Monteiro lobato -_A_reforma_da_natureza

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Ciep 122 Ermezinda D. NeccoTurma 302 - 2011Tema: Monteiro Lobato

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  • 1. Monteiro LobatoA REFORMA DA NATUREZA MONTEIRO LOBATO

2. A REFORMA DA NATUREZA - MONTEIRO LOBATOCAPTULO 1A Reforma da NaturezaQuando a guerra da Europa terminou, os ditadores, reis e presidentes cuidaram da discusso dapaz. Reuniram-se num campo aberto, sob uma grande barraca de pano, porque j no havia cidades: todashaviam sido arrasadas plos bombardeios areos. E puseram-se a discutir, mas por mais que discutissemno saa paz nenhuma. Parecia a continuao da guerra, com palavres em vez de granadas e perdigotosem vez de balas de fuzil. Foi ento que o Rei Carol da Romnia se levantou e disse: - Meus senhores, a paz no sai porque somos todos aqui representantes de pases e cada um dens puxa a brasa para a sua sardinha. Ora a brasa uma s e as sardinhas so muitas. Ainda que discutamos durante um sculo, no haver acordo possvel. O meio de arrumarmos asituao convidarmos para esta conferncia alguns representantes da humanidade. S essas criaturaspodero propor uma paz que satisfazendo a toda a humanidade tambm satisfaa aos povos, porque ahumanidade um todo do qual os povos so as partes. Ou melhor: a humanidade uma laranja da qual os povos so os gomos. Essas palavras profundamente sbias muito impressionaram queles homens. Mas onde encontrarcriaturas que representassem a humanidade e no viessem com as mesquinharias das que s representampovos, isto , gomos da humanidade? O Rei Oarol, depois de cochichar com o General de Gaulle, prosseguiu no seu discurso. - S conheo - disse ele - duas criaturas em condies de representar a humanidade, porque so asmais humanas do mundo e tambm so grandes estadistas. A pequena repblica que elas governamsempre nadou na maior felicidade. Mussolini, enciumado, levantou o queixo. - Quem so essas maravilhas! - Dona Benta e tia Nastcia - respondeu o Rei Coral - as duas respeitveis matronas que governam oStio do Pica-pau Amarelo, l na Amrica do Sul. Proponho que a Conferncia mande buscar as duasmaravilhas para que nos ensinem o segredo de bem governar os povos. - Muito bem! - aprovou o Duque de Win-dsor, que era o representante dos ingleses. - A Duquesa meleu a histria desse maravilhoso pequeno pas, um verdadeiro paraso na terra, e tambm estou convencidode que unicamente por meio da sabedoria de Dona Benta e do bom-senso de tia Nastcia o mundo poderser consertado. No dia em que o nosso planeta ficar inteirinho como o stio, no s teremos paz eternacomo a mais perfeita felicidade. Os grandes ditadores e os outros chefes da Europa nada sabiam do stio. Admiraram-se daquelaspalavras e pediram informaes. O Duque de Windsor comeou a contar, desde o comeo, as famosasbrincadeiras de Narizinho, Pedrinho e Emlia no Pica-pau Amarelo. O interesse foi tanto que pouco depoistodos aqueles homens estavam sentados no cho, em redor do Duque, ouvindo as histrias e lembrando-se com saudades do bom tempo em que haviam sido crianas e, em vez de matar gente com canhes ebombas, brincavam na maior alegria de "esconde-esconde" e " chicote-queimado. Comoveram-se e aprovaram a proposta do Rei Carol. Eis explicada a razo do convite a Dona Benta, tia Nastcia e o Visconde de Sabugosa para iremrepresentar a Humanidade e o Bom-Senso na Conferncia da Paz de 1945. Com grande naturalidade Dona Benta aceitou o convite e deliberou seguir com todo o seupessoalzinho - menos a Emlia. Emlia recusou-se a partir porque estava com a idia que lhe veio pelaprimeira vez quando ouviu a fbula do Reformador da Natureza,. Fazia j meses que Dona Benta haviacontado essa fbula assim: O Reformador da Natureza Amrico Pisca-Pisca tinha o hbito de botar defeito em todas as coisas.O mundo para ele estava errado e a Natureza s fazia tolices. - Tolices, Amrico? - Pois ento?!... Aqui neste pomar voc tem a prova disso. L est aquela jabuticabeira enormesustendo frutas pequeninas e mais adiante vejo uma colossal abbora presa ao caule duma planta rasteira. No era lgico que fosse justamente o contrrio? Se as coisas tivessem de ser reorganizadas pormim, eu trocaria as bolas - punha as jabuticabas na aboboreira e as abboras na jabuticabeira. No achaque tenho razo? E assim discorrendo Amrico provou que tudo estava errado e s ele era capaz de dispor cominteligncia o mundo. 2 3. A REFORMA DA NATUREZA - MONTEIRO LOBATO- Mas o melhor - concluiu - no pensar nisso e tirar uma soneca sombra destas rvores, noacha? E Amrico Pisca-Pisca, pisca-piscando que no acabava mais, estirou-se de papo para cima sombra da jabuticabeira. Dormiu. Dormiu e sonhou. Sonhou com o mundo novo, inteirinho reformado pelas suas mos. Quebeleza! De repente, porm, no melhor do sonho, plaf! uma jabuticaba cai do galho bem em cima do seunariz. Amrico despertou de um pulo. Piscou, piscou. Meditou sobre o caso e afinal reconheceu que omundo no estava to mal feito como ele dizia. E l se foi para casa, refletindo: - Que espiga! ... Pois no que se o mundo tivesse sido reformado por mim a primeira vtima teriasido eu mesmo? Eu, Amrico Pisca- Pisca, morto pela abbora por mim posta em lugar da jabuticaba?Hum! ... Deixemo-nos de reformas. Fique tudo como est que est tudo muito bom. E Pisca-Pisca l continuou a piscar pela vida em fora, mas desde ento perdeu a cisma de corrigir aNatureza. Ao ouvirem Dona Benta contar essa fbula todos concordaram com a moralidade, menos Emlia. - Sempre achei a Natureza errada - disse ela - e depois de ouvir a histria do Amrico Pisca-Pisca,acho-a mais errada ainda. Pois no um erro fazer um sujeito pisca-piscar? Para que tanto "pisco"? Tudoque demais est errado. E quanto mais eu "estudo a Natureza" mais vejo erros. Para que tanto beio emtia Nastcia? Por que dois chifres na frente das vacas e nenhum atrs? Os inimigos atacam mais por trsdo que pela frente. E tudo assim. Erradssimo. Eu, se fosse reformar o mundo, deixava tudo um en canto,e comeava reformando essa fbula e esse Amrico Pisca-Pisca. A discusso foi longe naquele dia; todos se puseram contra a reforma, mas a teimosa criaturinha nocedeu. Berrou que tudo estava errado e que ela havia de reformar a Natureza. - Quando, Marquesa? - perguntou ironicamente Narizinho. Da primeira vez em que me pilhar aqui sozinha.3 4. A REFORMA DA NATUREZA - MONTEIRO LOBATOCAPTULO 2Aparece a REssa ocasio havia chegado. Ao saber que Dona Benta recebera convite dos chefes da Europa parair arrumar o pobre continente, Emlia deu um pulo de gosto e, j com a idia da reforma da Natureza nacabea, declarou que no ia. - No vai, como, Emlia? - disse Dona Benta. - Acha que posso deixar voc sozinha aqui? Emlia disfarou a verdadeira razo de ficar. Declarou que no ia para evitar escndalos naConferncia da Paz. - Sim - disse ela - se eu for no para ficar dormindo no hotel, no! Tambm hei de querer tomarparte na Conferncia - e tenho umas tais verdades a dizer aos tais ditadores que a senhora nem imagina. Efatalmente sai "fecha". Vira escndalo. isso que quero evitar. Dona Benta ficou pensativa, e foi cozinha consultar tia Nastcia. Encontrou-a areando o tacho para fazer goiabada. - Nastcia - disse ela - Emlia encrencou. Quer ficar. Diz que se for Conferncia sai fecha com os ditadores e haver um grande escndalo internacional- e estou com medo disso. Tenho horror a escndalos. - E sai fecha mesmo, Sinh. -Depois daquela histria da Chave do Tamanho, Emlia ficou prepotentedemais. No atura nada. D escndalo mesmo, Sinh, e at capaz de estragar o nosso trabalho por l.Pedrinho me contou que aquilo nas Europas est pior que quarto de badulaque quando a gente procurauma coisa e no acha. Tudo de perna para o ar, disse ele. Tudo sem cabea, espandongado. A nossaserviceira vai ser grande, Sinh, e com a Emlia atrapalhando, ento, que no fazemos coisa que preste.Minha opinio que ela fique. - Mas ficar sozinha aqui, Nastcia? - Fica com o Conselheiro e o Quindim - que mais a senhora quer? Juzo eles tm para dar e vender -e ainda sobra. Eu converso com o Conselheiro e explico tudo. . Dona Benta pensou, pensou e afinal se convenceu de que tia Nastcia tinha razo. Controlada peloConselheiro e defendida pelo Quindim, que mal havia em Emlia ficar? E Emlia ficou. Narizinho, porm, que era a que mais conhecia a Emlia, no deu crdito quele pretexto de no irpara no dar escndalo. - Isso histria dela, vov! Emlia at gosta de escndalo. Quer ficar sozinha eu sei para que - parasapecar vontade, fazer alguma coisa ainda mais maluca do que aquela da chave do tamanho. Eu, sefosse a senhora, no a deixava aqui sozinha. Mas Dona Benta era a democracia em pessoa: jamais abusou da sua autoridade para oprimir algum. Todos eram livres no stio, e justamente poressa razo nadavam num verdadeiro mar de felicidade. Emlia recusava-se a ir? Pois ento que no fosse.Como for-la a ir? Com que direito? E que adiantaria ir a contragosto, emburrada? E Emlia teve licenapara ficar. Isso foi na prpria manh da vinda do convite. Um ms depois chegava a comisso incumbida delevar Dona Benta. Essa comisso veio no nico navio ainda existente no mundo. Todos os outros estavam repousando no fundo dos mares, vtimas dos submarinos e torpedosareos. Dona Benta, arrumou as malas, vestiu o seu vestido de gorgoro amarelo do tempo de D. Pedro II,mandou que tia Nastcia pusesse a saia nova de pintinhas verdes e l foram as duas para bordo do navio.Pedrinho e Narizinho acompanhavam a ilustre vov na qualidade de netos; e o Visconde, com uma gordapasta de cincia debaixo do brao, seguia na qualidade de Consultor Cientfico. Emlia, o Conselheiro e Quindim estiveram presentes ao bota-fora na porteira, e ouviram as ltimasrecomendaes de tia Nastcia sobre as galinhas, os porquinhos de ceva e uma ninhada de pintos que jestavam bicando. - No se ponham a ajudar os pintinhos a sair da casca seno eles morrem - disse ela. - Pinto sabemuito bem se arrumar sozinho. E no esqueam de molhar as mudinhas de couve l na horta. 4 5. A REFORMA DA NATUREZA - MONTEIRO LOBATO Ouvindo aquelas recomendaes to sensatas, os homens da comisso entreolharam-se, comoquem diz: - "Com pessoas de to belo esprito prtico, e to cuidadosas de tudo, a Confernc