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Imagens da Mudança - Waldemar Anacleto

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Catálogo da exposição 'Imagens da Mudança - trabalhadores de Santa Catarina no acervo de Waldemar Anacleto', realizada pelo SESC SC e Universidade Federal de Santa Catarina, 2013. Design do catálogo: Paula Albuquerque

Text of Imagens da Mudança - Waldemar Anacleto

  • trabalhadores de santa Catarina no aCervo de Waldemar anaCleto

    mudanaimagens da

  • O programa de cultura do Sesc Santa Catarina, ao longo dos ltimos dez anos, tem levado

    a pblico algumas das mais representativas aes e produes de arte visual no estado.

    salutar, nesse contexto, que a significativa obra de Waldemar Anacleto figure entre

    as exposies escolhidas para percorrer quase trinta cidades nos prximos cinco anos.

    No apenas pelo importante resgate da histria do povo de Santa Catarina,

    seu desenvolvimento, as mudanas no modo de produo e costumes que o fotgrafo

    habilmente soube registrar em seus mais de trinta anos na funo, mas tambm

    pela inegvel qualidade artstica do conjunto, cujo olhar e sensibilidade em retratar

    o cotidiano de um estado, de um povo, colocaram Waldemar Anacleto como um realizador

    suis generis de sua arte no estado.

    O mundo do trabalho, enfoque da presente exposio, apresenta na viso de Waldemar

    Anacleto, de modo peculiar e esteticamente notvel, um recorte precioso dessa poca

    onde as mudanas esto cada vez mais rpidas, instantneas, e onde a memria de um

    modo de vida, de produo e de relao entre as pessoas, cada vez mais rpido se torna

    obsoleto, ultrapassado ou mesmo desconhecido.

    Assim, em conjunto com a Secretaria de Cultura da UFSC, que disponibilizou todo

    o acervo fotogrfico do artista para possibilitar a realizao da curadoria desta exposio,

    o Sesc tem orgulho em poder dividir com os catarinenses um apanhado da histria

    de Santa Catarina sob o olhar de um dos mais representativos fotgrafos do estado.

    Roberto Anastcio MartinsDiretor Regional do Sesc Santa Catarina

  • 5lvaro de Azevedo DiazFotgrafo, professor de fotografia, curador da exposio Imagens da mudana: trabalhadores de Santa Catarina no acervo de Waldemar Anacleto.

    Jacques MickProfessor do Departamento de Sociologia e Cincia Poltica da UFSC, coordenador do projeto de extenso Imagens da mudana: visibilidade para o acervo fotogrfico do TMT.

    O TRAbAlhO, A TCNICA,

    O TeMPO

    A sequncia de imagens em preto e branco aqui apresenta-da foi selecionada do acervo de mais de 4 mil fotos e filmes doados pela famlia de Waldemar Anacleto ao Ncleo de es-tudos sobre Transformaes no Mundo do Trabalho (TMT), da Universidade Federal de Santa Catarina. Os critrios ado-tados para a escolha de frao to reduzida do acervo devem ser compartilhados.

    As imagens no arquivo do TMT refletem o trabalho de uma vida inteira dedicada a registrar, atravs da fotografia, um per-odo de tempo extenso, de mais de trs dcadas. So registros pessoais, mas, sobretudo, institucionais, uma vez que Walde-mar Anacleto era funcionrio do estado de Santa Catarina, o que o levou a realizar registros pblicos de um momento po-ltico e econmico marcante na histria do estado e do pas, entre os anos 1950 e 1970. Alm da esfera pblico-poltica, Anacleto voltou suas lentes para o universo, cenrio e perso-nagens do trabalho, cerne dessa mostra.

    A obra de Anacleto divide-se em dois perodos distintos: em um primeiro momento, as imagens so quadradas e em pre-to e branco, formato amplo, imposto pela cmera padro do fotojornalismo mundo afora na poca, a mtica Rolleiflex.

  • 6A partir do final dos anos 1960 e acompanhando a marcha global do fotojornalismo, Anacleto migra para o porttil e retangular 35mm e para a avassaladora imposio da cor na fotografia.

    essa migrao revela-se um divisor de momentos, especialmente do ponto de vista tcnico. Aps um longo perodo refinando um olhar em preto e branco, a cor confere outro perfil s imagens por ele produzidas, criando a princpio um ntido desconforto. Mas foi a troca de formatos o que mais afetou o seu fazer fotogrfico, distanciando-o do perodo inicial em preto e branco. em primeiro lugar, o formato maior em 6x6 da fase inicial de Anacleto era mais qualitativo que o 35mm pelo simples fato de o negativo ser quase quatro vezes maior em rea. Alm disso, a simplicidade de construo da Rollei-flex, com apenas uma lente e formato quadrado, permitia ao fotgrafo operar com mais simplicidade e fluncia. No havia a preocupao de a imagem ser vertical ou horizontal; a no intercambiabilidade das lentes facilitava a adaptao do olhar do fotgrafo quela distncia focal especfica, permitindo uma pr-visualizao mais acurada e um resultado mais previsvel. A cmera 35mm, em contrapartida, oferecia um visor altura do olho, ao contrrio do visor na altura da cintura da 6x6, pontos de vista completamente diferen-tes para a tomada das fotografias; a possibilidade de trocar as lentes, que a princpio era tida como uma vantagem, terminou por ser um incmodo, por excesso de flexibilidade. Por fim, ter que escolher uma orientao para a foto tambm roubou muito da fluncia da fase inicial do trabalho de Anacleto. O resultado que as imagens em 35mm colori-das desse fotgrafo so quase todas tomadas com uma nica lente, a 50mm normal, e horizontais na sua ampla maioria. A cor, no fim das contas, foi forosamente adotada com o passar do tempo. O melhor trabalho de Waldemar Anacleto encontra-se, portan-to, na primeira fase, quando teve sua cmera, como afirmou Cartier-bresson, alinhada com a sua mente, seu olho e seu corao.

    desse perodo que composta esta exposio. a fase mais produtiva, criativa e esttica de Anacleto, um homem nascido em um mundo desde sempre visto em pre-to e branco. Do ponto de vista tcnico, havia uma homogeneidade universal: todos os profissionais tinham basicamente o mesmo equipamento, restando ao fotgrafo poucas variveis diferenciais, sendo o olhar a mais arguta de todas. Nisso Anacleto se distinguiu dos seus pares, com uma viso direta e sem rebuscamento, como na straight photography

  • 9norte-americana. O resultado um conjunto visualmente eloquente, uma narrativa que contribui para elucidar o universo pouco documentado das transformaes no mundo do trabalho em Santa Catarina, sobretudo durante os anos 1960, quando a industrializao e a urbanizao combinaram-se fortemente.

    As fotografias dessa mostra no apresentam uniformidade quanto aos procedimentos tcnicos. Apesar de terem sido feitas pelo mesmo fotgrafo e com a mesma cmera, a conduta laboratorial bastante diversa e a pelcula adotada para os registros nem sempre foi a mesma, criando, dessa forma, resultados bastante dspares no que diz respeito densidade e escala tonal. esses resultados refletem o fotojornalismo da poca, em que era natural reutilizar os qumicos algumas vezes por questes de econo-mia e compensar essas deficincias na ampliao, utilizando-se papis de contrastes diferentes para contrabalanar eventuais oscilaes de densidade. O momento e o acon-tecimento cristalizados pela imagem era o que pesava mais (e at hoje assim). Outro procedimento bastante corriqueiro no fotojornalismo o recorte da imagem. Aqui optamos por imprimi-la integralmente, sem nenhum tipo de corte, preservando o formato quadrado da cmera, desvelando, assim, o enquadramento original feito pelo fotgrafo.

    O recente avano das tecnologias digitais permitiu a recuperao de fotografias a partir de suas matrizes, os negativos. As cpias desta exposio se beneficiaram desse avano e foram produzidas com escaneamento, tratamento e sadas digitais. essa tecnologia permitiu a recuperao das fotografias em sua plenitude, com toda a sua tonalidade, superando em qualidade o mtodo original para o qual esses negativos foram produ-zidos. Primeiro os negativos foram escaneados em altssima resoluo. em seguida, as imagens foram tratadas digitalmente para a remoo de poeira, riscos e arranhes, um grande trabalho de restauro para, a seguir, terem recuperada a sua gama tonal atravs de ajustes de brilho e contraste. As cpias finais foram impressas com tintas de perma-nncia no papel edition, da Canson, cem por cento algodo, e finalizadas em molduras adequadas para a sua mxima preservao e permanncia. Ao optarmos por trabalhar assim tais imagens, podemos afirmar que a qualidade das cpias aqui apresentadas extrapola em muito as originais, uma vez que a tecnologia digital contempornea permite uma equalizao de resultados outrora praticamente impossvel.

  • 10

    A exposio est organizada em trs conjuntos de imagens. O primeiro mostra o traba-lhador em si, isolado em sua atividade, em pleno exerccio do seu trabalho. notria a cincia do fotografado da presena do fotgrafo. No possvel medir a extenso do arranjo e da interveno no contexto, nem sequer se ela ocorreu, mas importante mencionar a nuance no ato fotogrfico relacionada possibilidade da pose.

    h, a seguir, um ponto intermedirio, no qual o trabalhador mostrado no seu mbito de trabalho, seu mtier. Nesse portfolio, v-se mais do ambiente onde o trabalho era exercido, muitas vezes junto a outras pessoas. Aqui o mundo em que Anacleto transitava comea a criar forma, em especial atravs de personagens coadjuvantes que ilustram uma poca inteira. assim tambm na imagem do trabalhador informal, um camel na esquina das ruas Trajano e Felipe Schmidt. A paisagem humana dos anos 1950 na Capital bem tipificada pelas pessoas que povoam a imagem, todos homens (da nica mulher, s se v a nuca), de vrias idades, com as indumentrias carregando as marcas do tempo.

    Nessa escala do particular rumo ao geral, o ltimo portfolio nos apresenta um grupo de imagens que representa o contexto em que o trabalho se dava. Aqui o observador aten-to consegue compreender um pouco mais do cosmos que Anacleto perscrutava com sua cmera. assim especialmente nas fotografias dos professores, seja na imagem no recreio (claramente um instantneo) ou na sada da escola (evidentemente arranjada). A escola despontava como o espao para o disciplinamento da fora de trabalho. assim tambm nos lugares sociais emergentes daquela poca: o supermercado, a indstria.

    O conjunto convida