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História de Roma Vol. I - Das origens à morte de César

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    or be accompanied by a notice to this effect.

    Histria de Roma Antiga volume I: das origens morte de Csar

    Author(s: Brando, Jos Lus (coord.); Oliveira, Francisco de (coord.)

    Published by: Imprensa da Universidade de Coimbra

    Persistent URL: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/36908

    DOI: DOI:http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0954-6

    Accessed : 16-Feb-2016 18:34:12

    digitalis.uc.ptpombalina.uc.pt

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    IMPRENSA DAUNIVERSIDADEDE COIMBRA

    COIMBRAUNIVERSITYPRESS

    HISTRIA D

    DAS ORIGENS MORTE DE CSAR

    JOS LUS BRANDOFRANCISCO DE OLIVEIRA(COORD.)

    ANTIG

    RM

    VOLUME I

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    E N S I N O

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    EDIO

    Imprensa da Univers idade de CoimbraEmail: [email protected]

    URL: http//www.uc.pt/imprensa_ucVendas on line : ht tp :/ /l iv ra riadaimprensa .uc.p t

    COORDENAOEDITORIAL

    Imprensa da Univers idade de Coimbra

    CONCEOGRFICA

    Antnio Barros

    INFOGRAFIA

    Mickael Silva

    EXECU OGRFICA

    RealBase

    ISBN

    978-989-26-0959-1

    ISBN DIGITAL

    978-989-26-0954-6

    DOI

    http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0954-6

    DEPSITOLEGAL

    394916/15

    JUNHO2015, IMPRENSADAUNIVERSIDADEDE COIMBRA

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    S U M R I O

    Prefcio ............................................................................................................ 11

    1. Culturas e povos primitivos de Itlia (Amlcar Guerra) ........................... 13

    1. Contextos histrico-culturais que enquadram a fundao de Roma ....... 13

    2. Breve panorama das populaes da Itlia proto-histrica ...................... 16

    2. As origens da urbe e o perodo da monarquia

    (Delfim Leo & Jos Lus Brando) .................................................................. 27

    1. As origens de Roma ................................................................................ 27

    1.1. Breve sntese da tradio literria .................................................. 27

    1.2. Variantes e peculiaridades da tradio ............................................ 29

    1.3. Anlise crtica das lendas fundacionais ........................................... 31

    1.4. Concluses sobre as lendas da fundao ........................................ 35

    2. Perodo da Monarquia............................................................................. 37

    2.1. Caratersticas e evoluo da Monarquia romana ............................. 39

    2.2. A cronologia tradicional e os dados da arqueologia ....................... 442.3. Instituies da poca monrquica ................................................... 46

    3. Da Monarquia Repblica ( Jos Lus Brando)........................................ 53

    1. A tradio sobre o fim da monarquia ..................................................... 54

    2. Quem era Lars Porsena? .......................................................................... 56

    3. Metamorfose dos rgos do governo ...................................................... 59

    4. O direito de apelo .................................................................................. 62

    5. Os fastie a sagrao do templo de Jpiter do Capitlio ........................ 63

    6. Etruscos .................................................................................................. 66

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    6

    4. Dos conflitos de ordens ao Estado patrcio-plebeu

    (Nuno S. Rodrigues) ......................................................................................... 69

    1. Os patres ... ... ..... ... ... ..... ... ..... ... ..... ... ..... ... ... ..... ... ..... ... ..... ... ..... ... ..... ... ... . 73

    2. A plebs....................................................................................................783. O confronto e a convivncia patrcio-plebeia ....................................... 84

    4. O Estado patrcio-plebeu ........................................................................ 90

    5. As magistraturas ...................................................................................... 93

    5. Expanso na Itlia ....................................................................................103

    5.1. Da Liga Latina ao saque de Roma

    (Fbio Faversani & Fbio D. Joly) ............... ................ ............... ...........103Introduo ............................................................................................104

    A liga latina e o foedus Cassianum ..... ... ..... ... ... ..... ... ..... ... ..... ... ..... ... .. 105

    2. Colnias latinas ................................................................................110

    3. Guerras com Sabinos, quos e Volscos ................ ............... ..............111

    4. Conquista de Veios ...........................................................................115

    5. A invaso gaulesa .............................................................................118

    6. A recuperao de Roma ............. ................ ................ ............... ........121

    Concluso .............................................................................................123

    5.2. Das Guerras Samnitas ao controlo da Itlia (Adriaan De Man)...........127

    1. Os Samnitas ......................................................................................128

    2. A primeira Guerra Samnita (343-341)

    e a Guerra Latina (340-338) .............................................................129

    3. A Segunda Guerra Samnita (326-304) ...............................................131

    4. Do fim da Segunda Terceira Guerra Samnita (298-290) .................134

    5. A Guerra Prrica (280-275) ................................................................135

    6. Resultados da conquista de Itlia .....................................................140

    6. Expanso no Mediterrneo.......................................................................145

    6.1. As Guerras Pnicas ( Joo Gouveia Monteiro) .....................................145

    1. O cenrio ..........................................................................................145

    2. A Primeira Guerra Pnica (264-241 a C.) .........................................149

    3. A Segunda Guerra Pnica (218-201 a. C.) .............. ................ ...........165

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    4. A Terceira Guerra Pnica (149-146 a. C.) .........................................188

    5. Comentrio final ...............................................................................197

    6.2. O Oriente Mediterrnico e a Hispnia(Amlcar Guerra) ....................201

    1. Guerras Ilricas .................................................................................2032. Guerras Macednicas e anexao da Grcia .....................................206

    3. A conquista da Hispnia ............... ................ ............... ................ .....219

    7. Consequncias da expanso romana(Francisco Oliveira) .......................233

    1. Prembulo: conceito de imprio e imperialismo....................................233

    2. Consequncias da expanso:

    ideolgicas, econmicas, sociais e polticas, culturais ..........................241

    2.1 Consequncias ideolgicas: o imperialismo romano

    e os seus instrumentos e contingncias .........................................242

    2.1.1 A hegemonia de Roma no Lcio e na Itlia ............................242

    2.1.2. Cidadania Romana como instrumento de integrao .............244

    2.1.3 Um imprio ecumnico

    no seguimento das Guerras Pnicas ...........................................245

    2.2. Consequncias econmicas da expanso .......................................249

    2.2.1. Aumento do trabalho escravo ................................................249

    2.2.2. Incremento do comrcio, indstria e

    artesanato e criao de sistema monetrio .................................251

    2.2.3 Criao de uma agricultura virada para o lucro .....................253

    2.2.4. O enorme afluxo de riqueza e o capitalismo romano ............255

    2.3 Consequncias sociais e polticas ..................................................258

    2.3.1. Reforo do aparelho militar ...................................................258

    2.3.2. Incremento do papel do senado ............................................260

    2.3.3. Ascenso da ordem equestre (equites) ...................................261

    2.3.4. Pauperizao das camadas mais baixas da sociedade ............262

    2.3.5. Emancipao feminina ...........................................................263

    2.4 Consequncias culturais: helenismo e anti-helenismo em Roma .......265

    2.4.1. Perspetivas de anlise terica ................................................265

    2.4.2. Domnios da helenizao da cultura romana .........................273

    2.4.2.1. Vida quotidiana (alimentao, higiene e adornos) .........273

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    2.4.2.2. Arquitetura, habitao,

    decorao, mobilirio e baixela ................ ............... ...........276

    2.4.2.3. Cincia e educao .......................................................281

    2.4.2.4. A Literatura Latina na sua gnese .................................2862.4.2.5. A filosofia em Roma ............... ................ ............... ......295

    2.4.2.6. Religio .........................................................................299

    3. Concluses .............................................................................................301

    8. Conflitos civis em Roma: dos Gracos a Sula (Vasco Mantas) .............. ....313

    1. A Repblica e os homens ......................................................................314

    2. Optimates e populares ... ... ..... ... ..... ... ..... ... ..... ... ... ..... ... ..... ... ..... ... ..... ... 320

    3. Os Gracos ..............................................................................................323

    4. Os consulados de Gaio Mrio .............. ................ ................ ............... ...331

    5. Guerra Social .........................................................................................337

    6. Conflitos entre Mrio e Sula ..................................................................343

    7. Ditadura de Sula ....................................................................................347

    8. Sertrio e os Lusitanos ..........................................................................352

    9. De Sula ao 1 triunvirato:

    o legado de Crasso e Pompeio Magno (Rui Morais) ....................................363

    1. Os antecedentes herdados do perodo de Sula ......................................363

    2. A ameaa na Hispnia: a guerra de Quinto Sertrio ..............................367

    3. A rebelio dos escravos conduzida por Esprtaco .................................370

    4. O 1 consulado de Pompeio e Crasso ............... ................ ............... ......3735. O teatro das campanhas de Pompeio no Oriente:

    a luta contra a pirataria e Mitridates VI ................................................375

    6. A conspirao de Catilina ......................................................................379

    7. O regresso de Pompeio e a ascenso de Jlio Csar .............................381

    8. Ocaso de Crasso e Pompeio ..................................................................383

    10. A primazia de Csar:

    do 1 triunvirato aos idos de maro ( Jos Lus Brando) .........................389

    1. A aliana entre Pompeio, Csar e Crasso ............... ................ ............... .391

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    2. O consulado de Csar .............. ............... ................ ................ ............... 393

    3. O proconsulado: a Guerra da Glia .......................................................395

    4. A guerra civil .........................................................................................402

    5. A ditadura medidas ............... ............... ................ ................ ............... 4156. Os idos de maro: causas e desenlace .............. ................ ............... ......418

    7. Breve panorama literrio e cultural na poca de Csar .........................422

    11. Sntese sobre a histria da ditadura em Roma (Jos Lus Brando).......429

    1. Controvrsias sobre a origem da ditadura .............................................430

    2. Funes dos ditadores e evoluo da magistratura................................432

    3. Carter das ditaduras de Sula e de Csar ..............................................435

    ndices

    ndice de nomes e conceitos .....................................................................441

    ndice de passos ........................................................................................471

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    P R E F C I O

    O presente volume integra-se numa coleo que visa facultar aos alunos

    universitrios, bem como ao pblico interessado pela antiguidade clssi-

    ca, um manual em lngua portuguesa, atualizado e tanto quanto possvel

    completo, para a Histria de Roma Antiga, de forma a congregar a reflexo

    sobre as informaes dos autores antigos e modernos e sobre os dados

    da arqueologia. Pretende-se, pois, colocar os leitores perante o estado

    da questo de cada tema e dot-los dos instrumentos bibliogrficos para

    um eventual aprofundamento das matrias que lhes despertem interesse.

    A propenso didtica est patente na conceo da estrutura. Cada

    captulo dotado de um pequeno sumrio inicial, de uma cronologia no

    final e de uma bibliografia especfica.

    Trata-se de um trabalho de colaborao que produto do dilogo en-

    tre membros da unidade de investigao Centro de Estudos Clssicos e

    Humansticos e especialistas de Histria e Arqueologia romanas de outras

    instituies. Integra, por isso, contributos de autores oriundos de vrias

    universidades portuguesas, mas tambm do Brasil colaborao transa-

    tlntica consideravelmente alargada no volume que se seguir.

    Este I volume abarca um perodo que vai das origens, incluindo culturas

    pr-existentes e povos prerromanos, at morte de Jlio Csar. Est, como

    se depreende, em fase de edio o volume II, que vai do principado de

    Augusto dissoluo do Imprio do Ocidente. E um terceiro j se anun-

    cia, sobre a poca Bizantina, este com uma coordenao editorial prpria.

    A coordenao :Francisco de Oliveira

    Jos Lus Brando

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    1 . C U L T U R A S E P O V O S P R I M I T I V O S D E IT L I A

    Amlcar Guerra

    Universidade de Lisboa

    Sumrio: Contextos histrico-culturais que antecedem a fundao de

    Roma: culturas lacial e vilanovense. Breve panorama das popu-

    laes da Itlia proto-histrica e respectivas lnguas e dialetos.

    Observaes sobre o panorama cultural itlico coetneo dessa

    fase primordial da Urbe. Diversidade tnica e lingustica daspopulaes que habitam esse territrio e multiplicidade de

    entidades que por via da implantao colonial ou do comr-

    cio se relacionaram com a Pennsula Itlica nesse perodo.

    1. Contextos histrico-culturais que enquadram a fundao de Roma.

    A cultura lacial1

    O nascimento de Roma, segundo a data tradicional, ocorre num

    perodo de pleno desenvolvimento do que se conhece como a cultura

    lacial. No perodo subsequente ao Bronze Final, na passagem do II ao

    I milnio, desenha-se no Lcio um quadro complexo, resultado de uma

    1 O adjectivo italiano "laziale", usado para qualificar esta realidade cultural, foi adoptadodiretamente em outras lnguas como o francs "civilisation / culture latiale", o espanhol"cultura lacial" ou o ingls "latial culture / civilisation", razo pela qual o mantemos a formacorrespondente em portugus.

    DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0954-6_1

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    confluncia de tradies apennicas e locais com elementos exgenos

    mais ou menos evidentes, entre os quais se destacam, para alm dos

    vestgios orientalizantes mais tardios (sc. VIII-VII), as influncias

    setentrionais da cultura vilanovense e os elementos caratersticos dachamada Fossakulturde provenincia meridional. O influxo desta l-

    tima sente-se particularmente num aspecto muito marcante do ritual

    funerrio, conduzindo, a partir de meados do sc. IX, ao progressivo

    desenvolvimento de prticas de inumao, num contexto em que era

    habitual incinerar os defuntos2. As sepulturas retangulares cavadas na

    terra ou no tufo integravam por vezes um caixo em madeira associado

    a uma panplia de objetos, evidenciando prticas que implicam sacrif-cios animais. Tumulaes enquadrveis neste mbito encontram-se, em

    Roma, nas mais antigas necrpoles do Esquilino e no forum, junto ao

    templo de Antonino e Faustina, mas tambm em outras localidades do

    Lcio, como em Tivoli ou na "Hosteria dell'Osa", em Gbios3.

    Denotando uma diversificao dos contactos culturais deste perodo,

    o territrio do Lcio evidencia igualmente os influxos apennicos, em

    particular dos seus vizinhos sabinos4. Recorde-se que, segundo a tradi-o, estes teriam dominado o Quirinal, o Capitlio e opagusTiberino5e

    o seu chefe, Tito Tcio, teria sido mesmo corresponsvel, com Rmulo,

    pela fundao da cidade6. Provavelmente a estas populaes do interior

    se devem os vestgios mais conservadores que denunciam a perdurao

    e reelaborao de elementos que remontam ao Bronze Inicial.

    A cultura vilanovense7

    Durante o perodo das origens de Roma, estendem-se por uma parte

    considervel do territrio itlico, incluindo a zona costeira do Lcio,

    2 Peroni 1981 ; Quilici 1979 235-236.3 Quilici 1979 237; Peroni 1989 512-517.4

    Quilici 1979 238-240; Carandini 1997 343-344.5 Carandini 1997 341.6 Poucet 1967 293-327.7 Sobre este aspecto, em geral, v. Bartoloni 2002.

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    os influxos da chamada cultura vilanovense8, nome que deriva do stio

    paradigmtico de Villanova, situado junto a Bolonha, cuja necrpole foi

    inicialmente escavada por Giovanni Gozzadini, aps 1853.

    O seu horizonte cultural desenvolve-se a partir do sc. IX a. C. eapresenta-se como continuador de uma tradio que remonta ao Bronze

    Final, conhecida como o "protovilanovense". Esta ltima caraterizada

    pela sua associao com os campos de urnas, por prticas funerrias de

    incinerao, pelo depsito dos restos em urnas de forma e decorao cara-

    tersticas e pelas amplas evidncias de uma apurada metalurgia do bronze.

    A cultura vilanovense, que lhe d seguimento, alarga o seu mbito

    de influncia, estando os seus restos materiais bem documentados emvrias regies da Pennsula Itlica: a parte meridional da plancie do P;

    toda a rea da Toscana, especialmente a parte meridional; Lcio, incluin-

    do a prpria Roma; Campnia (especialmente Cpua) e rea salernitana;

    alguns territrios da vertente adritica, em particular nas Marcas.

    A sua cultura material carateriza-se, em primeiro lugar por enterra-

    mentos nos quais predomina claramente, nas primeiras fases, o ritual de

    incinerao e depsito em fossa de urnas funerrias de fabrico manual,bitroncocnicas, cobertas com uma taa, invertida, nas quais, para alm

    dos restos sseos se acumula um esplio variado. Com estas se depositam

    as caratersticas lminas de barbear em bronze, fbulas (em particular

    as de arco serpenteado) e diversos adornos. Progressivamente vo-se

    afirmando os rituais funerrios de inumao. Em fases mais tardias abun-

    dam as vasilhas em bronze, algumas particularmente vistosas pela sua

    decorao, como a stula de Certosa.Na rea da Roma antiga e no Lcio a presena de vestgios relacio-

    nveis com a cultura vilanovense patenteia-se em enterramentos nas

    referidas urnas cinerrias bicnicas de decorao geomtrica, mas de

    motivos bastante variados, alguns deles tpicos desta regio, as conheci-

    das urnas em forma de cabana, para alm das fbulas "de sanguessuga",

    mais difundidas neste contexto.

    8Traduz-se, desta forma, a designao italiana "cultura villanoviana", por vezes tambm"civilt villanoviana".

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    Todos estes elementos assinalam uma dupla realidade: o impacto que

    essas influncias de ampla difuso denotam nesta rea e, por outro, o

    facies peculiar que podem assumir no mbito do Lcio.

    2. Breve panorama das populaes da Itlia proto-histrica

    O quadro das entidades tnicas9da Pennsula Itlica nos incios do I

    milnio a. C. bastante diversificado, sendo algo arriscado proporcionar,

    de forma muito sumria, um panorama desta realidade muito complexa.

    Referem-se, no entanto, as mais importantes, tratando brevemente asquestes do seu mbito territorial, da sua identidade cultural e lingustica.

    Lgures

    No panorama das populaes antigas da Pennsula Itlica, os Lgures10

    constituem um dos casos mais problemticos. Aparecem na literatura clssica

    como um povo de antiqussimas origens e essa mesma ideia manteve-se na

    tradio historiogrfica. Embora a sua distribuio geogrfica se centre, emperodo histrico, no noroeste da Itlia e sudeste de Frana, atriburam-lhes,

    em momentos anteriores, muito maior amplitude, associando-os a um fundo

    lingustico constitudo especialmente por alguns topnimos e etnnimos.

    Esses elementos, nem sempre fiveis, apresentariam uma larga disperso

    pelo espao mediterrneo e, inclusivamente, pelas costas atlnticas. Na rea-

    lidade, os reduzidos elementos atestados na regio que se lhes atribui no

    permitem decidir sobre a posio dessa lngua no quadro global.A designao de "lgure" , por vezes, atribuda a uma outra realidade

    mais conhecida como lepntico11. A existncia, na vertente itlica do

    arco alpino, de populaes falantes de uma lngua cltica encontra-se

    atestada desde fases mais precoces, num conjunto de inscries grafadas

    no "alfabeto de Lugano", de ascendncia etrusca. De facto, pacfico que

    9 Sobre diferentes povos itlicos v. Pugliese Carrateli ed. 1988; Idem, 1986; Ampolo 1989.10 Sobre esta entidade v. Pugliese Carratelli ed.1988 159-259.11 Para esta lngua e as suas inscries v. Lejeune 1988; Prosdocimi ed. 1978 157-204.

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    corresponde a uma lngua cltica continental, documentada num conjunto

    de epgrafes dispersas numa ampla rea que tem como centro geogrfico

    os lagos Maggiore e de Como.

    Rticos

    Ao contrrio do que acontece com o lgure, no restam dvidas sobre a

    natureza do rtico12, uma lngua documentada em cerca de 200 inscries

    num alfabeto similar ao ventico e, tal como ele, filiado no etrusco. As

    epgrafes distribuem-se pela zona pr-alpina italiana e pelo arco alpino

    oriental, abarcando todo o Tirol e Trentino - Alto dige, mas estendendo-

    -se at ao Vneto, de Verona a Pdua13

    . Estes documentos atestam umarealidade que se tem aproximado igualmente da lngua falada pelos

    Etruscos14, confirmando-se, deste modo, uma filiao que j os autores

    antigos tinham assinalado15.

    Etruscos16

    A origem dos Etruscos constitui, desde a antiguidade, um tema

    controverso. As trs principais teorias que em boa parte radicam nasconsideraes dos autores clssicos apresentam-se aos olhos da histo-

    riografia com um problema de fundo: a impossibilidade de optar com

    fundamento por uma das diferentes hipteses. Na realidade, a questo

    principal no deve situar-se nesse plano, mas em perceber o processo

    de desenvolvimento cultural das comunidades que desde o Bronze Final

    se identificam como etruscas, que a arqueologia moderna associa com a

    cultura vilanovense ou com o seu antecedente.Os Etruscos, em torno do quais se desenvolveu em determinado

    perodo a ideia de possurem uma lngua to misteriosa quo proble-

    12 Um corpus das inscries em Mancini 2009-2010.13 Morandi 1999 36.14 Rix 1998 prope a designao de "lnguas tirsnicas" para designar um grupo cons-

    titudo pelo etrusco, o rtico e a lngua de Lemnos. G. Facchetti 2002 alarga este grupo a

    algumas lnguas antigas do Egeu (minoico, eteocretense), de Chipre e da Palestina (filisteu).15V. g. Plin. Nat.3.133 - /.../ considera-se que os Rcios so descendentes dos Etruscos

    /... /. Esta mesma ideia se encontra em outros aa. clssicos v. Morandi ibid.16 Sobre este povo, em geral, v. Pugliese Carratelli ed. 1986.

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    18

    mtica constituem, sem dvida, a mais notvel das entidades itlicas

    que integram o grupo dos que no possuem uma lngua indo-europeia.

    Graas ao nmero elevado de textos (mais de 9000) e s possibilidades

    de confrontao com outras realidades conhecidas perdeu esse carterenigmtico, permitindo a sua descrio parcial, nos planos morfolgico,

    sinttico e semntico17. Torna-se, por isso, vivel uma compreenso, pelo

    menos parcial, do contedos dos documentos que a atestam.

    Para alm do etrusco, um antigo falar no integrvel no domnio indo-

    -europeu atestar-se-a na rea setentrional do Piceno, conhecido como

    "lngua picena setentrional" ou "da estela de Novilara" e a respeito do

    qual a informao se revela ainda muito escassa e problemtica.

    Messpios

    Uma outra componente muito particular das populaes itlicas ocupa

    a parte meridional das costas adriticas, da qual fazem parte os Messpios

    ou Iapgios18que ocupamgrosso modo o que ser a atual regio da Aplia.

    Na sua aceo mais ampla, registada nas fontes clssicas (Plb. 3.88; Th.

    7.33), o termo abarca Dunios, Peuccios19e Iapgios, na ordenao denorte para sul, cabendo a estes ltimos, tambm chamados Messpios,

    em sentido estrito, o extremo da pennsula.

    Atribui-se-lhes uma origem ilrica, tendo especialmente em conta as fontes

    clssicas e o que se conhece da sua lngua, o messpico20. Em sentido mais

    restrito, a pennsula salentina, onde se situa a maioria dos seus vestgios21.

    A documentao que lhe diz respeito consiste essencialmente numas

    centenas de inscries que adotam um alfabeto afiliado no grego, emespecial numa variante lacnico-tarentina22, com ligeiras adaptaes que

    17 Da extensa bibliografia sobre a lngua, pode ver-se uma apresentao geral emBonfante - Bonfante 2002.

    18 Esta identidade reconhecida em Str. 6.3.1; 6.3.5, mas contrariada em Plb. 2.24.10.19 Os vestgios correspondentes especificamente aos Dunios e Peuccios, mas so raros

    e mais tardios (De Simone 1979 105-106).20v. De Simone; Marchesini 2002; De Simone 1992.21 De Simone 1979 105.22 De Simone 1972 177.

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    se traduziram essencialmente na introduo de um nmero reduzido

    de novos signos, destinados a suprir as carncias do sistema de signos.

    Cronologicamente, os materiais epigrficos abarcam um arco cronolgico

    que vai dos finais do sc. VI ao II a. C.Os nossos conhecimentos sobre a sua lngua so muito limitados, uma

    vez que restringindos quase exclusivamente a antropnimos reportados

    sobretudo por inscries funerrias ou grafitos em objetos cermicos.

    Os elementos disponveis tm levado alguns autores a postularem a

    integrao desta lngua indo-europeia no grupo ilrico. No entanto,

    as fortes incertezas a respeito das realidades lingusticas, designadas

    como ilricas, do outro lado do Adritico recomendam que no se atribuao messpio a uma famlia concreta.

    Vnetos

    Na parte setentrional da costa adritica regista-se a presena de popu-

    laes venticas23. A tradio clssica atribui-lhes uma origem exgena,

    conjecturando hipteses de migraes a partir de vrias regies da sia

    Menor ou da regio ilrica24, algumas das quais obtiveram crdito dealguma historiografia moderna. No entanto, o mais provvel que cor-

    respondam a populaes h muito instaladas no territrio itlico, pelo

    menos desde a Idade do Bronze. Para tal concluso contribuiu a natu-

    reza da sua lngua, o ventico25, uma lngua indo-europeia antiga que

    se costuma integrar no grupo itlico26. Alguns autores, todavia, embora

    reconheam as afinidades com as lnguas antigas dessa famlia, consi-

    deram no existir dados que permitam sustentar a sua integrao nela.A documentao pertinente corresponde em particular a inscries,

    atestadas inicialmente numa variante setentrional do alfabeto etrusco27e

    23As questes de cultura e lngua podem ver-se em Fogolari - Prosdocimi 1987.24 Nomeadamente em Plb. 2.17.5; Str. 4.1.1.; 12.3.8; Plin. Nat. 3.130; Liv. 1.1.1-3; Verg.

    Aen. 1.245-252)25 Sobre esta realidade v. Lejeune 1974; Wallace 2004.

    26 O termo designa aqui um larga famlia de lnguas indo-europeias da Pennsula Itli-ca: latim, falisco, sculo, osco-mbrico e no se limita, como prtica em alguns autores,a esta ltima realidade.

    27 Lejeune 1974 21.

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    mais tardiamente em carateres latinos. Estes documentos que ocorrem

    num espao compreendido aproximadamente entre curso do P, rea

    em que a concentrao maior28, e o atual territrio de fronteira entre

    a Itlia e a Eslovnia. Estes vestgios ajudam a delimitar de forma maisprecisa o que poderia constituir o mbito geogrfico desta entidade.

    Sculos

    Os Sculos aparecem em perodo histrico na Siclia oriental, com-

    pondo, segundo as fontes, um quadro variado de populaes que em

    diferentes pocas a se instalaram. Aponta-se-lhes uma origem na Pennsula

    Itlica, esclarecendo Tucdides29

    que a sua movimentao era muito an-tiga e se deveu a uma presso dos picos (Th. 6.2), enquanto Dionsio

    de Halicarnasso (D.H. 1.9) v neles os primeiros habitantes de Roma,

    expulsos por uma aliana entre os aborgenes e os Gregos. A arqueolo-

    gia tem associado o estabelecimento dos Sculos no seu novo territrio

    insular presena de um conjunto de vestgios materiais enquadrveis

    no protovilanovense (achados em Milazzo30), com uma cronologia que

    corresponde aos finais do 2. milnio.As consideraes das fontes clssicas sobre a sua origem parecem

    encontrar apoio na historiografia moderna, em especial em algumas ob-

    servaes de natureza lingustica. De facto, alguns estudiosos atuais, para

    alm de aceitarem como relativamente pacfico que o sculo, falado em

    perodo histrico na Siclia oriental, uma lngua indo-europeia, sustentam

    as suas afinidades com o latim e o falisco31, integrando-a, portanto, no

    grupo itlico. No entanto, so igualmente patentes algumas similitudescom o osco-mbrico. Todavia, o nosso desconhecimento a respeito do

    sculo recomenda uma postura cautelosa.

    28Verifica-se uma especial incidncia junto localidade de Este, onde se desenvolveuma escrita particular (Lejeune 1974, 25-28).

    29Th. 6.2.5. situa-a 300 anos antes do incio da colonizao grega, isto , no sc. XI,uma proposta um pouco mais tardia que a de Elnico de Lesbos, que a coloca antes da

    guerra de Tria.30Bernab Brea; Cavalier1956.31 Devoto 1959, inclui-a no mbito latino, a que pertencem estas ltimas, distanciando-a

    de um outro conjunto que engloba o osco-mbrico e outras realidades afins.

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    Picenos

    Numa faixa no muito larga da costa adritica, ocupando um espao que

    se reparte entre as regies italianas das Marcas e, parcialmente, dos Abruzos,

    numa extenso de aproximadamente 200 km, costuma situar-se uma realidadecultural que se designa como a "civilizao picena". Para designar os habitantes

    desta regio as fontes clssicas alternam entre a forma Picenie Picentes32.

    Segundo a tradio literria33esta entidade corresponderia a sabinos emigra-

    dos (Str. 5.3.1; Plin.Nat.3.110), que, de acordo com o texto pliniano, teriam

    empreendido uma incurso nessa regio na sequncia de um ver sacrum34.

    Os mais antigos vestgios que conferem identidade a este mundo remontam

    ao sc. IX, originalidade que se prolonga at ao momento dos contactos maisestreitos com Roma. Para alm de se conhecerem as necrpoles, foram iden-

    tificados tambm os povoados, ainda que o nosso conhecimento atual destas

    ltimas realidades se encontre mais limitado pela falta de trabalhos arqueolgicos.

    Na rea atribuda a esta entidade atestam-se vestgios de pelo menos duas

    lnguas: na parte setentrional uma, a que se aludiu, considerada geralmente

    no indo-europeia; na parte meridional, uma outra que pertence ao dom-

    nio lingustico osco-mbrico. Ainda que esta ltima se encontre atestadanum nmero escasso de documentos35, a sua integrao no mbito dos

    dialetos sablicos36, do grupo a que se aludiu acima, geralmente aceite.

    Umbros

    A sul dos Picenos, ocupando as reas apennicas centrais da Itlia,

    dominava um conjunto de populaes com amplas afinidades culturais,

    para os quais alguns autores usam o termo Sablicos37. Quando se tra-

    32 Esta forma, mais rara, atesta-se j nos Fast. cos. cap. (268-267 a. C.) e tambm emPlb. 2.21.7; 3.86.8 e Var. RR1.2.7, citando uma afirmao de Cato o Censor.

    33 Para a sua anlise v. Antonelli 2003.34 Festo, nas suas explicaes etimolgicas (Fest. 235 L), especifica que nos seus es-

    tandartes teria pousado um pica-pau, ave do qual retiraram o nome, explicando Estrabo(Str. 5.4.2.) que se trata de uma ave dedicada a Ares.

    35 Para esta documentao v. Marinetti, 1999.36 Para a documentao relativa a este conjunto de realidades v. Rix 2009; Untermann 2002.37 No entanto, este termo tem outras acees distintas, usando-se por vezes para de-

    signar especificamente os Samnitas.

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    ta de individualizar as realidades tnicas mais antigas deste conjunto,

    apresentam-se essencialmente os Umbros, Oscos e Picenos, seguindo uma

    subdiviso baseada na evidncia lingustica.

    Os Umbros, segundo a enciclopdia pliniana um antiqussimo povoda Itlia (Plin. Nat. 3,112), apresentam-se como uma entidade que ocu-

    pa, em perodo proto-histrico, uma boa parte do Apenino Central, bem

    como algumas reas adjacentes, tanto na vertente adritica como na tir-

    rnica. Ao longo do primeiro milnio o seu territrio sofrer oscilaes

    substanciais, devido presso de vrios povos, em especial de Etruscos

    e Gauleses, at sua submisso aos romanos. Uma das principais marcas

    da sua individualidade reside na sua lngua, atestada por um conjuntode documentos, tanto em alfabeto prprio, subsidirio do etrusco, como

    no latino, de entre os quais sobressaem as famosas Tabulae Iguvinae.

    Na realidade, os falares mbricos so bastante diversos, abarcando em

    especial os dialetos falados no sul do Piceno, o sabino, o marso, o volsco

    e o chamado pr-samnita.

    OscosO conjunto de populaes designadas como oscas ocupava um territrio

    que continuava o dos Umbros, correspondendo a uma boa parte do terri-

    trio meridional da Pennsula Itlica. Existe uma substancial divergncia

    no que respeita s relaes entre as mltiplas entidades que integrariam

    este nome de natureza mais genrica. Em parte porque, medida que

    se multiplicam as referncias dos autores clssicos aos povos itlicos, o

    quadro se torna cada vez mais complexo.Os seus vestgios epigrficos entre os quais sobressaem a tbua de

    Bntia e o cipo de Abela foram grafados em diversos alfabetos: etrusco,

    grego e latino.

    No plano lingustico, o panorama define-se, por uma relativa unidade que

    se consagra na existncia de uma lngua osca, dominante no territrio itlico

    meridional no perodo da conquista romana desses territrios. De qualquer

    modo, no seu mbito se definem alguns dialetos que de alguma forma tra-duzem a diversidade desse mundo, especialmente o hrnico, o marrucino, o

    samnita e o peligno (Marinetti 1999; Prosdocimi 1978 825-912).

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    Latinos

    Como se viu, a realidade histrico-cultural coetnea da fundao tra-

    dicional de Roma associa-se, no plano arqueolgico, ao que se designa

    como a "cultura lacial". Nela se integram as diferentes comunidades doantigo Lcio, em particular os territrios de Roma e o dos Montes Albanos,

    no mbito dos quais se situava a cidade de Alba Longa (ligada ocupa-

    o dispersa pelo sudoeste do Lago Albano), cidade que, segundo uma

    tradio recolhida por Dionsio de Halicarnasso e retomada na epopeia

    virgiliana (Verg. Aen.1.267), teria sido fundada por Ascnio /Julo. Por

    outro lado, tambm Lavnio (atual Pratica di Mare, junto costa tirrnica),

    lugar onde teria aportado Eneias, se configuraria como outro dos ncleosimportantes deste passado remoto que associam uma forte tradio mtica

    com os vestgios materiais de um presena humana precoce.

    Para alm das afinidades que se revelam nos restos materiais, a estas

    populaes se ligam igualmente tradies religiosas que se assumem,

    em determinado momento da organizao federal destas comunidades,

    como um patrimnio comum. Talvez o caso mais conhecido seja o san-

    turio de Diana de Arcia, junto ao Lago de Nemi, onde, para alm deum templo mais recente, se atestam vestgios que remontam aos incios

    do I milnio a. C.

    Outro elemento de ligao destas comunidades residia na sua lngua,

    cuja verso romana se veio a difundir com a expanso territorial da Urbe.

    Naturalmente, nenhum dos falares latinos, algo diferenciados entre si,

    se pode comparar com o que conhecemos da lngua de Roma, uma vez

    que das outras realidades dialetais do Lcio, como o prenestino ou olanuvino, pouco nos chegou.

    Faliscos

    Entre as mltiplas entidades da Itlia contemporneas das origens de

    Roma encontra-se uma, de pequena dimenso, mas cuja individualida-

    de se encontra bem documentada, no apenas por aspetos de natureza

    arqueolgica e histrica, mas tambm pela sua lngua. Os Faliscos eramvizinhos da Urbe, uma vez que a sua cidade mais importante, Falrios

    (atual Civit Castellana), distava dela cerca de 70 km. O seu territrio, na

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    margem direita do Tibre, confrontava igualmente, em perodo histrico,

    com os Etruscos, em particular com Veios, e com os Sabinos.

    Conhecem-se cerca de uma centena de inscries, num alfabeto

    similar ao latino arcaico, que transcrevem a lngua local, muito fragmen-tariamente atestada38. O falisco constitui uma realidade cuja posio no

    quadro lingustico da Itlia antiga no deu lugar a muitas controvrsias,

    assumindo-se como relativamente pacfico que se trata de uma realidade

    com grandes afinidades com as lnguas das populaes latinas39. Alguns

    autores sublinham, todavia, algumas peculiaridades que a aproximam do

    osco-mbrico40, com o redobro do perfeito, o que natural num quadro

    evolutivo prprio em que alguns traos conservadores se podem manter.Alguns autores identificaram ainda algumas influncias, especialmente na

    grafia e na fontica, devidas ao contacto com o mundo etrusco41.

    Este quadro, muito simplificado, resume um panorama cultural e lin-

    gustico muito complexo e em relao ao qual, com frequncia, escasseiam

    os dados. Compreendem-se, deste modo, as incertezas sobre muitos dos

    aspetos tratados e a diversidade das interpretaes que historiadores e

    linguistas patenteiam.

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    38V. Giacomelli 1978 e, mais recentemente, Bakkum 2009.39 Campanile, no entanto, sublinhou o seu carter conservador e ps em evidncia algu-

    mas afinidades com os grupos germnico e cltico (Campanile1968 55-58), apontando parauma eventual autonomia em relao ao conjunto dos falares latinos (Campanile 1969 92).

    40 Giacomelli 1978 522-523. Solta 1974 45-47 vai mais longe, considerando-a mesmo

    uma lngua osco-mbrica.41 Nem todas, contudo, so pacficas. Giacomelli 1978 considera a perda da distino

    f/h um dos exemplos desta influncia, mas outros preferem pensar que se trata de um traodistintivo prprio, no influenciado por uma realidade exgena.

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    2 . AS O R I G E N S D A U R B E E

    O P E R O D O D A M O N A R Q U I A

    Delfim Leo& Jos Lus BrandoUniversidade de Coimbra

    Centro de Estudos Clssicos e Humansticos

    Sumrio: A tradio lendria sobre as origens de Roma. A crtica da

    tradio literria e o confronto com os dados da arqueologia.

    A Monarquia romana: os sete reis da tradio e os principaisfeitos a eles atribudos. Caratersticas da Monarquia romana

    e sua evoluo. Instituies sociais e polticas que tiveram

    origem na poca monrquica.

    1. As origens de Roma

    1.1. Breve sntese da tradio literria

    A tradio literria antiga (plasmada sobretudo em Tito Lvio, Dionsio

    de Halicarnasso e Plutarco) liga a histria de Roma destruio de Tria.

    Eneias com o filho Ascnio (ou Iulo) desembarca no Lcio, junto foz do

    Tibre. Aqui, desposa a filha de Latino, rei local, e funda a cidade de Lavnio.Ascnio funda mais tarde a cidade de Alba Longa, nos Montes Albanos, e

    depois lhe sucedero doze reis. D-se uma crise dinstica, quando Amlio

    DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0954-6_2

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    usurpa o trono a seu irmo Numitor e transforma a filha deste (Reia Slvia)

    em vestal. esta a base da histria depois trabalhada de formas vrias

    pelos autores, dando origem a uma infinidade de pequenas variantes1.

    A principal tradio apresentava Rmulo e Remo como filhos de ReiaSlvia, que era por sua vez filha do rei Numitor, o legtimo herdeiro do

    trono albano, deposto pelo irmo Amlio. Amlio obrigou a sobrinha a

    fazer-se Vestal, de forma a evitar a eventual reivindicao do trono por

    algum descendente de Numitor. Como as servidoras de Vesta tinham de

    permanecer virgens, o nascimento dos gmeos encontrava-se, de certa

    forma, envolto em polmica e infrao, o que teria facilitado a deciso

    de Amlio de mandar lanar as crianas ao Tibre. Da piedade ou receioda pessoa encarregada de cumprir a sentena resultou que os dois irmos

    foram colocados numa cesta que, ao ser arrastada rio abaixo pela corrente,

    acabaria depositada no banco de areia de uma das margens. Uma vez a,

    os gmeos foram amamentados por uma loba, at que uns pastores os

    recolheram e criaram. Rmulo e Remo cresceram nesse meio, desconhe-

    cendo a sua verdadeira identidade, embora as suas naturais qualidades

    de liderana os projetassem como chefes dos companheiros, que se en-volviam em frequentes escaramuas e bravatas com outros pegureiros,

    piratas e ladres que atuassem na regio. Ao tomarem conhecimento da

    sua real ascendncia, os gmeos atacaram Alba Longa e repuseram no

    trono o av, Numitor, embora optassem por no permanecer na cidade,

    cujo governo lhes caberia mais tarde por direito. Em vez disso, decidiram

    fundar uma colnia de Alba Longa, no local onde haviam sido salvos.

    A nova urbe acabaria por chamar-se Roma, designao que derivaria deRmulo, depois de ele ter assassinado o irmo numa querela ftil, por

    alturas da delimitao das muralhas da cidade. Roma conheceu um cres-

    cimento rpido, devido sobretudo grande capacidade de integrao e

    1 Sobrevive mesmo um texto de um livro dedicado integralmente a esse problema (Ori-go gentis Romanae), tradicionalmente atribudo ao historiador Aurlio Victor, que se terbaseado num trabalho antiqurio do tempo de Augusto, o qual recolhia j contributos dossculos anteriores. Cf. Cornell 1995 57-58; Rodrigues 2005 59-138. Vide ainda Leo 200897-99, de onde retirada boa parte desta sntese geral, conjugada em particular com asabordagens de Grimal 1993 e de Cornell 1995.

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    acolhimento de outras pessoas, mesmo de elementos marginais e poten-

    cialmente perigosos (pobres, devedores, fugitivos, escravos), que, sendo

    na maioria homens, tero sido forados a raptar as Sabinas para garantir

    descendncia, o que desencadeou uma guerra com os Sabinos e a pos-terior fuso das duas comunidades, com Rmulo e Tito Tcio cabea.

    Aps a morte de Tito Tcio (com suspeitas ligadas a Rmulo), este ltimo

    governou por muitos anos, com sucesso tanto na paz como na guerra.

    Roma continuou a aumentar em poder e importncia demogrfica, numa

    expanso rpida, justificada essencialmente por dois fatores: por um lado,

    a poderosa fora blica, que ora atraa e forava a celebrao de alianas

    com os vizinhos ora permitia infligir pesadas derrotas aos inimigos; poroutro, a enorme capacidade para absorver elementos externos, fossem

    imigrantes, confederados ou mesmo as partes vencidas em conflito.

    1.2. Variantes e peculiaridades da tradio

    Os antigos viam em Rmulo o fundador de Roma, numa data que situavamem meados do sc. VIII a.C., se bem que tambm eles se apercebessem de

    algumas das dificuldades cronolgicas criadas por esta forma de organizar

    o passado, em especial no que se referia articulao com os relatos da

    viagem de Eneias at ao Lcio. Uma vez que, tradicionalmente, a guerra

    de Tria era colocada volta do sc. XII a.C., Eneias teria fundado Lavnio

    pouco depois desse evento e, por conseguinte, os gmeos no poderiam

    estar ligados a esse heri por um lao de parentesco prximo, na medidaem que, entre as duas geraes, mediavam cerca de quatrocentos anos.

    Ora esse espao vai ser preenchido pela dinastia dos reis albanos, iniciada

    por Ascnio, filho de Eneias, ao fundar Alba Longa2.

    Apesar da concordncia genrica sobre as origens de Roma, as fontes

    comportam inmeras disputas e variantes no respeitante a questes de

    pormenor. A controvrsia comeava logo pela paternidade dos gmeos.

    2Vide Leo 2008 11. Outras verses chegavam mesmo a ligar a origem de Roma apersonagens como Hrcules e Evandro; para mais pormenores, vide Cornell 1995 68-69.

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    A maioria das fontes identificava o pai das crianas com o deus Marte,

    soluo que reunia evidentes vantagens: enobrecia as origens de Roma,

    ao misturar elementos humanos e divinos, alm de que ter Marte como

    pai era um cenrio muito conveniente a um povo que se afirmara pelacapacidade blica ou marcial. Por outro lado, esta soluo ilibava Reia

    Slvia da acusao de no ter observado voluntariamente a castidade.

    Ainda assim, havia outros candidatos paternidade, como um espectro

    sado da terra (hiptese que salvaguardava a ideia de interveno divi-

    na) ou simplesmente o prprio Amlio, que se disfarara de Marte para

    violentar a sobrinha. Objeto de especulao era ainda a identificao da

    loba que amamentara os gmeos. De facto, os antigos j sublinhavama ambiguidade do termo latino lupa, pois tanto pode significar loba

    como prostituta3, de modo que a racionalizao do mito implicava, em

    ltima anlise, estabelecer a diferena entre uma leitura enobrecedora ou,

    muito pelo contrrio, aviltante4. Mas os Romanos gostavam de chamar-se

    filhos da loba e conviviam bem com a ambiguidade dessa designao.

    Idntica discusso motivava o contexto em que ocorrera a morte de

    Remo, oscilando os juzos entre a recriminao aberta de Rmulo (quevinha enganando o irmo j desde a consulta do voo das aves, a propsito

    da deciso sobre o nome e localizao da futura cidade) ou as tentativas

    de desculpabilizao, assumindo que tinha sido um companheiro de ar-

    mas (Clere) e no Rmulo a desferir o golpe mortal.

    Rmulo enfrentava a mesma ambivalncia interpretativa relativamente

    s circunstncias que levaram ao assassinato do sabino Tito Tcio ou

    sua prpria morte. No primeiro caso, era, no mnimo, acusado de algumaincria na maneira como procurara fazer justia ao assassnio do colega

    de governo, chegando inclusive a enfrentar a suspeita de ele mesmo ter

    organizado o golpe, a fim de ficar sozinho frente de Roma. Quanto

    ao desaparecimento do corpo de Rmulo, no termo de uma progressiva

    cedncia aos vcios da tirania, havia duas verses: a racional, que dizia

    que ele fora assassinado e esquartejado numa conjura do senado, tendo

    3 Repare-se no significado do termo portugus lupanar: casa de prostituio, bordel.4Ambiguidade espelhada em Plu. Rom. 4.4-5.

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    cada senador levado uma parte do seu corpo; e a pia, que propunha um

    arrebatamento por interveno divina. Por outras palavras, oscilava-se

    entre o homicdio politicamente motivado e a apoteose do heri fundador.

    1.3. Breve anlise crtica das lendas fundacionais

    A ligao guerra de Tria. A anlise destes relatos patenteia a fuso

    de elementos itlicos com outros de origem grega. Com efeito, a lenda de

    Eneias tem uma origem grega, com razes picas: na Ilada, Eneias uma

    figura proeminente, embora menor: foi o nico dos troianos ilustres a es-capar guerra. Um passo famoso naIlada(20.307-308) vaticina que ele

    iria um dia governar os Troianos5, mas como no havia nenhuma dinastia

    de Eneias a governar a Trade na poca histrica, os Gregos comearam

    a especular que Eneias pudesse ter estabelecido o seu reinado noutro

    stio, tradio desde cedo bem firmada em espao helnico6. A lenda de

    Eneias parece portanto fruto da complexa histria das relaes polticas

    e culturais entre Roma e os Gregos7.A tradio sustenta que as cidades do Lcio eram todas colnias de

    Alba Longa e que Roma seria a ltima delas, mas a arqueologia no

    confirma esses factos. Com efeito, o pressuposto de que Lavnio e Alba

    eram cidades muito mais antigas do que Roma tem origem provvel na

    necessidade de preencher o intervalo entre Eneias (e a Guerra de Tria,

    em c. 1200 a.C.) e Rmulo (no sc. VIII a.C.). Mas, como salienta Cornell

    5 Ponto reforado no Hino Homrico a Afrodite, 5.195-199.6 Nomes sugestivos de lugares, imaginao potica e amplificao antiquria tero feito

    o resto. J no sc. VI a.C., havia moedas cunhadas na Macednia com Eneias a carregarAnquises das runas de Tria. A datao desta conexo entre Roma e a Hlade contro-versa, mas a maioria dos estudiosos pensa que a lenda j estava bem estabelecida na Itliacentral desde muito cedo, talvez no sc. VI a.C. ou mesmo antes, at porque a influnciagrega era muito grande nessa altura, conforme mostra a arqueologia. Cf. Cornell 1995 63--68; Forsythe 2005 93-94.

    7 Conforme salienta Cornell 1995 65, as vantagens polticas desta lenda manifestaram-sepela primeira vez em 263 a.C., durante a guerra contra Cartago, altura em que a cidadesiciliana de Segesta se aliou a Roma por causa da sua ascendncia troiana comum, sendoparticularmente teis quando Roma comeou a interferir nos assuntos da sia Menor.

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    (1995 71-72), mais provvel que a ideia da proeminncia de Alba e

    de Lavnio resulte da sua importncia como centros religiosos (no Mons

    Albanus havia um festival em honra de Jpiter Laciar e, em Lavnio,

    celebrava-se o culto de Eneias e dos Penates), proeminncia essa que atradio transformou em hegemonia poltica sobre o Lcio.

    No que respeita sua validade, as tradies sobre a fundao de

    Roma desde Eneias a Rmulo no podem ser consideradas uma narrativa

    histrica. Como heri pico, Eneias est em posio um tanto mais con-

    fortvel, mas o seu peso histrico no ser maior do que o dos outros

    heris homricos e a sua relao direta com a migrao para ocidente no

    pode ser estabelecida em termos minimamente seguros. Mas, como dizo prprio Tito Lvio no incio da sua obra Desde a fundao da cidade

    (Praef. 6-7), se os factos anteriores ao fundao da Urbe, ou atinentes

    fundao, so no processo de transmisso ilustrados mais por fbulas

    poticas do que por documentos histricos incorruptos, no est nos

    meus desgnios nem confirm-los, nem refut-los. Esta a concesso que

    se faz antiguidade, para atravs da mistura do humano com o divino

    tornar mais venerandas as origens das cidades.Os filhos da loba. A lenda de Rmulo de clara origem latina, sem

    que se possa estabelecer a data exata da sua formao8. H razes para

    crer que era j corrente na poca arcaica, como o prova uma estatueta

    em bronze da loba, que provavelmente do sc. VI a.C.9. Em 269 a.C.

    aparece mesmo em cunhagens, pelo que no poderia derivar de uma

    eventual propaganda hostil a Roma, de introduo recente. Vrias so as

    explicaes para o seu aparecimento: religiosas, tnicas, polticas, sociaise lingusticas10. O nome Romulussugere um epnimo formado a partir

    8 No chamado espelho de Bolsena (sc. IV a.C.), onde surge a mais antiga figurao dosgmeos, o grande ausente Eneias, pelo que se deduz que o artefacto reproduz o estratomtico indgena. Vide Carandini 2009 32-33.

    9 Essa esttua encontra-se, agora, no Palazzo dei Conservatori. De resto, o mais tardarc. de 300 a.C., a histria dos gmeos j se havia tornado na verso -padro em Roma.

    10 Pode significar o culto totmico do lobo (prprio de civilizaes pastoris); temasmitolgicos greco-etruscos (cerva de Tlefo e a loba de Bolnia); dualidade tnica (Romanose Sabinos) ou poltica (patrcios e plebeus), atravs de duas etimologias (grega RhomoselatinaRomulus) para o epnimo do fundador da cidade. Tudo enquadrado numa cenografialocal: gruta do Palatino (Lupercal) e figueira (Ruminal). O nome da figueira derivava do

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    do nome da cidade, que significa apenas romano (como Siculussignifica

    siciliano), pelo que pode no ter existido nenhum heri com esse nome.

    tambm claro que a histria possui elementos populares, que so eco-

    ados em mitos e lendas de muitas outras sociedades do mundo antigo,sublinhando o nascimento e crescimento de pessoas que ho de marcar

    o futuro de cidades e civilizaes (como reis, fundadores ou heris11).

    Tambm so falantes os nomes do pastor que recolheu os gmeos

    Fustulo (que traz consigo um vaticnio favorvel, uma vez que deriva

    de fauereser favorvel) , e o de Larncia, que os criou (como assinala

    Grimal 1993 18). Por detrs deles adivinham-se associaes a divindades:

    Fustulo evoca o deus pastoril Fauno, e Larncia faz lembrar os Lares,alvos da devoo privada e pblica. Mas, acrescente-se, parece significativo

    que tenha sido tambm associada ao culto dos mortos, os Larentalia(a

    23 dezembro), celebrao funerria a que se juntavam lendas de fecun-

    didade. Apesar de lendrio, o enquadramento desta informao acaba

    sendo, portanto, confluente com os dados da arqueologia. A cabana

    de Fustulo, segundo a tradio, erguia-se no Palatino com o seu telha-

    do de colmo e paredes de adobe, e, no final da Repblica, os Romanosainda a podiam contemplar12.

    Fundao e desenvolvimento da cidade. Ccero (Rep.2.3.5) fala sobre

    a localizao da nova cidade lanada por Rmulo (sem pr em causa a

    sua existncia histrica), salientando a habilidade ttica do fundador, ao

    evitar expor a nova cidade aos perigos que mais facilmente poderiam

    chegar por mar. Em boa verdade, como oportunamente salienta Grimal

    (1993 12-14), Ccero descurou o facto de que a Roma primitiva era in-salubre e pantanosa (como mostram as cabanas assentes em estacas de

    facto de ficar junto do santurio de Rumina, uma divindade protetora das aleitantes. Deresto, como o alfabeto etrusco no tinha a vogal o, o nome de Roma era escrito naquelalngua como Ruma, o que em latim significava teta.

    11 Exemplos bem conhecidos so Ciro da Prsia, on ancestral dos Inios, os prncipestroianos Pris e Eneias, os heris gregos Perseu e dipo, o caso de Egisto (assassino de

    Agammnon) ou de Cpselo tirano de Corinto. De resto, o prprio conto da natividadecrist partilha, em termos latos, muitos destes motivos do conto popular. Mais pormenoresem Cornell 1995 61-63; Forsythe 2005 95.

    12Vide Rodrigues 2005 151-154; Forsythe 2005 84.

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    madeira), carecendo inclusive de gua potvel, facto que obrigaria a

    cavar poos e a fazer cisternas. As razes para a escolha do local devem

    ter sido estratgicas: tratava-se da ponta ocidental de um vasto planalto,

    que entroncava, para leste, nos Montes Albanos. Os colonos elegeram,assim, um lugar forte nas colinas, favorecido pela proteo conjunta de

    pntanos e do rio Tibre.Era tambm um lugar propcio do ponto de vista

    comercial: situava-se, com efeito, no cruzamento de vias entre a Etrria

    e o Lcio (e na travessia para a Campnia) e entre as salinas da foz do

    Tibre e a rota para os Apeninos, a que mais tarde se chamar Via Salaria.

    Os achados arqueolgicos atuais fornecem um quadro do desenvol-

    vimento das primitivas comunidades latinas, desde pequenas aldeias apovoados maiores, durante a Idade do Ferro. A arqueologia e a tradio

    literria combinam-se para sugerir que o Palatino foi o ncleo inicial do

    povoado, j que os restos de aldeias foram postos ali a descoberto, bem

    como a necrpole do Foro, remontando a meados do sc. VIII a.C. Nesta

    perspetiva, parece confirmar-se a formao da cidade como expanso

    de um ncleo primitivo, se bem que o conhecimento da arqueologia de

    Roma no permita tirar concluses seguras. Encontraram-se no Palatinoresqucios de cabanas da cultura lacial (meados do sc. VIII, embora se

    saiba que esta no foi a primeira ocupao do local, habitado desde 1000

    a.C.). Mas tambm h dados que apontam para a fuso de vrios ncleos

    iniciais: certos costumes e cerimnias religiosas arcaicos13datam desse

    perodo, guardando a memria de um momento em que o lugar de Roma

    era ocupado por pequenas aldeias que se reagruparam.

    A lenda do rapto das Sabinas constitui um indcio de que a populaooriginria de Roma era uma mistura de elementos das duas etnias. Com

    efeito, segundo a lenda, o embate entre as duas comunidades termina com

    13 Um festival referido pelos antiqurios antigos como Septimontium, que envolvia setereas da cidade, pode estar na origem da ideia de Roma como cidade das sete colinas. Estefestival ocorria a 11 de dezembro, no encerramento do ano agrcola. Esta organizao parececorresponder fase proto-urbana de Roma: segundo Carandini 2009 22-26, remontar aoperodo entre 850 e 750 a.C. Alm disso, o colgio sacerdotal dos Slios estava divididoem dois subgrupos, os Salii Palatinie os Salii Collini, que representavam respetivamenteos montes Palatino e Quirinal. Levavam a cabo cerimnias no final do ano civil e comeodo novo (em maro). Vide Forsythe 2006 80-82; 85.

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    a fuso de Romanos e Sabinos, sob o governo de Rmulo e Tito Tcio.

    Essa ideia est, de resto, presente em toda a tradio romana sobre a

    Monarquia: dos primeiros quatro reis, dois eram latinos (Rmulo e Tulo

    Hostlio) e dois sabinos (Numa Pomplio e Anco Mrcio) ou trs, secontarmos tambm Tito Tcio. A arqueologia, a lingustica e a dialetologia

    no do propriamente base de sustentao histrica para a lenda das

    Sabinas, mas tambm no negam cabalmente a presena do elemento

    sabino na Roma monrquica14, tanto mais que a presena de Sabinos

    na Repblica foi um facto, e vrias famlias reclamavam essa origem, a

    comear pela dos Cludios15. Portanto, nada parece impedir que este

    fluxo da tradio possa ecoar um dado histrico e culturalmente antigo.

    1.4. Concluses sobre as lendas da fundao

    No geral, as narrativas da fundao de Roma (de Eneias a Rmulo) no

    podem ser consideradas histricas: representam uma complexa mistura

    de lendas, contos populares e reflexo erudita, sendo, no entanto, impor-tantes para o estudo da historiografia romana e para o desenvolvimento

    da conscincia identitria dos Romanos. Coloca-se, por conseguinte, a ques-

    to de saber se as lendas fundacionais foram recolhendo, ao longo do seu

    processo de formao, o essencial da Romanitasou se constituiro antes,

    pelo contrrio, uma projeo no passado da forma como os Romanos se

    viam a si mesmos e gostavam de ser vistos pelos outros. A resposta resi-

    dir, possivelmente, a meio caminho entre ambas as hipteses formuladas.Em todo o caso, isso no altera mas antes refora a dimenso para-

    digmtica e simblica da tradio. Estas lendas mostram, primeiro, que a

    identidade do povo romano provm da mistura de vrios grupos tnicos;

    depois, que a cultura romana produto de vrias influncias estrangeiras

    (enquanto as lendas gregas insistiam na pureza e continuidade das suas

    14 Que pode estar na origem de uma monarquia dualista ou ser a retroprojeo da ideiada colegialidade das magistraturas republicanas. Vide Grimal 1993 20-21; Cornell 1995 75--77; Rocha Pereira 2009 25.

    15 Cf. Plu. Publ.21. 4-10; Suet. Tib. 1.

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    tradies). A noo romntica de um assentamento de pastores levando

    uma vida virtuosa em simples cabanas convinha ideologia augustana,

    mas j no sc. II a.C. os analistas acentuavam o contraste entre esta Roma

    primitiva e a decadncia do presente, dando assim voz a um toposgrato historiografia latina. Esta funo moralizadora est desde o incio presente

    em Lvio (Praef. 10) quando afirma que, no estudo da histria, se pode

    encontrar egrgios exemplos a imitar e atos vergonhosos a evitar.

    A data tradicional para a fundao da cidade, que os historiadores

    e antiqurios de finais da Repblica colocavam em meados do sc. VIII

    a.C., no deve ser levada muito a srio. Tudo sugere que foi calculada

    de forma artificial16

    . A arqueologia mostra claramente que o lugar foipermanentemente ocupado sculos antes de 754 a.C. Em contrapartida,

    s relativamente tarde que ocorreram mudanas na organizao e es-

    trutura da comunidade, do tipo que pode ser ligado ao processo crucial

    de urbanizao e formao de um estado. Estes desenvolvimentos, que

    podem legitimamente ser definidos como uma fundao de uma cidade-

    -estado, no so geralmente recuados para alm de meados do sc. VII,

    portanto mais de cem anos depois da chamada datao tradicional17.Na formao da urbe concorrem dois processos aparentemente con-

    traditrios: enquanto a notcia do festival designado por Septimontium

    sugere um sinecismo de vrias aldeias, a tradio literria aponta para

    a expanso de um ncleo original do Palatino. Mas a coexistncia da-

    queles dois modelos plausvel. De forma semelhante, a ideia de uma

    evoluo gradual pode conjugar-se com a de uma fundao, mediante

    uma reorganizao e planeamento de uma cidade-estado, em finais dosculo VII, operada pelas elites locais, talvez devido influncia fencia

    e grega no Mediterrneo ocidental18.

    *

    16 Sobre as dificuldades em harmonizar a cronologia tradicional relativa fundao dacidade com os dados da arqueologia, vide infra. 2.3.

    17Vide Forsythe 2005 86. Opinio diferente em Carandini 2009 25-26.18Vide Forsythe 2005 91-93.

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    2. Perodo da Monarquia19

    No se coloca atualmente em dvida a existncia de uma Monarquia

    em Roma, mas grande parte da nossa informao sobre esse perodo lendria. Tradicionalmente, apontavam-se sete reis, alguns dos quais

    tm muito boas probabilidades de serem histricos. Nomes como Numa

    Pomplio e Tulo Hostlio so verosmeis, dada a sua relativa raridade,

    e no simples invenes, como o de Rmulo, se bem que os dados so-

    bre os seus reinos sejam um misto de lenda e reconstituio antiquria

    consciente. bastante claro que os primeiros reis so personalidades

    parcialmente ou completamente mticas. Paradoxalmente, algumas dasaes que lhes so atribudas podem ser mais facilmente atestadas que

    os seus putativos autores, como acontece com instituies atribudas a

    Rmulo, o que equivale a dizer que a informao relativa a instituies

    e estruturas mais fivel do que a relativa a pessoas e eventos.

    Afigura-se provvel que Rmulo no tenha sequer existido e que o seu

    nome seja um epnimo da designao da cidade: uma forma de adjetivo

    e significa apenas romano. J antes se viu que a sua histria uma mis-tura complexa de lenda e contos populares, permeados de especulao

    antiquria e propaganda poltica. Os principais elementos da sua histria

    so (depois da fundao da cidade e da guerra com os Sabinos) as cam-

    panhas vitoriosas contra Cenina, Fidenas e Veios, bem como a criao das

    instituies primitivas do estado romano. Com efeito, a tradio atribui a

    Rmulo a diviso da cidade em trs tribos e trinta crias (unidades criadas

    para fins administrativos e polticos), bem como a fundao do senado,constitudo por cem patres.

    Numa Pomplio e Tulo Hostlio so pouco mais que esteretipos con-

    trastantes, um pacfico e devoto, o outro aguerrido e feroz20. Ao primeiro,

    a tradio atribua a criao das principais instituies religiosas do

    19 Para uma viso crtica mais ampla sobre o perodo da Monarquia, particularmente til

    Cornell 1995 119-150, cuja anlise norteou o essencial das posies assumidas nesta seco.20As atribuies feitas a cada um parecem ter a ver com ideias sugeridas (ou espelha-

    das) pelos prprios nomes: Numa relacionado com numenpoder divino e Hostiliuscomhostisinimigo. Vide Forsythe 2005 97.

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    estado, incluindo o calendrio (reformado com o intuito de tentar fazer

    coincidir tanto quanto possvel os ciclos solares com os lunares, pela

    introduo de meses intercalares) e os sacerdcios (vestais, pontfices,

    ugures, flmines, slios).Quanto atividade de Tulo Hostlio, destaca-se a guerra contra Alba

    Longa, que deu o enquadramento para a lenda de Horcio, uma das mais

    famosas histrias dos Romanos21. A guerra em si, que levou conquista

    de Alba Longa e do seu territrio, histrica, no sentido em que a regio

    dos Montes Albanos se tornou parte do territrio romano em dada altura

    da realeza e esse feito poderia, tanto quanto se sabe, ter sido obtido por

    um rei chamado Tulo Hostlio. A ele fica ligada a Cria Hostlia (mastrata-se de uma construo do sculo VI).

    Anco Mrcio, o quarto rei, aparece como uma combinao dos ante-

    riores. Anco tinha origem sabina e era neto de Numa (pelo lado da me).

    A tradio atribua-lhe a primeira ponte sobre o Tibre (Pons Sublicius), o

    alargamento do territrio romano at costa e a fundao do porto de

    stia, junto foz do rio. Os historiadores antigos revelaram alguma difi-

    culdade em preencher o seu reinado com feitos. Os romanos de temposmais tardios lembravam-no como um rei popular e filantropo22.

    A Lcio Tarqunio Prisco era atr ibuda uma origem parcialmente

    etrusca e foi bem sucedido na guerra, nas inovaes constitucionais e na

    beneficncia pblica: construo do Circo Mximo e dos esgotos, incio

    do templo de Jpiter, aumento das dimenses do senado e da cavalaria,

    instituio de jogos e divertimentos pblicos. As suas vitrias militares

    foram conseguidas sobre Sabinos, Latinos e Etruscos.Srvio Tlio o sexto rei e o mais complexo e enigmtico de todos.

    As diferentes verses sobre a sua origem (servil, principesca ou por

    conceo divina), sobre a forma como obteve o trono e sobre a natureza

    21 Horcio era o vitorioso sobrevivente da batalha entre Horcios e Curicios, dois gruposde trs pessoas que combateram como campees de Roma e Alba Longa, respetivamente.

    No seu triunfante regresso a casa, foi ao seu encontro a irm, que havia desposado umdos Curicios e, ao chorar a morte do esposo, foi morta por Horcio, num ato de raiva.Vide Cornell 1995 119-121.

    22 nio (Ann.137 Sk.) e Lucrcio (3.1025) apelidam-no de bonus Ancus.

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    das grandes medidas que institucionalizou so igualmente problemti-

    cas. Com efeito, h uma dupla tradio relativa sua origem: romana e

    etrusca. No h dvida, porm, de que as medidas que lhe so atribudas

    (reorganizao do corpo de cidados, construo de templos, edifciospblicos e fortificaes, bem como importantes iniciativas em assuntos

    internacionais) assentam numa firme base histrica e, em alguns casos,

    podem ser confirmadas por informao independente: a diviso em qua-

    tro tribos, segundo a regio da cidade; a diviso em centrias (assente

    sobre a riqueza), que prevaleceu at ao final da Repblica e at depois;

    a criao do census. Outro aspeto que, ao contrrio dos antecessores,

    no obteve o trono de forma regular, mas apoiou-se no poder popular,tornando-se no propriamente num rei, mas antes numa espcie de ma-

    gistrado proto-republicano.

    Tarqunio o Soberbo, ltimo rei de Roma, apresentado pura e sim-

    plesmente como um tirano. Filho de Tarqunio Prisco, atingiu o trono

    fora, depois de matar o seu sogro, Srvio Tlio. Era cruel e caprichoso,

    mas tambm vistoso e bem sucedido. Sob o seu governo, Roma tornou-se

    no poder dominante na Itlia central e essa prosperidade refletiu-se nodesenvolvimento monumental da cidade. O corolrio do seu reinado foi

    a construo do templo de Jpiter Capitolino, um dos edifcios maiores

    e mais impressionantes do mundo mediterrnico da altura. Assim que o

    templo ficou construdo, Tarqunio foi expulso da cidade por um grupo de

    aristocratas, que instituram a Repblica, em substituio do seu governo.

    2.1. Caratersticas e evoluo da Monarquia romana

    Sobre a lista dos reis, h de certa forma duas posies extremas que

    podem ser tomadas: ou se parte do princpio de que o produto forjado

    de nomes relevantes ligados s vrias colinas da cidade (assumindo neste

    caso que Roma resultado de um processo de sinecismo), ou se admite a

    ideia da tradio antiga de que se tratava efetivamente de uma monarquiano hereditria, hiptese que tem precedentes em sociedade arcaicas (de

    tipo homrico) em que o lder era o mais capaz de proteger a sociedade.

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    De resto, a nica exceo parcial seria a de Tarqunio Soberbo, que era

    filho de Tarqunio Prisco, mas esta exceo prova a regra, pois ele atingiu

    a realeza de forma ilegal, ao usurpar um trono do qual ficaria arredado

    em circunstncias normais. Ou ento trata-se da evoluo para uma mo-narquia hereditria na passagem da fase de uma aldeia para a de uma

    cidade-estado23.

    A interpretao generalizada, baseada na tradio literria, de que a

    Monarquia romana se baseava numa espcie de sistema eletivo, que estaria

    na origem da instituio do interregnumda poca republicana24. Depois

    da morte do rei, o poder voltava para o senado (res ad patres rediit), que

    estabelecia comisses para ocuparem o governo como interreges (reisinterinos). O processo prolongava-se por um ano, depois do qual se pro-

    cedia reunio dos comitia curiata, nos quais o candidato proposto era

    votado pelo povo (atravs de uma lex curiata) e sancionado pelo senado

    (pela auctoritas patrum). Desta forma, os membros, ospatres, no seriam

    elegveis: faziam a escolha fora do seu crculo, medida que constitua uma

    forma de prevenir conflitos25. Tem sido aventada a suspeita de que tal

    procedimento fosse uma retrospeo dos historiadores a partir de umaprtica republicana estabelecida posteriormente. Mas o nome (interregnum)

    sugere que o processo se baseia num procedimento do tempo dos reis,

    mesmo que na altura fosse diferente. Apesar de a questo continuar em

    aberto, subsiste, pois, a ideia de que o poder era conferido ao rei atravs

    de um processo de nomeao e ratificao26.

    23 Na lenda dos antecessores de Rmulo, a dinastia hereditria existente em Alba Longaseria uma elaborao da antiquria. A realidade da Monarquia romana (e talvez de outrascidades itlicas) seria diferente. O princpio mantinha-se mesmo que o rei morto tivesse filhos,como aconteceu com Tarqunio Prisco, que sucedeu a Anco Mrcio, apesar de este possuirdois filhos adultos. Numa tambm tinha filhos. Vide Cornell 1995 141; Forsythe 2005 98.

    24 O procedimento continuou a aplicar-se em tempos da Repblica, no caso de mortede ambos os cnsules ou ento quando o ano terminava sem que tivesse havido a eleiode novos cnsules.

    25 Os patresteriam sempre de ratificar a deciso tomada pelo povo: a chamada aucto-ritas patrum, at 399 a.C., era necessria antes que qualquer decreto popular se tornasse

    legalmente vinculativo. Os patresteriam assim um papel fundamental no processo, visveltanto no controlo do interregnum como no uso da auctoritas patrum. Cf. Scullard 198544-45; Cornell 1995 143; Southern 2011 27.

    26Vide Forsythe 2005 110.

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    De qualquer modo, havia conexes entre os reis e os seus sucessores.

    Por exemplo, ao possvel sucessor era atribudo um cargo de importncia no

    governo em curso: Tarqunio Prisco era o brao direito do seu antecessor,

    Anco Mrcio, e ser sucedido pelo seu prprio favorito, Srvio Tlio. Essaligao aparece tambm reforada por laos de matrimnio: Srvio Tlio

    era genro de Tarqunio Prisco e Tarqunio Soberbo era genro de Srvio

    Tlio. H, de resto, um elemento do conto popular nestas histrias: o mo-

    tivo do estranho que casa com a esposa do rei e, assim, obtm o trono.

    As mulheres parecem, pois, desempenhar um papel de relevo na aclamao,

    como o caso de Tanaquil, esposa de Tarqunio Prisco, que patrocinou a

    aclamao de Srvio Tlio, e de Tlia, que incentivou o marido, Tarqunioo Soberbo, na usurpao do poder e assassnio de Srvio Tlio27.

    Alguns reis eram estrangeiros (ou pelo menos de fora da terra): eram-

    -no literalmente no caso de Numa, que era Sabino, e de Tarqunio Prisco,

    que tinha ancestrais gregos e etruscos. Alguns dos reis no possuam

    sangue patrcio: particularmente Numa e Tarqunio Prisco, que eram

    imigrantes, e Srvio Tlio, sobre o qual um dos poucos aspetos em que

    as fontes concordam que ele no era de nascimento patrcio28. A tradi-o latina sobre Srvio Tlio, que o apresenta como um escravo que se

    tornou rei, poderia ter sido de algum modo decalcada a partir do relato

    do rex nemorensis, isto o rei do Bosque de Diana em Arcia. Tratava-

    -se de um procedimento arcaico, existente at ao Imprio, em que um

    escravo fugitivo podia encontrar proteo naquele santurio, assumindo

    o reinado local depois de matar o antecessor. Ora a tradio refere a

    ascenso do escravo Srvio Tlio na sequncia do assassinato do ante-cessor e relaciona-o com a construo do templo de Diana no Aventino,

    santurio rival do de Arcia29.

    27 Um exemplo clssico disso mesmo a histria de Eneias, que casou com Lavnia, filhado rei Latino e, com a morte deste, veio a tornar-se rei dos Latinos. Ainda assim, isto nosignifica que a sucesso em Roma passasse pela linha feminina, se bem que seja inegvel

    que as mulheres assumem com frequncia um papel importante. Cf. Cornell 1995 142.28 O status posterior das gentes dos Hostilii e dos Marciimostra tambm que no

    eram patrcios.29 Forsythe 2005 106.

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    possvel que usurpadores tivessem tomado Roma por curtos perodos

    no final da Monarquia e princpio da Repblica. Eram bem conhecidas

    da tradio etrusca e romana as aventuras guerreiras dos irmos Aulo

    e Clio Vibena, a julgar pelas representaes em que eles apareciam.A mais signif icativa uma pintura de um tmulo de Vulcos30: de um

    lado, uma representao inspirada na Ilada, relativa ao sacrifcio dos

    prisioneiros troianos, parece servir de chave de leitura; do outro, uma

    srie de guerreiros surpreende um grupo de inimigos, mata-os e li-

    berta um prisioneiro. Todos esto identificados e entre eles se contam

    os dois irmos. Clio Vibena (Caile Vipinas) libertado por Mastarna

    (Macstrna); e entre as vtimas figura, direita, um Cneve TarchuniesRumach, identificado como Gneu Tarqunio de Roma (Fig. 1). A presena

    deste nome sugere uma conexo com a histria de Roma no tempo dos

    Tarqunios. No se pode dizer com certeza que se trata de Tarqunio o

    Antigo: alm de o nome deste ser tradicionalmente Lcio31, a nomen-

    clatura itlica recorre frequentemente a adjetivos criados a partir de

    topnimos, pelo que no indicam mais do que a origem (como o caso

    do prprio Tarqunio, oriundo de Tarquinium). O imperador Cludio,que era um polgrafo e um perito em etruscologia, num discurso32,

    com o qual procurava justificar a entrada de cidados da Glia no

    senado romano, fala da histria do acolhimento de aristocratas estran-

    geiros na Roma arcaica, para destacar a verso sobre a origem de Srvio

    Tlio. Se a conhecida tradio romana o dava como filho de Ocrsia,

    uma prisioneira de guerra, Cludio acrescenta uma novidade: as fontes

    etruscas apresentavam-no como Mastarna, um fiel companheiro de umsenhor da guerra, Clio Vibena, que, depois da desgraa deste, veio

    para Roma com o resto das foras do seu antigo amigo, se instalou no

    Clio e mudou o nome para Srvio Tlio.

    30 Franois Tomb.31 Se bem que Luciusprovm, segundo Lvio, do etrusco Lucumo, que significa rei.32 CILXIII.1668. O discurso de Lugduno, descoberto numa placa de bronze em 1528.

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    Fig. 1. Esboo do fresco do tmulo de Vulcos. Por Fbio Mordomo

    Os eruditos interpretam o nome Mastarna (Macstrna) como composto

    de magister, seguido do sufixo etrusco -na, pelo que significaria co-

    mandante, denominao que ocorre nas funes de magister equitum

    (comandante de cavalaria) ou magister populi (comandante de infan-

    taria e equivalente de ditador), de que se falar no captulo seguinte33.

    Contudo, Cludio talvez se tenha precipitado na identificao, por estar

    demasiado preso ideia de que os reis de Roma foram apenas sete.

    As dificuldades em identificar o servo de Tarqunio o Antigo com o fiel

    companheiro de Clio Vibena (a no ser que se identifique este com

    Tarqunio, o que negado pelo referido fresco tumular) e os percursos

    paralelos, sugerem que se tratar de outra pessoa, o que pressupe a

    existncia neste perodo de mais governantes em Roma do que a tradio

    analstica regista, e ainda que aristocratas lutavam pelo poder frente

    de exrcitos privados. Se Cludio diz que Mastarna ocupou o Clio com

    a parte restante do exrcito de Clio Vibena, outra tradio relaciona oirmo deste, Aulo Vibena, com o Capitlio34.

    Em suma, as fontes parecem indicar que o rei era uma pessoa de fora,

    por vezes mesmo um estrangeiro, e em qualquer dos casos exterior

    aristocracia patrcia; que a sua eleio era um processo complexo (envol-

    vendo o rei anterior, o senado, o povo e a consulta dos deuses). Em todo

    33 Cornell (1995 233-235) no descarta a hiptese de Srvio Tlio ser uma espcie demagistrado pr-republicano um magister populique poderia estar na origem da ditadura.

    34Vide Scullard 1985 31; Cornell 1995 130-150; Forsythe 2005 102-105; Kovaliov 200755-56.

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    o caso, no perodo final da monarquia, estas regras tero sido subvertidas

    e o poder ter cado na mo de usurpadores e tiranos. Em consequncia,

    senhores da guerra dominariam a Itlia Central desde meados do sc. VI

    at finais do V.

    2.2. A cronologia tradicional e os dados da arqueologia

    A durao da realeza constitui tambm uma discrepncia, pois a tradio

    estende-a por cerca de dois sculos e meio, recuando desde a queda de

    Tarqunio at fundao da cidade em 754/3 a.C. Sobre esta data, fornecidapor Varro, cai a suspeita de ser uma reconstituio artificial tardia35. No

    entanto, j vimos que a arqueologia sugere que a fundao da cidade-estado

    tenha ocorrido apenas na parte final do sc. VII. Para Cornell (1995 121

    ss) h duas formas de resolver o problema: reduzir o perodo de realeza,

    aceitando que, ao todo, os monarcas tero reinado c. 120 anos em vez dos

    240 da tradio; ou ento assumir que houve um maior nmero de reis36.

    Talvez haja, alis, boas razes para fazer ambas as coisas: no s a lista dosreis deve estar incompleta, como a melhor forma de resolver a discrepncia

    entre a tradio e os dados arqueolgicos colocar todos os desenvolvi-

    mentos histricos do perodo real (incluindo os prprios reis, se forem

    autnticos) no arco cronolgico compreendido entre c. 625 e c. 500 a.C.

    A discusso da cronologia dos Tarqunios pode ajudar a clarificar esta

    questo. cronologicamente impossvel que Tarqunio o Soberbo seja filho

    de Tarqunio Prisco, como a tradio sustenta. Dionsio de Halicarnassointerrompe propositadamente a narrativa e empenha dois captulos a expor

    o que ele designa por absurdos da tradio37. A tradio orientalizante

    35 De facto, multiplicando 7 geraes de reis por 35 anos e somando-lhe a dataodo incio da Repblica, obtm-se a data fornecida por Varro: 509 + (7 x 35) = 754. Almdisso, descortina-se uma certa simetria no