Hermes introdução - hermes e a complexidade da comunicação 13.05.2011

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  • 1. Introduo
    Hermes e a complexidade da comunicao
    No cenrio do mundo globalizado, os dispositivos tecno-informacionais tm gerado vigorosas redes sociais. E o fenmeno da internet, particularmente, forjou uma nova realidade eletrnica, em que os cidados, conectados, interagem de maneira colaborativa, forjando laos afetivos, comerciais e polticos. Porm, a modernizao tecnolgica parece no ter trazido benefcios para todos; do lado de fora da sociedade digital esto os sem-micro, os sem banda larga, os outsiders do sculo 21.
    Por isso mesmo, defendemos um princpio tico-poltico e comunicacional que reconhece a incluso digital como um caminho para a cidadania; logo, constatamos que a grande batalha do nosso tempo se coloca em favor da democratizao da informao, facilidade de acesso, conexo gil e banda larga para todos.
    Basta observarmos a paisagem cotidiana para percebermos a efervescncia e potencialidade das redes sociais. Aps meio sculo de debate sobre a influncia da cultura de massa, a discusso pblica se volta para os meios ps-massivos, para as estratgias de empoderamento gerado pelas mdias colaborativas.
    H uma inteligncia coletiva conectada que perpassa o vasto conjunto das atividades socioculturais e tico-polticas cotidianas, abrangendo experincias to diversas como o correio eletrnico, o webjornalismo, o sistema bancrio informatizado, a medicina computadorizada, o voto eletrnico, o GPS, as enciclopdias, dicionrios e bibliotecas virtuais, teleconferncias e programas de ensino mediados pela tecnologia.
    Em pouco mais de uma dcada a nossa relao com o mundo social e ecolgico mudou radicalmente. Do presencial ao virtual (e vice-versa) estamos tecnologicamente e sensorialmente interligados atravs das redes geradas por meios digitais como o chat, o blog, o MSN, o Facebook, o Twitter e o YouTube, que teletransportam os coraes e mentes para outra dimenso da experincia individual e coletiva.
    Por meio dos protocolos informacionais e mediaes sociotecnolgicas, os cibercidados e as comunidades virtuais tm redefinido os rumos da cultura.
    Em casa, na rua, na esfera pblica e privada, nas atividades das empresas, instituies e organizaes, novos atores, linguagens, valores e procedimentos ganham vigncia: um novo ethos se instala pelo efeito da informatizao social.
    A partir da segunda metade do sculo 20, o campo das mdias passou a influir - efetivamente - nos modos de pensar, falar e agir dos atores sociais. Mas convm distinguir entre uma mdia corporativa que controla o potencial comunicativo dos grupos humanos, reduzindo-os narcsica condio de espectadores, e outra formao miditica, cuja dinmica interativa possibilita mediaes sociais afirmativas.
    Numa interpretao da cultura miditica, preciso separar o joio e o trigo: h um complexo miditico massivo controlado pelo sistema global de produo capitalista, meramente comercial e voltado - sobretudo - para o lucro e a rentabilidade. E existe, por outro lado, um complexo miditico ps-massivo que, tecnicamente, favorece as estratgias de socializao da informao, e sem descartar a importncia do mercado no campo das trocas materiais e simblicas, mais democrtico, e concilia a diversidade dos interesses e expectativas sociais, sendo eticamente mais inclusivo.
    O agenciamento das modalidades tecnossociais de comunicao, principalmente pela internet, abre caminho para um processo dialgico, cooperativo, compartilhado, que opera modificaes importantes nos cenrios econmicos, polticos e culturais.
    Jornais, revistas e vdeos do mundo inteiro, informaes ao vivo, em tempo real, a conexo simultnea entre os vrios setores de produo, distribuio e consumo, tudo isso atesta um surpreendente estado de convergncia de formas, contedos e linguagens, sinalizando conquistas e elevao da qualidade de vida simblica e material.
    Neste novo nicho comunicacional, os espectadores se tornam e-leitores, editores, cibercidados. Ou seja, ocorreu uma transformao profunda no contexto da experincia cultural. Antes dos meios digitais havia um ambiente scio-poltico, tico-comunicacional, orientado pelas regras da separao: de um lado, os autores, a produo massiva, a indstria cultural, e do outro, os espectadores, a recepo passiva, o consumo de massa; havia, ento, obstculos para a evoluo da inteligncia cognitiva e social.
    Hoje, o agenciamento coletivo dos usurios-cidados promove uma conjuno mais equilibrada: as redes sociais favorecem processos de veiculao, cognio e colaborao, assegurando a insero dos indivduos na economia de trocas informacionais, num contexto comunicativo mais democrtico e participativo.
    Todavia, o fenmeno da comunicao, que evolui em sintonia com o processo civilizatrio, no se efetiva num mar de guas tranqilas; pelo contrrio, opera num contexto minado pelas tenses e conflitos. Observe-se, a propsito, como a cada grande conflito mundial, novos meios surgiram gerando novas potncias comunicativas.
    Como adverte Benjamin, no ensaio Sobre o conceito de histria, inspirado em Freud, nunca houve um monumento da cultura que no fosse um monumento de barbrie (BENJAMIN, 1985, p.225). Ou como afirma McLuhan, no livro Os meios so as massagens, citando Whitehead, os maiores avanos na civilizao so processos que quase arrunam as sociedades em que ocorrem (MCLUHAN, 1969, p. 7).
    Vejam-se os exemplos das revolues francesa, industrial, russa, chinesa, cubana, que em nome da liberdade, emancipao e desenvolvimento, espalharam runas no planeta. Assim, na era da revoluo tecnolgica, instauram-se novos medos diante do caos nuclear, desastre ecolgico, controle estatal e corporativo atravs da tecnologia.
    Vrios pesquisadores tm contribudo para elucidar algumas verdades e mitos sobre o fenmeno tcnico. Nesse filo, Andr Lemos, um entusiasta da tecnologia, faz distino entre a cibercultura e a tecnocultura. Para Lemos, na modernidade, cria-se uma tecnocultura como um fenmeno tcnico expandindo-se para todos os domnios da vida social, sendo a preocupao principal procurar em todas as coisas o mtodo absolutamente mais eficiente (LEMOS, 2004, p. 50). E, em defesa do uso social, criativo e inteligente das tecnologias de comunicao, conclui: A cibercultura um exemplo forte dessa vida social que se quer presente e que tenta romper e desorganizar o deserto frio racional, objetivo e frio da tecnologia moderna. (LEMOS, 2004, p. 262).
    O ciberespao traz grandes desafios para o mundo da cincia. Na interface da Comunicao e Cultura, preciso encontrar um dispositivo terico-metodolgico, uma imagem conceitual, para enfrentarmos os paradoxos da comunicao, que se quer aberta, transparente, democrtica, mas atravessada por foras (econmicas, polticas, institucionais) que a impelem numa direo contrria. Todavia, se considerarmos os trs tempos da comunicao impressa, audiovisual e digital, percebemos que este terceiro estgio nos revela um potencial mais libertrio, socializante e agregador.
    A sabedoria de Hermes e o poder da comunicao em rede
    H milnios, muito antes de esse corpo de conhecimento que hoje chamamos de cincia existir, a relao dos seres humanos com o mundo era bem diferente. A natureza era respeitada e idolatrada, sendo a nica responsvel pela sobrevivncia de nossa espcie, que vivia basicamente da caa e de uma agricultura rudimentar. Na esperana de que as catstrofes naturais como os vulces, tempestades e furaces no destrussem as suas casas e plantaes, ou matassem os animais e os peixes, vrias culturas atriburam aspectos divinos natureza. (...) Os mitos so histrias que procuram viabilizar ou reafirmar sistemas de valores, que no s do sentido nossa existncia como tambm servem de instrumento no estudo de uma determinada cultura. (Muitos) exemplos mostram que o poder do mito no est em ele ser falso ou verdadeiro, mas em ser efetivo. (...) na cosmogonia moderna, encontramos alguns traos dessas idias antigas, memrias distantes talvez, que de alguma forma permaneceram vivas nos confins de nosso inconsciente, demonstrando uma profunda universalidade da criatividade humana.
    (GLEISER, A Dana do Universo, 1998, pag.20).
    Explorando os domnios da filosofia, antropologia, sociologia, psicanlise, histria e crtica literria, encontramos a imagem de Hermes, como o intrprete e mediador diante das grandes causas da humanidade. Homero, Petrnio, Dante, Shakespeare, Proust, Dostoievsky, entre outros arcanos do pensamento ocidental, atualizam a imagem de Hermes como fonte de leitura do grande livro do mundo. E, sendo o gestor eficaz no enfrentamento dos contrrios, pode ajudar a decifrarmos os paradoxos, contradies e complexidades da cultura na era da comunicao digital.
    Seguimos uma trilha epistemolgica que nos leva a compreender a origem e o significado do mito e do culto de Hermes, desde a antiguidade at os dias de hoje, sempre buscando contemplar o passado com os olhos do presente.
    Hermes Mercrio (na acepo latina); igualmente Hermes Trismegistos (em hibridao com o deus Thot, egpcio). Este est mais prximo do pensamento filosfico-cientfico, mstico-religioso, lgico-especulativo, e Mercrio est mais prximo do cogito matemtico, das cincias aplicadas, do saber pragmtico.
    Hermes tem a incumbncia de contemplar a vasta prosa universal e desvelar as teias de sentido que formam a complexidade da linguagem, texto, discurso e comunicao, como doxa (opinio vivenciada no senso comum), como techn (arte e saberes prticos), como epistme (saber especulativo, cincia, filosofia).
    Seguimos este simbolismo antropolgico, mais antigo que a prpria filosofia, que hoje, na idade mdia, no cessa de desvelar novas iluminaes e descobertas. E assim, contemplamos a diversidade de estratgias comunicativas, buscando o princpio do equilbrio, da justia e do discernimento.
    E nessa esteira, encontramos o esprito de Hermes, o mediador, o juiz, senhor da lgica, do clculo matemtico e ao mesmo tempo, o deus das mltiplas interpretaes religiosas, filos