de cada um deles. Lancemos a vista, ainda que ligeiramente, nos livros apcrifos, e descobriremos imediatamente a razo por que foram rejeitados: falta-lhes o valor intrnseco que caracteriza os demais os cannicos.

    No se pode dar aqui a histria do cnon, que um estudo de muita importncia para os que almejam conhecer de fundo a origem da sua Bblia. Basta-nos, por agora, saber que os livros de que se compe a Bblia l se acham por duas razes: em primeiro lugar, devido providncia de Deus; em segundo, pelo valor intrnseco de cada um.

    No h duvida de que a Bblia a palavra de Deus divinamente inspirada e dada ao homem. Apesar de muito distanciados, cronologicamente falando, seus livros constituem um todo harmonioso; h entre eles a melhor unidade de assunto, de esprito, de intuito e de tratamento. Nenhum ensino dum livro anterior negado pelos posteriores. O que se nota progresso, jamais negao. Pode-se comparar a Bblia a uma catedral em cuja construo se gastaram sculos. Na de Milo, por exemplo, consumiram-se 400 anos; ao morrer Miguel Angelo, o que levantara a planta, sucederam-lhe na obra outros arquitetos, e, destarte, as geraes iam sucessivamente fazendo a parte que lhes competia, at completar-se a edificao. Assim foi com a Bblia: cada escritor sagrado contribuiu um tanto para esta maravilhosa coleo de livros, qual chamamos Bblia.

    Quem no queira faltar verdade jamais poder dizer que as Escrituras Sagradas so o produto do tempo em que foram compostas, porque os seus ensinamentos foram sempre muito mais elevados, quer moral quer espiritualmente, que os das pocas em que surgiram. Do ponto de vista do meio ou da poca no se pode explicar a Bblia. A nica alternativa possvel admiti-la como sendo o produto de uma vida divina entre os homens. E esta, e somente esta, a origem real da Bblia, pois at o meio em que hoje vivemos muitssimo mais atrasado, est muito aqum do padro moral advogado pelos ensinos da Bblia.

    Ademais, devemos notar que a Pessoa que produziu a Bblia a mesma que criou a alma, porque ela revela um conhecimento profundo da alma humana. A Bblia julga o homem, revela-lhe as culpas, condena-lhe os atos e o faz pensar em Deus. Nela encontra o homem aquilo que satisfaz s necessidades da alma, uma lmpada para os seus ps e uma luz para o seu caminho. Temos na Bblia a soluo dos nossos problemas, a inspirao para os maiores empreendimentos, o caminho que nos conduz aos ps dAquele que nos pode salvar.

    Concluindo: Deus o nosso Pai, e a Bblia, ancila sua, ou serva, que no-lo revela. Jesus o Salvador, e a Bblia, seu servo ou ministro, que nos leva a seus ps. O Esprito Santo o Ensinador, a Bblia o seu

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    compndio. Exatamente como disse o Salmista: A palavra do Senhor uma lmpada para os meus ps e uma luz para os meus caminhos.

    9. FONTES DE TEOLOGIA FORA DA REVELAO CRIST a teologia um estudo to vasto que, alm da revelao crist, abrange o homem, a sua constituio, a sua vida, a histria e enfim o universo todo. Temos, alm da Bblia Sagrada, outro grande livro, o livro da natureza, o qual nos revela grandes coisas acerca de Deus.

    Faamos aqui algumas consideraes relativas ao homem e ao universo como fontes de teologia sistemtica.

    9.1. O homem, uma das fontes de teologia sistemtica. Na cincia da religio, o homem de grandssima importncia, pois ele o ser no qual existem as experincias religiosas e a quem as mesmas pertencem. E necessrio, por isso, que um ligeiro estudo sobre o homem preceda ao da teologia. Ainda mais, sendo o homem a criatura que neste mundo se assemelha a Deus, claro que tambm a criatura que nos pode fornecer dados mais numerosos e preciosos a Seu respeito. E no homem que devemos descobrir as verdades mais sublimes a respeito de Deus, por isso que foi feito imagem sua e semelhana. Eis por que inclumos aqui este breve estudo sobre o homem, que consideramos uma importante fonte para a teologia.

    Ainda neste mesmo ponto podemos incluir a histria como fonte assaz valiosa e que largamente contribui para o nosso estudo do homem e de Deus. Pela histria chegamos ao conhecimento da natureza e do carter do homem, porque na histria vamos encontrar o homem em todas as condies, das melhores s piores. Tambm por ela podemos apreciar alguma coisa da providncia de Deus em guiar e dirigir as naes numa sabedoria por excelncia divina. V-se, pois, que no fora de razo considerar a histria como fonte no menos preciosa nem menos abundante para a teologia sistemtica. E de um sangue fez toda a gerao dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos j dantes ordenados, e os limites da sua habitao (Atos 17:26).

    O que a histria do universo nos revela numa escala mais ampla, revela-o, em propores menores, porm no menos evidentes, a vida de cada indivduo. Sim, so de fato muito importantes, e assaz interessantes para a teologia, as observaes que se podem colher da vida particular de cada pessoa, porque h entre os indivduos relaes que nos podem ensinar lies valiosas a respeito de Deus. Por exemplo, as relaes entre pai e filho, entre esposos, etc., podem mostrar-nos coisas importantssimas relativamente s verdades que Deus quer revelar ao mundo.

    No estudo de teologia sistemtica devemos, portanto, esforar-nos por conhecer o carter do homem tal como , na sua constituio, vida e histria, pois quem consegue conhec-lo profundamente conseguiu j uma base excelente para o conhecimento de Deus, visto ter sido o homem feito Sua imagem. E pelo conhecimento de um ser moral que podemos chegar ao conhecimento doutro ser moral. Por isso, uma boa compreenso da natureza humana de incalculvel utilidade para quem almeje conhecer a Deus. 9.2. O universo, outra fonte de teologia sistemtica. Compe-se o universo de muitos sistemas de mundos. O mundo em que vivemos um dos menores planetas. Dizem as Escrituras que os cus declaram a glria de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mos. O universo, como vemos, uma fonte abundante para a teologia sistemtica, pois obra das mos de Deus. A cincia moderna enriquece grandemente a idia que temos do universo, e, ao mesmo tempo, a idia de Deus. Podemos estudar na criao acerca de certos mtodos e intuitos de Deus, e dos resultados por ele alcanados no seu trabalho criador. E verdade que a natureza no nos pode dar uma idia perfeita de Deus, mas isto no quer dizer que ela no nos possa fazer conhecer coisa alguma a seu respeito. Apelamos, ento, durante o nosso estudo de teologia

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    sistemtica, para o universo fsico, porque, como obra das mos de Deus, certamente poder ensinar-nos alguma coisa acerca do seu Autor.

    10. NOSSO MTODO DE ESTUDO Tornam-se necessrias algumas palavras sobre o mtodo que adotamos. Aquele que inicia o estudo de teologia sistemtica com opinies e preconceitos j formados no aproveitar tanto do estudo como quem nele entre com a mente aberta, buscando somente saber o que as Escrituras, o universo e tudo o que nos rodeia nos ensinam acerca de Deus. H certa classe de pessoas que se aproximam da Bblia, no com o intuito de procurar sinceramente o que ela ensina, mas a fim de buscar apoio para as suas prprias idias. Querem apoio, e no opinio das Escrituras. Este mtodo de prevenes e preconceitos jamais dar bons resultados. Que assim no seja conosco. Aproximemo-nos do estudo com a mente aberta, com humildade e com orao para que aprendamos de Deus. O Senhor, pois, tornou a chamar a Samuel terceira vez, e ele se levantou, e foi a Eli e disse: Eis-me aqui, por que tu me chamaste. Ento entendeu Eh que o Senhor chamava o mancebo. Pelo que Eli disse a Samuel: Vai-te deitar, e a h de ser que, se te chamar, dirs:

    Fala, Senhor, porque o teu servo ouve. Ento Samuel foi e deitou-se no seu lugar. Ento veio o Senhor, e ps-se ali, e chamou como das outras vezes: Samuel, Samuel. E disse Samuel: Fala Senhor, porque o teu servo ouve (1 Samuel 3:8,9).

    11. DIVISES DA MATRIA Pode-se dividir a teologia sistemtica em sete partes, facilitando, destarte, o seu estudo ordenado. Ei-las:

    a) A que se refere especialmente a Deus: sua existncia, seus atributos, seu modo de existir e de proceder.

    b) A parte que se refere especialmente ao homem: trata de sua criao e de suas relaes.

    c) A que trata do pecado: sua natureza, sua realidade, etc.

    d) A que se refere especialmente a Jesus: sua vinda, sua histria, sua Pessoa, sua relao com Deus e com os homens, e o seu trabalho de reconciliar Deus com o homem.

    e) A que diz respeito salvao do homem e sua conseqente reconciliao com Deus.

    f) A que diz respeito ao Esprito Santo e vida divina no homem.

    g) A que trata das coisas vindouras.

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    2

    A DOUTRINA DE DEUS

    2.1 AIDIACRISTDEDEUS

    1. Consideraes Preliminares

    2. Uma Definio de Deus

    2.1. A Natureza de Deus

    2.2. O Carter de Deus

    2.3. Relao de Deus com o Universo

    2.4. O Motivo de Deus em Suas Relaes para com Tudo Quanto Existe

    3. A Natureza de Deus Deus Esprito Pessoal

    4. O Carter de Deus Deus E Esprito Perfeitamente Bom

    5. A Relao de Deus para com o Universo Deus Cria, Sustenta e Governa Tudo

    5.1. Deus Cria Tudo

    5.2. Deus Sustenta Tudo

    5.3. Dois Governa Tudo

    6. O Motivo de Deus em Relao Criao Santo Amor

    A IDIA CRIST DE DEUS

    1. CONSIDERAES PRELIMINARES Nesta primeira parte do nosso estudo consideraremos a revelao crist de Deus, as razes por que cremos na sua existncia, o seu modo de existir e de revelar-se, e a sua relao para com o universo. Esta parte da teologia de suma importncia, porque a idia que temos de Deus determina no s a natureza da nossa religio, suas caractersticas, etc. como tambm a firmeza da nossa teologia. Descrever Deus , a um tempo, descrever a nossa teologia e definir nossa religio. Um sistema religioso forte ou fraco, segundo a sua idia de Deus. Isto . se a idia de Deus parcial, imperfeita, assim ser tambm o sistema em seu todo. Por outro lado, se a idia verdadeira, digna e correta, o sistema ser igualmente verdadeiro, digno e correto. Passemos, ento, discusso da matria reconhecendo de antemo a nossa fraqueza, confessando a nossa falta de capacidade e pedindo o auxlio dAquele que almejamos conhecer e descrever. neste assunto que necessitamos de todas as qualificaes para o descobrimento da verdade, porque, se errarmos aqui, o resto do nosso estudo, certamente, ser eivado de erro. Revistamo-nos de humildade e dum esprito de devoo e diligncia verdadeiramente crists. Deus tenha misericrdia de ns e nos abenoe; e faa resplandecer o

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    seu rosto sobre ns, para que se conhea na terra o seu caminho, e entre todas as naes a sua salvao (Salmos 67:l 2).

    Para convenincia do nosso estudo, desejamos dar uma definio da idia crist de Deus, aps o que procuraremos desenvolver, em pormenores, a definio apresentada. Cremos que assim nos ser possvel chegar a uma idia ntida do assunto.

    2. UMA DEFINIO DE DEUS O tema por demais vasto e sublime para uma definio completa e satisfatria; temos, porm, na revelao crist, material necessrio para uma definio crist de Deus.

    Somos justificados, portanto, em tentar essa definio, sabendo, embora, desde o principio, que, forosamente, ela h de ser um tanto imperfeita. Ao finito no cabe definir o infinito. Ainda assim, tem valor a tentativa, porque ainda que se no consiga inteiramente atingir o alvo colimado, s o ato de procurar definir alguma coisa sempre a torna mais clara ao que empreende faz-lo. A nossa justificao, por isso, est em que, tentando ns definir Deus, poderemos alcanar a respeito dele uma idia mais clara e adequa-da.

    Entende-se por. definio de Deus aquilo que se baseia na revelao crist, ou cm Cristo. Descobrir a idia que Jesus tinha com referncia a Deus nossa tarefa. Sabemos que Jesus veio a este mundo a fim de revel-lo aos homens, e sabemos tambm, com certeza, que cumpriu a sua misso, porque ele mesmo dissera aos discpulos certa ocasio: Quem me v a mim, v o Pai. Devemos, pois, trabalhar com denodo a fim de descobrir o que Jesus revelou acerca de Deus, por isso que, se alcanarmos isto, estaremos seguros de haver atingido a verdadeira idia de Deus e um fundamento slido para a nossa teologia sistemtica.

    Quanto ao mtodo que vamos seguir nesta definio, ser o mesmo usado por Jesus Cristo. Jesus no enunciou, um a um, os atributos de Deus, mas serviu-se de expresses compreensveis e dos fatos mais importantes a seu respeito. O mtodo de Jesus era mais sinttico do que analtico, mais sugestivo que exaustivo. Jesus procurou dar uma idia clara e precisa de Deus, mas no uma idia analtica. o mesmo mtodo que desejamos adotar procurando dar uma definio de Deus, definio que no ter por fim esgotar o assunto, porque ningum jamais conseguiu esgot-lo. Limitar-nos. emos muitas vezes a simples sugestes em razo da impossibilidade de incluir numa definio tudo quanto dela deveria fazer parte. Trataremos, por isso, de selecionar e discutir os elementos essenciais acentuados pelo pr6prio Jesus, e assim poderemos adquirir uma noo mais perfeita de Deus.

    A nossa definio de Deus a seguinte: Deus Esprito Pessoal, perfeitamente bom, que, em santo amor, cria, sustenta e dirige tudo.

    Esta definio envolve os seguintes pontos, que passaremos a discutir:

    2.1. A natureza de Deus: Ele Esprito Pessoal.

    2.2. O carter de Deus: Ele perfeitamente bom.

    2.3. A relao de Deus para com o universo: Cria, sustenta e dirige tudo.

    2.4. O motivo de Deus em suas relaes para com tudo quanto existe: santo amor.

    Estes pontos acima mencionados nos serviro de esboo para o desenvolvimento do assunto que temos em mira: A idia crist de Deus.

    3. A NATUREZA DE DEUS Deus Esprito Pessoal

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    3.1. Esprito. Coisa muito difcil definir o esprito. Alcana.se mais, s vezes, peio lado negativo, isto , dizendo o que no . Principiemos, portanto, dizendo que o esprito no material, nem da matria procede. No h possibilidade de reduzir matria o esprito. H, entre um e outro, uma barreira intransponvel. So de natureza diametralmente opostas. Esta definio negativa, porm, no nos satisfaz inteiramente, porque por ela ficamos cientes do que o esprito aio , e no daquilo que ele . Desejamos saber o que o esprito , por isso procuraremos uma definio no sentido positivo.

    H uma idia muito comum, mas muito errnea, de que o homem tem alma ou esprito, quando, na realidade, o homem no outra coisa seno alma ou esprito. o homem que tem corpo. o homem que pensa, que sente, que quer. A matria no tem raciocnio, nem sentimento, nem vontade, O homem, portanto, constitudo de certos poderes, que no pertencem ao corpo, mas ao prprio homem, o qual , como j dissemos, alma ou esprito. Por isso, a nossa compreenso de Deus como Esprito Perfeito depende, em parte, da compreenso que temos de ns mesmos. Diz-nos a Bblia que o homem foi feito imagem de Deus. E, assim sendo, uma das melhores maneiras de conhecer a natureza de Deus conhecer a nossa prpria natureza. Como espritos que somos, dotados dos poderes de pensar, de amar e de querer, temos razo de crer que Deus tem os mesmos poderes que caracterizam o nossa esprito. Uma das maiores dificuldades que se nos deparam, quando procuramos pensar no esprito que sempre temos pensado no homem como tendo certa forma; porm to fcil, depois de acostumados, pensamos em certos poderes como antes nos era o pensarmos na forma. como fazemos a respeito da eletricidade: no lhe damos forma, porm pensamos nela em termos de poder, energia. Assim que devemos fazer em relao ao esprito: pensar nele em termos de poderes, e estes poderes so: pensar, amar e querer,

    Deus , ento, um ser que sabe, que sente e que tem vontade prpria. No ser mais necessrio definir o esprito, se dermos o devido valor aos poderes espirituais que temos, isto , aos poderes de pensar, amar e querer.

    O esprito, portanto, um ser real, verdadeiro, mas invisvel, constitudo dos poderes de pensar, sentir, querer e, ainda mais, os de conscincia prpria e direo prpria.

    Quanto essncia do esprito, nada podemos declarar, porque nada sabemos, seno o que aprendemos das suas manifestaes mediante os poderes j mencionados. A essncia do esprito, como a da vida e da eletricidade, coisa desconhecida. Isto, porm, no quer dizer que o esprito desconhecido, porque assim como conhecemos a vida e a eletricidade pelas suas manifestaes, igualmente conhecemos o esprito.

    desnecessrio citar passagens da Bblia para provar que Deus Esprito, visto como toda a Bblia, e especialmente o Novo Testa. mento, do princpio ao fim, est repleta de ensinamentos que abonam este asserto. Verdade que no Velho Testamento Deus se apresenta debaixo de certas formas, mas nunca se confunde com a matria. O ensinamento da Bblia que Deus Esprito: a,.. e importa que os que o adoram, o adorem ciii esprito e verdade.

    Convm que notemos, de passagem, que, alm de Esprito, Deus Esprito Perfeito. Seus pensamentos so perfeitos, seus sentimentos purssimos, sua vontade santa, perfeita, sua conscincia prpria, e absoluta sua determinao prpria.

    No queremos dizer com isto que um esprito perfeito aquele cujos poderes sejam perfeitos, mas antes um esprito no qual se realizem tambm um perfeito equilbrio e perfeita harmonia entre todos os poderes. Assim com Deus. Nele no h desequilbrio entre os poderes de pensar, sentir e querer. Cada um deles, ou todos juntos, desempenham de maneira perfeitssima as suas funes. Cada ato de uma pessoa exige a ao proporcional de cada uma dessas faculdades. Mas como no homem, por ser ele imperfeito, no estejam elas em perfeito equilbrio e harmonia, da a razo de serem imperfeitos

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    todos os seus atos. Numa pessoa que se deixe dominar principalmente pelos sentimentos, todos os seus atos se orientam pela paixo, e, no raro, ei vai at a loucura. Noutra predomina o poder de pensar, e ainda noutra, o de querer; e, operando estes poderes desarmonicamente, s podem levar a pessoa a produzir atos imperfeitos. Em Deus no assim. Nele todos estes poderes so equilibrados e harmnicos, como j o dissemos, O seu conhecimento perfeito, perfeito o seu sentir e perfeita a sua vontade; por isso, so tambm perfeitos os seus atos. Deus como Esprito tem todos os poderes de um esprito, no mais alto grau de desenvolvimento e perfeio. Nele no se pode idear nenhum outro meio de aperfeioamento doa poderes de pensar. querer e sentir. Pois tudo quanto pode ser: Deus perfeito.

    3.2. Pessoal Parece, talvez, desnecessrio este vocbulo pessoal, visto j estar ele envolvido na palavra e na concepo de espritos. Acho, porm, conveniente enfatiz-lo porque para muitos o termo esprito um tanto vago. Entende.se por esprito pessoal um ser que pensa, sente, quer e que tem, ainda mais, o poder de conscincia prpria e de direo prpria. Esprito pessoal uni esprito constitudo destes poderes. Notemos agora alguma coisa a respeito da conscincia prpria e da direo prpria.

    3.2.1. Conscincia prpria. Conscincia prpria significa mais do que o termo (conscincias no sentido em que de ordinrio o empregamos. Conscincia prpria quer dizer o poder que a pessoa tem de estar cnscia de si mesma. Este poder de conhecer-se a si mesmo peculiar a um esprito, a uma pessoa. Tal faculdade no a possui nenhuma outra criatura de Deus. Podem os animais estar cnscios de qualquer coisa em derredor deles, mas somente ao homem digamos melhor, ao esprito dado fixar o pensamento em si mesmo e chegar a conhecer-se a si prprio.

    Conscincia prpria no somente quer dizer o esprito cnscio de si mesmo, mas tambm que pode conhecer-se a si mesmo, O homem tem o poder de sondar o prprio ser, pesquis-lo, at descobrir-se a si mesmo. Pelo poder de pensar ao homem possvel viajar o prprio interior, fazer longas excurses no seu Intimo e assim conhecer.se mais e mais. Se bem que tenhamos mapas do mundo e dos cus, ningum jamais conseguiu fazer um mapa completo da alma humana, O mundo dentro de ns vasto, vastssimo at; mas, graas a Deus, temos o poder de conhec-lo e este poder o que denominamos conscincia prpria.

    Os gregos eram, no seu tempo, o povo mais adiantado e de mais ampla cultura, intelectualmente falando. Tudo quanto era dado ao homem conhecer sem o auxlio de Deus, aprenderam-no e conheceram-no os gregos. Muitos filsofos da atualidade ainda se inspiram no pensamento dos gregos e na filosofia grega. O pensamento mais elevado, que representa o ponto culminante da intelectualidade grega, acha-se, talvez, expresso nestas palavras: Conhece-te a ti mesmo,

    Reconheceram eles a grandeza da alma humana e, ao mesmo tempo, o poder que o homem tem de conhecer-se a si mesmo; mas nem eles, nem qualquer outro povo, conseguiram jamais traar um mapa pelo qual se estudassem as misteriosas profundezas da alma humana. grande tarefa se propuseram os gregos. S uma h que a excede, a tarefa de conhecer a Deus. Constantemente ficamos surpresos diante das coisas novas que, a cada passo, aprendemos de ns pr6prios. H vastas regies no interior da nossa alma, ainda desconhecidas; mas, graas a Deus, tem o homem o poder de conhecer a si mesmo e os segredos mais profundos de sua personalidade. A conscincia prpria , portanto, um dos poderes mais preciosos dos que constituem um esprito pessoal.

    A conscincia prpria perfeita em Deus. Deus conhece a si mesmo o mais perfeitamente possvel. Ele conhece o seu ser interior e exteriormente, em todas as relaes imaginveis. Nunca houve, nem h e jamais haver surpresa alguma para Deus em relao a si mesmo. Ele conhece a sua prpria mente, o prprio corao, a prpria vontade. Deus sabe o que era, o que , e o que h de ser. O conhecimento que Deus tem de si mesmo perfeito.

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    Um esprito pessoal , ento, um ser constitudo dos poderes de saber, querer e sentir, que tem, ademais, o poder de conhecer-se a si mesmo.

    3.2.2. Direo prpria. A segunda qualidade ou caracterstica de um esprito pessoal direo prpria. Este poder baseia-se no de conhecimento prprio, que acima discutimos. Como h de algum ter direo prpria, se no se conhece a si mesmo? S um ser que se conhea a si mesmo que est em condies de dirigir-se, de ter direo prpria. No pode dirigir bem um automvel, ou uma locomotiva, quem no conhea bem o seu maquinismo. Assim a prpria pessoa.

    Direo prpria quer dizer que a pessoa se dirige a si mesma e no dirigida por outrem, como o automvel e a locomotiva o so. Direo prpria quer dizer que a pessoa autnoma, e no autmata: um automvel que no precisa de chofer. Tudo o que necessrio direo prpria acha-se dentro da prpria pessoa. No mister coisa alguma de fora a quem queira dirigir-se a si mesmo.

    Devemos notar que estamos discutindo aqui o poder de direo como um dos elementos de que se constitui o homem, e no o poder que se acha na vida moral de qualquer pessoa.

    A direo prpria em Deus uma bno absoluta. Nenhuma circunstncia exterior determina ou influi nos planos ou nos atos de Deus. Nele mesmo est o motivo e a explicao de tudo o que faz. Para explicar-se um ato de um homem, muitas vezes necessrio que se tomem em considerao muitas circunstncias de fora que exercem influncia na sua deciso. No assim com Deus. O motivo e a explicao de tudo quanto ele faz est nele mesmo. Jesus diante de seus algozes um exemplo disso. Ele nunca perdeu a serenidade e a direo prpria. Se algum vos bater numa face, virai-lhe tambm a outras, disse ele. Estas suas palavras aplicam se perfeitamente ao assunto que estamos considerando.

    Se por um pouco considerarmos a direo prpria no homem, adquiriremos idia mais perfeita da glria e da sublimidade da direo prpria de Deus. O poder que tem o homem de dirigir-se naturalmente limitado. A direo prpria no homem no absoluta. H muitas circunstncias exteriores que influem nos seus atos e na direo que d vida.

    No Salmo 1 exorta-nos o Salmista a que no nos deixemos dirigir pelo conselho dos mpios. Bem-aventurado o varo que no anda no conselho dos mpios, nem est no caminho dos pecadores, nem se assenta no assento dos escarnecedores (Salmos 1:1). Ningum deve entregar a direo de sua prpria vida s coisas ou circunstncias que o rodeiam, porque o poder de direo prpria indica que o homem superior ao meio cm que vive. No devemos, por isso, rebaixar-nos ao ponto de entregar a direo da nossa vida a outra qualquer pessoa, ou coisa, ou circunstncia. Infelizmente o que muitas vezes sucede: o homem dirigido, ao invs dc dirigir-se a si mesmo.

    Temos muitos exemplos de homens que so dirigidos: o alcolatra dirigido pelo apetite de beber; o jogador, pelo lucro vil; o adltero, pela paixo; o assassino, pelo dio; e assim todos estes e muitos outros esto escravizados e subjugados pelos vcios ou pelos sentimentos baixos que envilecem o homem. Jesus disse que aquele que comete o pecado servo do pecado. Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado servo do pecado. (Joo 8:34). A tentao de Jesus, no tocante a este assunto, muito interessante. O diabo fez tudo o que lhe era possvel por desvi-lo do caminho e dar-lhe nova direo na vida, mas Jesus resistiu-lhe e deu sua vida a direo que achou melhor.

    Quantas vezes o homem se torna menos semelhante a Deus pelo fato de ser dirigido, ao invs de dirigir-se a si mesmo! pela perda desta direo prpria que o homem se aproxima maia e mais dos brutos, sem, no entanto, chegar a ser um deles.

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    Vimos que a direo prpria no homem muito falha, muito imperfeita, muito falvel. Muitos homens h completamente escravizados, O homem natural como aquele rei da antiguidade, atado ao carro do seu vencedor: prendem-no o vcio e o pecado, e o levam acorrentado. Em Deus, porm, no assim. A sua direo prpria absolutamente perfeita. Nada h fora que lhe modifique a direo da vida. H nele, na sua prpria Pessoa, motivo e explicao para tudo quanto faz. Deus, e somente Deus, se dirige a si mesmo numa perfeio absoluta.

    Conclumos, ento, que Deus Esprito Pessoal, porque tem o poder de pensar, sentir, querer, e porque tem o poder de conhecer-se a si mesmo perfeitamente e de dirigir.se soberanamente. Os seus pensamentos so altssimos, os seus sentimentos purssimos, a sua vontade santssima, o seu conhecimento de si mesmo pefeitssimo, a sua direo prpria absoluta. Portanto, Deus Esprito Pessoal Perfeito.

    4. O CARTER DE DEUS Deus Esprito Perfeitamente Bom A segunda parte do nosso estudo da definio de Deus a que trata do seu carter. Definindo o carter de Deus, dissemos que ele perfeitamente bom. Faamos algumas consideraes em torno desta idia.

    O termo bom quando empregado com referncia a Deus, no esclarece tudo, porque este vocbulo j perdeu a fora da sua significao, devido ao seu uso muito generalizado. Deus no bom como o homem bom. A bondade dele outra, muito diferente. Certo mancebo de qualidade disse uma vez a Jesus:

    O termo bom quando empregado com referncia a Deus, no esclarece tudo, porque este vocbulo j perdeu a fora da sua significao, devido ao seu uso muito generalizado. Deus no bom como o homem bom. A bondade dele outra, muito diferente. Certo mancebo de qualidade disse uma vez a Jesus: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? E Jesus respondeu, dizendo: Por que me chamas bom? Ningum h bom, seno um, que Deus (Lucas 18:18, 19). no sentido em que Jesus empregou essa palavra, e no no sentido em que a usou o mancebo, que vamos estudar o carter de Deus. Bom como Deus no h ningum. Este termo bom, segundo a idia de Jesus, fala de uma excelncia moral elevada, muito alm de tudo quanto um corao bom aprova.

    Quando se aplica o termo bom a uma pessoa, no se faz referncia a uma s qualidade, mas a todas que ela possui. Da mesma maneira, quando o aplicamos a Deus, referimo-nos a todas as excelncias morais do seu carter.

    No h entre os homens uma pessoa to boa quanto deveria ser. Mas assim no com Deus, a quem atribumos tudo o que bom, todas as qualidades morais que podem exornar um esprito. A sua bondade no se mistura com o mal, nem suscetvel de alguma falha. O .bom em Deus perfeito: nada h de mais nem de menos em seu carter. Deus no bom para alguns e mau para outros. Ele o mesmo para todos e em tudo: na sua essncia, na sua natureza, no seu corao, nos seus desejos, nos seus planos, nos seus atos, nos seus pensamentos mais ntimos; enfim, Deus bom em tudo.

    Os melhores homens so, no raro, bons s em certas relaes:

    alguns para a famlia, outros para a ptria, e ainda outros para o amigo. Deus, porm, bom para todos, at mesmo para os seus inimigos os pecadores. Partindo da mais alta idia que se pode fazer da bondade mais elevada da raa humana, temos de ele. var-nos muito ainda para alcanamos a idia da bondade de Deus, porque bondade que ultrapassa a toda imaginao humana. No h realmente comparao entre a bondade divina e a humana; h, antes, um frisante contraste. No h ningum bom Como Deus.

    .A idia da bondade perfeita de Deus o mago da revelao crist. No Velho Testamento no transparece tanto a bondade de Deus como no Novo Testamento. Muitas vezes era necessrio que Deus se revelasse

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    dum modo imprevisto e um tanto rude ao povo da antiguidade, tal como vemos por ocasio do dilvio; mas na revelao crist do Novo Testamento depara-se-nos a manifestao suprema da bondade perfeita do Criador.

    A prpria natureza nos ensina alguma coisa acerca da bondade de Deus; , porm, na vida, no carter e na morte de Jesus que temos dela a expresso mxima, a expresso mais sublime e gloriosa. S na vida que se pode revelar completamente o carter de Deus. Quem, pois, quiser saber se Deus bom ou no, deve acompanhar Jesus em seus sofrimentos, em seus trabalhos e em seu sacrifcio. Deve procurar compreender a razo da sua morte e a glria da sua ressurreio, porque s em Jesus que temos plenamente revelada a bondade perfeita de Deus. Mas Deus recomenda o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por ns, sendo ns ainda pecadores (Romanos 5:8).

    Quando se dix que algum bom, exprime-se tudo o que possvel a seu respeito, porque o termo bom inclui todas as qualidades boas, todos os nobres predicados dum carter. Dizer que uma pessoa boa dizer tudo numa s palavra. tecer-lhe o mais belo elogio. Assim quando aplicamos o termo bom com referncia a Deus; dizer que ele bom dizer tudo o que h de sublime a respeito do seu carter; resumir todas as suas qualidades, todos os seus predicados numa s palavra. Deus bom porque possui todas as qualidades boas, e nele estas boas qualidades atingem o mais alto grau de perfeio. Deus no pode ser melhor do que , e nem possvel imaginar-se outra bondade mais sublime que a sua. ele a Pessoa ideal, o excelso padro de toda a excelncia moral. Deus bom como ningum o .

    5. A RELAO DE DEUS PARA COM O UNIVERSO Deus Cria. Sustento e Governa Tudo 5.1. Deus cria tudo. O verbo criar, na vida prtica, tem dois sentidos distintos: fazer existir o que nunca existiu, e multiplicar o que j existe. No primeiro captulo de Gnesis a palavra aparece em ambos os sentidos. No princpio criou Deus o cu e a terra, isto , Deus fez existir o que nunca antes existira em forma alguma. Declara.nos tambm a Bblia que Deus fez a terra e as guas produzirem, e assim encontramos as duas idias: a de fazer existir o que nunca existira, e a de multiplicar o j existente. No nos devemos c.9uecer jamais de que Deus o Criador, tanto num como noutro sentido. Tudo quanto existe criao dele.

    J vimos a primeira idia da criao no primeiro verso do livro de Gnesis; a segunda idia temo-la expressa nos versculos 11 e 12, a saber: Disse Deus; Produza a terra erva verde, erva que d semente, rvore frutfera, que d fruto segundo a sua espcie, cuja semente est nela sobre a terra: e assim foi. E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espcie, e a rvore frutfera, cuja semente est nela conforme a sua espcie: e viu Deus que era bom.

    Tornam-se necessrias algumas palavras de explicao sobre o modo de Deus criar. H, em geral, dois extremos opostos no modo de pensar sobre a criao narrada por Moiss no primeiro captulo de Gnesis. Um dos extremos o de considerar cada coisa nova que aparece como uma criao distinta, sem relao alguma com a precedente. O outro extremo no o de fazer existir o que nunca existiu, mas apenas uma evoluo ou desenvolvimento daquilo que j existia desde a eternidade. So estes os dois extremos, e ambos errados. Cada um, porm, tem mima parte de verdade. As Escrituras reconhecem os dois processos. A Bblia ensina que Deus fez existir o que nunca existiu em tempo algum e em forma alguma, e tambm que ele, na sua obra criadora, fez uso do que 1 tinha criado. Deus fez existir o que nunca havia existido, mas, depois de existir pelo ato da criao, fez a terra produzir erva. Deus o Criador tanto da erva como da terra.

    A maior criao, no h contestar, a do homem. Na formao do corpo humano, Deus aproveitou o p j existente. No vamos, portanto, a uni nem a outro extremo da questo, porque a verdade se acha no meio.

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    Deus criou, e Deus desenvolveu a sua criao. Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens (Joo 1:3,4). Porque por ele foram criadas todas as coisas que h nos cus e na terra, visveis e invisveis sejam tronos, sejam dominaes, sejam principados, sejam potestades: todas as coisas foram criada por ele e para ele (Col. 1:16). Porque dele, e por ele, e para ele so todas as coisas; glria, pois, a ele eternamente. Amm (Romanos 11:36).

    5.2. Deus sustenta tudo. Declara-nos a Bblia que Aquele que criou o universo tambm Quem o sustenta. A causa que originou a mesma que preserva tudo o que foi criado. Uma das maravilhas do universo a fora que o preserva e sustenta. Sabemos que o universo consiste no somente do nosso planeta, mas tambm de muitos sistemas planetrios. Sabemos, ainda mais, que os planetas esto em movimento, girando com preciso jamais atingida por nenhum invento ou engenho humano. Querendo os homens certificar-se da hora exata, consultam o sol. Os planetas no se adiantam nem se atrasam em sua marcha desde os primeiros dias da criao. A prova disso que os astrnomos podem calcular, com toda a preciso, o dia, a hora e at o segundo em que se vai dar um eclipse, e isto muitos anos antes do seu aparecimento.

    O universo vastssimo. H estrelas tio distantes do nosso planetazinho. que, no obstante a sua luz percorrer cinqenta mil lguas por segundo, ainda assim essa luz gasta milhares de anos para chegar terra.

    Ficamos admiradssimos quando consideramos a fora necessria para sustentar e mover os planetas do universo. Para impelir qualquer maquinismo, gasta-se, como temos observado, muita energia; quanta fora no necessria para fazer girar todos os sistemas planetrios de que se compe o universo?! Quanta fora h sido gasta desde o primeiro dia? Nunca faltou energia para mover e sustentar os planetas. De onde vem essa fora?

    Toda a fora vem de Deus. Ignoramos a maneira por que ele sustenta em movimento tantos mundos muitas vezes maiores do que o nosso. Afirmamos, porm, que, alm da fora para sustentar todo o universo, Deus tem ainda os recursos necessrios para prover a sua criao de todas as coisas essenciais sua existncia. Como um pai cuida da famlia, assim faz Deus em relao ao universo. A Bblia declara-nos que nenhum passarinho cair por terra sem que Deus o saiba. Diz-nos ainda o Salmista que este mesmo Deus o nosso Pastor e que, por isso, nada nos faltar.

    5.3. Deus governa tudo. Consideremos, a seguir, o falo de que Deus, alm de Sustentador, tambm o Governador do universo. Deus governa tudo, cesta s razo por que se d o nome de universo a todos os sistemas de mundos espalhados na imensidade do espao. Universo, sim, porque obedece direo dum Governador, que Deus. Tudo o que existe colima um alvo fixado por este Governador, e no h dvida alguma deque ele levar a sua criao ao alvo desejado. Para esse fim Deus est dirigindo tudo. No h planeta errante, sem direo, porque todos eles obedecem a um plano fixado por Deus, o Criador, Sustentador e Governador de todas as

    coisas. Para o homem bom, o pensamento de que Deus governa tudo deve ser de grande consolao. Ensina-nos a Bblia que Deus governa tudo. Entre outras passagens, devemos ler o Salmo 105:13-22, que diz: Quando andavam de nao em nao e dum reino para outro povo, no permitiu a ningum que os oprimisse, e por amor deles repreendeu os reis, dizendo: No toqueis nos meus ungidos, e no maltrateis os meus profetas. Chamou a fome sobre a terra, quebrantou todo o sustento do pio. Mandou perante eles um varo, Jos, que foi vendido por escravo; cujos ps apertaram com grilhes: foi metido em ferros; at o tempo em que chegou a sua palavra; a palavra do Senhor o provou. Mandou o rei, e o fez soltar; o governador dos povos, co soltou. F-lo senhor da sua casa, e governador de toda a sua fazenda; para sujeitar os seus prncipes a seu gosto, e instruir os seus ancies.

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    6.O MOTIVO DE DEUS EM REL4 O CRIAO O Motivo de Deus Santo Amor Deus, em santo amor, criou, sustenta e governa tudo. O motivo de Deus em todas as suas aes santo amor, como j ficou dito quando discutimos a perfeio do seu carter. Desejamos aqui enfatizar mais este motivo de Deus em sua obra criadora, porque a nossa idia de Deus depende, em parte, do motivo (jur lhe atribumos nas suas atividades. O motivo que nos certifica da perfeio da sua bondade. Mas a idia crist de Deus inclui e acentua o seu motivo. Cristo, na sua vinda terra, revelou, em termos claros e precisos, o motivo de Deus relativamente sua criao. Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu Filho unignito, para que todo aquele que nele cr no perea, mas tenha a vida eterna (Joo 3:16).

    A nossa definio estabelece que o motivo de Deus, todos os seus atos, santo amor. H amores que no so santos, e nem podem ser santificados; amores cujos motivos no so dignos, no so justos. H motivos interesseiros e amores que levam a alma destruio e runa completa. Assim no , porm, o amor de Deus, porque o amor de Deus santo; isto um amor de acordo com o seu carter perfeito. O amor de Deus em nenhum ponto est em contradio com a sua natureza de perfeita bondade. o amor santo de um carter santo. O santo amor dc Deus significa a identificao da sua bondade com o desejo ardente de melhorar a criao. Por causa deste amor santo, da vontade de Deus que haja o melhor universo possvel e o mais perfeito desenvolvimento da sua criao. Quando Deus criou o universo, o seu amor no deixou passar despercebidas a necessidades da criao. por isso que afirmamos que Deus em santo amor. criou o universo, em santo amor sustenta o universo e em santo amor governa o universo.

    H. talvez, quem diga que o universo no prova que foi criado e que est sendo sustentado e governado em santo amor. Dizem que. na observao das coisas que nos rodeiam, v-se que o universo no revela o santo amor de Deus quanto sua criao, nem quanto forma por que est sendo dirigido e governado. Estas observaes, porm, demonstram-se imperfeitas e superficiais, e, mais ainda, evidenciam-se parciais; porque, tirante o prprio homem e a influncia que ele exerce, tudo o mais que existe no universo prova o santo amor de Deus. Respondendo aos que criticam este asserto, diremos que o cristianismo no aprendeu esta verdade apenas do universo fsico, mas tambm de Jesus. Ele foi quem ensinou que Deus em santo amor criou, sustenta e governa tudo. O cristianismo alimenta a esperana de que h de chegar o dia em que o universo inteiro, inclusive o homem, h de confirmar esta verdade, e certamente isto acontecera.

    No nos devemos esquecer de que o plano do universo muito grande, mesmo imenso; e, devido a isto, o que parece defeito, talvez seja tido como elemento de perfeio quando seja encarado do ponto de vista do conjunto, isto , total. Os que s vem mal no universo esto, mais ou menos, nas mesmas condies daqueles trs cegos que quiseram conhecer o elefante; o primeiro, ao apalp-lo, tocou casualmente na cauda, e concluiu que o elefante um animal muito delgado e comprido; apalpando.o do lado, o segundo cego, asseverou que o elefante era semelhante a uma parede; o terceiro, que tateou a cabea, julgou-o arredondado. Comearam depois a comentar a forma do mamfero-monstro, dizendo cada qual a verdade conforme o seu conhecimento; mas a idia que todos tinham dele era muito imperfeita, por isso que parcial, unilateral. Assim somos ns e so nossas idias relativamente ao universo. Parece-nos a ns, c do nosso cantinho, que no h amor na criao, nem na direo do universo. Jesus, porm, que conhece todo o plano e v todas as coisas em seu conjunto, disse que amor santo o grande motivo de Deus, o seu grande mvel em criar, sustentar e dirigir o universo. Porque para mim tenho por certo que as aflies deste tempo presente no so para comparar com a glria que em ns h de ser revelada. Porque a paciente expectao da criatura espera a manifestao dos filhos de Deus. Porque a criatura est sujeita vaidade, no por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperana de que tambm a mesma criatura ser libertada da servido da corrupo, para a liberdade da glria dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda criatura juntamente geme e est com dores de parto at agora. E no s ela, porm ns mesmos, esperando

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    a adoo, a saber, a redeno do nosso corpo. Porque em esperana somos salvos. Ora, a esperana que se v no esperana parque, o que algum v, como o esperar? (Romanos 8:18-24).

    Esta a idia crist de Deus. Deus Esprito Pessoal, perfeitamente bom, que em santo amor cria, sustenta e governa tudo.

    A DOUTRINA DE DEUS

    2.2 OS ATRIBUTOS DE DEUS

    1. Consideraes Preliminares

    2. Atributos Naturais Que Se Baseiam no Seu Modo de Proceder

    2.1. Onipresena

    2.2. Oniscincia

    2.3. Onipotncia

    2.4. Unidade

    2.5. Infinidade

    2.6. Imutabilidade

    3. Atributos Morais

    3.1. Santidade

    3.2. A Justia de Deus

    3.3. Amor-

    4. Santidade e Amor

    OS ATRIBUTOS DE DEUS

    I. CONSIDERAES PRELIMINARES Segundo a idia crist, Deus Esprito Pessoal. Deus possui, portanto, os poderes essenciais a um esprito, que so: pensar, querer e sentir. O ser que se compe destes poderes pessoais tem certo mudo de proceder e certas qualidades morais. Quais so, ento, estes modos de proceder e estas qualidades morais que vamos atribuir a este Deus que Esprito Pessoal? As coisas que atribumos a este Ser chamam-se atributos.

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    Atributo, pois, uma qualidade atribuda a um